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Índia faz “ataques cirúrgicos” na Caxemira

Nova Deli realizou uma operação militar junto à fronteira com o Paquistão visando “unidades terroristas” preparadas para se infiltrarem em território indiano. A tensão entre Índia e Paquistão, duas potências nucleares, intensificou-se nos últimos quinze dias

A Índia confirmou esta quinta-feira a realização de “ataques cirúrgicos” contra “unidades terroristas” ao longo da Linha de Controlo, a fronteira que divide a Caxemira, região disputada indianos e paquistaneses.

A operação, na quarta-feira à noite, provocou “baixas significativas aos terroristas e a quem os apoia”, afirmou Ranbir Singh, diretor geral das operações militares do Exército indiano, em conferência de imprensa.

“Apesar dos nossos apelos persistentes para que o Paquistão não permita que território sob seu controlo seja utilizado para atividades terroristas, nada foi feito”, afirmou o responsável indiano, acrescentando que as autoridades militares indianas partilharam com as congéneres indianas “informação muito específica” relativa aos sítios alvejados.

“Não temos quaisquer planos para continuar [com os ataques]. Porém, as Forças Armadas indianas estão totalmente preparadas para qualquer contingência que possa surgir”, acrescentou.

Tensão entre potências nucleares

Diretamente visado por Ranbir Singh, o Paquistão confirmou a morte de dois soldados nacionais durante o que qualificou de “fogo transfronteiriço” e não um “ataque cirúrgico” como a Índia reclama.

“A contínua e crescente infiltração de terroristas ao longo da Linha de Controlo em Jammu e Caxemira tem sido motivo de grande preocupação. Isto reflete-se, entre outras coisas, nos ataques terroristas de 11 e 18 de setembro, em Punch e Uri respetivamente”, disse Ranbir Singh. “Este ano, quase 20 tentativas de infiltração foram frustradas pelo Exército na Linha de Controlo ou próximo dela.”

A tensão entre os dois vizinhos — detentores de armas nucleares, mas não são signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear — aumentou consideravelmente sobretudo após um ataque, a 18 de setembro, contra uma base militar indiana na zona da Caxemira, que fez 18 mortos. Para os indianos, que responsabilizam os paquistaneses pela investida, foi o pior ataque da última década.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

“Nunca quis enganar os palestinianos”

O Nobel da Paz de 1994 coroou os esforços de Shimon Peres no sentido da reconciliação entre árabes e judeus. Mas a sua ascensão política em Israel começou sob o signo das armas. Uma de várias contradições que pontuam uma longa carreira de sete décadas. O último dos fundadores do Estado de Israel morreu esta quarta-feira, aos 93 anos

Shimon Peres (em primeiro plano) junto ao líder palestiniano Yasser Arafat, no Fórum de Davos de 2001 REMY STEINEGGER / WORLD ECONOMIC FORUM / WIKIMEDIA COMMONS

A ironia quis que Shimon Peres desse entrada no hospital de onde não mais sairia com vida após sofrer um acidente vascular no mesmo dia em que israelitas e palestinianos assinalavam o 23º aniversário dos Acordos de Oslo. Peres foi um dos artífices desse tratado, assinado nos jardins da Casa Branca a 13 de setembro de 1993, que devolveu a esperança à região e ao mundo e, ainda hoje, é invocado como solução para o interminável conflito. “Um erro”, sentenciaria poucos anos passados.

“Quando introduzimos no acordo a ideia de uma Autoridade Palestiniana [Governo provisório], concordamos que tudo aquilo seria uma espécie de independência palestiniana a 80%. Foi um erro. Devíamos ter começado imediatamente com a independência”, afirmou ao diário espanhol “El Mundo”, numa entrevista publicada a 20 de fevereiro de 2002. “Não tínhamos a intenção de enganar os palestinianos, mas depois houve uma mudança de Governo em Israel [entrou em cena o “falcão” Benjamin Netanyahu] e as coisas não saíram como esperávamos. Se os palestinianos tivessem tido a independência, tudo teria sido diferente.”

Os Acordos de Oslo valeram a Shimon Peres o Prémio Nobel da Paz de 1994 — juntamente com Yitzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (líder da Organização de Libertação da Palestina) —, mas também um dos seus maiores arrependimentos em sete décadas de causa pública.

A frustração de Shimon Peres em relação à falta de resultados pós-Oslo em que tanto se empenhara é apenas uma de várias contradições que pontuam a sua longa biografia. Se Peres desapareceu, esta quarta-feira, sob uma chuva de elegias que o rotulam como um homem de paz — Mahmud Abbas, o Presidente palestiniano, falou de um parceiro na busca da “paz dos bravos” —, os factos dizem que ele subiu na hierarquia israelita sob o signo das armas.

Nascido em 1923, em Vishneva (então território polaco, hoje bielorrusso), emigrou para a Palestina (sob mandato britânico) aos 11 anos, para, pouco depois, mergulhar nas operações armadas clandestinas da Haganah, um grupo paramilitar empenhado no estabelecimento de um Estado judeu na Palestina.

Após a criação do Estado de Israel, em 1948, David Ben-Gurion confiou nele para uma posição de relevo no Ministério da Defesa. Durante a Guerra da Independência, o “pai fundador” poupara-o à frente de batalha e encarregara-o da aquisição de armas para o exército israelita. Terminado o conflito, colocou-o de serviço ao fortalecimento da capacidade militar do país, nomeadamente na construção de um programa nuclear secreto.

“Israel não tem a intenção de introduzir armas nucleares. Mas se as pessoas têm medo que nós as tenhamos, porque não? Funcionará como dissuasão.” À semelhança do seu mentor, Shimon Peres acreditava que “a bomba” garantiria estatuto a Israel, entre os árabes e… em Washington.

Em nome da segurança de Israel, Shimon Peres desbravou caminhos conducentes a alianças estratégicas com França e Reino Unido que contribuíram para a construção da central nuclear de Dimona e determinaram estratégias político-militares como a que levou à Crise do Suez (1956): Israel invadiu o Sinai criando o pretexto para uma intervenção anglo-britânica visando a recuperação do controlo do Canal do Suez, entretanto nacionalizado pelos egípcios.

Nos anos 60 e 70, Shimon Peres não pôs em causa a estratégia de ocupação israelita dos territórios palestinianos: apoiou a construção de colonatos na Cisjordânia e Faixa de Gaza e expressou reservas em relação a compromissos territoriais — longe do homem de paz que começou a reclamar a partir da década de 80.

O trabalho discreto nos bastidores da segurança de Israel privaram-no da visibilidade essencial para o reconhecimento público que, por exemplo, Yitzhak Rabin e Ariel Sharon, contemporâneos seus que se notabilizaram como líderes militares, tiveram junto do eleitorado.

Uma das grandes contradições de Shimon Peres prende-se com o facto de ter servido por três vezes como primeiro-ministro, sem nunca ter ganho qualquer das cinco eleições nacionais a que se apresentou para o cargo — entre 1977 e 1996, como militante do Partido Trabalhista.

Peres foi uma espécie de “bombeiro de serviço” chamado a “apagar fogos” provocados por várias crises políticas, mas nunca sentiu o sabor da confiança do eleitorado israelita. A falta de currículo militar privou-o desse reconhecimento popular, mas não inviabilizou que desempenhasse quase todos os cargos significativos do país. Entrou no Parlamento (Knesset) em 1959, foi ministro dos Transportes, das Finanças, da Defesa por duas vezes e dos Negócios Estrangeiros por três vezes em décadas diferentes. E, por fim, a cadeira de Presidente, entre 2007 e 2014.

Presidente aos 84 anos

A presidência do país, que lhe foi confiada pelo Knesset tinha ele 84 anos, trouxe-lhe a popularidade que anteriormente lhe escapara. Os israelitas passaram a vê-lo como uma figura histórica, e já não tanto como um político no ativo. “Tenho a certeza que testemunharei a paz durante a minha vida, mesmo que tenha de prolongar a minha vida um ou dois anos”, insistia, porventura falando já mais com a voz da emoção do que com a da razão.

Na presidência, Shimon Peres coincidiu com o “falcão” Benjamin Netanyahu (Likud, de direita) — defensor do reforço da ocupação da Cisjordânia, através da construção de colonatos, e do controlo de todas as fronteiras da Faixa de Gaza (por terra, mar e ar) — à frente do Governo de Israel.

Em rota de colisão com estas opções políticas, e ao mesmo tempo que continuou a fazer a apologia de dois Estados para dois povos, Peres começou a lançar alertas em relação ao futuro do próprio país. “Israel deve aplicar a solução de dois Estados para o seu próprio bem, porque se perdermos a nossa maioria [demográfica] — e hoje somos quase iguais [judeus e árabes] — não poderemos continuar a ser um Estado judeu ou um Estado democrático. Essa é a questão principal e, com muita pena minha, eles [o Governo] fazem o oposto.”

Artigo publicado no Expresso Diário, a 28 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

O homem que trocou a pistola pela pomba

Lutou de armas na mão pela criação de Israel e foi sob o signo das armas que subiu na hierarquia do novo país. Na década de 80 tornou-se o homem da paz, que lhe valeu o Nobel. O percurso de um homem que foi deputado, ministro, chefe de Governo e Presidente e cuja vida se confunde com a do Estado de Israel

Shimon Peres, antigo primeiro-ministro e Presidente de Israel AGÊNCIA BRASIL / WIKIMEDIA COMMONS

A ironia quis que Shimon Peres desse entrada no hospital de onde não mais sairia com vida após sofrer um acidente vascular no mesmo dia em que israelitas e palestinianos assinalavam o 23º aniversário dos Acordos de Oslo. Peres foi um dos artífices desse tratado, assinado nos jardins da Casa Branca a 13 de setembro de 1993, que devolveu a esperança à região e ao mundo e, ainda hoje, é invocado como solução para o interminável conflito. “Um erro”, sentenciaria poucos anos passados.

Continuação do texto aqui.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Um templo sobre religiões onde os ateus são tratados por igual

Tem forma de pirâmide para homenagear o Antigo Egito, nas fachadas tem incrustados símbolos das religiões monoteístas e nos espaços interior e exterior simbologia alusiva a 15 religiões. O Templo Ecuménico Universalista, inaugurado no domingo, apela à tolerância religiosa e à desconstrução de preconceitos

O Templo Ecuménico Universalista situa-se no Parque Biológico da Serra da Lousã, distrito de Coimbra FUNDAÇÃO ADFP

É inaugurado este domingo, em Miranda do Corvo, o Templo Ecuménico Universalista, dedicado à tolerância e ao respeito pela diferença. A coincidência da data com as celebrações de mais um aniversário dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos, não é inocente. Já a primeira pedra do projeto tinha sido lançada a 11 de setembro de 2015.

O Templo pretende ser um monumento de homenagem às vítimas do fundamentalismo, especificamente às que morreram em Washington e Nova Iorque, mas de uma forma geral a todas as pessoas que ao longo de séculos e milénios morreram devido ao fundamentalismo e às ortodoxias religiosas”, explicou ao Expresso Jaime Ramos, da Fundação para a Assistência e Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP), a instituição de solidariedade social laica com sede em Miranda do Corvo que idealizou e financiou o projeto. (Foi a primeira instituição fora de Lisboa a acolher refugiados, que neste momento ascendem a 49).

Com forma piramidal, numa homenagem arquitetónica ao Antigo Egito, e com 13,4 metros de altura, como o Templo de Salomão, construído no século IX a.C. em Jerusalém, o Templo situa-se no topo do Parque Biológico da Serra da Lousã, no distrito de Coimbra.

No seu interior, abriga um Observatório de Religiões que trata, em pé de igualdade, Cristianismo, Islamismo, Judaísmo, Hinduísmo, Xintoísmo, Jainismo, Budismo, Confucionismo, Taoismo, Sikhismo, Zoroastrismo, Fé Bahaí e a religião dos Orixás. “Este projeto não tem uma visão sincrética”, diz Jaime Ramos. “Não queremos misturar as religiões todas. O Templo valoriza as religiões separadamente, cada uma por si.”

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Um rasgo no Templo permite que, diariamente, ao meio-dia, o Sol indique o centro, numa referência aos antigos adoradores do Sol, provavelmente uma das mais primitivas formas de religiosidade FUNDAÇÃO ADFP

Os conteúdos informativos disponibilizados pelo Observatório são elaborados pelo departamento de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, dirigido por Paulo Mendes Pinto, para quem este é “um projeto completamente único e ímpar em todo o mundo. A ênfase é colocada na cultura da paz, por oposição ao uso das religiões por parte de ideologias e para guerras e morte”.

“Queremos que pessoas de todas as religiões visitem o Templo, percebam aquilo que todas têm de bom e também o fundamentalismo, a ortodoxia, as guerras religiosas, as barbáries, para além do terrorismo atual que é gerado, muitas vezes, por conceitos e fundamentos religiosos”, diz o fundador da ADFP. “Por isso, este projeto apresenta aquilo que de bom têm as religiões, mas também aquilo que de mau foi feito ao longo de séculos e milénios com base religiosa.”

Um “pátio dos gentios”, como sugeriu Bento XVI

Com o mesmo destaque que é dado a cada uma das religiões, o Templo tem também um espaço dedicado ao Ateísmo. “Tratamos a visão do ateu numa posição de igualdade em relação àqueles que creem, com idêntico respeito”, refere Jaime Ramos. “Os ateus não só são bem vindos como são convidados a participar neste diálogo que é importante para todos.”

No exterior do Templo, um espaço retangular com pavimento em xadrez, e que remete para o típico chão dos templos maçónicos, constitui uma espécie de “pátio dos gentios”, numa resposta às palavras do Papa Bento XVI — que apelou ao diálogo interreligioso aberto a ateus e agnósticos — e “numa lógica de respeito absoluto tanto pela liberdade de querer como pela liberdade de não querer”, explica Jaime Ramos.

Coluna de pedra junto ao pavimento em xadrez que constitui uma espécie de “pátio dos gentios” FUNDAÇÃO ADFP

Ainda no espaço exterior, um cubo em pedra com uma bola também de pedra a girar sobre água remete para o positivismo científico de Galileu Galilei, julgado e condenado pela Inquisição há precisamente 400 anos, por defender que a Terra se movia em redor do sol. No cubo, pode ler-se a célebre frase que Galileu terá proferido à saída do tribunal do Santo Ofício: “Contudo ela move-se”.

“É uma referência que achamos por bem incluir no sentido de que não há nenhuma verdade que seja absoluta”, realça Jaime Ramos. “Todas as verdades podem ser desmentidas e evoluir.”

Simbolicamente, recorda também que nenhuma crença pode silenciar ou travar a ciência na sua permanente busca da verdade.

Uma cruz templária simboliza a necessidade de abrir passagens nos muros que separam homens ou fronteiras FUNDAÇÃO ADFP

Ao Templo Ecuménico pode chegar-se de carro ou a pé, a partir da entrada do Parque Biológico. (Numa primeira fase, as visitas são só para grupos, mediante contacto prévio para o Parque Biológico da Serra da Lousã.) Para quem optar pela via pedonal, o caminho é pontuado por bancos onde o visitante pode descansar e meditar nas frases de filósofos e pensadores com que se vai cruzando e que convidam à introspeção.

Ao longo do percurso, sucedem-se símbolos tauistas, a imagem de Buda, um altar hindu, a Mesa da Igualdade dos shiks (que também pode ser a mesa da Última Ceia cristã ou a Távola Redonda da tradição bretã), referências ao mundo politeista e aos fenómenos indígenas no seu confronto com as religiões hegemónicas.

Nas fachadas do Templo, estão impressos símbolos dos monoteísmos abraâmicos: na face orientada para sudeste o “crescente” do Islão e uma pedra negra que lembra a Caaba e define a direção de Meca; para sudoeste, a estrela de David, símbolo judaico; e na parede voltada para noroeste a cruz cristã.

Junto ao Templo, a bandeira portuguesa está hasteada a 15,24 metros de altura, a altura da Caaba muçulmana, numa homenagem à religião que chegou a ser maioritária em Portugal.

Artigo publicado no Expresso Online, a 10 de setembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Quinze anos em estado de guerra permanente

O Afeganistão foi o país que pagou a fatura do 11 de Setembro. Alegando legítima defesa, os Estados Unidos retaliaram sobre o país liderado pelos talibãs, que davam guarida a Osama bin Laden e à sua Al-Qaeda. Quinze anos passados, os “estudantes” estão em alta, controlando mais território do que nunca desde que foram depostos. Aproveitam-se dos erros da comunidade internacional e do egoísmo dos políticos afegãos

Não foi dos mais sangrentos que o Afeganistão já viu — 13 mortos e 49 feridos —, mas o ataque contra a Universidade Americana de Cabul, a 24 de agosto passado, foi uma montra da contínua degradação da segurança do país. Pela primeira vez, um ataque complexo — explosão seguida de invasão do “campus” por homens armados — visou uma instituição educativa e não um edifício com conotação política ou militar. Igualmente, aconteceu na sequência de uma campanha ideológica de demonização da Universidade como um centro de “ações ocidentais hostis”, levada a cabo por fações ligadas aos talibãs.

Quinze anos após o 11 de Setembro, o país sobre o qual os Estados Unidos retaliaram os atentados de Washington e Nova Iorque — o regime talibã dava guarida a Osama bin Laden e à sua Al-Qaeda — continua a viver em clima de guerra, com os “estudantes” a controlarem mais território do que nunca desde que bateram em retirada de Cabul, a 13 de novembro de 2001.

Ao início da manhã da passada quinta-feira, a televisão afegã Tolo News noticiava, no seu sítio na Internet, uma avançada talibã na direção de Trin Kot, a capital da província de Uruzgan (centro), uma das áreas mais significativas em termos de produção de ópio. De caminho, tomaram uma prisão. As forças de segurança afegãs recuaram de 20 “checkpoints” para o interior da cidade e montaram uma linha de defesa. A meio do dia, chegaram reforços: bombardeamentos e operações terrestres refrearam a ofensiva talibã. Até à próxima contenda.

“Nos últimos anos, o Afeganistão desapareceu das primeiras páginas porque outras crises e campos de batalha têm produzido manchetes mais dramáticas. Porém, a lenta deterioração da situação no país é um risco extremo para o mundo”, comenta ao Expresso Alexey Yusupov, diretor da Fundação Friedrich-Ebert no Afeganistão. “O falhanço do Estado, conflitos violentos, segurança volátil, contração económica a par de um crescimento demográfico podem transformar o Afeganistão, outra vez, num território onde grupos terroristas trasnacionais se estabelecem, recrutam e atuam. Só um desenvolvimento no sentido da justiça social e da paz — ainda que difícil — pode impedir um cenário destes.”

Os erros da comunidade internacional

A reconstrução do Estado não fez parte dos objetivos iniciais da guerra no Afeganistão, que se resumiram a responder ao 11 de Setembro e operar uma mudança de regime. Mas a partir do momento em que a comunidade internacional assumiu que não era uma boa opção deixar os afegãos sós que o processo que se seguiu não foi isento de erros.

“A comunidade internacional confiou em senhores da guerra para reconstruir o Estado”, explica ao Expresso Timor Sharan, diretor da delegação do International Crisis Group no Afeganistão. “Cada doador tinha uma agenda, interesses e objetivos próprios na província onde estava. Isso produziu um Estado fragmentado com governadores e ‘homens fortes’ a responder ao objetivo dos doadores e não à população. A corrupção generalizada durante o Governo do Presidente Hamid Karzai bem como a incapacidade do Governo em providenciar serviços básicos e a sua forte dependência do financiamento internacional proporcionaram uma excelente base de recrutamento aos talibãs.”

Daesh complica (ainda mais) a situação

As atividades jiadistas em território afegão não são exclusivas dos talibãs. Para aumentar a complexidade da situação, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) também está presente no território. Ainda que com uma atividade bastante mais reduzida em comparação com o que se passa na Síria, Iraque e mesmo na Líbia, contribui para uma radicalização dos talibãs que o encaram como um grupo rival.

“O braço local da organização chama-se Estado Islâmico — Província Khorasan. A influência deste grupo tem vindo a crescer desde há uns anos, sobretudo nas províncias de Nangharhar e Kunar [no leste, fronteiras ao Paquistão]. Mas os seus combatentes não são recém-chegados ao país. Anteriormente, estavam no ativo como membros do Tehrik-i-Taliban Pakistan [talibãs paquistaneses], do Movimento Islâmico do Uzbequistão ou de outras organizações militantes”, explica Alexey Yusupov.

“Recentemente, os Estados Unidos e forças afegãs dizimaram fortemente a presença do Daesh no país através de bombardeamentos aéreos e operações terrestres, mas a longo prazo a ameaça ainda é significativa uma vez que a crise sócio-económica é terreno fértil para recrutamento.”

Um país, dois Presidentes

Os obstáculos com que o Afeganistão se depara estendem-se também à política. Da última e disputada eleição presidencial de 14 de junho de 2014 saiu uma liderança bicéfala que mais tem contribuído para paralisar o país do que para resolver problemas.

O pashtune Ashraf Ghani, um antigo quadro do Banco Mundial, é o Presidente e o pashtune e tadjique Abdullah Abdullah o Chefe Executivo. Abdullah foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Hamid Karzai e, anteriormente, um adjunto próximo do lendário comandante mujahidin tadjique Ahmad Shah Massoud (“o leão de Panshir”) que combateu soviéticos e talibãs.

Mediada pelos Estados Unidos, esta fórmula política “tem enfraquecido o país”, defende Timor Sharan. “As duas equipas não chegam a acordo sobre nomeações importantes, políticas e agendas.” Um caso gritante prende-se com o ministério da Defesa: só a 20 de junho passado, ou seja, dois anos após as eleições presidenciais, o Parlamento aprovou um nome proposto pelo Presidente, o General Abdullah Habibi. “A partilha de poder 50-50 não tem funcionado uma vez que os dois líderes estão focados em expandir o seu poder dentro da estrutura do Estado em vez de governarem o país.”

“O Governo de unidade nacional resulta de uma eleição presidencial que não produziu uma situação política clara. Para evitar conflitos e derramamento de sangue, os dois candidatos acordaram uma governação conjunta, reunindo campos e grupos étnicos diferentes”, explica Alexey Yusupov. “Também acordaram uma forma de transformarem o sistema de Governo para que esta fórmula funcione melhor e possam iniciar reformas eleitorais. Nada de substancial aconteceu até ao momento. O Governo vive uma grave crise com os dois campos sem capacidade para avançar. Esta não pode ser a fórmula a longo prazo, mas por enquanto não há melhor alternativa, por muito frágil que esta seja.”

A debilidade do Afeganistão ficou mais exposta após a retirada da maior parte do contingente da NATO que, em finais de 2014, deu por terminadas as operações de combate no país. “A diminuição abrupta em 2014 do contingente internacional da ISAF [Força Internacional de Assistência para Segurança] aconteceu no meio de uma complicada transição política para um novo Governo [o de Ghani e Abdullah] e resultou numa grave crise económica”, comenta Alexey Yusupov. “As forças de segurança afegãs passaram a ter de combater de forma mais independente e apenas parcialmente contando com apoio dos parceiros internacionais. As conversações de paz com os talibãs permanecem a única solução, mas nos últimos dois anos todos os esforços para as iniciar falharam. Os próximos dois, três anos serão decisivos.”

Presentemente, a Aliança Atlântica tem no Afeganistão cerca de 13 mil militares em missão de treino, assessoria, assistência e apoio a ações de contraterrorismo desenvolvidas pelas forças afegãs. Os Estados Unidos têm à volta de 7000 efetivos, seguidos da Alemanha com 980 e a Geórgia com 860. Portugal tem lá 10 militares.

“Desde 2014, o fracasso da Administração Obama relativamente a um compromisso total no Afeganistão e o rápido anúncio de uma retirada planeada teve um impulso psicológico nos talibãs”, conclui Timor Sharan. “Eles pensaram: ‘Vocês têm o relógio, nós temos o tempo’.”

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 9 de setembro de 2016 e republicado no “Expresso Online”, dois dias depois. Pode ser consultado aqui e aqui