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Presidente foge para sul e deixa o Iémen sem norte

Colocado em prisão domiciliária pelos rebeldes huthis, que controlam a capital iemenita, o Presidente Hadi conseguiu escapar e refugiou-se em Aden. Teme-se que essa movimentação beneficie as pretensões independentistas do sul

As grandes manifestações voltaram à capital do Iémen com milhares de pessoas a marcharem até à residência pessoal do Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi em solidariedade para com o chefe de Estado e para reclamar… uma outra capital para o país.

“A capital tem de ser Aden porque uma capital deve estar livre de milícias”, dizia a estudante Omaima Salah, à reportagem do jornal “Yemen Times”. Desde setembro que Sana’a, a capital do Estado, é controlada pelos rebeldes huthis (xiitas, confissão minoritária no país), que desde há um mês e até ao passado fim de semana mantiveram o Presidente em prisão domiciliária, forçando-o à demissão.

A situação no Iémen deu uma reviravolta após, no sábado, o Presidente Hadi ter conseguido escapar ao controlo dos rebeldes. Citando fontes huthis, o “Yemen Times” diz que Hadi disfarçou-se com roupas de mulher.

Após fugir da capital e refugiar-se em Aden, sua cidade natal e a grande cidade do sul, Hadi emitiu um comunicado declarando que ainda é o Presidente do Iémen e apelando a que todas as decisões políticas tomadas pelos huthis sejam declaradas ilegais e inválidas.

Unidade ou fragmentação?
Segundo a imprensa iemenita, o Presidente está a desenvolver contactos, desde Aden, com governadores provinciais no sentido de recuperar o controlo do país. 

Segunda-feira, as poderosas tribos de Bani Hilal demonstraram a sua lealdade a Hadi realizando uma parada militar na província de Shabwa (sul). E em Taiz, sudoeste, protestos populares exigiram a expulsão dos huthis de Sana’a e a reposição da autoridade de Hadi.

Mas crescem dúvidas quanto à real eficácia da fuga do Presidente para sul. “Imediatamente levantou-se a questão de saber se essa movimentação irá ajudar à unidade ou aumentar a probabilidade da secessão”, alerta o “Yemen Times”.

Para além da minoria huthi, e das suas reivindicações políticas, o Iémen alberga ainda um movimento secessionista, precisamente na região sul, e ainda, mais para leste, a Al-Qaeda na Península Arábica, que é atualmente o ramo mais ativo da organização terrorista. Acresce que, até 1990, o ano da reunificação do Iémen, Aden foi a capital do Iémen do Sul.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de fevereiro de 2015. Pode ser consultado aqui

Egito bombardeia posições do Estado Islâmico após chacina dos coptas

Ofensiva seguiu-se à decapitação de 21 emigrantes egípcios numa região do leste da Líbia onde há quatro meses foi declarado um califado

As forças armadas egípcias bombardearam, esta segunda-feira, posições do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no interior da Líbia. Segundo o diário “Daily News Egypt”, foram alvejados “campos de treino e armazéns de armamento e munições”.

A televisão estatal anunciou que “o ataque atingiu os seus alvos com precisão” e que os pilotos regressaram à base sãos e salvos.

Os bombardeamentos visaram a região costeira de Derna, no leste da Líbia, onde em outubro, quando a cidade já estava controlada por milícias islamitas, foi decretado um califado. 

Num telefonema para a estação televisiva Al-Arabiya, Saqer al-Joroush, comandante da força aérea líbia, esclareceu que os bombardeamentos egípcios foram realizados em coordenação com a Líbia e que mais ataques se seguirão.

Anarquia generalizada na Líbia
Esta operação militar constitui um ato de retaliação que se segue à divulgação de um vídeo, numa conta do Twitter afeta ao Daesh, que mostra a decapitação de 21 cidadãos egípcios junto ao mar.

O vídeo é acompanhado por uma “mensagem assinada com sangue à nação da Cruz” em que o Daesh diz querer vingar “muçulmanas perseguidas por cruzados coptas” no Egito. As vítimas eram cristãos coptas, minoria a que pertencem 10% da população egípcia.

Pensa-se que a execução tenha acontecido na costa mediterrânica junto a Tripoli. “O mar para onde atiraram o corpo do mártir Osama bin Laden… nós vamos mistura-lo com o vosso sangue.” O vídeo termina com um plano da água do mar manchada de sangue.

Os egípcios eram emigrantes que tinham sido raptados em dois ataques, em dezembro e janeiro, na cidade costeira de Sirte (centro da Líbia).

A implantação de forças jiadistas tem beneficiado do estado de anarquia generalizada em que a Líbia caiu após a deposição do ditador Muammar Kadhafi, em 2011. Hoje, a Líbia tem dois governos e dois Parlamentos.

As instituições reconhecidas internacionalmente estão sedeadas na cidade costeira de Tobruk, no leste, junto à fronteira com o Egito e a cerca de 1000 quilómetros de Tripoli. A capital, por sua vez, e a segunda cidade (Bengasi, no leste) estão nas mãos de milícias, algumas delas extremistas, que têm crescido e imposto a sua lei graças à ausência de um poder central.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de fevereiro de 2015. Pode ser consultado aqui

Aperta-se o cerco ao Estado Islâmico

A Jordânia reforçou o seu dispositivo militar junto à fronteira com o Iraque. Este, por sua vez, anunciou uma ofensiva militar terrestre contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) “nas próximas semanas”

A Jordânia destacou “milhares” de tropas para a sua fronteira com o Iraque, garantem as televisões norte-americanas NBC e ABC, citando fontes próximas do Governo de Amã. As autoridades jordanas já afirmaram, porém, estar fora de questão uma ofensiva terrestre contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) que controla partes do Iraque e da Síria.

Este reforço do dispositivo militar junto à fronteira é uma estratégia defensiva que visará, antes, suster qualquer tentativa de infiltração por parte de combatentes do Daesh em território jordano. Amã garante que não entrará em território iraquiano sem a aprovação de Bagdade.

A execução do piloto jordano Muath al-Kasasbeh, queimado vivo pelos jiadistas, conhecida na semana passada, constituiu um ponto de viragem no posicionamento da Jordânia no combate ao Daesh e ao Islão radical.

Membro da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, o reino hachemita intensificou, desde então, a sua participação nos bombardeamentos contra os extremistas. “Esta é a nossa guerra. Esta não é a guerra do Ocidente”, disse o ministro do Interior jordano, Hussein Majali. “Somos a ponta de lança desta guerra.”

Durante o passado fim de semana, os Emirados Árabes Unidos, um dos cinco países árabes que integram a coligação, que tinha suspendido a sua participação nos bombardeamentos em dezembro, enviaram uma esquadra de F-16 para a Jordânia e retomaram os ataques.

Contrariamente à Jordânia, o Iraque já anunciou estar a preparar uma ofensiva terrestre contra o Daesh, que será desencadeada “nas próximas semanas”. A operação foi já confirmada pelos Estados Unidos: “Haverá uma grande contraofensiva terrestre no Iraque”, afirmou John Allen, o coordenador norte-americano junto da coligação internacional, numa entrevista à agência jordana Petra.

A Jordânia destacou “milhares” de tropas para a sua fronteira com o Iraque, garantem as televisões norte-americanas NBC e ABC, citando fontes próximas do Governo de Amã. As autoridades jordanas já afirmaram, porém, estar fora de questão uma ofensiva terrestre contra o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) que controla partes do Iraque e da Síria.

Este reforço do dispositivo militar junto à fronteira é uma estratégia defensiva que visará, antes, suster qualquer tentativa de infiltração por parte de combatentes do Daesh em território jordano. Amã garante que não entrará em território iraquiano sem a aprovação de Bagdade.

A execução do piloto jordano Muath al-Kasasbeh, queimado vivo pelos jiadistas, conhecida na semana passada, constituiu um ponto de viragem no posicionamento da Jordânia no combate ao Daesh e ao Islão radical.

Membro da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, o reino hachemita intensificou, desde então, a sua participação nos bombardeamentos contra os extremistas. “Esta é a nossa guerra. Esta não é a guerra do Ocidente”, disse o ministro do Interior jordano, Hussein Majali. “Somos a ponta de lança desta guerra.”

Durante o passado fim de semana, os Emirados Árabes Unidos, um dos cinco países árabes que integram a coligação, que tinha suspendido a sua participação nos bombardeamentos em dezembro, enviaram uma esquadra de F-16 para a Jordânia e retomaram os ataques.

Contrariamente à Jordânia, o Iraque já anunciou estar a preparar uma ofensiva terrestre contra o Daesh, que será desencadeada “nas próximas semanas”. A operação foi já confirmada pelos Estados Unidos: “Haverá uma grande contraofensiva terrestre no Iraque”, afirmou John Allen, o coordenador norte-americano junto da coligação internacional, numa entrevista à agência jordana Petra.

“Nas próximas semanas, quando as forças iraquianas iniciarem a campanha terrestre para recuperar o Iraque, a coligação apoiará com fogo”, acrescentou John Allen. O general na reserva norte-americano realçou que a operação será liderada pelas autoridades iraquianas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de fevereiro de 2015. Pode ser consultado aqui

Barbárie sem fim

Após a decapitação de vários ocidentais, o autoproclamado Estado Islâmico queimou vivo um refém muçulmano. Perante as dificuldades militares, os jiadistas procuram compensar apostando na guerra psicológica

A bandeira negra do autodenominado Estado Islâmico WIKIMEDIA COMMONS

ISIL, ISIS, Estado Islâmico, Daesh… Na hora de designar o grupo terrorista que domina grande parte da Síria e do Iraque, a imprensa internacional desorienta-se, num exercício muitas vezes destinado a não conferir ao grupo terrorista o estatuto político que reclama. Talvez seja um pormenor, perante as contínuas demonstrações de poder dos jiadistas que acabam de subir mais um patamar na escala da barbárie: capturado em finais de dezembro, o piloto jordano Muath Kasasbeh foi enjaulado, regado com gasolina e transformado numa tocha humana, tudo registado num vídeo com 22 minutos de duração que mais se assemelha a uma curta-metragem.

“É terrível, mas é uma tática típica dos grupos terroristas que procuram compensar a sua falta de força militar, nomeadamente ao nível da Força Aérea, pela guerra psicológica, aterrorizando o adversário e apostando na erosão da vontade política de o combater”, comentou ao Expresso Bruno Cardoso Reis, investigador do Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa.

“O problema é sempre onde estabelecer o limite, de forma a continuar a ter impacto, mas a não provocar uma reação ainda mais forte. Há que ver as consequências a médio prazo. Será que depois de responder a este desafio direto, a Jordânia mantém o nível de empenhamento? Ou resguarda-se discretamente?”

A morte do jordano segue-se às decapitações de cinco cidadãos ocidentais — os norte-americanos James Foley, Steven Sotloff e Peter Kassig e os britânicos David Haines e Alan Henning —, igualmente filmadas e publicadas na internet. Em sua posse, os jiadistas têm pelo menos mais dois ocidentais. Um deles é John Cantlie, o fotógrafo britânico que já surgiu em oito vídeos de propaganda do Estado Islâmico, o último dos quais a 3 de janeiro, onde aparece a guiar uma visita à cidade iraquiana de Mosul.

Nas mãos do Estado Islâmico está também uma norte-americana de 26 anos, raptada na Síria no ano passado quando desenvolvia trabalho humanitário e cuja identidade nunca foi revelada.

Como responder?

“Não há soluções ou estratégias rápidas para combater grupos terroristas ou guerrilhas bem organizados e bem enraizados localmente”, continua Bruno Cardoso Reis. “A chave está em obter boas informações, mas estes grupos são difíceis de penetrar e escutar. Está também em procurar desestruturar a capacidade de comando e controlo coordenado da sua liderança; apostar em separar populações muçulmanas locais (seja no Levante, seja na Europa) destes grupos. Se perderem enraizamento local ficam mais expostos. Deste ponto de vista, este tipo de atos, para mais contra um piloto muçulmano, podem ser úteis na guerra de propaganda. O risco é uma retaliação desproporcionada, como por exemplo um ataque jordano que atinja as populações civis em zonas controlados pelo grupo.”

Na terça-feira, os Estados Unidos anunciaram o aumento da sua assistência financeira à Jordânia, de 660 milhões de dólares (527 milhões de euros) para 1000 milhões de dólares (879 milhões de euros) por ano, para o período 2015-2017.

Reino Unido e Estados Unidos — que têm cidadãos cativos do Estado Islâmico — recusam pagar resgates a grupos terroristas. Mas os montantes pedidos pelos jiadistas têm sido tão exorbitantes que é legítimo questionar se a intenção é rentabilizar uma “indústria de resgates” ou apenas afirmar poder.

Pela vida de James Foley, o primeiro ocidental a ser decapitado, os extremistas pediram 100 milhões de euros, exatamente a mesma quantia exigida ao Governo de Tóquio por cada um dos dois reféns japoneses, recentemente executados.

