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Influência iraniana não para de crescer na região

As recentes eleições no Líbano ditaram um reforço das fações pró-Irão. O mesmo poderá acontecer nas legislativas deste sábado no Iraque. Do Golfo ao Magrebe, Teerão está em alta

Aeroportos e postos de fronteira no Iraque estão, este sábado, encerrados para que milhões de eleitores possam ir às urnas com um sentimento mínimo de segurança. Derrotado no país, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh, sunita) — que chegou a controlar um terço do território — ameaçou cobrir de sangue as primeiras eleições desde a sua capitulação. A circulação entre províncias está suspensa e a circulação rodoviária tem grandes restrições. O alerta é máximo.

Quinze anos após o início da guerra do Iraque, a segurança nacional continua a ser um projeto e a influência iraniana uma constante neste país de maioria xiita. Nas legislativas deste sábado, 27 coligações compostas por 143 partidos vão disputar lugares no Parlamento, entre as quais cinco importantes blocos xiitas — a coligação “Vitória do Iraque”, do atual primeiro-ministro xiita Haider al-Abadi procurará tirar dividendos do anúncio do fim do Daesh. Num país onde a política se faz em obediência a uma lógica sectária, a vitória dos xiitas não estará em causa. Resta saber se a influência iraniana em Bagdade se manterá ou se aumentará — como acaba de acontecer no Líbano.

Faz amanhã uma semana que o Irão foi um dos grandes vencedores das legislativas libanesas, as primeiras em nove anos. Hezbollah (elegeu 13 deputados) e Amal (15) — o “duo xiita” próximo de Teerão — foram quem mais ganhou num Parlamento de 128 lugares em que, por imperativo constitucional, 64 terão de ser preenchidos por cristãos (maronitas, ortodoxos, católicos, protestantes, etc.) e os outros 64 por muçulmanos (sunitas, xiitas, alauitas) e druzos.

Inversamente aos resultados xiitas, o partido do primeiro-ministro Saad al-Hariri, sunita e próximo da Arábia Saudita, foi um dos grandes derrotados. O Movimento Futuro perdeu deputados inclusive nos seus bastiões (Beirute, Trípoli e Sidon), o que fez soar os alarmes em Riade e, por “amizade”, em Washington também.

Donald Trump tinha até este sábado para decidir se continuaria a apoiar ou se retiraria os EUA do acordo sobre o nuclear iraniano. Não deixou que o prazo se esgotasse, nem esperou por eventuais cedências iranianas de última hora no sentido de uma revisão do acordo. Pressionado pela Arábia Saudita (que tem no Irão o grande rival) e por Israel (que tem fronteira com o Líbano e vive em alerta permanente em relação às movimentações do Hezbollah), Trump cortou a eito. Os resultados eleitorais no Líbano podem ter sido a provocação final à sua conhecida impaciência.

Do Iémen a… Marrocos

Iraque e Líbano são barómetros da influência iraniana na região, tal como a Síria, onde, ao apoiar Bashar al-Assad, que sobreviveu à guerra, Teerão mantém a sua influência intacta. Ontem, ao bombardear território sírio (ver texto de cima), foi o Irão que os israelitas quiseram atingir.

Teerão está em alta também na outra grande guerra em curso no Médio Oriente, no Iémen, onde apoia os rebeldes huthis, que controlam a capital. Na quarta-feira, o dia seguinte a Trump ter rasgado o acordo, os huthis dispararam mísseis que foram intercetados na direção de Riade, a capital da Arábia Saudita (árabe sunita). Esta lidera uma operação no Iémen para acabar com os huthis e, consequentemente, com a influência persa xiita no sul da península arábica.

A 1 de maio, sem alarido, Marrocos cortou relações com o Irão. Segundo Rabat, Teerão está por trás de ações do Hezbollah em território argelino, junto da Frente Polisário (que luta pela independência do Sara Ocidental). Do Golfo ao Magrebe, os tentáculos do Irão são sinónimos de crise.

