Ocupada com o dossiê nuclear iraniano, a comunidade internacional foi surpreendida pelo anúncio, na segunda-feira, do primeiro teste nuclear na Coreia do Norte. O mundo ficou nervoso e o Conselho de Segurança da ONU tornou-se o palco de negociações com vista à adopção de sanções ao regime norte-coreano, o último reduto marxista-leninista à face da Terra.
O Japão deu o pontapé de saída nas retaliações: na quarta-feira, decretou um embargo total às importações provenientes da Coreia do Norte e encerrou os seus portos a todos os navios norte-coreanos. Insensível às ameaças internacionais, Pyongyang reagiu dizendo que interpretará eventuais sanções como uma declaração de guerra, ameaçando com mais testes.
Com 23 milhões de habitantes, um regime totalitário que ignora os mais básicos direitos humanos e uma economia fortemente centralizada, a Coreia do Norte é um país fustigado por desastres naturais e uma escassez alimentar crónica. Há mais de uma década, o país mantém-se vivo graças a uma ajuda internacional maciça. Essa ajuda está agora ameaçada.
PERGUNTAS & RESPOSTAS
1. O que aconteceu a 9 de Outubro?
A Coreia do Norte anunciou ter efectuado o seu primeiro teste nuclear subterrâneo. Institutos do mundo inteiro registaram actividade sísmica artificial. Mas subsiste a dúvida: ter-se-á tratado de um ensaio nuclear ou da detonação de uma grande quantidade de explosivos convencionais?
2. O que justifica a crise que se seguiu?
Os receios perante a iminência de uma Coreia do Norte com poder nuclear e a vulnerabilidade do Japão, China, Rússia e Estados Unidos perante o arsenal norte-coreano.
3. Quais as consequências para a região?
Pyongyang não tem uma estratégia de expansão regional, pelo que não está em causa a alteração do equilíbrio de forças entre as potências do Pacífico. Mas esta ameaça nuclear pode originar um efeito de contágio. O Japão, por exemplo, que se prepara para rever a política de defesa, pode encarar como prioritária a opção nuclear.
4. O que move o regime norte-coreano?
Uma aparente obsessão em forçar os Estados Unidos ao diálogo directo. “A questão à volta de futuros ensaios nucleares está ligada à política americana para o nosso país”, reagiu Kim Yong-nam, o número 2 do regime comunista. Ao recorrer ao trunfo nuclear, a Coreia do Norte, que vive na mais completa autarcia, parece lutar pela sua própria sobrevivência política.
TESTEMUNHO
PROTEGIDOS DO BURACO NEGRO
Visto a partir de Pyongyang, o mundo está contaminado. Com más ideias, maus sistemas e más pessoas. Em Agosto, entrei na última viagem de jornalistas antes do teste nuclear. Embora o enriquecimento de plutónio seja conversa natural no país de Kim Jong-Il — onde o jornal é dobrado de forma a não danificar a sua fotografia —, as palavras têm de ser estudadas. Kim, a universitária que me acompanhou como menina modelo da nação, nada dizia que não fosse preparado. Viajar? Para onde, num mundo tão ameaçador? Ouvir música estrangeira? Mas o quê? A televisão repete filmes da luta contra o Japão. “Sim, conheço a Europa e a montanha muito alta de lá, o Evereste…”, disse Kim. Ao resto da nação de camponeses, explica-se o mundo como um buraco negro do qual estão protegidos por três fronteiras militarizadas (Rússia, China e Coreia do Sul). Numa noite, Kim deu a um austríaco o cartão da empresa de vinho da mãe, enquanto ele explicava o que é publicidade. Kim ficou nervosa: “Como escrevo para um e-mail austríaco se só falo inglês?”
Maria João Belchior, jornalista
OS NÚMEROS NEGROS DO REGIME
2,5 milhões de norte-coreanos terão morrido desde 1994 na sequência de vagas de fome e doenças decorrentes da escassez alimentar
300 mil norte-coreanos terão fugido desde 2004 para a China, onde se escondem das autoridades que não os reconhecem como refugiados e ameaçam deportá-los
200 mil norte-coreanos serão prisioneiros políticos
DATAS-CHAVE DA CRISE
29/01/2002: George W. Bush diz que a Coreia do Norte integra o “eixo do mal”
10/01/2003: Pyongyang anuncia a sua retirada do Tratado de Não-Proliferação Nuclear
27/08/2003: Começa, em Pequim, o diálogo a seis sobre o nuclear coreano
PROTAGONISTAS
Kim Jong-Il, Líder da Coreia do Norte
“Querido Líder” para os coreanos, é um ilustre desconhecido na comunidade internacional que o vê como uma figura caricata e paranóica. Escolheu a dedo o dia para anunciar o ensaio nuclear coreano: comemorava o nono aniversário da sua chegada ao poder, o novo primeiro-ministro japonês andava em digressão pela região e o sul-coreano Ban Ki-Moon era confirmado no cargo de secretário-geral da ONU. Ki-Moon elegera o dossiê nuclear norte-coreano como uma das prioridades do seu mandato.
Hu Jintao, Presidente da China
Aliada ideológica e principal parceira comercial da Coreia do Norte — fornecendo mais de 90% do petróleo e 80% dos bens de consumo —, a China saiu humilhada desta crise. Com esta demonstração de independência, Pyongyang desautorizou Pequim e pôs em causa a sua mediação nas negociações a seis (Coreia do Norte, Coreia do Sul, China, Japão, EUA e Rússia) sobre o nuclear coreano. A China reagiu ao anúncio do ensaio defendendo “acções punitivas” contra a Coreia.
Artigo publicado no “Expresso”, a 14 de outubro de 2006
Não gozam de liberdade para dizerem tudo o que pensam, mas não fazem disso desculpa para se acomodarem. Se fora de portas o Irão é visto como uma ameaça, na sua terra, dois médicos, uma estilista, um “rocker”, uma activista política, uma fotógrafa e um “ayatollah” revelam-nos um país desconhecido. Reportagem no Irão, com fotografias de António Pedro Ferreira
Jovens iranianos convivem na Avenida Valiasr, que atravessa Teerão ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Shila nasceu homem há 24 anos e cedo se incompatibilizou com o seu sexo. Esse desconforto, depositou-o recentemente nas mãos do cirurgião Bahman Mir-Djalali, fez uma operação de mudança de sexo e tornou-se protagonista de um dos aspectos mais surpreendentes da República Islâmica do Irão.
“Shila, podes entrar”, diz Bahman Mir-Djalali a partir do interior do seu consultório. Shila abre a porta, encara com desconhecidos sentados junto à secretária do seu médico e encosta-se, envergonhada, a uma parede do consultório. “Shila, podes preparar-te. Vou já ver-te”, continua o médico. Shila dirige-se para trás de um biombo, posiciona-o de modo a que ninguém ouse espreitar do outro lado e começa a despir-se. “Estão a ver? Tem os mesmos cuidados que uma mulher…”, comenta Mir-Djalali.
A mudança de sexo foi legalizada após o advento da revolução islâmica de 1979, através de um decreto (“fatwa”) do “ayatollah” Ruhollah Khomeini, para quem estas operações eram aceitáveis, em último recurso, em pessoas cuja imagem não era compatível com o seu sexo. Pura hipocrisia, alertam os críticos ao regime religioso. A mudança de sexo não visa o bem-estar de ninguém, antes combater aquilo que no Irão é considerado um crime maior — a homossexualidade, punível com pena de morte. Formado pela Universidade de Paris, Mir-Djalali é o precursor das cirurgias a transexuais no Irão. Operou pela primeira vez há 18 anos e, nos últimos 12 anos, abriu processos a 560 pacientes, operando 420 deles. Antes de Shila, o médico tratou de um inválido de guerra na casa dos 40 anos, “com barba e bigode”, recorda.
Para o cirurgião, a aceitação da mudança de sexo por parte da teocracia iraniana mostra quão “tolerante” é o Islão. “Actualmente, o governo islâmico já começa a ajudar quem quer fazer estas operações, sobretudo quem não tem nada e é alvo de discriminação social”. Rejeitada pela família, Shila vive com uma família adoptiva. Também no Irão, a diferença leva tempo a ser socialmente aceite. As estatísticas dizem que os iranianos recorrem à cirurgia oito vezes mais do que as iranianas. “Os transexuais homens vivem muito pior, sobretudo nas sociedades orientais”, diz o médico. “Um rapaz com comportamentos femininos, que se maquilha, etc. é mal aceite pela sociedade. Já uma mulher com aparência e comportamentos masculinos, sobretudo nas aldeias, é bem vista. No Irão, até se costuma dizer: ‘Essa mulher, que Deus a guarde, é um verdadeiro homem!’”
Shila, transexual, e o cirurgião Bahman Mir-Djalali, que fez a operação ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Um outro fenómeno social que lança dúvidas sobre a moralidade do regime é a figura do casamento temporário (“sighe”). Um iraniano pode celebrar um contrato de casamento por um ano, um mês, um dia ou uma hora… Findo o período contratualizado, o marido paga à esposa uma verba acordada previamente e segue-se o processo de divórcio.
A revolução islâmica ilegalizou os prostíbulos, mas engendrou esta forma camuflada de prostituição. Os seus partidários dizem que para ser decretado o divórcio há que esperar algum tempo para ver se a mulher está grávida. Se for o caso, o homem é obrigado a assumir as responsabilidades, o que nunca aconteceria em caso de prostituição. Mas, no Irão como em qualquer parte do mundo, uma mulher que aceita casar-se nestes moldes não deixa de ser “uma mulher fácil”.
A câmara indiscreta de Zohreh
Ainda não foi desta que Zohreh Soleimani repetiu a façanha de fotografar iranianas dentro de um estádio de futebol. Em Abril, o Presidente Mahmud Ahmadinejad propôs ao Parlamento a delimitação de zonas especiais para mulheres nos recintos desportivos, na crença de que a presença de mulheres e de famílias nos lugares públicos imporia “uma moralidade e um decoro saudáveis”. O regime considerou anti-islâmica a possibilidade das mulheres fixarem o olhar nas pernas dos atletas e Ali Khamenei, o líder espiritual, vetou a proposta.
Assim sendo, as fotos disparadas por Zohreh no dia em que, pela primeira vez desde 1979, as iranianas entraram num estádio de futebol continuam a ter um carácter histórico no “portfolio” desta fotojornalista de 36 anos. O Irão acabara de se qualificar para o Mundial de 1998 e as autoridades organizaram uma recepção de boas-vindas aos atletas, interdita às mulheres. Centenas de iranianas forçaram com sucesso os portões de entrada do Estádio Azadi e Zohreh furou no meio delas. Com a objectiva, captou não só a paixão das iranianas pelo futebol mas sobretudo a sua determinação em lutar pela igualdade de direitos. “Depois aproveitei a chegada dos jogadores para me escapar. Tinha medo que me tirassem os negativos. E foi assim que consegui publicar o meu primeiro trabalho fora do Irão”, recorda Zohreh.
À direita, a fotojornalista Zohreh Soleimani ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Nove anos depois deste episódio, esta reivindicação das iranianas continua entregue a formas criativas de luta. Aquando do último jogo de preparação da selecção iraniana antes do Mundial da Alemanha, dezenas de mulheres, com bilhete na mão, tentaram entrar no estádio. Foram impedidas, mas não se deram por vencidas. Colocaram um aparelho de televisão no exterior do estádio e ali ficaram a ver o jogo, até à polícia chegar.
Desta vez, Zohreh não estava lá, logo ela que também está habituada a contornar imprevistos. Na juventude, fintou o destino que a projectava como engenheira civil e inscreveu-se na Universidade de Arte de Teerão, onde estudou fotografia durante quatro anos e se apaixonou por Sebastião Salgado. Entrou no mercado de trabalho com facilidade, mas rapidamente se confrontou com os limites à liberdade de expressão. O regime era implacável com quem o criticava e os jornais reformistas onde Zohreh trabalhava fechavam uns atrás dos outros.
“Há sete anos decidi não trabalhar mais para jornais iranianos. Desisti e comecei a trabalhar como ‘free-lancer’ para a imprensa ocidental”. Evita assim chatices diárias, mas não se livra de riscos. Se publicar numa revista estrangeira fotos de iranianas a maquilharem-se, por exemplo, pode ter sérios problemas. Acresce que há certos acontecimentos, sobretudo de cariz religioso, que, por ser mulher, Zohreh não está autorizada a fotografar, “nem mesmo de chador”, diz. Só muito raramente fotografias do líder espiritual Ali Khamenei são tiradas por mulheres.
Cansada destas limitações, a fotógrafa começou a apostar na reportagem. Há cinco anos, rumou até ao Afeganistão, palco da guerra pós-11 de Setembro. Queria fotografar os campos de refugiados junto à fronteira com o Irão para um projecto da UNICEF. “Durante uma semana travei uma luta para entrar no Afeganistão. Diziam-me que as leis tinham mudado e que eu tinha de regressar a Teerão para obter uma autorização nova. Eu era mulher, estava sozinha e eles não queriam deixar-me passar. O comandante do posto militar estava chocado por me ver ali sozinha. Então eu disse-lhes: ‘Se vocês não me autorizarem a passar a fronteira, eu entro ilegalmente. Suborno alguém e entro. Não tenho outra opção. Preciso de trabalhar’. Eles olhavam para mim e pareciam pensar: ‘Mas quem é esta mulher?’”. A fibra de Zohreh deu frutos e lá acabou por atravessar a fronteira.
Se fores, apanhas!
Quando recebeu o “Expresso” no apartamento onde funciona a organização Iranian Civil Society Organizations Training & Research Center, à qual se dedica de corpo e alma em defesa dos direitos das mulheres, Fariba Davoudi ainda tinha o corpo dorido das bastonadas que recebera na última manifestação em que participou. O regime iraniano teme as concentrações públicas e não enjeita a linguagem da força para as dispersar. “Tenho medo, mas ponho o meu medo de lado”, diz Fariba.
Por isso, na agenda ela tinha já apontado a data da próxima manifestação — e recebido das autoridades cinco ou seis telefonemas ameaçadores: “Se fores, vais apanhar como da última vez”. A última vez não fora a pior. Há três anos, Fariba esteve presa durante 40 dias numa cela solitária por ter escrito um artigo em defesa dos direitos das mulheres.
Face à lei iraniana, as mulheres têm metade do valor dos homens. “O homem é o chefe de família, é ele quem, em última instância, toma sempre a decisão final. As mulheres necessitam de uma autorização do marido para obterem um passaporte e para trabalharem fora de casa, por exemplo. Se o marido não concorda com o emprego que a mulher arranjou, um juiz pode escrever uma carta especial ao patrão dela para despedi-la. E em casos de divórcio, a lei protege os homens, não as mulheres”, exemplifica Fariba.
Fariba Davoudi, a voz defensora das mulheres ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Detentora de um mestrado em Ciências Políticas pela Universidade de Teerão, Fariba é uma mulher profundamente religiosa o que confere às suas reivindicações uma legitimidade acrescida. “Acredito em Deus, mas os outros não têm de acreditar em Deus da mesma maneira que eu”, diz. Por ter uma relação lúcida com o Islão, revolta-se contra quem invoca cegamente a sua religião, sobretudo quando são mulheres a fazê-lo. Recentemente, Fatimeh Aliya, uma das doze deputadas iranianas, afirmou que a poligamia é uma forma de melhorar a sina de muitas mulheres pobres. No Irão há mulheres no Parlamento, mas escolhidas a dedo…
Em maioria nas universidades, as mulheres — metade dos 68 milhões de habitantes do Irão — são hoje o principal motor do movimento reivindicativo de direitos e liberdades. Há iranianas na política e na polícia, há advogadas, médicas, bombeiras, motoristas e até pilotos de “rally”. Cantoras é que não. No Irão, a voz das mulheres é um instrumento musical proibido. Mas Fariba Davoudi não se calará, nem mesmo que a voz lhe doa.
A ovelha negra do regime
Se Hossein-Ali Montazeri fosse o líder espiritual do Irão, o regime não teria perdido a sua natureza islâmica, mas seria com toda a certeza muito diferente do que é hoje. Nascido em 1922, Montazeri foi um dos líderes da revolução islâmica de 1979 e, durante muitos anos, o sucessor natural de Khomeini, que dizia ser Montazeri “o fruto da sua vida”.
Três meses antes de morrer Khomeini retirou-lhe esse estatuto. Montazeri caíra em desgraça quando começou a criticar o rumo que a revolução levava, denunciando a falta de liberdade, a repressão em nome do Islão, a interferência em eleições, o encerramento de jornais, as execuções sumárias e a perseguição aos dissidentes.
Em Outubro de 1997, foi colocado em prisão domiciliária, após questionar a infalibilidade do líder espiritual, Ali Khamenei. Montazeri continuava a acreditar nas virtudes da doutrina “velayat-e-faqih” (o governo do jurisconsulto), a pedra angular da república islâmica teorizada por Khomeini, mas considerava que a responsabilidade do Líder Supremo (“faqih”), enquanto “representante de Deus na Terra”, era grande de mais para uma só pessoa pelo que era de todo aconselhável que o líder não dispensasse o aconselhamento com peritos e estudiosos.
Na sua casa, o nº 328 da Haram Boulevard, na cidade santa de Qom, o “Grande Ayatollah” Montazeri recebe diariamente estudantes de Teologia, “mullahs” ou cidadãos a quem dá conselhos e tira dúvidas. Num dos topos da rua está montado um posto de vigia, com jovens guardas atentos a quem entra e sai da casa. Mal se passa o portão entra-se numa espécie de garagem onde se tira os sapatos, na presença de dois guardas de poucas falas. Depois, atravessa-se um pátio interior, que funciona como uma espécie de “terra-de-ninguém” e chega-se ao espaço de Montazeri.
O clérigo recebe o “Expresso” numa sala simples, despojada de decorações e de novas tecnologias. Oficialmente, já não está em prisão domiciliária desde 2003, mas tem com o regime uma espécie de acordo de cavalheiros: ele doseia as palavras — pediu desculpa por não dar a entrevista solicitada pelo “Expresso” — e o regime permite-lhe uma vida aparentemente normal.
O “ayatollah” Montazeri ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Sentado à secretária, Montazeri não se inibe de dar conselhos: “Com a graça de Deus, espero que vocês, como jornalistas, descrevam as coisas que vêem neste país de forma independente. E não tenham medo se alguém vos questionar sobre aquilo que escreverem. Sejam vocês próprios”. Ao fundo da sala, um jovem guarda assiste em silêncio a toda a conversa, para depois reportar. São os olhos e os ouvidos do regime nos aposentos do principal dissidente da revolução iraniana. Seguindo o conselho de Montazeri, em qualquer rua iraniana salta à vista a omnipresença de Khomeini em “posters”, retratos, “outdoors” ou murais. O pai da revolução morreu em 1989, mas os iranianos continuam a recordá-lo como um homem bom, ainda que o regime que inspirou lhes continue a amordaçar a língua. A língua, mas não o sentido de humor… Nos telemóveis dos iranianos circulam dezenas de SMS com piadas, muitas delas injuriosas, sobre os “mullahs” e o Presidente. Uma delas diz que no dia seguinte à eleição de Mahmud Ahmadinejad para a presidência do Irão, a população de Teerão foi avisada que não haveria água nas 24 horas seguintes. Ahmadinejad ia tomar o primeiro banho da sua vida…
Hiroshima, minha irmã
Hamid Salehi é um iraniano querido em Hiroshima. Carinhosamente, os japoneses chamam-lhe “Salehi-san”. Tinha apenas 16 anos quando tomou uma decisão que lhe mudou o curso da vida, alistando-se como voluntário na guerra Irão-Iraque (1980-1988). “Senti que tinha de defender o meu país”, recorda. Em Março de 1982, foi surpreendido no meio de um ataque iraquiano com gás mostarda, junto à fronteira a sul. A máscara que tinha era maior do que a sua cara, pelo que só a colocou quando começou a sentir os primeiros efeitos do gás. Demasiado tarde.
Ficou 22 dias com os olhos fechados devido às inflamações e com a vida condicionada para sempre. Hoje, casado, com três filhos e um mestrado em Ciências Políticas, Salehi é um dos membros mais activos da Sociedade de Apoio às Vítimas de Armas Químicas. Quase duas décadas após o fim do conflito, mais de 50 mil sobreviventes dos ataques químicos continuam, com ele, a padecer de problemas crónicos ao nível dos pulmões, dos olhos e da pele.
Na sede desta organização não-governamental, em Teerão, uma exposição fotográfica revela como a tragédia iraniana é em tudo semelhante à de Hiroshima. “O que aconteceu no Irão é comparável a uma bomba atómica”, diz Shahriar Khateri, um médico de 36 anos que assegura as relações internacionais da organização, que tem naquela cidade japonesa um parceiro de intercâmbios por força dessa geminação sentimental.
O médico Shahriar Khateri ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Anualmente, morrem cerca de 200 doentes. Mas o médico informa que a mortalidade decorrente da exposição ao gás mostarda, por exemplo, só atinge o pico 25 anos após o contacto com o químico. Shahriar Khateri indigna-se que a tragédia iraniana não tenha o mediatismo do gaseamento dos curdos iraquianos em Halabja (1988) e sobretudo que o isolamento do Irão na cena internacional dificulte a partilha de conhecimentos médico-científicos. “Quando os terroristas libertaram uma pequena quantidade de gás sarin no metro de Tóquio, em 1995, houve muitas contribuições por parte de médicos de todo o mundo no sentido de estudar os efeitos e ajudar as vítimas. Posso provar que foram usadas 400 toneladas de gás sarin contra os iranianos e 800 toneladas de gás mostarda, mas não houve qualquer tipo de colaboração”, acusa.
O isolamento internacional do Irão tem na sua base a inimizade política com os Estados Unidos, quase tão antiga quanto a própria revolução. Nas pinturas e “slogans” anti-americanos que decoram os muros da antiga embaixada norte-americana em Teerão promete-se à América “uma pesada derrota”, mas os transeuntes já não param para apreciar.
Porém, à revelia do discurso oficial, o Irão não vive de costas voltadas para a América. Nos hotéis, torcem o nariz quando o cliente tenta pagar em moeda local. “Dólar, dólar…”, preferem. Os “jeans” e a Coca-Cola — ainda que os iranianos produzam a Zam-Zam, uma “Cola” nascida com a revolução, menos doce e menos gaseificada — são consumo obrigatório dos mais jovens. E a CNN está apenas à distância de uma parabólica.
Nas ruas, os iranianos expressam o seu ódio a Bush e ao seu regime e a sua admiração pelo povo americano e pela sua cultura — ou pelo que conhecem dela… No seu cartão profissional, o taxista Ebrahim Mahmmoodi, de 51 anos, orgulha-se de 25 anos ao serviço da imprensa estrangeira. Já trabalhou para jornalistas dos quatro cantos do mundo, incluindo Christiane Amanpour (CNN). É uma espécie de motorista privativo da CBS e estrela do livro “Lifting the Veil: Life in Revolutionary Iran”, de John Simpson, o jornalista da BBC que acompanhou Khomeini no regresso do exílio. Uma tarde, perante a curiosidade que desperta, na montra de uma livraria nos arredores da Universidade de Teerão, um livro com uma foto de Marilyn Monroe na capa, Mahmmoodi interroga: “Quem é ela? Uma jornalista?”
Anathema, só no mercado negro
Como é que se diverte um país onde 70% dos habitantes têm menos de 30 anos e os bares e as discotecas são proibidos? “Divirto-me a comer com os amigos, nos cafés e nos restaurantes”, diz Rana, uma contabilista de 25 anos, que acaba de lanchar num café de Teerão na companhia da amiga Parisa, uma empregada comercial de 27 anos.
Entre os mais abonados há quem opte por andar às voltas de carro, sem planos definidos, em artérias bem-frequentadas como a Avenida Valiasr ou a Rua Jordan. Eles aproveitam para mostrar carros potentes e elas as maquilhagens. Parisa e Rana falam dessas exibições com distanciamento. Preferem realçar a frustração que sentem por não poderem escolher o seu próprio estilo de vida. “Quero poder escolher se uso ou não o lenço (‘hijab’)”, diz Parisa, enquanto apaga um cigarro no cinzeiro.
Namorar no Irão é também um exercício que requer alguma criatividade. Ao fim-de-semana, o Parque Melad enche-se de jovens casais apaixonados. Sentados nos bancos dos jardins ou nos relvados do parque, conversam contidamente e privam-se de carícias, não vá um agente da autoridade estar à espreita por trás de um arbusto para punir comportamentos “decadentes”. Neste contexto, tentar testemunhar um beijo ou um segredar ao ouvido é pura perda de tempo.
Na impossibilidade de se divertirem publicamente, é em casa que os jovens iranianos mais procuram a diversão, organizando festas com os amigos. Se a família tiver mentalidade para tal, os pais abandonam a casa para os filhos estarem mais à vontade; se o meio é conservador, os pais também marcam presença e tudo é mais controlado.
É também dentro de portas que a Internet veio ajudar a passar o tempo — e abrir algumas janelas proibidas sobre o mundo exterior. O anonimato dos “chats” permite a abordagem de assuntos que são tabu na sociedade iraniana, como o poder ditatorial dos “mullahs” ou a partilha de experiências sexuais. E a liberdade de expressão ilimitada associada aos blogues tornou-os meios de subversão temidos pelo regime que, de tempos a tempos, doseia essa “invasão cultural” e promove rusgas de moralidade, bloqueando sítios no ciberespaço e apreendendo equipamentos malditos, como as antenas parabólicas.
Para não arranjar problemas com as autoridades, Abolfazl, de 23 anos, cumpre as regras quando tem tempo livre. Formou uma banda com os amigos e, sob o nome artístico de Mendieta, desdobra-se nas guitarras eléctrica, clássica e espanhola. Adora “heavy-metal”, mas não pratica o estilo, que é proibido no Irão. Se um dia quiser comprar um CD da sua banda favorita, Anathema, terá de se aventurar no mercado negro, onde tudo se vende, da música interdita aos sucessos de Hollywood, do álcool à pornografia. Para não se ser surpreendido, a técnica é ir sempre acompanhado: enquanto um trata das compras o outro fica à coca, não vá a polícia aparecer.
O “rocker” Abolfazl ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Abolfazl trabalha numa loja do Capital Computer Building, uma espécie de sede da revolução digital em Teerão, muito procurada pelos jovens. Lá podem encontrar-se as últimas novidades em matéria tecnológica, de PC a telescópios, de máquinas fotográficas a mp3. Marsa, de 21 anos, namora demoradamente uma montra de telemóveis. Mana, de 15 anos, procura “headphones” para o seu “ipod”. Numa montra com jogos para computador anuncia-se que os campeões de vendas são O Cógico Da Vinci e o Alemanha 2006. Na loja da Akai, o funcionário Amir, de 21 anos, diz que “o negócio está bom por causa do futebol”. No Mundial da Alemanha, a selecção iraniana não conseguiu vencer nenhum jogo, mas à sua custa os iranianos travaram uma corrida aos LCD.
Está lá? Daqui fala Zeta-Jones
Com o advento da revolução islâmica, uma das máximas que tomou de assalto o quotidiano dos iranianos foi “Manter as aparências do Islão”. A maneira de vestir dos iranianos passou então a ser uma montra desse desígnio. As mulheres passaram a cobrir o cabelo e a usar vestes largas e longas para disfarçar os contornos do corpo e os homens a evitar mangas curtas e calções.
27 anos depois, as regras mantêm-se, mas a revolução tornou-se mais irreverente. Pelas ruas de Teerão e em locais como o Jaam-e-jam “food-hall” ou o Ghandi Shopping Center passeiam-se cada vez mais mulheres maquilhadas, com lenços coloridos a descaírem da cabeça e calças curtas a ameaçar deixar à mostra a barriga da perna. No Ghandi Shopping Center, uma dessas “passerelles” de modernidade, as lojas têm coladas no vidro autocolantes com o perfil de uma mulher velada: “Não é permitida a entrada a mulheres sem a cabeça coberta”, é a leitura que se impõe.
O regime está atento aos abusos e, sobretudo no Verão, promove campanhas contra as mulheres “mal vestidas”. Nas ruas, os “basiji” — uma milícia voluntária de jovens (homens e mulheres) devotos da revolução — comportam-se como uma espécie de chicote do regime e confrontam as mulheres com vestes mais atrevidas, os homens com penteados “estranhos” ou qualquer pessoa que se atreva a passear um cão (considerado um animal impuro). Ao estilo de uma polícia de costumes, multam ou detêm os prevaricadores para os repreenderem.
É por isso que pessoas como a estilista Mahla Zamani têm de medir a criatividade que investem no seu trabalho para não terem problemas com as autoridades. A imposição do lenço após a revolução limitou-lhe a liberdade de criar, mas aguçou-lhe o apetite por desenhar roupas modernas. Em cima de um balcão no seu ateliê, na bem-frequentada zona norte de Teerão, Mahla tem expostas pequenas estátuas vestidas com trajes tradicionais iranianos que lhe servem de inspiração. Ao lado, dentro de um armário, guarda o que não pode mostrar a qualquer um: catálogos de vestidos justos e decotados usados por manequins de cabelo solto e em poses provocantes, susceptíveis de escandalizar o mais moderado dos “mullahs”. Mahla trabalha sobretudo para cidadãos estrangeiros e para a alta sociedade de Teerão, habituada a festas faustosas ao estilo ocidental. “Dentro de casa, ninguém pode impor nada”, precisa a estilista.
Mahla Zamani, a estilista ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Ela veste as suas próprias criações e delas não abdica, mesmo quando tem de se deslocar a um organismo público. “Eles não gostam muito, mas eu vou assim na mesma”, diz. Afinal de contas, foi ela que, em 2004, vestiu Catherine Zeta-Jones para a cerimónia dos Óscares. E uma estilista que é procurada por uma estrela de Hollywood pode dar-se ao luxo de sair à rua como quer — ou, tratando-se do Irão, quase como quer.
(Foto de aberturaprincipal: Jovens iranianos convivem na Avenida Valiasr, que atravessa Teerão ANTÓNIO PEDRO FERREIRA)
Artigo publicado na revista Única do “Expresso”, a 2 de setembro de 2006, e republicado no “Expresso Online”. Pode ser lido aqui
Mongi Bousnina, director geral da Organização Árabe para a Educação, a Cultura e as Ciências (ALECSO), uma agência especializada da Liga Árabe, semelhante à UNESCO, sediada em Tunis, esteve recentemente em Lisboa para assinar um acordo de cooperação com o Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e estabelecer contactos. Em entrevista ao “Expresso” afirmou que a Europa e o mundo árabe estão “condenados” ao diálogo: “A Europa necessita da paz a Sul e os países árabes necessitam da Europa para se desenvolverem”.
EXPRESSO — O que é a ALECSO?
MONGI BOUSNINA — É a UNESCO do mundo árabe. Tem 22 países membros, foi criada em 1970 e, tal como a UNESCO, trabalha nos domínios da cultura, da educação e das ciências. Em relação à educação. o seu objectivo é a melhoria do ensino no mundo árabe: as reformas, a modernização do ensino, particularmente do ensino superior. Na última reunião dos ministros do ensino superior, na semana passada, no lémene, discutiram-se conceitos como a qualidade, a inovação e a investigação científica. Em meados do próximo mês, faremos uma reunião dos ministros da educação sobre a primeira infância, a educação pré-escolar. Ao nível da melhoria da educação, e tal como faz a UNESCO, queremos pôr em prática estratégias de desenvolvimento: da educação, da cultura, da educação científica, da educação informática, sobre o ensino à distância, sobre a internet, etc. Ao todo, a ALECSO tem doze estratégias de desenvolvimento para o mundo árabe. Ao nível da cultura, trabalhamos muito no domínio do diálogo de culturas, entre intelectuais, artistas, académicos para pôr em prática valores comuns e universais como os direitos do homem, a democracia e a cidadania.
EXP. — Essa estratégia cultural é prioritária em relação a qualquer estratégia política?
M.B. — Sim, porque ela prepara a estratégia política. Quando se quer fazer política, deve-se começar por lançar ideias. E quem tem ideias são geralmente os pensadores, os intelectuais, os professores, os investigadores que, ao criarem movimentos de pensamento e reflexão, podem influenciar e orientar os decisores políticos. Hoje. o mundo árabe tem relações privilegiadas com a Europa, como um todo e país a país. Mas ao nível dos princípios de Barcelona. que cumpriram dez anos este ano, ainda não se registaram sucessos no plano cultural. O que se faz não é suficiente. Por isso, há que desenvolver mais as relações com o Conselho da Europa, com a União Europeia e com cada país bilateralmente, No próximo ano, vamos organizar um colóquio sobre Islamismo, em Sarajevo, o que é simbólico no plano da reconciliação entre religiões. Pugnamos pela criação de condições favoráveis para que haja contactos estreitos e tentamos melhorar a imagem do mundo árabe, evitar os mal-entendidos e as más-interpretações.
EXP. — Quais deverão ser as próximas prioridades do Processo de Barcelona?
M.B. — É preciso continuar a apoiar as economias dos países do sul. O problema de África, e agora ao nível da imigração, é sobretudo subsariana, que também constitui um problema para os países do Magrebe. Há que ajudar os países do Mediterrâneo a encontrar empregos e recursos para fixarem as suas populações. O sul do Mediterrâneo constitui uma profundidade estratégica para a Europa. Da mesma forma que houve uma abertura da Europa em direcção ao Leste, a abertura ao sul deverá ser, nos próximos anos, a prioridade de Barcelona II.
EXP. — Na Europa, os árabes são frequentemente associados aos problemas com imigrantes e à organização de atentados…
M.B. — Essa visão dos árabes pode ser alterada através de uma acção junto dos “media”. Há que contactar os “media”, porque são eles que passam as imagens e formam a opinião pública. Há igualmente os intelectuais, os pensadores, os professores, que escrevem nos jornais. Eles são próximos dos políticos e podem influenciá-los para mudar a imagem e tentar encontrar uma linguagem nova. Os países árabes devem igualmente fazer esforços para explicar e reunir com pessoas no sentido de apagar essa imagem de uma pequena minoria que encobre centenas de milhões de pessoas que nada têm a ver com isso. Há também que encorajar o diálogo inter-religioso. Nós temos com o Conselho da Europa um programa ambicioso de avaliação dos manuais escolares, isto é, como se dá a imagem do “outro” nos manuais escolares. Se a imagem é má de um lado, será má do outro.
EXP. — O que mais o preocupa, presentemente, no mundo árabe?
M.B. — A forma como o mundo árabe deve acompanhar o progresso do mundo e, por conseguinte, alterar e modernizar os seus sistemas educativo, político e cultural para seguirem esse movimento de evolução da tecnologia e das ideias políticas. Cada país deve conservar a sua originalidade mas não deve perder o contacto com o mundo exterior. Penso que este é o desafio mais importante em todos os domínios. Actualmente, há uma efervescência no mundo árabe, muitas vezes violenta e incompreensível para o exterior, mas penso que toda essa agitação é o sinal de uma mudança que está em vias de acontecer, à custa de alguma dor porque há mudanças que não são fáceis. Pessoalmente, estou optimista. Aliás, muitas coisas começaram já a mudar.
EXP. — Pode dar um exemplo?
M.B. — Actualmente, fala-se muito da participação das mulheres nos Parlamentos, do voto das mulheres, dos direitos das mulheres e há associações de mulheres a organizarem-se para defenderem esses direitos. Ao nível dos sistemas de educação, há também muitos países em vias de promoverem reformas importantes ao nível da liberdade académica no interior das universidades, da modernização do sistema educativo, do lugar das mulheres no sistema de educação e na política. Em vários países do Golfo, as coisas estão a mudar muito. A modernidade segue forte e rápida, ainda que com oposições e desacordos, o que é normal, mas as coisas estão a avançar. Também ao nível religioso, hoje todos defendem o discurso da moderação e do respeito e contacto com as outras religiões. Muitos países árabes estão a tornar-se cada vez mais responsáveis e conscientes de que há que fazer qualquer coisa.
EXP. — Há algum país árabe modelo nesse âmbito?
M.B. — Cada país tem as suas particularidades e evolui à sua maneira, isto é, da forma que considera mais adequada para evoluir. Há países que evoluem mais rapidamente do que outros. Cada país tem as suas particularidades, a sua história, o seu passado, não mudam todos da mesma forma e ao mesmo tempo. Há que segui-los a todos.
EXP. — Os partidos islâmicos são actores incontornáveis nos processos de democratização? M.B. — Somos todos contra quem possa conduzirá violência ou apelar a uma guerra religiosa ou a uma guerra civil. Nenhum país pode aceitá-lo. Defendemos a aceitação das regras do diálogo, da troca, e do respeito do “outro”.
EXP. — A população dos países árabes é maioritariamente jovem. Os países têm condições para corresponderem às suas expectativas e ambições?
M.B. — O mundo árabe é muito heterogéneo. Há países relativamente prósperos e outros que se apoiam muito na cooperação e no contacto com a Europa ou com os Estados Unidos. Penso que há uma consciência sobre a necessidade de desenvolvimento. Porém, há que resolver igualmente alguns problemas internacionais, nomeadamente os problemas das matérias-primas, das subvenções á agricultura, da liberalização dos serviços, que também afectam o mundo árabe. Há também que conduzir políticas de desenvolvimento que façam da juventude a prioridade e sobretudo que apostem na qualidade da formação dos jovens para que possam ir trabalhar para onde quiserem. O futuro está no capital intelectual.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de junho de 2006
“A ocupação militar do Irão seria um pesadelo. Não creio que nenhuma pessoa séria considere somar a ocupação do Irão à ocupação do Iraque”, disse ontem o antigo secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, em resposta a uma pergunta do “Expresso” durante uma conferência em Lisboa. “As mudanças de governo no Irão têm de ser levadas a cabo pelo povo iraniano. Mas isso não exclui outras opções. A questão não é a deposição do Governo iraniano através de forças militares americanas, mas antes as armas nucleares no Irão e a sua ameaça para a humanidade”, disse.
Kissinger continua a dar crédito às negociações, mas diz que elas “não podem continuar indefinidamente, sob pena de se tornarem um método para a proliferação”.
Quando era secretário de Estado (1973-1977), a ameaça nuclear foi a sua maior preocupação — hoje, esse perigo não é menor. “As pessoas dizem que os Estados têm sido responsáveis. Nem por isso. Olhando para a distribuição do ‘know-how’ paquistanês, feita através de um alegado sistema privado, e para a Coreia do Norte, isso significa que as duas entradas mais recentes no clube do nuclear espalharam informação nuclear”. Um bom passo seria a criação de um sistema internacional de instalações de enriquecimento de urânio.
Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de maio de 2006
Ariel Sharon, de cabeça enfaixada, em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, ao lado de Moshe Dayan, o mítico comandante israelita inconfundível com o seu tapa-olho THE ISRAEL DEFENSE FORCES ARCHIVE / WIKIMEDIA COMMONS
Aos 77 anos, Ariel Sharon sai de cena no auge da sua popularidade. Era ele que os israelitas pareciam dispostos a reconduzir no cargo de primeiro-ministro, nas eleições de 28 de Março, sancionando uma relação de confiança iniciada há cinco anos quando Sharon elegeu a segurança de Israel como missão.
Em nome desse desígnio, mandou erguer um “muro” à volta da Cisjordânia para conter os ataques suicidas — evidenciando assim uma faceta de “falcão”, hostil ao diálogo com os palestinianos.
Mas o poder provocaria em Sharon uma metamorfose política. Ele reconhece que a ocupação dos territórios palestinianos não podia durar eternamente e elabora um Plano de retirada unilateral da Faixa de Gaza — expondo uma faceta inédita de “pomba”, favorável a um entendimento com os palestinianos.
A três meses das eleições, era este Sharon bicéfalo que conquistava os israelitas — um líder aberto ao diálogo, mas irredutível em matéria de segurança.
Palestina natal
Ariel Sharon — aliás, Ariel Scheinermann, nascido a 27 de Fevereiro de 1928, em Kfar Malal, na Palestina sob mandato britânico — desenvolveu uma carreira militar notável. Fez a Guerra da Independência (1948) à frente de um batalhão de infantaria e na crise do Suez (1956) comandou a 202.ª brigada pára-quedista.
Durante a Guerra dos Seis Dias (1067), liderou a divisão mais poderosa na frente do Sinai, e na campanha do Yom Kippur (1973), desobedeceu a ordens superiores levando a sua divisão a atravessar o Canal do Suez para isolar um batalhão egípcio.
A folha de serviço em todas as guerras israelo-árabes tornou Sharon um herói em Israel. Mas foi também no campo de batalha que ele escreveria uma das páginas mais negras da sua história. Em 1982, durante a invasão do Líbano, cerca de 800 palestinianos foram chacinados nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, às mãos das milícia falangistas. Sharon seria demitido da pasta da Defesa após uma comissão governamental o ter considerado indirectamente responsável pelo massacre.
Para qualquer político, seria o fim da carreira. Não para Ariel Sharon, que continuaria a ser um activo nos sucessivos Governos. Entre 1990 e 1992, por exemplo, como ministro da Habitação, impulsionou como nunca a construção de colonatos.
Em Setembro de 1999, é eleito para a liderança do Likud. Rodeado por 1500 polícias, desloca-se, a 28 de Setembro de 2000, ao Monte do Templo — Esplanada das Mesquitas para os muçulmanos —, onde reafirma a soberania israelita sobre o lugar mais sagrado do Judaismo. A visita demora apenas 34 minutos, mas foi sentida pelos palestinianos como uma provocação. Seria o início da Intifada Al-Aqsa.
Para enfrentar a revolta nas ruas palestinianas, os israelitas convocam o “bulldozer” — a alcunha que resulta da combinação entre o seu porte robusto e a sua atitude determinada — elegendo-o, em 2001, primeiro-ministro.
Sharon fez todas as guerras israelo-árabes e tornou-se um herói
Na cadeira do poder, Sharon ajusta contas com o seu arqui-inimigo dos últimos 20 anos: isola Yasser Arafat na Muqata de Ramallah, asfixiando-o politicamente. De lá, o líder palestiniano só sairia para morrer numa clínica de Paris, no final de 2004.
Experiente na arte da guerra, Sharon iniciou na quarta-feira, o combate mais desigual de toda a vida. Não eram quatro da tarde quando abandonou o gabinete rumo ao seu rancho no Negev. Lá tencionava repousar até à hora de uma operação ao coração agendada para o dia seguinte. Oito horas depois, dava entrada nas urgências do hospital Hadassah com uma hemorragia cerebral. À mesma hora, iniciavam-se consultas para escolher o seu sucessor no Governo. Ariel Sharon morria politicamente.
CRONOLOGIA
1942 — Com 14 anos, Ariel Sharon adere à Haganah, uma organização militar clandestina.
1948 — Na Guerra da Independência, fica gravemente ferido durante a batalha de Latrun.
1967 — Chefia uma poderosa divisão blindada no Sinai, durante a Guerra dos Seis Dias.
1973 — Na Guerra do Yom Kippur, desobedece aos superiores e leva a sua divisão a atravessar o Canal do Suez para cercar o Exército egípcio. A manobra inverte o curso da guerra.
1977 — É nomeado ministro da Agricultura. O projecto de colonização dos territórios ocupados cai-lhe nas mãos. “Os colonatos judeus não são um obstáculo à paz, mas uma barreira à guerra.”
1982 — Ministro da Defesa, dirige a invasão do Líbano, que visa exterminar a guerrilha palestiniana liderada por Yasser Arafat. É indirectamente responsabilizado pela chacina de 800 palestinianos nos campos de refugiados de Sabra e Shatila. “Ainda tenho vontade de me voluntariar para fazer o trabalho sujo por Israel. Matar os árabes necessários, deportá-los, expulsá-los e queimá-los. Pôr o mundo a odiar-nos, puxar o tapete à diáspora judaica para que venha até nós a chorar. Mesmo que seja necessário explodir uma ou duas sinagogas.”
1998 — É nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros. “Cada israelita deve avançar, correr, apoderar-se das terras, expandir o território. Tudo o que for conquistado ficará nas nossas mãos. O que não for, ficará nas mãos deles.”
28 Setembro 2000 — Como líder do Likud, visita a Esplanada das Mesquitas, terceiro lugar santo do Islão, e afirma a soberania israelita sobre o local. Os palestinianos desencadeiam a intifada Al-Aqsa.
6 Fevereiro 2001 — É eleito primeiro-ministro. “Se quisermos uma paz verdadeira e duradoura, temos de fazer concessões dolorosas.”
18 Dezembro 2003 — Apresenta o Plano de Retirada Unilateral da Faixa de Gaza, concluída a 12 Setembro de 2005.
21 Novembro 2005 — Abandona o Likud e funda o Kadima. “Não me arrependo de nada. Mesmo que tivesse antecipado o grau de oposição ao meu plano, tê-lo-ia mantido.”
O QUE ESTÁ EM JOGO*
O desaparecimento de Ariel Sharon marca o fim de uma era? Seguramente. Ariel Sharon era o político israelita mais popular do momento e aquele em quem os israelitas pareciam mais confiar. Era também, a par com Shimon Peres, o último representante da geração dos pais fundadores do Estado de Israel. Sharon liderava as sondagens às eleições legislativas de 28 de Março. A sua ausência será duramente sentida e alguns analistas utilizam mesmo o termo “catástrofe” para descrever a situação que se vive em Israel.
Quem sucede a Sharon no Governo? Mal Sharon foi internado, na quarta-feira, o vice-primeiro-ministro Ehud Olmert, de 60 anos, foi nomeado chefe de Governo interino, por um período de 100 dias. Na quinta-feira, Olmert afirmou que pretende continuar com a linha de actuação de Ariel Sharon. Antigo presidente da Câmara de Jerusalém, Olmert tem sido uma espécie de “braço-direito” de Sharon.
O Kadima sobreviverá sem Sharon? Até agora predominava a noção de que Kadima era Sharon e Sharon era Kadima. Por força das circunstâncias, Ehud Olmert surge como um possível sucessor de Sharon à frente do partido recém-criado pelo líder israelita e que arrastou vários dirigentes do Likud. Mas dois outros nomes perfilam-se para lhe disputar a liderança: a “pomba” Tzipi Livni, ministra da Justiça de 47 anos, e o “falcão” Shaul Mofaz, ministro da Defesa de 57 anos — ambos ex-membros do Likud. O histórico ex-trabalhista Shimon Peres, de 82 anos, é também um nome falado, mas, por ter perdido todas as eleições a que se candidatou em Israel, não parece ser uma hipótese credível. O Kadima adiou a realização das suas primárias.
As eleições israelitas serão adiadas? Não. O procurador-geral de Israel já confirmou que as eleições legislativas terão lugar na data agendada: 28 de Março.
Que consequências para a disputa eleitoral? Uma sondagem divulgada após o internamento de Ariel Sharon continua a dar o favoritismo ao Kadima — com 40 deputados eleitos num total de 120. A próxima sondagem mostrará se este resultado resulta apenas da onda emocional à volta da doença de Sharon, ou se o Kadima veio para ficar. Porém, a ausência da personalidade forte de Sharon pode motivar algumas mexidas no reordenamento do xadrez político e fazer Israel regressar à tradicional bipolaridade política — entre o Partido Likud (direita), que com Benjamin Netanyahu ao leme recupera da hemorragia política causada pela saída de Sharon e muitos outros dirigentes, e o Partido Trabalhista, animado pela nova liderança do sindicalista Amir Peretz. À parte os imponderáveis, é certo que uma nova geração de jovens líderes acaba de chegar à linha da frente da política israelita.
Como encaram os palestinianos a ausência de Sharon? A reacção palestiniana à doença do primeiro-ministro israelita não foi unânime. Para o porta-voz do movimento islâmico Hamas, Mushir al-Masri, “se Sharon morrer, não há dúvida de que esse novo desenvolvimento mudará o mapa político mundial, e para melhor, porque um ditador e um assassino estará de partida”. Já o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas (Abu Mazen), referiu-se ao estado de saúde de Sharon “com grande preocupação”, antevendo consequências directas na campanha eleitoral em curso nos territórios palestinianos, com vista às legislativas do próximo dia 25. A braços com uma situação de caos e anarquia na Faixa de Gaza e dúvidas em relação ao direito de voto dos palestinianos residentes em Jerusalém Oriental — que Israel não quer permitir —, a realização das legislativas palestinianas é ainda uma incerteza.
Que efeitos para o diálogo israelo-palestiniano? O futuro das relações entre israelitas e palestinianos depende muito da direcção que Israel tomar após as eleições que se avizinham. Ariel Sharon, cuja prioridade era a segurança, tencionava recuar de parte da Cisjordânia. Seguramente, não de todo o território, mas pelo menos de 40% da Cisjordânia. Ao mesmo tempo, parecia convencido de que o traçado da fronteira de Israel deveria avançar entre dez e 12 quilómetros na direcção da Cisjordânia. À semelhança do processo que concluiu na retirada israelita da Faixa de Gaza, Sharon queria fazê-lo unilateralmente, à revelia das autoridades palestinianas. Só as eleições de 28 de Março ditarão com que tipo de interlocutor poderão os palestinianos contar: Ehud Olmert e a linha moderada mas realista de Ariel Sharon? Benjamin Netanyahu e a rejeição do diálogo? Ou a abertura negocial de Amir Peretz?
* Texto escrito em colaboração com Victor Cygielman, em Telavive
Artigos publicados no “Expresso”, a 7 de janeiro de 2006
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.