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Prémio Champalimaud recompensa hospital empenhado no “combate à cegueira na Palestina”

Com mais de 140 anos de vida e trabalho de qualidade na área da oftalmologia, o Hospital Oftalmológico São João de Jerusalém recebe, esta quarta-feira, o prémio anual atribuído pela Fundação Champalimaud. Em entrevista ao Expresso, um responsável do hospital explica por que razão este prémio, no valor de um milhão de euros, chega no momento certo. E também porque nos territórios palestinianos há dez vezes mais casos de cegueira e de deficiência visual do que em qualquer país europeu

O Prémio António Champalimaud de Visão, que anualmente reconhece trabalho desenvolvido na área da prevenção da cegueira, distinguiu, este ano, um projeto de excelência e de grande resiliência atendendo ao nível de conflitualidade na região em que se insere.

O galardoado é o Hospital Oftalmológico São João de Jerusalém (St. John of Jerusalem Eye Hospital, na designação internacional), localizado no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental. Esta é a parte árabe da cidade histórica anexada por Israel e onde, com frequência, irrompem atos de violência entre árabes e judeus.

A Fundação Champalimaud justificou o reconhecimento — e a atribuição de um prémio no valor de um milhão de euros — “pelo empenho na prestação de cuidados oftalmológicos essenciais numa região marcada pelo conflito”, e em especial “pelo combate à cegueira na Palestina”.

“Este generoso prémio chega num excelente momento. Fortalecerá a nossa determinação em estendermos os nossos braços amigos a mais pessoas marginalizadas que necessitam de cuidados oftalmológicos nesta parte tão problemática do mundo”, reagiu Ahmad Ma’ali, CEO do St. John, em entrevista ao Expresso.

“O nosso hospital é a única instituição de beneficência prestadora de cuidados oftalmológicos para as pessoas que vivem na Terra Santa, e dependemos muito de receitas voluntárias que representam 55% a 60% do nosso orçamento operacional”, que supera os 15 milhões de euros, diz o responsável. E anuncia: “Estamos prestes a lançar outro projeto, na parte norte da Cisjordânia [território palestiniano ocupado por Israel]. Nos próximos seis a oito meses, esperamos ter um hospital em funcionamento nessa região que forneça cuidados oftalmológicos de qualidade a quem aí vive. Por isso, o momento deste prémio é perfeito.”

As causas de um grande problema

Nos territórios palestinianos, os casos de cegueira e deficiência visual são cerca de dez vezes mais do que os registados em qualquer país europeu. “Há muitas razões para isso. Por vezes, decorre da falta de acesso a cuidados, outras têm que ver com pobreza e falta de conhecimento”, explica o responsável palestiniano.

Outras causas possíveis são “consanguinidade ou casamentos entre primos de primeiro grau, que ocorrem em cerca de 38-40% da população. Os filhos nascem geralmente com catarata, glaucoma e outras doenças hereditárias.” Tal decorrerá de questões sociais e culturais, mas também dos enormes desafios à mobilidade que enfrentam quem vive nos dois territórios palestinianos (Cisjordânia e Faixa de Gaza).

Unidades móveis para chegar a quem não se pode deslocar

Além do hospital-mãe em Jerusalém, o St. John tem instalações em Gaza (território sob bloqueio) e Hebron (no sul da Cisjordânia). Numa região onde ir à urgência de um hospital ou a uma normal consulta médica pode implicar longas esperas em postos de controlo, este hospital dispõe de equipas móveis que se deslocam para a área C — zonas da Cisjordânia controladas a 100% por Israel — e para aldeias remotas ou isoladas.

“Temos mais de 140 anos, fomos o primeiro hospital oftalmológico a estabelecer-se em todo o Médio Oriente. Devido à instabilidade, à insegurança política que atravessamos há muitos anos, decidimos que se as pessoas não conseguem chegar até nós, precisamos de chegar às pessoas. E por isso, tornámo-nos um grupo de hospitais. Com esta estratégia, quem precisar de nós poderá alcançar-nos.”

Ahmad Ma’ali
CEO do St. John of Jerusalem Eye Hospital

Em 2022, o St. John tratou quase 143 mil pacientes e realizou cirurgias em mais de 6900. “Fomos credenciados como hospital de qualidade pela Joint Commission International”, um organismo de acreditação de unidades de saúde, com sede nos Estados Unidos.

“Portanto, não se trata apenas da quantidade, mas também da qualidade do atendimento. De muitas formas, o hospital lidera ao nível da formação oftalmológica de médicos e enfermeiros, além de liderar na prestação de cuidados oftalmológicos”, realça Ma’ali.

Excelente colaboração com hospitais de Israel

Entre os cerca de 260 profissionais do hospital, há pessoal de todas as origens sociais e religiosas. A esmagadora maioria dos pacientes é árabe muçulmana, mas as portas estão abertas a cristãos e judeus.

“Temos muito poucos pacientes judeus, uma vez que eles têm um serviço avançado e gratuito do lado israelita. Mas estamos abertos a toda a gente, mesmo colonos e soldados que procurem cuidados médicos à nossa porta”, garante Ahmad Ma’ali, que trabalha no hospital há 30 anos. “Somos também um local de formação para ortoptistas judeus, que nos são enviados pelo Hadassah [hospital universitário israelita de referência, também em Jerusalém Oriental]. Temos uma excelente colaboração com hospitais de Israel.”

Um desejo da rainha Vitória de Inglaterra

Criado em 1882, por determinação da rainha Vitória de Inglaterra, o St. John, que pertence à Ordem de São João, é um hospital “profundamente enraizado nos ensinamentos cristãos. O próprio nome é um indicador disso”, diz o CEO da instituição. “A nossa missão é tratar a todos, independentemente da raça, religião, classe social ou capacidade para pagar” os cuidados médicos ou tratamentos.

“Ficamos felizes em fazer parcerias com quem quer que seja — judeus, muçulmanos, cristãos — que compartilhe o mesmo espírito. Atravessamos fronteiras, deixamos a política para os políticos e concentramo-nos na vertente humanitária do nosso trabalho”, prossegue o CEO do hospital.

O Prémio António Champalimaud de Visão é entregue esta quarta-feira, numa cerimónia realizada na Fundação Champalimaud, com a presença do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Esta ligação disponibiliza a lista de vencedores das edições passadas, bem como a composição do júri.

(FOTO Ahmad Ma’ali, CEO do Hospital Olftalmológico São João de Jerusalém, fotografado na Fundação Champalimaud NUNO BOTELHO)

RELACIONADO: Um hospital com visão para reduzir a cegueira na Palestina

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de setembro de 2023. Pode ser consultado aqui

As dificuldades de Volodymyr Zelensky para alimentar o guião heroico da guerra

Falta de resultados rápidos na contraofensiva fragiliza narrativa “cinematográfica” do Presidente ucraniano

Dezoito meses passados desde o início da invasão russa, a Ucrânia enfrenta um drama particular dentro da tragédia maior que é a guerra. Com o passar do tempo, o cansaço relativamente ao tema tende a acentuar-se e os espaços informativos dedicam-lhe menos atenção. Mas para Kiev manter o assunto relevante é crucial para não ficar só.

O desafio está entregue em especial ao Presidente, um antigo comediante que com­preendeu, aos primeiros disparos russos, que a importância da comunicação estava ao nível das movimentações militares. “Volodymyr Zelensky percebeu que a Ucrânia só podia ter um combate minimamente equilibrado com a Rússia se conseguisse manter o conflito no topo da agenda político-mediática”, comenta ao Expresso Alexandre Guerra, profissional na área da comunicação e especialista em assuntos internacionais. “Ele sabia que a realidade da guerra, por si só, não chegava para mobilizar a opinião pública interna e a comunidade internacional.”

No espaço da antiga União Soviética duas contendas serviam de aviso a Zelensky. Primeiro, a guerra entre Rússia e Geórgia, em 2008, que culminou com o reconhecimento por parte de Moscovo da independência das repúblicas separatistas georgianas de Ossétia do Sul e Abecásia. E depois, em 2014, a invasão e anexação da península ucraniana da Crimeia, no que é considerado um preâmbulo da guerra atual.

Nos dois casos a agressão russa não suscitou reações práticas. “A realidade não foi sufi­ciente para os aliados europeus e americano se mobilizarem numa resposta perentória à Rússia”, diz o autor do livro “A Política e o Homem Pós-Humano”. “Zelensky tinha essa lição bem estudada. E, estando habituado a amplificar a realidade e até a recriá-la, sabia que teria de criar uma espécie de realidade aumentada da guerra.”

Série com três temporadas

“Por necessidade, e não por capricho”, Zelensky tornou-se realizador e a sua equipa de comunicação argumentista de um ‘guião cinematográfico’, criando heróis e exacerbando conquistas, tudo para tocar as pessoas. O que acontecia no terreno, e que Zelensky comentava em intervenções diárias, “ajudou a enaltecer os feitos como se fossem temporadas de uma série”, ilustra Guerra.

A frase “preciso de munições, não de uma boleia”, atribuída a Zelensky dois dias após a invasão, contribuiu para criar a lenda, sem que haja certeza de que ele a tenha efetivamente dito quando confrontado por uma oferta dos norte-americanos para o resgatar de Kiev. Seguiu-se “a resistência heroica de Kiev, um momento de uma enorme espetacularidade, em que ele não se poupou a puxar pelos feitos dos seus soldados”.

Ao estilo de uma segunda temporada, a reconquista de Kharkiv motivou o Presidente a fazer uma promessa épica: “A bandeira ucraniana retornará a todas as partes do nosso país. Como na região de Kharkiv [Nordeste], os guerreiros ucranianos encontrar-se-ão no Donbas [Leste], no Sul e na Crimeia. Vai acontecer”, disse após visitar a zona de Kharkiv.

“Zelensky sabia que as opiniões públicas internacionais gostam de uma boa história. A dada altura, o próprio começou a alimentar a expectativa de uma grande contraofensiva em múltiplas frentes” — uma terceira temporada da guerra —, “à imagem da II Guerra Mundial. Zelensky nunca escondeu ser muito inspirado por Churchill”.

Contraofensiva silenciosa

A ideia de uma reviravolta na guerra, a expensas da derrocada da Rússia, encaixava nas expectativas dos ucranianos e comprometia o Ocidente com Kiev. Entrou no argumentário de análise ao conflito, mas os resultados tardaram. No terreno, os militares ucranianos, cientes de que as conquistas não surgem por artes mágicas, começaram a fazer-se ouvir. A 30 de junho, ao jornal “The Washington Post”, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Ucrânia, Valery Zaluzhny, realçava a capacidade militar da Rússia. “Não sentimos que a defesa deles tenha ficado mais fraca”, disse quando questionado sobre o possível impacto do motim do Grupo Wagner no esforço inimigo.

“A contraofensiva era um processo militar que estava em curso de forma lenta e gradual. O problema é que a história que Zelensky quis dar ao mundo era mais espetacular. E a dada altura a sua retórica hollywoodesca ficou muito desfasada da realidade no terreno”, diz Alexandre Guerra. “Os resultados militares não eram compatíveis com aquilo que Zelensky anunciava. E quando se começou a exigir ganhos rápidos, as chefias militares sentiram frustração.” (Ver texto ao lado.)

Este mês, Zelensky despediu os responsáveis de todos os centros de recrutamento militar do país, fragilizados por casos de suborno por parte de ucranianos que não queriam ir combater. Meses antes já tinha demitido de forma abrupta o chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e a procuradora-geral do Estado, alegando haver funcionários nesses órgãos a colaborar com a Rússia.

“A realidade que Zelensky criou, também a nível interno, passava pela ideia de cidadãos super-heróis, todos eles dispostos a ir para a linha da frente”, conclui Guerra. “Ora, a realidade nunca foi bem assim.”

Sem ser um líder consen­sual, o Presidente tem provado estar à altura do desafio. Deu ímpeto à resistência e injetou esperança no povo. Há dois meses disse à BBC: “Algumas pessoas acham que isto é um filme de Holly­wood e esperam resultados imediatos. Não é. O que está em jogo é a vida das pessoas.” Por breves momentos, Zelensky jogou à defesa.

SEIS MARCOS DA ESTRATÉGIA DE COMUNICAÇÃO DO PRESIDENTE DA UCRÂNIA

25/2/2022
No dia seguinte à invasão, num vídeo filmado numa rua de Kiev, era já noite, Zelensky mostra-se na companhia de responsáveis políticos. “Boa-noite a todos. O líder do partido está aqui, o chefe de gabinete do Presidente está aqui, o primeiro-ministro [Denys] Shmyhal está aqui, o [principal conselheiro da presidência, Mikhail] Podoliak está aqui, o Presidente está aqui. Estamos todos aqui.” O comandante assegurava que não abandonaria o barco.

1/3/2022
Zelensky intervém, de forma virtual, no Parlamento Europeu. Seria o primeiro de 42 discursos em Parlamentos estrangeiros: 35 por videoconferência (incluindo na Assembleia da República) e sete presencialmente.

3/4/2022
Numa mensagem gravada e transmitida durante a gala dos Prémios Grammy, Zelensky apela ao coração: “Os nossos músicos usam armaduras em vez de smokings.”

21/12/2022
Vai aos Estados Unidos, a primeira deslocação ao estrangeiro. No total, visitou 21 países desde o início da guerra. Foi três vezes à Polónia.

26/12/2022
É Pessoa do Ano da “Time”.

10/1/2023
Fala, por vídeo, nos Globos de Ouro. Em março, Hollywood rejeita ouvi-lo nos Óscares.

QUATRO ‘RALHETES’ AO PRESIDENTE

Contra ofensiva lenta
“Isto não é um show”
Com a contraofensiva nas notícias, a 30 de junho “The Washington Post” entrevista o chefe do Estado-Maior da Ucrânia, que admite que a operação segue ao ritmo possível, atendendo à forte defesa da Rússia. “Isto não é um show a que o mundo inteiro assiste e faz apostas”, disse Valery Zaluzhny. “Cada metro é conseguido com sangue.” O general mostra-se “irritado” com quem se diz frustrado com a falta de resultados. Nove dias antes, à BBC, Zelensky disse que os progressos eram “mais lentos do que o desejado”.

Adesão à NATO
“Não somos a Amazon”
Paralelamente aos pedidos de armas, Zelensky pugnou por adesões rápidas à União Europeia e à NATO. Mas na cimeira da Aliança Atlântica em Vílnius, a 11 e 12 de julho, ele surgiu como um homem só, após ‘levantar a voz’ no Twitter: “É inédito e absurdo que não seja definido um prazo nem para o convite nem para a adesão da Ucrânia.” O post não caiu bem junto dos aliados. O ministro britânico da Defesa verbalizou o que muitos mais terão pensado. “Já lhes tinha dito, no ano passado, quando viajei 11 horas [até Kiev] para receber uma lista [de armamento]… não somos a Amazon”, disse Ben Wallace. “As pessoas querem ver um pouco de gratidão.”

Defesa russa
“Queríamos resultados muito rápidos, mas…”
A 18 de julho, numa entrevista à BBC, Oleksandr Syrskyi, o comandante das forças armadas terrestres ucranianas que liderou a defesa de Kiev e foi o cérebro do contra-ataque em Kharkiv, disse: “Gostávamos de obter resultados muito rápidos, mas é praticamente impossível.” O general explicou que o Leste e o Sul do país estavam saturados com campos minados e barreiras defensivas colocadas pelos russos. São exemplos valas para tanques e fortificações “dentes de dragão”, que desaceleram o avanço dos blindados.

Solução política
“Outra saída é negociar”
Há uma semana, Mark Milley, líder do Estado-Maior conjunto dos EUA, juntou-se ao coro de altas patentes que alertam para uma contraofensiva “longa, lenta e muito sangrenta”. À televisão jordana Al-Mamlaka, o general realçou o complexo sistema defensivo russo e apontou outro caminho: “Derrotar militarmente 200 ou 300 mil soldados russos é muito difícil e desafiador. Outra saída para esta situação é através de negociações.”

(FOTO Volodymyr Zelensky, Presidente da Ucrânia PRESIDÊNCIA DA UCRÂNIA)

Artigo publicado no “Expresso”, a 1 de setembro de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Problemas na justiça afastam Trump do combate político: “O público sabe quem sou”

Ex-Presidente, que lidera as sondagens, faltou ao primeiro debate entre candidatos às primárias republicanas

Foto de BRENDAN SMIALOWSKI / Getty Images. Ilustração fotográfica de LINDSEY BAILEY / AXIOS

Se em 234 anos, tantos quantos passaram desde a criação da presidência dos Estados Unidos, nunca um titular do órgão tinha sido acusado criminalmente pela Justiça do país, Donald Trump levou essa distinção ao exagero. Só este ano, o 45º chefe de Estado já foi indiciado em quatro processos criminais, abertos noutros tantos estados. Em dois deles, o início do julgamento já tem data.

Um dos casos é especialmente mais grave do que os restantes — a acusação de interferência eleitoral na Georgia, após as presidenciais de 2020, que Trump perdeu para Joe Biden por menos de 12 mil votos. Este mês, um grande júri desse estado do sueste implicou Trump e 18 aliados na constituição de uma “empresa criminosa” visando subverter a derrota do republicano naquele estado crucial para as contas finais.

DeSantis respondeu que os Estados Unidos “estão em declínio” e que tal “não é inevitável, é uma escolha”. E acrescentou: “Precisamos de mandar Joe Biden de volta para o seu porão e reverter o declínio americano.”

A acusação tem por base a Lei das Organizações Corruptas e Influenciadas por Extorsionistas (RICO, na sigla inglesa) da Georgia, que possibilita à Justiça o agrupamento daquilo que possam parecer crimes não relacionados, cometidos por pessoas diferentes, mas percecionados como tendo objetivo comum — neste caso, manter Donald Trump na Casa Branca a partir de 20 de janeiro de 2021, à revelia da vontade do eleitorado.

Rendições até ao meio-dia

Foi graças a uma lei deste género que, na década de 1980, Rudy Giuliani, à época procurador do Distrito Sul de Nova Iorque, combateu a máfia da cidade, de que mais tarde seria presidente da Câmara. Agora, o ex-advogado de Trump é um dos acusados ao abrigo da mesma lei. Quarta-feira, entregou-se às autoridades numa prisão de Atlanta, a capital da Georgia. Saiu em liberdade após pagar uma fiança de 150 mil dólares (€138 mil).

Se for condenado no caso de interferência eleitoral na Georgia, o ex-Presidente incorre numa pena de prisão de entre 5 e 20 anos

Os 19 implicados neste processo têm até ao meio-dia de hoje (17 horas em Portugal Continental) para se renderem, incluindo Trump, que aceitou entregar-se mediante o pagamento de uma fiança fixada em 200 mil dólares (€184 mil). O acordo proíbe-o explicitamente de usar as redes sociais para atingir ou abordar réus e testemunhas do caso. Se for condenado, o ex-Presidente incorre numa pena de prisão de entre 5 e 20 anos.

Os inúmeros e graves problemas com a Justiça afastaram Trump do combate político. Quarta-feira à noite, o Fiserv Forum, em Milwaukee (Wisconsin), acolheu o primeiro debate entre candidatos às primárias republicanas com vista às presidenciais de 5 de novembro de 2024. O ex-Presidente faltou e esbanjou confiança na hora de justificar a ausência. “O público sabe quem sou e que presidência bem-sucedida tive”, afirmou, domingo passado, na sua rede social Truth Social. “Portanto, não participarei nos debates.”

Favoritismo esmagador

No mesmo dia, uma sondagem da televisão CBS creditava-o com 62% das preferências de voto. Dos inquiridos, 77% consideravam as acusações na Justiça contra Trump motivadas por razões políticas e 99% dos que escolhiam ou consideravam votar em Trump defendiam que “as coisas estavam melhores” com ele na Casa Branca.

O seu adversário mais próximo, o governador da Florida, Ron DeSantis, ficava à distância de quase 50 pontos percentuais (16%). Os restantes sete candidatos analisados não atingiam a fasquia dos 10%. Mike Pence, o antigo vice-presidente de Trump, não ia além dos 5%.

Entrevista para ofuscar

Apesar da vantagem esmagadora nas sondagens, bem ao seu estilo, Trump não deu de barato todo o tempo de antena aos oito adversários que foram a debate. Cinco minutos antes de arrancar a discussão em Milwaukee, começou a ser transmitida na rede social X (antigo Twitter) uma entrevista de Trump concedida a Tucker Carlson, polémico apresentador despedido há tempos da Fox News.

A conversa de cerca de 45 minutos, pré-gravada no clube de golfe de Trump em Bedminster, Nova Jérsia, não fez manchetes, mas roubou audiência ao debate republicano, com mais de 80 milhões de visualizações nas duas horas que se seguiram à sua divulgação. Ao mesmo tempo que desviou atenções dos antagonistas, Trump fez uma provocação à Fox News, que transmitiu o debate em direto, e com quem Trump já teve melhores dias.

E se Trump for condenado…

Em Milwaukee, o assunto Trump apenas surgiu na segunda metade da discussão (que durou duas horas), porventura para dar tempo a que quem acorreu a ouvir o ex-Presidente na rede social voltasse a sintonizar a Fox. O moderador referiu-se a Trump como “o elefante que não está na sala” e perguntou aos oito candidatos se tencionam apoiá-lo na eventualidade de ele ganhar a nomeação republicana às eleições de 2024 e for também condenado na Justiça.

Quatro foram rápidos a levantar a mão — Doug Burgum (governador do Dacota do Norte), Tim Scott (senador pela Carolina do Sul), Nikki Haley (ex-governadora da Carolina do Sul e antiga embaixadora dos EUA na ONU) e Vivek Ramaswamy (empresário). Outros dois foram lentos a fazê-lo — Ron DeSantis e Mike Pence (também ex-governador do Indiana). Um demonstrou relutância (Chris Christie, antigo governador da Nova Jérsia) e apenas um assumiu que não o apoiaria (Asa Hutchinson, ex-governador do Arkansas).

Num debate em Milwaukee, oito republicanos disputaram o título de ‘melhor candidato alternativo’ a Trump

A pergunta não foi inocente, já que um dos critérios previamente estabelecidos pelo Comité Nacional Republicano para selecionar os participantes no debate foi a assinatura do “Compromisso Vencer Biden”, com o qual os candidatos prometeram apoiar o vencedor da nomeação republicana, fosse quem fosse, no duelo contra Biden, previsível vencedor incontestado da nomeação democrata. Duas outras exigências foram a obtenção de pelo menos 1% das intenções de voto em três sondagens nacionais e já terem angariado um mínimo de 40 mil doadores únicos para a sua campanha.

Durante duas horas, e perante uma audiência ao vivo de 4 mil pessoas (que reagia a cada resposta e não se inibia de vaiar quem criticasse Trump), os oito republicanos — com idades entre os 38 anos (Vivek Ramaswamy) e os 72 (Asa Hutchinson) — disputaram o título de ‘melhor candidato alternativo’ a Trump, o mais velho de todos (77 anos). Para alcançá-lo, o alvo preferencial foi Joe Biden, que tem mais quatro anos do que Trump.

O significado da canção

Consistente no segundo lugar das preferências de voto republicanas, DeSantis apontou ao atual Presidente quando confrontado sobre o porquê de o grande êxito musical do momento no país (‘Rich Men North of Richmond’, em português homens ricos a norte de Richmond) ser um tema country interpretado por um artista desconhecido (Oliver Anthony) que discorre sobre os problemas e as frustrações da classe trabalhadora e aponta o dedo aos poderosos de Washington.

OS CASOS QUE ATRAPALHAM TRUMP

O ex-Presidente enfrenta 91 acusações em quatro processos abertos em estados diferentes. Dois julgamentos já têm data

SUBORNO COMO DESPESA LEGAL
A campanha para as presidenciais de 2016, que Donald Trump venceu, estava nas últimas semanas quando saíram das suas contas 130 mil dólares para evitar um escândalo. A verba foi usada para comprar o silêncio de Stormy Daniels, atriz de filmes pornográficos com quem Trump se terá envolvido. A transação configura possível violação da lei estadual de Nova Iorque, não pelo pagamento em si, mas por ser registada como despesa legal. Trump enfrenta 34 acusações sobre falsificação de registos comerciais, num julgamento agendado para 25 de março de 2024. Sendo o crime estadual, só o governador de Nova Iorque poderá perdoar-lhe.

POSSE DE DOCUMENTOS SECRETOS
Na Florida, onde vive no luxuoso resort de Mar-a-Lago, Trump responde por 40 acusações de posse de documentos confidenciais, alguns classificados como “ultrassecretos”, que terá levado quando deixou a Casa Branca, em janeiro de 2021. Devolveu caixas de documentação, mas subsistiram suspeitas de que mantinha na propriedade registos importantes, o que lhe valeu uma acusação de obstrução aos esforços das autoridades para reavê-los. O início do julgamento está agendado para 20 de maio de 2024. Estando em causa crimes federais, se Trump for reeleito Presidente poderá absolver-se a si próprio.

REVERTER A DERROTA DE 2020
O 45º Presidente enfrenta quatro acusações de crimes federais relativas a uma ampla campanha destinada a reverter o resultado oficial da eleição presidencial de 2020, que Trump perdeu para Joe Biden. Em causa estão disseminação de informação falsa sobre fraude eleitoral ou pressão sobre autoridades estaduais republicanas para minar resultados vitoriosos de Biden. O último esforço culminou com a invasão ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, por uma multidão de apoiantes que tentou abortar a transferência de poder. O processo decorre em Washington. Se reeleito e condenado, Trump poderá perdoar-se.

INTERFERÊNCIA ELEITORAL
É o caso mais grave e pode valer ao ex-Presidente entre 5 e 20 anos de prisão. Trump enfrenta 13 acusações de tentativa de interferência eleitoral na Georgia, estado crucial para o desfecho das eleições de 2020. A 2 de janeiro de 2021, ao telefone, incitou o secretário de estado da Georgia (republicano) a “encontrar” 11.780 votos, necessários para ganhar a Biden. Várias recontagens confirmaram a vitória do democrata. Além de Trump, estão acusados 18 aliados, ao abrigo de legislação estadual usada para acusar máfias e gangues do crime. Os perdões são concedidos por um painel de cinco membros nomeado pelo governador.

Artigo publicado no “Expresso”, a 25 de agosto de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Primeiro debate entre candidatos republicanos não conseguiu ignorar “o elefante que não esteve na sala”

Donald Trump falhou ao debate do Partido Republicano que foi tiro de partida para a próxima corrida à Casa Branca, quarta-feira à noite. O ex-Presidente, que lidera destacado as sondagens para a nomeação do ‘partido do elefante’ e prometeu entregar-se à justiça esta quinta-feira, não foi a Milwaukee, mas montou um palco só para si. Sensivelmente à mesma hora, foi publicada numa rede social uma entrevista sua ao polémico apresentador Tucker Carlson

No sentido dos ponteiros do relógio, a partir do canto superior esquerdo: Mike Pence, Ron DeSantis, Nikki Haley, Vivek Ramaswamy, Chris Christie, Asa Hutchinson, Tim Scott e Doug Burgum SCOTT OLSON, DREW ANGERER / GETTY IMAGES

A 441 dias das próximas presidenciais nos Estados Unidos, abriu mais uma época eleitoral no país, com o primeiro debate na televisão entre candidatos às primárias do Partido Republicano. Transmitido pela conservadora Fox News, realizou-se no Fiserv Forum, em Milwaukee, Wisconsin, um estado simbólico que os republicanos consideram ser crucial para decidir as próximas eleições.

A braços com graves problemas na justiça — 91 acusações criminais no âmbito de quatro processos abertos em quatro estados e dois julgamentos já agendados —, Donald Trump, que lidera de forma destacada todas as sondagens relativas à corrida republicana, faltou ao debate.

“O público sabe quem eu sou e que presidência bem-sucedida tive. Por essa razão, não participarei em debates”, escreveu, dias antes, na sua rede social Truth Social, deixando no ar a possibilidade de não comparecer a nenhuma discussão futura.

Trump aposta na contraprogramação

Bem ao seu estilo, Trump não deu de barato todo o tempo de antena aos adversários. Cinco minutos antes de o debate começar, foi para o ar, na rede social X (antigo Twitter), uma entrevista de Trump concedida a Tucker Carlson, apresentador despedido da Fox News, pré-gravada no seu clube de golfe em Bedminster, Nova Jérsia.

Desta forma, pelo menos durante 45 minutos, Trump desviou audiências do debate, roubando palco aos seus diretos antagonistas e provocando a Fox News, com quem já teve melhores dias.

Mas não terá sido a vontade de provocar que afastou Trump da discussão. O debate realizou-se quarta-feira à noite (madrugada de quinta-feira em Lisboa), horas antes de Trump — assim o prometeu — se entregar à justiça, para responder no caso de interferência eleitoral na Geórgia após as eleições de 2020, que perdeu para Joe Biden. “Irei a Atlanta, na Geórgia, quinta-feira, para ser PRESO”, escreveu noutra mensagem na rede social que fundou.

OS OITO PARTICIPANTES

  • Ron DeSantis, 44 anos, governador da Florida
  • Mike Pence, 64, vice-presidente de Donald Trump
  • Nikki Haley, 51, ex-governadora da Carolina do Sul e antiga embaixadora dos EUA na ONU
  • Chris Christie, 60, antigo governador da Nova Jérsia
  • Doug Burgum, 67, governador do Dacota do Norte
  • Asa Hutchinson, 72, ex-governador do Arcansas
  • Tim Scott, 57, senador pela Carolina do Sul
  • Vivek Ramaswamy, 38 anos, empresário da área da tecnologia

Pela ausência no debate e pelo que anunciou para o dia seguinte, Trump tornou-se “o elefante que não está na sala”, na formulação do moderador Bret Baier. De seguida, perguntou aos oito candidatos se tencionam apoiar Trump na eventualidade de ele vir a ser o candidato republicano às eleições de 2024 e for condenado na justiça.

Quatro foram rápidos a levantar a mão (Doug Burgum, Tim Scott, Nikki Haley e Vivek Ramaswamy), outros dois foram lentos a fazê-lo (Ron DeSantis e Mike Pence), um demonstrou relutância (Chris Christie, que afirmaria, sob grande vaia do público, que “a conduta [de Trump] está abaixo do cargo de Presidente dos Estados Unidos”) e apenas um não levantou a mão (Asa Hutchinson).

A pergunta não foi inocente. Um dos critérios previamente estabelecidos pelo Comité Nacional Republicano para selecionar os participantes no debate foi a assinatura de um “Compromisso Vencer Biden”, através do qual os candidatos prometem apoiar o vencedor da nomeação republicana, seja quem for, no duelo contra Biden, previsível vencedor incontestado da nomeação democrata.

Durante duas horas, e perante uma audiência ao vivo de 4000 pessoas (pouco tolerante a críticas a Trump), oito republicanos com idades entre os 38 anos e os 72 anos disputaram o título de ‘melhor candidato alternativo’ a Trump, que tem 77 anos. Para alcançá-lo, o alvo preferencial foi… Joe Biden.

Consistente na segunda posição das preferências de voto republicanas, o governador da Florida, Ron DeSantis, apontou ao atual Presidente quando confrontado sobre o porquê do grande êxito musical do momento no país (“Rich Men North of Richmond”) ser um tema country de um artista desconhecido (Oliver Anthony) sobre os problemas da classe trabalhadora.

DeSantis respondeu que os Estados Unidos “estão em declínio” e que “esse declínio não é inevitável, é uma escolha”. E acrescentou: “Precisamos de mandar Joe Biden de volta para o seu porão e reverter o declínio americano”.

Instados a dar respostas de um minuto (findo o qual soava uma buzina), os candidatos esgrimiram argumentos de forma mais acalorada quando o assunto foi o aborto. Horas antes do debate, o Supremo Tribunal estadual da Carolina do Sul confirmou a constitucionalidade da proibição do aborto a partir das seis semanas de gestação — quando muitas mulheres não sabem sequer que estão grávidas —, decretada em maio pelo governador republicano, Henry McMaster.

Nikki quer consenso, Pence prefere autoridade

Afirmando-se “pró-vida”, Nikki Haley, antiga governadora daquele estado e a única mulher entre os oito candidatos, defendeu que “há que parar de demonizar este assunto”, defendendo a necessidade de um “consenso” caso venha a ser adotada uma proibição do aborto a nível federal.

“Não podemos todos concordar que devemos proibir os abortos tardios? Não podemos todos concordar que devemos encorajar as adoções? Não podemos todos concordar que médicos e enfermeiros que não concordam com o aborto não deveriam ter de realizá-lo? Não podemos todos concordar que a contraceção deveria estar disponível? E não podemos todos concordar que não vamos pôr uma mulher na prisão ou aplicar-lhe a pena de morte se fizer um aborto?”

Haley teve a desafiá-la Mike Pence, que no debate se afirmou “orgulhoso” por ter sido possível, durante o seu mandato (foi vice-presidente de Trump), colocar no Supremo Tribunal três juízes conservadores. O antigo número dois afirmou que “consenso é o oposto de liderança”, defendeu “uma liderança sem remorsos, que se baseie em princípios e expresse compaixão”, e prometeu pugnar pela proibição do aborto após 15 semanas em todos os estados.

Ao longo de duas horas, as perguntas foram trazendo à discussão temas como economia, alterações climáticas, armas, segurança na fronteira, educação, Ucrânia e Rússia, e até objetos voadores não-identificados.

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS
outsider Vivek Ramaswamy, que nunca trabalhou no Estado e, nas palavras de Chris Christie, “soava como o Chat GPT”, assumiu-se como o mais trumpista dos candidatos, em estilo e substância. Defendeu que as alterações climáticas são “um embuste” e que “há mais pessoas a morrer de más políticas para as combater do que efetivamente das alterações climáticas”.

NARCÓTICOS
O governador do Dacota do Norte, Doug Burgum, trouxe a debate outro tipo de morte no país. “Não foram só os 70 mil por causa do fentanil. Perdemos 200 mil pessoas por overdose desde que Biden tomou posse.”

SEGURANÇA FRONTEIRIÇA
Questionado sobre se os EUA deveriam enviar forças especiais para dentro do México para combater os cartéis da droga, Ron DeSantis respondeu sem dúvidas. “Sim, reservamo-nos no direito de atuar.”

UCRÂNIA
Chris Christie, que foi, além de Mike Pence, o único a visitar a Ucrânia, considerou que as atrocidades cometidas naquele país são obra de “Vladimir Putin, de quem Donald Trump disse que é “brilhante e um génio”.

A guerra na Ucrânia quase monopolizou os comentários de política externa, com Haley, antiga diplomata na ONU (2017-18), a prever que uma vitória da Rússia seja uma vitória para a China, que a seguir irá “comer Taiwan”. A leitura pode impressionar analistas, mas é pouco provável que mobilize eleitorado.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de agosto de 2023. Pode ser consultado aqui

Os talibãs não as deixam estudar, mas elas não se dão por vencidas: 50 afegãs vão frequentar universidades portuguesas

O regresso dos talibãs ao poder encurralou as afegãs em casa. Para as estudantes universitárias, em especial, as perspetivas de futuro caíram por terra, mas para 50 delas o sonho continuará em Portugal, onde têm garantidas bolsas de estudo para frequentar instituições do ensino superior. Nas 1424 candidaturas recebidas, “todas as raparigas usaram a expressão ‘poder continuar aquilo que eu estava a fazer’”, diz ao Expresso Ana Santos Pinto, responsável da Nexus 3.0, a organização não governamental que está na origem do projeto

FOTO Escola pública feminina, na província de Bamyan, no Afeganistão FLICKR CANADA IN AFGHANISTAN

A 15 de agosto de 2021, a retirada em contrarrelógio das tropas internacionais do Afeganistão e, em simultâneo, a avançada sem resistência dos talibãs sobre Cabul constituíram um enorme embaraço para quem acreditava que 20 anos de presença estrangeira no país tinham tornado a influência dos talibãs residual.

Nimroz, no sudoeste, foi a primeira província a cair, nove dias antes de as forças do Emirado Islâmico entrarem na capital. Nove dias depois, mais 32 regiões ficaram totalmente sob controlo talibã. Apenas a província do Panjshir, no nordeste, resistiu durante uns tempos.

Com igual rapidez, a autoridade dos talibãs impôs-se a todo o território, com o sector da educação a servir de montra do novo Afeganistão. Quatro dias após controlarem os edifícios governamentais em Cabul, as escolas secundárias reabriram para um novo ano letivo, mas apenas com professores e estudantes do sexo masculino.

A generalização da interdição do ensino às mulheres seria questão de tempo. A 20 de dezembro de 2022, foi proibido o acesso às universidades. Apenas as escolas primárias continuaram a ter estudantes do sexo feminino, uma cedência controversa num país tribal e conservador como é o Afeganistão.

Em junho passado, quase 80 meninas foram hospitalizadas na sequência de casos de envenenamento em duas escolas primárias do norte do país. Em causa estão raparigas nascidas já este século sem conhecimento nem memória do que é viver sob domínio talibã e andar invisível debaixo de uma burca.

Para muitas delas, agora sem direito a educação formal, resta correr riscos e procurar conhecimento em centros de aprendizagem clandestinos — ou então sair do país.

1424 candidaturas para vir para Portugal

É o que acontecerá a 50 universitárias afegãs que prosseguirão com os estudos em Portugal, ao abrigo de um programa que lhes garante uma bolsa com duração até três anos. “Recebemos 1424 candidaturas. Cada manifestação de interesse não é um número, é uma história, uma vida que está em causa”, explica ao Expresso Ana Santos Pinto, secretária-geral da Nexus 3.0, a organização não governamental (ONG) na origem do programa.

“A vida destas raparigas não parou, está fechada dentro de casa. Algumas delas continuam a ler e a procurar conhecimento, dentro dos limites que a casa e o regime lhes impõe. Isso é uma demonstração de resiliência e de esperança de que podem ter um futuro”, explica Santos Pinto.

Um primeiro grupo de 25 afegãs chegará a tempo de frequentar o ano letivo 2023/24. As restantes virão no próximo. “Bem sei que 25 é um número limitado, mas é aquilo que sabemos que conseguimos fazer com eficácia”, garante a responsável.

Todas as raparigas frequentavam universidades quando os talibãs as encurralaram dentro de casa. Em Portugal, tirarão o curso que escolherem, dentro das vagas disponibilizadas pelas instituições de ensino superior aderentes.

Duas rondas de entrevistas

“Elas candidatam-se àquilo que querem de acordo com uma listagem”, explica a fundadora da Nexus 3.0, realçando a recetividade “muito positiva” de universidades e politécnicos.

“Consoante as vagas que cada instituição disponibilizar, serão feitas duas rondas de entrevistas: uma mais pessoal, do ponto de vista da candidata, do seu percurso, das condições que dispõe e daquilo que já fez; e depois a própria instituição terá os seus critérios, do ponto de vista de exames e de provas de conhecimento.”

Desse trabalho cruzado entre as disponibilidades da academia portuguesa e os interesses pessoais das afegãs resultará a escolha dos 50 nomes. Selecionadas as estudantes, seguir-se-á uma etapa sensível.

Neste momento, a esmagadora maioria das candidatas está no Afeganistão. Outras já foram forçadas a sair do país e estão em países vizinhos, como o Paquistão e o Irão, “muito poucas ainda com o estatuto de proteção internacional”, diz a professora universitária.

As que estão no país terão de arranjar forma segura para atravessar a fronteira. “O primado é, naturalmente, a segurança destas raparigas. Temos de o fazer de uma forma o mais discreta possível, porque não se trata só da segurança delas, mas de toda a sua família”, que fica para trás.

“Estas raparigas nasceram após 2001”, o ano do 11 de Setembro, da subsequente invasão militar do Afeganistão e da deposição do primeiro governo talibã, punido por ter dado guarida à Al-Qaeda de Osama bin Laden.

“O que elas conhecem do país é um processo de presença internacional, dentro do qual houve uma abertura à educação, ao desenvolvimento de capacidades, uma esperança de construção de um futuro. E, subitamente, todo o planeamento de vida, tudo aquilo que imaginaram deixou de ser possível. As expectativas destas raparigas deixaram de poder ser concretizadas neste contexto”, diz Ana Santos Pinto.

“Os últimos 20 anos criaram uma noção de possibilidades diferentes daquela que existia há 40. Nas candidaturas, todas elas usaram a expressão ‘poder continuar aquilo que eu estava a fazer”, prossegue. Segundo a UNESCO, se em 2001 cerca de 5000 afegãs frequentavam o ensino superior, em 2021 esse número era de 100 mil.

CRONOLOGIA DE UM DESASTRE HUMANO

  • 19.09.2021 — Escolas secundárias reabrem só com professores e alunos do sexo masculino. Escolas femininas ficam encerradas indefinidamente.
  • 20.12.2022 — Mulheres são proibidas de frequentar as universidades.
  • 06.06.2023 — Talibãs dão 40 dias às ONG internacionais para transferirem as suas operações relativas à educação para organizações locais.

Este programa da Nexus 3.0 — organização fundada em 2022, por três mulheres, focada na promoção da educação, ciência, artes e cultura em contextos de fragilidade, violência e conflito — é também uma resposta a duas posições recentes da Assembleia da República.

  1. A 10 de fevereiro último, um projeto de resolução recomendou ao Governo que avaliasse com urgência a criação de um estatuto de estudante específico para refugiadas impedidas de frequentar o ensino superior, tendo como prioridade as afegãs. Apresentado pelo Livre, foi aprovado com votos favoráveis de todas as bancadas e abstenção do partido Chega.
  2. A 10 de março seguinte, outra resolução recomenda ao Governo que “incentive as instituições de ensino superior a implementarem programas de acolhimento e apoio a estudantes, investigadores e professores, provenientes do Afeganistão, que sejam impedidos de estudar, estejam em risco ou forçados à deslocação”. De iniciativa do PAN, foi aprovada por unanimidade.

“Não se pode apregoar a igualdade de género e não se tentar fazer alguma coisa quando no Afeganistão ocorre uma discriminação absoluta, um verdadeiro apartheid de género”, diz Ana Santos Pinto.

A expressão, que condensa a impossibilidade de exercício de direitos por razão de género, é usada atualmente pelas Nações Unidas para qualificar o tratamento dos talibãs às mulheres. “Com este nível de proibição absoluta não me ocorre outro exemplo” de regime político ao qual se possa aplicar este rótulo, diz a professora de Relações Internacionais.

CRONOLOGIA DO CERCO TALIBÃ ÀS MULHERES

  • 26.12.2021 — Proibição das mulheres viajarem a mais de 72 km sem a companhia de “um familiar masculino próximo”.
  • 07.05.2022 — Obrigatoriedade de as mulheres se cobrirem totalmente em público, incluindo o rosto. Doze dias depois, a medida é aplicada também às apresentadoras de televisão.
  • 10.11.2022 — Mulheres proibidas de usar banhos comunitários, ginásios e parques públicos.
  • 24.12.2022 — Proibição das mulheres trabalhar em organizações não governamentais. Cinco dias depois, os talibãs acedem a que continuem a trabalhar em ONG do sector da saúde.
  • 04.04.2023 — Afegãs proibidas de trabalhar para as Nações Unidas. A 5 de maio, o secretário-geral António Guterres anunciou que as operações da organização continuam no país, apesar das mulheres não poderem trabalhar para a ONU e ONG.
  • 05.07.2023 — Interdita a entrada em salões de beleza femininos, a quem é dado um mês para fecharem portas.

Outra frente do programa destinada a “criar capacidade no Afeganistão” será o ensino online. “Neste momento, o que as raparigas têm no Afeganistão para contactar com o exterior — seja da sua casa, seja do país — é essencialmente um telemóvel com acesso à Internet. É irregular e instável, mas existe. Gostaríamos de providenciar cursos de ensino superior com recurso ao online. Permitir-nos-ia chegar a mais raparigas”, diz a responsável.

Para garantir o financiamento do projeto, a Nexus 3.0 — que já coordena um programa de bolsas para refugiados oriundos da Ucrânia — bateu a várias portas, garantindo verbas públicas e comunitárias, bem como apoio de instituições particulares de solidariedade social (IPSS) e mecenas.

As bolsas estão garantidas, faltando ainda uma verba complementar, a ser angariada por recolha privada, para custear despesas com viagens e alojamento, a necessidade de equipamentos informáticos ou de uma consulta num dentista, por exemplo. Nesta ligação é disponibilizada informação sobre como contribuir.

“Independentemente da sua área científica, todas as raparigas que submeteram candidatura têm o desejo de transformar o contexto das mulheres no Afeganistão”, conclui Ana Santos Pinto, que participou no processo de análise das propostas. “Para elas, é aquilo que, obviamente, é mais sensível.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 22 de agosto de 2023. Pode ser consultado aqui