Intifada no Cairo

Fações pró e anti Mubarak confrontaram-se esta tarde no centro do Cairo, perante a passividade do exército egípcio. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Cedo se adivinhou que ia haver problemas. Por volta do meio-dia, grupos compactos de pessoas empunhando fotografias do Presidente, bandeiras do Egito e gritando “Mubarak sim!” começaram a dirigir-se à praça Tahrir, que, nos últimos dias, tem funcionado como o quartel-general do movimento de contestação a Hosni Mubarak.

A reunião com os opositores ao Presidente foi rápida. Mesmo ao lado do Museu Egípcio, as duas facções encontraram-se face-a-face e, separadas por escassos metros, começaram a arremessar pedras ininterruptamente.

À retaguarda, no campo dos opositores a Mubarak, não tardou a organizar-se o apoio à linha da frente. Havia pessoas a fragmentarem grandes pedras em pedaços mais pequenos e outras a transportá-las até aos que estavam na frente. Num canteiro, improvisou-se um hospital de campanha. Os feridos não tardaram a aparecer, pelo próprio pé, a cambalear, apoiados no ombro de outro ou levados em braços.

Cabeças rachadas, olhos feridos, lábios rasgados, tudo era tratado com água, algodão e mercuriocromo JORGE SIMÃO

“Mubarak, estás feliz?”

Cabeças rachadas, olhos feridos, lábios rasgados, tudo era tratado com água, algodão e mercuriocromo. “Mubarak, estás feliz agora?”, gritava um ferido.

Nas bermas, as pessoas procuravam todo o tipo de superfície em ferro — tapumes das obras, barreiras ao trânsito ou as bases dos candeeiros públicos — para baterem nelas com pedras compassadamente, provocando uma sensação semelhante ao rufar do tambor antes da guerra. “É uma mensagem para Mubarak. Só saímos daqui quando ele se for embora”, explicava um jovem.

“Eles podem gostar de Mubarak e também têm o direito de se manifestar. Mas porque é que vieram ao nosso encontro? Porque não escolheram outro sítio?”, questionava-se um jovem. “Mubarak quer o caos!” Num momento particularmente dramático, homens montados em cavalos e camelos, vindos do lado pró-Mubarak, irromperam pela multidão quase chegando à praça Tahrir.

“Não tenho provas do que lhe vou dizer, mas aqueles homens têm falsa identidade. São os prisioneiros libertados por Mubarak, contratados para causar agitação”, dizia um jovem. Ao lado, outro acenava: “Sou licenciado em Física. Sei manifestar-me de forma civilizada, não preciso de atirar pedras. Mubarak está a tentar que nos matemos uns aos outros. Foi ele que mandou para aqui estes terroristas.”

Mubarak, o amado

À margem dos confrontos, algumas gruas começam a remover as carcaças de carros da polícia queimados pelos manifestantes anti-Mubarak, que ali estavam desde a semana passada. Um jovem com lágrimas nos olhos diz: “Tantas pessoas morreram por nada. Vê o que está ali a acontecer? Estão a limpar as ruas para que amanhã tudo volte à normalidade, como que se nada se tivesse passado”.

Entre os manifestantes pró-Mubarak, muitos diziam “amar” o “rais”. Outros pareciam apenas ansiosos pelo regresso do país à normalidade. “A economia está em baixo. Protestar sim, mas não deitem o país abaixo. Quem assume a responsabilidade por tudo isto?”, questionava um apoiante do Presidente. “Eles têm direito a manifestar-se, mas Mubarak já disse que se vai embora. Vamos seguir com a vida agora”, dizia outro.

Um homem vestido com fato e gravata e um pin da Universidade do Cairo na lapela dizia: “Todos os egípcios que têm formação gostam de Mubarak. E não gostam dos grupos islâmicos. Com Mubarak, o país desenvolveu muito.” Outro acrescentava: “É impossível agradar a 85 milhões de egípcios. Mas antes disto que se está a passar, pelo menos o Egito era seguro”.

Tudo acontecia perante a passividade dos militares JORGE SIMÃO

Jornalistas como espiões

Tudo acontecia perante a passividade dos militares cujos tanques, à semelhança dos dias anteriores, continuavam estacionados nas ruas adjacentes à praça. Hoje, com uma nuance: em vez de estacionados na horizontal, fazendo com que o acesso à praça Tahrir fosse feito a conta gotas, hoje, estavam paralelos à rua, ajudando à fluidez da multidão. “Está a ver como estão os tanques? Porque não estão atravessados como nos outros dias?”, apontava um jovem.

Ao nono dia de manifestações no Cairo, os jornalistas tornaram-se subitamente alvo de desconfiança, dos dois lados. “O que estão aqui a fazer? Limitem-se a relatar os factos”, insinuava um manifestante pró-Mubarak à passagem da reportagem do Expresso. “Espiões”, gritava outro.

Entre os opositores a Mubarak, o acolhimento que caracterizou os dias anteriores — dadas as dificuldades de comunicações, os jornalistas eram muito procurados pelos manifestantes na esperança de transmitirem a sua mensagem para o exterior — começou a abrir algumas brechas.

Um jovem tentou roubar o bloco de notas da reportagem do Expresso e dois outros tentaram impedir o fotógrafo do Expresso de aceder à linha da frente dos confrontos. Subitamente, cada repórter começou a ser olhado por alguns manifestantes como agentes ao serviço de Mubarak.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”

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