Para o historiador Ilan Pappé, que vem a Lisboa esta semana, a criação de Israel assenta na limpeza étnica dos palestinianos

Israel está em contagem decrescente para o seu 70º aniversário a 14 de maio, com a promessa de um presente desejado — a instalação da embaixada dos EUA em Jerusalém — que constitui uma grande provocação aos palestinianos. “Israel é uma história de sucesso em termos de criação de uma nova cultura, de uma economia vibrante, de uma nação altamente tecnológica e da união de imigrantes judeus de tantas partes do mundo. Mas esse sucesso foi construído sobre a ruína do povo palestiniano”, defende o historiador israelita Ilan Pappé, em entrevista ao Expresso. “Todo o projeto sionista consistiu na substituição dos palestinianos, que eram a população nativa, por imigrantes e colonos. Israel foi um projeto catastrófico para os palestinianos, e ainda o é em muitos aspetos.”
Professor na Universidade inglesa de Exeter, Ilan Pappé participará, esta semana, na conferência “Beyond Planetary Apartheid” (Além do Apartheid Planetário), no ISCTE, Lisboa. “Há três tipos de apartheid em Israel”, adianta. “Dentro das fronteiras de 1967 [o território israelita reconhecido internacionalmente], há um regime que discrimina os cidadãos palestinianos”, cerca de 20% da população total de Israel. “A maior parte da terra pertence à Agência Judaica, que não está autorizada a vender terra a ‘não judeus’; há locais onde os palestinianos não estão autorizados a viver; há subsídios, ajudas governamentais e financiamento público que dependem de ‘bom comportamento’, ou seja, se as pessoas negarem a sua identidade palestiniana”, por exemplo.
“Israel é uma história de sucesso, construída sobre a ruína do povo palestiniano”
Um segundo nível de apartheid acontece no território palestiniano da Cisjordânia, onde vivem 2,8 milhões de palestinianos e 400 mil colonos judeus. “Há uma segregação total, com ruas, reservas naturais, recursos hídricos só para judeus.” A ‘guetização’ da Faixa de Gaza, o outro território palestiniano, é um terceiro tipo de apartheid. Ali vigora um bloqueio por terra, mar e ar imposto por Israel e Egito.
Esta realidade faz de Ilan Pappé — nascido em 1954, em Haifa — defensor de um Estado único, binacional. “A solução de dois Estados poderia nunca acabar com o problema principal que é a natureza colonial do projeto sionista. É preciso descolonizar toda a Palestina histórica”, ou seja, os territórios palestinianos e Israel. “Com dois Estados, não há forma de se concretizar o direito de regresso dos palestinianos”, a reivindicação da Grande Marcha em curso em Gaza, pois a população árabe de Israel cresceria exponencialmente.
Ilan Pappé notabilizou-se em 2006, com o livro “A Limpeza Étnica da Palestina”, onde analisa o processo de independência de Israel (1948), a expulsão de milhares de palestinianos das terras onde viviam e a criação de uma realidade colonial que o novo Estado tentou alcançar “limpando etnicamente metade da população da Palestina, destruindo as suas cidades e demolindo metade das suas aldeias”. Esse processo continuou até à Guerra dos Seis Dias (1967) com “a imposição de medidas militares aos palestinianos de Israel” e depois aos da Cisjordânia e de Gaza.
Para conter Telavive, Pappé considera “muito útil” o movimento internacional que visa isolar Israel através de ações de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). “Envia uma mensagem dolorosa de que há um preço decorrente daquilo que Israel faz aos palestinianos.” E considera imperioso um maior envolvimento dos europeus. “Até agora, a Europa nada fez. Paga pela ocupação [é o maior doador dos palestinianos] e reage à impunidade de Israel dando-lhe imunidade. Reconhecer um Estado palestiniano seria um passo na direção certa.”
Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 5 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui
