Todos os artigos de mmota

Rédea curta na ‘vizinhança próxima’

A expansão da NATO para leste desafiou as pretensões de segurança da Rússia na sua fronteira. Quem olha para Ocidente, como a Ucrânia, paga caro

Nas relações internacionais, uma dicotomia que muito revela sobre as opções geopolíticas dos Estados é a que distingue países marítimos e continentais. Os primeiros projetam poder e influência através dos mares. Os segundos vivem numa insegurança permanente. Sem mar que os proteja, depositam a sua defesa na conquista de mais território para expandirem as suas fronteiras o mais longe possível. A Rússia é o exemplo perfeito de uma potência continental. E toda a tensão que se vive, atualmente, em redor da Ucrânia é sintoma dessa circunstância.

“A Rússia é uma grande massa continental”, que abarca 11 fusos horários. “É um grande enclave, que precisa de garantir pontos de acesso, nomeadamente aos mares quentes”, navegáveis. “Assim se explica, por exemplo, a aliança com a Síria e o apoio a Bashar al-Assad”, diz ao Expresso a investigadora Sandra Fernandes, do Centro de Investigação em Ciência Política (CICP) da Universidade do Minho. “Apesar de ser, hoje, o maior país do mundo, a Rússia nunca foi tão pequena desde a conquista da Sibéria, no século XVII. Isto tem um impacto mental, ao nível das perceções das ameaças, extremamente relevante.”

Desde o fim da Guerra Fria (1989), e em especial desde a desintegração da União Soviética (URSS), em 1991, que um complexo de cerco se acentuou na forma como a Rússia perceciona a sua “vizinhança próxima” — um termo cunhado, em 1993, pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros Andrei Kozyrev. Mais ainda após a expansão da NATO e da União Europeia (UE) para leste, à custa de territórios que faziam parte da URSS ou pertenciam à sua esfera de influência.

MAPA: EXPANSÃO DA NATO NA DIREÇÃO DA RÚSSIA

Durante a Guerra Fria, a rivalidade entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) originou a formação de duas alianças militares que se tocavam no Muro de Berlim. A NATO, fundada em 1949, era liderada pelos norte-americanos e o Pacto de Varsóvia, criado em 1955 e dissolvido em 1991, pelos soviéticos. Desde a queda do Muro (1989) que países da antiga esfera de influência soviética têm aderido à organização ocidental — para grande nervosismo da Rússia, herdeira do legado da URSS

“Os três países bálticos — Estónia, Letónia e Lituânia — eram repúblicas socialistas soviéticas que se demarcaram por completo da Rússia, viraram-lhe costas e aderiram à NATO e à UE. Os outros países continuaram a manter relações privilegiadas com a Rússia, não forçosamente por vontade, mas por necessidade”, diz a académica. E sempre que algum deles expressa o desejo de seguir o rasto dos Bálticos, a Rússia pressente-o como ameaça e reage.

“A Rússia moderna [pós-1991] vê-se com uma fronteira enorme, que é extremamente sensível para as suas pretensões de segurança. A Rússia sempre considerou a NATO um clube do qual não faz parte e, de certa forma, uma ameaça às suas fronteiras. Já era assim nos anos 90, mas agora a Rússia tem os meios de pressão para dizer que não quer mais um alargamento da NATO junto à sua fronteira”, prossegue Sandra Fernandes.

Ucrânia e Geórgia, os seguintes

Na fila para aderirem à NATO estão, desde 2008, dois países da “vizinhança próxima” da Rússia: Ucrânia e Geórgia. “Em 2008 houve uma grande campanha diplomática dos Estados Unidos. O Presidente George W. Bush queria deixar como legado a abertura da NATO a esses dois países. França e Alemanha foram mais cautelosas, perceberam que se tratava de uma linha vermelha para a Rússia. Então, foi oferecida a esses dois países uma perspetiva de adesão sem data.”

Precisamente em 2008, Moscovo utilizou a força armada em solo europeu pela primeira vez desde o fim da URSS, para pôr na ordem o Governo da Geórgia, liderado pelo recém-eleito Mikhail Saakashvili (pró-Ocidente e pró-NATO). Na sequência de cinco dias de guerra, Moscovo acabaria por reconhecer as regiões georgianas da Abecásia e da Ossétia do Sul como estados independentes. O que se passa em torno da Ucrânia — liderada desde 2019 por Volodymyr Zelensky, antigo comediante pró-ocidental — é um novo capítulo de um conflito iniciado em 2014, que culminou na anexação da península da Crimeia pela Rússia, e que se insere na mesma estratégia de contenção.

Quarta-feira passada, em Kiev, durante uma visita “de solidariedade” à Ucrânia, o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, acusou a
Rússia de planear aumentar as suas tropas junto às fronteiras da Ucrânia. Na véspera, Moscovo projetou um exercício militar com a Bielorrússia — também contígua à Ucrânia e liderada por Aleksandr Lukashenko, amigo de Putin —, que terá como cenário um hipotético ataque externo. Os receios de nova invasão russa da Ucrânia já levaram a Suécia a reforçar o seu dispositivo militar na ilha de Gotland, no Mar Báltico.

Um ataque cibernético contra sites do Governo ucraniano, sexta-feira passada, foi interpretado como manobra de desestabilização visando a escalada do conflito. Desde o início do ano que missões diplomáticas russas na Ucrânia têm vindo a retirar pessoal, sem que se perceba se é bluff ou preparativo para a guerra. Tudo acontece duas semanas após a Rússia ter enviado tropas para o Cazaquistão — com quem partilha quase 7000 quilómetros de fronteira —, em socorro do Governo acossado por manifestações de rua, que o Presidente cazaque Kasym-Zhomart Tokayev diz serem orquestradas por “forças externas”. “Não permitiremos a ocorrência das chamadas ‘revoluções coloridas’”, garantiu Vladimir Putin, justificando a ajuda militar.

Traumas não muito longínquos

Na mente do chefe de Estado russo estão revoltas populares que resultaram na substituição de governos pró-Moscovo por lideranças pró-ocidentais: a “revolução rosa” (Geórgia, 2003); a “revolução laranja” (Ucrânia, 2004); e a “revolução da tulipa” (Quirguistão, 2005). Ao conter nova “revolução colorida”, a Rússia expõe uma estratégia para a região. “As tropas russas foram enviadas para o Cazaquistão através da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [fundada em 1992 pela Rússia, Cazaquistão, Uzbequistão, Arménia, Quirguistão e Tajiquistão]. Em 2015, a Rússia criou a União Económica Euroasiática [com Cazaquistão, Bielorrússia e Arménia]. Tentou arrastar a Ucrânia, mas não conseguiu”, recorda Sandra Fernandes. Mais do que tentar recuperar a ex-URSS, “a Rússia tenta articular projetos alternativos à NATO e à UE”.

Mais de 30 anos após o fim da Guerra Fria, Washington e aliados continuam a ser o grande inimigo. Neste contexto, para Moscovo, falar-se de NATO ou UE é a mesma coisa. “Não era, mas passou a ser. A UE era uma oportunidade sobretudo de cooperação económica”, diz a investigadora do CICP. “Quando continuou com os alargamentos a leste, paralelos aos da NATO, a Rússia passou a vê-la como um ator geopolítico às suas portas que não serve os seus interesses.”

Há cerca de meio ano, a Rússia atualizou a sua Estratégia de Segurança Nacional. A nova doutrina revela “um país que se sente ameaçado e se vira para dentro, à procura de soluções. Um país que não vê os interesses servidos numa relação com o Ocidente e que está a isolar-se muito.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 22 de janeiro de 2022. Pode ser consultado aqui

O que se passa no mundo ao nível da vacinação? Uma discrepância comprometedora

Portugal tem quase 90% dos seus habitantes imunizados. Com uma população semelhante, o Burundi administrou as duas doses da vacina a apenas 0,1% de quem vive no país. A pandemia é global, mas a vacinação ainda não o é

IMAGEM PIXABAY

Ao terceiro ano de pandemia, tornou-se chavão — e uma certeza absoluta — dizer-se que a covid-19 não será controlada no mundo enquanto cada país não a controlar individualmente. Ao estilo de um tsunami, que vai e vem, também as vagas da doença se vão sucedendo, contagiando à vez todos os países. Ou quase todos…

A nível oficial, há quatro países que ainda não reportaram qualquer caso de covid-19. Dois deles têm regimes políticos opacos — a Coreia do Norte e o Turquemenistão — e outros dois são Estados insulares, rodeados pelas águas do Oceano Pacífico: Tuvalu e Nauru.

Em todos os outros, corre-se contra o tempo perante a emergência de novas variantes, como a Ómicron, mais contagiosa do que as anteriores. Mas olhando para o mapa-mundo da vacinação, esta é uma corrida muito desigual, que decorre a múltiplas velocidades.

Israel, por exemplo, já começou a administrar a segunda dose de reforço — na prática, a quarta vacina — a maiores de 60 anos, profissionais de saúde e qualquer pessoa considerada vulnerável. Os israelitas deram este passo no combate à pandemia apoiados nas conclusões preliminares de um estudo do Centro Médico Sheba, nos arredores de Telavive, segundo as quais a quarta dose produz cinco vezes mais anticorpos, uma semana após ser administrada.

Em contraste com a vanguarda de Israel, que tem 9 milhões de habitantes e já imunizou 64,3% da população, a República Democrática do Congo, onde vivem dez vezes mais pessoas, tem apenas 0,1% da população com a vacinação completa.

MALÁSIA (ANNICE LYN / GETTY IMAGES)

Segundo o site Our World in Data, que atualiza diariamente um conjunto de índices relativos à pandemia, 59,2% da população mundial já recebeu pelo menos uma dose da vacina para a covid-19. Porém, no conjunto dos países de baixo rendimento (segundo terminologia usada pelo Banco Mundial), essa percentagem não vai além dos 8,9%.

E quando se toma em consideração a vacinação completa (duas doses), a discrepância ao nível da percentagem da população imunizada é ainda mais gritante.

  • África: 9,7%
  • América do Norte e Central: 58,5%
  • América do Sul: 64,7%
  • Ásia: 58%
  • Europa: 61,9%
  • União Europeia: 69,9%
  • Oceânia: 58,6%

Numa outra abordagem ao estado da vacinação no mundo, em cada um dos cinco continentes, um grande fosso separa os países com maior percentagem de imunização daqueles com mais dificuldade em obter e aplicar as vacinas.

1. ÁFRICA

As ilhas Seicheles são o país com mais habitantes com vacinação completa (79,1%). No polo oposto está o Burundi, com menos de 0,1%.

2. AMÉRICA

Na metade norte do continente, o Canadá já garantiu a imunização de 77,6% da sua população, enquanto no Haiti apenas 0,7% está na mesma situação. A sul, o Chile é quem mais vacinou até ao momento (86,6%) e a Guiana menos (37,4%).

3. ÁSIA

Os Emirados Árabes Unidos lideram com 91,7% da sua população vacinada. Inversamente, o martirizado Iémen ainda só conseguiu imunizar 1,2%.

4. EUROPA

Com 89,9%, Portugal é o país com maior percentagem de população vacinada. Com apenas 22,1%, a Bósnia-Herzegovina é quem está mais atrasado. Entre os membros da União Europeia, o país com taxa de vacinação mais baixa é a Bulgária (28,2%).

5. OCEÂNIA

No mais pequeno dos continentes, a Austrália tem 77,3% dos seus cidadãos com duas doses tomadas, enquanto a Papua-Nova Guiné ainda só vai nos 2,5%.

Em muitos casos, os países com taxas de vacinação mais baixas terão dificuldades em aceder ao mercado das vacinas e estarão dependentes de doações. Mas em algumas latitudes, há fatores naturais que tornam as campanhas de vacinação verdadeiros desafios à destreza humana. Para que as vacinas cheguem às populações, as equipas médicas têm de subir montanhas, atravessar lagos ou desbravar caminhos cobertos de neve.

PERU (CARLOS MAMANI / AFP / GETTY IMAGES)
INDONÉSIA (ZUL KIFLI / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES)
FILIPINAS (EZRA ACAYAN / GETTY IMAGES)
ZIMBABWE (TAFADZWA UFUMELI / GETTY IMAGES)
MALÁSIA (ANNICE LYN / GETTY IMAGES)
BRASIL (MICHAEL DANTAS / AFP / GETTY IMAGES)
TURQUIA (CHRIS MCGRATH / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de janeiro de 2022. Pode ser consultado aqui

Pode o diálogo salvar o acordo nuclear do Irão?

Seis países estão reunidos em Viena para tentar reativar o acordo sobre o programa nuclear iraniano. Os EUA, que se retiraram do entendimento, assistem à distância

1 Por que razão o acordo volta a ser discutido?

Assinado em 2015 por sete países, o acordo que colocou o programa nuclear do Irão sob supervisão internacional sofreu um duro golpe três anos depois. Donald Trump denunciou “um mau acordo”, retirou os Estados Unidos de forma unilateral e repôs sanções ao Irão, que afetaram duramente a exportação de petróleo.

A República Islâmica ripostou. Começou a violar limites assumidos no acordo, designadamente ao nível do enriquecimento de urânio, e dificultou o acesso total dos inspetores da ONU às suas instalações nucleares. Voltaram a soar alertas quanto a uma bomba nuclear em posse dos ayatollahs.

Esta semana, em Viena, foi retomado o diálogo para reativar o acordo.

2 Há pressa nestas conversações?

Muita, a atentar nas palavras de negociadores ocidentais. “Esta negociação é urgente”, defenderam, de forma inequívoca, representantes do Reino Unido, França e Alemanha, num comunicado. “Temos a certeza de que estamos a aproximar-nos do ponto em que a escalada do Irão ao nível do seu programa nuclear terá esvaziado completamente o JCPoA”, o acrónimo inglês do nome do acordo.

“Temos semanas, não meses, para concluir um acordo antes que os principais benefícios de não proliferação do JCPoA se percam.”

Mikhail Ulyanov, o negociador-chefe da Rússia, considerou esta jornada diplomática como “possivelmente a ronda final” das negociações.

3 Os EUA participam nestas negociações?

Apenas indiretamente. O diálogo que decorre no luxuoso hotel Palais Coburg — onde o acordo foi assinado há seis anos — está circunscrito ao Irão e ao grupo P4+1, ou seja, quatro membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Rússia, China, França e Reino Unido) e Alemanha.

A saída dos EUA, que pôs o acordo à beira do colapso, acentuou a desconfiança entre os dois países, que não têm relações formais, e levou Teerão a rejeitar conversas diretas com Washington, apesar de Joe Biden ser pró-acordo. “Pode ter havido algum progresso modesto”, admitiu esta semana, em Washington, Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado, sobre o que se passa na Áustria.

4 Qual é a posição do novo Governo iraniano?

Se o acordo de 2015 foi negociado por uma equipa liderada por um Presidente reformista (Hassan Rohani), desde agosto que o Irão tem um Presidente conservador (Ebrahim Raisi). Na sua primeira conferência de imprensa após tomar posse, Raisi prometeu que não iria permitir que as negociações se arrastassem e reiterou que o programa de mísseis balísticos do Irão (que os EUA tentaram incluir no acordo de 2015) “não é negociável”.

“Incorporamos as sensibilidades do novo Governo iraniano”, garantiu o diplomata espanhol Enrique Mora, coordenador da União Europeia em Viena. “Estamos exatamente no ponto em que devíamos estar se quisermos obter um resultado final de sucesso.”

5 O que poderá levar o Irão a fazer cedências?

A grave situação económica. No início do ano, um relatório do Banco Mundial identificou um “triplo choque” que contribui para a destruição do país. “A economia iraniana entrou num terceiro ano consecutivo de recessão a seguir ao triplo choque provocado pelas sanções, pelo colapso do mercado petrolífero e pela covid-19”, lê-se no documento.

Em Viena, Teerão tem como principal exigência o levantamento total das sanções ocidentais. Mas também é verdade que para o novo Presidente o diálogo com o Ocidente não é uma prioridade. Numa mudança significativa em relação ao antecessor, Ebrahim Raisi tem no horizonte não EUA e União Europeia, mas antes China e Rússia.

(FOTO Bandeiras dos participantes nas negociações que conduziram à assinatura do JCPOA, a 14 de julho de 2015, em Viena EUROPEAN EXTERNAL ACTION SERVICE)

Artigo publicado no “Expresso”, a 30 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui

Aceita um vinho do Porto? O brinde é pelo Douro, que é património da Humanidade há 20 anos

A mais antiga região vitivinícola demarcada do mundo é, simultaneamente, uma lição. É a prova viva e duradoura da capacidade e determinação do ser humano perante a necessidade de rentabilizar recursos em ecossistemas agrestes, como o são as escarpas do Alto Douro Vinhateiro. Há 20 anos, as Nações Unidas reconheceram o seu “valor universal excecional” e elevaram-no ao patamar dos lugares especiais em todo o mundo. 2:59 JORNALISMO DE DADOS PARA EXPLICAR O PAÍS

Vai um Porto?

Há 20 anos, este foi um gesto que marcou o dia em Portugal. A 14 de dezembro de 2001, a UNESCO reconhecia o “valor universal excecional” do Alto Douro Vinhateiro e atribuía-lhe o selo de Património da Humanidade.

Quatro argumentos foram cruciais para essa distinção:

A região produz vinho há quase dois mil anos.

O território, marcado por declives acentuados e escassez de água, é uma lição sobre a capacidade e determinação do ser humano na otimização dos recursos naturais.

As componentes da sua paisagem são representativas de todas as atividades associadas à produção de vinho.

E, por fim, é um exemplo notável de uma região vinícola tradicional europeia.

A região do Douro tornou-se, então, o 11º sítio em Portugal a merecer a distinção de Património da Humanidade, a par com o Centro Histórico de Guimarães.

Em anos seguintes, mais cinco bens patrimoniais obteriam esse galardão.

Hoje, são 17 as referências portuguesas na Lista da UNESCO, que conta com mais de 1100 inscrições. Este reconhecimento cria neste locais um sentimento de pertença a uma lista exclusiva e uma chancela de qualidade para atrair turismo.

Mas para os países que os promovem, além de prestígio, esta distinção traz obrigações. A UNESCO está atenta ao estado de preservação dos locais e, em caso de degradação, pode mesmo retirar-lhes o título.
No caso específico do Alto Douro, os alarmes soaram a propósito da construção da Barragem do Tua, o que motivou uma visita à região de uma missão da organização que atribui estes galardões para avaliar o impacto da estrutura e decidir se manteria a classificação de património mundial da humanidade. Felizmente foi o que veio a acontecer.

Por todo o mundo, as barragens estão identificadas como uma potencial ameaça ao património. Mas muitos outros perigos já foram inventariados pela UNESCO.

Neste momento, esta organização cultural das Nações Unidas tem 52 exemplos identificados de “património em perigo”. São disso exemplo sítios tão distintos quanto os Budas de Bamyan, no Afeganistão, o Parque Nacional Virunga, na República Democrática do Congo, ou o Centro Histórico de Viena, a capital da Áustria. Portugal está ausente deste rol de preocupações.

Mas voltemos ao Douro.

A área distinguida pela UNESCO é uma estreita franja integrada numa área mais vasta que é a Região Demarcada do Douro.

Esta é uma das 14 regiões vitivinícolas existentes em Portugal e a mais antiga região demarcada do mundo.

Foi em meados do século XVIII que a primeira delimitação territorial das ‘Vinhas do Alto Douro’ definiu o primeiro modelo institucional de organização de uma região vinícola em todo o mundo. Um passo crucial para a projeção internacional do néctar a que também chamam… “vinho fino”.

Winston Churchill, o mais famoso primeiro-ministro britânico e um grande apreciador de vinhos e charutos, costumava terminar as suas jornadas diárias com um cálice de vinho do Porto.

Episódio gravado por Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui

Acontecimento internacional do ano. Os talibãs estão de volta ao poder

Vinte anos após o início de uma guerra declarada para os derrubar, os talibãs são de novo Governo em Cabul. Como se EUA e NATO nunca lá tivessem estado

Símbolos do domínio talibã no Afeganistão: mulheres cobertas com burqa e a cavidade vazia onde existiu um dos budas gigantes dinamitados pelos extremistas, em Bamiyan. Esta foto foi tirada a 17 de junho de 2012 SGT. KEN SCAR / WIKIMEDIA COMMONS

O novo normal no Afeganistão é um cenário de terror de onde quem lá vive tenta fugir a todo o custo. A recente chegada a Portugal de um grupo de jovens músicas que integram a orquestra do Instituto Nacional de Música do Afeganistão é só um exemplo.

Desde que os talibãs recuperaram as rédeas do poder, a 15 de agosto, o quotidiano do país está envolto em atos de vingança e manifestações de intolerância tais que garantem ao Afeganistão um lugar de destaque nos relatórios internacionais relativos ao exercício de direitos e liberdades, pelas piores razões.

A música é proibida em locais públicos. Afegãos que trabalharam para forças militares estrangeiras recebem visitas de talibãs, com o intuito de os levar de casa, sem regresso garantido. Por todo o país, em especial em zonas recônditas, multiplicam-se relatos de detenções, tortura e execuções de cidadãos afetos ao antigo regime, de ataques contra ativistas, jornalistas, religiosos e personalidades da cultura. A lei dos talibãs voltou a punir ladrões com enforcamentos em praça pública e a autorizar agressões nas ruas a transeuntes que, de alguma forma, não se apresentem consoante os códigos defendidos pelos “estudantes de teologia”. Ainda que o novo poder prometa uma amnistia geral, no terreno, os militantes têm sede de desforra.

As mulheres estão, para já, proibidas de estudar e de trabalhar, exceção feita a médicas, essenciais para o atendimento de pacientes do sexo feminino nos hospitais. Os talibãs garantem que as restrições impostas às mulheres são temporárias. Ironicamente, é uma mulher que, atualmente, personaliza o principal obstáculo que o novo regime talibã enfrenta — o do reconhecimento internacional.

No final de julho, a menos de um mês de os talibãs entrarem em Cabul, Adela Raz, afegã de 35 anos, foi nomeada embaixadora do Afeganistão nos Estados Unidos. Sem o reconhecimento formal do novo regime por parte de Washington, os talibãs não conseguem substituí-la, ainda que, inversamente, a diplomata esteja cada vez mais de mãos atadas, sem autoridade nem fundos para assegurar o funcionamento da embaixada. Na semana passada, outro diplomata afegão, Ghulam Isaczai, cedeu às circunstâncias e demitiu-se da chefia da missão do Afeganistão na ONU.

Sem reconhecimento

Quando foram poder pela primeira vez (1996-2001), os talibãs viram três países reconhecerem o Emirado Islâmico do Afeganistão: Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Passados 20 anos, não há Estado que arrisque ser pioneiro a legitimar um sistema de governo igualmente retrógrado e medieval.

Quatro meses após voltarem ao poder, não se pode dizer que os talibãs vivam num isolamento diplomático absoluto. A China, por exemplo — que precisa do Afeganistão para que não aumente o problema na região de Xinjiang (onde os uigures, a minoria muçulmana chinesa, vivem em campos de concentração) —, já entregou aos talibãs milhões em ajuda de emergência. Mas as autoridades de Pequim não avançam sozinhas para o reconhecimento de um regime que prometeu moderação e inclusão e acabou a escolher um governo sem mulheres, com pouca diversidade étnica e até com um ministro procurado pela Interpol (o que não é novidade no Afeganistão). “As coisas serão diferentes quando a China, o Paquistão, a Rússia e o Irão chegarem a um consenso sobre o assunto”, assegurou o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi.

Só aparentemente os talibãs de 2021 são uma cópia dos de 2001. desta vez, a avançada não se fez à bomba, mas com negociações que tornaram o regresso ao poder inevitável

Paralelamente à vantagem política de serem aceites na cena internacional como iguais entre pares, o reconhecimento internacional é crucial para que o Governo talibã consiga aceder a empréstimos e financiamentos, em particular junto de instituições como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional, e veja sanções serem levantadas, o que só acontecerá caso se comporte dentro de determinados limites. Sem apoio internacional, não haverá dinheiro para pagar salários e fica comprometida a administração — e estabilidade — de um país com cerca de 40 milhões de habitantes e índices de pobreza gritantes.

Décadas de guerras

Dono de uma geografia que tem tanto de estonteante como de agreste — sem litoral, com extensas regiões escassamente povoadas e pelo menos quatro montanhas com cumes acima dos 7000 metros —, o Afeganistão é também consequência de décadas de conflitos. Nos últimos 200 anos, por entre períodos de confrontos internos entre os diferentes grupos étnicos, o orgulhoso povo afegão enfrentou três potências estrangeiras: o Império Britânico (1838-42, 1878-80 e 1919-21), a União Soviética (1979-1989) e os Estados Unidos (2001-2021). Todas saíram do Afeganistão derrotadas e os afegãos consolidaram a fama de insubmissos.

O regresso dos talibãs ao poder resulta, pois, de mais uma guerra mal conduzida por quem se propôs erradicar as raízes do terrorismo internacional. Declarada para vingar o 11 de Setembro, derrubar o regime talibã — que permitiu que a Al-Qaeda usasse o Afeganistão para atacar Washington e Nova Iorque — e impedir que o país continuasse a ser porto seguro para terroristas, a invasão do Afeganistão revelou-se uma missão de contraterrorismo que não foi pensada para construir um novo país, em termos políticos e militares.

Essa ilusão ficou a descoberto quando os “estudantes” reassumiram o Governo de Cabul no momento em que as últimas tropas da NATO regressavam a casa. Contrariamente a 2001, quando a entrada em Cabul foi antecedida por dias de bombardeamentos sobre a capital, desta vez os talibãs marcharam de forma fulminante e sem enfrentarem a mínima resistência.

Só aparentemente é que os talibãs de 2021 são uma cópia dos de 2001. Desta vez, a avançada não se fez à bomba, mas beneficiando de negociações que tornaram o seu regresso ao poder inevitável, mal a NATO virasse costas.

Falta de liderança

A inércia quer das forças armadas quer de milícias afetas a senhores da guerra (alguns dos quais fugiram mesmo do país) indicia cumplicidade entre fações que noutros tempos se digladiavam até à morte. A exceção foi um grupo de combatentes tajiques, liderados por um filho do lendário comandante Massud, que, entrincheirado no vale do Panjshir, apenas conseguiu atrasar uns dias a vitória total dos talibãs.

A inação das tropas governamentais expõe problemas de liderança, simbolizados na fuga do Presidente Ashraf Ghani para o estrangeiro, mas também na facilidade com que muitos soldados afegãos passaram para as hostes talibãs. Entre as suas motivações está um sentimento de abandono decorrente, por exemplo, de salários em atraso. Outra vulnerabilidade das forças armadas afegãs — cuja constituição foi a grande prioridade da missão da NATO — é terem sido criadas em função de lealdades tribais, e não em obediência a uma cadeia de comando funcional.

Mas algo mais escancarou as portas do poder aos talibãs: o processo negocial que decorreu com os Estados Unidos em Doha, a capital do Catar, onde os “estudantes” abriram escritório por volta de 2010. Essas conversações diretas culminaram na assinatura de um acordo de paz, a 29 de fevereiro de 2020, entre a Administração Trump e a liderança talibã — à revelia e sob protesto do Governo de Cabul.

Através desse entendimento, Washington obteve a garantia de que os talibãs não manteriam relações com a Al-Qaeda nem permitiriam que o seu território se tornasse albergue de organizações terroristas. Por seu lado, a fatura apresentada pelos talibãs foi a retirada de todas as tropas estrangeiras do país.

Que mudou Joe Biden?

Com Joe Biden na Casa Branca, não só os Estados Unidos mantiveram a estratégia traçada pela equipa de Donald Trump — sem tentar sequer endurecer exigências — como anteciparam a data de saída do Afeganistão de 11 de setembro para 31 de agosto.

Esse adiantamento poupou os norte-americanos ao embaraço de verem coincidir o 20.º aniversário do 11 de Setembro com o regresso dos talibãs ao poder, mas não protegeu Washington de acusações de traição por parte de afegãos nem de uma imagem de humilhação, patente no caos em que decorreram os últimos dias da retirada, com 183 mortos num atentado do autodenominado Estado Islâmico (Daesh) no aeroporto de Cabul (entre os quais 12 norte-americanos) e milhares de afegãos a escalarem aviões em tentativas desesperadas para saírem do país.

Sair ou ficar pode ser a diferença entre viver ou morrer. É o que se depreende das palavras ao Expresso de um afegão que tem a cabeça a prémio, por ter colaborado com os Estados Unidos: “Os talibãs têm muito dinheiro proveniente dos serviços alfandegários, mas não percebem nada de governação. Estão unidos a matar e matar. Não têm nenhuma humanidade, nenhuma dignidade.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 23 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui