Cerca de 6,3 milhões de israelitas escolhem, esta terça-feira, o próximo Parlamento e, por arrasto, o novo governo. Para Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro cessante, ganhar ou perder pode ser a diferença entre fazer História ou ficar vulnerável à Justiça. Para a minoria árabe de Israel poderá ser o pior resultado de décadas
“Deixem a água e vão votar. Amanhã, vão acordar com Yair Lapid como primeiro-ministro de um governo de esquerda. Deixem a praia, saiam de vossas casas, vão votar Likud.” Este apelo, que mais soa a desespero, saiu da boca do atual primeiro-ministro de Israel, esta terça-feira, durante uma caminhada junto à praia Poleg, na cidade costeira de Netanya.
Eram cerca de quatro da tarde (mais duas horas do que em Portugal Continental) e Benjamin Netanyahu não resistiu a acabar com a tranquilidade de alguns banhistas que — convocados para participar nas eleições legislativas desta terça-feira — se tinham deixado levar pelo espírito do feriado (decretado por ser dia de eleições) e desligaram da política.
Yair Lapid, a “ameaça” a que se referiu Netanyahu, é um dos rostos da recém formada aliança centrista Kahol Lavan (Azul e Branco, como a bandeira de Israel), liderada também por um ex-chefe de Estado-Maior, Benjamin (“Benny”) Gantz, que está taco a taco com o Likud na liderança das sondagens.
Ali junto ao Mediterrâneo, com todas as letras, Netanyahu tentava angariar apoios de última hora que o levem a um quarto mandato consecutivo. Se isso acontecer, ele poderá entrar para a História. A 17 de julho próximo, cumprirá 13 anos e 128 dias (não consecutivos) no cargo de primeiro-ministro, ultrapassando por um dia o histórico David Ben-Gurion, fundador do Estado.
Inversamente, uma eventual derrota será muito amarga de digerir. Para além de abandonar o cargo, Netanyahu ficará mais vulnerável face aos vários processos que correm na justiça contra si. A polícia israelita já concluiu haver provas suficientes para o acusar, e à mulher, de corrupção, encaminhando o caso para o Ministério Público.
Netanyahu é um homem nervoso e esta terça-feira deu vários sinais disso, nomeadamente quando não discordou de uma ação ilegal do Likud realizada em assembleias de voto de localidades de maioria árabe. Cerca de 1200 observadores afetos ao seu partido foram apanhados com câmaras ocultas no corpo. Uma das coligações árabes que estão a votos, o Hadash-Ta’al, apresentou queixa e a Comissão Eleitoral ordenou o confisco dos equipamentos.
Koby Matza, advogado do partido, tentou justificar o injustificável, dizendo que as câmaras “estavam escondidas, mas eram visíveis” e que “foram colocadas nas comunidades onde há um significativo receio de fraude”, disse. “As câmaras visavam assegurar uma votação justa.”
“Não nos vamos render à intimidação e às tentativas de nos tirar legitimidade”, reagiu a outra coligação árabe, Balad-Ra’am. “Vamos sentar-nos no próximo Knesset e representar os nossos eleitores mesmo que o Likud e a direita não nos queiram lá. A nossa legitimidade vem do nosso eleitorado e não de Netanyahu.”
Cerca de 20% da população israelita é de cultura árabe, mas a perda sucessiva de direitos — acentuada durante a governação de Netanyahu — tem tornado a convivência com a maioria de judeus cada vez mais tensa. Horas antes do incidente com as câmaras, perto de Nazaré (norte de Israel), cidade de maioria árabe, vários cartazes do Hadash-Ta’al foram grafitados com palavras em hebraico: “Morte aos árabes.”
Cerca das duas e meia da tarde, soaram alarmes entre a maior das minorias israelitas: a afluência às urnas dos árabes não ia além dos 15%. Apesar de não ser permitida a divulgação de sondagens à boca das urnas, alguns analistas começavam a deixar escapar algumas leituras com a fraca taxa de participação árabe à cabeça. “A afluência na comunidade árabe é algo nunca visto antes”, dizia um deles citado pelo “The Times of Israel”.
Nas eleições de 2015, os quatro partidos árabes foram capazes de esboçar uma unidade e apresentaram-se coligados na Lista Unida — conseguindo eleger 13 deputados. Quatro anos depois, deixaram que as diferenças falassem mais alto e apresentaram-se divididos em dois blocos: o Hadash-Ta’al e o Balad-Ra’am.
A meio da tarde, os alarmes continuavam a soar: “A baixa afluência nas cidades árabes é uma ameaça real às duas listas”, escrevia no Twitter Ahmad Tibi, o líder do Ta’al. “Um golpe muito sério na representação árabe no Knesset.”
(FOTO Boletins de voto dos partidos israelitas que participaram nas eleições de 9 de abril de 2019 LALIV G/WIKIMEDIA COMMONS)
Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui