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A tempestade perfeita

O quadro de 100 mil mortos não aflige a ditadura, que taxa a ajuda internacional e vende casas a refugiados

Imagem de satélite do ciclone ‘Nargis’, a 1 de maio de 2008 NASA / WIKIMEDIA COMMONS

Oito meses após a Revolução de Açafrão, os monges budistas birmaneses voltaram a sair dos mosteiros — desta vez não para contestar o regime militar, mas antes para limpar as árvores das ruas e distribuir comida pelos sobreviventes da tragédia provocada pelo ciclone ‘Nargis’. “Onde estão os militares quando mais precisamos deles?”, interrogava-se uma dona de casa birmanesa. “Demoraram um dia para se abaterem sobre os monges mas quatro dias após o ciclone ainda ninguém os viu”, disse.

A coberto do anonimato, muitos birmaneses testemunham a forma negligente como a Junta Militar tem respondido à maior catástrofe de sempre no país. “Somos sobreviventes. Mas se quisermos um telhado novo temos de pagar às autoridades”, disse uma habitante de Rangum. “Até nos sentimos com sorte, porque depois vemos pessoas próximas das autoridades comprar esses materiais e venderem-nos a preços inflacionados”.

Em entrevista ao Expresso, um porta-voz do governo birmanês no exílio denunciou: “Os militares estão a exigir um imposto de 10% sobre a ajuda que entra na Birmânia”, acusou Bo Hla Tint. “Não posso confirmar essa informação, mas não me surpreenderia”, revelou ao Expresso Fernando Nobre, presidente da Assistência Médica Internacional (AMI). “Já houve países que cobraram a aterragem de aviões humanitários, após eles próprios terem lançado apelos de ajuda. Aconteceu-me no Zaire, em 1994, e em países de língua portuguesa também”. Contactados, Programa Alimentar Mundial (PAM) e Médicos Sem Fronteiras negaram ter pago qualquer taxa para entrar no país.

A caminho dos 100 mil mortos

Oficialmente, morreram 22 mil pessoas e 41mil estão desaparecidas; estimativas independentes admitem que os mortos poderão superar os 100 mil. Aye Kyu, um deputado da região de Laputta — onde, segundo o Comité Internacional da Cruz Vermelha, 92% das casas foram destruídas — descreveu ao Expresso o caos gerado pelo ‘Nargis’: “Não havia casas com telhados intactos e algumas tinham colapsado. Havia cobras na água das inundações e ondas gigantescas tão altas quanto as casas. As pessoas tinham de subir aos postes quando as ondas vinham e eram levadas pelas águas quando ficavam sem força para trepar a postes ou árvores. Muitas aldeias desapareceram totalmente. Alguns cadáveres flutuavam”.

Nos primeiros dias, a assistência às vítimas foi lenta. “Há obstáculos naturais que dificultam o acesso a muitos locais seriamente afectados. Os barcos que costumamos usar na região do delta foram destruídos”, relatou ao Expresso Marcus Pryor, porta-voz do PAM. “Também temos dificuldades para obter vistos. Temos pessoal em Banguecoque (Tailândia), à espera de entrar. É muito frustrante”. Ontem, o Governo birmanês fechou as portas à ajuda internacional, alegando que o país não está preparado para a receber.

As organizações humanitárias fazem fila para entrar. Uma equipa da AMI parte este fim-de-semana para a Tailândia para lutar por vistos junto da embaixada birmanesa. “A obtenção de vistos pode demorar de três dias a três semanas”, diz Fernando Nobre.

“As autoridades de Myanmar estão mais interessadas no apoio (sobretudo financeiro) de países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), nomeadamente da China, que não levantarão muitas questões, ao contrário das instituições humanitárias da sociedade civil que são vistas como potenciais críticos da situação local”, continua o presidente da AMI.

Uma semana após rajadas de vento superiores a 200km/h terem transformado regiões do delta do rio Irrawaddy em zonas de guerra, a preocupação prende-se agora com a prevenção de doenças. “A Birmânia tem uma situação endémica de febre tifóide e padece de dengue e de malária”, diz Fernando Nobre. “Dentro de uma semana muitos desaparecidos serão considerados mortos. O problema é cuidar dos vivos. As doenças hídricas poderão vitimar muita gente”.

Serviço especial da agência de notícias birmanesa Mizzima

ALDEIA DE BAMBU

Milagre ou boa arquitectura?
Enquanto o ciclone ‘Nargis’ passava, na sua máxima força, sobre Hlaing Tha Yar, uma aldeia no sudoeste da Birmânia, os habitantes rezavam para que as suas leves cabanas de bambu não fossem pelos ares. Passada a tempestade, a maioria das construções permanecia firme e intacta. Apenas um em cada dez telhados — feitos de folhas — foram arrancados. Mas “ninguém morreu. Tivemos muita sorte”, desabafou um estudante de 18 anos. Em Hlaing Tha Yar moram cerca de 10 mil pessoas.

CRISE ALIMENTAR

Ciclone devasta zona de arrozais
O coração da produção de arroz da Birmânia, em tempos o primeiro produtor mundial, foi severamente afectado pelo ‘Nargis’. Segundo a ONU, os cinco estados mais atingidos lavram 65% da produção total. Até agora, a Birmânia era auto-suficiente em matéria de arroz, o que lhe permitiu controlar o preço do cereal que, recentemente, triplicou no mercado externo. Os 30 milhões de toneladas que produz são quase na totalidade para consumo interno. O ciclone trouxe o receio de escassez.

EXECUÇÕES DEPOIS DO CICLONE

Governada por militares desde 1962, a Birmânia está isolada do mundo. As sequelas do ciclone ‘Nargis’ confirmaram-no

Às primeiras horas do caos que se seguiu à passagem do ciclone ‘Nargis’, a famosa prisão de Insein — que alberga os prisioneiros políticos e é considerada o local mais sinistro da Birmânia — foi palco de uma chacina: 36 prisioneiros foram executados durante um motim espoletado por um incêndio.

Tido como um dos regimes mais paranóicos e repressivos à face da Terra, o Governo liderado, desde 1992, pelo general Than Shwe mostrou, assim, não abdicar da sua política securitária mesmo quando o país está envolto na maior das tragédias. “Este regime militar é estúpido. Só se preocupa em perpetuar-se no poder. É xenófobo e não quer que a comunidade internacional veja esta tragédia”, denunciou, em entrevista ao Expresso, Bo Hla Tint, porta-voz do Governo birmanês no exílio, sediado nos Estados Unidos.

Desde 1962, a Birmânia — uma antiga colónia britânica independente desde 1948 e baptizada de Myanmar em 1989 — tem sido governada, ininterruptamente, pelos militares. Em 2005, o regime deixou Rangum e mudou-se de armas e bagagens para uma nova capital. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a manutenção desse complexo ministerial custa 2% do PIB do país.

Instalado em Naypyidaw, o regime distanciou-se ainda mais do povo e tornou-se mais autista, impedindo jornalistas estrangeiros de entrarem no país e mantendo um controlo apertado sobre as redes de Internet e de telemóvel.

Assim que a catástrofe provocada pelo ciclone ‘Nargis’ se tornou evidente, o Governo emitiu um comunicado dizendo que o referendo constitucional previsto para hoje iria manter-se, sendo apenas adiado, para o próximo dia 24, nos 47 municípios mais afectados. Ao preocupar-se mais com a agenda política do que com as consequências do ciclone, o regime revelou incapacidade e umgrande desfasamento em relação à realidade.

Membro da Liga Nacional para a Democracia — o partido liderado pela Prémio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que se encontra em prisão domiciliária —, Bo Hla Tint foi um dos líderes das históricas manifestações pró-democracia de 1988 — brutalmente reprimidas pelas autoridades. Questionado sobre se não sente que a Birmânia é um país esquecido pela comunidade internacional, ele responde: “O problema da Birmânia não é o desconhecimento internacional em relação à magnitude da questão ou à intransigência e opressão do regime militar. O problema-chave prende-se com interesses estratégicos. Ninguém quer embaraçar a Índia e a China”.

Artigo publicado no Expresso Online, a 4 de agosto de 2018

Jogos políticos

Em 112 anos de história, nunca os Jogos se realizaram à margem da política. Sobreviveram a dois conflitos mundiais, a décadas de boicotes colectivos, a manifestações anti-racistas e a actos terroristas

PIXY

A escassos dias do início dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, Diogo Freitas do Amaral, então presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, socorreu-se de uma tradição da Antiga Grécia para apelar às tréguas olímpicas” (“ekecheria”). “Todos os conflitos paravam durante o período de tréguas, que começava sete dias antes da abertura dos Jogos e terminava no sétimo dia a seguir ao encerramento, de modo a que os atletas, artistas, as suas famílias e os peregrinos pudessem viajar em segurança para as Olimpíadas e depois regressar aos seus países”, afirmou durante uma intervenção em Nova Iorque.

Realizada exactamente 100 anos após o nascimento da Era Moderna da competição em Atenas, esta quarta edição dos Jogos em solo norte-americano haveria de ficar marcada pelo terrorismo. Medidas de segurança antes nunca vistas nos recintos dos Jogos não obstaram a que uma bomba explodisse no Parque Olímpico do Centenário, durante um concerto rock, e provocasse dois mortos e 111 feridos. Vinte e quatro anos depois, o “fantasma de Munique” tomava de assalto a cidade da Coca-Cola.

Ao longo do século XX, duas guerras mundiais obrigaram ao cancelamento dos Jogos, em 1916, 1940 e 1944. Mas a existência de quezílias políticas no palco da competição é quase tão antiga quanto o evento em si. Numa das primeiras edições, em Londres-1908, o verniz estalou quando a delegação norte-americana se apercebeu de que, entre as bandeiras que decoravam o estádio olímpico para a cerimónia de abertura, não figurava a “Stars and Stripes”.

Eis senão quando, durante a parada dos atletas, o desportista encarregue de transportar a bandeira norte-americana se recusou a baixá-la diante da tribuna do Rei Eduardo VIII. “Esta bandeira não se inclinará nunca diante de um Rei à face da Terra”, afirmou então o discóbolo Martin Sheridan.

Com o tempo, as tomadas de posição política ganhariam uma expressão mais colectiva, levada ao extremo durante a Guerra Fria, altura em que os Jogos se transformaram num confronto ideológico entre dois blocos e as prestações dos atletas eram encaradas como manifestações de superioridade de um modelo de vida sobre o outro.

Um dos episódios mais tensos durante a Guerra Fria foi em Munique-1972, quando a URSS venceu os EUA por um ponto, na final de “basket”

Helsínquia-1952 marcou a entrada da União Soviética no convívio olímpico, ainda que à maneira soviética… Por não quererem partilhar a aldeia olímpica com os “atletas capitalistas”, os soviéticos ficaram numa residência estudantil. Nestes Jogos, os soviéticos revelaram-se concorrentes à altura dos norte-americanos, pois somente no último dia de competições os EUA garantiram a liderança no quadro final de medalhas. Em boa verdade, o domínio norte-americano não aguentaria mais uma edição dos Jogos: em Melbourne-1956, a URSS destronaria os EUA, conquistando 98 medalhas, contra 74.

Desde então, não mais esta rivalidade bipolar se ausentou dos Jogos, com um dos episódios mais tensos a acontecer em Munique-1972, durante a final de basquetebol. Desde que a modalidade fora introduzida no programa olímpico que os EUA não tinham rival: em oito Olimpíadas, não tinham perdido um único jogo. Em Munique, com um cesto marcado em cima do apito final, a URSS venceu por 51-50. Os EUA não compareceram na cerimónia de entrega de medalhas.

A década de 80 haveria de ditar um pingue-pongue político — sob a forma de boicotes —, entre as duas superpotências e respectivas áreas de influência: os EUA faltaram a Moscovo, a URSS não compareceu em Los Angeles. A Guerra Fria apropriava-se, assim, de uma dinâmica de boicotes colectivos que tinha começado em Montreal-1976. Então, 23 países, sobretudo africanos, retiraram-se em protesto contra a participação da Nova Zelândia. Uma equipa de rugby neo-zelandesa efectuara uma digressão à África do Sul, a pátria do “apartheid”.

A acalmia só chegaria com Seul-1988, quando, pela primeira vez desde Montreal, não se registou qualquer boicote organizado, mas apenas de um pequeno grupo de países, entre os quais Cuba, Coreia do Norte e, pela quarta vez consecutiva — um recorde olímpico —, a Albânia. EUA e URSS voltaram a competir lado a lado e, no medalheiro final, como que contrariando o que estava na iminência de acontecer — a queda do Muro de Berlim e a desintegração da URSS —, os soviéticos assumiram-se como o maior colosso desportivo do mundo: ganharam 132 medalhas, contra 102 da antiga República Democrática Alemã e 94 dos EUA.

Depois da bonança de Seul, Barcelona-1992 acolheu uma espécie de Jogos da concórdia, com a integração de Cuba e da Coreia do Norte, 12 anos após a última participação, e também da África do Sul, afastada havia 32 anos. Não há um único boicote: 169 países participaram sem exibir incompatibilidades que colocassem os Jogos em causa.

Chegados a Pequim, paira no ar a ameaça de um boicote motivado pela questão do Tibete. Na contagem decrescente para os XXIX Jogos, o espírito olímpico sofreu já um revés histórico quando, à passagem por Londres, a tocha foi apagada por manifestantes pró-Tibete. Trata-se de vicissitudes próprias de um evento que, apesar do lema “O importante não é vencer, mas participar”, é mais político do que parece: nos Jogos participam mais países do que os que têm assento na ONU e entidades como a Formosa ou a Palestina competem em iguais circunstâncias com os demais.

BERLIM-1936
O negro que humilhou o Führer
Em nome da superioridade da raça ariana e da demonstração ao mundo da Alemanha enquanto potência em ascensão, Adolf Hitler ordenara o investimento de milhões em infra-estruturas de qualidade e a limpeza de todo e qualquer vestígio de propaganda anti-judaica das ruas, para que os Jogos de Berlim fossem verdadeiramente inesquecíveis. Mas um velocista negro norte-americano deu-lhe um golpe no sonho. Ao conquistar quatro medalhas de ouro (100 m, 200 m, salto em comprimento e estafeta 4×100 m), Jesse Owens — que um ano antes tinha batido cinco recordes mundiais num único dia — deitou por terra a teoria nazi da superioridade ariana. Vergado à humilhação. o Führer abandonou a tribuna e delegou a tarefa da condecoração do atleta. Já o público alemão ovacionou Jesse Owens estrondosamente.

MELBOURNE-1956
Confrontos subaquáticos
Pela primeira vez realizados no hemisfério Sul, os Jogos australianos sofreram o desgaste de dois conflitos acabados de deflagrar: por um lado, a ocupação britânica e francesa do Canal do Suez, que originou uma debandada árabe dos Jogos. Por outro, a invasão soviética da Hungria, que ocasionou um episódio memorável, em dia de semifinais de pólo aquático, uma delas disputada entre a URSS e a Hungria. Dentro da água, e sem que das bancadas fosse perceptível, os atletas iam trocando cotoveladas, pontapés e joelhadas. A dada altura, tudo fica claro quando o atleta húngaro Ervin Zador sai da piscina sangrando abundantemente do rosto. Tradicionalmente superior, a Hungria venceu a partida, sem surpresa, por 4-0. Mas cerca de 40% da delegação húngara recusou regressar ao seu país, ocupado, e desertou.

CIDADE DO MÉXICO-1968
Protestos anti-racistas no pódio
Organizados num contexto de grande agitação política, os Jogos motivaram manifestações de protesto em virtude dos seus elevados custos. Na Praça dos Três Poderes, os estudantes protestavam contra a marginalização da cidade universitária, por falta de verbas. A repressão policial fez-se sentir e provocou 80 mortos — no que ficaria conhecido como a Matança de Tlatelolco. Mas a imagem que, nesses Jogos, entraria para a história seria captada durante a cerimónia de consagração dos 200 metros masculinos: os velocistas negros Tommie Smith e John Carlos sobem descalços para o pódio e, assim que soa o hino dos Estados Unidos, baixam a cabeça e levantam o punho calçado com uma luva negra — a saudação “Black Power (Poder Negro), em protesto contra a segregação racial. Foram, de seguida, expulsos da equipa.

MUNIQUE-1972
Chacina no dormitório israelita
Os alemães eram os grandes interessados em apagar as más impressões deixadas por Berlim-1936, mas não conseguiram impedir o maior ataque terrorista da história dos Jogos. Às 4h30 de 5 de Setembro, um comando da organização Setembro Negro composto por oito palestinianos infiltrou-se na aldeia olímpica e surpreendeu os atletas israelitas de luta greco-romana. A operação de resgate dos reféns, no aeroporto militar de Furstenfeldbruck, acabou num banho de sangue, com 11 israelitas, cinco palestinianos e dois alemães mortos. Só então os Jogos, que decorriam paralelamente às negociações, foram suspensos, para a realização de uma cerimónia fúnebre, no estádio olímpico, participada por 80 mil pessoas. Com sete medalhas de ouro na natação, a estrela dos Jogos viria a ser um judeu norte-americano, Mark Spitz.

MOSCOVO-1980
Boicote à primeira edição socialista
Em protesto contra a invasão soviética do Afeganistão, em 1979, um grupo de países ocidentais, liderado pelos Estados Unidos, boicota os primeiros Jogos organizados por um país socialista. O Presidente Jimmy Carter queria arrastar com os EUA a maioria do bloco Ocidental, mas viu os seus planos furados: se países como a Alemanha, o Canadá e o Japão faltaram à chamada em Moscovo — mais de 60 países aderiram ao boicote —, já aliados como o Reino Unido e a França marcaram presença no Estádio Lenine. O Governo português alinhou com os EUA, mas o Comité Olímpico luso decidiu participar, com 11 portugueses em seis modalidades. Num gesto de resposta ao boicote, na cerimónia de encerramento os soviéticos içaram ao lado da sua bandeira não a dos EUA (organizador dos Jogos seguintes) mas a de Los Angeles.

LOS ANGELES-1984
Lucros soberbos na edição capitalista
A retaliação do Bloco de Leste ao boicote promovido pelos EUA em Moscovo era mais do que esperada. Alegando não ter garantias de segurança para os seus atletas e denunciando uma comercialização descarada do espírito olímpico — estes Jogos foram os primeiros totalmente financiados pelos privados e a gerar lucros substanciais —, a URSS de Leonid Brejnev pagou na mesma moeda a atitude norte-americana e não compareceu. Mas a dimensão do boicote socialista não foi comparável ao que tinha acontecido quatro anos antes: em Moscovo onde tinham estado 81 países, em Los Angeles estiveram 140. Membro fundador do Pacto de Varsóvia, a Roménia deslocou-se aos EUA e foi o segundo país mais medalhado (53). Outro regresso foi o da China, que não competia há décadas por causa da participação da Formosa.

Artigo publicado na revista Única do Expresso, a 10 de maio de 2008. Pode ser consultado aqui

“Perdoa-me, Salman Rushdie”

As críticas ao Islão continuam a ditar sentenças de morte. Ayaan Hirsi Ali está ameaçada desde que renegou a religião em que foi educada

Dezanove anos após o escritor Salman Rushdie se ter tornado o rosto universal dos perseguidos pelo radicalismo islâmico, casos subsistem em que a liberdade de expressão continua a ditar sentenças de morte. Dois escritores sauditas ousaram desafiar algumas interpretações do Corão e têm a cabeça a prémio. Em artigos publicados no jornal ‘Al-Riyadh’, Yousef al-Khail e Abdullah Al-Otaibi defenderam, designadamente, que cristãos e judeus não devem ser considerados infiéis pelos muçulmanos.

Há cerca de um mês, o clérigo radical Abdurrahman Al-Baraak emitiu uma “fatwa” apelando à morte dos autores dos “artigos heréticos”, colocando as suas vidas à mercê de um qualquer fanático — uma realidade bem familiar a Ayaan Hirsi Ali, a argumentista do filme ‘Submissão’, do realizador holandês Theo van Gogh.

Quatro anos após a exibição do filme, “estão a ser questionados alguns versículos do Corão que dizem que as mulheres desobedientes devem ser castigadas, que devem andar veladas, que o homem pode dispor da sua mulher sempre e quando lhe apetecer e que a mulher e o homem que cometerem adultério devem ser vergastados 100 vezes”, afirmou Ayaan Hirsi Ali, em entrevista ao Expresso. “Estes são os versos que eu seleccionei e que foram escritos no corpo da mulher (que surge no filme). Agora pergunta-se: é nisto que os muçulmanos acreditam? É desta forma que querem praticar a sua religião?”.

O realizador seria assassinado às mãos de um jovem holandês de origem marroquina que lhe cravou no peito uma carta dirigida a Ayaan — ela seria a próxima. “A morte de Theo van Gogh levanta uma questão: criticar o Islão conduz à morte daqueles que o criticam”, acusa.

Aos 38 anos, esta somali naturalizada holandesa — que foi deputada entre 2003 e 2006 — encontrou nos Estados Unidos a tranquilidade que lhe fugiu na Europa. “Pago a um segurança para me proteger, mas nos EUA sinto-me anónima. É um país enorme. Na Holanda, a minha vida tornou-se impossível, todos conheciam a minha cara e, por causa do nível de intensidade da ameaça, ninguém queria viver perto de mim…”, recorda.

O efeito 11 de Setembro

As ameaças contra Ayaan começaram ainda antes de ‘Submissão’. Em 2002, ela afirmou que “o Islão era mau para as mulheres” e renegou publicamente aquela que fora a sua religião desde o berço. Ainda hoje, recorda com clareza o dia em que o “ayatollah” Khomeini lançou uma “fatwa” — ainda em vigor — condenando à morte o autor de ‘Os Versículos Satânicos’, o indo-britânico Salman Rushdie: “Tinha 19 anos, vivia em Nairobi (Quénia) e usava voluntariamente o véu. Quando ouvi a notícia, encolhi os ombros e pensei: ‘É natural, ele fez por merecê-las. Nunca devia ter insultado o Profeta’. Hoje, peço-lhe desculpa”.

O 11 de Setembro de 2001 levou-a a reflectir como nunca antes… “Olhei-me ao espelho e pensei: a quem queres enganar? O problema não é as pessoas, mas a fé em si. As pessoas actuam em nome da fé”, recorda. “Fomos ensinados não só a ser bons muçulmanos, mas a não criticar o Islão”.

E haverá alguma religião à face da terra que aceite a crítica? “Há uma diferença entre o Islão e religiões como o cristianismo, judaísmo, budismo e hinduísmo: hoje, no Ocidente, apenas o Islão responde com violência”, acusa Ayaan Hirsi Ali.

Transformada numa feroz porta-voz dos direitos das muçulmanas, tem em preparação um novo livro sobre o tema, determinada em não paralisar perante a “fatwa” capital que a persegue. Ayaan diz nunca ter sofrido qualquer ataque físico, mas nem todos os críticos do Islão podem dizer o mesmo. Em 1992, o escritor egípcio Farag Foda foi assassinado por dois activistas do grupo Al-Gamaa al-Islamiyya, inflamados pelas suas sátiras antifundamentalistas.

Desde o caso Rushdie (1989) que as “fatwas” são vistas no Ocidente como sinónimo de condenação à morte — erradamente. Em 2005, a estrela feminina do ténis indiano, Sania Mirza, foi advertida por uma “fatwa” para que deixasse de jogar com saias curtas e ‘tops’ insinuantes. No ano passado, o astronauta malaio Sheikh Muszaphar Shukor pediu orientações ao Conselho Nacional da Fatwa do seu país sobre como cumprir os preceitos islâmicos no espaço.

O QUE É UMA “FATWA?

É um termo técnico usado na lei islâmica para indicar um decreto interpretativo ou orientativo. Exemplo curioso aconteceu em 1990 quando um “mufti” de Jerusalém emitiu uma “fatwa” confirmando que a cristã Hanan Ashrawi era a pessoa “certa” para ser porta-voz dos palestinianos na Conferência de Madrid. Uma outra surpreendente data de 2005 quando, na véspera do primeiro aniversário dos atentados de 11 de Março, em Madrid, a Comissão Islâmica de Espanha condenou “os actos terroristas de Osama Bin Laden e da sua organização Al-Qaeda” e apelou à denúncia do seu paradeiro. Recentemente, pronunciando-se sobre bebidas energéticas, um clérigo egípcio lançou a polémica ao defender que o Islão permite um nível de 0,5% de álcool. Original é a iniciativa do “mufti” Ebrahim Desai que, a partir de uma “madrassa” sul-africana, esclarece, num “site”, as dúvidas que lhe chegam por “e-mail”: “Como posso conhecer uma rapariga para casar?” “O Islão permite o uso de unhas postiças?”

A MULHER NO CORÃO

“E elas têm direitos sobre eles, como eles os têm sobre elas, condignamente; mas os maridos conservam um grau (de primazia) sobre elas” (2:228)

“E se receais que não podereis tratar com justiça os órfãos casai com as mulheres que vos parecerem boas para vós; — duas, três ou quatro. E se receais que não podereis proceder com equidade com todas casai, então, com uma somente…” (4:3)

‘‘Ó Profeta! Dize às tuas esposas e às tuas filhas e às mulheres dos crentes que se envolvam e fechem nos seus mantos (quando saírem). Isto será melhor para que possam ser reconhecidas e para que não sejam perturbadas” (33:59)

“O adúltero e a adúltera: castigai-os com severidade e cada um dos dois com um cento de varadas. E não deixeis que a piedade, por eles, vos impeça de obedecer a Alá, se credes em Alá e no Último Dia. E deixai que um grupo de crentes testemunhe o castigo” (24:2)

(Imagem: “Tolerar a intolerância é cobardia”, lê-se na citação atribuída a Ayaan Hirsi Ali)

Artigo publicado no Expresso, a 3 de maio de 2008

“A ETA não está madura para tomar a decisão mais importante da sua vida…”

Em 2001, a organização terrorista basca tentou calar Gorka Landaburu. Em entrevista ao Expresso, o director da revista ‘Cambio 16’, de 56 anos, recorda esse dia e explica os contornos do conflito no País Basco. Reportagem no País Basco

Notícia do atentado da ETA contra Gorka Landaburu, na edição digital do jornal “El Mundo”, de 16 de maio de 2001

Quais são hoje as principais sensibilidades na sociedade basca em relação à sua questão nacional?

Em Espanha, há três regiões (ou três nações) que têm um sector importante da sua população que reivindica desde o direito à autodeterminação, à independência, ou a modelos federais ou confederais Catalunha, País Basco e Galiza. Na transição democrática que se seguiu à morte de Franco, chegou-se a um acordo de ordem política no qual estas três regiões iam ter estatutos diferenciados com direitos importantes. Das três, quem obteve mais foi o País Basco, por uma razão muito simples: desde sempre, e ainda anteriormente a Franco, teve um estatuto com mais poderes do que a maior parte das regiões da Europa. Temos um governo, um Parlamento, uma polícia, canais de televisão próprios, etc. Mas a pedra angular, que não têm nem catalães nem galegos, é o “Concierto Económico”.

O que é?

No País Basco, o governo autónomo recolhe os impostos, distribui-os pelos bascos e dá só uma parte a Madrid “El Cupo”. Na Catalunha e na Galiza, é Madrid quem recolhe os impostos. Este privilégio permite aos bascos fazerem a gestão dos seus próprios recursos. Por isso, este ‘país’ evoluiu incrivelmente nos últimos 25 anos. Aqui, o nacionalismo (falemos de nacionalismo democrático) é uma força importante e o Partido Nacionalista Basco (PNV) um partido de tendência democrata-cristã com mais de 100 anos governa desde há 25 anos, ainda que em coligação.

E o que pretende o nacionalismo?

O nacionalismo democrático pretende governar. Mas dizem que são independentistas e que algum dia os bascos terão de definir o que querem separar-se de Espanha, o direito à autodeterminação, um modelo confederal ou federal. Esta é a questão pendente e o principal argumento dos nacionalistas moderados do PNV. Mas paralelamente, temos um sector radical que defende a independência e que representa em votos entre 10 e 12% a chamada “izquerda abertzale”. Esse sector radical está tutelado por uma organização violenta e terrorista que se chama ETA (“Euskadi Ta Askatasuna” Pátria Basca e Liberdade, em basco), que existe desde há mais de 40 anos, que exerce a violência e a pressão e que, com isso, distorce o panorama político. Amanhã, poderia o País Basco ser independente? Não sabemos, porque há uma divisão muito clara. Se pusermos todo o nacionalismo no mesmo saco (o radical, o democrático e outras tendências), ele representará cerca de 55% dos votos; os que votam em partidos estatistas (como o PSOE ou o PP) representam 40 a 45%. Poderíamos, em algum momento, decidir? Sim, porque em democracia podemos fazer o que queremos. Há verdadeira democracia no País Basco? Não, porque há chantagem e uma coacção importante por parte de um grupo terrorista. E no campo nacionalista, poderiam os radicais e moderados porem-se de acordo? É muito complicado também. Tudo é possível em democracia, mas ir por um caminho que nos conduza à independência com violência e terrorismo e que, ainda por cima, pode dividir a sociedade basca não é o mais oportuno. Há que buscar consensos políticos amplos entre todas as forças políticas e chegar a um acordo como se chegou há 25 anos com o estatuto de autonomia que teve o apoio da grande maioria dos bascos, salvo dos radicais.

Eleitorado radical está a diminuir

Em quem votam os 10 a 12% de eleitorado radical?

A justiça mobilizou-se contra o partido que apoia a ETA. Comprovou-se que o Batasuna é, de certa maneira, o cordão umbilical com a ETA. Todo o Batasuna? Não, mas há muitas provas que relacionam directamente dirigentes do Batasuna com o aparato militar da ETA. Por isso, a justiça interveio e ilegalizou-o. (Eu não sou partidário das ilegalizações, nem tão pouco do encerramento de jornais não resolvem o problema de fundo.) É certo que há 10% de pessoas que apoia e vota Batasuna, mas isso não quer dizer que defendam a ETA. Agora, como este sector não se pode apresentar às eleições (a cúpula dirigente do Batasuna está presa), pediu o voto na abstenção.

Com que objectivo?

Há sempre uns 20 a 25% de pessoas que se abstêm. Assim sendo, é provável que no País Basco haja mais abstenção do que no resto de Espanha, porque a acrescentar a esses 20-25% haverá os tais 10-12% de votos no Batasuna. Eu creio que eles optaram pela abstenção para diluir os seus votos, porque o seu eleitorado fixo tem vindo a diminuir.

Quando os bascos votam, o que é prioritário para eles: a agenda nacionalista dos partidos para a região ou as propostas económicas e sociais?

Tudo se mistura um pouco, mas julgo que para os nacionalistas moderados, o objectivo é ter uma representação no Parlamento de Madrid e com seis, sete deputados ter um grupo parlamentar e defender em Madrid os problemas do País Basco, no âmbito económico, social etc. Se o Batasuna se pudesse apresentar poderia ter em Madrid um ou dois deputados, mas ultimamente, antes de ser ilegalizado, já não iam a Madrid porque diziam que Madrid já não lhes interessava.

Há quem vote em partidos nacionalistas para as autonómicas e nos partidos espanholistas para as legislativas?

Há casos desses. Aliás, para mim, é mais que provável que seja o Partido Socialista a ganhar estas eleições no País Basco. O Partido Nacionalista Basco, que tem sido hegemónico nos últimos 25 anos, tem vindo a baixar, eleições atrás de eleições. As pessoas estão cansadas, estão fartas e querem soluções, querem que sejam resolvidos os seus problemas de trabalho, da casa, etc. Mas aqui, para além da luta política, temos um problema que se chama ETA. E a ETA intervém e distorce a vida política.

Populares com digestão indegesta

Quais são as diferenças entre o PSOE (socialistas) e o PP (populares) em matéria de luta anti-terrorista?

Não creio que haja diferenças de princípio. A única diferença é que o Partido Socialista leva muitos anos a lutar contra a ETA, ainda o PP não existia. Depois, houve um pacto entre a direita e os socialistas (o Pacto Anti-terrorista) que permitia a ilegalização das formações políticas próximas do mundo violento ou que não condenavam a violência o Batasuna nunca condenou a violência, pelo menos da ETA. Esse Pacto rompeu-se quando José Luis Rodríguez Zapatero ganhou as eleições. Os populares dizem que a culpa foi de Zapatero e os socialistas dizem que a culpa foi do populares. O que está claro é que o PP, que eu considero ser dos partidos mais conservadores da Europa Ocidental, ainda mais conservador do que a direita polaca, utilizou o terrorismo e a luta anti-terrorista contra o governo actual.

E porquê?

Porque o PP não digeriu a sua derrota eleitoral de há quatro anos, às mãos do atentado de 11 de Março. Eles acham que lhes foi usurpado o poder e governo que era deles. Na luta anti-terrorista, nunca houve fissuras entre o PP e o PSOE. Na época de Filipe González, de José Maria Aznar, todos estavam juntos contra um inimigo comum que se chamava ETA. Desta vez, houve uma divisão e de uma forma mais complicada porque tentou-se um processo de paz e esse processo fracassou. Mas havia que tentá-lo. Eu, como vítima directa do terrorismo, apoiei esse processo, como apoiei o processo de Aznar e o de González. Nesta história, o PP foi muito desleal e foi um travão para que se avançasse até a uma solução definitiva.

Há um processo ideal para esta questão?

É muito complicado… Durante 40 anos, lutamos contra um ditador que se chamava Franco, agora já vamos em 35 anos a lutar contra outro ditador que se chama ETA. Não se pode defender nenhuma ideia com bombas e pistolas, muito menos na Europa Ocidental e menos ainda num país onde há uma democracia. Mais tarde ou mais cedo, os terroristas e o governo terão de se sentar. Todos os anos votamos, para as autonómicas, para as legislativas, para as municipais, etc. Estamos em campanha permanente, as pessoas expressam-se e o que dizem claramente é que a ETA tem de deixar as armas. Paralelamente, dizem que os temas de ordem política têm de ser abordados pelos partidos políticos. Ao romper este processo, a ETA enganou-nos e frustrou a sociedade basca, percorreu um caminho sem retorno, meteu-se ainda mais no buraco negro. E são eles os maiores prejudicados: os líderes do Batasuna estão presos e foram fechadas as portas a 700 pessoas detidas que podiam sair. Eles têm de reflectir, deu-se-lhes uma pista de aterragem e não aceitaram. A ETA não está madura para tomar a decisão mais importante da sua vida: é o único grupo terrorista que existe na Europa Ocidental e isso tem de acabar. Tem medo do futuro, de como se vai reciclar, de como vai deixar para trás 40 anos em que não obteve qualquer benefício político.

Antes de um eventual diálogo entre a ETA e o governo será aconselhável um processo entre a ETA e os moderados bascos?

Isso aconteceu no processo anterior. Aprovaram-se duas opções: uma militar, que previa um diálogo entre a ETA e o governo sobre os seus problemas de intendência, como a questão dos presos por exemplo; e uma outra política, onde todos os partidos conversariam sobre o chamado conflito basco (eu prefiro chamar problema político basco). Quando já se chegava a bom porto, a ETA aceitou uma trégua permanente e começou-se a falar. Mas o processo rompeu-se porque a ETA também quis entrar na política. Nessa altura, os moderados deviam ter batido com os punhos na mesa e dizer à ETA: ‘Nós somos o braço político, temos 10 a 12% dos votos e agora há que fazer política’. Mas é a ETA quem manda nos moderados. No dia em que os moderados mandarem na ETA, então a situação começará a mudar. Pessoalmente, enquanto vítima do terrorismo, agradeço a Zapatero por ter tentado alcançar a paz. É a obrigação de todos os governos.

Um funeral de três em três dias…

A ETA está mais débil do que nunca? (Esta entrevista foi feita antes do mais recente atentado da ETA.)

Não gosto muito de falar de debilidade, porque a ETA já tem 40 anos e teve momentos ‘maus’ e ‘bons’. O que é certo é que a ETA de 2008 não é a mesma de há 10 ou 25 anos. Em 1979, 1980 e 1981, a ETA matava 100 pessoas por ano. Eu, que já era jornalista, assistia a um funeral a cada três dias. A pressão policial, judicial e, sobretudo, a pressão social provocaram a debilidade da organização e do mundo que a apoia. O seu dirigente máximo, Arnaldo Otegui, e a mesa nacional estão presos e aqui não houve praticamente reacções. A sociedade está a perder o medo e quer que a ETA desapareça. Mas essa debilidade não quer dizer que não possa haver atentados, porque colocar um carro-bomba em Sevilha, Barcelona, Valência ou Bilbau não é complicado para uma organização profissional como a ETA. Alguns peritos na luta anti-terrorista dizem que a ETA tem 80 activistas, há jovens que escaparam à “kale borroka” (a luta nas ruas) que estão em França e que amanhã poderão cometer um atentado. O que é claro é que a legislatura que agora termina foi a que registou menos atentados mortais só quatro vítimas (cinco após o atentado de sexta-feira).

Porque foi um alvo da ETA?

Nasci em Paris e vivi 20 anos em França o meu pai era Vice-Presidente do governo basco no exílio. Os meus pais sempre me ensinaram que o mais importante é a liberdade, a liberdade de expressão e a defesa do direito à vida. Eu conheci os primeiros elementos da ETA quando chegaram a Paris, numa altura em que não se assassinava. Mas a partir do momento em que uma organização é capaz de matar empresários, jornalistas, juízes e magistrados, polícias e vereadores municipais, algo está a falhar completamente. E isso, eu sempre denunciei, na ‘Cambio 16’ e na Rádio França, onde eu tinha uma crónica diária em que 70% dos temas estavam relacionados com a violência terrorista. Como não gostavam das minhas mensagens, um dia mandaram-me um pacote-bomba, que continha 150 gramas de dinamite. Abri-o em minha casa, debruçado sobre as costas da cadeira, por mera casualidade. Tive muita sorte porque o maior impacto atingiu a cadeira. Nesse dia, 15 de Maio de 2001, contrariamente ao que era habitual, não abri o correio a seguir ao telejornal, sentado no sofá, na companhia da minha mulher e da minha filha. A minha escolta – eu tinha sido avisado que estava nas listas da ETA, por isso andava de escolta – tinha apalpado o embrulho e perguntado se eu identificava o remetente. A bomba estava perfeitamente camuflada. Destroçaram-me as mãos, perdi a visão no olho esquerdo, mas cometeram um grave erro: não me cortaram a língua. Não saio deste ‘país’. Se Franco expulsou os meus pais para França, estes senhores não me vão expulsar a mim. Não sou nacionalista, mas sou tão basco como eles, senão mais, e vou defender a liberdade, a liberdade de expressão, o direito à vida e a paz. É esse o meu compromisso pessoal.

Artigo publicado no Expresso Online, a 9 de março de 2008. Pode ser consultado aqui

“Não tenho o e-mail da ETA…”

Ideologicamente próximo do sector radical basco, o Gara é um jornal a quem a ETA recorre para fazer passar a sua mensagem. Na redacção do diário, terrorismo é palavra proibida. Reportagem no País Basco

Sempre que a ETA comete um atentado ou quer fazer passar uma mensagem, o diário basco Gara recebe os comunicados em primeira mão. Desde que foi fundado, há nove anos, o Gara tem uma vocação: ser um jornal nacional de um país da Europa que se chama Euskal Herria (País Basco), afirma ao Expresso o seu director Josu Juaristi, de 43 anos.

Ao mesmo tempo que refere que a linha editorial do jornal prevê o direito dos cidadãos bascos a decidirem livremente sobre o seu futuro, através de um diálogo político entre todas as partes, o director queixa-se da qualidade da democracia e do estado de direito em Espanha, que deixam muito a desejar, porque não garantem direitos políticos e civis que para nós são básicos, como o direito à liberdade de expressão.

Josu Juaristi foi jornalista do Egin, o primeiro diário basco encerrado pelas autoridades espanholas mediante acusações de que estava ao serviço da ETA. O jornal deixou dívidas à segurança social que atingem hoje um acumulado de 6 milhões de euros e agora o Estado espanhol quer que seja o Gara a pagar, o que o director considera tratar-se de uma forma de pressão sobre o jornal.

Ironicamente (ou talvez não), se um jornalista do Gara escrever um texto onde se refira à ETA como organização terrorista, o editor intervém e muda para organização armada. O Gara nunca se refere à ETA como organização terrorista. Nem o Gara, nem a BBC, nem muitos outros órgãos de comunicação…, defende Josu Juaristi. Temos de ter cuidado com a linguagem que empregamos, porque senão também temos de falar de terrorismo de Estado, quando o Estado espanhol utiliza a tortura ou quando processa pessoas por se manifestarem… Para o Gara, o 11 de Setembro ou o 11 de Março não são atentados terroristas. Também nunca escrevemos terrorismo islâmico…, acrescenta o director. Eu sei que todas as pessoas que aqui vêm têm essa expectativa, mas… não, eu não tenho o e-mail da ETA.

Editado a partir de San Sebastián, o Gara (www.gara.net), que vende cerca de 45 mil exemplares todos os dias, sai para as bancas com textos em castelhano e em basco. Temos de assegurar que aproximadamente 20% dos textos na edição diária são escritas em euskera (basco), conclui o director.

Artigo publicado no Expresso Online, a 9 de março de 2008. Pode ser consultado aqui

Primeira página da edição de 8 de abril de 2007 do ‘Gara’