“Nunca levamos os 100 milhões a sério”, confessou Philip Balboni, administrador do “GlobalPost”, para onde Foley trabalhava quando foi raptado, em 2012. “Os resgates pagos por outros reféns do Estado Islâmico tinham sido substancialmente mais baixos.” Segundo Balboni, as quantias que vinham sendo pagas oscilavam entre os 2 e os 4 milhões de euros. Além disso, houve apenas aquela exigência, “nunca houve uma negociação”.

Em junho de 2012, quando conquistaram Mosul — o que colocou o Estado Islâmico no mapa político internacional —, os jiadistas invadiram o Banco Central daquela cidade iraquiana e deitaram mão a 500 mil milhões de dinares (370 milhões de euros). Com esta fortuna, escreveu então no Twitter o analista Brown Moses (Brown Moses Blog): “Eles conseguem comprar muita jihad. Conseguem, por exemplo, pagar a 60 mil combatentes cerca de 600 dólares (527 euros) por mês durante um ano”.

Inversamente ao que é defendido em Londres e Washington, alguns países europeus já abriram, por várias vezes, os cordões à bolsa para salvar nacionais, designadamente França, Itália, Espanha e Alemanha. Segundo uma investigação do diário “The New York Times”, divulgada em julho do ano passado — e por isso, referente ainda à era Al-Qaeda —, a França foi, desde 2008, o país que mais pagou a terroristas (mais de 51 milhões de euros), seguida da Suíça (11 milhões de euros) e Qatar e Omã (que em conjunto desembolsaram 18 milhões de euros). A Espanha terá gasto quase 10 milhões de euros.

Muitos aderiram, poucos participam

Na segunda-feira, o jornal britânico “Daily Mail” noticiou que metade dos principais comandantes do Estado Islâmico e cerca de 6000 combatentes jiadistas já terão sido mortos desde o início dos bombardeamentos internacionais, em setembro.

Segundo o Departamento de Estado dos EUA, mais de 50 países já declararam apoio à coligação: muitos contribuem com ajuda humanitária, mas poucos participam nas operações militares. Para além dos Estados Unidos, já participaram nos bombardeamentos o Reino Unido e a França e ainda vários países árabes — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Jordânia.

O piloto Muath Kasasbeh foi capturado quando participava precisamente nos bombardeamentos e o seu avião despenhou-se perto de Raqqa, na Síria. Ao executarem-no, os extremistas quiseram verdadeiramente punir a Jordânia por participar nos ataques a território muçulmano. Talvez por isso, a vida do jordano não tenha valido nem um pedido de resgate.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 4 de fevereiro de 2015. Pode ser consultado aqui

Um país em risco e onde tudo se discute

Uma arquiteta portuguesa que viveu três meses no país conta ao Expresso a sua experiência

O Iémen está sem governo, sem Presidente, tem a capital nas mãos de rebeldes xiitas, o sul controlado por independentistas e o leste por tribos e pela Al-Qaida. Um cenário de caos que levanta a questão da integridade do país, mas não demove a arquiteta Milena Raposo da vontade de regressar ao Iémen — que visitou pela primeira vez em 2013 para estudar árabe e observar a arquitetura tradicional, nomeadamente as construções em terra, por vezes de 11 pisos, da cidade de Shibam, “a Manhattan do deserto”.

“Não tinha consciência se podia, ou não, ir a Shibam”, conta ao “Expresso”. Milena acabaria por ver os seus planos frustrados. Shibam fica na região de Hadramaut, no leste, onde está implantada a Al-Qaida. “Para um estrangeiro, é muito difícil viajar no Iémen, por razões de segurança. O mais provável é que não aconteça nada, mas as autoridades não permitem. Quando se está em Sana’a, é preciso uma autorização especial para sair da cidade. Há que ir à polícia, dizer com quem se vai, que vamos fazer, por quanto tempo, e eles podem dar autorização, ou não. A mim não deram.”

Em 2013, Milena esteve no Iémen quase dois meses. No ano passado, voltou para uma estada de três semanas, quando manifestações dos huthis já enchiam as ruas de Sana’a e a tomada da capital por esses rebeldes xiitas, que dura até hoje, estava iminente. “Era tudo muito estranho. Da primeira vez, cheguei a Sana’a às quatro da manhã. O motorista da escola de línguas foi buscar-me ao aeroporto, num carro que parecia ter sido abalroado por um tanque. Levava um filho pequeno, porque não era próprio andar de carro sozinho com uma mulher que não fosse da sua família. É um princípio.”

Milena optou por usar sempre a “abaya” (túnica longa que cobre todo o corpo) e, na cabeça, o “hijab” (lenço). Não tinha de o fazer, ainda para mais sendo estrangeira. “Eu podia andar vestida à ocidental, como vi algumas estrangeiras fazerem, mas para eles pareceria estranho. Ficam muito contentes quando a pessoa tenta integrar-se e aprecia os seus valores. Significa que se identifica com eles de alguma forma. E sobretudo, apreciam que se cubra o cabelo, porque para eles não é normal verem as mulheres na rua sem o “hijab”. Todas essas regras culturais e religiosas acontecem de maneira natural. Não senti que fossem imposições, em contexto nenhum. É isso que faz deles um povo tão bonito.”

No Iémen, em termos profissionais, nada está vedado às mulheres, excetuando tudo o que tenha a ver com um papel mais ativo na religião, incluindo a profissão de “muezim” — aquele que sobe ao minarete para chamar os fiéis à oração (nas mesquitas ocidentais e em muitos países muçulmanos, o chamamento é feito por gravações). “No governo que se demitiu na semana passada, havia seis ministras. Uma delas era a porta-voz. Na política, não há restrições ao papel da mulher.”

Por ser estrangeira — “à mulher estrangeira, é permitido frequentar os mundos masculino e feminino” —, Milena pode assistir a “reuniões de qat” de homens (também as há de mulheres), encontros informais que muito a cativaram. “A maior parte dos iemenitas não trabalha a partir do meio da tarde. Então, até ao anoitecer, grupos de amigos reúnem-se para discutir, pacientemente, política, cultura e religião.

Estes encontros acontecem no “mafraj”, normalmente uma sala comprida no último piso da casa, com janelas enormes para a cidade e almofadas no chão a toda a volta, onde as pessoas se sentam, com uma pequena mesa à frente de cada um, com água e um ramo de “qat” — uma planta que vão mascando e que é um estimulante da memória e ajuda à conversação. E passam horas assim.”

Os drones e a Palestina

Milena percebeu que os iemenitas se sentem incompreendidos pelo Ocidente e vivem o problema da Palestina como “uma grande ferida”. “Eles dizem: ‘Os nossos irmãos árabes estão a ser expulsos da sua própria terra’”.

Constatou também que a cooperação entre o Iémen e os Estados Unidos em matéria de combate ao terrorismo está a ter efeitos contraproducentes. “Aos poucos, se a Al-Qaida tem vindo a ganhar alguns adeptos iemenitas, isso decorre da revolta das pessoas perante os ataques dos EUA com drones. Os civis sofrem com isso. Quem perde familiares, ou mesmo famílias inteiras no bombardeamento de um casamento, como já aconteceu, sente uma grande revolta.”

Quando Milena pensa no Iémen e ouve notícias de que o país corre o risco de voltar a partir-se em dois, como acontecia até 1990, esta arquiteta de 35 anos acredita que isso não será positivo. “Apesar de haver muitas identidades culturais distintas, penso que o país sobreviveria melhor como território único e com uma gestão única. As regiões conseguiriam compensar-se. De outra forma, haverá sempre regiões muito pobres e vulneráveis. Não sei o que vai acontecer, mas acho que unificado, o Iémen teria mais força.”

Conhecida como “a Manhattan do deserto”, Shibam fica na região de Hadramaut, no leste, onde está implantada a Al-Qaida JIALIANG GAO WWW.PEACE-ON-EARTH.ORG / WIKIMEDIA COMMONS

UM PALCO DA PRIMAVERA ÁRABE
QUE ACABOU EM MÃOS JIADISTAS

1. PORQUE É O IÉMEN TERRITÓRIO FÉRTIL PARA A AL-QAIDA?

Marie-Christine Heinze
Presidente do Centro de Investigação Aplicada em Parceria com o Oriente (CARPO), Berlim
Há muitas razões, a mais importante das quais é a alta taxa de desemprego entre os jovens e os baixos níveis de educação. Há também a geografia acidentada e a falta de controlo estatal fora das principais cidades. Tudo isto, combinado com a deterioração da situação de segurança, permitiu à Al-Qaida, através das suas redes locais, tirar partido dos conflitos na região. Os locais também usam a Al-Qaida para fomentar interesses próprios, ainda que não concordem com a sua ideologia. Fazem-no para terem mais homens do seu lado a lutar contra um inimigo comum. Nos últimos meses, o avanço dos huthis sobre áreas sunitas levou locais a juntarem-se à Al-Qaida para combater os huthis. Muitos consideram os huthis a única força com vontade e capacidade para lutar contra a Al-Qaida; outros pensam que a Al-Qaida é a única força capaz de combater os huthis. A Al-Qaida tem usado o medo provocado pelo avanço huthi para espalhar uma retórica sectária.

2. QUE RESTA DA PRIMAVERA ÁRABE NO PAÍS?

Ana Santos Pinto
Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), Lisboa
Os acontecimentos de 2011 (substituição do Presidente Saleh pelo vice-presidente Hadi) consubstanciaram-se numa alteração de líder, mas não de regime. Os sucessores de Saleh são figuras ligadas ao regime anterior, mantendo o antigo líder a mesma influência junto da elite dominante. Isto significa que Saleh não precisa de regressar, porque “esteve sempre lá”. A regressar será com base numa narrativa de unidade nacional e em resposta aos receios de desintegração do país. Pouco mudou para a população com a Primavera Árabe, existindo agora um acréscimo da conflitualidade face à posição assumida pelos rebeldes huthis. Se estivermos perante um regime sectário — baseado no afastamento e subordinação de comunidades minoritárias — cria-se no país um contexto favorável a um palco de conflitualidade violenta como no Iraque e na Síria, e possivelmente com ligações aos mesmos atores, nomeadamente ao Estado Islâmico.

QUEM QUER O QUÊ
E QUEM OS APOIA

PODER
Presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi
Sucedeu ao ditador Ali Abdullah Saleh, em 2011, após grandes manifestações populares em Sana’a, no contexto da Primavera Árabe. Enfraquecido internamente após o avanço dos rebeldes huthis sobre a capital, em setembro, viu-se forçado à demissão, que apresentou a 22 de janeiro, na sequência da investida dos huthis sobre o palácio presidencial. Aliado dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, autorizou, à semelhança do seu antecessor, que os norte-americanos bombardeassem com drones (aviões não tripulados) no interior do país.

REBELDES
Huthis
Etnia minoritária, professa a interpretação xiita do Islão num país maioritariamente sunita. Historicamente concentrados no Norte do Iémen, avançaram em setembro sobre a capital, Sana’a — que controlam —, após o governo cortar subsídios aos combustíveis, no âmbito de uma negociação com o FMI, originando a subida do preço da gasolina em 60% e do gasóleo em 95%. Huthis e Al-Qaida são inimigos: os primeiros são aliados do Irão, que os financia, e os segundos seguem a interpretação fundamentalista sunita adotada pela Arábia Saudita, grande rival do Irão no Médio Oriente. A separá-los está ainda o facto de os huthis atuarem como guerrilha e terem uma agenda local, ao passo que a Al-Qaida é um grupo terrorista com objetivos globais.

SEPARATISTAS
Movimento do Sul
Quer que o Sul do Iémen volte a ser independente como acontecia antes da unificação do país, em 1990, com a sua capital na cidade portuária de Aden. Na passada segunda-feira, fações afetas ao Movimento Sulista criaram, em Aden, o Órgão Sulista Nacional para a Libertação e Independência, que congrega partidos políticos, organizações estudantis e sindicatos. Ao mesmo tempo que constitui uma tentativa para unificar diferentes sensibilidades dentro do Movimento do Sul, revela que entre as hostes pró-secessionistas a unidade é um processo em construção. “Não há Governo nem Presidente. É hora de o povo do Sul perceber o que quer, isto é, a independência”, disse ao “Yemen Times” Abdullah Rashid, um dos fundadores do Movimento Sulista. “A unidade com o Iémen do Norte acabou após a guerra de 1994.”

TERRORISTAS
Al-Qaida na Península Arábica
Também conhecida por Al-Qaida no Iémen, reivindicou o recente atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris. Fortemente implantada nas regiões tribais de Hadramaut, no Leste do país, atua internamente como grupo terrorista, tendo já operado na capital. A 21 de maio de 2012, um ataque suicida contra uma parada militar, em Sana’a, provocou mais de 100 mortos. Foi reivindicado pelo grupo Ansar al-Sharia, da constelação Al-Qaida.

(Foto principal: Sana’a, a capital iemenita, em tempo de paz (janeiro de 2009) FERDINAND REUS, DE ARNHEM, HOLANDA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 31 de janeiro de 2015