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Noite infeliz em Belém

As festividades foram canceladas na cidade onde Jesus nasceu. “Não podemos celebrar quando o nosso povo está a ser morto”

O presépio da Igreja Evangélica Luterana da Natividade de Belém lembra as crianças mortas em Gaza MAJA HITI / GETTY IMAGES

O little town of Bethlehem
How still we see thee lie
Above thy deep and dreamless sleep
The silent stars go by

Ó pequena cidade de Belém
Tão quieta te encontramos
Sobre o teu sono profundo e sem sonho
Passam as estrelas silenciosas

Este clássico das canções de Natal, que anima a época há mais de 100 anos, descreve uma localidade idílica que em tudo contrasta com a realidade presente da cidade onde, segundo a tradição cristã, Jesus Cristo nasceu. Belém fica no território palestiniano da Cisjordânia, ocupado por Israel há mais de 50 anos. Devido à guerra na Faixa de Gaza, as festividades foram canceladas. “Não foi difícil tomarmos a decisão”, diz ao Expresso o presidente da Câmara de Belém, Hanna Hanania. “Não podemos celebrar o Natal enquanto o nosso povo está a ser morto. E também a Cisjordânia está sob bloqueio militar.”

Não é a primeira vez que a conflitualidade afeta as celebrações natalícias em Belém, “mas não desta maneira”, diz o autarca. “Esta é a situação mais difícil por que o povo palestiniano já passou. Durante a pandemia, ainda tivemos algumas festividades virtuais e acendemos a árvore de Natal [na Praça da Manjedoura, contígua à Igreja da Natividade], numa cerimónia para um número limitado de pessoas. Desta vez, cancelámos tudo. Nunca enfrentámos uma guerra destas, testemunhamos crimes de guerra todos os dias, a maioria dos mortos são crianças. Como podemos festejar?”

Em Belém, apenas se mantêm as cerimónias religiosas dos vários ritos cristãos — a 25 de dezembro (para os católicos), 7 de janeiro (ortodoxos) e 19 do mesmo mês (arménios). Na Igreja Evangélica Luterana da Natividade de Belém, o presépio é um amontoado de pedras sobre o qual está deitado um menino Jesus envolto num keffiyeh, o tradicional lenço palestiniano. A instalação recorda as crianças de Gaza que ficaram sem teto ou pereceram sob escombros.

“O Natal é, por excelência, uma história palestiniana, muito ligada ao que se passa hoje em Gaza”, diz ao Expresso o reverendo evangélico luterano Mitri Raheb, a partir de Belém. “Essa história fala da sagrada família, que tem de deixar Nazaré, no norte da Palestina, por decreto imperial, para ir para Belém, no sul — como aconteceu com o nosso povo em Gaza. Fala de Herodes, um ocupante sanguinário que tentou matar todas as crianças de Belém — em Gaza já foram mortas mais de 8000 crianças. Jesus nasce numa manjedoura porque não tem outro lugar — é o que está a acontecer a 50 mil mulheres grávidas em Gaza, que têm os seus filhos em tendas. E fala sobre o anjo que canta ‘glória a Deus nas alturas’, que significa glória ao Todo-Poderoso — e não aos poderosos. Hoje, Jesus é, na verdade, uma das pessoas em Gaza. Se alguém quiser vê-lo, é lá que ele está.”

Belém é visita indispensável para qualquer cristão que rume à Terra Santa no encalço dos passos de Jesus. É ali que se localiza a Igreja da Natividade, construída no século IV sobre a gruta onde os cristãos acreditam que José e Maria descansaram e Jesus nasceu. Outros destinos obrigatórios são Nazaré (no norte de Israel) e Jerusalém, que palestinianos e israelitas querem para capital dos seus Estados.

Ao longo do ano, Belém recebe entre milhão e meio e dois milhões de visitantes. “No Natal, o turismo internacional cai, porque as pessoas celebram com as suas famílias. Já o turismo local aumenta”, explica o autarca. “Na Páscoa, a maioria dos turistas é do mundo árabe, desde logo do Egito”, onde há dez milhões de cristãos (coptas).

“O Natal é, por excelência, uma história palestiniana, ligada ao que se passa em Gaza”, diz o reverendo evangélico luterano Mitri Raheb

Por estes dias, “não há um turista na cidade, estamos encerrados”, diz ao Expresso Joey Canavati, diretor do Alexander Hotel, a 800 metros da Igreja da Natividade. “Não podemos reabrir enquanto durar a guerra. As fronteiras e os checkpoints estão encerrados. Todos os 78 hotéis da cidade estão de portas fechadas.”

Um dos mais famosos é o provocador Walled Off Hotel, do misterioso artista britânico Banksy, com vistas sobre o muro de betão que separa Israel da Cisjordânia. “Devido aos grandes desenvolvimentos na região, optámos, com pesar, por encerrar o hotel, por enquanto”, lê-se num aviso publicado no seu site, a 12 de outubro, cinco dias após o ataque do Hamas a Israel, que espoletou bombardeamentos e uma invasão terrestre a Gaza.

Cristãos já não são a maioria

“A economia de Belém depende do sector do turismo”, diz o autarca. “Mal começou a agressão israelita, o motor económico parou.” Hanania estima que a população da cidade ronde as 33 mil pessoas. Apesar da centralidade de Belém no cristianismo, os cristãos não vão além de 20 a 25% da população. “O número de cristãos está a diminuir”, diz Mitri Raheb. “A cada dois, três anos, há uma guerra. As pessoas querem ter vida decente e em liberdade. Muitas emigram.”

Por decreto do líder histórico dos palestinianos, Yasser Arafat — a que o atual Presidente, Mahmud Abbas, deu continuidade —, o autarca de Belém é sempre cristão. No cargo desde abril de 2022, Hanania, cristão ortodoxo grego de 44 anos, explica o processo. Eleito por voto popular, “o Conselho Municipal tem 15 membros, que incluem presidente e vice-presidente. Oito devem ser cristãos e sete muçulmanos, e deve haver três mulheres. Se o presidente é ortodoxo grego, o vice é católico, e vice-versa. Este decreto surgiu para preservar o caráter da cidade. Além de Belém, isto acontece em mais nove cidades da Cisjordânia.” Uma delas é Ramallah, o centro administrativo.

Jerusalém à distância

Como qualquer outro palestiniano da Cisjordânia ou da Faixa de Gaza, o presidente da Câmara de Belém precisa de autorização das autoridades israelitas para ir a Jerusalém, por exemplo. Essa burocracia vale também para o reverendo Raheb, destacado teólogo de 61 anos, fundador e presidente da Universidade Dar al-Kalima (Belém) e vencedor do Prémio Olof Palme em 2015. “Desde 2000, não estou autorizado a ir a Jerusalém no meu carro, só posso ir de transportes públicos.” Todas as autorizações estão agora canceladas.

Quer o autarca quer o pastor testemunham uma boa relação, em Belém, entre a minoria cristã e a maioria muçulmana. “Somos o mesmo povo. Estamos unidos e lutamos contra a ocupação israelita”, diz Hanania. “Na nossa universidade, três quartos dos estudantes são muçulmanos”, destaca Raheb. Já a relação com os judeus é inexistente. “Temos o muro e não podemos entrar em Israel sem autorização”, continua o reverendo. E “há 22 colonatos judeus em redor de Belém que ocupam 86% das nossas terras”. No de Gilo vivem 40 mil pessoas.

Os entraves à circulação e a expansão dos colonatos inviabilizam, cada vez mais, a contiguidade entre Belém e Jerusalém, que distam menos de 10 quilómetros. A dificuldade de acederem à cidade onde fica o Santo Sepulcro priva os cristãos de viverem na plenitude os principais pilares da sua fé: o nascimento e a ressurreição de Cristo.

Nascido em Belém, de onde só saiu para estudar na Alemanha, o pastor Raheb qualifica assim a tragédia de Gaza: “é o pior momento da nossa história e da minha vida. Vivemos um genocídio, a comunidade internacional apoia e muitas igrejas estão em silêncio”. “Alguns cristãos sionistas apoiam Israel porque querem ver chegar o fim dos tempos. Acham que antes de Jesus voltar, haverá uma grande guerra e querem apressar essa segunda vinda. As igrejas alemãs ficam caladas devido ao Holocausto.”

Informação deste texto foi incluída no artigo “De Gaza à Ucrânia, passando por Itália: presépios de todo o mundo desunidos em tempos de guerra”, de Tiago Soares, publicado no “Expresso Online”, a 24 de dezembro de 2023. Pode ser lido aqui

Artigo publicado no “Expresso”, a 22 de dezembro de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Vladimir Putin deu um passo rumo à reabilitação internacional indo ao Médio Oriente

O Presidente da Rússia fez uma visita-relâmpago aos Emirados Árabes Unidos e à Arábia Saudita com três objetivos em carteira: mostrar que viaja sem receio da justiça internacional, pedir cortes na produção de petróleo para robustecer a economia russa e argumentar que pode ser um mediador no Médio Oriente. “Se a Rússia conseguir entrar na mediação em Gaza, poderá dizer que só não consegue resolver o outro conflito porque a Ucrânia não quer negociar”, analisa um professor de Relações Internacionais

Desde a invasão russa da Ucrânia, Vladimir Putin só por duas vezes se tinha aventurado a colocar o pé fora de países que fizeram parte da União Soviética. A 19 de julho de 2022, o Presidente russo deslocou-se a Teerão, onde foi recebido pelo Líder Supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei. Os dois países partilhavam a circunstância de serem alvo de um isolamento decretado por países ocidentais e de serem os Estados mais castigados com sanções, em todo o mundo.

Mais recentemente, a 17 e 18 de outubro, Putin viajou até à China, para um encontro com o “querido amigo” Xi Jinping — com quem já se encontrou pessoalmente cerca de 40 vezes desde 2013, ano da subida ao poder do chinês. O último encontro entre ambos em solo chinês acontecera em fevereiro de 2022, no contexto dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim, a menos de três semanas da invasão russa da Ucrânia. Então, os dois afirmaram “uma relação sem limites”.

A visita de Vladimir Putin, esta semana, aos Emirados Árabes Unidos e à Arábia Saudita — a primeira ao Médio Oriente durante a guerra na Ucrânia — é um passo mais ambicioso no seu processo de reabilitação internacional.

“O objetivo maior desta visita é normalizar a diplomacia do Kremlin”, explica ao Expresso Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. “O Presidente volta a fazer visitas, quando quer e para onde quer, volta a ter agenda pública e mostra que o mandado de captura do Tribunal Penal Internacional [TPI] tem alcance limitado.”

Putin tem a justiça internacional à perna por causa da guerra na Ucrânia e da transferência ilegal de crianças ucranianas para território russo. Nenhum dos quatro países que visitou fora do antigo espaço soviético ratificou o Tratado de Roma, fundador do TPI, pelo que não correu riscos de ver o mandado de captura internacional ser executado, como receou que pudesse acontecer na África do Sul, em agosto passado. Nessa altura, abdicou de marcar presença na cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e falou por videoconferência.

Tiago André Lopes identifica também uma dimensão de caráter económico na viagem de Putin ao Médio Oriente. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são países produtores de petróleo, sendo o primeiro o maior exportador mundial. Dentro da OPEP+ (que inclui os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados, sendo a Rússia um deles), vários países já sinalizaram a vontade de cortar na produção de petróleo em 2024.

“Isto é obviamente do interesse da Rússia”, comenta o docente. “Artificialmente, faz subir os preços do crude nos mercados internacionais, o que reforça a economia russa.”

PUTIN NO KREMLIN

  • 1º mandato: 2000-2004
  • 2º mandato: 2004-2008
  • 3º mandato: 2012-2018
  • 4º mandato: 2018-2024

Esta quinta-feira, o Senado da Federação Russa agendou as próximas eleições presidenciais para 17 de março do próximo ano. Putin ainda não disse se será candidato. Poderá faze-lo na próxima semana, aproveitando a tradicional conferência de imprensa anual, onde responde a perguntas de jornalistas e do público.

Se for a votos, “o grande trunfo que vai ter é o facto de a economia russa ter aguentado o embate das sanções”, diz Tiago André Lopes. “De acordo com o Banco Mundial, no próximo ano a Rússia vai crescer a um ritmo três vezes mais rápido que o bloco europeu.”

Um terceiro interesse de Putin nesta deslocação ao Médio Oriente, que tem tanto de surpreendente como de irónico, passa por “tentar posicionar a Rússia como eventual mediador para a questão do Médio Oriente”, diz o professor da Universidade Portucalense. A ambição decorre da constatação da “incapacidade do Ocidente em desbloquear o impasse — porque alinhou com um dos contendores — e visa mostrar que a Rússia é um produtor de paz e não de guerra, o que é peculiar, mas é a posição neste momento defendida por Moscovo”.

No universo dos possíveis mediadores, o Catar apresentou serviço ao tornar possível o recente acordo entre Israel e o Hamas, que levou à libertação de 105 reféns israelitas, à entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza e à saída de 240 mulheres e menores palestinianos das prisões israelitas. Mas o colapso da trégua humanitária e a retoma da guerra obrigou o emirado a dar um passo atrás.

Com mediação da diplomacia russa, a disputa em torno do enclave de Nagorno-Karabakh, entre a Arménia e o Azerbaijão, que dura desde 1989, encaminha-se para um armistício. “Se a Rússia conseguir fechar esse conflito e entrar na mediação em Gaza, poderá dizer que só não consegue resolver o outro conflito porque a Ucrânia não quer negociar ou porque os ‘patrões da Ucrânia’, expressão muitas vezes usada no Kremlin, não permitem a negociação.”

A Rússia é um país de portas abertas aos dirigentes do Hamas, como confirma a visita de uma delegação do grupo islamita a Moscovo, há menos de duas semanas, ao que se seguiu a libertação de dois reféns com cidadania russa num gesto de “apreciação” pela posição da Rússia. Igualmente, tem relação histórica com Israel, por ter sido, em tempos, porto de abrigo para muitos judeus.

Líderes israelitas como David Ben-Gurion ou Golda Meir nasceram no Império Russo — o primeiro em Plonsk (atual Polónia) e a segunda em Kiev (Ucrânia). “Na guerra da Ucrânia, Israel, formalmente, nunca condenou a Rússia. Pôs-se numa posição mais neutral. É verdade que apoiou a Ucrânia com algum equipamento militar, mas nada do equipamento de última geração que a Ucrânia pediu”, recorda Tiago André Lopes.

“A Rússia tem a capacidade de conseguir falar com os dois interlocutores, de os sentar à mesa e de os reconhecer. Além disso, é um dos cinco Estados com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e foi o segundo a receber a delegação ministerial conjunta árabe-islâmica, depois da China. A Rússia tem tentado mostrar interesse em desbloquear este impasse.”

A retórica de Moscovo alimenta-se também das posições contraditórias do Ocidente perante as guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, nomeadamente em relação à Bielorrússia, que tem sido penalizada em várias frentes pela sua proximidade à Rússia, enquanto Israel continua a atuar impunemente.

“O conflito em Gaza demonstra alguns paradoxos do Ocidente”, comenta Tiago André Lopes. “O facto de não exigir a Israel o cumprimento do direito humanitário, apesar de a ONU fazer avisos sistematicamente. Tanto os Estados Unidos como alguns países europeus, em particular a Alemanha, têm uma espécie de simpatia contínua por Israel, e isso é um problema.”

Esta quinta-feira, decorreu em Pequim a 24ª cimeira União Europeia-China, com a presença de Charles Michel (presidente do Conselho Europeu), Ursula von der Leyen (presidente da comissão Europeia) e Josep Borrell, o Alto Representante para a Política Externa, que se reuniram separadamente com o Presidente Xi Jinping e o primeiro-ministro Li Qiang.

Na agenda de trabalhos da cimeira, figuraram conversações sobre “a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia” e sobre o “Médio Oriente”. “A informação europeia continua a ser, muitas vezes, infeliz. Na reunião de hoje, a delegação europeia nem sequer consegue classificar o Médio Oriente como conflito”, realça o docente. “Este tipo de dinâmicas é importantíssimo para os russos. Leva-os a dizer: ‘Estão a ver? Para estes senhores, há conflitos de primeira e conflitos de segunda.”

(FOTO Em Abu Dabi, Vladimir Putin foi recebido pelo Sheikh Mohamed bin Zayed Al Nahyan, presidente dos Emirados Árabes Unidos SERGEI SAVOSTYANOV / AFP / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de dezembro de 2023. Pode ser consultado aqui

Os principais acontecimentos internacionais do ano em 40 fotos

A irracionalidade da guerra atravessou o ano que agora termina. Amplamente mediatizados, tanto o conflito na Ucrânia como, mais recentemente, o da Faixa de Gaza, atiraram para nota de rodapé a consumação de um processo de limpeza étnica no território de Nagorno-Karabakh. As contendas políticas secundarizaram, na agenda informativa, a emergência climática global, apesar do planeta não se cansar de dar sinais de sofrimento, com violentos sismos na Turquia, Síria e Marrocos, grandes incêndios nas Ilhas Canárias e frequentes situações de seca ou inundações que condenam cada vez mais pessoas a situações de necessidade e dependência. Por todo o mundo, tradições culturais e religiosas recordam as comunidades da sua essência. E, do futebol à Fórmula 1, conquistas desportivas empolgam adeptos nos quatro cantos do mundo. Personalidades controversas como Donald Trump e Jair Bolsonaro deram sinais de querer voltar à arena política, enquanto Vladimir Putin tremeu com uma ameaça de golpe. No Vaticano a cristandade despediu-se de um Papa que fez história

RAZIA. A Faixa de Gaza está transformada num filme de terror, com prédios reduzidos a cinza e vidas interrompidas sob escombros. Para quem sobrevive, pouco mais resta do que assistir IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
SECA Na fronteira entre a Bolívia e o Peru, a quase 4000 metros de altitude, o lago Titicaca, que é o curso de água navegável mais alto do mundo, não escapa à degradação ambiental CLAUDIA MORALES / REUTERS
ADEUS. Na Praça de São Pedro, no Vaticano, 120 cardeais, 400 bispos, quase 4000 padres e um Papa participam, a 5 de janeiro, no funeral de Bento XVI, o Papa Emérito que, de forma inédita, renunciara ao cargo em 2013 GUGLIELMO MANGIAPANE / REUTERS
DUELO. Nos quartos de final do Open da Austrália, a tenista croata Donna Vekic não consegue agigantar-se perante a adversária, a bielorrussa Aryna Sabalenka CARL RECINE / REUTERS
DETERMINAÇÃO Donald Trump quer regressar à Casa Branca e tem razões para acreditar que é possível. Apesar de vários julgamentos marcados em 2024, é o favorito à vitória nas primárias republicanas MICHAEL M. SANTIAGO / GETTY IMAGES
FOGOS. Em pleno Oceano Atlântico, o sossego da ilha espanhola Gran Canária é ameaçado por grandes incêndios florestais que se prolongam durante dias e devastam 6% de todo o arquipélago DESIREE MARTIN / AFP / GETTY IMAGES
CONTESTAÇÃO. A primeira mulher a assumir a presidência do Peru, Dina Boluarte, não tem vida fácil com protestos populares nas ruas exigindo o regresso ao poder do seu antecessor ANGELA PONCE / REUTERS
INVASÃO. A 8 de janeiro, apoiantes do ex-Presidente brasileiro Jair Bolsonaro invadem os edifícios dos três poderes, em Brasília, numa cópia do assalto de ‘trumpistas’ ao Capitólio, nos Estados Unidos UESLEI MARCELINO / REUTERS
SORTE. A 12 de novembro, vive-se um grande susto na pista do Circuito Internacional de Sepang, na Malásia. Durante a corrida de Moto 2, o espanhol Manuel González despista-se e só por milagre não é atropelado HASNOOR HUSSAIN / REUTERS
RITUAL. Ao estilo de uma coreografia, muçulmanos xiitas de todas as idades colocam o Alcorão sobre as cabeças, durante uma cerimónia de Ramadão, na cidade iraquiana de Najaf THAIER AL-SUDANI / REUTERS
FÉ. No Santo Sepulcro, em Jerusalém, ortodoxos etíopes participam na cerimónia do Fogo Sagrado, que celebra a crença de que, todos os anos, o fogo acende-se espontaneamente no túmulo de Jesus RONEN ZVULUN / REUTERS
LAZER. Na China, os cinco dias de feriado em torno do Dia dos Trabalhadores animaram o turismo interno. Locais emblemáticos como a Grande Muralha ficam à pinha FLORENCE LO / REUTERS
APOIO. A 20 de fevereiro, Joe Biden vai a Kiev demonstrar que os Estados Unidos não abandonam a Ucrânia. Oito meses depois, rebenta a guerra em Gaza e a prioridade norte-americana muda EVAN VUCCI / AFP / GETTY IMAGES
DESAFIO. Yevgeny Prigozhin afronta Vladimir Putin com uma ameaça de golpe, mas o Presidente russo leva a melhor. A intentona do Grupo Wagner fracassa e o oligarca sai de cena, dentro de um avião que explode PELAGIYA TIHONOVA / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES
PANCADA. Na OVO Arena Wembly, em Londres, o rosto de Sunny Edwards sofre o impacto de um golpe desferido pelo adversário. No fim, o pugilista britânico leva a melhor e vence o mundial na categoria de peso-mosca PETER CZIBORRA / REUTERS
O 11 de junho de 2023 entra para a história do Manchester City como o dia em que o clube conquista a primeira Champions. Para Pep Guardiola, é o terceiro troféu, enquanto treinador MOLLY DARLINGTON / REUTERS
SAUDADE. No Dia de Todos os Santos, a 1 de novembro, cemitérios como este, na cidade polaca de Cracóvia, enchem-se de familiares e amigos junto às campas de quem já partiu JAKUB PORZYCKI / AGENCJA WYBORCZA.PL / REUTERS
REVOLTA. Apesar de ferida, esta jovem palestiniana expressa a sua ira, enquanto é levada para um hospital, após um bombardeamento israelita a uma escola, perto de Khan Yunis, na Faixa de Gaza IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
LEMBRANÇA. Em Israel, os rostos dos reféns levados pelo Hamas para Gaza, durante o ataque de 7 de outubro, estão omnipresentes de múltiplas formas. Aqui, projetados na muralha da Cidade Velha de Jerusalém AHMAD GHARABLI / AFP / GETTY IMAGES
ORAÇÃO. Em tempos de guerra, como a que envolve Israel na Faixa de Gaza, as preces dos judeus junto ao Muro das Lamentações, na Cidade Velha de Jerusalém, redobram de intensidade JAMES OATWAY / REUTERS
EMPATIA. É um dos traços fortes da personalidade do Papa Francisco que desarma quem o escuta, como acontece com este grupo de freiras, que o cerca durante uma audiência no Vaticano REUTERS
CELEBRAÇÃO. Rakher Upobash é uma festividade hindu comemorada no Bangladesh. Quando o sol se põe, os devotos sentam-se junto ao templo e acendem lanternas e queimadores de incenso MOHAMMAD PONIR HOSSAIN / REUTERS
CAMPEÕES. A 28 de outubro, a África do Sul torna-se a primeira seleção tetracampeã mundial de raguebi. Na final, realizada no Stade de France, em Paris, os Springboks derrotam os neozelandeses All Blacks SARAH MEYSSONNIER / REUTERS
LENDA. Conquistou o seu lugar entre as grandes competições desportivas com longas corridas entre a França e o Senegal, mas desde 2020 que o mítico Dakar disputa-se nas areias da Arábia Saudita HAMAD I MOHAMMED / REUTERS
JOGO. Semelhante ao polo, o Kok-Boru é uma paixão no Quirguistão. Este desporto coletivo premeia a habilidade dos cavaleiros agarrarem uma carcaça de cabra (substituída, nos tempos atuais, por um molde) VLADIMIR PIROGOV / REUTERS
DESTREZA. A cada 6 de janeiro, um grupo de bombeiros de Tóquio executa acrobacias em escadas de bambu, com o intuito de saudar o novo ano e consciencializar os cidadãos para os perigos dos incêndios ISSEI KATO / REUTERS
RECORDE. Pelo terceiro ano consecutivo, o neerlandês Max Verstappen esbanja talento ao volante e vence o mundial de Fórmula 1. Em Abu Dabi, torna-se o primeiro piloto a liderar 1000 voltas numa única temporada HAMAD I MOHAMMED / REUTERS
EXPULSÃO. Após décadas de disputa entre Arménia e Azerbajião, mais de 100 mil arménios são obrigados a sair de Nagorno-Karabakh, num processo deliberado de limpeza étnica DIEGO HERRERA CARCEDO / AFP / GETTY IMAGES
GUERRA. O conflito na Ucrânia faz ricoxete em regiões da Rússia como Belgorod, junto à fronteira, onde ataques ucranianos provocam vítimas e forçam habitantes a refugiarem-se em abrigos temporários MAXIM SHEMETOV / REUTERS
ÊXODO. Paralelamente aos números negros de mortos e feridos, em menos de três meses, a guerra em Gaza torna 85% dos habitantes daquele território palestiniano deslocados internos IBRAHEEM ABU MUSTAFA / REUTERS
SOBREVIVÊNCIA. Na Faixa de Gaza, a luta pela vida de dezenas de recém-nascidos prematuros retirados das incubadoras por falta de energia, no Hospital al-Shifa, comove o mundo ANADOLU / GETTY IMAGES
CRENÇA. Ano após ano, milhões de muçulmanos cumprem a grande peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, numa impressionante demonstração coletiva de fé MOHAMED ABD EL GHANY / REUTERS
CAOS. A passagem do furacão Otis pela cidade mexicana de Acapulco, em finais de outubro, deixa 52 pessoas mortas, 32 desaparecidas e um amontoado de destroços RAQUEL CUNHA / REUTERS
ERUPÇÃO. Uma aparatosa atividade vulcânica, na península de Reykjanes, na Islândia, pinta o solo com um ziguezague de lava que tem tanto de artístico como de assustador KRISTINN MAGNUSSON / AFP / GETTY IMAGES
ABALO. O pior sismo alguma vez sentido em Marrocos, registado a 8 de setembro, arrasa aldeias inteiras, como Imi N’Tala, no centro do país. O terramoto é sentido na Argélia e em Portugal FADEL SENNA / AFP / GETTY IMAGES
INTEMPÉRIE. Esta francesa segue caminho por uma ponte de madeira, montada em missão de urgência, após o rio Charente galgar as margens e inundar a cidade de Saintes CHRISTOPHE ARCHAMBAULT / AFP / GETTY IMAGES
HERANÇA. A pesca de camarão a cavalo é uma tradição belga à qual a Unesco atribuiu o selo de património imaterial da humanidade. Na cidade costeira de Oostduinkerke, é uma atração turística YVES HERMAN / REUTERS
DOR. O negro nas vestes revela conservadorismo social e também o sofrimento pela perda de alguém. Estas libanesas choram a morte de um membro do Hezbollah, numa troca de fogo com Israel ALAA AL-MARJANI / REUTERS
DESTRUIÇÃO. Um violento tremor de terra, a 6 de fevereiro, devasta zonas desfavorecidas da Turquia, como Antakya, e regiões da Síria castigadas pela guerra. Morrem cerca de 60 mil pessoas YASIN AKGUL / AFP / GETTY IMAGES
REINADO. A 6 de maio, Carlos e Camila são coroados monarcas do Reino Unido, Grã-Bretanha e Irlanda do Norte. Após a cerimónia, mostram-se à varanda do Palácio de Buckingham, cúmplices e felizes SAMIR HUSSEIN / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de dezembro de 2023. Pode ser consultado aqui

Um hospital com visão para reduzir a cegueira na Palestina

Fundação Champalimaud premeia centro oftalmológico mais antigo do Médio Oriente. Mais de metade do orçamento da instituição vem de donativos

Na sempre agitada região do Médio Oriente, o Hospital Oftalmológico São João de Jerusalém é, há décadas, um exemplo de resiliência. Com mais de 140 anos — vividos entre guerras, sublevações, disputas locais e o domínio de poderes externos —, esta unidade médica de Jerusalém Oriental apenas não funcionou entre 1914 e 1919. A Palestina era então uma região do Império Otomano, o qual, após entrar na Grande Guerra, transformou o hospital num depósito de munições.

A resistência às adversidades e como, em paralelo, se consolidou como um centro de referência ao nível do combate à cegueira numa região marcada pelo conflito valeu ao St. John of Jerusalem Eye Hospital (na designação internacional) a atribuição, esta semana, do Prémio António Champalimaud de Visão, no valor de um milhão de euros.

“Este generoso prémio chega no momento perfeito”, diz ao Expresso o CEO do hospital, Ahmad Ma’ali. “Somos a única instituição de beneficência prestadora de cuidados oftalmológicos a quem vive
na Terra Santa e dependemos de contribuições voluntárias, que re
presentam 55% a 60% do nosso orçamento operacional”, que supera
os 15 milhões de euros. “Dentro de seis a oito meses esperamos ter um hospital a funcionar no Norte da Cisjordânia”, ocupada por Israel.

Casamentos entre primos

Um estudo do St. John apurou que a taxa de cegueira e de deficiência visual entre os palestinianos é 10 vezes superior à verificada no Ocidente. “Há muitas razões. Decorre da falta de acesso a cuidados”, resultante de barreiras físicas e restrições à mobilidade. “Tem a ver também com pobreza e falta de conhecimento”, continua. “Outra causa são os casamentos entre primos em primeiro grau, que ocorrem em 38%-40% da população. Os filhos nascem geralmente com cataratas, glaucoma e outras doenças hereditárias.”

O hospital procurou dar resposta ao problema da consanguinidade e
dotou-se de um “laboratório de genética”, onde, a partir de uma análise ao sangue do paciente, determina a probabilidade de os filhos terem a doença. “Se informarmos as pessoas sobre a probabilidade de os seus filhos terem cegueira ou outras doenças, elas decidem com base na informação.”

Fundado em 1882, o St. John foi o primeiro hospital oftalmológico no Médio Oriente. “Devido à instabilidade política que dura há muitos anos, decidimos que, se as pessoas não conseguem vir até nós, temos de conseguir chegar a elas. Nesse sentido, estabelecemo-nos como um grupo de hospitais”, explica.

Além do hospital-mãe, em Jerusalém, o St. John tem antenas na
Faixa de Gaza (território palestiniano sob bloqueio) e em Hebron
(no Sul da Cisjordânia). Para precaver previsíveis longas esperas dos
pacientes nos postos de controlo (checkpoints), o hospital dispõe de
três unidades móveis que se deslocam para aldeias remotas e áreas
controladas por Israel.

Todos os centros têm desafios específicos. Situado na parte árabe
da cidade (ocupada por Israel em 1967, posteriormente anexada e reivindicada pelos palestinianos para capital do seu Estado), o hospital de Jerusalém está no olho do furacão, integrado no bairro de Sheikh Jarrah, palco com frequência de violência entre árabes e judeus.

Já na Faixa de Gaza, controlada pelo grupo islamita Hamas, o trabalho é mais complexo. Tudo o que entra no território é inspecionado por Israel, por receio de que possa ter dupla utilização e cair em mãos erradas. “Quando ali construímos o hospital, em 2016, tivemos de trabalhar em grande proximidade com as autoridades militares israelitas, porque tudo podia ter duplo uso. O cimento, por exemplo, podia servir para construir túneis”, usados de forma clandestina para infltrar no território produtos que não passariam na fronteira. “As inspeções originam atrasos. Mandar algo para Gaza pode demorar um mês a chegar. Temos muito cuidado em garantir que há stock suficiente em Gaza.”

Entre os cerca de 260 profissionais do St. John, há muçulmanos,
judeus e cristãos. Os pacientes judeus são ínfimos, “uma vez que eles
têm um serviço avançado e gratuito do lado israelita. Mas estamos abertos a toda a gente”. Ma’ali realça a “excelente colaboração com hospitais de Israel”, nomeadamente o prestigiado Hadassah, em Jerusalém Oriental. “Somos um local de formação para ortoptistas judeus enviados pelo Hadassah.”

Quem não paga nada perde

Mandado erguer pela rainha Vitória de Inglaterra, o St. John pertence à Ordem de São João e é “profundamente enraizado nos ensinamentos cristãos”, diz Ma’ali. “A missão é tratar toda a gente, independentemente de raça, religião, classe social ou posses para pagar.”

“Só 40%-45% dos palestinianos têm seguro de saúde. Quando nos são encaminhados, têm cobertura do Ministério da Saúde da AP. Após voltarem a casa, o hospital espera quatro ou cinco anos para ser reem bolsado”, segundo Ma’ali. “Neste momento, a AP deve-nos 3,5 milhões de dólares [3,2 milhões de euros].” Anualmente, a União Europeia desembolsa 13 milhões de euros para abater à dívida da AP aos hospitais de Jerusalém.

No St. John desde 1990, onde entrou como estudante de enfermagem, e CEO desde 2019, Ma’ali diz-se apreensivo com a degradação da segurança na Cisjordânia, onde vive. Para chegar ao trabalho tem
de passar um checkpoint. “Como qualquer CEO, tenho de pensar
de onde virá o próximo dólar, mas a minha grande preocupação é o
acesso de funcionários e doentes ao hospital de Jerusalém.”

DIMENSÃO DO PROBLEMA

10
vezes mais casos de cegueira e deficiência visual são registados
nos territórios palestinianos, por comparação aos países ocidentais

142
mil pessoas foram tratadas no Hospital Oftalmológico São João
de Jerusalém em 2022. Foram também realizadas 6900 cirurgias

80
por cento dos problemas oftalmológicos diagnosticados na
população palestiniana são curáveis, garante o hospital

(FOTO Ahmad Ma’ali, CEO do Hospital Oftalmológico São João de Jerusalém, fotografado na Fundação Champalimaud NUNO BOTELHO)

RELACIONADO: Prémio Champalimaud recompensa hospital empenhado no “combate à cegueira na Palestina”

Artigo publicado no “Expresso”, a 8 de setembro de 2023

Sem Putin nem Xi Jinping, Modi quer afirmar-se como o porta-voz do ‘sul global’

O grupo das 20 maiores economias do mundo reúne-se este fim de semana, na cidade indiana de Nova Deli, com duas ausências de peso: Vladimir Putin e Xi Jinping. Seis perguntas e respostas para perceber o motivo dessas faltas, a importância que esta cimeira tem para a Índia — ou chamar-se-á o país Bharat? — e ainda porque nasceu e qual é o objetivo de um grupo como o G20

A Índia acolhe este fim de semana, pela primeira vez, uma cimeira do poderoso grupo das 20 economias mais desenvolvidas do mundo (G20). Nas ruas de Nova Deli, a cidade anfitriã, há por estes dias segurança acrescida providenciada por 130 mil polícias e agentes paramilitares e também por um sistema antidrones.

Alguns ‘bairros de lata’ desta megacidade com mais de 30 milhões de habitantes foram destruídos, centenas de cães retirados das ruas e recortes em tamanho real de langures — um primata corpulento com cara negra — foram espalhados por várias zonas da capital indiana para afugentar os macacos.

Com os holofotes voltados sobre si, a Índia não quer que nada ofusque esta oportunidade de ouro para afirmar poder, no mesmo ano em que ultrapassou a China e se coroou como a maior potência demográfica do mundo.

Há dúvidas sobre o país que acolhe a cimeira do G20?

Não há qualquer incerteza que o evento decorrerá na Índia, mas há expectativa quanto à designação que o Estado anfitrião irá assumir na documentação oficial. Numa comunicação enviada aos países participantes, o Governo indiano convidou os líderes que estarão em Nova Deli para um jantar com o “Presidente de Bharat”.

A cimeira esclarecerá relativamente à real intenção do executivo liderado por um nacionalista hindu em promover uma mudança de nome do país. Várias explicações têm sido adiantadas para a eventualidade de isso acontecer.

Por um lado, a vontade de Modi e do seu Partido do Povo Indiano (Bharatiya Janata Party, BJP) se livrarem de uma designação imposta pelo colonizador britânico, mais de 75 anos após a independência.

Há, porém, outra razão política de natureza interna. No próximo ano, a Índia realiza eleições gerais e, a 1 de setembro passado, 28 partidos políticos anunciaram que irão a votos coligados, com um objetivo comum: impedir a terceira vitória consecutiva do BJP e da corrente nacionalista hindu.

O novo bloco político de oposição a Modi designa-se INDIA (sigla de Indian National Developmental Inclusive Alliance/Aliança Nacional Indiana para o Desenvolvimento Inclusivo). Afastar a palavra “Índia” dos holofotes poderá ser também uma forma de não dar visibilidade à oposição.

Que importância tem esta cimeira para a Índia?

O encontro acontece num momento delicado das relações internacionais, com a guerra na Ucrânia a dividir ainda mais o mundo. Por toda a cidade de Nova Deli, a Índia procura contrariar esse ceticismo assumindo-se como exemplo a seguir.

Murais, mupis e outro tipo de instalações alusivas à cimeira do G20 procuram associar o evento a símbolos indianos, como o carismático líder anticolonialista Mahatma Gandhi, apologista da resistência não violenta, ou a conquistas históricas, como a recente chegada à Lua.

Esta cimeira — que tem um slogan a três tempos: “Uma Terra. Uma Família. Um Futuro — será uma oportunidade para a Índia subir ao palco do Centro Internacional de Convenções ‘Bharat Mandapam’ e reclamar um estatuto de potência global, na presença dos principais líderes do mundo, ou pelo menos daqueles que marcarem presença.

Vladimir Putin vai estar presente?

A Federação Russa pertence efetivamente ao clube do G20, mas o seu Presidente não estará presente. Vladimir Putin enfrenta um mandado de detenção emitido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, relativo à transferência de crianças ucranianas para território russo, e não arrisca pôr o pé fora do seu país.

Acontecerá em Nova Deli o que sucedeu recentemente na cidade sul-africana de Joanesburgo, que acolheu a 15ª cimeira dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), onde Putin também este ausente e a Rússia fez-se representar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov.

Há mais líderes que não vão à cimeira de Nova Deli?

Há outra ausência de vulto, a de Xi Jinping, Presidente da China, que faltará a uma cimeira do G20 pela primeira vez desde que subiu ao poder, em 2012. A delegação de Pequim será liderada pelo primeiro-ministro Li Qiang.

Uma das explicações possíveis para a ausência de Xi Jinping passa pela intenção de retirar peso político a um fórum multilateral com forte presença ocidental em detrimento de outros onde a China tem um papel mais preponderante, como o grupo dos BRICS.

Este, por exemplo, quer assumir-se como um contrapeso à influência ocidental e a grupos como o G7 e o G20. Nesse sentido, na última cimeira, os cinco BRICS anunciaram a entrada na organização de mais seis países — Argentina, Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos — num esforço de remodelação da ordem internacional.

Outra razão para o “boicote” de Xi poderá decorrer da deterioração da relação com a vizinha Índia, com quem a China tem uma disputa territorial ao longo da fronteira dos Himalaias. Na semana passada, Pequim divulgou um novo mapa que colocava zonas disputadas à cor do território chinês. Nova Deli protestou e a China aconselhou a Índia a “ficar calma”. A confirmar-se este cenário, a falta de Xi seria uma atitude de desprezo.

Em Nova Deli, perde-se assim a oportunidade de um encontro a dois entre Xi Jinping e Joe Biden, como aconteceu na última cimeira do G20, em Bali, e de China e Estados Unidos deitarem água na fervura na tensão multifacetada entre ambos.

Que impacto terão as ausências de Putin e Xi nos trabalhos da cimeira?

Desde logo, estarão em falta os dois líderes do G20 que mais têm dificultado a adoção de uma declaração conjunta sobre a guerra na Ucrânia. Nenhum deles subscreve uma posição condenatória das ações de Moscovo e, em contrapartida, os países ocidentais não abdicam de uma forte condenação da Rússia.

Antes de partir para Nova Deli, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, afirmou-se desapontado pelo facto de o Presidente ucraniano não ter sido convidado para a cimeira. “Falaremos fortemente por si e continuaremos a garantir que o mundo esteja ao lado da Ucrânia”, disse Trudeau a Volodymyr Zelensky, num telefonema recente.

As posições de China e Rússia terão mensageiros em Nova Deli pelo que não é expetável um consenso que abra caminho a uma Declaração de Líderes em conclusão da cimeira, mais ainda numa altura em que a Rússia faz depender o desbloqueio do acordo do Mar Negro relativo aos cereais ucranianos do levantamento de sanções ocidentais.

Esta sexta-feira, já na capital indiana, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, afirmou: “É difícil prever se será possível haver um acordo sobre uma declaração [final]. Ainda estamos a negociar. Não tenciono dizer nada que possa dificultar os esforços” da presidência indiana do G20.

Como nasceu o G20 e com que objetivo?

Este fórum intergovernamental reuniu-se pela primeira vez em Berlim, em 1999, dois anos após a crise financeira na Ásia. Então, juntou à mesa do diálogo 19 ministros das Finanças de outros tantos países e a União Europeia, cientes de que uma qualquer outra crise com aquela dimensão nunca poderia ser resolvida dentro das fronteiras de cada país e que requeria cooperação internacional.

Desde 2008, as cimeiras anuais passaram a ser protagonizadas pelos chefes de Estado ou de Governo. As “Cimeiras de Líderes do G20”, até então fóruns de discussão sobre os problemas da economia global, ganharam um caráter mais geopolítico e mediático.

No total, os países que compõem o G20 correspondem a 80% do Produto Interno Bruto (PIB) global e 75% do comércio internacional.

Em Nova Deli, para além dos 20 membros, estarão também nove países convidados: dois europeus (Espanha e Países Baixos), um da África Subsariana (Nigéria), três países árabes (Egito, Emirados Árabes Unidos e Omã), dois asiáticos (Bangladesh e Singapura) e um insular (Maurícias).

A 1 de dezembro próximo, a Índia passa o testemunho para o Brasil que assegurará a presidência do G20 durante um ano.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de setembro de 2023. Pode ser consultado aqui