A relação entre as Coreias é uma ferida aberta desde os tempos da Guerra Fria. Cicatrização vai demorar
Península da Coreia: a norte, a República Popular Democrática da Coreia; a sul, a República da Coreia FREE*SVG
1. Porquê assinar um tratado de paz?
Porque, desde que terminou a guerra entre ambas (1950-1953), as duas Coreias assinaram um armistício (cessação temporária de hostilidades), mas nunca um tratado de paz. Isso significa que, tecnicamente, continuam em guerra. Esta semana, durante uma visita à Austrália, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, afirmou que as Coreias, a China e os Estados Unidos chegaram a um “acordo de princípio” para alcançar um encerramento formal do conflito.
2. Porque foi Moon a fazer o anúncio?
O Presidente da Coreia do Sul está pessoalmente apostado em resolver o problema, na crença de que será um passo decisivo para trazer Pyongyang para as conversações sobre a sua desnuclearização. Moon está a meses de deixar o cargo. A 9 de março haverá presidenciais e ele não pode recandidatar-se (a reeleição não é permitida na Coreia do Sul). Em setembro, diante da Assembleia-Geral da ONU, disse: “Mais do que tudo, uma declaração de fim da guerra marcará um ponto de partida fundamental na criação de uma nova ordem de ‘reconciliação e cooperação’ na península coreana.”
3. O que pode levar a que não aconteça?
Sanções internacionais, por exemplo. Uma pré-condição colocada pela Coreia do Norte para dialogar sobre o fim do conflito é o abandono da atitude “hostil” dos Estados Unidos. Este requisito foi interpretado como exigência do levantamento das sanções. Ora, domingo passado (Dia Internacional dos Direitos Humanos), véspera do anúncio de Moon Jae-in, Washington informou que imporia novas sanções contra a Coreia do Norte — as primeiras da era Biden.
4. Porque são os EUA parte da questão?
Os Estados Unidos participaram na Guerra da Coreia ao lado de Seul. Hoje, têm cerca de 28.500 soldados estacionados a sul do paralelo 38 (que separa os dois países) e realizam exercícios militares anuais conjuntos com os sul-coreanos. Para a Coreia do Norte, esses treinos mais não são do que preparativos para uma invasão do Norte.
5. Quão realista é a reunificação?
“A perspetiva da reunificação entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul é diferente em ambos os lados”, explicou ao Expresso Jenny Town, diretora do site “38 North”, de análise sobre a Coreia do Norte. “A Coreia do Norte ainda olha para o acordo de 2000, que apontava para uma confederação: um país, dois governos. A Coreia do Sul tende a olhar para um hipotético país único.”
Artigo publicado no “Expresso”, a 18 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui
Com atividade em Moçambique há mais de 20 anos, a Fundação Aga Khan acaba de lançar um projeto de fortalecimento do sector agrícola na província de Cabo Delgado, fustigada pela violência jiadista. Financiado pelo Governo da Noruega, visa em especial mulheres e jovens
Jovem formado com o apoio da Fundação Aga Khan Moçambique lidera uma equipa na produção de espécies florestais FUNDAÇÃO AGA KHAN MOÇAMBIQUE
Nos últimos quatro anos, a região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, emergiu no mapa-mundo como um dos pontos negros do jiadismo internacional. Para as populações daquela província, o quotidiano transformou-se num filme de terror, com ataques de grupos armados contra aldeias, execuções bárbaras, raptos e muita gente em fuga.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), a violência em Cabo Delgado já provocou mais de 3100 mortos e 800 mil deslocados internos, 27% dos quais são mulheres e 52%, crianças.
Em agosto, quando visitou Moçambique, o diretor-geral da OIM, António Vitorino, lançou um apelo: “Exorto à rápida expansão da assistência humanitária para apoiar centenas de milhares de indivíduos deslocados pela contínua insegurança em Cabo Delgado”. É o que já está a fazer a Fundação Aga Khan, que há duas semanas lançou um projeto de desenvolvimento nas áreas da agricultura, segurança alimentar e coesão social.
“O projeto visa contribuir para o desenvolvimento e recuperação da atividade agrícola das comunidades deslocadas acolhidas pelas comunidades residentes, através do fornecimento de materiais, insumos agrícolas e conhecimento técnico”, explica ao Expresso Nazim Ahmad, representante diplomático da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento (AKDN, sigla em inglês) em Moçambique.
Mulher é atendida numa brigada móvel de prestação de cuidados de saúde oferecida à sua comunidade com apoio da Fundação FUNDAÇÃO AGA KHAN MOÇAMBIQUE
O principal alvo são as mulheres e os jovens dos distritos de Chiúre e Metuge, perto de Pemba, e o universo de beneficiários ascende a 15 mil pessoas, entre os quais 3000 deslocados internos que fugiram à violência.
“Esses dois distritos são os que receberam o maior número de deslocados internos”, diz Nazim Ahmad. “As condições de segurança estão asseguradas, dado que os distritos a sul da província de Cabo Delgado estão fora da zona de conflito.”
Na prática, os principais serviços prestados pelo projeto passam por:
equipar famílias com kits agrícolas
melhorar as condições pós-colheita para minimizar as perdas
estabelecer ligações de mercado entre as famílias e atores económicos locais
formar lavradores em “agricultura inteligente face ao clima”, um conceito desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)
melhorar as infraestruturas e as condições de ensino e aprendizagem em escolas agrícolas
estabelecer famílias deslocadas em terrenos seguros
“Este projeto irá permitir o financiamento de ações nas áreas da segurança alimentar, resiliência socioeconómica e coesão social”, resume o dirigente da AKDN.
No terreno, a intervenção é facilitada pelo trabalho dos chamados Comités de Desenvolvimento de Aldeias (CDA), criados e desenvolvidos com o apoio da Fundação Aga Khan Moçambique. Organizações de base comunitária, os CDA são compostos por pessoas reconhecidas localmente pela sua capacidade de influência em aspetos importantes do desenvolvimento local. Neste projeto, serão cruciais para “apoiar a integração de deslocados internos”, diz Nazim Ahmad.
Outra instituição essencial ao desenvolvimento do projeto é o Instituto Agrário de Bilibiza (IABil), em Ócua (distrito de Chiúre), que a Fundação Aga Khan tem apoiado, na formação de técnicos agrários qualificados. Este polo recebeu 370 alunos e todo o corpo docente do IABil de Quissanga, que foi atacado, pilhado e destruído pelos insurgentes, em inícios de 2000.
Este projeto é financiado pelo Governo da Noruega e está orçado em 10 milhões de coroas norueguesas (980 mil euros).
Assinatura do protocolo entre a Fundação Aga Khan e o Governo da Noruega, representados por Nazim Ahmad e o embaixador da Noruega em Moçambique, Haakon Gram-Johannessen (ambos em pé), a 23 de novembro passado FUNDAÇÃO AGA KHAN MOÇAMBIQUE
Presente em 30 países — incluindo Portugal, há 35 anos, com intervenção junto de comunidades migratórias —, a Fundação Aga Khan está em Moçambique desde 1998, ano em que foi assinado um acordo de cooperação entre a instituição e o Governo de Maputo.
Em todo o país, a Fundação Aga Khan Moçambique emprega 1180 pessoas, das quais 97% são moçambicanas e 63% mulheres.
Em Cabo Delgado — a província mais pobre, apesar de ser a mais rica em recursos naturais —, além de Metuge e Chúre, a instituição opera também nos distritos de Ancuabe, Pemba, Mecufi, Montepuez, Balama, e Namuno. A degradação das condições de segurança, sobretudo a partir de 2020, obrigou a Fundação a adaptar-se à nova realidade. Mas sem nunca abandonar o país.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui
A ideia nasceu no ano passado, durante os piores dias da pandemia em Portugal: desenhar ilustrações, vendê-las e entregar o dinheiro a associações necessitadas. Assim nasceu “Uma Causa Por Dia”, um projeto que se repete este ano e com o qual duas ilustradoras pretendem também alertar para causas
Um dia que a pandemia de covid-19 seja passado e alguém se aventure a descrever o seu impacto no mundo, paralelamente ao seu efeito devastador e a todos os relatos de sofrimento e morte, haverá também histórias felizes de gente que não se deu por vencida.
Então ganharão importância, momentos como aquele, em pleno período de confinamento total em Portugal, em que Diana telefonou à amiga Maria para desafiá-la para um projeto a quatro mãos.
“O objetivo era simples: angariar fundos para associações”, recorda Maria Reis Rocha. “Somos ambas ilustradoras, sempre fizemos voluntariado, conhecíamos associações e sabíamos das dificuldades pelas quais passavam.” E foi desta forma simples que se lançaram a desenhar ilustrações que contribuíssem para criar consciencialização por causas.
Paralelamente, havia uma motivação que brotara de um incómodo… “Com as pessoas fechadas em casa, e muito tempo passado nas redes sociais, começou a haver muita desinformação e ódio”, acrescenta Diana Reis. “Quisemos combater isso com o pouco que tínhamos ao nosso dispor — o desenho.”
Fazer tudo da noite para o dia
Da ideia à concretização foram umas semanas de dedicação a tempo inteiro. “Durante 30 dias, lançamos uma ilustração por dia: 15 minhas e 15 da Maria, referentes a 15 causas. E ligamos cada causa a uma associação”, explica Diana. “Daí o projeto chamar-se ‘Uma Causa Por Dia’. Íamos desenhando à medida que íamos publicando. Foi uma loucura de um mês.”
“Tínhamos de fazer tudo da noite para o dia. Estávamos a montar o projeto enquanto ele se montava a si próprio”, acrescenta Maria. E tudo em contexto de pandemia. “Diziam-nos: ‘Sabem que vão ter de abrir uma associação? Se querem receber esses montantes, o dinheiro não pode entrar nas vossas contas’. Então, no dia seguinte, fomos criar uma associação sem fins lucrativos… com tudo confinado…”
Ao todo, no ano passado, as amigas angariaram 20 mil euros. Um ano volvido, deixaram que o coração falasse mais alto e continuaram com o projeto. “Como tivemos de criar uma associação, para que tudo fosse legal, este ano decidimos voltar a fazer o projeto”, diz Diana. “Já conseguimos fazer tudo com muito mais tempo.”
Fazer de tudo, até de correio
Comparativamente a 2020, “Uma Causa Por Dia” desenvolve-se, este ano, com ligeiras diferenças. “No ano passado, escolhemos 15 associações. Foi demasiado, o nosso foco perdeu-se muito. Éramos só duas a fazer tudo”, diz Diana.
Para além das ilustrações, construíram o site do projeto, recebiam as encomendas, contactavam com a gráfica, emitiam faturas, iam aos correios despachar as compras. Na zona de Lisboa, onde vivem, chegavam mesmo a fazer entregas em mãos próprias…
“Fazer tudo isto para 15 associações foi muito, então este ano decidimos reduzir para metade e escolhemos as sete causas que nos tocam mais.”
A verba apurada reverterá a 100% para as sete, repartida em partes iguais. E resultará da venda de tudo o que Diana e Maria criaram: um livro, dois conjuntos de postais e duas coleções de prints em formato A3, numeradas, assinadas à mão e vendidas com um certificado de autenticidade. Quer o livro, quer os postais são impressos em papel reciclado.
Em comparação com 2020, as artistas repetiram duas causas por serem aquelas que mais lhes tocam: a saúde mental para a Maria e a dos animais para a Diana. Quanto às associações a apoiar, apenas mantiveram uma: o Fumaça. “Para nós, a base de qualquer ação está na informação e na educação. Quisemos manter também a informação como uma das nossas causas prioritárias”, explica Diana.
Um contacto especial
Uma das preocupações das ilustradoras foi associar, no projeto, associações maiores e outras menos conhecidas. O bom trabalho realizado no ano passado, e a credibilidade que conquistaram, levou algumas associações a manifestarem vontade de se associar ao projeto. Uma delas foi a Cruz Vermelha.
“Ficamos completamente incrédulas quando nos ligaram”, admite Diana. “É ótimo por tudo, para darem credibilidade ao projeto, para aprendermos com eles e também para chamarem gente para conhecerem outras associações. Foi espetacular!”
Para além de um livro, Diana e Maria ilustraram postais e ‘prints’ A3 com mensagens alusivas a diversas causas TIAGO MIRANDA
A amizade entre Diana e Maria, de 33 anos, remonta aos tempos passados na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde estudaram Design e Comunicação. Ambas já saíram do país, para trilharem caminhos distintos, mas nunca perderam o contacto. De regresso a Portugal, trabalham agora como freelancers.
“Nós sempre estivemos ligadas a causas sociais. Sempre fomos ativistas e mexemo-nos muito”, diz Diana. “Mas constituirmos uma associação para angariar fundos e que contribua para criar consciencialização, provavelmente nunca teria acontecido se não fosse a pandemia.”
As causas são nobres e as duas amigas muito esforçadas. Para chegarem ao grande público, têm contado com o apoio de personalidades do mundo da cultura, a que chegaram com relativa facilidade dado Maria ser sobrinha Zé Pedro, o carismático guitarrista dos Xutos e Pontapés, que foi padrinho do Movimento UPA (Unidos Para Ajudar), de sensibilização para a saúde mental.
“Era essencial juntarmos celebridades. Não íamos a lado nenhum só a informar os nossos seguidores. Não ia sair daquela bolha”, diz Maria. “Fomos muito chatas!”
Começaram pelos Xutos e, a partir daí, a palavra foi passando de amigo para amigo, ao estilo de uma verdadeira comunidade. “As celebridades podem ajudar de forma gigante: dando a cara para credibilizar o projeto, porque ninguém nos conhece, e ajudando-nos a espalhar a mensagem, porque têm muito alcance.”
No ano passado, o lançamento da campanha contou com um vídeo de apelo feito por caras conhecidas. “Artistas de todo o lado, músicos, bailarinos, a quererem fazer algo para ajudar. Pessoas que também estavam numa situação difícil, com falta de trabalho”, elogia Maria.
“Uma Causa Por Dia” condensa talento, generosidade, amizade e altruísmo, e também uma vontade férrea de continuar, apesar das dificuldades. Diz Maria: “Quando começámos, como não sabíamos no que nos estávamos a meter, pensámos que seria uma coisa para o momento da pandemia. Depois, percebemos que as associações precisam de ajuda constante. E fica o bichinho de querermos ajudar.”
“Não queremos parar”, acrescenta Diana. “Estamos a ver de que forma podemos tornar a nossa associação sustentável. No ano passado, estivemos sete meses sem trabalhar, só a fazer isto. Gastámos as poupanças todas. Este ano, a ter de trabalhar, andamos a mil. Este é um projeto completamente voluntário.”
A duas semanas do Natal, há ainda livros, postais e ilustrações disponíveis para venda. Se o leitor não conhece o trabalho das organizações a que se destina o dinheiro angariado, o Expresso sugere-lhe que adquira o livro e se deixe guiar pela pequena Leonor, que num assomo de curiosidade descobriu como cada uma das sete pode, no respetivo campo de intervenção, contribuir para mudar o mundo.
(FOTO PRINCIPAL As ilustradoras Diana Reis (à esquerda) e Maria Reis Rocha, fotografadas no Jardim do Campo Grande, em Lisboa TIAGO MIRANDA)
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui
Ao apostar, em simultâneo, no desenvolvimento da economia e do programa nuclear, Kim Jong-un mergulhou o país num círculo vicioso
(IMAGEM Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte VECTORPORTAL)
Quando Kim Jong-un (KJU) subiu ao poder, muitos invocaram a sua juventude, inexperiência e a forma súbita como herdou a presidência — após a morte do pai de ataque cardíaco, faz 10 anos na próxima sexta-feira — para lhe perspetivarem um mandato curto. “Especulou-se muito quanto à possível queda iminente do regime”, comenta ao Expresso Rita Durão, especialista em estudos asiáticos. “Dez anos depois, o regime perdura, apesar de processos de transição de poder, desastres naturais, sanções económicas internacionais e até a pandemia.”
Para esta doutoranda em Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, o principal sucesso da liderança de KJU “é a capacidade de resiliência da Coreia do Norte, que prova, ano após ano, que, apesar das dificuldades, está cá para ficar”, na senda do que aconteceu com os seus antecessores.
Um ‘negócio de família’
Desde a fundação do país, em 1948, que a liderança é um ‘negócio de família’. Oficialmente uma república, a Coreia do Norte é governada ao estilo de uma dinastia, com o poder a passar de pai para filho por morte do primeiro: Kim Il-sung mandou até 1994, Kim Jong-il até 2011 e KJU desde então.
“Kim Il-sung [avô do líder] e Kim Jong-il [pai] viveram num contexto histórico diferente e, a certos níveis, mais complexo”, continua Rita Durão. “As experiências na luta contra o imperialismo japonês [1910-1945] e na Guerra da Coreia [1950-1953] marcaram o regime de Kim Il-sung, enquanto Kim Jong-il assumiu o poder no final da Guerra Fria, após a queda da URSS e o desafio da adaptação do país a uma nova ordem internacional.”
O programa nuclear é simultaneamente a solução e a base de vários problemas com que o regime se depara
Chegado ao poder com 29 anos, KJU revelou-se um líder “menos ideológico do que o seu pai ou avô e mais extrovertido do que o pai”, acrescenta ao Expresso Jenny Town, diretora do “38 North”, um site de análise sobre a Coreia do Norte que vai buscar o nome ao paralelo que divide a península coreana em dois países. “Enquanto os antecessores construíram a sua legitimidade na condução do país através de conflitos e adversidades extremas, KJU, sem essa experiência, tem tentado construir um legado de prosperidade económica, e não apenas de sobrevivência.”
Com memórias da “Marcha Árdua” — um período de fome que afetou milhões de norte-coreanos entre 1994 e 1998, era o pai Presidente —, KJU assumiu a missão de fazer com que o povo não tivesse mais de morrer à míngua. Mas esse objetivo permanece uma intenção.
A ameaça da fome
Após uma visita à Coreia do Norte para avaliar o impacto da grave seca de 2018, o Programa Alimentar Mundial da ONU calcula que 11 milhões dos 25 milhões de norte-coreanos sofram de subnutrição. O cálculo não considera ainda os efeitos da pandemia. “A Coreia do Norte foi dos primeiros países a fechar fronteiras para evitar a entrada do vírus”, recorda Rita Durão. “A imposição de sanções internacionais — que não foram levantadas, como a Coreia do Norte pediu —, o impacto da pandemia e o aparente abandono de reformas económicas fazem temer pelo futuro económico do país e pelo possível surgimento de novo período de fome.”
“O acesso aos alimentos é uma preocupação séria. Crianças e idosos vulneráveis correm o risco de morrer à fome”, alertou Tomás Ojea Quintana, relator da ONU para os direitos humanos na Coreia do Norte, num relatório de 8 de outubro.
O acesso aos alimentos é uma preocupação séria. Crianças e idosos vulneráveis correm o risco de morrer à fome
A prioridade dada por KJU à proximidade com o povo, à promoção do bem-estar e à prosperidade não significou a abertura do país nem a rejeição do programa nuclear. “Comparativamente aos líderes anteriores, KJU é quem mais tem apostado no desenvolvimento do programa nuclear e balístico. Acredita ser esse o meio que lhe assegura a sobrevivência face a ameaças externas, nomeadamente dos Estados Unidos”, diz a analista portuguesa. “É também com KJU que vemos o programa nuclear desenvolver funções adicionais para o regime, tornando-se fonte de prestígio a nível externo e projetando a imagem da Coreia do Norte como potência nuclear, como os Estados Unidos, China e Rússia.”
“KJU parece ser um líder pragmático e disposto a correr riscos, embora a forma como conduziu o país durante a pandemia e antes, ao longo dos fracassos diplomáticos de 2018/2019, tenha enorme impacto na forma como governará daqui em diante”, diz Jenny Town. KJU coprotagonizou manchetes ao realizar cimeiras com os homólogos da Coreia do Sul e Estados Unidos, Moon Jae-in e Donald Trump. Porém, nenhum diálogo frutificou e hoje vinga a desconfiança de sempre.
Nuclear: bom e mau
O desenvolvimento simultâneo da economia e do programa nuclear e balístico mergulham o país num “círculo vicioso”, continua Rita Durão. “A Coreia do Norte realiza testes devido à ameaça externa. O programa nuclear é necessário para salvaguardar a segurança e para que o regime possa, posteriormente, canalizar recursos para a economia. No entanto, é a constante aposta no nuclear que origina sanções internacionais. O programa nuclear é a solução e a base de problemas com que o regime se depara.”
Com uma saúde fragilizada pelo tabaco e pela obesidade, KJU está frequentemente na origem de rumores sobre a sua sucessão. “A sua saúde é importante, já que lidera um país com armas nucleares e pouco se sabe sobre quem as controla”, conclui Jenny Town. “Mas há uma reação exagerada sempre que ele desaparece dos olhares públicos.”
Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui
Numa semana especial para o jornalismo, a organização Repórteres Sem Fronteiras tomou o pulso à liberdade de imprensa na China e concluiu que “sob a liderança do Presidente Xi Jinping, o Partido Comunista Chinês aumentou drasticamente o seu controlo sobre jornalistas”. Para este retrato negro contribui, entre outros, 127 jornalistas presos e uma ampla estratégia de controlo do acesso à informação a que nenhum chinês escapa
Nas últimas semanas, duas mulheres têm sido rostos dos limites ao exercício de direitos e liberdades na República Popular da China. Uma delas é Peng Shuai, tenista de 35 anos que representou o país em três edições dos Jogos Olímpicos e que acusou um ex-vice-primeiro-ministro chinês de a ter forçado a relações sexuais. Após a denúncia, a atleta desapareceu das redes sociais e da vida pública. O Comité Olímpico Internacional conseguiu contactá-la, mas há suspeitas de que possa estar refém das autoridades de Pequim, proibida de sair do país e forçada a negar a história que denunciou.
Outra chinesa em rota de colisão com as autoridades chinesas é Zhang Zhan, jornalista de 38 anos que, no início da pandemia de covid-19, expôs a situação na cidade de Wuhan, onde primeiro foi identificado o vírus SARS-CoV-2, publicando nas redes sociais mais de 100 vídeos filmados com o telemóvel. A 28 de dezembro passado, foi condenada a quatro anos de prisão.
“Em maio de 2020, Zhang Zhan foi levada pela polícia do seu hotel em Wuhan. A sua reportagem sobre o surto de covid-19 no epicentro da pandemia foi interrompida de forma abrupta. Na prisão, tem feito greves de fome para reclamar os seus direitos constitucionais enquanto cidadã chinesa, poder expressar-se livremente e protestar contra a sua detenção arbitrária. O seu advogado pôde visitá-la algumas vezes e disse que, desde o primeiro dia, ela não fez uma única refeição normal.”
Este relato foi feito por Jane Wang, coordenadora da campanha #FreeZhangZhan, durante um webinar organizado pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que este ano atribuiu um prémio à jornalista chinesa. “No final de julho”, continuou Wang, “Zhang Zhan foi internada num hospital penitenciário, amarrada a uma cama e alimentada à força durante 11 dias. No início de agosto, a sua família foi informada de que ela pesava menos de 40 quilos e tinha sintomas de má nutrição grave. No final de outubro, não conseguia andar ou sequer levantar a cabeça.”
O webinar dos RSF, a que o Expresso assistiu terça-feira, visou a apresentação do novo relatório da organização sobre o estado do jornalismo na China. Nas palavras de Christophe Deloire, secretário-geral dos RSF, o documento expõe “como o regime tenta construir uma sociedade-modelo sem jornalismo” e “uma sociedade onde o Estado diz aos cidadãos o que se pressupõe que possam pensar e na qual partilhar informação factual é crime”.
O relatório constata ainda que “sob a liderança do Presidente Xi Jinping, o Partido Comunista Chinês aumentou drasticamente o seu controlo sobre jornalistas”, não só na China continental como em Hong Kong e Macau.
127
jornalistas estão, atualmente, presos na China. Trata-se de uma parte considerável dos 293 repórteres que, segundo o Comité para a Proteção de Jornalistas, estão detidos em todo o mundo
Um caso referido no relatório é o de Cheng Lei, jornalista australiana nascida na China que trabalhava como pivô na China Global Television Network (CGTN). Em novembro de 2019, foi oradora na WebSummit, em Lisboa; meio ano depois era detida na China, acusada de “fornecer segredos de Estado a um país estrangeiro”. Desde então, continua sem data de julgamento marcada.
“Para silenciar os jornalistas, o regime chinês acusa-os de ‘espionagem’, ‘subversão’ ou ‘fomento de altercações e provocação de problemas’, três ‘crimes de bolso’, termo usado por especialistas em direito chinês para qualificar ofensas que são definidas de forma tão ampla que podem ser aplicadas a quase todas as atividades”, lê-se no relatório dos RSF. As duas primeiras acusações podem valer prisão perpétua.
Convite traiçoeiro para um chá
Com 82 páginas, o relatório dos RSF tem como título “O grande salto atrás do jornalismo na China”, num jogo de palavras alusivo ao “Grande Salto em Frente”, a campanha económica e social com que Mao Tsé-Tung pretendeu modernizar a China, entre 1958 e 1962.
Entre os vários obstáculos à liberdade de informação na China, o documento destaca:
Bloqueio de sites na Internet
Vigilância de grupos de conversação online, como a app WeChat, que se tornou uma espécie de cavalo de Tróia da polícia
‘Exército’ de trolls ao serviço do regime
Colocação de jornalistas em regime de “Vigilância Residencial num Local Designado”, durante meses
Convite para “um chá” com responsáveis pela censura e propaganda, como forma de intimidação
Diretrizes diárias do Partido Comunista Chinês sobre assuntos sensíveis, como Tibete, Xinjiang, Hong Kong, Taiwan, corrupção e dissidência
Aumento de assuntos tabu sobre os quais é proibido reportar, como Tiananmen e, mais recentemente, o movimento #Me Too e a covid-19
Confissões forçadas na televisão, por parte de jornalistas detidos pelo regime
Lei da Segurança Nacional (no caso de Hong Kong)
A app Study Xi
Adotada para “fortalecer o país”, a aplicação Study Xi — uma encomenda do Partido Comunista Chinês à gigante do comércio digital Alibaba — é uma ferramenta educativa destinada a difundir o pensamento do Presidente Xi Jinping. Desde outubro de 2019, os jornalistas chineses têm sido forçados a fazer o download dessa app para renovar a carteira profissional.
A aplicação permite que o regime avalie o conhecimento e a lealdade dos jornalistas à doutrina oficial, mas mais do que isso… também permite que as autoridades espiem o conteúdo dos smartphones dos jornalistas, pondo em perigo profissionais e fontes.
“Sabemos que a livre circulação de informação é a fundação de uma sociedade civil e que informar os cidadãos é a fundação da democracia”, disse Wu’er Kaixi, antigo dirigente dos protestos estudantis na Praça Tiananmen, durante a apresentação do relatório dos RSF.
“Na China, não temos democracia nem sociedade civil, temos totalitarismo, um regime que oprime a dissidência do seu povo, envia jornalistas para a prisão, dissemina informação falsa e transforma os media do Estado numa máquina de propaganda que mente não só ao seu povo como a todo o mundo, mesmo perante a verdade.”
O ativista justifica o declínio da liberdade de imprensa na China com “as atrocidades que o regime comete contra o povo uigur. No século XXI, [a China] mantém mais de um milhão de uigures em campos de concentração”, diz Wu’er Kaixi, que se questiona como é possível que tal aconteça nos dias de hoje.
“Como pode um regime realizar tal ato? Com a tolerância do mundo”, continua. “O mundo tem concordado com a China. Não fazer nada, é concordar”, diz. “É muito importante acordarmos que as democracias ocidentais lideradas pelos EUA e a Europa têm sido cúmplices nas últimas décadas. E é hora de parar.”
Badiucao, o cartoonista político que desenhou a capa do relatório dos RSF, e que vive na Austrália, viu recentemente o Governo chinês tentar cancelar uma exposição sua num museu de Brescia, no norte de Itália. A pressão foi exercida de múltiplas formas: sobre as autoridades italianas, nas redes sociais do artista, junto da sua família em Xangai e através de visitas suspeitas, durante a sua estadia em Itália, onde recebeu ameaças de morte de forma velada.
“A liberdade do jornalismo na China não diz respeito apenas ao bem-estar das pessoas na China. Também tem tudo a ver com as pessoas de fora da China, com a sociedade democrática, com os países que ainda gozam de liberdade de imprensa”, disse Badiucao.
“A propaganda da China como um vírus, que não pára dentro da China e infetará o mundo exterior, e o objetivo é tirar a liberdade de todos. O problema da liberdade de imprensa da China é também um problema nosso”
Badiucao cartoonista político chinês
A divulgação deste relatório teve em conta a realização de dois eventos, nos próximos dias, com potencial para indispor a China. Por um lado, a Cimeira pela Democracia, organizada de forma virtual pelo Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, esta quinta e sexta-feiras, que reunirá cerca de 110 países. “A China, claro, não foi convidada, mas estará com toda a certeza nas mentes de todos, uma vez que o regime de Pequim é uma das mais importantes ameaças à democracia em todo o mundo”, disse Christophe Deloire.
Por outro, a entrega do prémio Nobel da Paz, sexta-feira, a dois jornalistas — a filipina Maria Ressa e o russo Dmitry Muratov — numa cerimónia em Oslo, na Noruega. “Será uma mensagem muito forte e poderosa para os predadores da liberdade de imprensa e um encorajamento para todos aqueles que defendem o jornalismo em todo o mundo”, concluiu o secretário-geral dos RSF. “Esta é, na realidade, uma semana muito especial para o jornalismo.”
Os Repórteres Sem Fronteiras divulgaram apenas as versões inglesa e francesa do relatório, disponíveis neste link. A 24 de janeiro, dez dias antes dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, o documento será divulgado em outras oito línguas, inclusive em português
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de dezembro de 2021. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.