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Trump para Netanyahu: Israelitas e palestinianos, “ambos têm de fazer concessões. Sabe disso, não sabe?”

A privilegiada relação entre os Estados Unidos e Israel abriu esta quarta-feira um novo capítulo. Donald Trump recebeu Benjamin Netanyahu na Casa Branca e, contrariamente aos seus antecessores, não fez a apologia da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano

Há menos de um mês na Casa Branca, Donald Trump recebeu, esta quarta-feira, Benjamin Netanyahu para um encontro aguardado com grande expectativa. Dali, antevia-se, poderia sair uma inversão na posição de décadas dos Estados Unidos de defesa da solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

Numa conferência de imprensa realizada antes do encontro em privado entre o Presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel, Trump não fez a defesa acérrima dessa fórmula. Mas também não estendeu a passadeira aos israelitas que Netanyahu teria gostado.

Trump reafirmou o “vínculo inquebrável” entre os dois países, acrescentando que Israel “terá de mostrar alguma flexibilidade” em algumas posições, que gostaria de ver “um pouco” de contenção na construção de colonatos e que a obtenção de um acordo depende do diálogo entre israelitas e palestinianos.

“São as partes que têm de negociar diretamente” um acordo de paz. “E ambos os lados têm de fazer concessões. Sabe disso, não sabe?”, afirmou, virando-se para Netanyahu, que, apanhado de surpresa, deixa escapar em seco: “Falaremos disso”.

“Muito cuidado” na mudança da embaixada para Jerusalém

Questionado, em concreto, sobre se defende um ou dois Estados na região, o chefe de Estado norte-americano disse que concordará com o que as partes decidirem. “Ficarei feliz com aquele [tipo de Estado] que eles gostarem mais”, disse Trump.

Já em relação à eventual mudança da embaixada norte-americana de Telavive para Jerusalém — a cidade santa que israelitas e palestinianos reclamam para sua capital —, garantiu que os EUA tratarão desse assunto “com muito cuidado”.

Benjamin Netanyahu defendeu que “os colonatos não são o coração do conflito”. Para o governante israelita, há dois pré-requisitos para a paz que exige aos palestinianos: o reconhecimento de Israel como um Estado judeu e a salvaguarda das necessidades de segurança a oeste do rio Jordão, ou seja, no território palestiniano ocupado da Cisjordânia.

“Temos de procurar novas formas” de alcançar a paz, disse “Bibi” (como é também conhecido), defendendo uma abordagem regional do conflito em conjunto com os países árabes. “Pela primeira vez na vida de Israel e na minha vida [Israel foi criado em 1948 e Netanyahu nasceu no ano seguinte], países árabes na região não veem Israel como um inimigo mas antes como um aliado.”

Trump confirmou que os dois líderes têm falado acerca da possibilidade de “um grande acordo” regional, “envolvendo muitos, muitos países”. “Não sabia que ía menciona-lo”, disse Trump, virando-se para Netanyahu, “mas já que o fez, é uma coisa fantástica”.

Netanyahu foi o segundo líder do Médio Oriente a ser recebido por Donald Trump em Washington — o primeiro foi o rei da Jordânia, Abdallah II, a 2 de fevereiro. Já Trump foi o quarto Presidente norte-americano que “Bibi” visitou enquanto primeiro-ministro de Israel, a seguir a Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Netanyahu foi primeiro-ministro entre 1996 e 1999 e está no cargo desde 2009.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Cimeira União Europeia-Israel: será desta?

Israel é Estado associado da União Europeia desde 1995, mas as partes não se reúnem, nesse contexto, há cinco anos. Prevista para fevereiro próximo, a cimeira foi adiada, garante a imprensa israelita, após vários países europeus se oporem à sua realização

Prevista para 28 de fevereiro, a cimeira entre a União Europeia e Israel foi adiada, escreve esta terça-feira o diário israelita “Haaretz”. Na origem da decisão europeia está a política de colonização do Governo liderado por Benjamin Netanyahu, à qual a União Europeia se opõe.

Entre as medidas israelitas que, nos últimos tempos, mais desafiaram a posição de Bruxelas estão planos para a construção de cerca de 6000 novas casas no território palestiniano da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental — anunciados já após Donald Trump entrar na Casa Branca, nos EUA — e também a aprovação, no Parlamento de Israel (Knesset), na segunda-feira, de uma lei que irá possibilitar a expropriação de terrenos privados palestinianos com vista à legalização de colonatos ilegais.

A reunião entre israelitas e europeus seria uma espécie de degelo entre as partes, que se reuniram pela última vez, a este nível, a 24 de julho de 2012, em Bruxelas, naquele que foi o 11º encontro do género.

Sob anonimato, diplomatas europeus afirmaram ao “Haaretz”, à margem do Conselho dos Negócios Estrangeiros da UE de segunda-feira, em Bruxelas, que vários Estados membros expressaram reservas em relação à realização da cimeira nesta altura, que poderia ser interpretada como uma recompensa à conduta de Israel, que desaprovam.

No mesmo sentido, o negociador palestiniano Saeb Erekat afirmou que esta cimeira, a realizar-se, ajudaria a “enterrar” a solução de dois Estados. “O Governo israelita não deve ser recompensado pelas suas violações sistemáticas do direito internacional humanitário. Em vez disso, deve haver responsabilidade”, disse em entrevista ao “EUObserver”, publicada na segunda-feira.

“A falta de responsabilidade, a impunidade, é o que dá ao Governo israelita confiança suficiente para avançar com o seu plano de enterrar as perspetivas relativas à solução de dois Estados”, acrescentou Erekat.

Europeus unidos na defesa de dois Estados

Segundo o “Haaretz”, os países da UE que mais reservas expressaram em relação à realização do “Conselho de Associação” — o nome formal das cimeiras UE-Israel — foram a França, Irlanda, Holanda, Finlândia e Suécia. Esta última é o único membro da UE da Europa Ocidental a reconhecer o Estado da Palestina.

Na conferência de imprensa que se seguiu ao final do Conselho dos Negócios Estrangeiros, Federica Mogherini, Alta Representante da UE para os Assuntos Externos, anunciou o início dos trabalhos com vista à preparação da cimeira, sem concretizar uma data. “Será uma boa oportunidade, um bom instrumento, para trocarmos pontos de vista e encontrarmos terreno comum com uma das partes. Nós mantemos constantemente o nosso compromisso com os dois lados de uma forma intensa e a vários níveis” — da presidência à sociedade civil — “e isso continuará.”

Israel é um Estado associado da União Europeia, desde 1995. Nos últimos anos, a relação ressentiu-se de algumas decisões tomadas em Bruxelas (como a nova rotulagem de bens importados pela UE que são produzidos nos colonatos) e em várias capitais Europeias (como o reconhecimento do Estado da Palestina por parte de vários Parlamentos nacionais, nomeadamente o português).

O bloco europeu defende a solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano e opõe-se à política de construção de colonatos levada a cabo por Israel. “Numa época em que observamos, na comunidade internacional, tantas mudanças em políticas já consolidadas, o que não muda é a posição da UE relativamente à solução de dois Estados, aos colonatos e a Jerusalém”, recordou Mogherini, na segunda-feira. “Bem sei que esta não é a mensagem que mais se ouve em todo o mundo, mas continuarão a ouvi-la consistentemente da Europa. É algo que une todos os europeus.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Que tal olhar para os factos?

Manchete da edição do jornal “Daily News”, de 27 de fevereiro de 1993

Terá sido verdadeiramente tempestuoso um telefonema esta semana entre Donald Trump e o primeiro-ministro da Austrália, Malcolm Turnbull, cujo tema central foi a denúncia unilateral de um acordo do tempo de Obama nos termos do qual os EUA aceitavam receber imigrantes detidos naquele país. A sua política de acolhimento é restritiva mas havia o compromisso de Washington acolher 1250 refugiados, alojados em ilhas do Pacífico, pagos pela Austrália.

Tal como sucedera com Merkel ou a NATO, os excessos verbais do novo Presidente terão indisposto mais um velho aliado do país, a Austrália. A retórica de Trump confunde “refugiados” com “imigrantes ilegais” ou “imigrantes” com “terroristas” quando, invocando a segurança nacional, proibiu a entrada de nacionais de sete países: Irão e Iraque (que integravam o “eixo do mal” de George W. Bush), Síria, Somália, Sudão, Líbia e Iémen.

“A proibição não é justificável por motivos de segurança nacional”, diz ao Expresso Alex Nowrasteh, investigador do Cato Institute (Washington D.C.) e autor da análise “Terrorismo e Imigração”. “Houve zero ataques terroristas mortíferos em solo americano realizados por cidadãos desses países.”

A Administração Trump recordou que foi Obama quem identificou os “países preocupantes” para efeitos de visto, ainda que as estatísticas dificultem a compreensão dos rótulos. Nowrasteh apurou que 98,6% dos americanos mortos em ataques de estrangeiros, em 1975/2015, morreram no 11 de Setembro. A Arábia Saudita, pátria da maioria dos piratas do ar, não foi proscrita.

Infografia de Sofia Miguel Rosa. Textos de Cristina Peres

1975-2015

3024
norte-americanos foram mortos em território dos Estados Unidos em ataques terroristas realizados por estrangeiros: 98,6% deles no 11 de Setembro

154
estrangeiros mataram cidadãos americanos em ataques terroristas nos EUA: 54 tinham residência permanente no país, 34 eram turistas e 20 refugiados

0
é o número de terroristas nacionais dos sete países banidos pela Administração Trump que tenham vitimado cidadãos norte-americanos em território dos Estados Unidos

OS MAIS MORTÍFEROS ATAQUES ESTRANGEIROS

11 DE SETEMBRO (2001)
Dos 19 piratas nos quatro aviões, 15 eram sauditas, dois emiratis, um egípcio e um libanês. Matam 2983 pessoas

SAN BERNARDINO (2015)
Um casal mata 14 a tiro num centro social. Ele, de origem paquistanesa, nasceu nos EUA, e ela, que tinha residência permanente, no Paquistão

WORLD TRADE CENTER (1993)
A detonação de um camião no estacionamento faz seis mortos. Os sete atacantes são do Kuwait, Egito, Cisjordânia (Palestina), Iraque e Jordânia

CHATTANOOGA (2015)
Um kuwaitiano imigrado nos EUA desde 1996 abre fogo num quartel do Tennessee. Mata cinco militares

MARATONA DE BOSTON (2013)
Duas bombas junto à meta matam três. Foram deixadas por dois irmãos nascidos na URSS e no Quirguistão

EUROPA REAGE

Reino Unido Ainda não tem data, mas a possível visita de Donald Trump ao país este ano está a incendiar os ânimos. No dia 20, o Parlamento debaterá o assunto em exclusivo, na sequência de duas petições a que já aderiram mais de dois milhões de pessoas. Uma pretende impedir que Trump seja recebido com honras de Estado pela rainha. A outra, da iniciativa de uma menina de 13 anos, é favorável à visita de Estado do Presidente dos EUA.

União Europeia Na sombra do decreto anti-imigração de Trump, os países membros da UE reuniram-se ontem, em Malta, para discutir os fluxos migratórios, nomeadamente através da Líbia. Desde o encerramento da chamada rota dos Balcãs que a pressão migratória se intensificou com origem no Norte de África. Estima-se que 90% dos novos imigrantes chegados à Europa venham através da Líbia e Itália).

ONTEM E HOJE

“Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres. As vossas massas amontoadas que anseiam por respirar em liberdade. O refugo infeliz da vossa costa apinhada. Enviai-me esses sem-abrigo, assolados pela tormenta”
Excerto do poema “O Novo Colosso”, de Emma Lazarus (1849-1887), gravado no pedestal da Estátua da Liberdade

“Se terroristas tentarem atacar os EUA, provavelmente não usarão passaportes de países em conflito. Estas medidas devem ser retiradas”
António Guterres, Secretário-geral das Nações Unidas

Artigo publicado no Expresso, a 4 de fevereiro de 2017

Detenção importante no Paquistão. Efeito Trump?

Hafiz Muhammad Saeed, acusado pela Índia de ter planeado os atentados de Bombaím de 2008, foi colocado em prisão domiciliária, em Lahore. Os seus apoiantes acusam o Governo paquistanês de querer mostrar trabalho ao novo Presidente dos EUA, poucos dias após o polémico decreto que proíbe a entrada no país de cidadãos de sete países muçulmanos

Mais de oito anos depois, os ataques que lançaram o pânico na cidade indiana de Bombaím continuam a agitar… o Paquistão. Esta terça-feira, são esperados protestos populares contra a detenção do clérigo Hafiz Muhammad Saeed, acusado pela Índia de ter planeado os múltiplos ataques que, entre 26 e 29 de novembro de 2008, visaram dois hoteis, um café, um hospital, uma estação de comboios e um centro judaico, matando 166 pessoas.

Fundador do grupo implicado nos atentados, o Lashkar-e-Taiba (LeT) — ilegalizado no Paquistão em 2002 e inscrito na lista de grupos terroristas da ONU em 2005 —, Saeed foi colocado em prisão domiciliária na segunda-feira à noite, após ser detido em Lahore, na sede da organização de beneficiência Jamaat ud-Dawa (JuD), que dirige e que é considerada uma fachada do LeT.

“Recebemos a ordem de detenção do Governo Paquistanês. Creio que isto não me visa, mas é uma conspiração internacional destinada a sabotar a luta pela Caxemira”, disse Saeed à imprensa, no momento em que era escoltado pela polícia, rodeado de apoiantes, referindo-se à disputa entre Índia e Paquistão pelo controlo daquela região. “Este é o desejo de [Narendra] Modi [primeiro-ministro indiano], mediante a solicitação de Trump, e a fraqueza do Governo” paquistanês.

Paquistão não está na lista de Trump, mas…

Esta detenção surge três dias após o polémico decreto presidencial de Donald Trump que proíbe a entrada nos Estados Unidos de nacionais de sete países de maioria muçulmana. O Paquistão não está entre as nações proscritas, apesar da sua vulnerabilidade ao terrorismo e de, por exemplo, o casal que, a 2 de dezembro de 2015, levou a cabo o ataque em San Bernardino, Califórnia (14 mortos) ser de origem paquistanesa.

Os apoiantes de Saeed receiam um “efeito Trump” na decisão do Governo paquistanês, defendendo que Islamabad quer agradar à nova Administração norte-americana. “Este Governo curvou-se à pressão”, acusou Nadeem Awan, porta-voz da JuD.

Em Islamabad, o ministro paquistanês do Interior, Chaudhry Nisar, recordou que a JuD consta da lista negra das organizações terroristas a nível internacional — na dos EUA está desde 2014 — e que o Paquistão “está obrigado a fazer alguma coisa”, disse.

À agência Reuters, um alto responsável paquistanês da área da defesa (não identificado) disse que de Washington não chegou nenhum pedido, mas admitiu que o Paquistão tem sentido alguma pressão. “Trump está a tomar decisões duras contra países muçulmanos, e há quem defenda abertamente ações contra o Paquistão também. Por isso, sim, levamos isso em consideração”, afirmou.

No passado, os Estados Unidos estabeleceram uma recompensa no valor de 10 milhões de dólares (9,3 milhões de euros) por informações que conduzissem à captura do clérigo paquistanês. Esse facto não remeteu Hafiz Saeed à clandestinidade: levava uma vida pública ativa e, com frequência, proferia discursos inflamados contra a Índia.

Em 2014, numa entrevista à BBC, acusou os Estados Unidos de visarem a sua organização com o objetivo de garantir apoio por parte da Índia para o seu esforço de guerra no Afeganistão.

Após o banho de sangue em Bombaím, Saeed já tinha sido colocado em prisão domiciliária. Foi libertado seis meses depois: Islamabade considerou não haver provas suficientes para o julgar ou entrega-lo à Índia.

Os atentados de Bombaím colocaram Índia e Paquistão — ambos detentores de poder nuclear e não signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968) — à beira da guerra. Com esta detenção, a tensão pode desanuviar um pouco.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Banidos por Trump afinal não matam

As estatísticas contrariam o Presidente dos EUA. Desde 1975, nenhum norte-americano foi morto nos Estados Unidos por um terrorista dos sete países visados pelo seu polémico decreto

O Presidente dos Estados Unidos justificou a suspensão por 90 dias da emissão de vistos a nacionais de sete países de maioria muçulmana com a necessidade de reforçar a segurança nacional reduzindo a ameaça terrorista. A convicção de Donald Trump é, porém, contrariada pelas estatísticas.

Um relatório do CATO Institute divulgado a 13 de setembro de 2016 — quando Trump ainda lutava pela nomeação republicana às presidenciais —, alerta para o facto de, entre 1975 e 2015, o número de cidadãos norte-americanos mortos em território dos EUA por nacionais de Iraque, Irão, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen — os sete países visados pela decisão de Trump — ser… zero.

Entre 1975 e 2015, nos Estados Unidos, foram assassinadas 3024 pessoas às mãos de “terroristas estrangeiros que entraram no país, como imigrantes ou turistas” — 98.6% dos quais no 11 de Setembro.

Porém, nenhum dos países de que eram naturais os terroristas a bordo dos quatro aviões suicidas foi alvo de restrições por parte da Administração Trump: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Líbano.

RELACIONADO: Que tal olhar para os factos?

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui