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Cada vez mais menores combatem no Iémen

No mesmo dia em que entrou em vigor uma trégua humanitária de cinco dias, a Human Rights Watch denuncia que os rebeldes houthis têm cada vez mais crianças nas suas fileiras. Trabalham como batedores, guardas, estafetas e combatentes e são pagas em géneros

Os rebeldes houthis estão a recrutar crianças para as hostilidades no Iémen. A denúncia foi confirmada esta terça-feira pela Human Rights Watch (HRW), após no mês passado a UNICEF ter divulgado que um terço dos combatentes nesse conflito são menores.

Desde que tomou a capital iemenita, em setembro, a milícia tem “intensificado o recrutamento, treino e destacamento de crianças, em violação ao direito internacional”, lê-se num comunicado da organização humanitária.

As crianças são usadas como batedores, guardas, estafetas e combatentes. A HRW refere também que, para além dos houthis, também milícias tribais e islamitas assim como a Al-Qaeda na Península Arábica usam crianças nas ações de combate.

Quando a família incentiva à guerra

As conclusões da organização baseiam-se em testemunhos de jornalistas e ativistas no país e também em entrevistas a crianças e recrutadores houthis. Um deles, na casa dos 30 anos, entrevistado pela HRW em março, na região de Amran (50 km a noroeste de Sanaa) confessou ter recrutado ativamente para os houthis durante mais de um ano.

Explicou que crianças sem treino militar não participam nos combates e que a maioria fica de guarda ou no transporte de munições e alimentos para a linha da frente. Também são usadas para recuperar cadáveres e combatentes feridos e prestar primeiros socorros.

Outras entrevistas realizadas pela HRW apuraram o modus operandi do recrutamento dos houthis. Durante pelo menos um mês, dão educação ideológica, seguida de treino militar. As crianças não recebem dinheiro, mas antes alimentos e “qat”, uma planta que pode ser mascada (funcionando como um estimulante suave) e que constitui uma instituição cultural no Iémen.

Ibrahim, de 16 anos, testemunhou à HRW que a família o encorajou a juntar-se aos houthis e que lhe ofereceu uma Kalashnikov. As munições ficaram por conta dos rebeldes. Baleado numa perna, participa agora nas patrulhas entre Amran e Sufyan, juntamente com cinco amigos da sua idade.

Cessar-fogo em vigor

As denúncias da HRW são conhecidas no mesmo dia em que entrou em vigor uma trégua de cinco dias proposta pela Arábia Saudita, que lidera a coligação que está a atacar o país, e aceite pelos rebeldes houthis para que seja prestada assistência humanitária. 

Os bombardeamentos aéreos duram desde 26 de março, visando punir os houthis e as forças leais ao ex-Presidente Ali Abdullah Saleh e restaurar a autoridade do Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Num balanço feito a 24 de abril, a UNICEF informou que pelo menos 115 crianças já tinham sido mortas e 172 feridas nos bombardeamentos aéreos e combates em terra. 

Segundo o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados, que o Iémen assinou, a idade mínima aceitável para participação em conflitos armados, nas fileiras quer de forças armadas nacionais quer de grupos armados não-estaduais é de 18 anos.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de maio de 2015. Pode ser consultado aqui

Lusos escavam em zona de risco do norte do Iraque

Em paz ou em guerra, o Iraque é um tesouro da arqueologia. Cinco portugueses procuram artefactos com 5000 anos

André Tomé tem uma certeza. Se, algures na Síria, se verificar uma destruição de património semelhante à que aconteceu há semanas no Iraque — no Museu de Mossul e nas cidades históricas de Hatra e Nimrud —, haverá uma indignação global nas redes sociais e o conflito voltará a ser notícia. “Mas depois vamos esquecer que, todos os dias, continuam a morrer pessoas”, quando, no fim, “mais do que os tijolos e as pedras, o que interessa são as pessoas”.

As palavras não seriam tão surpreendentes não fosse André um arqueólogo. Falou ao “Expresso” nas vésperas de partir para o Curdistão iraquiano para escavar, pelo segundo ano, no Vale de Bazyan, província de Sulaimaniya. Ali chegou facilmente há uma semana, num voo da Turkish Airlines vindo de Istambul. A viagem de volta a casa está marcada para 15 de junho. André não hesitará em antecipá-la se as condições de segurança se deteriorarem. “Isto não é um Indiana Jones. Ao primeiro sinal de insegurança, repensaremos a estratégia e, se for preciso, voltamos.”

Os combates contra o Daesh (autodenominado Estado Islâmico) estão a mais de 100 km do campo de escavação. O facto de a grande cidade de Kirkuk estar nas mãos dos curdos tranquiliza-o. “Há mais checkpoints, há mais controlo.”

André, de 28 anos, lidera o projeto Kani Shaie, juntamente com outro português, Ricardo Cabral, de 31 anos (ambos da Universidade de Coimbra), e com o belga Steve Renette, da Universidade da Pensilvânia (EUA). Kani Shaie é uma região atravessada ao longo da História por grandes rotas entre oriente e ocidente que permanece “terra incógnita”, desconhecida do ponto de vista arqueológico. O objetivo do projeto é recolher vestígios do quarto milénio antes de Cristo, quando se formaram as primeiras cidades da civilização mesopotâmica.

A missão arrancou em 2013, com dinheiros portugueses, e logo confirmou o potencial do sítio. Entre os achados, André salienta uma pequena tábua de argila furada, com imagens de animais, que funcionaria como “uma espécie de fatura” entregue, provavelmente, por um mercador que transportava animais ao destinatário.

Uma “fatura” com 5000 anos PROJETO KANI SHAIE

A descoberta motivou a equipa para continuar, este ano com financiamento exclusivamente norte-americano, no futuro logo se verá. “Não sabemos o que vai acontecer ao Curdistão. Agora está bem, mas imaginemos que o Estado Islâmico é eliminado, que os curdos avançam para a independência e que há um conflito entre Bagdade e Erbil… Que acontecerá a esses sítios? Temos essa urgência, não de super-herói, mas de alguém consciente de que é importante fazer algo.”

Além dos líderes, integram a equipa mais três portugueses e uma antropóloga italiana. Dois arqueólogos curdos acompanham os trabalhos. O projeto emprega locais e colabora com a Direção de Antiguidades de Sulaimaniya, a Universidade e o museu, onde os achados ficam guardados.

Visitar o sítio com óculos 3D

Além das escavações, a missão vai recolher imagens do sítio. “Temos trabalhado na área da realidade aumentada. Queremos fazer uma espécie de museu virtual, onde seja possível visitar o sítio com um alto grau de realismo. Estamos a testar óculos 3D para que as pessoas sintam que estão lá”, sem necessidade de reconstrução.

Janela estratigráfica no campo de escavações PROJETO KANI SHAIE

André não é um purista. Considera que perante a destruição de património, reconstruir ou não deve ser analisado consoante os casos. “Em relação aos budas de Bamiyan, no Afeganistão, acho que devem ser reconstruídos. Podem ser um garante de estabilidade e futuro naquela região, incentivando o turismo. Noutros casos, pode não interessar tanto até porque as destruições passaram a fazer parte da memória. Vemos o EI destruir património dos assírios, depois pensamos e vemos que os assírios fizeram exatamente a mesma coisa”, diz o arqueólogo. “Não podemos ser tão fanáticos e puristas como o Estado Islâmico.”

André Tomé estreou-se a escavar na região em 2008, após concluir os estudos na Universidade de Coimbra. Começou pela Síria num sítio na província de Hasakah que tem, hoje, as milícias do EI a um quilómetro de distância. Os jiadistas preocupam-no, mas recorda que há mais de 700 sítios arqueológicos ilegais na Síria e no Iraque. “Há tempos, vi umas entrevistas a pessoas que faziam essas escavações. Sabiam que estavam a destruir o passado mas diziam que precisavam de dinheiro para comer. Isto tem de ser compreendido.” Ainda que a história desses locais se perca para sempre.

(Foto de abertura: Sítio arqueológico no Vale de Bazyan PROJETO KANI SHAIE)

Artigo publicado no Expresso, a 9 de maio de 2015

Bibi refém dos seus parceiros

Netanyahu conseguiu formar Governo em Israel, mas fica vulnerável a ‘extorsões políticas’

DONKEY HOTEY / WIKIMEDIA COMMONS

Quando cantou vitória nas legislativas de 17 de março, após quase todas as sondagens o colocarem no papel de perdedor, Benjamin Netanyahu nunca esperaria que a formação de Governo lhe desse tantas dores de cabeça. As negociações esgotaram os 42 dias previstos por lei. Quarta-feira, a 90 minutos do fim do prazo, o primeiro-ministro garantiu finalmente uma maioria.

“Comparado com o Governo anterior, o novo executivo é, ideológica e politicamente mais coerente. Está mais ancorado na direita conservadora e religiosa do espetro político israelita”, comenta ao Expresso Bruno Oliveira Martins, ex-analista político da delegação da União Europeia em Telavive. “À partida, questões como os subsídios à população haredim (ultraortodoxa), o papel da religião no Estado ou o carácter judaico de Israel estão no topo da agenda.”

