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Um Jardim de luxo

Omã aposta forte no turismo. Distanciados entre si por cinco minutos de carro, dois hotéis de luxo disputam hóspedes milionários. A reportagem em Omã

Hotel Shangri-La MARGARIDA MOTA

Não tem a excentricidade do Burj Al Arab, o hotel de sete estrelas em forma de vela que se tornou a imagem de marca do Dubai. Mas é por muitos aceite como o melhor hotel do Médio Oriente. Chama-se Al Bustan (O Jardim, em língua árabe) e situa-se em Omã. Protegido por uma parede árida de montanhas a toda a volta e de frente para as águas azuladas do Golfo de Omã, o Al Bustan assemelha-se a um oásis estendido ao longo de 200 hectares.

Um amplo hall com um pé direito de 38 metros, assente em mármores brilhantes e adornado com lustros e uma fonte de cristal, rouba a respiração a quem entra. O luxo estende-se aos quartos, equipados com os mais variados serviços tecnológicos, varandas viradas para o mar e, os mais sofisticados, com jacuzi e saída directa para uma piscina exterior. Os turistas espalham-se pelas espreguiçadeiras colocadas em relvados refrescados por palmeiras, pelos vários restaurantes internacionais ou banham-se na Piscina Infinita, construída de forma a criar a ilusão de que entra pelo Golfo adentro.

Piscina do Hotel Al Bustan MARGARIDA MOTA

Não longe do Al Bustan, o complexo Shangri-La, disputa-lhe a clientela. No interior, multiplicam-se cenários dignos das Mil e Uma Noites: pormenores arquitectónicos arabescos, tapeçarias coloridas, pátios interiores com fluxos de água e o cheiro a incenso. Há porta, um Bentley garante o transporte de clientes entre o hotel e o aeroporto de Mascate. “Eu já vivi aqui doze dias”, diz o marroquino Youness, o funcionário do hotel que guia a visita. “É política do hotel, de tempos a tempos, colocar funcionários seus a viver cá. Ao colocarmo-nos no papel de hóspedes, poderemos antecipar as suas necessidades.”

Dividido em três hotéis — o Al Bandar, um cinco estrelas destinado a homens de negócios, o Al Waha, um cinco estrelas para famílias, e o Al Husn, um seis estrelas —, o Shangri-La tem na Jabreen Royal Suite o seu maior luxo. Cada noite dormida neste quarto de 500 metros quadrados custa uns módicos 3.400.000 de reais omanitas (aproximadamente 7000 euros…) Youness comete uma inconfidência: “Há tempos, uma koweitiana ocupou-a durante dois meses…”

Artigo publicado no Expresso Online, a 26 de abril de 2009. Pode ser consultado aqui

Vai uma “shisha”?

Os malefícios para a saúde e a fúria anti-tabágica de alguns governos podem pôr em causa um dos maiores prazeres do povo árabe. Reportagem em Omã

Dois amigos à conversa, e a fumar “shisha”, numa esplanada de Mascate MARGARIDA MOTA

Em muitos locais do mundo árabe, não se convida um amigo para tomar um café, mas antes… para fumar uma “shisha”. A acreditar, porém, num dos jornais mais lidos na Península Arábica, o “Gulf News”, esse prazer poderá tornar-se cada vez mais raro. Nos últimos anos, vários estudos médicos sobre os malefícios da “shisha” também conhecida por “narguila” apontam para um aumento de vários tipos de cancro e de ataques cardíacos entre os seus consumidores.

O “Expresso” surpreendeu dois jovens omanitas, numa esplanada de Shatti al-Qurum, nos arredores de Mascate. “Sabemos que faz mal à saúde. Mas isto é como o tabaco: as pessoas sabem que faz mal mas não deixam de fumar”, diz um deles, fazendo uma pausa entre duas passas. “Acima de tudo, é muito relaxante”, reage o outro. Os omanitas não são dos maiores consumidores de “shisha”, mas nos fins-de-tarde de Primavera, com a temperatura a teimar não baixar dos trinta e muitos graus, a “shisha” torna-se inseparável de longas tertúlias ao ar livre.

Das montanhas aos desertos, dos cafés aos areais das praias, a “shisha” faz parte do estilo de vida árabe. Na Síria, chega a integrar o enxoval das noivas. Porém, a cruzada contra o fumo do Presidente Bashar Al-Assad começa a criar dificuldades entre os seus apreciadores. No mês passado, foi aprovada uma lei que proíbe o consumo de “shisha” nos dormitórios da Universidade de Damasco. Qualquer estudante apanhado a fumar sofrerá uma repreensão do reitor e terá de pagar uma multa. Estando em causa os hábitos de jovens, há quem refira que se os impedirem de fumar “shisha”, outros vícios se seguirão…

Artigo publicado no Expresso Online, a 25 de abril de 2009. Pode ser consultado aqui

Rivais dentro da mesma fé

Seis igrejas cristãs disputam o espaço à volta da tumba de Jesus, no Santo Sepulcro. Como não se entendem, dois clãs muçulmanos guardam o templo

Todos os dias, pelas quatro horas da madrugada, Wajeeh Nuseibeh cumpre o mesmo ritual: atravessa a Cidade Velha de Jerusalém na direcção do bairro cristão e abre a pesada porta de madeira da Igreja do Santo Sepulcro — o mausoléu mais venerado pelos cristãos, que no próximo domingo celebram a ressurreição de Cristo. Ao pôr-do-sol, cumpre a tarefa inversa: após dar três pancadas num batente de ferro, a espaços de meia hora, fecha à chave o templo que encerra o local da crucificação e o túmulo de Jesus.

Seria uma tarefa igual a tantas outras não fosse Wajeeh Nuseibeh… um muçulmano. Há mais de 800 anos que os Nuseibeh são os guardiães do Santo Sepulcro e aqueles que deitam “água na fervura” quando as seis igrejas cristãs que disputam as capelas, os túneis e as grutas no seu interior — católicos, gregos ortodoxos, arménios ortodoxos, coptas, sírios ortodoxos e egípcios ortodoxos — se envolvem em conflitos.

Entrada do Santo Sepulcro, no bairro cristão da Cidade Velha de Jerusalém MARGARIDA MOTA

Desde 1852 que os direitos de propriedade no interior do Santo Sepulcro, que abriga as últimas cinco estações da Via Dolorosa e é visitada por peregrinos desde o século IV, estão regulados por um statu quo estabelecido pelo sultão otomano Abdul Majid. Os gregos ortodoxos, os católicos romanos e os arménios dividem responsabilidades nos sítios mais importantes do Santo Sepulcro — o Calvário, o sítio onde Cristo foi crucificado, e o Edículo, a construção em madeira que envolve o túmulo —, cabendo aos gregos a parte de leão.

Mas, por vezes, surgem tensões relativas ao direito de limpar determinada superfície ou de rezar numa qualquer área. No passado mês de Novembro, monges gregos e arménios chegaram a vias de facto quando os gregos tentaram colocar um dos seus padres à entrada do Edículo durante uma procissão dos arménios. A rixa foi sangrenta, obrigando a polícia israelita a entrar no Santo Sepulcro para apartar as hostes.

“Como todos os irmãos, eles têm problemas. Nós ajudamo-los a resolver as disputas. Somos neutrais. Somos as Nações Unidas. Ajudamos a preservar a paz neste lugar sagrado”, disse Nuseibeh, de 55 anos, ao diário norte-americano “San Francisco Chronicle”.

No interior da basílica do Santo Sepulcro, esta edícula, uma construção em madeira, envolve o túmulo de Jesus Cristo MARGARIDA MOTA

Uma vez por ano, as três maiores igrejas cristãs — gregos ortodoxos, católicos romanos e arménios — renovam publicamente o seu pedido aos Nuseibeh para serem os “zeladores e porteiros” do Santo Sepulcro. Mas a guarda do templo não se esgota neles. Uma outra família muçulmana — os Judeh — é responsável por guardar a chave da porta do templo durante a noite.