Artigo publicado no “Expresso”, a 12 de maio de 2018

Nova embaixada dos EUA em Jerusalém “é por ali”

Esta segunda-feira, surgiram, nas ruas de Jerusalém, as primeiras placas de trânsito indicativas da futura localização da nova embaixada dos EUA em Israel. Transferida de Telavive após o reconhecimento da Cidade Santa como capital de Israel, será inaugurada na próxima segunda-feira, 14 de maio

Ainda não foi inaugurada, mas já há indicações de trânsito a sinalizar o local — para que não haja dúvidas de que vai mesmo avante. Esta segunda-feira, em Jerusalém, começaram a ser instaladas, nas ruas da Cidade Santa, placas informativas indicando a localização da futura embaixada dos Estados Unidos em Israel.

Escritas em inglês, hebraico e árabe, as placas apontam na direção do atual consulado dos Estados Unidos em Jerusalém, na parte sul da cidade.

Nir Barkat, o presidente da Câmara, arregaçou as mangas e associou-se aos trabalhos dos funcionários camarários. No Twitter, expressou a importância política daquele gesto: “Isto não é um sonho — é realidade! Esta manhã, instalei os sinais indicativos da nova embaixada dos EUA em Jerusalém! Jerusalém é a eterna capital do povo judeu — e o mundo começa a reconhecê-lo!”

https://twitter.com/ArchiveNir/status/993397248791924736?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E993397248791924736%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fexpresso.pt%2Finternacional%2F2018-05-07-Nova-embaixada-dos-EUA-em-Jerusalem-e-por-ali

A 6 de dezembro de 2017, numa decisão polémica, e amplamente condenada fora de portas, a Administração Trump reconheceu a Cidade Santa como capital do Estado de Israel e ordenou a transferência da sua representação diplomática de Telavive para Jerusalém.

Para os palestinianos — que sonham com Jerusalém como capital do seu futuro Estado —, essa decisão foi uma demonstração de que os Estados Unidos de Donald Trump não são mais um mediador credível para o processo de paz israelo-palestiniano.

A inauguração da nova embaixada dos EUA em Israel está marcada para a próxima segunda-feira, 14 de maio, dia em que o Estado judeu comemora 70 anos de vida.

A efeméride coincidirá com o fim da Grande Marcha do Regresso — em curso na Faixa de Gaza desde 30 de março —, com que os palestinianos pretendem lembrar que o Estado israelita, criado em 1948, se ergueu sobre terras que eram suas. A inauguração da nova embaixada dos EUA promete ter o efeito de um bidão de gasolina lançado sobre uma grande fogueira.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Se Trump rasga o acordo, Teerão vai atrás

Os Estados Unidos querem fazer alterações ao acordo sobre o programa nuclear iraniano. O Irão não aceita. E Israel deita achas na fogueira

Há uma data no horizonte a criar nervosismo na comunidade internacional — 12 de maio. Foi esse o dia limite dado pelo Presidente dos EUA para que sejam corrigidas “falhas” no acordo internacional sobre o programa nuclear do Irão. Depois, Donald Trump decidirá se Washington continua vinculado e a renunciar a sanções a Teerão ou se abandona o compromisso. “Se os EUA se retirarem, o acordo fica efetivamente morto, já que o Irão não está disposto a renegociar”, comenta ao Expresso Ghoncheh Tazmini, investigadora na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), da Universidade de Londres. “O JCPOA [sigla que identifica o acordo] é um documento vinculativo. Legalmente, os EUA não podem revogar um acordo multinacional que assinaram. Se o abandonarem unilateralmente, o Irão vai reagir e retirar-se.”

Para Trump, o JCPOA fica aquém em três domínios: não inclui o programa iraniano de mísseis balísticos, não detalha os termos das inspeções internacionais a instalações suspeitas e não prevê a necessidade de estender algumas limitações ao programa para lá dos prazos estipulados.

Diplomacia não compensa

“Uma saída dos EUA não levará a uma crise imediata. Porém, é provável que o Irão lentamente reinicie o seu programa nuclear civil, atualmente parado ou limitado pelo acordo”, diz a investigadora iraniana. E “pode optar por retirar-se do Tratado de Não-Proliferação [de Armas Nucleares], provocando uma corrida às armas na região”.

O eventual fim do acordo terá também consequências ao nível das sensibilidades políticas dominantes no seio da República Islâmica. Um afastamento dos EUA irá beneficiar os críticos do diálogo com o Ocidente. “Os iranianos vão interpretar qualquer violação do JCPOA como um indicador de que a diplomacia com a América não compensa”, alerta Ghoncheh Tazmini. “A linha dura irá ganhar terreno e os pragmáticos e reformistas terão dificuldades em defender negociações.”

Aliados do Irão na luta pela sobrevivência do acordo, os europeus têm-se coordenado na tentativa de demover Trump de decisões radicais. Na semana passada, o Presidente francês discursou no Congresso dos EUA: “Temos de garantir estabilidade e respeitar a soberania das nações, incluindo a do Irão, que representa uma grande civilização. Não vamos repetir erros do passado na região”, disse Emmanuel Macron. “Há um quadro legal chamado JCPOA para controlar a atividade nuclear do Irão. Assinámo-lo por iniciativa dos EUA. Assinámo-lo ambos, EUA e França. Não podemos dizer que devemos livrar-nos dele tão facilmente.” Esta semana, foi a vez de a chanceler alemã, Angela Merkel, rumar à Casa Branca para enfatizar a utilidade do acordo.

Inversamente, Israel parece empenhado em empurrar Trump para o confronto. Na segunda-feira, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pegou no microfone e protagonizou uma apresentação multimédia, no Ministério da Defesa, revelando “provas concludentes” de que “o Irão mentiu”. A União Europeia refutou as alegações de Telavive (com dados anteriores a 2015) dizendo não provarem violações ao acordo.

“Aliados dos EUA, como Israel e Arábia Saudita, irão apelar a uma ação militar contra o Irão”, diz Ghoncheh Tazmini, que a considera “impossível”.

“Um confronto militar com o Irão levará a uma dizimação regional, já que o Irão tem substitutos e próximos espalhados estrategicamente pela região” — apoia os regimes do Iraque e da Síria, os hutis no Iémen e o Hezbollah no Líbano ou onde quer que a milícia xiita esteja… Esta semana, Marrocos cortou relações com o Irão, acusando-o e ao Hezbollah de treinarem e armarem a Frente Polisário, que luta pela independência do Sara Ocidental.

Em guerra desde sempre

“A política de segurança do Irão é determinada pelo facto de o país estar em estado de guerra desde que se tornou uma República Islâmica — a longa e sangrenta guerra Irão-Iraque, ameaças perpétuas de mudança de regime, sanções…”, conclui a investigadora. Isso expôs o país à perceção de que “enfrenta uma ameaça existencial desde a sua criação. O Irão está bem preparado. Os EUA sabem que uma ação militar não é opção, por isso tentam obter mais concessões, pressionando para que alterações ao acordo possam restringir a influência, a única forma de limitar a projeção de poder do Irão.”

CONTEXTO

Acordo
O Irão aceita colocar o seu programa nuclear sob vigilância internacional em troca do fim das sanções

Signatários
Além do Irão, assinam o acordo EUA, Reino Unido, Rússia, França, China e Alemanha

Data
O Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) foi assinado em Viena a 14 de julho de 2015

Duração
As restrições são levantadas de forma faseada até 2031

Artigo publicado no Expresso, a 5 de maio de 2018

Os três tipos de apartheid impostos por Israel

Para o historiador Ilan Pappé, que vem a Lisboa esta semana, a criação de Israel assenta na limpeza étnica dos palestinianos

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Israel está em contagem decrescente para o seu 70º aniversário a 14 de maio, com a promessa de um presente desejado — a instalação da embaixada dos EUA em Jerusalém — que constitui uma grande provocação aos palestinianos. “Israel é uma história de sucesso em termos de criação de uma nova cultura, de uma economia vibrante, de uma nação altamente tecnológica e da união de imigrantes judeus de tantas partes do mundo. Mas esse sucesso foi construído sobre a ruína do povo palestiniano”, defende o historiador israelita Ilan Pappé, em entrevista ao Expresso. “Todo o projeto sionista consistiu na substituição dos palestinianos, que eram a população nativa, por imigrantes e colonos. Israel foi um projeto catastrófico para os palestinianos, e ainda o é em muitos aspetos.”

Professor na Universidade inglesa de Exeter, Ilan Pappé participará, esta semana, na conferência “Beyond Planetary Apartheid” (Além do Apartheid Planetário), no ISCTE, Lisboa. “Há três tipos de apartheid em Israel”, adianta. “Dentro das fronteiras de 1967 [o território israelita reconhecido internacionalmente], há um regime que discrimina os cidadãos palestinianos”, cerca de 20% da população total de Israel. “A maior parte da terra pertence à Agência Judaica, que não está autorizada a vender terra a ‘não judeus’; há locais onde os palestinianos não estão autorizados a viver; há subsídios, ajudas governamentais e financiamento público que dependem de ‘bom comportamento’, ou seja, se as pessoas negarem a sua identidade palestiniana”, por exemplo.

“Israel é uma história de sucesso, construída sobre a ruína do povo palestiniano”

Um segundo nível de apartheid acontece no território palestiniano da Cisjordânia, onde vivem 2,8 milhões de palestinianos e 400 mil colonos judeus. “Há uma segregação total, com ruas, reservas naturais, recursos hídricos só para judeus.” A ‘guetização’ da Faixa de Gaza, o outro território palestiniano, é um terceiro tipo de apartheid. Ali vigora um bloqueio por terra, mar e ar imposto por Israel e Egito.

Esta realidade faz de Ilan Pappé — nascido em 1954, em Haifa — defensor de um Estado único, binacional. “A solução de dois Estados poderia nunca acabar com o problema principal que é a natureza colonial do projeto sionista. É preciso descolonizar toda a Palestina histórica”, ou seja, os territórios palestinianos e Israel. “Com dois Estados, não há forma de se concretizar o direito de regresso dos palestinianos”, a reivindicação da Grande Marcha em curso em Gaza, pois a população árabe de Israel cresceria exponencialmente.

Ilan Pappé notabilizou-se em 2006, com o livro “A Limpeza Étnica da Palestina”, onde analisa o processo de independência de Israel (1948), a expulsão de milhares de palestinianos das terras onde viviam e a criação de uma realidade colonial que o novo Estado tentou alcançar “limpando etnicamente metade da população da Palestina, destruindo as suas cidades e demolindo metade das suas aldeias”. Esse processo continuou até à Guerra dos Seis Dias (1967) com “a imposição de medidas militares aos palestinianos de Israel” e depois aos da Cisjordânia e de Gaza.

Para conter Telavive, Pappé considera “muito útil” o movimento internacional que visa isolar Israel através de ações de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). “Envia uma mensagem dolorosa de que há um preço decorrente daquilo que Israel faz aos palestinianos.” E considera imperioso um maior envolvimento dos europeus. “Até agora, a Europa nada fez. Paga pela ocupação [é o maior doador dos palestinianos] e reage à impunidade de Israel dando-lhe imunidade. Reconhecer um Estado palestiniano seria um passo na direção certa.”

Artigo publicado no Expresso Diário, a 5 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Norte e Sul cumpriram. A palavra aos EUA…

Seul e Pyongyang querem assinar um tratado de paz e desnuclearizar a península. A cimeira entre Trump e Kim dirá se é sonho ou realidade

A cimeira de Panmunjom foi um passo importante no sentido da paz definitiva na península coreana, mas o ponto final no conflito que permanece em aberto desde 1953 não pode ser colocado sem a concordância dos Estados Unidos, signatários do Armistício, em representação das Nações Unidas. Daí que o histórico encontro, ontem, entre Moon Jae-in e Kim Jong-un tenha ficado aquém daquilo que ambos os líderes desejariam — o enterro do machado de guerra através da assinatura de um tratado de paz.

“Durante este ano em que se assinala o 65º aniversário do Armistício, Coreia do Sul e Coreia do Norte concordaram em procurar ativamente encontros a três, envolvendo as duas Coreias e os Estados Unidos, ou encontros a quatro, envolvendo as duas Coreias, os Estados Unidos e a China, com vista à declaração do fim da guerra e ao estabelecimento de uma paz permanente e sólida”, consagra a “Declaração de Panmunjom para a Paz, Prosperidade e Unificação na Península Coreana”, assinada por Kim e Moon.

Tal como o Presidente sul-coreano desejara há dias, a cimeira — a terceira de sempre, ao mais alto nível, entre Norte e Sul — é, acima de tudo, um trampolim para um desejado encontro entre Estados Unidos e Coreia do Norte — esse, sim, inédito —, o único fórum com autoridade política para ditar decisões sobre os grandes diferendos.

O maior deles é a desnuclearização da península. Sobre o assunto, a “Declaração de Panmunjom” — dirigida a “80 milhões de coreanos”, sem distinção de Norte e Sul — confirmou “o objetivo comum” de uma “completa desnuclearização” do território. A interpretação do que isso significa, em termos práticos, é uma frente da próxima batalha diplomática entre Washington e Pyongyang: os norte-americanos serão tentados a pensar que desnuclearizar a península é acabar com o arsenal nuclear norte-coreano, à semelhança do que aconteceu com a Líbia de Kadhafi. “Devíamos insistir que se o encontro se realizar deve ser similar às discussões que tivemos com a Líbia há 13 ou 14 anos: como arrumar o programa de armas nucleares deles e levá-lo para [o Laboratório Nacional de] Oak Ridge, no Tennessee”, defendeu recentemente John Bolton, conselheiro de Trump para a Segurança Nacional.

Sem data nem local, a cimeira Trump-Kim recebe de Panmunjom o melhor legado: a vontade comum do início de uma nova era

Já os norte-coreanos, que sentem há décadas a presença militar dos Estados Unidos na Coreia do Sul como uma ameaça direta, poderão exigir o regresso a casa dos cerca de 28 mil militares norte-americanos estacionados no Sul. Num comunicado surpresa, a 20 de abril, durante uma reunião do Partido dos Trabalhadores da Coreia, Kim Jong-un anunciou a suspensão dos testes nucleares e de mísseis balísticos intercontinentais e o desmantelamento das instalações usadas para os exercícios nucleares, em Punggye-ri, no norte do país. No Twitter, Donald Trump saudou a “muito boa notícia para a Coreia do Norte e para o mundo — um grande progresso! Aguardo a nossa cimeira”.

A CIA em Pyongyang

Com um fuso horário de 13 horas entre Washington D.C. e Seul, o staff da Casa Branca manteve-se acordado madrugada fora, reagindo como parte interessada às imagens que chegavam de Panmunjom e que faziam notícia em todo o mundo. Num comunicado, a Presidência desejou que as conversações progridam no sentido de “um futuro de paz e prosperidade em toda a península” e desejou “a continuação de discussões robustas na preparação do planeado encontro entre Donald Trump e Kim Jong-un”.

Na sua conta oficial no Twitter, a Casa Branca aproveitou a confirmação, no Congresso, de Mike Pompeo como novo secretário de Estado para publicar duas fotos de um recente encontro, em Pyongyang, entre o então diretor da CIA e o líder da Coreia do Norte. Pompeo “fará um excelente trabalho ajudando o Presidente Trump a liderar os nossos esforços no sentido da desnuclearização da Península Coreana”, diz o post.

Sem data nem local anunciados, a cimeira Trump-Kim recebe de Panmunjom o melhor dos legados — sorrisos e uma vontade comum de iniciar uma nova era entre as Coreias. Mas o imprevisível Trump não tem o feitio do conciliador Moon. “Se quando eu lá estiver o encontro não for frutuoso”, já avisou o Presidente dos EUA, “levanto-me respeitosamente e abandono a sala”.

QUEM É MOON JAE-IN?

O encontro entre Moon Jae-in e Kim Jong-un foi, para o sul-coreano, muito mais do que uma questão de Estado — foi também um assunto do coração. Nascido a 24 de janeiro de 1953, a meio ano do fim da Guerra da Coreia, Moon Jae-in é filho de um casal oriundo do norte da península. Em fuga ao regime comunista de Kim Il-sung — avô do atual líder norte-coreano, que assumiu as rédeas do país em 1948 —, os pais deixaram Hungnam e fizeram-se ao mar durante três dias, no convés de um navio norte-americano repleto de refugiados. Desembarcaram na ilha de Geoje, no sul da península, onde passaram a viver e onde Moon Jae-in nasceu. Foi o primeiro de cinco filhos.

Naquela ilha, a família lutou para escapar à pobreza. Quando a mãe ia vender ovos, o filho ia amarrado às costas. Na sua autobiografia, lançada em 2011, Moon escreveu: “Quando a reunificação [coreana] pacífica chegar, a primeira coisa que quero fazer é pegar na minha idosa mãe e levá-la à sua terra natal.” “Moon Jae-in: O Destino” foi lançada em 2011, quando o autor ainda não tinha carreira política — fora apenas assessor do Presidente Roh Moo-hyun (2003-2008), de quem era amigo. Mas Moon já levava décadas de combate. Primeiro como líder estudantil, contra a ditadura militar, o que levaria a que fosse expulso da Universidade Kyung Hee, em Seul, onde estudava Direito, e fosse preso. E, posteriormente, na barra dos tribunais, com Moon a exercer advocacia na área dos direitos humanos e civis.

O suicídio de Roh, em 2009, afetado por um escândalo de corrupção que envolvia familiares do ex-Presidente — que Moon sentiu de forma particular —, foi o tiro de partida para se aventurar na política. Foi deputado entre 2012 e 2016 e líder do Partido Democrático (liberal). Aos poucos foi construindo a imagem de um político pragmático, que tocava os mais jovens e em quem se podia confiar. Perdeu as presidenciais da primeira vez que foi a votos, em 2012, para Park Geun-hye, a primeira mulher na Casa Azul, que seria destituída e condenada a 24 anos de prisão por corrupção. Cinco anos depois foi Moon Jae-in que o povo escolheu para virar essa página negra.

Na presidência, este católico, casado com a cantora Kim Jung-sook (que conheceu na universidade) e pai de um rapaz e de uma rapariga, sempre defendeu a aproximação aos norte-coreanos, mesmo quando de Pyongyang, em vez de palavras conciliatórias, só se ouviam ordens de lançamento de mísseis cada vez mais ameaçadores. “Não acho que seja desejável para a Coreia do Sul sentar-se no banco de trás e observar as discussões entre os Estados Unidos e a China e os diálogos entre a Coreia do Norte e os EUA”, defendeu numa entrevista ao jornal “The Washington Post” por alturas da sua eleição. Ontem, o lugar da frente foi seu, ao ser o anfitrião, pela primeira vez na História, de um líder da Coreia do Norte.

(Foto: Kim Jong-un e Moon Jae-in, a 27 de abril de 2018, em Panmunjom CASA AZUL (CHEONGWADAE) / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 28 de abril de 2018