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O “Querido Líder” morreu, viva o “Grande Sucessor”!

Kim Jong-il sai de cena e deixa como herdeiro um filho de 29 anos. Haverá luta pelo poder? Endurecimento do regime? Perestroika?

Kim Jong-un, líder supremo norte-coreano PIXABAY

Um jovem de 29 anos, sem experiência política nem carreira militar, à frente de um país dotado de armas nucleares e considerado ‘pária’ a nível internacional é caso para inquietar os quatro cantos do mundo. É o que se passa na Coreia do Norte onde, após a morte do líder Kim Jong-il, na sequência de um ataque cardíaco, faz hoje uma semana — o funeral será só na próxima quarta-feira —, o seu filho Kim Jong-un foi confirmado na liderança do país.

“Surpreender-me-ia pouco se, tal como o seu pai, Kim Jong-un demorasse alguns anos a consolidar o poder. Kim Jong-il não liderava sozinho. Fazia parte de um triunvirato, partilhando o poder com um chefe do Governo e um presidente do Parlamento”, comentou ao Expresso Armando Marques Guedes, professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Superiores Militares.

Apesar de a Coreia do Norte ter uma imagem monolítica, o aparelho político pode ser a chave para impedir que o país se torne um joguete nas mãos de um imaturo membro da dinastia Kim — que governa a República Democrática da Coreia desde a sua criação, em 1948.

Kim Jong-un herda do seu excêntrico e mitómano pai — promovia a ideia de que não tomava banho porque o seu corpo não produzia fezes — um país ‘de ficção’. A Coreia do Norte é o último regime estalinista puro à face da Terra. Em solidariedade, Cuba decretou três dias de luto e o Partido Comunista Português “expressou condolências ao povo coreano”.

Dotado de um arsenal nuclear — o hermetismo do país leva a especulação a oscilar entre seis e 12 bombas — e de um exército com 1,2 milhões de homens, é também um país com dificuldades em alimentar a sua população (24 milhões de pessoas) — a superfície arável é escassa e com a desagregação da URSS, a Coreia do Norte perdeu o seu principal parceiro comercial.

Kim Il-sung fizera assentar o desenvolvimento do país no conceito de juche (“autossuficiência”) mas crises cíclicas de má gestão combinadas com inundações gigantescas em meados da década de 1990 arruinaram a economia e mataram à fome estima-se que entre 5% a 10% da população. “Kim Jong-il adotou uma ‘economia socialista de mercado’ e começou um processo acelerado de exigência de ajudas alimentares externa. Obteve-a — quantas vezes sob ameaça — de uma Coreia do Sul então como hoje de vento em popa economicamente falando, e ainda negociando com a China e os EUA em condições de extrema dureza”, refere Armando Marques Guedes. “No início do milénio, Kim Jong-il conseguira delinear uma nova política externa com reatamento de relações com a Coreia do Sul e algumas concessões táticas aos EUA, mantendo sobre ambos enormes pressões político-militares, designadamente a obtenção, em 1994, de armas nucleares.”

Bolachas para alimentar o povo

Durante a última ronda de conversações, na semana passada, em Pequim, entre os EUA e a Coreia do Norte, ficou patente a ansiedade norte-coreana em garantir dos norte-americanos o fornecimento de 20 mil toneladas mensais de bolachas e barras de cereais, durante um ano. Em contrapartida, Pyongyang faria cedências ao nível do seu programa nuclear e regressaria à mesa das negociações a Seis (EUA, Rússia, China, Japão e Coreias), iniciadas após a saída da Coreia do Norte do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em 2003.

Desde que, em 2002, George W. Bush inscreveu a Coreia do Norte no “eixo do mal” que Pyongyang teme ser a etapa seguinte de um ‘ajuste de contas’ iniciado no Iraque. Porém, é o interminável conflito com o vizinho a sul que consome recursos e alimenta paranoias.

“Um conflito com os sul-coreanos seria devastador para estes últimos, caso tivesse (como tudo indica) uma dimensão não-convencional, que incluísse armas de destruição maciça. Seul está facilmente ao alcance dos mísseis de Pyongyang. Seria também catastrófico para o regime norte-coreano, tendo em vista a garantia de segurança norte-americana e a presença robusta de forças de Washington na região”, explica o professor.

Na segunda-feira, Barack Obama falou com o seu homólogo sul-coreano, Lee Myung-bak, e reafirmou “o forte compromisso dos EUA para com a segurança do nosso aliado próximo”. Os EUA têm 30 mil homens em solo sul-coreano. “Pyongyang não tem forças militares capazes de fazer frente a nenhum dos dois adversários”, diz Marques Guedes. “O que tem é uma disponibilidade maior do que a de qualquer deles em absorver perdas num eventual conflito. E colocou-se progressivamente na posição de ter de criar ameaças periódicas que tornem claro esse diferencial de disponibilidade.” De tempos a tempos, o alerta dispara nas Coreias, ora a propósito de atritos navais ora devido ao disparo intimidatório de mísseis.

“O regime norte-coreano aprendeu a manipular essa capacidade em assumir riscos impensáveis para os adversários e dela extrair ganhos, pondo em cheque a sua população, sem hesitações. Os vizinhos veem-se na contingência de conceder apoios cada vez maiores pela esperança que nutrem em ver o Estado-Partido implodir, o que só acontecerá quando deixar de conseguir controlar a população por intermédio de expedientes ideológicos dia a dia mais surreais; e se, em simultâneo, deixar de conseguir exportar tecnologia termonuclear num mercado internacional em expansão. O Estado norte-coreano constitui uma ameaça global. Logrou transformar-se numa espécie de bombista-suicida coletivo disposto a irradiar destruição ao seu redor.”

UM APAIXONADO
POR BASQUETEBOL,
UMA INCÓGNITA NA POLÍTICA

Kim Jong-un nasceu em janeiro de 1983 — tem, por isso, 28 anos. Mas por conveniência do regime, ‘foi envelhecido’ um ano. A campanha de propaganda desenvolvida pelo Partido dos Trabalhadores — o único partido na Coreia do Norte — elegeu 2012 como o ano em que o país se converterá numa “nação forte e próspera” e Pyongyang quer que essa conquista coincida com o 30º aniversário do novo líder. Oficialmente nascido em janeiro de 1982, Kim Jong-un é o mais novo de três filhos de Kim Jong-il. A mãe, Ko Young-hee, era uma bailarina de ascendência coreana, nascida em Osaca (Japão). Faleceu em 2004, estima-se que de cancro da mama. O novo líder norte-coreano estudou no Colégio de Steinhoelzli, na Suíça, onde era conhecido pelo nome Pak Un. Colegas de então enumeram o gosto pelo basquetebol — era fã dos Chicago Bulls — e pelos filmes de Jackie Chan. Em 2009, um ano após o pai ter sofrido uma apoplexia que acelerou o processo de sucessão, foi designado “brilhante camarada” pelo pai. Ingressou na carreira militar e foi graduado general de quatro estrelas, o que causou algum desagrado nas altas patentes. Com a morte do pai (o “querido líder”), ganhou o epíteto de “grande sucessor”. Impreparado para o cargo, há quem aponte o tio, Jang Song-thaek, como o líder de facto.

GUERRA E PAZ NA PENÍNSULA

1983 — A 9 de outubro, o Presidente da Coreia do Sul, Chun Doo-hwan, é alvo de um atentado, durante uma visita à Birmânia. Um dos bombistas confessou ser um militar norte-coreano

1990 — A 3 de março, é detetado um túnel cavado pelos norte-coreanos sob a Zona Desmilitarizada. Foi a quarta descoberta desde 1974

1991 — A 17 de setembro, a República da Coreia (sul) e a República Popular Democrática da Coreia (norte) aderem às Nações Unidas

2000 — Primeira cimeira interpresidencial

2003 — A Coreia do Norte retira-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear

2006 — A Coreia do Norte testa o míssil Taepodong-2, de longo alcance

2007 — Comboios de passageiros cruzam a fronteira entre as Coreias, pela primeira vez em 56 anos

2010 — Afundamento do navio de guerra sul-coreano “Cheonan”, a 26 de março, no mar Amarelo. O ataque, atribuído à Coreia do Norte, matou 46 marinheiros

Artigo publicado no Expresso, a 23 de dezembro de 2011

Coreia do Norte é uma espécie de bombista suicida coletivo

Kim Jong-un levará algum tempo a consolidar a sua liderança, diz Armando Marques Guedes, professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Superiores Militares. Disposta a “irradiar destruição ao seu redor”, a Coreia do Norte constitui “uma ameaça global”. Entrevista

Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un WIKIMEDIA COMMONS

Que marca deixou Kim Jong-il na Coreia do Norte?
O processo de transição foi complicado, por vezes mesmo turbulento, devido às mudanças que, a par e passo, foram ocorrendo num sistema que já era, à partida, complexo. Kim Il-sung, o seu pai, fundador e chefe de Estado norte-coreano morreu em 1994. A transição começara alguns anos antes, mas revelou-se difícil. É tido como consensual que só três anos depois Kim Jong-il conseguiu consolidar a sua posição de liderança. O que significou tornar-se secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia e, mais importante, presidente da Comissão de Defesa Nacional, uma entidade então declarada como o posto de topo no país — uma vez que, nesse mesmo ano de 1998, a Assembleia Popular Suprema declarou extinto o lugar de Presidente da República Popular e Democrática da Coreia, em memória e por respeito a seu pai, Kim Il-sung, que postumamente então se tornou no “Presidente Eterno”.

E após essa transição?
Ao contrário do seu pai, Kim Jong-il não liderava, formalmente, sozinho. Fazia antes parte de um triunvirato, partilhando o poder com um chefe do Governo e um presidente do Parlamento. Na prática, porém, Kim Jong-il, o “Querido Líder”, ou “Querido Pai”, tal como antes dele o seu pai, manteve pelo menos desde 1998 um controlo político absoluto em todos os domínios. Cada cinco anos viu-se reconduzido nos lugares que ocupava por unanimidade, em eleições que a Constituição não exigia. Nos termos das mudanças ocorridas no sistema de governo do país, fê-lo representando sempre um eleitorado militar, dadas as suas funções no novo sistema de governo norte-coreano — um sistema no qual a distinção entre o poder formal e o informal é, ao mesmo tempo, marcadíssima e pouco relevante ter, sobretudo, uma alçada simbólica.

E qual o legado económico de Kim Jong-il?
A governação económica de Kim Jong-il viu-se prejudicada por crises cíclicas de má gestão, agravadas por repetidas e gigantescas inundações que, em meados dos anos 1990, virtualmente destruíram a economia agrícola de subsistência existente no pequeno país com pouca superfície arável. Kim depressa adoptou uma “economia socialista de mercado”, e começou um processo acelerado de exigência de ajudas alimentares externa. Obteve-a, quantas vezes sob ameaça, de uma Coreia do Sul então como hoje de vento em popa, e ainda negociando com a China e os Estados Unidos em condições de extrema dureza. Em inícios do milénio, Kim Jong-il conseguira delinear uma nova política externa que incluiu o reatamento de relações com a Coreia do Sul e algumas concessões tácticas aos Estados Unidos — mantendo sempre sobre ambos enormes pressões político-militares, designadamente a obtenção, em 1994, de armas nucleares.

E ao nível da política externa?
Externamente, Kim Jong-il manteve o seu controlo do Estado por meio de chantagens e desafios político-militares sucessivos, beneficiando sempre do apoio da vizinha China. A obtenção de armas nucleares permitiram-lhe lograr as famosas e polémicas, mesmo internamente, “Negociações de Seis Parceiros” com a China, o Japão, a Rússia, os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Internamente, segurou com firmeza as rédeas do país e da população recorrendo a um misto de repressão sistemática (considera-se haver 200 mil prisioneiros políticos na República Democrática e Popular da Coreia) e pela sofisticação de um “culto da personalidade” que se alimentou por via de regra de imagens paternalistas de reportório (e porventura natureza) ‘mágico-religioso’, imagens essas persistentemente utilizadas em todos os aspectos do dia a dia, de uma ética neo-Confuciana inculcada pelo sistema de ensino e pelos media, e pela enunciação constante da eminência de agressões externas – a que a presença, na vizinha Coreia do Sul, de 30 mil soldados norte-americanos e de parte do arsenal nuclear de Washington forneciam alguma plausibilidade.

Seul ao alcance dos mísseis norte-coreanos

Um conflito com a Coreia do Sul é, hoje, o principal trauma norte-coreano?
Um conflito com os sul-coreanos seria devastador para estes últimos, caso tivesse (como tudo indica) uma dimensão não-convencional, que incluísse armas de destruição em massa. Seul está facilmente ao alcance dos mísseis de Pyongyang. Seria também catastrófico para o regime norte-coreano, tendo em vista a garantia de segurança norte-americana e a presença robusta de forças de Washington na região. As ameaças sul-coreana e norte-americana ao regime norte-acoreano não são facilmente separáveis uma da outra. Em todo o caso, Pyongyang não tem forças militares capazes de fazer frente a nenhum dos dois adversários. O que tem, isso sim, é uma disponiblidade maior do que a de qualquer deles em absorver perdas num eventual conflito. E colocou-se progressivamente na posição de ter de criar ameaças periódicas que tornem claro esse diferencial de disponibilidade.

Qual o interesse da China na Coreia do Norte?
A posição geográfica e forma da península coreana têm sido objeto de leituras geopolíticas fascinantes. Antes e durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o Império Japonês em afirmação expansionista apelidou o país de “um punhal apontado ao coração do Japão”. E, de facto, a península historicamente tem funcionado como um corredor entre o continente e o arquipélago japonês, nas duas direções: foi por essa via que correu, a partir do século I DC grande parte da sinificação nipónica, foi por ela também, no sentido inverso, que o Japão nos anos 30 do século XX invadiu a China, como foi ainda por aí que a China e a União Soviética se degladiaram e dividiram a península na guerra de 1950-1953.

Seguiu-se a Guerra Fria…
Depois de 1945, e sobretudo com o início da Guerra Fria, este papel agudizou-se, face a uma China que se sentiu ameaçada por um enclausuramento crescente pelos norte-americanos e, depois de 1953, por uma ameaça dirigida ao coração do Império do Meio. A solução foi criar uma barreira difícil de transpor, a Coreia do Norte; para lá de eventuais afinidades político-ideológicas, a China encara em termos sobretudo geo-estratégicos a ligação que tem feito questão de manter com Pyongyang, que considera lhe fornece profundidade estratégica face ao ‘eixo Japão-Estados Unidos’.

E de que forma Pyongyang tem usado esse recurso?
O regime norte-coreano tem usado e abusado dessa posição geográfica privilegiada que tem — como barreira e como válvula de escape — para Pequim. O que tem permitido às elites do partido monolítico de Pyongyang uma inflação do seu poder, ancorada numa constante manipulação das vantagens e riscos que o posicionamento do pequeno Estado lhes concede. A parada tem vindo a subir de tom, na justa medida em que a Dinastia Kim e os seus apoiantes militares tudo tem feito para sustentar esse status quo geopolítico. Radica aqui todas as construções ideológicas norte-coreanas, do conceito de juche (auto-suficiência) a toda a parafernália simbólica que tem vindo a erigir par se legitimar internamente. O “complexo militar-industrial” norte-coreano tem-se mostrado tão exímio como implacável nessa escalada — sacrificando às suas ambições cada vez mais desmesuradas, sem aparentemente pestanejar, a população do pequeno Estado. Enquanto os múltiplos conflitos de interesses e a urgência de contenção recíproca das grandes potências que se defrontam nos palcos nordeste asiáticos se mantiverem, a polarização política interna e externa do Estado norte-coreano parece inescapável.

Nuclear é apólice de seguro para elites sem escrúpulos

E como surge o programa nuclear?
A nuclearização do regime de Pyongyang começou como um esforço chinês de garantir uma neutralização eficaz de ameaças externas e foi-se a pouco e pouco transmutando num mecanismo perigoso de sobrevivência de um regime incapaz de, por outros meios, se manter à tona. Hoje constitui uma espécie de apólice de seguro de elites sem escrúpulos apostadas a eternizar a sua supremacia — mesmo que a China venha a considerar o país um fardo político demasiado pesado, como crescentemente tem vindo a ser o caso.

George W. Bush inscreveu a Coreia do Norte no “eixo do mal”. Sente que o país é uma ameaça ao mundo?
A Administração Bush herdou das suas antecessoras a convicção de que o brinkmanship militar (agora nuclear) norte-coreano entrou numa escalada incontrolável. Com efeito, um ponto de não-retorno foi há muito atingido pelas elites no poder em Pyongyang. A sua sobrevivência depende integralmente da disponibilidade que manifestem, alto e bom som, para sofrer perdas maiores do que aquelas que os seus adversários estejam dispostos a incorrer. Pior, o regime norte-coreano aprendeu a manipular essa sua capacidade em assumir riscos impensáveis para os seus adversários e dela extrair ganhos, pondo em cheque a sua própria população sem quaisquer hesitações.

E como reagem os vizinhos?
Os vizinhos de Pyongyang (a China incluída) vêm-se em resultado na contingência de ir trocando os apoios cada vez maiores que lhe concedem pela esperança que nutrem em ver o Estado-Partido implodir — o que apenas terá lugar quando o regime deixar de conseguir controlar a população por intermédio de expedientes ideológicos dia a dia mais surreais; e se, em simultâneo, deixar de conseguir exportar tecnologia termonuclear num mercado internacional em expansão. Por outras palavras, o Estado norte-coreano constitui uma ameaça global pois logrou transformar-se numa espécie de bombista suicida coletivo disposto a irradiar destruição ao seu redor, e mesmo noutros lugares de um mundo mais à mão, num processo que ameaça derrubar em cascata os frágeis equilíbrios regionais e globais que o viabilizaram e lhe deram alento.

O que conhece de Kim Jong-un? Preocupa-o a sua impreparação para o cargo?
Kim Jong-un é o mais novo dos três filhos de Kim Jong-il. Viveu e estudou na Suíça. Em 2009, foi designado pelo seu pai como “Brilhante Camarada”. Na mesma data ingressou na carreira militar, sendo de imediato graduado como General de Quatro Estrelas. Quando da morte do seu pai foi designado, oficialmente, como “grande Sucessor”. Pouco se sabe sobre ele. Mas desde há pelo menos dois anos estava indigitado como herdeiro do poder e das funções de Kim Jong-il. Surpreender-me-ia pouco se, tal como o seu pai, Kim Jong Un demorasse alguns anos a consolidar o seu poder, num sistema político tão complexo e multi-dimensional como é o norte-coreano. Quaisquer vácuos de poder, mesmo se temporários, são preocupantes quando o que está em causa são os mecanismos de tomada de decisão numa potência nuclear.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 23 de dezembro de 2011. Pode ser consultado aqui

Das tréguas à prosperidade

Os Emirados Árabes Unidos foram fundados há 40 anos. Em 2012, quase 50% do orçamento será destinado à saúde, educação e alojamento. Fotogaleria

A 2 de dezembro de 1971, foi criado o Estado dos Emirados Árabes Unidos (EAU), no sudeste da Península Arábica
O país é uma federação de sete emirados, cada qual governado por um emir
Os sete emirados são: Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ras Al Khaimah, Ajman, Um al-Qaiwain e Fujairah
São formalmente conhecidos como os Estados da Trégua, numa referência a uma trégua, no século XIX, entre os líderes locais e o colonizador Reino Unido
São formalmente conhecidos como os Estados da Trégua, numa referência a uma trégua, no século XIX, entre os líderes locais e o colonizador Reino Unido
O Xeque Zayed bin Sultan Al Nahyan é o pai fundador dos EAU. Morreu em 2004
Sucedeu-lhe na presidência o seu filho, o Xeque Khalifa bin Zayed Al Nahyan
O primeiro-ministro é o emir do Dubai, presentemente o Xeque Mohammad Bin Rashid al Maktum
A visão do Xeque Zayed para o país assentava em quatro princípios estruturais
O primeiro: As receitas provenientes do petróleo e do gás do emirado do Abu Dhabi devem ser colocados ao serviço de todo o país
Os EAU têm as quartas maiores jazidas de petróleo do mundo e as quintas maiores reservas de gás
O país produz cerca de 2,5 milhões de barris de petróleo por dia
Abu Dhabi é o grande centro de produção de petróleo e gás
Abu Dhabi é o grande centro de produção de petróleo e gás
Com 828 metros de altura, o Burj Khalifa, no Dubai, é o edifício mais alto do mundo
O turismo representa cerca de 10% do PIB, com 12 milhões de visitantes por ano
O turismo levou ao crescimento contínuo das linhas aéreas nacionais: Ethiad, Emirates, FlyDubai, Air Arabia
Nos portos marítimos, o número de escalas de cruzeiros está a aumentar
Excetuando Abu Dhabi e Dubai, os outros emirados praticamente não tem recursos próprios
A proteção ambiental tem sido uma preocupação dos EAU. Abu Dhabi alberga a sede da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA)
Em Abu Dhabi, Masdar é uma das primeiras cidades do mundo “verdes”, sem carbonetos
Na ilha de Sa’adiyat (Felicidade), adjacente a Abu Dhabi, estão a ser construídos um Louvre e um Guggenheim
O Grande Prémio de Abu Dhabi de Fórmula 1 começou a ser disputado em 2009
Trabalham nos EAU expatriados oriundos de cerca de 200 países, ou seja, praticamente de todo o mundo
Recentemente, entrou em vigor a Lei 51, destinada a combater o tráfico de seres humanos no país
O segundo: A verdadeira riqueza do país está no seu povo
Hoje, as mulheres representam cerca de 70% do universo de estudantes universitários
Cerca de dois terços dos postos governamentais são ocupados por mulheres
O terceiro: O espírito de tolerância entre diferentes comunidades e credos deve permanecer
A Grande Mesquita Xeque Zayed, em Abu Dhabi
Nos EAU, existem mais de 40 igrejas e catedrais, bem como lugares de oração de outras crenças
O quarto: Os EAU devem procurar promover o diálogo, cooperação e resolução de conflitos
Os EAU fazem parte do Conselho de Cooperação do Golfo, juntamente com Arábia Saudita, Bahrain, Omã, Qatar e Kuwait
Na última década, os EAU contribuíram com mais de 1,5 biliões de dólares para programas de reabilitação e reconstrução no Afeganistão
Na última década, os EAU contribuíram com mais de 1,5 biliões de dólares para programas de reabilitação e reconstrução no Afeganistão
As despesas com a saúde, a educação e o alojamento correspondem a 47% do orçamento para 2012

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de dezembro de 2011. Pode ser consultado aqui

Saída de cena de Saleh não acalma as ruas

Após dez meses de protestos, o Presidente do Iémen abdicou do poder. Mas a estrutura do regime permanece intacta

“Renúncia”, é o que o povo iemenita quer que Ali Abdullah Saleh assine CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Nesta semana, foi anunciada a queda de mais um ditador, acossado por manifestações populares — o quarto, no âmbito da chamada Primavera Árabe. Na quarta-feira, na capital da Arábia Saudita (Riade), Ali Abdullah Saleh — Presidente do Iémen desde há 33 anos — assinou um acordo de transferência de poder para o seu vice-presidente, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, a concretizar-se num prazo de 30 dias.

Porém, o acordo — que deixa intacta a atual estrutura de Governo — não tranquilizou os manifestantes iemenitas que continuaram a sair às ruas para exigir o fim do regime.

Os manifestantes contestam ainda a imunidade concedida a Saleh e família — e exigem o seu julgamento —, suspeitos de acumular, em bancos estrangeiros, grandes fortunas desviadas do erário público do Iémen, o país mais pobre do mundo árabe.

Saleh conservará o título de Presidente, mesmo após a transferência total de poderes para o vice-presidente. Este formará um governo de unidade nacional, liderado por uma figura da oposição, e organizará eleições presidenciais dentro de 90 dias.

Protegido pelos Estados Unidos, que o via como um precioso aliado na luta contra a Al-Qaida, Saleh segue nos próximos dias para Nova Iorque para receber tratamentos médicos. O atentado de que foi alvo, a 3 de junho, em Sana’a — que lhe perfurou um pulmão e queimou o rosto — ainda deixa mazelas consideráveis.

O ‘quintal’ saudita

Elaborado em abril pelo Conselho de Cooperação do Golfo — de que fazem parte Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Qatar, Emirados Árabes Unidos e Omã —, este acordo é a prova de que o gigante saudita não tolera instabilidade nas suas fronteiras. Anteriormente, já Riade enviara para o Bahrain 30 veículos militares para ajudar a conter a revolta popular: o poder bahraini é sunita (como a Arábia Saudita) e a maioria da população é xiita (como o Irão, do outro lado do Golfo Pérsico).

No Iémen, a situação requer igual cuidados. Cerca de 35% da população são xiitas. E sendo o Iémen o país que acolhe um dos braços mais ativos da Al-Qaida — a Al-Qaida na Península Arábica —, os sauditas não abdicam de uma vigilância permanente.

Artigo publicado no Expresso, a 26 de novembro de 2011

Afeganistão, a guerra da década

A vingança pelo 11 de setembro serviu-se no Afeganistão. Iniciada a guerra, o regime talibã sobreviveu pouco mais de um mês, mas, dez anos volvidos, o país continua a acumular indícios de um Estado falhado. Seis militares portugueses recordam as suas missões

Enquanto milhões de muçulmanos participavam em ruidosas celebrações, um pouco por todo o mundo, assinalando o fim do Ramadão, a tradicional mensagem festiva divulgada pelo líder dos talibãs afegãos quase passava despercebida. Postada no website dos talibãs, a 28 de agosto passado, a comunicação foi, aos olhos de muitos observadores, a mais significativa em termos políticos que mullah Omar alguma vez enviou aos seus seguidores.

Ao estilo de uma espécie de “discurso da união”, o líder talibã não descartou a possibilidade de uma partilha de poder com o governo instalado em Cabul. E, pela primeira vez, admitiu que o movimento está em negociações com “algumas partes” (no que foi interpretado como uma referência aos norte-americanos) visando a libertação de prisioneiros.

A existência de conversações com os talibãs é um embaraço que, nos Estados Unidos, só se admite à boca pequena. Quase dez anos após o início da guerra no Afeganistão — desencadeada para vingar o 11 de setembro, punindo o regime que dava guarida a Osama bin Laden e à sua Al-Qaeda —, o inimigo de ontem tornou-se a secreta esperança para que, amanhã, o Afeganistão recupere alguma estabilidade e os EUA possam livrar-se do fardo afegão.

Uma cara fatura

Com o país assolado pela crise da dívida, para as autoridades norte-americanas é cada vez mais difícil justificar aos contribuintes os milhões gastos no Afeganistão. Cerca de 100 mil militares continuam no teatro afegão e, segundo estimativas da própria Administração norte-americana, o custo de cada militar destacado ascende a um milhão de dólares (704 mil euros) por ano. Em números redondos, a guerra já custou ao erário americano 450 mil milhões de dólares (318 mil milhões de euros).

Para muitos americanos, a morte de Osama bin Laden, em maio, veio esvaziar de sentido o esforço militar em solo afegão. Acresce que desde 2004, a cada novo ano, morrem cada vez mais militares. Com 69 baixas, agosto foi o mês mais mortífero para as tropas americanas. No total, desde o início da operação Liberdade Duradoura, a 7 de outubro de 2001, a coligação da NATO já perdeu mais de 2700 militares, entre os quais pelo menos 1756 americanos. Portugal, presente desde 2004, perdeu dois homens.

A pressão para retirar aumenta a cada baixa e reflete-se na predisposição dos EUA para continuar na guerra. Até 2014, a Força Internacional de Assistência para a Segurança (ISAF) — a coligação da NATO no país — quer formar 240 mil militares e 160 mil polícias afegãos, que receberão a responsabilidade pela segurança no território.

Um país falhado

Estatísticas da NATO revelam que no primeiro semestre de 2011 cerca de um em cada sete soldados afegãos desertaram. Queixam-se, muitas vezes, de não poderem ir a casa com regularidade. Num país onde, regra geral, a lei da tribo sobrepõe-se à lei do Estado, a vida longe do núcleo familiar é artificial. “No Afeganistão, há 7000 vales e cada vale tem a sua tribo, o seu clã e a sua língua ou dialeto”, diz um aforismo local.

Dez anos de guerra — a que se somam anos sombrios de dominação talibã (1996-2001) e a invasão soviética (1979-1989) — cansaram o povo e esgotaram o país. Hoje, o Afeganistão coleciona evidências próprias de um Estado falhado. Economicamente, depende de uma atividade criminosa — o tráfico de droga. É o pior país para uma criança nascer, denuncia a UNICEF. É o segundo país mais corrupto do mundo, revela a Transparência Internacional. No Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas não vai além do 155º lugar. E é o pior sítio para uma mulher viver — ou não fosse a surrada burqa azul a imagem de marca do país.

O Afeganistão é o pior país para uma criança nascer e o segundo mais corrupto do mundo

Em 1858 — tinham já os britânicos sofrido o primeiro de três desaires históricos no Afeganistão —, Frederick Engels assinava, na “The New American Cyclopaedia” uma descrição detalhada do país. “A posição geográfica do Afeganistão e o carácter peculiar do povo dota o país de uma importância política que dificilmente pode ser sobrestimada nos assuntos da Ásia Central”, lia-se. “Os afegãos são uma raça brava, destemida e independente.” (Etimologicamente, Afeganistão quer dizer “a terra dos pashtunes” e pashtune significa indomável.)

Mais de 150 anos após as constatações de Engels, as configurações geográfica e étnica do país — tido como um “cemitério de impérios” — continuam a ser um quebra-cabeças difícil de decifrar para qualquer invasor.

 Emblema dos militares portugueses em missão no quartel-general da ISAF, em Cabul MARGARIDA MOTA

MILITARES PORTUGUESES NO TEATRO AFEGÃO

Serviram no Afeganistão, alguns mais do que uma vez. Concordam que a experiência foi difícil mas enriquecedora

António Rodrigues: Uma ponte entre culturas

Quando em 2008 o jornalista iraquiano Muntadar al-Zaidi arremessou um sapato contra George W. Bush, muitos ocidentais descobriram que, mais do que uma tentativa de agressão, o gesto constituía um dos piores insultos no mundo muçulmano. Quem quer que já tenha assistido às palestras de sensibilização cultural do sargento-ajudante António Rodrigues há muito que está consciente do cuidado a ter quando se levanta a perna em conversa com um muçulmano: exibir-lhe a sola do sapato é o mesmo que trata-lo como lixo. Este hábito cultural é particularmente sensível no Afeganistão, onde apontar o dedo pode ser visto como um gesto autoritário e olhar uma mulher nos olhos pode ser considerado assédio. “No Afeganistão, a barreira entre o que é Islão e o que é tribal é muito ténue. Vive-se o Islão de uma forma muito séria, mas há aspetos que são culturais, específicos de certas regiões. É um país com muitas assimetrias. Percebe-las, torna-se quase um puzzle.” António Rodrigues esteve seis meses no Afeganistão, em 2006. Fluente em árabe — e com conhecimentos de pashtu e dari, as principais línguas locais —, acumulava anos de estudo e viagens por países árabes e islâmicos quando surgiu a proposta para trabalhar como assessor cultural no quartel-general da NATO em Cabul. No primeiro dia de trabalho, o professor afegão com quem trabalharia em parceria transmitiu-lhe um adágio que haveria de o orientar nos contactos diários com os afegãos: “No primeiro dia em que nos encontramos somos amigos; no segundo dia já somos irmãos.” Por isso, nas reuniões de trabalho, em particular, ele alertava para cuidados a observar: evitar olhar para o relógio, por exemplo. “Os afegãos dizem que os ocidentais têm o relógio, mas que eles têm o tempo. É tudo feito com muita tranquilidade. Chegar-se atrasado a um encontro é normal.” O Ramadão e a grande peregrinação a Meca (hajj) eram épocas sensíveis. No mês do jejum, o militar aconselhava a que se evitasse comer e beber na presença de afegãos. E na época da hajj, desaconselhava o uso de cães nas operações de revista aos peregrinos. “É comum algumas organizações no terreno usarem cães para detetarem droga ou armamento. No Afeganistão, o facto de um cão poder tocar em alguém é um anátema. O afegão acredita que, por essa razão, quando morrer não irá para o céu. E é ostracizado pela família e pela tribo.” No Afeganistão, António Rodrigues sentia-se a “fazer a ponte” entre culturas. Em Portugal, sente um “enorme prazer” em fazer palestras para os militares que vão para os teatros islâmicos onde Portugal está presente — Líbano e Afeganistão. “Sinto que vão para as missões com outra preparação e outra sensibilidade.” E no Afeganistão, em especial, respeitar os costumes locais é “fundamental” para que a NATO seja vista como parceira e não como ocupante.

‘‘O Afeganistão tem muitas assimetrias. Percebê-las é quase um puzzle”

Carlos Barry: A adrenalina do perigo

No Afeganistão, um campo de papoilas tem tanto de bonito quanto de traiçoeiro. A 25 de maio de 2007, o sargento-ajudante Carlos Barry ficou a sabê-lo da pior forma. Integrado numa patrulha apeada, numa zona rural de Kandahar, foi alvo de uma emboscada. Atingido por estilhaços de uma granada lançada pelos insurgentes, foi, dos cerca de 30 militares da coligação emboscados, o único ferido que teve de ser evacuado. Após quatro dias de internamento, optou por retomar a missão. “Sentia-me bem. Não havia necessidade de regressar a Portugal.” O sargento cumpria a sua segunda missão no Afeganistão. A anterior, em 2005, fora passada também ao serviço da Força de Reação Rápida. Regressaria em 2009 e em 2011, para servir na força de proteção às equipas de mentores com que Portugal contribui para a formação das forças de segurança afegãs — presentemente, o principal pilar da estratégia da NATO. “Apesar do perigo, o Afeganistão é um teatro muito aliciante e com características muito próprias. O facto de estarmos em constante alerta puxa por nós e faz-nos crescer enquanto militares. É esse tipo de sentimento que me atrai. É um desafio constante.” A cada regresso, sente que o conflito está diferente. “Está em constante mutação. É uma espécie de jogo do gato e do rato. Os insurgentes criam uma nova forma de ataque, nós combatemo-los, eles alteram a forma de atuar e assim sucessivamente.” Sem sequelas físicas e psicológicas, confessa que o ferimento em Kandahar mudou-o enquanto militar. “As experiências moldam-nos. Uma coisa é sabermos que existe a ameaça, outra é, quando ela realmente se manifesta, agir de acordo com o lema ‘treina como combates, combate como treinas‘.” A emboscada em Kandahar não foi, porém, o seu dia mais difícil no Afeganistão. Esse aconteceu a 18 de novembro de 2005 quando o primeiro-sargento Roma Pereira tornou-se a primeira baixa do contingente português. (A 24 de novembro de 2007, num acidente de viação, viria a falecer também o soldado para-quedista Sérgio Pedrosa.) Roma Pereira estava prestes a terminar o patrulhamento numa zona de Cabul — a patrulha de Carlos Barry ia rendê-lo – quando a viatura foi atingida por um engenho explosivo de fabrico artesanal. Teve morte imediata. “Ele era do meu curso de comandos, era como um irmão para mim. Cada vez que saio para uma missão, faço questão de ir onde ele está enterrado. É um ritual.”

‘‘É um conflito em constante mutação, uma espécie de jogo do gato e rato”

Nuno Lemos Pires: Difícil vencer a saudade

Havia cinco meses que “Quem Quer Ser Bilionário?” conquistara Hollywood. Num avião com destino a Cabul, Nuno Lemos Pires cede à curiosidade e visiona o filme. A caminho do Afeganistão, para fazer o reconhecimento para o contingente nacional que se seguiria, não fica indiferente à pobreza extrema de Bombaim. “Se tivesse visto o filme em Portugal, se calhar, não tinha tido o mesmo efeito. Mas vê-lo a caminho do Afeganistão, fez-me pensar: Estas coisas têm de ser contadas!” E foi assim que, entre outubro de 2009 e abril de 2010, quase todos os dias, findo o trabalho de mentoria, abria um documento Word, relatava o dia a dia e o contexto social em redor. Escolhia algumas fotos e enviava tudo num e-mail — inicialmente para 20 a 30 pessoas, “esmagadoramente, família e amigos de longa data”. Graças ao efeito multiplicador dos reenvios, os leitores foram aumentando. De regresso a Portugal, as cartas haveriam de ser publicadas em livro — “Cartas de Cabul” (Tribuna, 2010). Em todas elas, uma dedicatória apaixonada aos três filhos e à mulher. “A missão custa mais à família. No Afeganistão, enfrentamos o perigo, mas quem fica tem a responsabilidade de gerir a família, passa por aqueles momentos em que tem de transportar um filho ao hospital, tratar das papeladas no banco… E, geralmente, nunca transmite a quem está na missão os problemas que se passam. É curioso, nós fazemos o mesmo do lado de lá.” Na véspera de operações de risco, Lemos Pires poupava a família a pormenores. Escrevia, mas não partilhava. Apesar da guerra, a maior dificuldade foi lidar com a saudade. “Não sentir o contacto físico da família, dos amigos é o mais difícil da missão.” As novas tecnologias ajudaram. “Bendito Skype! Era um ritual, perto da meia-noite. O meu filho tinha um ano e várias vezes foi atrás do computador ver se o pai lá estava.” Este tenente-coronel diz não esquecer aquele afegão que, num campo de refugiados, tentou vender duas filhas para comprar comida. Por isso, a missão portuguesa no país não deve ser posta em causa. “Portugal deve estar onde pode fazer a diferença. Não temos de fazer mais do que os americanos, nem menos do que os luxemburgueses. É à nossa dimensão e dentro das nossas possibilidades. Somos um aliado leal. É uma questão de princípio humanitário universal.”

‘‘ Não sentir o contacto físico da família, dos amigos é o mais difícil da missão”

António Martins: Militar mas desarmado

Aos seis meses de missão, António Martins não ganhou para o susto. Na madrugada de 28 de outubro de 2009, começou a ouvir disparos perto de casa, no centro de Cabul. Ficou com a sensação de que, não longe dali, decorria um ataque, e que se aproximavam perigosamente. Sem viatura nem arma, pensou num plano de fuga: “Só me restava fugir pelos quintais fora, o que seria um grande risco”. Os disparos terminaram e acabou por não o fazer. Mais tarde, soube o que acontecera: a 500 metros dali, três suicidas entraram na Backtar House, a maior guest house da ONU em Cabul, que albergava mais de 20 funcionários, e tinham morto cinco. “Foi o primeiro grande ataque às Nações Unidas no Afeganistão.” O tenente-coronel António Martins desempenhava funções de assessoria militar na missão da ONU no Afeganistão (UNAMA). “Fazia relatórios sobre o progresso da campanha militar para depois a organização avaliar se podia avançar com os seus projetos de apoio às populações.” Envergava uniforme militar, mas, como trabalhava para uma organização civil, andava desarmado. “Foi pedido a Nova Iorque que fosse revisto o nosso estatuto de forma a darem-nos, pelo menos, uma pistola para defesa pessoal, mas nada foi conseguido. Andávamos muito vulneráveis.” A situação tornou-se crítica a partir do momento em que a ONU, à semelhança do que acontecera no Iraque, por exemplo — a 19 de agosto de 2003, um ataque suicida matou Sérgio Vieira de Mello, chefe da missão da ONU em Bagdade, e 21 membros do seu staff — tornou-se um alvo da insurgência, por estar a colaborar na organização de eleições. “Houve momentos em que senti falta da arma.” O militar partilhava a casa com mais quatro funcionários da UNAMA. “Tínhamos três guardas afegãos à porta, armados com apenas duas metralhadoras, mal preparados e pouco motivados para a função.” Em Cabul, a organização tinha cerca de 70 guest houses semelhantes. “Eram posições frágeis e vulneráveis. O maior risco era sermos raptados, para pedirem resgates. As Nações Unidas eram um alvo fácil e mediático.”

Octávio Vieira: A educação como arma

Octávio Vieira é um bom exemplo de como, no Afeganistão, a componente militar é apenas uma das frentes para se vencer o conflito. Em janeiro de 2006, procurou Fernando Nobre para lhe apresentar um projeto de construção de uma escola na região de Jalalabad, junto à fronteira com o Paquistão. Uns meses antes, em Cabul, a ideia fora-lhe apresentada pela dona dos terrenos. Financiada pela AMI, a escola cresceu, e hoje, com cerca de 500 alunos — a maioria meninas —, é um modelo para o ministério da Educação local. “A educação é a grande arma para se vencer o desafio da paz. A falta de conhecimento foi uma característica do regime talibã. Só com acesso à educação é que as futuras gerações poderão ser críticas e melhorar a situação do país.” Este projeto educativo estaria na base da relação afetiva que este tenente-coronel desenvolveria com o Afeganistão, onde regressaria para mais três missões. “Em nenhuma outra criei tantos contactos e amizades tão genuínas.” Antes já servira no Kosovo, Timor-Leste e Iraque. “É a motivação das missões. Quando estava no Colégio Militar sempre tive essa vontade. É também o gosto de trabalhar em ambientes internacionais, de conhecer pessoas e de sentir que se faz parte da História. De poder dizer: Eu estive lá!” No dia em que Osama bin Laden foi morto, Octávio Vieira — que trabalha na área das Informações, no quartel-general da NATO em Cabul — soube da operação antes de ser noticiada. “Ligaram-me cedo a dizer que o tinham apanhado. Ainda não estava a trabalhar. Depois, assistimos em direto ao anúncio do Presidente Obama.” Seguiram-se as manifestações de rejúbilo dos colegas americanos. “Não me manifestei. A morte de alguém, nem que seja meu inimigo, não é motivo para eu festejar.” Diz já ter estado várias vezes sob fogo. Porém, prefere recordar os dias felizes que tem vivido em solo afegão. O último aniversário, por exemplo. “As prendas, ainda que simbólicas, têm mais importância. Somos todos família.” O próximo Natal será em Cabul. “Terá um sabor diferente, mais sentido, junto dos portugueses que ficarem. Ali sente-se o verdadeiro espírito de Natal.”

Carla Pinto: E Sayed sorriu…

A primeira tenente da Marinha recorda a luta para salvar um menino hemofílico

No dia em que parti para o Afeganistão, a 4 de novembro de 2009, travei uma “batalha de emoções”. Desempenhar funções num hospital internacional, como médica naval especialista em Medicina Interna, dirigindo uma força de 14 profissionais de saúde que representavam Portugal, era uma enorme responsabilidade profissional e militar. Mas tinha esperança de que a recompensa de poder ser útil num país em conflito me ajudasse a vencer o medo e a gerir a incerteza nos desafios que ia encontrar. Determinada, deixei um “até logo” confiante aos meus familiares e amigos, tristes por me verem partir não para uma missão humanitária mas… para a guerra! Face às características culturais da sociedade afegã, e sendo a nossa equipa de enfermaria maioritariamente feminina, esperava resistência à observação médica por parte dos homens e o oposto por parte das mulheres. Mas isso não se verificou, primeiro porque os homens logo constatavam que não tinham alternativa a serem vistos por uma equipa do sexo feminino; em segundo, porque as mulheres raramente tinham acesso aos cuidados de saúde. Por vezes, as afegãs vinham ao hospital acompanhadas por homens da família. Debaixo da burca, só começaram a ser revistadas no acesso ao hospital, tal como acontece com os homens, dois meses após a nossa chegada porque, só então, foi possível destacar mulheres militares para o efeito. No internamento, as mulheres não usavam burca. Resguardavam-se atrás de biombos e lenços e eram observadas, sempre que possível, por médicas. Os internamentos eram forçosamente curtos por pressão dos homens da família. Até as crianças do sexo feminino chegavam a ter de abandonar o internamento contra parecer médico. Mas houve exceções. Guardo na memória o agradecimento profundo de um militar afegão por ter tratado a sua esposa, grávida, vítima de uma explosão de gás, que apresentava queimaduras nas mãos e na face, tratada apenas na enfermaria por falta de vaga nos cuidados intensivos. O marido nunca pressionou a alta porque tinha noção do seu sofrimento. Uma das histórias que mais me marcou foi a de Sayed Fardien, um menino hemofílico de cinco anos. O remédio de que necessitava — fator VIII, constituinte do sangue que impede a hemorragia — estava esgotado no Afeganistão. Consciente de que o fator VIII era de uso exclusivo hospitalar e tinha um preço elevado, sabia que aquela criança, sem o medicamento, estava condenada à morte. Adquiri-lo era vital e teria de ser vitalício. Apresentado o caso clínico no hospital, foi enviado um pedido à Federação Mundial de Hemofilia e aos laboratórios internacionais que tinham programas de apoio a países necessitados. A resposta tardava e a probabilidade daquela criança chegar ao hospital com uma hemorragia grave incontrolável aumentava de dia para dia. Mas não podíamos desistir. Contactei a Direção-Geral de Saúde, em Portugal, que orientou o pedido para o Alto Comissariado da Saúde. Para poder executar contactos diretos, foi solicitada autorização ao chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas portuguesas. O despacho não podia ser mais encorajador: autorizadíssimo! Observei o menino a 19 de dezembro e quase não necessitava de análise laboratorial para confirmar a doença. A criança apresentava sinais externos de coagulopatia (problema de coagulação) com uma infeção respiratória associada. Ficou internado com prognóstico reservado, mas, depois de iniciar o antibiótico, melhorou e teve alta. Garantido o transporte do fator VIII pela Força Aérea Portuguesa, a 17 de fevereiro, recebi o fator de coagulação que poderia salvar aquele menino. Eu terminava a missão em meados de março e, para garantir a continuidade dos tratamentos, solicitei apoio aos médicos portugueses que me foram render e aos médicos franceses que continuariam em missão. O seguimento e acompanhamento no hospital ficaram garantidos sem restrições. Em conjunto, “um por todos e todos por um”, vencemos este desafio. Missão cumprida!

Artigo publicado na Revista Única do Expresso, a 10 de setembro de 2011