À semelhança das igrejas cristãs no interior do Santo Sepulcro, também os dois clãs muçulmanos não evitam a rivalidade na hora de esclarecer qual dos dois tem o papel mais importante. Os Judeh têm a chave e acham que os rivais não são ninguém sem ela; os Nuseibeh abrem a porta e consideram que os outros não passam de assistentes ao seu trabalho.

A guarda muçulmana do Santo Sepulcro é tão antiga quanto a conquista islâmica de Jerusalém, no século VII. Na época, os Nuseibeh foram encarregados de proteger os lugares cristãos da Cidade Santa. Em 1099, a família foi expulsa pelos Cruzados, recuperando o estatuto 88 anos depois, quando o lendário Saladino reconquistou Jerusalém para o Islão. Desde então, os dois clãs garantem a paz dentro do Santo Sepulcro.

DOZE MOMENTOS NA VIDA DE JESUS CRISTO

1 ANÚNCIO
“Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus”. No local onde, segundo o Evangelho de S. Lucas, o arcanjo Gabriel anunciou a maternidade a Maria, ergue-se hoje uma moderna igreja católica — a Basílica da Anunciação, concluída em 1969. Este projecto do arquitecto italiano Giovanni Muzio concretizou-se sobre as ruínas de cinco igrejas que existiram no local entre 356 e 1955. O templo situa-se na cidade israelita de Nazaré, nas colinas da região da Galileia, onde se estima que Jesus tenha passado os seus primeiros anos de vida. Nazaré tem 65 mil habitantes, a maioria dos quais são cidadãos israelitas de cultura árabe — um quinto da população de Israel é árabe. Para a comunidade católica local (cerca de 7000 pessoas), a Basílica da Anunciação é a sua igreja matriz.

2 NASCIMENTO
Imperava o romano César Augusto na região quando foi publicado um édito obrigando cada pessoa a recensear-se na sua cidade de origem. José da Galileia pôs-se ao caminho até Belém, a cidade de David, de onde era natural a sua família, com Maria, a esposa grávida. Segundo Marcos, “ao estarem eles ali, completaram-se os dias de ela dar à luz; e deu à luz o seu filho primogénito, e envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles no alojamento”. A gruta onde Jesus terá nascido está situada no subterrâneo da Basílica da Natividade, na cidade palestiniana de Belém (Cisjordânia), uma igreja com origem no ano de 332. Desde 1852, a custódia do templo é partilhada por católicos (que celebram o Natal na noite de 24 de Dezembro) e ortodoxos gregos e arménios (que o vivem, respectivamente, a 6 e 18 de Janeiro). Na gruta, uma estrela de prata incrustada no chão de mármore assinala o local do nascimento. Sobre a estrela, 15 lâmpadas estão permanentemente acesas: seis são ateadas pelos gregos, cinco pelos arménios e quatro pelos católicos.

3 FUGA PARA O EGIPTO
Num sonho, um anjo alerta José para a sentença de morte emitida por Herodes contra os primogénitos. “Levanta-te, toma o menino e a sua mãe, e foge para o Egipto, e fica lá até que eu te diga; porque Herodes procurará o menino para o matar”, relata S. Mateus. Crê-se que um dos locais onde a Sagrada Família pernoitou foi Gaza, onde outrora morrera o mítico Sansão. Do Egipto, os três só regressariam a Nazaré após a morte de Herodes.

4 BAPTISMO
Aos 27 anos Jesus foi baptizado por João Baptista, em “Betânia, do outro lado do Jordão”. Pensa-se que o ritual aconteceu no actual território jordano, onde escavações iniciadas em 1996 revelaram mais de 20 igrejas, grutas e tanques romanos e bizantinos. Na margem israelita do Jordão, Yardenit — onde se realizam baptismos colectivos — disputa a autenticidade do local.

5 JEJUM NO DESERTO
Após o baptismo, Jesus retirou-se para o deserto para jejuar e rezar durante “40 dias e 40 noites” — tendo sido, por três vezes, tentado por Satanás. A tradição diz que o episódio aconteceu no Monte Quarntal, a noroeste da cidade palestiniana de Jericó. Em 1895, os gregos-ortodoxos construíram o Mosteiro da Tentação, envolvendo o local onde, acreditam, Jesus esteve sentado durante o jejum.

6 PRIMEIRO MILAGRE
Nos mapas, surge como Kafr Kanna, mas esta cidade árabe do Norte de Israel é mais conhecida pelo nome com que é referida na Bíblia — “Canã da Galileia”. Foi aqui que, julga-se, Jesus fez o seu primeiro milagre, durante um casamento, onde comparecera acompanhado pela mãe e por discípulos. Ao ver que o vinho acabara, Jesus ordenou aos criados que enchessem “jarras com água”. Quando o líquido foi servido aos convidados, nos copos caiu vinho. Em 1883, em Kafr Kanna, foi consagrada a Igreja do Milagre, construída pelos franciscanos. No seu interior, estão expostas jarras supostamente usadas no banquete bíblico. E nas bancas de recordações da cidade, não faltam, à venda, garrafas de “vinho do casamento”.

7 MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES E DOS PEIXES
A Bíblia diz apenas que aconteceu num “lugar isolado”, mas é em Tabgha, junto ao Mar da Galileia, que mais se celebra o milagre da multiplicação. Certo dia, quando Jesus seguia de barco, com os discípulos, foi seguido por uma multidão que o queria escutar. Sem comida suficiente, Jesus pegou nos cinco pães e dois peixes que iam no barco e reproduziu-os em abundância. A pedra onde a refeição terá sido servida jaz, hoje, debaixo do altar da Igreja da Multiplicação, reconstruída em 1982, em Tabgha, como uma réplica da igreja original. Junto à pedra, um mosaico datado do século V mostra dois peixes e um cesto de pães.

8 ENTRADA EM JERUSALÉM
Montado num burro e acolhido por uma multidão que agitava folhas de palmeira, Jesus entra triunfalmente em Jerusalém para cumprir a derradeira fase da sua vida. O Domingo de Ramos mais não é do que a celebração desse dia. Crê-se que Jesus entrou pela Porta Dourada, a única das oito portas da Cidade Velha de Jerusalém que, actualmente, está encerrada. Segundo a tradição judaica, é por essa porta que o Messias entrará na Cidade Santa. Para o impedir, em 1541, o Sultão Suleiman I mandou selá-la. Paralelamente, os muçulmanos começaram a enterrar os seus mortos do lado de fora do portão convencidos de que o Antigo Testamento proíbe o Messias de contactar com mortos. Com um cemitério à entrada da Porta Dourada, a profecia não se cumprirá, pensam.

9 ÚLTIMA CEIA
Os evangelhos dão poucas pistas, mas pensa-se que o momento celebrizado pela pintura de Leonardo Da Vinci tenha ocorrido no Monte Sião. A tradição cristã aponta o Cenáculo como o local onde Jesus partilhou a sua última refeição com os 12 apóstolos. Estima-se, porém, que essa sala tenha sido construída no período das Cruzadas, o que contraria essa autenticidade.

10 VIA DOLOROSA
Para muitos cristãos em visita à Cidade Velha de Jerusalém, a expressão máxima da sua fé é percorrer a Via Dolorosa — o caminho que Jesus fez desde a condenação de Pilatos até à crucificação. Composta por 14 estações, espalhadas ao longo de 500 metros, a Via Sacra inicia-se no bairro muçulmano, estando a primeira estação localizada no interior de uma madrassa (escola islâmica). Por isso, muitos peregrinos optam por começar na segunda estação, junto ao Mosteiro da Flagelação, de onde todas as sextas-feiras, às 15 horas (quando morreu Jesus), os franciscanos encabeçam uma procissão. Porém, durante a caminhada, a meditação chega a ser impossível. A Via Dolorosa atravessa o bairro árabe e algumas estações estão paredes-meias com lojas e bancas ambulantes do suq Khan al-Zeit. O percurso acaba dentro do Santo Sepulcro.

12 ASCENSÃO
No alto do Monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, ergue-se a Capela da Ascensão, venerada por muçulmanos e cristãos. No interior deste pequeno templo, convivem um mihrab, que aponta a direcção de Meca, e uma pegada numa pedra, que a tradição identifica como aquela deixada por Jesus no momento em que subiu aos céus. Assim termina o evangelho de S. Lucas: “Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu. E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus”.

Artigo publicado no Expresso, a 10 de abril de 2009

Rania é “fixe”

A Rainha Rania da Jordânia e o ex-Presidente Jorge Sampaio foram galardoados com o Prémio Norte-Sul. Hoje, o Parlamento português foi o palco desse reconhecimento

Rainha Rania, durante a cerimónia de atribuição do Prémio Norte-Sul, no Palácio de São Bento, a 17 de março de 2009 SITE DA RAINHA RANIA

Quando a Rainha Rania se dirigiu para o púlpito da sala do Senado da Assembleia da República, para agradecer o Prémio Norte-Sul que acabara de receber, um discreto funcionário do protocolo jordano entregou-lhe uma pasta com o discurso a proferir. Na verdade, aquelas folhas de papel mais não eram do que uma precaução, pois, à frente da monarca jordana, duas aparentes placas de vidro funcionavam como teleponto, orientando-a no discurso (pontuado por várias referências à História de Portugal) e dando-lhe dicas quanto à postura (sobre para onde olhar e qual o momento certo para sorrir).

Para grande parte dos presentes no hemiciclo — lotado de políticos, diplomatas e personalidades tão distintas quanto o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, ou o Presidente do Comité Olímpico Português, Comandante Vicente de Moura —, Rania terá passado a imagem de uma mulher com uma capacidade de improviso brilhante. Mas os que se aperceberam do teleponto não terão ficado desiludidos: a monarca jordana é, definitivamente, uma mulher voltada para as novas tecnologias.

No ano passado, Rania lançou um canal no YouTube, onde presentemente uma música cantada por uma jovem portuguesa (Mia Rose) e um jovem árabe (Hanna Gargour) — “Waiting on the World to Change” (À espera que o Mundo mude) — é dos vídeos mais visitados. Rania serviu-se desse exemplo para explicar o que a move: “O meu objectivo foi tentar desconstruir os estereótipos negativos acerca da minha região, que minam a confiança entre nós. Os blogues e os ‘vlogs’ chegaram, para agrado do meu filho adolescente que, por momentos, pensou que a mãe era ‘fixe’!”, explicou ela, durante o discurso.

“Hoje, através da Internet, alcançamos o maior número de jovens na história. Em 2007, a utilização da Internet no Médio Oriente e em África cresceu mais do que em qualquer outra parte no mundo. Quero usar a Internet como alavanca para unir as pessoas, para sanar o fosso que separa o mundo muçulmano do Ocidente, para aumentar o diálogo digital, porque, hoje, uma viagem de 1000 quilómetros pode começar com um pequeno clique.”

Em Lisboa, Rania foi premiada pela sua dedicação às causas das crianças e das mulheres de meios mais desfavorecidos, através de instituições que fundou (Jordan River Foundation e Dar al-Aman). Em Lisboa, a soberana partilhou este reconhecimento público — e o Prémio Norte-Sul – com Jorge Sampaio, actual Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações — que promove o diálogo entre culturas. “Um autor português (Miguel Torga), habituado a olhar para além do horizonte, escreveu que ‘o Universal é o local sem os muros’. Sigamos a sua lição e, na linha dos louváveis objectivos do Centro Norte-Sul, procuremos derrubar os numerosos muros que prejudicam os nossos deveres de solidariedade e tolhem possíveis caminhos de concórdia”, afirmou Sampaio.

Desde 1995 que o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, sediado em Lisboa, atribui este galardão a duas personalidades que se destacam na cena internacional pela sua dedicação e desempenho em matéria de protecção de Direitos Humanos.

Os anteriores galardoados foram:

1995

– Vera Duarte e Peter Gabriel

1996

– Danielle Mitterrand e Mulheres da Argélia

1997

– Mary Robinson e Patricio Aylwin

1998

– Graça Machel e Lloyd Axworthy

1999

– Emma Bonino e Abderrahman Youssoufi

2000

– Marguerite Barankitse e Mário Soares

2001

– Maria da Nazaré Gadelha Ferreira Fernandes e Cornelio Sommaruga

2002

– Albina du Boisrouvray e Xanana Gusmão

2003

– Frene Ginwala e António de Almeida Santos

2004

– Nawal Al Sadawi e Embaixador Stéphane Hessel

2005

– Bogaletch Gebre e Bob Geldof

2006

– Mukhtaran Bibi e Padre Francisco Van Der Hoff

2007

– Simone Veil e Kofi Annan


Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de março de 2009. Pode ser consultado aqui

Frente-a-frente com os ‘bulldozers’

Jeff Halper luta contra a demolição de casas. Quiseram dar-lhe o Prémio Nobel da Paz

Pintura de Maria Imaginário, nome artístico da ilustradora portuguesa Edna Costa, num troço do muro da Cisjordânia junto ao campo de refugiados de Aida, em Belém EDNA COSTA

Sempre que se recolhe para uma noite de descanso, Jeff Halper não sabe a que horas será o despertar. “Às vezes, o telefone toca às cinco da manhã. Os palestinianos sabem que nós existimos e quando vêem os bulldozers aproximarem-se das suas casas, telefonam-nos. Vamos até lá, pomo-nos à frente das máquinas ou acorrentamo-nos dentro das casas. Empatamos tempo e impedimos que aqueles bulldozers se dirijam para outras casas. Enquanto isso, chamamos jornalistas e diplomatas e transformamos a situação num espectáculo público. Como Israel quer destruir as casas sem que ninguém veja, os bulldozers retiram-se”.

É um israelita que assim fala. Jeff Halper nasceu há 63 anos nos Estados Unidos, mas nos anos 1970, em busca da sua identidade judaica, instalou-se em Israel. Em 1997, fundou o Comité Israelita Contra a Demolição de Casas (ICAHD) — um grupo apolítico, não-violento, que luta contra a ocupação israelita dos territórios palestinianos — e com esse activismo foi proposto para Prémio Nobel da Paz, em 2006.

Recentemente, usufruiu de uns dias de descanso em Lisboa e conversou com o “Expresso” sobre o que considera ser “a essência do conflito” no Médio Oriente: a destruição de casas palestinianas pelas forças israelitas. E porquê? “Um povo diz para o outro: ‘Não têm o direito de estar aqui! Este não é o vosso país! Saiam!”, justifica o antropólogo.

Sem luz, há 60 anos

Segundo o ICAHD, desde 1967 Israel já demoliu mais de 24 mil casas nos territórios palestinianos. O problema é, todavia, bem mais antigo. “Em 1948, nem todos os palestinianos deixaram Israel”, conta Jeff. “Alguns desceram o vale ou foram para o monte ao lado para se esconderem. Fugiram para se proteger dos combates (Guerra da Independência, após a criação de Israel). Mas quando a guerra acabou, Israel não permitiu que regressassem às suas casas. Hoje, continuam a viver encurralados nos sítios onde, há 60 anos, encontraram refúgio”.

Cerca de 150 mil palestinianos e beduínos vivem, hoje, nestas “aldeias não reconhecidas”, sem direito a água, electricidade, ruas ou escolas. Sobre cada casa recai uma ordem demolição, por ilegalidade. É quando os “bulldozers” israelitas se aproximam que muitos palestinianos lançam o alerta a Jeff Halper.

Com um staff reduzido de cinco pessoas (dois pagos pelos Governos espanhol e austríaco), cerca de dez activistas permanentes e muitos voluntários, o ICAHD já recuperou mais de 160 casas. “Sempre que reconstruímos uma casa, reafirmamos: Esta terra pertence a dois povos e temos de viver juntos aqui!”, diz.

Jeff admite que, nas acções de resistência em que participa, o facto de ser israelita e judeu é, para ele, uma vantagem. “Sou preso a toda a hora e, às vezes, eles intimidam-me, mas não me magoam. Se fosse palestiniano, disparavam. Estou completamente protegido”. Mas nem sempre a cidadania israelita é, por si só, um porto-seguro. Um quinto da população de Israel é israelita-árabe. Segundo Jeff, “em 2009, Israel está a demolir casas de cidadãos israelitas que são árabes. Entre 20 e 40 mil casas estão identificadas para serem demolidas”.

Por outro lado, continua, “Israel não dá autorizações de construção a israelitas árabes. Eles possuem terras, mas não podem construir”. Jeff diz tratar-se de uma medida de “judaização de Israel”. E defende que a demolição de casas, nos territórios ocupados e em Israel, empurra os árabes para enclaves. “Isto é apartheid!”, acusa.

Boicote à Caterpillar

Até não há muito tempo, Israel também utilizava a demolição de casas como táctica de guerra. Se suspeitava que um palestiniano estivesse envolvido em actividades terroristas, destruía a casa da sua família — “punição colectiva”. Mas desde há quatro anos que o Exército deixou de o fazer. A estratégia era contraproducente: em vez de travar os militantes, as demolições dispersavam o ódio a Israel.

Porém, o boicote internacional à Caterpillar — a fabricante dos “bulldozers” blindados utilizados nas demolições — mantém-se. E só a Igreja de Inglaterra retirou da empresa investimentos no valor de 64 milhões de libras (quase 70 milhões de euros).

Jeff faz pelos palestinianos o que lhes é vedado. Ainda assim, não deixa de se surpreender pelos meandros palestinianos… A 23 de Agosto de 2008, o israelita foi um dos passageiros do primeiro barco “Free Gaza” (Libertem Gaza) a furar o bloqueio à Faixa de Gaza. Em terra, o Governo do Hamas, que governa o território, apressou-se a conceder a cidadania palestiniana aos tripulantes do barco. Em contactos posteriores com altos representantes da Fatah — a facção rival, que governa a Cisjordânia —, disseram-lhe que, por ter sido dada pelo Hamas, a sua cidadania palestiniana… não era oficial. “Mas eu recebi a cidadania do Governo eleito!”, reclama.

Pintura de Edna Costa, em 2013, cinco anos após a sua execução MARGARIDA MOTA

ACTIVISTAS LUSAS

No último Acampamento de Verão do ICAHD, à boleia da ONG espanhola Paz Ahora, duas portuguesas viveram, durante 15 dias, em Anata, perto de Jerusalém. “Foi uma experiência muito feliz, pois a ajuda do Governo espanhol possibilitou a construção de duas casas”, diz a mestranda em Antropologia Daniela Nunes, de 26 anos. “O Governo português devia ser mais activo quanto a esta questão”, refere a ilustradora Edna Costa, de 23 anos, autora de uma pintura num troço do muro junto ao campo de refugiados de Aida, em Belém. “Sabia o que se passava na Palestina, mas nada me preparou para tanta desigualdade e injustiça”, diz Andreia. Ainda assim, Daniela não hesita: “Voltar? Não pensava duas vezes. Partia ainda hoje!”

Artigo publicado no Expresso, a 14 de março de 2009