A praça Tahrir registou hoje a sua maior manifestação desde o início dos protestos contra Mubarak. De um espaço de contestação, a praça transformou-se num local de celebração. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

A praça Tahrir encheu hoje para aquela que foi a maior manifestação anti-Mubarak desde o início dos protestos, a 25 de janeiro. Desde a manhã, longas filas de pessoas estendiam-se pelas ruas circundantes à praça e pela Qasr al-Nil, a ponte sobre o rio Nilo mais próxima da praça. Projetava-se uma jornada de luta memorável.
A entrada na praça foi mais demorada do que o habitual e, pela primeira vez, os jornalistas — a quem habitualmente os manifestantes concediam prioridade no acesso à praça — tiveram dificuldade em entrar, bloqueados na massa humana que avançava compacta.
Ultrapassados os controlos de segurança — do exército e dos manifestantes —, um ambiente de grande festa aguardava quem chegava, como que se a praça (um local de contestação) se tivesse transformado num espaço de celebração. A circulação fazia-se com dificuldade, mas os manifestantes não perdiam o sorriso. A praça transpirava confiança.
Muitas mulheres na praça
Comparativamente aos dias anteriores, era flagrante a presença de muitas mais mulheres. Os voluntários cantavam enquanto ofereciam comidas e bebidas. A meio da tarde, um cortejo de cerca de 30 homens entrava na praça carregando à cabeça pacotes de cobertores embalados em plástico, destinados a dar conforto a quem optasse por passar lá a noite.
A rotunda central — anteriormente, um espaço verde — estava transformada num campo de campismo, com coberturas de plástico a darem algum conforto a quem por lá dormitava.

Os manifestantes deixavam-se ficar junto a pequenos palcos improvisados onde, ora se repetiam slogans anti-Mubarak, ora surgiam pequenos momentos musicais. Um jovem carregava nos braços uma resma de folhas A3.
As pessoas aproximavam-se e outro jovem ia escrevendo nas folhas as palavras de ordem que as pessoas pediam. Uma longa bandeira do Egito, carregada por dezenas de pessoas percorria a praça.
Abdallah, de 31 anos, explica que as terças, as sextas e os domingos serão os dias do “protesto do milhão”, para que Mubarak não esqueça que a principal exigência da multidão continua por cumprir — a sua retirada do poder.
Desconfiados de Mubarak
Apesar do Presidente ter dito que não se recandidataria, os manifestantes não confiam nas suas promessas. “Na semana passada, Mubarak discursou na televisão e, a dada altura, afirmou que queria morrer e ser enterrado no Egito. As pessoas ficaram muito emocionadas, eu inclusive. Mas depois, no dia seguinte, ele manda homens montados em cavalos e em camelos , pela praça dentro, para bater nas pessoas. Como é que ele quer que as pessoas acreditem nele?”
Abdallah é médico. Tem uma clínica no Cairo. Na semana passada, não trabalhou e, esta semana, trabalha dia sim, dia não. “Nos dias em que não trabalho, venho para a praça. Temos uma missão a cumprir.”
Ultrapassados os dias mais complicados, a praça parece ter recuperado energia. Os manifestantes sabem que a demissão de Mubarak pode ser demorada. Até lá, não arredam pé.
Com o cair da noite, a praça ficava tomada pelo “efeito pirilampo” provocado pelos telemóveis levantados, sempre a filmar e a fotografar. Às cavalitas dos pais, muitas crianças gritam palavras de ordem que a multidão em redor, divertida pelo desembaraço dos miúdos, repete.
“As crianças são a nossa segurança”, comenta Hisham, um jornalista que, por estes dias, tem-se recusado a trabalhar em protesto contra a linha editorial da sua rádio, que não cobre as manifestações na praça. “É muito bom vê-las por aqui. Significa que estão a captar a mensagem.”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui