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A águia bicéfala, a seleção descalça e o faraó tchetcheno

O Mundial da Rússia termina este domingo e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, já veio dizer que “foi o melhor de sempre”. Sem falhas organizativas ou aparatosos alertas de segurança, a competição não foi, porém, imune a provocações políticas

A política foi a jogo no Mundial. Jogadores suíços ‘picaram’ os sérvios, croatas provocaram a anfitriã Rússia e uma das estrelas do firmamento futebolístico internacional foi usada como propaganda na Chechénia. Sempre conservadora em relação a manifestações de cariz político, a FIFA abriu uma exceção que indispôs os “ayatollahs” iranianos…

GOLOS PELO KOSOVO

Decorria a fase de grupos e Suíça e Sérvia mediam forças em Kaliningrado. Granit Xhaka, aos 52 minutos, e Xherdan Shaqiri, aos 90 — suíços de origem kosovar —, marcaram os golos do triunfo helvético por 2-1. Na hora de os celebrar, não se contiveram na euforia e provocaram os sérvios fazendo com as mãos um sinal alusivo à bandeira albanesa que ostenta uma águia bicéfala.

O gesto mais não foi do que uma declaração política solidária para com o Kosovo, a antiga província sérvia de maioria albanesa que ascendeu à independência em 2008 e cuja soberania ainda não é reconhecida, para além da própria Sérvia, por países como Rússia, China e Espanha.

A Federação da Sérvia pediu dois jogos de suspensão para cada atleta por “provocação ao público”, mas a FIFA não foi além de uma multa individual de 10.000 francos suíços (8600 euros) por “comportamento antidesportivo contrário aos princípios do fair play”.

QATAR EM FORÇA, NAS BARBAS DOS SAUDITAS

A 14 de junho, aquando do jogo inaugural da competição entre Rússia e Arábia Saudita, o anfitrião Vladimir Putin teve a seu lado, na tribuna do Estádio Luzhniki (Moscovo), o príncipe herdeiro saudita. Para além da pesada derrota por 5-0, Mohammad bin Salman teve de digerir uma provocação geopolítica: em redor do relvado, destacava-se de forma persistente publicidade à Qatar Airways.

A Arábia Saudita foi a mentora do bloqueio por terra, mar e ar imposto ao Qatar a 5 de junho de 2017, ao qual aderiram também Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Egito. Desde então, o Qatar passou a gastar dez vezes mais para importar alimentos e medicamentos, mas com o avultado patrocínio da sua transportadora aérea, que se repetiu em todos os jogos do Mundial, o pequeno emirado do Golfo Pérsico mostra a quem o quis asfixiar financeiramente que o bloqueio não está a resultar.

Há, porém, quem avance com outra justificação para esta investida publicitária… A organização do Mundial de 2022, atribuída ao Qatar, continua em perigo, pelo que dar milhões à FIFA pode ser uma forma de a segurar. Após a atribuição do evento ao Qatar se rodear de polémica, e de suspeitas de corrupção, a organização tem vindo a ser bombardeada com fragilidades: as altas temperaturas e índices de humidade inviabilizam a realização do torneio no verão; os adeptos homossexuais não são bem vindos no país; e o consumo de álcool é proibido. Durante a construção dos estádios, morreram pelo menos 520 trabalhadores, oriundos sobretudo de Bangladesh, Índia e Nepal. Tudo isto para além do bloqueio em curso.

Estados Unidos e Inglaterra têm sido os países mais falados no caso de relocalização do evento. Mas esta sexta-feira, a FIFA tranquilizou o Qatar ao anunciar as datas do seu Mundial: decorrerá no inverno, entre 21 de novembro e 18 de dezembro.

NIKE DESCALÇA O IRÃO

Ainda o apito inicial do Mundial estava longe de soar e já o selecionador do Irão, Carlos Queiroz, se queixava das condições de trabalho da sua equipa. Por questões políticas, muitos países recusam-se a disputar amigáveis com a seleção persa, privando os iranianos de um planeamento profissional.

A 2 de junho, o Irão tinha agendado um particular com a Grécia, em Istambul, que foi abruptamente cancelado pelos gregos em virtude de um contencioso entre Atenas e Ancara envolvendo a detenção de dois soldados gregos na fronteira entre os dois países. Neste caso, o Irão foi uma “vítima colateral” de uma guerra que não era sua, mas é o que acontece a um país com uma exposição internacional muito condicionada como a do Irão.

Nas vésperas do arranque do Mundial, o boicote à equipa iraniana assumiu outros contornos. A marca de equipamentos desportivos Nike recusou-se a fornecer chuteiras à “team Melli”, como os iranianos chamam à sua seleção. “Não é uma escolha”, justificou-se a Nike, escudando-se com as sanções impostas pelos Estados Unidos. Em compensação, a alemã Adidas não falhou com o fornecimento das camisolas.

RELAÇÃO ENVENENADA ENTRE INGLESES E RUSSOS

A chegada da seleção inglesa às meias finais do Mundial da Rússia prova que os súbditos de Sua Majestade não se deram mal nas terras dos czares, ainda que a relação diplomática entre Londres e Moscovo já tenha tido melhores dias.

Após o envenenamento do russo Sergei Skripal, ex-espião do britânico M16, e da sua filha Yulia, a 4 de março, na cidade inglesa de Salisbury, o Reino Unido apontou o dedo acusador à Rússia e declarou que não se iria fazer representar ao mais alto nível nas bancadas do Mundial. O então ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, elevou a fasquia da agressividade e comparou a organização russa do Mundial de futebol aos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, que funcionaram como propaganda ao regime nazi.

O caso do espião envenenado, e da tensão política que se lhe seguiu, terá contribuído para a ausência de milhares de apaixonados adeptos ingleses nas ruas russas. Para assistir ao jogo dos oitavos de final, em que a Inglaterra venceu a Suécia por 2-0, apenas 1608 ingleses compraram bilhetes através da federação inglesa — na fase de grupos, o número de bilhetes vendidos oscilou entre os 1510 (para a partida contra a Tunísia) e os 2659 (com a Bélgica). Na mente de muitos adeptos estará também os confrontos entre russos e ingleses registados em Lille, durante o Euro 2016, antes do jogo entre as duas seleções (1-1), na fase de grupos.

No seu Mundial, os russos não permitiram, porém, que este histórico manchasse o evento e, na cerimónia de abertura, escolheram um britânico — Robbie Williams — para protagonizar o momento musical, em parceria com a soprano russa Aida Garifullina.

MO SALAH, O FARAÓ… DA CHECHÉNIA

A intenção terá sido a melhor, mas a escolha de Grozny, por parte da federação egípcia, como sede da sua seleção durante o Mundial da Rússia teve consequências imprevistas. Grozny é a capital da Chechénia, uma região russa maioritariamente muçulmana que, não há muito, travou duas guerras separatistas com Moscovo: 1994-1996 e 1999.

A Chechénia tem agora no poder Ramzan Kadyrov, um muçulmano ultraconservador com pazes feitas com o Kremlin e que tem estado na mira de organizações de defesa dos direitos humanos por repressão a opositores políticos e perseguição aos homossexuais.

Com a presença dos egípcios no território que governa e, em particular, de uma das estrelas maiores do futebol internacional — Mohamed Salah, que joga no Liverpool —, Kadyrov não perdeu oportunidade de tirar vantagens políticas. Atribuiu a Salah o estatuto de cidadão honorário da Chechénia, durante um banquete oferecido à equipa no seu palácio e fez-se passear ao lado do futebolista diante das bancadas do Akhmat Arena, onde locais assistiam a um treino dos egípcios. Salah não fez qualquer comentário público. Talvez não esteja consciente do ‘filme’ propagandístico em que participou.

ELIMINAÇÃO DA RÚSSIA DEDICADA À… UCRÂNIA

Se chegar às meias finais de um Mundial é uma emoção para qualquer futebolista, consegui-lo à custa da seleção da Rússia foi para dois croatas uma alegria incontrolável.

Ognjen Vukojevic, elemento da equipa técnica, e o defesa Domagoj Vida — ambos ex-jogadores do Dínamo de Kiev (Ucrânia) — cederam a uma recôndita paixão e, após o jogo dos quartos de final contra os russos, gravaram uma mensagem polémica: “Glória à Ucrânia! Esta vitória é para o Dínamo de Kiev e para a Ucrânia.” Rússia e Ucrânia estão de relações cortadas em virtude do apoio de Moscovo aos separatistas do leste da Ucrânia e à anexação russa da Crimeia, legitimada por referendo, a 16 de março de 2014.

O vídeo incendiou as redes sociais e levou a FIFA a abrir um processo disciplinar que concluiu com a repreensão dos dois croatas e uma multa de 12 mil euros a cada um. A federação croata foi mais longe: pediu “desculpa ao público russo” e despediu Vukojevic, que tinha publicado o vídeo. Mas o técnico não tardou a ter uma oferta de emprego… Andriy Pavelko, presidente da Federação da Ucrânia, foi ao Parlamento de Kiev envergando a camisola e um cachecol da Croácia e defendeu a contratação do técnico dispensado. Foi ovacionado de pé pelos deputados da nação.

À ATENÇÃO DOS “AYATOLLAHS”

O rendimento da seleção iraniana no Mundial, que por pouco condenava Portugal a não passar da fase de grupos, empolgou a nação persa e levou aos estádios russos iranianas como não é possível ver-se na República Islâmica. Desde 1980 — um ano após a Revolução Islâmica liderada pelo “ayatollah” Khomeini — que é proibido às iranianas a entrada nos estádios de futebol do país. Quem desafia essa proibição pode ser detida, mas muitas iranianas arriscam-no disfarçando-se de homens.

“Sara” (nome fictício para evitar represálias) é uma ativista da causa que viajou até à Rússia para se manifestar por esse direito. Para irritação do regime de Teerão, a FIFA autorizou “Sara” e quem a acompanhava a expor cartazes de protesto no interior dos estádios do Mundial. “A FIFA proíbe as mensagens políticas, mas esta não é uma questão política”, disse a ativista ao diário espanhol “El País”. “É uma questão de direitos humanos.”

Já no decorrer do Mundial, o regime iraniano experimentou uma abertura e autorizou as mulheres a entrarem no Estádio Azadi, em Teerão, para assistirem, ao lado dos homens, à transmissão dos jogos do Irão com Espanha e Portugal em ecrã gigante.

DE RELAÇÕES CORTADAS, MAS SÓ FORA DE CAMPO

Sem grande alarido, Marrocos e Irão cortaram relações diplomáticas há cerca de dois meses. A iniciativa partiu de Rabat que não gostou de descobrir que operacionais do Hezbollah — o movimento xiita libanês próximo do Irão — estão a treinar e a armar combatentes da Frente Polisário, que pugna pela independência do Sara Ocidental.

A ‘zanga’ não se sentiu dentro ou fora de campo quando Marrocos e Irão se defrontaram, a 15 de junho, no primeiro jogo do grupo de Portugal, que os iranianos venceram (1-0). Mas teve consequências desportivas que se manifestaram na véspera do arranque do Mundial.

Em votação que decorreu durante o Congresso da FIFA, em Moscovo, a candidatura tripartida de Canadá, Estados Unidos e México conquistou o direito de organizar o Mundial de 2026. O projeto concorrente foi apresentado por Marrocos, que o tentava pela quinta vez. A candidatura americana recebeu 134 votos (entre os quais o de Portugal) e a de Marrocos 65. Houve ainda três abstenções e a posição única e original do Irão… Perante propostas de Estados Unidos e Marrocos, com quem não tem relações diplomáticas, o Irão optou pela rejeição dos dois projetos votando expressamente “nenhuma das candidaturas”.

(Imagem: Bandeiras dos 32 países que disputaram o Mundial da Rússia MAX PIXEL)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 13 de julho de 2018. Pode ser consultado aqui

Obama não é Mandela

O ex-Presidente dos EUA é o orador convidado pela Fundação Mandela para proferir a conferência anual da instituição, este ano agendada para a véspera do 100.º aniversário de “Madiba”. Mas a escolha de Obama está a motivar críticas

Nas vésperas de viajar até Portugal — onde a 6 de julho dará uma conferência no Coliseu do Porto sobre alterações climáticas —, Barack Obama está confrontado com uma contestação pouco habitual.

O 44.º Presidente dos Estados Unidos — o primeiro negro a ocupar a Casa Branca — é o orador convidado pela Fundação Mandela para proferir a sua palestra anual, agendada para 17 de julho, em Joanesburgo. A escolha de Obama para homenagear “Madiba”, como é carinhosamente tratado pelos sul-africanos o líder da luta contra o “apartheid” falecido em 2013, não é, porém, consensual.

Numa carta aberta endereçada à Fundação Mandela, a organização CAGE Africa — que trabalha no sentido de reverter as narrativas da “guerra contra o terrorismo” que prevalecem no continente africano — apela a que seja “retirado o convite” a Barack Obama.

“Várias notícias e relatórios independentes, investigações criminais e processos em tribunal relacionaram Obama, enquanto comandante-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos entre 2009 e 2017, com crimes de guerra, incluindo tortura, prisões arbitrárias e rendição, e execuções extrajudiciais através de indiscriminados ataques aéreos e com recurso a drones que provocaram a morte de milhares de civis inocentes, sobretudo muçulmanos, em nome do ‘combate ao terrorismo’”, lê-se na carta com data de 5 de junho.

“Isto é especialmente pertinente dado o legado de Nelson Mandela como um indivíduo que também foi, em tempos, designado de ‘terrorista’ e foi torturado e preso, e que agora é visto como uma das figuras proeminentes para a justiça em todo o mundo.” Nos EUA, o nome de Mandela apenas foi retirado da lista negra de terroristas em 2008 — 15 anos após receber o Nobel da Paz.

Erros e arrependimentos

Durante os oito anos de Barack Obama na Casa Branca, os Estados Unidos intervieram militarmente em pelo menos seis países. “Obama, ao contrário da sua imagem pacífica, realizou 10 vezes mais ataques com drones do que o seu antecessor [George W.] Bush, matando milhares de civis no Afeganistão, Iémen, Paquistão, Síria, Iraque e Somália durante o seu mandato presidencial.”

Em declarações à Al-Jazeera, o porta-voz da Fundação Mandela, Lunga Nene, disse que o ex-Presidente sul-africano tinha um “grande respeito” por Obama e que o próprio legado de Mandela tem sido objeto de contestação “particularmente por parte dos mais jovens”. Nene disse que a Fundação pediu a Obama que abordasse as suas reflexões pós-presidência “relativas a erros e arrependimentos”.

Tributo musical em Matosinhos

palestra da Fundação Mandela deste ano é a 16.ª desde o começo da iniciativa, em 2003, ano em que um antecessor de Obama, Bill Clinton, foi o orador convidado. A edição de 2018 é especial já que se realiza na véspera do 100.º aniversário do nascimento de “Madiba”, a 18 de julho de 1918.

Em Portugal, a efeméride será assinalada em Matosinhos, num tributo musical na Praia do Aterro. Entre 18 e 20 de julho, subirão ao palco Bob Geldof, Pablo Alborán, Kaiser Chiefs, Steven Tyler, Rui Veloso, Youssou N’Dour, entre muitos outros. E também o Soweto Gospel Choir.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de junho de 2018. Pode ser consultado aqui

Porque fogem os rohingya?

A minoria muçulmana da antiga Birmânia é das mais perseguidas à face da Terra. Dos cerca de um milhão de rohingya, 700 mil já fugiram do país. Não se via um êxodo humano tão rápido desde o genocídio no Ruanda. 2:59 PARA EXPLICAR O MUNDO

Os rohingya são dos povos mais perseguidos à face da Terra. Em Myanmar, a antiga Birmânia, vivem subjugados por uma repressão generalizada que os torna párias no país que sentem como seu e onde nem o Estado nem a restante população os reconhecem. Apontados a dedo como um povo menor, chamam-lhes pulgas, ogres, são frequentemente alvo de violência organizada por parte das forças do Estado.

Em agosto de 2017, mais de 350 aldeias foram invadidas por homens armados. As propriedades pilhadas, casas queimadas, mulheres violadas e todos quantos tentaram fugir a esse inferno foram alvejados a tiro.

Muitos dos sobreviventes fizeram-se à estrada com a roupa do corpo e procuraram abrigo no Bangladesh. Não se via um êxodo humano tão rápido desde o genocídio do Ruanda, em 1994.

Hoje existem cerca de um milhão de rohingya e 700 mil vivem no Bangladesh, em acampamentos temporários, à mercê da ajuda internacional e expostos a novas crises. Recentemente, soaram dois alertas: as monções, que ameaçam fustigar os campos sobrelotados, e um “boom de bebés, fruto de violações em massa durante a fuga.

Mas porquê tanto ódio aos rohingya? Em primeiro lugar, a geografia. Os rohingya vivem sobretudo na parte ocidental de Myanmar, num estado fisicamente separado do resto do país pela cadeia montanhosa do Arakan Yoma. Ao longo dos tempos esse isolamento levou a menor investimento e originou mais pobreza em comparação com o resto do país.

A religião é outro fator potencial de conflito. Os rohingya são muçulmanos, ao contrário da esmagadora maioria dos birmaneses que é budista. Entre as principais vozes de ódio contra os rohingya está um monge budista a quem chamam “o Bin Laden birmanês.

O problema dos rohingya acentuou-se em 1982 quando uma nova Lei da Cidadania reconheceu 135 grupos étnicos, mas deixou-os de fora. Foi a machadada final numa comunidade sistematicamente privada de direitos básicos, como a possibilidade de trabalhar, aceder à educação, movimentar-se livremente, ser proprietário ou até casar.

Em 2014, no último censo realizado em Myanmar, só foram contabilizados os rohingya que aceitaram registar-se como bengalis. Quem se recusou, pura e simplesmente, não existe.

Ativistas e organizações presentes no terreno alertam para um genocídio em curso. Mas falar do assunto tornou-se incómodo num país onde o ódio à minoria muçulmana parece ser um sentimento nacional e rohingya uma palavra proibida.

Em novembro de 2017, o Papa Francisco visitou Myanmar e foi incapaz de condenar expressamente a violência contra os rohingya.

Do mesmo modo, Aung San Suu Kyi, a Nobel da Paz birmanesa que se tornou um símbolo mundial da luta pela democracia, viu a sua reputação arruinada fora de portas por nunca se ter insurgido contra a repressão de que esta comunidade é vítima.

Politicamente, a Birmânia vive um processo de transição entre uma ditadura militar e uma democracia que ninguém quer perturbar. E que por isso se sobrepõe à dignidade dos rohingya.

Episódio gravado por Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no Expresso Online, a 21 de junho de 2018. Pode ser consultado aqui

“Jogos de guerra” suspensos, decretam Seul e Washington

Os exercícios militares conjuntos previstos para agosto entre sul-coreanos e norte-americanos não se irão realizar. As partes querem demonstrar boa fé nas negociações sobre a desnuclearização da Coreia do Norte

Coreia do Sul e Estados Unidos suspenderam a realização do exercício Ulchi Freedom Guardian, agendado para o próximo mês de agosto. A decisão foi justificada com a necessidade de apoiar o diálogo em curso com o regime de Pyongyang.

“Consideramos as negociações sobre a desnuclearização da Coreia do Norte cruciais”, afirmou Choi Hyun-soo, porta-voz do ministério da Defesa da Coreia do Sul. “Por isso, enquanto essas negociações continuarem, a decisão dos Governos da Coreia do Sul e Estados Unidos manter-se-á.”

O exercício em causa simula um cenário de invasão da Coreia do Sul por parte do vizinho do Norte, para grande desconforto de Pyongyang. No ano passado, o treino decorreu durante 11 dias e envolveu 17.500 soldados norte-americanos e 50.000 sul-coreanos. Participaram também tropas de países que apoiaram o Sul na Guerra da Coreia (1950-53), nomeadamente Austrália, Reino Unido, Canadá e Colômbia.