Governo a cinco

Cinco partidos integram a coligação governamental: o Likud (direita), do primeiro-ministro; o Kulanu (centro-direita), centrado nas questões económicas; dois partidos religiosos ultraortodoxos, o Shah e o Judaismo da Torah Unida; e a Casa Judaica, liderada pelo ultranacionalista Naftali Bennett, apoiante do movimento de colonos no território palestiniano da Cisjordânia. No Knesset, o Executivo será apoiado por 61 dos 120 deputados. “O Governo irá estar permanentemente refém das posições dos parceiros da coligação para qualquer decisão importante, o que pode levar a chantagens e ‘extorsões políticas’. A forma como Bennett encostou Netanyahu à parede nos últimos dias deixa antecipar isso mesmo.”

Na reta final do processo negocial, Netanyahu perdeu o apoio de um aliado, Avigdor Lieberman, seu ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do ultranacionalista Yisrael Beitenu (extrema-direita). E viu-se forçado a chegar a acordo com a Casa Judaica, de Bennett, que exigiu para o seu partido as pastas dos Negócios Estrangeiros e da Justiça. Por fim, acabou por ficar com as pastas da Justiça, entregue à engenheira Ayelet Shaked, de 39 anos, e da Educação, que ficará para Bennett.

Neste cenário de instabilidade, Bruno Oliveira Martins, professor auxiliar na Universidade de Aarhus, da Dinamarca, antecipa duas questões dominantes: “A subida dos temas religiosos ao topo da agenda política e o carácter decisivo que questões judiciais vão ter nas próximas semanas. O princípio da separação de poderes está seriamente ameaçado por reformas que Netanyahu tem tentado introduzir na composição e funcionamento do Supremo Tribunal, de forma a limitar o controlo judicial destes sobre o sistema político”. As duas tendências, diz o analista, estão relacionadas. “O Supremo Tribunal é visto pela direita como expressão do esquerdismo liberal e, sobretudo, secularista, que pretende combater.”

Como fica a Palestina?

Durante a campanha eleitoral, as questões que mais interessam à comunidade internacional estiveram ausentes da discussão, desde logo o conflito israelo-palestiniano, só referido já com as eleições à vista. Pressionado por sondagens adversas, Netanyahu prometeu que, caso vencesse, jamais existiria uma Palestina independente.

“A solução de dois Estados, neste momento e na prática, não existe. Desde o colapso das negociações com os palestinianos, lideradas pelo secretário de Estado dos EUA, John Kerry, nada tem acontecido, nem nos bastidores”, diz Bruno Oliveira Martins. “As relações entre Telavive e Washington deterioram-se no último ano e não é impensável admitir que a Administração Obama, em final de mandato e sem a pressão da reeleição, possa dar sinais concretos de impaciência, que já se revela na retórica de Obama, mas que ainda não se materializou em mais do que isso. Ainda assim, este tipo de atitude seria sempre uma pesada herança para o futuro Presidente e, nesta fase de pré-campanha, poderia causar danos na candidatura de Hillary Clinton, o que não é irrelevante.”

Com a relação entre Israel e a UE igualmente degradada — o Parlamento Europeu aprovou, em dezembro, o reconhecimento da Palestina —, poderão mais europeus seguir o exemplo da Suécia e reconhecer a independência palestiniana ao nível de governo? “As tensões políticas entre Bruxelas e Israel têm-se verificado com crescente frequência e, mesmo que uma posição forte e comum da UE não seja o cenário mais provável, não excluo de todo que outros Estados sigam o exemplo da Suécia.”

Artigo publicado no Expresso, a 9 de maio de 2015

Netanyahu tem até à meia-noite para formar coligação

Termina esta quarta-feira o prazo legal para a formação de uma coligação governamental em Israel. Falta o apoio de oito deputados para Benjamin Netanyahu respirar fundo

A pressão aumenta a cada hora que passa. Benjamin Netanyahu tem até à meia-noite desta quarta-feira para formar governo — sete semanas após as eleições legislativas, que o seu Likud (direita) venceu com 23,4% dos votos.

Para garantir uma maioria no Parlamento (Knesset) — composto por 120 lugares —, Netanyahu necessita do apoio de 61 deputados. Até ao momento, e para além dos 30 eleitos pelo Likud, Bibi (como Netanyahu é conhecido) garantiu o apoio do Kulanu, um partido centrista que faz dos assuntos económicos o seu cavalo de batalha (10 deputados) e de duas formações religiosas ultra-ortodoxas, o Shas e o Judaismo da Torah Unida (7 e 6 deputados, respetivamente).

Tudo somado, Netanyahu tem do seu lado 53 deputados. Faltam oito para respirar fundo.

O aliado que tirou o tapete 

Na passada segunda-feira, Bibi viu fugir-lhe das mãos o apoio de um aliado, Avigdor Lieberman — seu ministro dos Negócios Estrangeiros e líder do partido nacionalista Yisrael Beitenu (de extrema-direita), que elegeu 6 deputados nas eleições de 17 de março. Lieberman anunciou que não participaria no novo Governo. 

Esse anúncio inesperado obrigou Netanyahu a investir nas negociações com a Casa Judaica, um partido ultranacionalista ligado ao movimento dos colonos no território palestiniano da Cisjordânia, liderado por Naftali Bennett, atual ministro da Economia. A Casa elegeu oito deputados, exatamente o número que Netanyahu precisa. 

Segundo o diário israelita “Times of Israel”, Naftali “está a lutar pelo ministério da Justiça, apostando no desespero do primeiro-ministro”.

Se Netanyahu não conseguir formar coligação, o Presidente Reuven Rivlin terá de escolher outra personalidade para formar governo, previsivelmente o trabalhista Isaac Herzog, líder da coligação União Sionista, a segunda formação mais votada.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de maio de 2015. Pode ser consultado aqui

Nova geração a caminho do trono

O rei saudita mexeu na linha de sucessão e substituiu um meio-irmão por um sobrinho no lugar de príncipe herdeiro. O novo futuro rei é Mohammed bin Nayef, atual ministro do Interior, a quem chamam “o czar anti-terrorismo”

Brasão real do Reino da Arábia Saudita WIKIMEDIA COMMONS

Três meses após assumir o poder, o Rei Salman da Arábia Saudita operou, esta quarta-feira, uma rotura com o passado, nomeando um novo herdeiro, um sobrinho, e afastando desse patamar o príncipe Muqrin, seu meio-irmão.

O novo herdeiro é o atual ministro do Interior, príncipe Mohammed bin Nayef, de 56 anos, até agora vice príncipe herdeiro, ou seja, segundo na linha de sucessão.

A sua designação significa a subida de uma geração mais nova na hierarquia dos Al-Saud. Desde 1953, quando morreu Abdul-Aziz al-Saud — fundador do Reino da Arábia Saudita, em 1932 — que o trono vinha sendo transmitido de irmão para irmão. Muqrin, de 69 anos, agora afastado, era o filho mais novo do fundador. 

Mohammed bin Nayef é neto do fundador do reino, tal como Mohammed bin Salman, de 34 anos, agora designado vice príncipe herdeiro. Este último é filho do atual monarca e ministro da Defesa.

Esta remodelação ditou ainda o afastamento do ministro dos Negócios Estrangeiros há mais tempo no poder em todo o mundo. Saud al-Faisal, de 75 anos, no cargo desde 1975, foi substituído por Adel al-Jubeir, de 53 anos, até agora embaixador nos Estados Unidos. 

Prioridade na luta ao terrorismo 

Paralelamente a uma revolução geracional na linha da sucessão, esta alteração de príncipe herdeiro significa também o reconhecimento do combate ao terrorismo como uma das prioridades governativas no país.

O novo herdeiro é atualmente ministro do Interior, descrito por vários órgãos de informação internacionais, desde a agência Associated Press ao jornal “The New York Times”, como “o czar anti-terrorismo” da Arábia Saudita.

Horas antes de serem conhecidas as novas nomeações reais, Riade anunciou a detenção de 93 suspeitos de ligações ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh). Dois deles estariam a planear um atentado com um carro armadilhado contra a embaixada dos Estados Unidos em Riade. 

A atividade terrorista é um dos problemas internos reconhecidos por Riade. Em 2004, as autoridades sauditas estabeleceram um sistema de reabilitação de terroristas visando a sua desradicalização através de programas de educação religiosa e de aconselhamento psicológico. 

Em novembro passado, o ministério do Interior admitiu que 12% dos utentes desses programas tiveram recaídas e voltaram a envolver-se em atividades terroristas.

O problema do terrorismo na Arábia Saudita ganhou visibilidade após o 11 de Setembro. Um total de 133 cidadãos sauditas passaram pelo campo de detenção norte-americano de Guantánamo, aberto em 2002 para suspeitos de terrorismo. A bordo dos aviões que realizaram o 11 de Setembro, 15 dos 19 piratas do ar também eram sauditas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de abril de 2015. Pode ser consultado aqui