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Recados para Zapatero

O candidato socialista foi recebido em ambiente de verdadeira apoteose no Centro de Exposições de Bilbau. Os apoiantes pediram-lhe mais agressividade no próximo embate com Mariano Rajoy. Reportagem no País Basco

José Luis Rodríguez Zapatero discursa no Centro de Exposições de Bilbau, a 27 de fevereiro de 2008 MARGARIDA MOTA

Se o resultado das eleições em Espanha estivesse dependente do aparato à volta dos candidatos, pelo menos em Bilbau Zapatero ganhava a Rajoy de goleada. O candidato socialista passou por esta cidade basca no dia seguinte à visita do líder popular e a diferença foi abismal: Rajoy fez a festa num teatro discreto, sem medidas de segurança aparatosas nem entraves à circulação do público; os socialistas, por seu turno, assentaram arraiais no imponente Centro de Exposições de Bilbau, os jornalistas eram rigorosamente identificados e o público atropelava-se, tal era a afluência.

No uso da palavra, Zapatero pediu aos bascos o voto para poder acabar definitivamente com a ETA. Mas direccionou sobretudo as baterias para Mariano Rajoy, não poupando o candidato popular a cada assunto que ia introduzindo no seu discurso: imigração, violência de género, política social…

A dada altura, Zapatero invoca o debate da passada segunda-feira para confidenciar: Alguns camaradas nossos perguntaram-me: Porque é que não foste mais duro no debate? Os milhares de simpatizantes que o escutavam não o deixaram terminar o raciocínio, gritando: Sim, sim! Os socialistas querem que Zapatero recorra à mesma arma que fez Rajoy sobressair no primeiro duelo. É que se esse cara-a-cara foi o quarto programa mais visto de sempre da televisão espanhola só batido pelo Festival Eurovisão 2002 e por duas finais da Champions envolvendo equipas espanholas , o debate da próxima segunda-feira poderá bater recordes e ser determinante para a eleição do próximo Presidente do Governo de Espanha.

Artigo publicado no Expresso Online, a 28 de fevereiro de 2008. Pode ser consultado aqui

“Com Rajoy e contra a ETA”

Num comício realizado no País Basco, Mariano Rajoy reafirmou a sua recusa em negociar com a ETA. Numa região predominantemente nacionalista, os simpatizantes do PP sentem-se amedrontados pela organização. Reportagem no País Basco

Apelos à abstenção nas ruas de Bilbau, País Basco MARGARIDA MOTA

Vinte e quatro horas após o histórico debate entre os dois principais candidatos à chefia do governo espanhol, Mariano Rajoy deslocou-se ao País Basco para uma acção de campanha, não evitando o tema mais sensível naquele território autonómico. Não negociarei com terroristas nunca, afirmou o líder do Partido Popular (PP) perante cerca de 1500 pessoas que esgotavam, na terça-feira à noite, o Teatro Ayala, em Bilbau.

As palavras de Rajoy soaram que nem música aos ouvidos de Dolores, que seguia o discurso do líder popular no corredor adjacente ao anfiteatro, onde já não cabia nem mais uma agulha. Estou muito emocionada por estar aqui, é tão difícil virmos a estas coisas… No País Basco, é problemático expressarmos as nossas ideias, sinto-o no meu dia-a-dia…, confidenciava ela, enquanto aplaudia as palavras de Rajoy como que se estivesse na primeira fila.

Para esta basca de 45 anos, a ETA continua a ser uma forte ameaça ao quotidiano dos cidadãos e, contrariamente ao que o governo espanhol quer fazer crer, não está mais débil. Muito pelo contrário, a ETA aproveitou-se da trégua para se rearmar, denuncia Dolores.

Politicamente minoritária numa região que é predominantemente nacionalista, Dolores afirma-se basca, espanhola e europeia: Vou votar em Rajoy porque é um homem honesto, ama a Espanha e quer a unidade de Espanha, conclui.

Artigo publicado no Expresso Online, a 27 de fevereiro de 2008. Pode ser consultado aqui

O príncipe do Ténéré que protegeu o Dakar

AMAZIGH WORLD NEWS

Quando a rebelião tuaregue estava ao rubro, Mano Dayak foi um amigo do Paris-Dakar

Aos 29 anos de vida, o Dakar — que teve a sua primeira edição em 1979 — sucumbiu aos perigos do deserto. Mas tempos houve em que passava ileso entre quem fazia do assalto a caravanas um modo de vida. O artífice dessa trégua chamou-se Mano Dayak, um tuaregue nascido em 1949, no actual Níger, que os mais antigos participantes do Dakar nunca esquecerão.

“Acredito que, em 1992, foi ele quem garantiu que não houvesse problemas à passagem do Dakar”, recorda ao Expresso o piloto José Megre, que nesse ano fez esta prova pela última vez. “Estive em casa dele e assisti a reuniões acesas entre chefes tuaregues. Chamávamos-lhe o príncipe do Ténéré”.

No Níger, a rebelião tuaregue estava ao rubro, com aquele povo a exigir autonomia e o reconhecimento da sua vida nómada. Por vezes, à passagem dos automóveis, sucediam episódios burlescos. “Numa expedição organizada por mim, os militares do Níger queriam fazer a escolta para me proteger dos tuaregues. Eu ia acompanhado por tuaregues, que tinha contratado para serem meus guias…”, relembra Megre.

Mano Dayak — que escreveu um livro intitulado ‘Nasci com areia nos olhos’ — conquistara os amantes do todo-o-terreno como guia de um dos desertos mais míticos do mundo, o Ténéré. Fluente em inglês e francês, graças aos seus estudos na Universidade de Indiana (EUA) e na Sorbonne (Paris) — proporcionados por programas de apoio aos tuaregues —, fundou, pouco depois, a agência de viagens Tenet, para levar turistas ao deserto e apoiar expedições. “Era ele quem traçava as pistas do Dakar no Níger para o criador do Dakar, Thierry Sabine”, diz Megre. Em 1992, por causa da rebelião tuaregue, o Dakar atravessou o Níger pela última vez. Mas, para Megre, este facto não transformou o povo numa ameaça à prova. “Muito pelo contrário, eram os tuaregues que balizavam as pistas e espetavam paus nas dunas para nós passarmos”.

Não é por acaso que, ainda hoje, o símbolo do Dakar é a silhueta de um tuaregue com a cabeça e os ombros cobertos pelo tradicional “cheche” (turbante). Quem já se aventurou no Dakar jamais lhes fica indiferente. “São nobres e altivos, têm uma presença fantástica e a arte de viver no deserto”, afirma Megre.

Também o jornalista António Mendes Nunes, que cobriu várias provas no Sara, recorda a destreza com que, de noite, Dayak conduzia com as luzes apagadas, orientando-se apenas pelas estrelas. “Era um tuaregue perfeito quando estava em África e um europeu perfeito quando estava na Europa”, conta ao Expresso. “E um líder nato”, acrescenta. Até 1995, quando morreu num acidente de aviação a caminho de conversações com o Presidente do Níger, Mano Dayak vê a guerrilha transformar-se numa ocupação a tempo inteiro.

“Em 1992, cobria eu o Dakar, assisti ao rapto de uns oficiais do Níger. Foi em casa do Mano, com a minha máquina de escrever, que foi escrito o pedido de resgate. Eu próprio o bati”, recorda Mendes Nunes. “Apercebi-me de que ele era o chefe da guerrilha.”

O jornalista conhecera o tuaregue em 1989 quando, a convite de José Megre, Mano participou na Baja de Portugal ao volante de um UMM português. Mendes Nunes foi o seu co-piloto e recorda: “Um dia, fomos treinar para ele conhecer o carro. Quando íamos tomar o pequeno-almoço, vimos uma professora mulata junto de alunos brancos. Ele pediu uma sandes de presunto e uma cerveja. Depois de comer, disse: ‘Portugal é o melhor dos dois mundos: tem um presunto fantástico e professoras pretas que dão aulas a brancos’”.

OS TUAREGUES EM ÁFRICA

5 países acolhem populações tuaregues: Argélia, Líbia, Mali, Níger e Burkina Faso

1,5 milhões de tuaregues vivem no Níger, 1 milhão no Mali e 500 mil noutros países

Artigo publicado no Expresso, a 12 de janeiro de 2008

O que pensam antigos ministros dos Negócios Estrangeiros portugueses

A propósito do arranque das eleições primárias no Estados Unidos, o Expresso pediu a antigos ministros dos Negócios Estrangeiros portugueses que fizessem um balanço da Administração Bush e projectassem o que poderá vir a ser o próximo governo norte-americano. Quatro acederam: José Medeiros Ferreira (1976-1977), André Gonçalves Pereira (1981-1982), João de Deus Pinheiro (1987-1992) e António Martins da Cruz (2002-2003)

IMAGEM TUMISU / PIXABAY

Quem vencerá as primárias (democratas e republicanas)?

MEDEIROS FERREIRA É cedo para um prognóstico ponderado. Neste momento, admito como mais provável uma vitória de Hillary Clinton entre os democratas. A situação no meio republicano é muito mais confusa. Mas grande parte dos resultados eleitorais dependerá da escolha do candidato republicano.

GONÇALVES PEREIRA Neste momento, é imprevisível. Nunca houve uma eleição tão aberta. Do lado democrata, há uma clara favorita, a sra. Clinton. Mas ela terá maior facilidade em vencer as primárias do que a eleição. Para Barack Obama é o contrário.

DEUS PINHEIRO Julgo que no campo republicano acabará por ganhar Giuliani. Parece ser aquele que acaba por combinar uma certa proximidade com o cidadão com uma certa aura de herói pós-11 de Setembro. Apesar da sua vida pessoal não ser um modelo para alguns dos mais puritanos americanos, é capaz de ser o candidato mais sólido. Entre os democratas, julgo que Hillary Clinton vai conseguir superar Obama, porque Obama é considerado por muitos como um jovem relativamente inexperiente, o que assusta normalmente os americanos. E a senhora Clinton é exactamente o oposto, denota um traquejo e uma experiência política que dá aos norte-americanos uma certa tranquilidade. Acho que, no final, ela é capaz de ganhar a parada.

MARTINS DA CRUZ Dado o complexo calendário das eleições primárias até às convenções, afigura-se difícil uma previsão. Aliás, vendo os resultados das primárias no Iowa desde 1972, nem sempre o candidato vencedor foi eleito Presidente dos Estados Unidos. Mas são indicações de tendência que devem ser devidamente consideradas.

Em caso de vitória democrata, em 2008, quais serão as principais diferenças em relação à Administração Bush?

MEDEIROS FERREIRA As circunstâncias internas e externas ditarão as principais diferenças. Mas nenhum Presidente democrata — também republicano mas sobretudo democrata — poderá iludir a questão da presença militar norte-americana externa e das políticas sociais internas. Caso Hillary Clinton seja eleita, vejo-a relançar os serviços públicos federais nos domínios da educação e da saúde, arrastando atrás de si parte do mundo ocidental, hoje muito orientado para soluções neo-liberais nos domínios sociais.

GONÇALVES PEREIRA Muito menores do que se supõe. Nomeadamente, não é possível uma saída rápida e honrosa quer do Iraque, quer do Afeganistão. Nenhuma nova administração, de qualquer partido, cometerá na esfera internacional os erros fatais cometidos pela presente equipa. A Europa terá uma boa oportunidade de recuperar algum peso internacional, como já começa a fazer. No caso do Afeganistão, o erro não foi a invasão, mas o seu abandono, para se concentrar no Iraque, o que permitiu a recuperação dos talibãs, deixando a guerra entregue a uma NATO que não tem para tanto nem capacidade nem desejo. Escrevi, desde o início, contra a guerra do Iraque, ao contrário de tantos…

DEUS PINHEIRO Seja qual for o governo, mesmo republicano, haverá diferenças substanciais. A começar pela situação internacional, na medida em que se considera que esta administração Bush tratou muito mal a cena internacional e não apenas no que respeita ao Iraque. Veja-se mais recentemente a questão do Irão em que a CIA vem dizer que afinal os iranianos não têm a possibilidade de vir a ter a arma nuclear nem estão a trabalhar para isso no curto prazo. Qualquer administração que venha irá tentar cortar com a ideia de que os que não são nossos amigos têm de ser abatidos e tentar entrar num diálogo muito intenso sobretudo com a Rússia, a Índia e a China — três parceiros incontornáveis na cena internacional. Em relação à Europa, estou convencido que se acelerará o chamado espaço económico atlântico, para haver um comércio livre e total entre a América do Norte e a União Europeia.

MARTINS DA CRUZ Se o candidato democrata vencer as eleições em 2008, antevejo, na tradição daquele partido, uma maior intervenção dos Estados Unidos na política internacional. O novo Presidente fixará, provavelmente, um calendário para a retirada, porventura parcial, das forças norte-americanas do Iraque, sem pôr em causa, ou até reforçando, a presença militar em outros países da região. Uma administração democrata tenderá a olhar com mais atenção para a América Latina, prosseguirá a construção de um Comando Africano e terá um papel activo no Médio-Oriente, justificado até pelo ‘voto judeu’ nos Estados Unidos, que é tradicionalmente democrata. A luta contra o terrorismo continuará prioritária, bem como a defesa dos interesses norte-americanos a nível global, incluindo as relações com a Rússia. Haverá mais diálogo, mas colocar-se-á, uma vez mais, o problema do uso do poder. No plano interno, a actual administração deslocou o debate para soluções conservadoras, e as chamadas questões da sociedade tenderão a ser vistas nesse prisma. As perspectivas de recessão e os cenários económicos negativos condicionarão as propostas sociais. Para Portugal, será indiferente a cor política do novo Presidente. Tratando-se do nosso principal aliado, de quem depende o essencial da nossa defesa e segurança, as relações com Washington não são susceptíveis de variar conforme a orientação política da Casa Branca. Como demonstrou Cavaco Silva nos dez anos em que foi primeiro-ministro.

Como avalia os oito anos de George W. Bush na Casa Branca?

MEDEIROS FERREIRA Muito negativamente, sobretudo pelos resultados. Deixou o seu país envolver-se numa guerra de usura e, manifestamente, não soube sair dela. O muro fronteiriço com o México assinala os limites da sua ideia de globalização e de quase integração do continente americano. Em termos portugueses, a sua administração também não deixa saudades. Utilizou Portugal sem escrúpulos nos Açores e foi ingrato ao vetar uma lei que permitiria programas de ensino da língua portuguesa em estados da costa leste, dando este ensino, aliás, como um exemplo de gastos inúteis. Era uma ‘afronta desnecessária para um aliado tão constante como é Portugal. Também se lamenta que nunca tenha convidado um chefe de Estado português, durante estes oito anos, a visitá-lo em Washington.

GONÇALVES PEREIRA Aspectos positivos haverá decerto mas são esmagados pelos negativos. A aceitação por este Presidente de uma ideologia neo-conservadora, que decerto não compreendeu, marca para a história esta presidência.

DEUS PINHEIRO Foram péssimos. Sinceramente, foram uma grande decepção porque o pai, apesar de tudo, tinha sido um líder com uma certa capacidade de diálogo, que entendia como o mundo funcionava. O filho, quanto a mim, foi uma catástrofe nessa matéria. Mesmo no plano económico, em que normalmente os republicanos costumam ter um bom currículo e uma boa performance, foi um falhanço, o que aliás se vê pelo valor do dólar relativamente ao euro, por exemplo.

MARTINS DA CRUZ Ainda é cedo para fazer o balanço da Administração de George W. Bush. Tendo tomado a decisão de avançar militarmente no Iraque, apoiada no Congresso pela esmagadora maioria dos democratas e por 21 dos 27 países da União Europeia, não soube depois avaliar soluções civis e militares adequadas. Será julgado por isso, apesar de ter sido o Presidente reeleito com a maior maioria de sempre.

Como é que a história o recordará?

MEDEIROS FERREIRA Como um Presidente que fez muito mal aos Estados Unidos.

GONÇALVES PEREIRA Como o maior impulsionador do aumento do fundamentalismo islâmico.

DEUS PINHEIRO Como um parêntesis na história norte-americana.

MARTINS DA CRUZ A história não sei. Os comentadores, sobretudo os europeus, tenderão a julgar Bush de acordo com a sua própria opção política. Incluindo os portugueses.

Artigo publicado no “Expresso”, a 5 de janeiro de 2008 e no “Expresso Online”, no mesmo dia. Pode ser consultado aqui

Nove cartas fora do baralho

Faz amanhã um ano que o ás de espadas foi executado. Saddam não teve a sorte de outros

Ainda estão à venda em vários “sites” da Internet, mas os baralhos de cartas estampados com as fotos dos homens mais procurados do Iraque já não suscitam a mesma curiosidade do passado. Em Abril de 2003, decorria já a invasão, Saddam Hussein — que foi executado faz amanhã um ano — e 54 altas individualidades do seu regime eram os rostos malditos que urgia fazer desaparecer da face da Terra.

O ditador iraquiano — o ás de espadas — seria o 42.º a ser caçado, a 13 de Dezembro de 2003. Hoje, de acordo com o “site” do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, nove permanecem em paradeiro desconhecido, mas a sua captura já não merece grandes investimentos por parte das forças ocupantes. “Não faço a mínima ideia quantos ainda andam por aí. Já não usamos essas cartas. O baralho foi feito há quatro anos, ainda antes da criação da Força Multinacional-Iraque”, confessou ao “Expresso”, solicitando anonimato, um dos porta-vozes deste comando, criado em 2004 e liderado pelos Estados Unidos.

Mas a atentar no noticiário que chega do Iraque, há pelo menos um alvo que as forças da coligação não esqueceram totalmente — Izzat Ibrahim al-Duri, o general que só era ultrapassado por Saddam na hierarquia do Conselho de Comando Revolucionário, que lhe sucedeu na liderança do Partido Baas e que chefia, desde Outubro passado, um grupo insurgente sunita chamado Comando Supremo para a Jihad e a Libertação. “As buscas à procura dele continuam…”, acrescentou o porta-voz, sem se alongar muito nos pormenores.

General finta as tropas

A 8 de Dezembro, Al-Duri — o rei de paus — terá escapado a um raide nos arredores de Tikrit, a cidade natal de Saddam Hussein. “Não foi uma operação da coligação, mas antes das forças iraquianas”, continua o porta-voz. “Receberam uma informação de que Al-Duri poderia estar em determinado local, mas não estava”. Ter-se-á tratado de uma informação falsa ou o general terá fugido? “Não o encontraram…”, conclui a mesma fonte.

Por alturas do cerco ao general iraquiano, o vice-governador da província de Salaheddin, de que Tikrit é a capital, foi bem mais esclarecedor: “As forças não encontraram Al-Duri, mas apreenderam documentos com informações sobre a rede da Al-Qaeda e outras milícias, sobre as suas actividades bem como as técnicas usadas em operações no norte do Iraque”, afirmou Abdullah Hussein Jbara.

Uma das operações esboçadas nas papeladas confiscadas prende-se com um ataque à prisão Badush, em Mosul, que efectivamente aconteceu em Março, resultando na fuga de dezenas de prisioneiros.

Companheiros de fuga

Entre os ilustres que continuam a monte destacam-se igualmente Hani abd al-Latif al-Tilfah al-Tikriti, director da Organização Especial de Segurança e sobrinho de Saddam; Sayf al-Din Fulayyih Hasan Taha al-Rawi, chefe de Estado da Guarda Republicana, de quem se diz estar escondido numa pequena cidade perto de Bagdade após ter simulado a sua morte e o seu próprio funeral; Tahir Jalil Habbush al-Tikriti, director dos Serviços de Inteligência; e Rukan Razuki abd al-Ghafar Sulayman al-Nasiri, chefe dos Assuntos Tribais e o principal guarda-costas de Saddam Hussein.

Não existem estudos sobre a eficácia desta técnica de comunicação militar, mas dela resulta uma curiosidade. O baralho dos 55 iraquianos mais procurados foi desenvolvido por especialistas da Agência de Inteligência da Defesa dos Estados Unidos na senda de uma velha tradição norte-americana que recorre à batota — companheira de longas horas na caserna — para transmitir aos militares o perfil do inimigo. Esta prática já tinha sido usada na Guerra Civil norte-americana, na Segunda Guerra Mundial — altura em que foram impressos baralhos com silhuetas de aviões de combate alemães e japoneses — e também na Guerra da Coreia.

E como, pelos vistos neste domínio, a tradição ainda é o que era, há cerca de meio ano, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos distribuiu milhares de baralhos pelas tropas no Iraque e no Afeganistão com um novo motivo: monumentos históricos e sítios arqueológicos, visando sensibilizar as tropas para a importância do património histórico e da prevenção de danos desnecessários em pedaços insubstituíveis da História.

CONSTRUIR O ESTADO A PARTIR DAS REGIÕES

O Iraque tem Presidente, Governo e Parlamento, mas o novo Estado pós-Saddam tarda em consolidar-se. A estratégia passa agora por recorrer aos poderes locais

Ainda que, entre os iraquianos, não haja grande vontade de rir, há uma anedota que corre com alguma ligeireza. “Se os EUA têm 50 estados e são o país mais poderoso do Mundo, então se o Iraque tiver 51 será ainda mais forte do que eles”. A fragmentação do Iraque em várias unidades políticas é uma possibilidade que decorre da guerra de 2003 e do despertar das rivalidades entre as várias comunidades iraquianas — contidas, durante décadas, pela lei do ditador.

Num artigo divulgado na quarta-feira, Charles Tripp, docente na Universidade de Londres, invoca o desaparecimento de Saddam para melhor caracterizar a conjuntura actual. “Como disse um iraquiano, ‘Os EUA livraram-se de um Saddam e substituíram-no por 50’. Para muita gente, negociar com os pequenos Saddams, com as suas milícias, centros de detenção, tribunais e impostos locais, tornou-se uma questão de vida. É o preço a pagar por segurança acrescida na comunidade, bairro ou rua”.

“Os Estados Unidos livraram-se de um Saddam Hussein e substituíram-no por 50”, diz-se no Iraque

O professor salienta a fraca autoridade das “instituições nacionais” e recorda que é sob a vigilância de autoridades locais que acontecem alguns dos mais bárbaros atentados aos direitos e liberdades. Só nos últimos três meses, por exemplo, cerca de 40 iraquianas foram mortas na região de Bassorá por usarem maquilhagem, não usarem o véu ou não observarem as leis decretadas pelas milícias locais.

A eficácia das tribos

No último balanço sobre a situação no Iraque, feito na semana passada, o Pentágono creditou grande parte do sucesso no combate à insurgência — os grandes ataques diminuíram 50% desde Março — aos ‘Conselhos do Despertar’, grupos tribais sobretudo sunitas. “É talvez um dos mais importantes desenvolvimentos de 2007. Foi uma decisão de cidadãos iraquianos para confrontar a Al-Qaeda e expulsá-la da vizinhança”, afirmou, na quarta-feira, Kevin Bergner, porta-voz das forças americanas. Para ele, a integração destes grupos locais na sociedade é um grande desafio para 2008.

“Eles querem ser reconhecidos como membros legítimos da sociedade. O governo do Iraque (de maioria xiita) tem de agarrar esta oportunidade”, acrescentou o general Rick Lynch, comandante da zona sul de Bagdade. Em causa estão compensações financeiras e a integração nas forças de segurança.

Em declarações ao “Expresso”, Glen Rangwala, professor no Trinity College da Universidade de Cambridge e autor do livro ‘O Iraque em Fragmentos: A Ocupação e o Seu Legado’, defendeu que a consolidação do Estado iraquiano depende não só da paz e estabilidade mas também da “reconciliação política, o que ainda não aconteceu”.

Para promover a confiança inter-sectária, o magnata da imprensa iraquiana, Fakhri Karim, organizou, há duas semanas, o casamento de 70 casais mistos, em Bagdade. Houve danças sunitas, curdas e xiitas, um cortejo pela capital, mas não os tradicionais disparos para o ar, por razões de segurança.

Artigo publicado no Expresso, a 29 de dezembro de 2007