Na recente cimeira de Singapura entre Donald Trump e Kim Jong-un, faz esta terça-feira uma semana, o Presidente norte-americano admitiu planos para parar com os “jogos de guerra” que considerou “provocadores, inadequados e caros”.

Dana White, porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, disse que a suspensão visa os exercícios de agosto, mas que não foi tomada qualquer decisão relativamente a outros treinos com a Coreia do Sul. Igualmente, mantêm-se os exercícios militares previstos com o Japão.

O ministro japonês da Defesa, Itsunori Onodera, disse compreender a suspensão dos exercícios entre Seul e Washington, que considerou “pilares importantes” na manutenção da paz e estabilidade regionais.

Enquanto a política tarda em marcar pontos na península coreana, o desporto continua a mostrar o caminho a seguir. Na segunda-feira, as duas Coreias concordaram em desfilar em conjunto, sob bandeira da Coreia Unificada, nas cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Asiáticos, que decorrerão entre 18 de agosto e 2 de setembro, nas cidades indonésias de Jacarta e Palembang.

Reunidas em Panmunjom, a chamada “aldeia da trégua” junto ao paralelo 38, delegações dos dois países acordaram também a realização de torneios de basquetebol, primeiro em Pyongyang, em julho, e mais tarde em Seul.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de junho de 2018. Pode ser consultado aqui

Até à paz falta fazer tudo

Washington e Pyongyang enterraram o machado de guerra na cimeira de Singapura, mas o comunicado final é vago

Donald Trump e Kim Jong-un, Presidentes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte ILUSTRAÇÃO DONKEYHOTEY

Estavam Donald Trump e Kim Jong-un ainda resguardados no interior do Hotel Capella, em Singapura, a minutos de fazerem História com um simples aperto de mão, e nos ecrãs da CNN o ex-basquetebolista Dennis Rodman desfazia-se em lágrimas. “É um grande dia! Estou aqui para o presenciar. Estou muito feliz!” No rasto dos líderes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte, também a antiga estrela dos Chicago Bulls esteve, terça-feira, em Singapura “para dar qualquer apoio necessário aos amigos”, anunciou previamente no Twitter.

De óculos escuros, boné com o slogan eleitoral de Trump (“Make America Great Again”), piercings na boca e no nariz, tatuagens nas mãos, braços e pescoço e uma T-shirt com o logótipo do patrocinador da sua viagem — a criptomoeda PotCoin, criada para financiar a indústria da canábis —, o excêntrico Rodman surgia, ironicamente, como voz habilitada a comentar a cimeira, tão improvável como a sua personagem. Nos corredores de Washington, não havia diplomata que tivesse, como ele, privado com ambos os líderes: foi concorrente no programa “The Celebrity Apprentice”, apresentado por Trump, e esteve várias vezes em Pyongyang, uma delas liderando uma equipa de ex-estrelas da NBA, de que Kim é fã confesso.

Trump e Kim estiveram reunidos 40 minutos. No final, gestos de afabilidade entre ambos indiciavam que se tinham entendido. Mas logo o comunicado que assinaram diante das câmaras revelou que o caminho até à paz final entre ambos tem pedras que, em Singapura, os dois líderes não conseguiram remover. O texto — curto, genérico e vago — é mais um processo de intenções.

Uma desnuclearização vaga

“O mais importante é a cimeira ter tido lugar: é a primeira entre o Presidente dos EUA e o Presidente do Conselho de Estado da Coreia do Norte, que muitos tentaram impedir e quase todos consideraram impossível”, comenta ao Expresso Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI). “Os termos da declaração final são um primeiro passo para a normalização das relações bilaterais, processo que só é possível se existirem progressos no domínio nuclear — fim dos ensaios nucleares e de mísseis de longo alcance, fim da produção de armas nucleares — e no domínio diplomático, nomeadamente um tratado de paz entre os EUA, a China e as duas Coreias que ponha fim à Guerra da Coreia” (1950-1953), que terminou apenas com um armistício.

Na declaração conjunta, “a Coreia do Norte compromete-se a trabalhar no sentido da desnuclearização total da península coreana”. Ao abordar o programa nuclear de Pyongyang, questão que, não há muito tempo, parecia colocar os dois países na iminência de uma guerra, não explica, porém, o roteiro para a tornar pacífica. “Nesta fase das negociações o que importa, em primeiro lugar, é a aproximação das duas administrações e a promoção da confiança entre as partes”, sublinha Rui Saraiva, professor de Ciência Política na Universidade de Hosei (Japão). “O termo ‘desnuclearização’ é convenientemente amplo e dado a diversas interpretações”, consoante se esteja em Washington ou Pyongyang.

Gaspar explica as nuances, resumidas em dois adjetivos. “A ‘desnuclearização completa da península coreana’ — fórmula norte-coreana inscrita no comunicado conjunto — deve implicar não só o desmantelamento dos arsenais norte-coreanos como o fim da garantia nuclear dos EUA à Coreia do Sul, o que não implica a retirada das forças militares norte-americanas estacionadas na Coreia do Sul, uma vez que os EUA retiraram as suas armas nucleares da Coreia do Sul em 1991. A fórmula norte-americana, que não está na declaração final, reclama a ‘desnuclearização completa, verificável e irreversível’ da Coreia do Norte”.

Donald Trump e Kim Jong-un tornaram-se os primeiros líderes dos Estados Unidos e da Coreia do Norte a encontrarem-se

Na quinta-feira, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, deixou claro que as sanções à Coreia do Norte só serão levantadas quando o processo de desnuclearização estiver concluído. No mesmo dia, as duas Coreias começavam a dar passos no sentido da desejada confiança entre as partes. Pela primeira vez desde 2007, Seul e Pyongyang reuniram-se na zona desmilitarizada, ao nível de generais, e acordaram o restabelecimento das linhas de comunicação militar.

Nesse encontro, e aproveitando uma deixa de Trump em Singapura — que admitiu suspender os exercícios militares com a Coreia do Sul, considerando-os “jogos de guerra muito caros e provocadores” —, os norte-coreanos pediram o fim desses treinos conjuntos. O próximo (o Ulchi Freedom Guardian, que simula um ataque da Coreia do Norte à do Sul) está marcado para agosto.

“O grande fator de mudança é o facto de os chefes de Estado e de Governo de ambos os países estarem dispostos a continuar a encontrar-se pessoalmente para resolver assuntos que importam a ambos os Estados, à região da Ásia-Pacífico e ao resto do mundo”, diz Saraiva.

Trump à defesa

Para a Coreia do Norte, a cimeira significou a quebra do isolamento internacional em que vive desde a sua criação, em 1948. Kim Jong-un foi ao estrangeiro pela primeira vez em março (de comboio até à China); no mês seguinte atravessou a pé o paralelo 38 em Panmunjom para se reunir com o homólogo sul-coreano, Moon Jae-in; foi outra vez à China; e esta semana voou até Singapura. Tudo contribui para que o líder norte-coreano tivesse considerado esta cimeira “histórica”.

Já Trump, sempre efusivo na hora de qualificar os seus feitos, não foi além de um “muito importante”, talvez ciente do que tem pela frente. Na quarta-feira procurou tranquilizar os americanos: “Antes de assumir o cargo as pessoas assumiam que estávamos a caminho de uma guerra com a Coreia do Norte”, escreveu no Twitter. “O Presidente Obama disse que a Coreia do Norte era o nosso maior e mais perigoso problema. Já não é — durmam bem esta noite!”

THE SINGAPORE MINT

CONTEXTO

Acordo
Trump e Kim assinaram uma declaração de quatro pontos, visando “uma nova relação”

Desnuclearização
Pyongyang promete “trabalhar no sentido da desnuclearização total da península coreana”. Versão dos EUA acrescentava “verificável” e “irreversível”

Irão
O texto não é comparável com o acordo do nuclear iraniano de 2015. Este tem 159 páginas (em inglês) e pormenoriza processo e calendário

Artigo publicado no Expresso, a 16 de junho de 2018