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Faz esta sexta-feira 33 anos na prisão. E vive no medo de ainda receber 950 chicotadas

Dois anos após receber 50 vergastadas numa praça da Arábia Saudita, o bloguer Raif Badawi, que amanhã faz 33 anos, vive no receio permanente de que as 950 chicotadas em falta a que foi condenado comecem a ser aplicadas a qualquer momento dentro da prisão. Não podemos esquece-lo…, apela ao Expresso uma amiga da família e cofundadora da Fundação Raif Badawi para a Liberdade

Raif Badawi já foi notícia em todo o mundo por diversas vezes. Foi-o a 29 de outubro de 2015 quando o Parlamento Europeu anunciou que o Prémio Sakharov daquele ano era dele. Tinha-o sido meses antes também pelas dramáticas razões que o tornaram universalmente conhecido: em frente a uma mesquita na cidade saudita de Jeddah, na presença de centenas de pessoas, Raif recebeu 50 chicotadas nas costas por “insulto ao Islão através de canais eletrónicos”, decretou a justiça saudita. Inspirado pelos “ventos da mudança” da Primavera Árabe, Raif criara o blogue “Liberais Sauditas Livres”, onde promovia debates sobre religião e sociedade uma ameaça à segurança nacional, considerou Riade.

Esta sexta-feira, o bloguer saudita faz 33 anos. Assinala-os na prisão, longe da família a mulher e três filhos menores vivem exilados no Quebec (Canadá) e das manchetes noticiosas. “Não, o caso não está esquecido”, garante ao Expresso Évelyne Abitbol, amiga da família e cofundadora da Fundação Raif Badawi para a Liberdade. “Não podemos esquece-lo. Devemos continuar a lutar pela sua libertação. Ele não é um criminoso, é um blogger, um jornalista, um escritor. E não insultou o Islão, defendeu a liberdade de expressão, de religião, de opinião…”

Após a sua prisão, em 2012, a Amnistia Internacional considerou Raif Badawi um prisioneiro de consciência, “detido unicamente por exercer pacificamente o seu direito à liberdade de expressão”. Na imagem, uma das campanhas da organização: “Blogar faz mal às costas”, lê-se. Usa-se a palavra “blogging” em vez de “flogging” (flagelação) AMNISTIA INTERNACIONAL

O caso de Raif tem constado da agenda diplomática de muitos países ocidentais nos seus contactos bilaterais com as autoridades sauditas. Os ministros dos Negócios Estrangeiros de todos os países ocidentais apelarem à sua libertação de cada vez que têm encontros na Arábia Saudita, mas não temos qualquer indicação de que ele vá ser libertado, refere Évelyne, nascida em Casablanca (Marrocos) e que é assessora especial para a diversidade de Jean-François Lisée, o líder da oposição na Assembleia Nacional do Quebec. Destaca as posições assumidas pelos Governos da Áustria, Suíça, Alemanha, França, Suécia, Noruega, Reino Unido e Canadá. Estão a trabalhar muito para o tirar de lá.

Esta semana, o potencial político do caso de Raif foi aflorado a propósito da visita à Arábia Saudita do Rei Felipe de Espanha, que se inicia no sábado. Segundo a imprensa espanhola, Letizia recusou-se a acompanhar o marido. Num artigo de opinião no diário digital El Español, o diretor adjunto Miguel Ángel Mellado enumera várias razões que podem ter contribuído para a posição da rainha. Segundo o jornalista, ela nunca visitaria um país onde as mulheres são proibidas de conduzir, as mulheres casadas não podem viajar sozinhas sem a tutela de um membro da família do marido, onde 150 pessoas foram executadas nos últimos anos, por decapitação na sua maioria, nalguns casos por se oporem à família real, um país que financia milhares de mesquitas em todo o mundo promovendo o wahabismo, uma corrente religiosa muçulmana radical, onde as divorciadas não podem entrar por serem consideradas adúlteras e onde um bloguer, Raif Badawi, recebeu 50 chicotadas em público e está na prisão à espera das restantes 950 a que foi condenado.

As chicotadas foram uma parte da pena decretada em maio de 2014. Raif foi também condenado a 10 anos de prisão, a mais 10 anos sem poder sair do país e a uma multa de um milhão de rials (mais de 250 mil euros). Recebeu as primeiras 50 chicotadas a 9 de janeiro de 2015; a segunda leva foi sendo sucessivamente adiada por razões de saúde. Raif sofre de hipertensão e é convicção da família que se o castigo continuar a ser aplicado, ele não sobreviverá. Ele tem sempre esse medo. Está sempre em grande tensão, continua Évelyne. Ele não está bem. Nem a nível físico ele tem pedras no rim nem emocionalmente. Claro que já lá vão quase cinco anos de prisão. Raif foi preso a 17 de junho de 2012.

O diretor da prisão autorizou-o a receber livros, mas estes não lhe chegam. Os livros têm de passar pela censura religiosa, explica Évelyne. Na prisão, ninguém o visita, mas Raif pode telefonar à família. Eles contactam-se. A família não pode telefonar-lhe, mas ele liga de uma cabine pública no interior da prisão. Falam-se a cada dois ou três dias.

VIGIADA, COMO O IRMÃO

Raif Badawi tornou-se o rosto mais visível entre um conjunto de intelectuais, ativistas, académicos que foram severamente punidos por ousarem dizer o que pensam na Arábia Saudita criticando as autoridades, apelando a reformas ou denunciando violações aos direitos humanos. Muitos são criminalizados ao abrigo de legislação anti-terrorista e de combate ao cibercrime.

No seu sítio na Internet, a Organização Saudi-Europeia para os Direitos Humanos apresenta vários casos de repressão, tortura, detenções arbitrárias, execuções políticas, que visam quem esboça a mínima dissidência em relação à Casa de Saud. Entre eles, está o de Samar Badawi, uma ativista dos direitos humanos de 35 anos. O apelido não ilude o parentesco: é irmã de Raif.

A 12 de janeiro do ano passado, foi presa por incitamento à opinião pública contra o Estado. Durante um interrogatório, foi questionada por ter feito o upload no Twitter da foto de um ativista a cumprir pena de prisão e por ter saudado a saída da prisão de um outro. Acabou por ser libertada, mas hoje vive com rédea curta no que respeita ao exercício das liberdades. O Expresso pediu-lhe uma entrevista para este artigo. Não posso, infelizmente, responde por email. Fui proibida pelo Governo saudita. Não posso falar com jornalistas. Lamento muito.

Tirada na noite da passagem de ano para 2017, a foto mostra Ensaf Haidar (a mulher de Raif) e os três filhos do casal: Doudi, Miriyam e Najwa. Entre as duas meninas, está a amiga Évelyne ÉVELYNE ABITBOL

No sítio da Fundação Raif Badawi para a Liberdade, um contador vai assinalando os dias, horas, minutos e segundos que faltam para a libertação de Raif — uma meta que a família gostaria de encurtar. Conta, para isso, com a pressão exercida por Governos nacionais sobre as autoridades sauditas — a ministra dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Margot Wallström, qualificou a punição a Raif como “medieval” — e também com o voluntarismo de cada cidadão individualmente — como aconteceu com a própria Évelyne.

“Envolvi-me há dois anos. Tinha sido jornalista e tinha trabalhado na área internacional sobre diversidade, direitos humanos e desenvolvimento democrático. Um dia, vi um apelo da Ensaf no Youtube e pensei que podia ajuda-la, já que ela vive em Sherbrooke (Quebec), muito perto de mim. Conhecemo-nos numa vigília e rapidamente tornei-me amiga da família. Comecei a ajudar nas conferências de imprensa, apresentações públicas, elaboração de discursos e moções a apresentar na Assembleia Nacional do Quebec.” Depois, “decidimos abrir uma fundação com o nome de Raif e assente nos seus valores”.

Aos portugueses, em particular, Évelyne faz dois apelos. Por um lado, pede que participem numa campanha de crowdfunding (recolha de fundos) lançada em novembro passado para ajudar a custear as ações desenvolvidas pela Fundação. Qualquer quantia é bem vinda, diz. Por outro, apela a que uma editora portuguesa se interesse pelo livro da Ensaf, Mon combat pour sauver Raif Badawi (O meu combate para salvar Raif Badawi), lançado no ano passado. A tradução espanhola vai ser lançada em fevereiro. Seria muito bom arranjarmos alguém que traduzisse o livro para português e o publicasse.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 12 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Rebeldes sírios ameaçam boicotar conversações de paz

Está em perigo a cimeira de Astana, prevista para este mês, no Cazaquistão, sobre o conflito na Síria. Grupos rebeldes acusam o regime de Bashar al-Assad de não cumprir o cessar-fogo

Aos cinco dias de trégua na Síria, o principal grupo rebelde suspendeu a sua participação nos trabalhos de preparação das negociações de paz previstas para o final do mês, no Cazaquistão. O Exército Livre da Síria,apoiado pela Turquia, fala em em várias “violações” ao cessar-fogo por parte das forças de Bashar al-Assad .

“O regime e seus aliados continuam a sua investida e realizaram operações, especiamente no Vale de Barada, Ghouta Leste (Damasco), nos subúrbios de Hama e Daraa. Também bombardearam a nascente de Al-Fijeh que fornece água a seis milhões de sírios em Damasco e arredores”, lê-se num comunicado conjunto assinado por 12 fações rebeldes.

É um “significativo revés”, comentou Hashem Ahelbarra, repórter da Al-Jazeera colocado na cidade turca de Gaziantep, fronteira à Síria. “Os rebeldes dizem que assinaram o cessar-fogo de boa fé mas que o regime sírio e o seu aliado russo falharam” o seu cumprimento. “Dizem que os aviões continuaram a atacar áreas controladas pelos rebeldes por todo o país com bombas de barril, em particular Wadi Barada.”

Os signatários do comunicado realçam o agravamento da situação nesta área a noroeste de Damasco — crucial para o abastecimento de água à capital e cercada por forças governamentais desde meados de 2015 —, alvo de bombardeamentos quase diários por parte das forças nacionais e dos seus aliados do Hezbollah (grupo xiita libanês).

Racionamento de água em Damasco

Segundo o Gabinete da ONU para a Coordenação dos Assuntos Humanitários (OCHA), o fornecimento de água foi cortado a 22 de dezembro após a infraestrutura ter sido “deliberadamente alvejada e danificada”, sem adiantar por quem. Presentemente, há racionamento de água na capital síria, com as autoridades obrigadas a recorrer às reservas.

Segundo a BBC, a área de Wadi Barada “não está abrangida pelo cessar-fogo, dada a presença do grupo jiadista Jabhat Fateh al-Sham [antiga Jabhat al-Nusra], excluído pelo acordo”.

Promovidas pela Rússia, Irão e Turquia, as conversações de Astana ainda não tem data concreta. Os organizadores dizem não pretender substituir o processo negocial apoiado pelas Nações Unidas previsto, que deverá ser retomado em fevereiro, mas antes completá-lo.

O diálogo de Astana é o passo seguinte ao cessar-fogo mediado por Rússia e Turquia — que no pântano sírio apoiam fações contrárias. Ficaram de fora grupos jiadistas que as Nações Unidas designam como “terroristas”, como o Daesh e a Jabhat Fateh al-Sham (antiga Jabhat al-Nusra).

Não abrangidas pelo acordo de cessar-fogo estão também as milícias curdas Unidades de Proteção Popular (YPG), que o Governo turco considera serem a extensão síria do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta pela autonomia do povo curdo dentro da Turquia desde a década de 80.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de janeiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Índia testa míssil nuclear que pode atingir… a China

O novo míssil indiano tem um alcance de 5000 quilómetros e capacidade para transportar uma ogiva nuclear de uma tonelada. Pequim já reagiu, sem preocupação: Índia e China “são parceiros, não rivais”

A Índia testou, com sucesso, um novo e potente míssil nuclear. Com 17 metros de altura e dois de diâmetro, o míssil balístico intercontinental Agni V pode transportar uma ogiva nuclear de mais de uma tonelada e tem um alcance de 5000 quilómetros.

A nova arma confere capacidade à Índia para alvejar qualquer latitude na Ásia — incluindo a China — e alcançar também alguns pontos em África e na Europa.

“Alguma imprensa, incluindo órgãos de informação indianos e alguns japoneses, especularam sobre se este ato da Índia visa a China”, reagiu a porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying. “Penso que em relação às intenções da Índia, isso tem de ser perguntado à Índia”, acrescentando que Índia e China são parceiros e não rivais.

O teste final ao Agni V, o quarto realizado ao míssil, decorreu esta segunda-feira, numa ilha no Golfo de Bengala, próxima ao estado de Orissa (leste do país). Os bons resultados logo mereceram as felicitações por parte das principais figuras do Estado indiano.

“O teste bem sucedido ao Agni V faz cada indiano muito orgulhoso. Acrescentará uma força tremenda à nossa defesa estratégica”, twitou o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

 

“Felicitações à Organização de Desenvolvimento e Pesquisa para a Defesa (DRDO, integrado no ministério indiano da Defesa) pelo lançamento bem-sucedido do Agni V, que melhorará as nossas capacidades estratégica e de dissuasão”, acrescentou o Presidente Pranab Mukherjee.

Em desenvolvimento, a Índia tem já o Agni VI, igualmente de longo alcance e com capacidade de transporte de múltiplas ogivas nucleares.

Contrariamente à China, o vizinho e rival Paquistão remeteu-se ao silêncio relativamente à nova conquista armamentista dos indianos. Tal como a Índia, o Paquistão é uma potência nuclear não signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

Durante o século XX, estes dois países, que nasceram da partição da Índia Britânica — a Índia de maioria hindu e o Paquistão de maioria muçulmana —, travaram três guerras (1947, 1965, 1971). Entre ambos, existe uma “ferida aberta” — o território da Caxemira, que ambos disputam — que justifica uma permanente corrida ao armamento e coloca o mundo, de tempos a tempos, à beira de uma guerra nuclear.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de dezembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Como mudou o terrorismo na Europa

O terrorismo marca os anos 60 e 70 na Europa, embora assumindo características muito diferentes das atuais, marcadas pelos grupos jiadistas e pelos atentados visando mortes em massa de civis indiferenciados, de que foram exemplo maior os atentados de Paris (2015) ou Bruxelas (2016).

O terrorismo desses anos tinha um lado ideológico muito vincado e uma característica diferente: visava em geral alvos simbólicos, fossem instalações físicas ou pessoas, procurando-se que daí resultasse o máximo de repercussão pública. Daí os raptos ou assassínios de diplomatas, membros de governos, empresários ou militares por grupos como as Brigadas Vermelhas italianas ou o Baader-Meinhof alemão.

O balanço da mortalidade na Europa entre os anos 70 e 80 é inflacionado por uma componente extraeuropeia que tinha Como mudou o terrorismo na Europa que ver com sequestros de aviões ou ataques em aeroportos feitos em geral por grupos do Médio Oriente, sobretudo palestinianos, por vezes em coordenação com organizações europeias como após a prisão dos líderes do Baader-Meinhof (desvio para Mogadíscio de um avião da Lufthansa por um comando palestiniano em outubro de 1977). A falta de doutrina de intervenção e de pessoal preparado fez com que algumas das tentativas policiais de resgate redundassem em banhos de sangue. Houve também ataques em grandes eventos como os Jogos Olímpicos de 1972: massacre da delegação israelita pelos palestinianos do Setembro Negro.

Na Irlanda do Norte (IRA) e no País Basco (ETA) misturavam-se reivindicações independentistas, guerrilha e terrorismo, sendo estas duas realidades responsáveis por boa parte dos atentados e vítimas na Europa ao longo desse período. Em 1974 dá-se o pico dos atentados do IRA na Irlanda do Norte e Inglaterra, por vezes em bares e outros locais públicos causando 91 mortos. No País Basco, o máximo das mortes atribuídas à ETA foi em 1980 (93 mortos). Tudo isto dá vários picos entre 1972 e 1988, ano em que na explosão do avião da Pan Am que sobrevoava Lockerbie (atribuído a agentes de Kadhafi) morreram 259 pessoas. Tudo se começa a diluir na década de 90, com diminuição de ocorrências e vítimas.

O primeiro sinal de mudança para o paradigma jiadista é o atentado de argelinos no metro parisiense de Saint-Michel (1995) mas, mesmo com atentados como os da Al-Qaeda nos comboios suburbanos de Madrid (11 de março de 2004), nunca se volta ao acumulado anual de vítimas das décadas anteriores. Contudo, do Iraque ao Líbano, do Afeganistão ao Paquistão, da Nigéria ao Iémen, os atentados dos últimos dez anos têm sido mais numerosos e muitíssimo mais sangrentos. Perante o Daesh ou o Boko Haram os grupos esquerdistas dos anos 70 não passavam de aprendizes.

Texto escrito em colaboração com Rui Cardoso

NÚMERO DE MORTOS EM ATAQUES TERRORISTAS NA EUROPA OCIDENTAL ENTRE 1970 E 2015

QUATRO TIPOS DE ATAQUES ATÉ AOS ANOS 80

SIMBÓLICOS
Atentados e raptos visando alvos de grande visibilidade: empresários, membros do governo, diplomatas, polícias, etc. Método típico de grupos como as Brigadas Vermelhas italianas e a Fração do Exército Vermelho alemão (Baader-Meinhof) ao qual se atribuem 34 mortes, entre atentados bombistas e ataques a tiro, ao longo de 30 anos de atividade. Foi também o método de grupos vindos do Médio Oriente (arménios, iranianos, palestinianos, etc.): ataque à delegação olímpica israelita em Munique (1972) ou ao embaixador israelita em Londres (1982)

SEPARATISTAS
Efeitos locais da luta armada de grupos separatistas como a ETA (País Basco) ou IRA (Irlanda do Norte). A ETA começa a partir dos anos 90 a alargar os atentados a autarcas e políticos bascos e não apenas a polícias ou militares, enveredando pelo assassínio sem restrições. No segundo caso, quase guerra civil entre católicos e protestantes com múltiplos ajustes de contas locais, guerrilha contra a presença inglesa, retaliações militares contra civis como o Domingo Negro (30/1/72) e “exportação” para a Inglaterra de atentados bombistas, muitas vezes contra civis

PIRATAS DO AR
Desvios de aviões comerciais ou ataques em aeroportos por grupos não europeus, “exportando” para a Europa conflitos do Médio Oriente ou Norte de África. O caso mais sangrento foi o do avião da Pan Am feito explodir por agentes de Kadhafi sobre Lockerbie (Escócia)

MASSACRES EM MASSA
Na Europa os ataques a alvos civis indiscriminados visando causar o máximo de vítimas são raros até aos anos 80. Ainda assim bombas do IRA visaram locais públicos, causando dezenas de vítimas civis. O mais sangrento ataque deste tipo foi o da estação de Bolonha pelo qual diversos neofascistas foram julgados e condenados. Isto muda a partir de 1995 quando um grupo argelino ataca no metro de Paris, atingindo a máxima expressão em Madrid e Londres, aqui já com inspiração da Al-Qaeda. Ainda não se sonhava, então, com atentados como os do “Charlie Hebdo” e muito menos com o ataque à talibã na Sexta-feira Negra de Paris. Neste contexto a exceção dissonante é o ataque do “lobo solitário” de extrema-direita Breivik na Noruega em 2011

DÉCADAS AGITADAS

1979
foi o pico do número de atentados na Europa Ocidental (mas não de mortos) com um total de 1019 ocorrências

3
países, Irlanda do Norte, Espanha e Itália foram de 1970 a 2007 os que tiveram mais ataques terroristas, ligados a violência separatista nos dois primeiros casos

829
vítimas mortais da ETA em Espanha entre 1960 e 2011: 468 membros das forças de segurança e 343 civis. 1980 foi o ano mais sangrento, com 93 mortos atribuídos a atentados do grupo

OBJETIVO ESPETÁCULO

1970
Comando da Fração do Exército Vermelho liberta o líder preso, Andreas Baader, em Berlim

1973
Bomba da ETA mata primeiro-ministro espanhol Carrero Blanco

1978
Brigadas Vermelhas sequestram e acabam por matar ex-PM italiano Aldo Moro

1980
Ocupação da embaixada iraniana em Londres por separatistas e operação de resgate pelo SAS (7 mortos)

1982
Palestinianos do grupo Abu Nidal matam embaixador israelita em Londres

1984
Dissidentes do IRA põem bomba em Brighton no congresso do Partido Conservador para assassinar a PM britânica Margaret Thatcher que escapa à explosão (5 mortos)

ATENTADOS SANGRENTOS FORA DA EUROPA OCIDENTAL PÓS-11 DE SETEMBRO

ESTADOS UNIDOS, 11.9.2001
Quatro aviões são desviados por membros da Al-Qaeda. Três embatem no World Trade Center e no Pentágono. Morrem 2996

RÚSSIA, 23.10.2002
Homens e mulheres armados tomam o teatro Dubrovka, Moscovo. Exigem a saída russa da Tchetchénia. Morrem 170 reféns

INDONÉSIA, 12.10.2002
Um grupo ligado à Al-Qaeda mata 202 pessoas de 20 nacionalidades em Bali. São usadas bombas e suicidas

RÚSSIA, 1.9.2004
Um comando tchetcheno sequestra 1100 pessoas (777 crianças) numa escola de Beslan, Ossétia do Norte, durante três dias. Após o resgate russo há 385 mortos

ÍNDIA, 11.7.2006
Sete bombas em panelas de pressão detonam em 11 minutos, na linha ferroviária de Bombaim, matando 209. Grupo islamita diz querer vingar a minoria muçulmana

ÍNDIA, 26.11.2008
Dez atentados sincronizados contra vários edifícios de Bombaim (café, hotel, hospital, centro judaico, cinema, etc.), matam 195. A vaga de terror prolonga-se durante três dias

PAQUISTÃO, 16.12.2014
Três árabes, dois afegãos e um tchetcheno, afetos aos talibãs paquistaneses, matam 141 numa academia militar em Peshawar

NIGÉRIA, 3.1.2015
O grupo jiadista Boko Haram faz massacres sistemáticos na cidade de Baga. O terror dura cinco dias e visa tropas estrangeiras e civis locais (150 mortos)

QUÉNIA, 2.4.2015
Al-Shabaab somali ataca Universidade de Garissa e mata 148 pessoas

EGITO, 31.10.2015
Charter russo com turistas descola de Sharm el-Sheikh e explode (224 mortos). Ramo local do Daesh reivindica

IRAQUE, 3.7.2016
Ataque à bomba em Karrada, uma área comercial maioritariamente xiita em Bagdade, mata 341. O Daesh (sunita) reclama a autoria do atentado

Artigo publicado no Expresso, a 23 de dezembro de 2016

China devolve drone aos Estados Unidos, sem polémicas

A China entregou aos Estados Unidos um aparelho não tripulado norte-americano capturado pela marinha chinesa no Mar do Sul da China. No Twitter, Donald Trump não se conteve…

A China entregou aos Estados Unidos um drone subaquático capturado pela sua marinha no Mar do Sul da China. O caso tinha condimentos para transformar-se num contencioso entre os dois gigantes da geopolítica mundial, mas tudo se resolveu sem grande polémica, apenas com algumas declarações exageradas.

“Este incidente era inconsistente tanto ao nível do direito internacional como dos padrões de profissionalismo relativos à conduta entre marinhas no mar”, afirmou o Pentágono num comunicado divulgado na segunda-feira. “Os Estados Unidos abordaram esses factos junto dos chineses, através dos canais diplomáticos e militares adequados, e apelaram às autoridades chinesas para que cumpram com as obrigações que lhes incumbem ao abrigo do direito internacional e que se abstenham de mais esforços para impedir atividades legais dos EUA.”

O veículo não tripulado tinha sido capturado pela marinha chinesa a 15 de dezembro em águas internacionais, a cerca de 50 milhas náuticas para noroeste do porto filipino de Subic Bay, quando o navio de pesquisa oceanográfica norte-americano USNS Bowditch se preparava para o recolher.

“O USNS Bowditch, um navio de investigação de classe Pathfinder que pertence ao Comando de Navegação Marítima do Gabinete Oceanográfico Naval [dos EUA], é destacado de modo rotineiro para pesquisar e mapear o fundo do oceano”, explica o sítio de análise geopolítica Stratfor. “Apesar desta missão ter uma natureza ostensivamente civil, os dados recolhidos pelo navio também têm aplicação militar, o que é particularmente relevante para a navegação submarina.”

Estivesse Donald Trump na Casa Branca…

Nos últimos anos, têm-se acentuado fricções entre Washington e Pequim à medida que os norte-americanos procuram combater o expansionismo chinês em águas disputadas no Mar do Sul da China.

Este incidente com o drone, em particular, foi resolvido sem polémicas, mas acontece numa altura em que a retórica entre as autoridades chinesas e o Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, está cada vez mais azeda.

No Twitter, Trump não perdeu a oportunidade para comentar a questão e insinuar o que faria se estivesse na Casa Branca: “Devíamos dizer à China que não queremos de volta o drone que eles roubaram. Que fiquem com ele!”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 20 de dezembro de 2016. Pode ser consultado aqui