Joana é uma “bellydancer” portuguesa que vive no Cairo há quatro anos. Com a agenda preenchida, espera que a turbulência passe para voltar a brilhar nos palcos egípcios. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Joana é uma apaixonada por aquilo que faz. Mas com o Cairo transformado num campo de batalha, esta “bellydancer” lisboeta de 30 anos – a viver na capital egípcia há quatro anos – viu-se confinada ao seu apartamento na ilha Zamalek, sem poder cumprir a sua agenda artística. “Tenho espetáculos marcados praticamente todas as noites. Mas está tudo fechado. É muito frustrante.”
Joana decidiu-se a ir para o Cairo movida por dois objetivos: escrever um livro sobre dança oriental, com base na sua própria vivência em solo egípcio, e procurar melhores condições para desenvolver a sua arte.
“O trabalho que estou a fazer aqui, jamais, em 1000 anos, poderia desenvolver em qualquer outro país do mundo. Tenho uma equipa de músicos dos melhores do Egito a trabalharem para mim. Com muito esforço e luta, tenho construído o meu nome” – Joana Saahirah, assim batizada pelo seu primeiro professor.
Desde que começou a trabalhar no Cairo – como bailarina, coreógrafa e professora de dança e folclore egípcios -, recebeu convites para trabalhar no mundo inteiro. “O Egito foi o palco que me projetou para o mundo. Em Buenos Aires, dei ‘workshops’ para mais de 1000 alunos.”

A polícia das bailarinas
Diz que os egípcios são tolerantes face a outras religiões, mas, “por exemplo, muitas vezes, vou a uma loja levantar material que encomendei para os meus espetáculos e a pessoa que está encarregue disso está a rezar”. A religião primeiro, o trabalho depois.
Quando chegou ao Cairo, vigorava uma lei que proibia as bailarinas estrangeiras de fazerem, profissionalmente, dança oriental e folclore egípcio. Felizmente para ela, a lei foi revogada. “Tive de assinar documentação em que me comprometia a não usar roupas que fossem contra a religião muçulmana. Como é que é possível?”
A polícia tem um departamento especial que fiscaliza o que as bailarinas vestem — Joana chama-lhe “a Polícia das Bailarinas”. “Nunca aconteceu comigo, mas sei de muitas bailarinas que foram levadas. Não é nada agradável. São tratadas como prostitutas. E depois são levadas para a esquadra exatamente como estão, com roupa de dança.”
Criar pontes entre Lisboa e o Cairo
Por força da sua vivência no Egito e das suas deslocações pelo Médio Oriente, Joana tem uma percepção das motivações que leva os povos — como o egípcio — a questionarem os respetivos regimes: “Existe uma abertura àquilo que eles consideram que é a qualidade de vida do ocidente. Nós sabemos que nem sempre essa imagem corresponde à realidade, mas eles não”, diz.
“Assim como nós sentimos um fascínio e um interesse pelo Médio Oriente, neste região — sobretudo após o advento da Internet, que veio abrir janelas —, começou a haver uma vontade de usufruir da qualidade de vida que eles projetam no ocidente. Há um desejo de liberdade de expressão e de esperança no futuro que é básico no ser humano.”
Joana Saahirah é já um nome reconhecido no Egito. A Portugal, já só vai de vez em quando, para ver a família. “Aqui, tenho os holofotes virados para mim. Quando saio do Egito é para atuar para milhares de pessoas, com condições que não existem em Portugal. Seria fantástico que, através do meu trabalho, eu pudesse criar uma ponte entre o Egito e Portugal.”
Com o Egito num impasse, os planos de Joana estão, por agora, hipotecados. À espera de dias melhores, a “bellydancer” viajou até Portugal. Em Lisboa, não consegue desligar de tudo o que se passa no Cairo: “Sofre-se mais à distância…”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui