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Um grito em nome de Alepo

Esteve quase quatro anos em missão na Síria e foi testemunha de uma “convivência única” entre populações muçulmanas e cristãs. Hoje, a irmã argentina Maria de Guadalupe sente que é seu dever partilhar a sua experiência para alertar, sobretudo, para a situação em Alepo. Falámos com ela, aprendemos com ela, sofremos com ela

Na era da comunicação global e das grandes conquistas tecnológicas, nem sempre a verdade está à distância de um clique. E o conflito na Síria é um exemplo disso. “Estamos na era da comunicação, mas é lamentável que não se saiba a verdade sobre o que se passa em Alepo.

O que se vende no Ocidente é uma mentira, baseada em muita desinformação e ignorância”, acusa a irmã Maria de Guadalupe, de 43 anos, em entrevista ao Expresso. E concretiza: “A perseguição aos cristãos é desconhecida do resto do mundo”.

Missionária da Família Religiosa do Verbo Encarnado, congregação sediada em Buenos Aires — cidade onde nasceu o Papa Francisco —, Guadalupe esteve quase quatro anos em missão em Alepo, a segunda maior cidade síria e que hoje se encontra praticamente dizimada pela guerra. “Em termos humanos, Alepo foi a pior situação que alguma vez presenciei. Mas foi também, sem dúvida alguma, a minha melhor missão. Se voltasse atrás no tempo, pediria para ir para a Síria.”

Em Alepo, antes da guerra rebentar, a irmã testemunhou uma convivência entre muçulmanos e cristãos como nunca antes vira na região. “Nunca vi nada igual em 15 anos de missões no Médio Oriente.” A Síria era um país excecional, tinha um Estado laico e “Alepo era uma cidade desenvolvida, muito próspera, com um excelente nível académico — era uma cidade empresarial”, que rivalizava com Damasco, a capital. Pessoas de diferentes religiões eram colegas de trabalho e amigos.

Dirigindo um coro infantil na Catedral do Menino Jesus, no bairro de Shahba, onde vivem e trabalham os missionários da congregação da irmã Guadalupe FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Maria de Guadalupe chegou a Alepo em inícios de 2011, quando as manifestações populares da Primavera Árabe ainda não tinham saído às ruas da Síria e ninguém antevia a guerra sangrenta que se seguiria. Antes, tinha estado dois anos na cidade palestiniana de Belém (Cisjordânia) e 12 em Alexandria, no Egito.

Durante esse período, deslocou-se a vários países na região (Jordânia, Síria, Iraque e Tunísia) para trabalhar junto das comunidades cristãs locais. Quando lhe foi proposto que escolhesse o seu próximo destino, a missionária escolheu Alepo, pensando que iria poder desfrutar de um período mais calmo do que aquele que vivera no Egito.

“Nunca pensei estar preparada para permanecer num país em guerra, mas eu já lá estava quando a guerra começou. Apercebi-me que tinha de ficar, pois Deus mo pedia. O meu superior sempre disse que temos de ir para onde ninguém queira ir. Esse lugar é Alepo”, cidade que está, desde há anos, a ser disputada pelo exército nacional, forças rebeldes laicas e jihadistas.

Guadalupe vivia na parte ocidental da cidade, controlada pelas tropas do Presidente Bashar al-Assad. “É um erro dizer que a Síria está a sofrer uma guerra civil. O país foi invadido por grupos armados estrangeiros, terroristas, que desde o início perseguem abertamente os cristãos e qualquer outro grupo que não corresponda ao seu fundamentalismo.”

Acusa o Ocidente de defender a liberdade, a democracia e os direitos humanos e, ao mesmo tempo, de financiar o terrorismo em nome de interesses económicos.

Além do trabalho pastoral na catedral, a congregação tem uma residência para estudantes universitárias oriundas de fora de Alepo FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Quando o Daesh se fez anunciar na Síria — estabelecendo em Raqqa a sua capital —, a missionária ainda estava no país. Mas nunca o enfrentou diretamente. “Se tivesse tido algum contacto com o Daesh não estaria cá hoje para contar”, diz, fazendo o gesto de quem corta a garganta. “Não há maneira de conversar com esta gente. O Daesh pratica uma intolerância total para com os cristãos. O sequestro ou a morte são inevitáveis.”

A irmã garante que apesar da devastação e das atrocidades cometidas em Alepo e noutras cidades da Síria, as populações resistem o mais possível a deixar as suas casas ou o país. Fugir é sempre a última opção, “o êxodo é forçado”. É resultado do desespero. Estima-se que, desde março de 2011, cerca de 11 milhões de sírios tenham fugido de casa. Muitos saíram mesmo do país.

Guadalupe saiu da Síria em finais de 2014. Hoje, sente que, de certa forma, a sua missão em Alepo ainda não terminou. Viaja por vários países, dando o seu testemunho para que os cristãos perseguidos, com quem se preocupa em especial, tenham uma voz que os defenda. Uma gota no oceano, mas uma gota necessária.

Chegou a Portugal no passado dia 18, a convite da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre. Esteve no Porto, no Estoril, em Lisboa e esta quinta-feira à noite dará o seu testemunho em Almada, na Igreja Paroquial de São Tiago, pelas 21h15.

Na quarta-feira, a irmã Guadalupe deu o seu testemunho no Colégio de São Tomás, em Lisboa FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO

Para quem não a irá ouvir, ela apela: “Não podemos ser indiferentes ao que se passa em Alepo. Temos de rezar por eles e pela paz. E temos de cooperar, contribuindo para a paz com o nosso próprio comportamento. Somos seres humanos e vivemos em comunidade. Se eu faço o bem, isso repercute-se na sociedade e contribui para a paz. Se eu vivo em pecado, vício, egoísmo, isso repercute-se na sociedade e contribui para a guerra. O nosso comportamento não é indiferente. Através dele, cooperamos com a guerra ou com a paz.”

(Foto principal: A irmã Maria de Guadalupe esteve em missões no Médio Oriente durante 15 anos FAMÍLIA RELIGIOSA DO VERBO ENCARNADO)

Artigo escrito em conjunto com Flor Lança de Morais e publicado no “Expresso Diário”, a 24 de novembro de 2016 e republicado no Expresso Online, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

“Não serei uma estrela do rock, serei uma lenda”: o Freddie vive

Fernando Conceição é um fã abnegado de Freddie Mercury, daqueles que gastam os CD de tanto os ouvir. Coleciona tudo o que tenha que ver com o artista e viaja pelo mundo no encalce dos seus sítios emblemáticos. Quando um grave problema de saúde debilitou Fernando Conceição, a quem chamam “o Freddie português”, foi alvo de uma homenagem da melhor banda de tributo aos Queen. Na semana do 25º aniversário da morte de Freddie Mercury, que se assinala esta quinta-feira, abriu ao Expresso a porta de casa e do seu raro museu privado para desvendar encontros e episódios singulares

Freddie Mercury, o carismático vocalista dos Queen, morreu faz esta quinta-feira 25 anos. Mas a lenda continua viva graças a fãs como Fernando Conceição. “Era um génio, a compor, a cantar e em palco. Para nós, os fãs, ele não morreu, apenas deixou de escrever. Ouvimos as músicas dos Beatles ou do Elvis com nostalgia, mas não as do Freddie. Parece que ele está ali, a cantá-las.”

Fernando, de 52 anos, recebe o “Expresso” no seu apartamento em Queluz vestido com uma t-shirt preta que tem estampada uma frase emblemática do seu ídolo: “Não serei uma estrela do rock, serei uma lenda”, uma espécie de declaração prévia a uma conversa onde o fã se dispõe a partilhar como nasceu a admiração pelo artista e como, 25 anos após o seu desaparecimento, Freddie continua a ser importante para tanta gente. “Tinha uns 15 anos quando ouvi os Queen pela primeira vez. Gostava muito de música, mas não os conhecia. Um dia, o meu irmão mais velho trouxe um single do ‘Crazy little thing called love’ e pôs a tocar. Eu não queria dar parte fraca — coisa de irmãos — e não dei muito valor. Mas a música nunca mais me saiu da cabeça. Fui comprar o mesmo single para mim. Ainda o tenho.”

Aquele disco seria a primeira peça de um “museu” que foi ganhando forma ao longo dos anos e que hoje ocupa uma parede na sala de estar de Fernando, onde uma grande estante está totalmente preenchida com todo o tipo de objetos alusivos aos Queen: discos em vinil, cassetes e CD, vídeos, livros, postais e álbuns fotográficos, pins, medalhas e porta-chaves, bandeiras e peças de roupa, brinquedos, bonecos e puzzles, garrafas de vinho, cerveja e vodka, frascos de ketchup e preservativos, entre muitas outras coisas que Fernando vai comprando e recebendo de presente. Umas mais valiosas do que outras em termos monetários, todas elas emocionalmente preciosas.

Fernando Conceição na sua sala-museu, onde guarda todo o tipo de objetos alusivos a Freddie e aos Queen, de discos em vinil a preservativos ANA BAIÃO

Na sua sala-museu, como Fernando lhe chama, já esteve Jacky Smith, que preside há décadas ao Clube de Fãs Internacional Oficial, de que Fernando é o sócio 60.360. Muitos outros admiradores conhecem o espaço através do Facebook de Fernando. De Vila Nova de Gaia à Polónia, vários já lhe expressaram o desejo de visitar o museu. Fernando tem cotação alta junto de fãs de todo o mundo. “Dizem que sou o Freddie português.” Perguntam-lhe se tem o número de telemóvel dos músicos da banda, pedem-lhe que esclareça rumores e que confirme informações, como aconteceu recentemente quando foi conhecida a morte da mãe de Freddie Mercury.

Aparentemente, aquela parede homenageia todos os membros dos Queen por igual, mas a figura de Freddie Mercury sobressai. “Sou fã dos Queen, mas mais do Freddie Mercury. Marcou-me principalmente a voz dele, que é muito poderosa, e as suas atuações ao vivo, a personagem que ele assumia em cima do palco e a interação com o público”, diz. “Até hoje, não houve mais ninguém como ele.”

Após vencer um concurso organizado pela editora dos Queen, em 2011, o fã português teve entrada numa festa só para convidados, na véspera da inauguração de uma exposição sobre a banda. Roger Taylor e Brian May não faltaram. Fernando e a sua jaqueta amarela não passaram despercebidos FOTO CEDIDA POR FERNANDO CONCEIÇÃO

Uma foto da parede da sala-museu está também na origem de um dos momentos mais especiais da vida de Fernando Conceição. Em 2011, a Universal, editora dos Queen, organizou um concurso em vários países: quem provasse ser o maior fã da banda ganharia uma viagem a Londres para duas pessoas com direito a estadia e entrada numa festa privada que teria lugar na véspera da inauguração da exposição “Stormtroopers in Stilettos”, sobre os primeiros anos da banda e que abriu ao público a 25 de fevereiro.

Fernando participou com a imagem do seu “museu” e foi o vencedor português. Embarcou para Londres trajado à Freddie da cabeça aos pés, com jaqueta amarela, calças desportivas e ténis Adidas, a indumentária com que o vocalista subiu ao palco no mítico concerto em Wembley, a 12 de julho de 1986.

Sem saber se os membros dos Queen que continuaram com o projeto após a morte de Freddie iam à festa, Fernando desfilou pela “passadeira vermelha” — que naquele caso era rosa-choque — e entrou num espaço exclusivo onde conviviam familiares do cantor — como a mãe, Jer Bulsara, e a irmã Kashmira —, pessoas próximas da banda, como o manager Jim Beach, e outras estrelas do espetáculo, como a cantora Jessie J e Dave Grohl, vocalista dos Foo Fighters.

O desejo de Fernando concretizou-se e quer o guitarrista Brian May quer o baterista Roger Taylor compareceram ao evento. O momento para tirar fotos com ambos, pedir autógrafos e trocar umas palavras surgiu com naturalidade. “Foi um sonho realizado, já que com o Freddie não consigo estar”, recorda. “O Brian May disse-me que se não soubesse onde está a jaqueta amarela original, usada pelo Freddie, dizia que era a minha.”

O casaco foi um presente de aniversário da esposa de Fernando, que o encomendou às escondidas a uma amiga aderecista, após visionar muitos vídeos e fotografias de Freddie com ele vestido. “Se a costureira quiser fazer outro, já não sai igual”, garante Fernando. “Este casaco tem qualquer coisa de especial. O próprio Brian May mo disse.” Diana Moseley, a costureira de Freddie Mercury, também já lhe pôs a vista em cima. Confirmou que o tecido usado era o mesmo, observou Fernando de cima a baixo e… procurou defeitos. Disse que as calças tinham o bolso na perna errada. Fernando ficou aflito, mas depois confirmou não ser verdade. “Não vendia este casaco por dinheiro algum! Uns italianos já mo quiseram comprar, mas não aceitei.” Tem o casaco desde 2009. Nunca o lavou. “Tenho medo que aconteça alguma coisa.”

Após a morte de Freddie Mercury, a banda britânica prosseguiu a carreira com apenas dois dos restantes três membros. Para John Deacon, o baixista, não fazia sentido continuar sem Freddie, a alma do projeto ANA BAIÃO

Depois de privar com os músicos dos Queen, Fernando já voltou a Londres várias vezes, por altura de outras festas, apenas para se colocar à porta a tirar fotos e ver entrar os convidados. Para ele, cada ida à capital britânica torna-se um “tour” pelos sítios emblemáticos frequentados por Freddie: o colégio onde estudou, o Heaven (uma discoteca gay), a casa onde viveu (Garden Lodge), na zona de Kensington, fechada ao público por vontade do artista, e onde vive Mary Austin, namorada de Freddie durante oito anos, a quem o cantor deixou a fortuna e a quem dedicou o tema “Love of my life”. Esta é também a música preferida de Fernando — “preferidas são elas todas, mas aquela é especial” — e a que tem como toque de telemóvel para identificar as chamadas da mulher. Para os outros, o toque é o “Bohemian Rhapsody”.

Junto a Freddie, em Montreux

Fernando não é um fã que se limita a “romper” os discos dos Queen, ouvindo-os até à exaustão. Além do museu, viaja sempre que pode, no rasto do ídolo, até Londres e desde 2008 até à cidade suíça de Montreux, para onde Freddie Mercury se retirou numa fase tardia da vida e onde anualmente fãs de todo o mundo acorrem para celebrar o aniversário do artista, a 5 de setembro.

À casa que Freddie ali comprou, voltada para o lago Léman, só se chega de barco. “É um paraíso”, confirma Fernando. “O lago transmite uma grande tranquilidade. É muito fácil perceber por que motivo o Freddie quis lá morar.” Ali, tinha sossego, isolamento e anonimato.

Em Montreux, a festa oficial decorre no casino, onde se entra mediante a compra de bilhete, mas o grande convívio entre fãs acontece junto a uma estátua em bronze de Freddie, oferecida pela soprano espanhola Montserrat Caballé (com quem Freddie gravou “Barcelona”) e inaugurada a 25 de novembro de 1996.

A estátua está virada para o lago. “A dada altura, os suíços quiseram virá-la para a cidade, mas os fãs não deixaram. Fizeram uma petição”, que Fernando também assinou. “O Freddie comprou ali a casa para estar a olhar para o lago…”

Estátua de Freddie Mercury virada para o lago Léman, na cidade suíça de Montreux, onde o músico viveu nos últimos anos. Todos os anos, a 5 de setembro, os fãs ali acorrem para celebrar o aniversário de Freddie S_WERNER / WIKIMEDIA COMMONS

Entre os admiradores, junto à estátua, nunca falta assunto. Convivem, cantam (músicas dos Queen e também os parabéns), tiram fotos, partilham entre si informações novas. “Só falamos do Freddie, há sempre uma novidade qualquer.” Junto de Peter Freestone, o assistente pessoal de Freddie que também é presença assídua, tentam saber pormenores inéditos da vida do músico. “Às vezes, o Peter, que também cozinhava, faz-nos o bolo que costumava fazer para o Freddie.”

Em Montreux, Fernando dá nas vistas mal sai do comboio “por causa do casaco amarelo”, que o acompanha desde que lá vai e por causa do bigode à Freddie que deixa crescer propositadamente. Junto à estátua, torna-se, ele próprio, uma atração para os fãs, a quem não diz que não quando lhe pedem para tirar uma foto. É uma grande festa a vários níveis. “Só não vou se não puder”, diz.

Foi o que aconteceu este ano. Há cerca de dois anos e meio, a vida de Fernando — da mulher, do pequeno Afonso de 9 anos e de Fábio de 24 (filho apenas de Fernando) — deu uma reviravolta, quando lhe foi diagnosticado um cancro. Deixou de poder fazer planos e deixou de comparecer com a frequência habitual nos locais de sempre. Mas “os fãs do Freddie português” não o esqueceram.

Foi o caso da banda argentina Dios Salve a la Reina, reconhecida por muitos — incluindo Fernando — como “a melhor banda de tributo aos Queen” em todo o mundo e que recentemente se apresentaram em versão sinfónica em Lisboa e Gondomar, acompanhados da Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro Cristiano Silva, e pelo Coro do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Conhecedores do problema de saúde de Fernando, que conheciam dos seus concertos em Portugal, dedicaram-lhe um vídeo de motivação.

HOMENAGEM A 27 de junho de 2014, os Dios Salve a la Reina deram um concerto no Campo Pequeno, em Lisboa. Nos bastidores, não esqueceram o fã português e dedicaram-lhe um vídeo especial… VÍDEO CEDIDO POR FERNANDO CONCEIÇÃO

No ano passado, conseguiu ir a Londres e marcou presença na festa no Hard Rock Cafe que, a cada 5 de setembro, doa uma percentagem de cada refeição servida em todos os seus restaurantes por todo o mundo à Fundação Mercury Phoenix Trust. Criada em 1992, apoia o combate à Sida, que vitimou Freddie. “O gerente era português. Na festa atribuíram prémios aos mais bem vestidos. Lá trouxe mais uns… É o casaco.”

The show must go on… com outros vocalistas

Talvez a “fúria” com que Fernando viaja no encalce de Freddie Mercury se explique pelo facto de nunca ter visto o artista ao vivo. “É um desgosto que tenho. Ele nunca veio a Portugal e, naquela altura, eu não tinha hipótese de viajar. Eram outros tempos. Se fosse hoje, desgraçava-me a vida porque eu andaria atrás dele para todo o lado.”

O primeiro concerto dos Queen a que assistiu foi em Barcelona, a 2 de abril de 2005. Freddie tinha morrido há 14 anos e a banda regressava aos palcos com um novo vocalista, Paul Rodgers, mas sem o baixista John Deacon, para quem os Queen acabaram quando Freddie morreu. Nesse ano, a 2 de julho, os “Queen + Paul Rodgers” passaram também pelo Estádio do Restelo e Fernando não faltou. O terceiro e último concerto a que assistiu foi a 20 de maio passado, no Rock in Rio Lisboa, com Adam Lambert como vocalista.

“Como fã dos Queen/Freddie Mercury, para mim nenhum deles se aproxima do Freddie. O Brian May e o Roger Taylor gostam de música, querem continuar com os Queen, mas deviam fazer músicas novas. Podiam tocar repertório dos Queen, mas não apenas isso, como acontece. Em Barcelona, ouvir as músicas interpretadas por outro cantor que não o Freddie mexeu muito com o público. O concerto estava completamente morno e só ‘explodiu’ quando surgiu no video wall a imagem do Freddie.”

Para fãs como Fernando, Freddie é insubstituível, pelo que as músicas compostas por ele não deveriam ser interpretadas por outros cantores enquanto Queen. A banda está ciente desta sensibilidade. Durante os concertos, é Brian May quem interpreta “Love of my life”. A ele junta-se inevitavelmente o público e… Freddie Mercury, projetado no ecrã.

Desta forma, homenageiam a alma da banda e acalmam as hostes. “Eles passam muitas imagens do Freddie, que é o que realmente une o público. Eles têm a noção de até onde podem ir com o Adam Lambert ou qualquer outro.”

Como se depreende da forma como aprecia os argentinos Dios Salve la Reina, Fernando não se opõe à existência de bandas tributo, que copiam os Queen em repertório e atitude. “Eu faço o meu tributo, eles fazem o tributo deles.” Igualmente, não se incomodou quando, a dada altura, Freddie Mercury optou por seguir com a carreira a solo. “Para mim era igual, era o Freddie”, um artista de exceção e um homem extravagante, de excessos, que não queria envelhecer em palco e que protegeu a sua privacidade até ao fim da vida.

A 23 de novembro de 1991, a imprensa noticiou que Freddie Mercury tinha sida. No dia seguinte, morreu, aos 46 anos. “Não estou a ouvir o Freddie”, reclama Fernando durante a sessão fotográfica para o “Expresso”. A mulher, a assistente do fã quando está “em modo Freddie” e companheira de aventuras, dirige-se ao leitor de CD e carrega no “on”. Freddie volta a ouvir-se por toda a casa.

(Foto principalChamam-lhe “o Freddie português” e aquele casaco amarelo é valioso e invejado ao ponto de Fernando Conceição ter medo de lavá-lo (mas não de levá-lo). Nas idas a Londres e a Montreux, veste-se a rigor com a indumentária com que Freddie subiu ao palco no mítico concerto em Wembley, em 1986. E em casa tem um precioso museu privado dedicado aos Queen ANA BAIÃO)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 23 de novembro de 2016, e republicado no “Expresso Online”, a 24 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui e aqui

Trump e Putin já falaram ao telefone

O líder russo e o Presidente eleito dos Estados Unidos conversaram na segunda-feira. Estão “insatisfeitos” com a relação bilateral atual e querem retomar uma “cooperação pragmática”

Donald Trump e Vladimir Putin tiveram, na segunda-feira, a sua primeira conversa telefónica, confirmaram o Kremlin e a equipa de transição do Presidente eleito dos Estados Unidos da América. Segundo um comunicado do gabinete do Presidente russo, Putin e Trump concordaram que a presente relação bilateral entre os dois países é “absolutamente insatisfatória” e expressaram o desejo de trabalharem em conjunto no sentido da sua “normalização”.

Segundo Moscovo, a chamada telefónica foi realizada “por acordo mútuo”. Vladimir Putin expressou a sua disponibilidade para desenvolver um diálogo entre parceiros com a nova Administração “numa base de igualdade, respeito mútuo e não interferência nos assuntos internos de cada um”.

Já o curto comunicado da equipa de transição de Donald Trump refere que Putin telefonou “para felicitar [Trump] pela vitória numa eleição histórica” e que foram discutidas “uma série de questões, incluindo as ameaças e desafios que os EUA e a Rússia enfrentam, questões económicas estratégicas e o relacionamento histórico” entre os dois países.

Regresso ao passado

Em 2017, passam 210 anos sobre o estabelecimento de relações diplomáticas entre russos e americanos, “o que, em si, deverá encorajar o regresso a uma cooperação pragmática, mutuamente benéfica, no interesse de ambos, assim como da estabilidade e segurança globais”, lê-se no comunicado russo.

Os dois líderes referiram ainda a necessidade de esforços conjuntos “na luta contra o inimigo comum n.º 1 — o terrorismo internacional e o extremismo. Neste contexto, discutiram assuntos relacionados com a solução da crise na Síria”, onde estão em lados opostos da barricada: Moscovo é o mais forte aliado do Presidente Bashar al-Assad e Washington apoia grupos rebeldes.

A relação EUA-Rússia degradou-se acentuadamente na sequência da crise na Ucrânia e da guerra na Síria. Durante a campanha para as presidenciais norte-americanas, Washington acusou Moscovo de pirataria informática com o objetivo de “interferir no processo eleitoral dos EUA”, debilitando a candidatura da democrata Hillary Clinton.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Candidatos democratas já votaram

A dupla democrata candidata à Casa Branca, Hillary Clinton e Tim Kaine, já exerceu o direito de voto. Na Virgínia, o candidato à vice-presidência madrugou para ser o primeiro na sua secção de voto… mas foi ultrapassado por uma senhora de 99 anos

As urnas já abriram nos Estados Unidos. Dos cerca de 200 milhões de eleitores registados para votarem nas eleições presidenciais, mais de 46 milhões, entre os quais Barack Obama, exerceram previamente o direito de voto — por correspondência ou por antecipação. Para os restantes, esta terça-feira é a última oportunidade para participarem na escolha do 45.º Presidente dos EUA.

“Não existe tal coisa de que um voto não conta. Hoje, você pode fazer a diferença”, escreveu num tweet a candidata democrata Hillary Clinton, antes de votar em Chappaqua, no estado de Nova Iorque. Acompanhada pelo marido, o 42.º Presidente norte-americano, Bill Clinton, Hillary distribuiu sorrisos de confiança, seguida de perto por um batalhão de câmaras televisivas.

Mais discreto, o candidato democrata à vice-presidência, Tim Kaine, madrugou, exercendo o seu direito de voto nas instalações de uma igreja metodista em Richmond, no estado da Virginia. “Queria ser o primeiro na minha assembleia de voto, mas a Minerva Turpin, de 99 anos, ganhou-me. Parece que preciso de me habituar a ser número dois!”, escreveu o senador Kaine no Twitter, com humor.

Em matéria de afluência às urnas, a dupla democrata foi a primeira a cortar a meta, ainda que não seja esta a corrida que conta. Terminada “a campanha mais feia da história moderna” dos EUA, como a qualificou a CNN, os dois principais candidatos — separados nas sondagens por curta margem — desdobram-se em apelos ao voto.

“Somos um grande, grande país, temos um potencial enorme. Saiam e votem”, afirmou Donald Trump esta terça-feira de manhã, numa intervenção por telefone no programa “Fox & Friends” da televisão conservadora Fox News. O candidato republicano reconheceu: “Se eu não ganhar, considero um tremendo desperdício de tempo, energia e dinheiro”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Norte-americanas não esquecem ativista da luta pelo direito ao voto

Susan B. Anthony foi uma ativista da luta pelo direito ao voto feminino nos Estados Unidos. Esta terça-feira, a tradicional “peregrinação” à sua campa em dia de eleições redobrou de intensidade e de significado… Ou não estivessem os EUA mais próximos do que nunca de eleger uma mulher na Casa Branca

É um ritual que se repete de cada vez que os norte-americanos são chamados a eleger um novo Presidente. Muito cidadãos, sobretudo mulheres, acorrem à campa de Susan Brownell Anthony, em Rochester, Nova Iorque, para prestar homenagem àquela sufragista falecida em 1906, aos 86 anos.

Esta terça-feira, a afluência foi de tal ordem que o autarca mandou extendeu o horário de abertura do cemitério Mount Hope até às nove da noite (habitualmente fecha às 17h30).

Junto à sepultura de Susan, muitas norte-americanas “vingaram” o facto de ela nunca ter sido autorizada a exercer o direito pelo qual tanto lutara, colando na sua lápide autocolantes que diziam “Eu votei”.

“Hoje votei por causa de mulheres como ela”, escreveu a jovem Brynn Hunt no Instagram. “Hoje votei pela primeira vez, visitei a campa de Susan B. Anthony e vesti-me de branco para homenagear o sufrágio feminino. Percorremos um longo caminho desde que passou a 19ª emenda [ratificada a 18 de agosto de 1920 e que confere o direito de voto às mulheres], mas ainda temos muito a percorrer. Tenho em orgulho em dizer #imwithher”, ou seja, “estou com ela”, que é uma das hashtags de apoio a Hillary Clinton.

Em 1872, Susan B. Anthony desafiou os cânones da época — e as autoridades — votando nas eleições presidenciais. Foi presa e levada a julgamento, num processo que chegou aos jornais nacionais. Foi-lhe aplicada uma multa de 100 dólares, que a ativista nunca pagou. “Jamais pagarei um dólar por essa pena injusta!”

Susan B. Anthony, pioneira do sufragismo nos EUA, em 1855 WIKIMEDIA COMMONS

Este ano, a motivação para a romaria à campa de Susan foi acrescida já que, pela primeira vez, uma mulher é candidata à Casa Branca. E com forte possibilidade de vencer.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui