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“Não podemos ter mais um Estado falhado naquela região”

O Líbano está em diálogo com o Fundo Monetário Internacional para elaborar um plano que resgate o país daquela que é considerada uma das crises económicas mais graves dos últimos 150 anos, em todo o mundo. A União Europeia está disposta a ajudar, mas não a qualquer preço. Ao Expresso, a eurodeputada Isabel Santos, regressada de uma visita ao país, traça linhas vermelhas que os 27 não querem ver ultrapassadas para continuar a ajudar o Líbano

Os números não deixam margem para dúvidas. A União Europeia (UE) tem sido uma parceira de todas as horas do Líbano, muito em especial nos maus momentos. Nos últimos 10 anos, a UE desembolsou mais de 1500 milhões de euros para ajudar o Líbano em contextos não humanitários e em situações de emergência, como o acolhimento de refugiados, a pandemia de covid-19 ou a grande explosão no porto de Beirute, a 4 de agosto de 2020, considerada um dos maiores rebentamentos não nucleares da História.

Todo este apoio económico não estancou, porém, a vertiginosa queda do Líbano no abismo de uma crise tal que levou o Banco Mundial, no início de junho, a posicionar a situação libanesa “possivelmente no top-3 das crises mais graves em todo o mundo desde meados do século XIX”.

Esta crise, bem como alguns aspetos políticos que estão na sua origem, está a forçar a uma redefinição da relação entre o Líbano e a União Europeia — que têm um Acordo de Associação em vigor desde 2006.

“A UE não pode continuar a apoiar sem que se encontre um plano de recuperação para o país”, afirmou ao Expresso a eurodeputada Isabel Santos, acabada de regressar de uma visita de dois dias ao Líbano, onde chefiou uma delegação do Parlamento Europeu. “É importante que se chegue a acordo com o Fundo Monetário Internacional [FMI] e que, com base nesse apoio, a UE também possa participar.”

“Os atores políticos libaneses têm de entender, de uma vez por todas, que não há mais espaço para falhanços. Tem de haver um compromisso muito sério de todos na reconstrução do país. Não podemos estar sempre à espera de que haja algo ou alguém que nos salve. A solução para o Líbano tem de vir de dentro.”

O Líbano está, há cerca de um mês, em conversações com o FMI na busca de um plano de resgate para o país. No início desta semana, o primeiro-ministro libanês, o empresário milionário Najib Mikati, assegurou que as negociações preliminares estão a avançar. “Não sei qual vai ser o acordo, mas parece-me claro que o FMI exigirá transparência, regras de boa governação e de combate à corrupção”, comentou a eurodeputada do PS.

“Claro que a ajuda humanitária continua a ser disponibilizada através de organizações no terreno, que fazem chegar esse apoio às pessoas necessitadas”, continuou Isabel Santos. “Mas há todo um processo de assistência macrofinanceira que só pode ser desenvolvido depois desse acordo com o FMI.”

Salário de $3000 passou a valer $200

Em especial nos últimos dois anos, a crise irrompeu de forma impiedosa pelas casas dos libaneses. “A maioria da população só tem acesso a eletricidade duas horas por dia”, exemplificou Isabel Santos. “A libra libanesa desvalorizou 90%”, o que atirou “74% da população para uma situação de pobreza”.

“E este é um país que acolhe 1,5 milhões de refugiados… Garantir condições mínimas para estas pessoas também pesa na sociedade libanesa. Algumas delas já estão no país há 60 anos, como os refugiados palestinianos”, acrescenta a eurodeputada.

Uma reportagem publicada esta semana pela agência Reuters ilustra de forma particular a dramática perda do poder de compra no país. Os salários dos cerca de 100 músicos da Orquestra Sinfónica Nacional passaram de 3000 dólares para cerca de 200. Os instrumentistas estrangeiros foram embora, mas, escreve a Reuters no título do artigo, “como no Titanic, a orquestra do Líbano continua a tocar enquanto o país afunda”.

“É dramático vermos um país que foi considerado a Suíça do Médio Oriente num estado absolutamente deplorável”, comentou Isabel Santos.

Um sistema que só bloqueia

Em pano de fundo desta esta crise, há um estado de ingovernabilidade permanente que decorre da especificidade do sistema político. “Se houve algo comum nas conversas que a delegação do Parlamento Europeu teve com os diversos atores é que este sistema assente no modelo confessional não funciona e cria constantes bloqueios ao funcionamento do país”, disse a deputada.

“É preciso que se encontre a fórmula para uma reforma de todo o sistema e que se abandone, de uma vez por todas, um sistema baseado em quotas que tem por base a confessionalidade de diferentes grupos presentes na sociedade.”

Esse apelo foi repetido por representantes da sociedade civil, mas também por membros da classe política. “Mas há que colocar uma grande questão: se a classe política expressa essa vontade, porque não empreende as reformas?”, questiona Isabel Santos.

“Há uma classe política que está instalada, que faz um discurso que sabe que vai ao encontro daquilo que é a opinião da sociedade civil, no sentido de que é preciso mudar, mas que não se mexe para mudar. É uma classe política instalada num esquema muito próprio de equilíbrios que tem por base a pertença a grupos religiosos. E todos ganham com isso.”

Grupos confessionais

  • Oficialmente, a lei libanesa reconhece 18 grupos religiosos.
  • O poder político é distribuído de forma proporcional pelas várias comunidades, consoante o seu peso demográfico.
  • O Presidente libanês é sempre um cristão maronita, o primeiro-ministro um sunita e o presidente do Parlamento um xiita.
  • As 18 confissões reconhecidas são: xiitas, sunitas, alauitas, ismaelitas, maronitas, ortodoxos gregos, católicos gregos, ortodoxos arménios, católicos arménios, ortodoxos siríacos, católicos siríacos, assírios nestorianos, caldeus, coptas, católicos romanos, protestantes, drusos e judeus.

“É um sistema que só bloqueia”, comenta a eurodeputada portuguesa. “Quando se fala na necessidade de substituir um ministro que faz parte de determinada fação religiosa, logo essa fação proclama a saída de outro ministro de outro grupo político. Isto não é aceitável. As pessoas têm de governar por competência e não por pertença a um ou outro grupo identitário.”

Na prática, esta complexa teia político-religiosa contribui, muitas vezes, para períodos de paralisia. As últimas eleições gerais, por exemplo, realizadas a 6 de maio de 2018, estavam originalmente marcadas para… 2013 (foram adiadas em 2013, 2014 e 2017). As próximas eleições deverão realizar-se a 27 de março de 2022.

O Governo atual, em funções desde 10 de setembro, surgiu após um impasse político de 13 meses. Mas tinha apenas um mês de vida quando foi desafiado por poderosos interesses sectários. A meio de outubro, em Beirute, uma manifestação convocada pelos movimentos xiitas Hezbollah e Amal originou tiroteios de que resultaram seis mortos — e o receio do regresso à guerra civil (1975-1990).

O protesto teve como objetivo exigir o afastamento do juiz Tarek Bitar, que lidera a investigação à explosão no porto da capital libanesa — provocada pelo armazenamento, sem condições de segurança, de 2750 toneladas de nitrato de amónio, que provocou 214 mortos, mais de 6500 feridos e a destruição de vários bairros da cidade. O magistrado quer interrogar políticos de todos os quadrantes, o que se tem revelado desafiante.

Protestos deste tipo indiciam uma tentativa de boicote à investigação, para que não avance, “ou pelo menos não avance num certo sentido”, afirmou Isabel Santos ao Expresso.

“Há políticos que se negam a comparecer diante do juiz e a prestar declarações, o que não é de todo aceitável. Ninguém está acima da lei e a impunidade não pode ser lei em lado nenhum”, acrescentou. “Os acontecimentos em torno da investigação à explosão têm sinais muito preocupantes de ingerência no poder judicial, o que não pode ser de todo aceite pela UE. A justiça não pode ser condicionada no seu funcionamento. Essa é uma linha vermelha que não pode ser ultrapassada.”

O poder das milícias

Insanáveis diferenças identitárias aliadas à degradação económica contribuem para um quotidiano altamente explosivo. “As forças de segurança vivem numa situação muito má, estão com restrições nos vencimentos, com condições de vida absolutamente precárias. Tudo isto acrescenta muita preocupação”, desde logo em relação à segurança do país, disse Isabel Santos. “O Líbano não pode ficar na mão de milícias, sejam elas de que grupo forem.”

Em Beirute, a delegação da UE encontrou-se com o Presidente Michel Aoun, com o presidente do Parlamento, com o vice-primeiro-ministro (que tutela a negociação com o FMI) e com o ministro da Administração Interna (que tem a seu cargo as questões de segurança e a gestão do processo eleitoral).

Os quatro eurodeputados reuniram-se com membros da sociedade civil, que expressaram “um grau enorme de desconfiança em relação a todo o sistema político”, e familiares das vítimas da explosão no porto. “Foi um encontro muito marcante, pela carga emocional que comporta e pelo sentimento de injustiça que estas pessoas trazem dentro de si, e que ultrapassa a explosão e a perda dos seus familiares”, concluiu Isabel Santos.

“O sucedido no porto de Beirute é só o acontecimento mais visível do acumular de muitas coisas num Estado canibalizado pela corrupção, pela impunidade, pela desordem total. É preciso encontrar uma saída. Não podemos ter mais um Estado falhado naquela região.”

(FOTO A missão do Parlamento Europeu, na companhia do Presidente libanês, Michel Aoun (ao centro), no Palácio Baabda, em Beirute. Isabel Santos está de vestido GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de novembro de 2021. Pode ser consultado aqui

COP26, nono dia. Obama fez ‘mea culpa’, um ministro discursou de calções e uma ONG apurou que a maior delegação é a dos lobistas dos fósseis

A quatro dias do fim da COP26, o ex-Presidente norte-americano Barack Obama monopolizou as atenções, com uma intervenção centrada nos dramas que enfrentam os pequenos Estados insulares, vulneráveis à subida dos oceanos. Um deles, o Tuvalu, recorreu à criatividade para mostrar que está em vias… de desaparecer

Simon Kofe, ministro dos Negócios Estrangeiros do Tuvalu, gravou a sua mensagem para a COP26 com os pés dentro da água do Oceano Pacífico REUTERS

A situação tem a sua graça, ao ponto de o próprio protagonista rasgar o sorriso, como está patente na foto que ilustra este texto. Mas o problema é realmente grave e só essa circunstância levou Simon Kofe, ministro dos Negócios Estrangeiros do Tuvalu, a substituir as calças do seu fato formal por uns calções para gravar um discurso com as águas do oceano Pacífico pelos joelhos.

A pose e o cenário criaram ambiente para a transmissão de uma mensagem que acontecerá esta terça-feira na 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), em Glasgow: o Tuvalu está na linha da frente dos países mais expostos às alterações climáticas e a sua sobrevivência está ameaçada pela subida dos mares.

“A declaração sobrepõe o cenário da COP26 com situações da vida real que enfrentamos no Tuvalu devido aos impactos das mudanças climáticas e à subida do nível do mar”, disse o ministro, num comentário ao vídeo. “E destaca a ação ousada do Tuvalu para resolver questões muito prementes relativas à mobilidade humana em contexto de alterações climáticas.”

‘Uma montanha’ de cinco metros

A iniciativa do governante do Tuvalu não foi tão extrema quanto um histórico conselho de ministros do Governo das Maldivas que se realizou debaixo de água. Mas o drama do Tuvalu — um Estado insular na região da Polinésia, onde o ponto mais alto não chega aos cinco metros — está à vista de todos.

O país foi, aliás, um dos arquipélagos visitados pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, em junho de 2019, num périplo que levou o português à capa da revista “Time”, com uma expressão grave e preocupada junto ao título “O nosso planeta está a afundar-se”.

Em Glasgow, esta segunda-feira — dia dedicado ao tema “Adaptação, perdas e danos” —, coube a Barack Obama sair em defesa dos pequenos Estados insulares. O ex-Presidente dos Estados Unidos recordou as suas origens havaianas e fez um mea culpa em nome do mundo desenvolvido: “Como era verdade há cinco anos, não fizemos o suficiente e as nossas ilhas estão mais ameaçadas do que nunca”, disse.

“Todos nós temos uma parte a desempenhar, todos temos trabalho a fazer, todos nós temos sacrifícios a fazer. Aqueles de nós que vivem em grandes nações ricas têm um fardo adicional a fazer, trabalhando, ajudando e auxiliando aqueles que são menos responsáveis ​​e menos capazes mas mais vulneráveis ​​a esta crise que se aproxima.”

Era Obama quem estava na Casa Branca quando foi assinado o Acordo de Paris (2015), que comprometeu 196 Estados e a União Europeia a manterem o aquecimento global abaixo dos 2°C – e se possível abaixo dos 1,5°C.

Na sequência do Acordo, os países desenvolvidos foram instados a aumentar o seu envolvimento no combate climático, nomeadamente ajudando a mobilizar 100 mil milhões de dólares por ano (86 mil milhões de euros) para serem gastos nos países em desenvolvimento em ações conducentes à redução de emissões de gases com efeito de estufa e em projetos de adaptação às mudanças climáticas.

Esse objetivo continua por cumprir, ouviu-se em Glasgow. “Entre outros, os EUA estão lamentavelmente longe de pagar a sua parte justa do financiamento climático”, acusou o primeiro-ministro das Ilhas Fiji, Frank Bainimarama, que discursou a seguir a Obama. “Agora nós, os mais vulneráveis, somos instruídos a engolir e esperar.”

O governante recordou que, desde o Acordo de Paris, as Fiji já foram atingidas por 13 ciclones e acrescentou: “As nações desenvolvidas estão a falhar-nos”.

“É como se eu atirasse lixo para o seu quintal e dissesse para você pagar para limpá-lo, mesmo que isso signifique que você não pode pagar a hipoteca, nem comprar comida. Você não pode fazer nada porque tem de gastar todo o seu dinheiro com o lixo que eu atirei para o seu quintal”

Mia Mottley
 primeira-ministra de Barbados, país afetado pelas alterações climáticas, discursando na COP26

Segundo o diário britânico “The Guardian”, as nações africanas estão particularmente impacientes e pressionam no sentido de, ainda esta semana, se iniciarem as discussões relativas a um megapacote anual de 700 mil milhões de dólares (605 mil milhões de euros) a partir de 2025 para ajudar as nações em desenvolvimento a adaptarem-se à crise climática, designadamente na ajuda à necessária rápida descarbonização para manter o aquecimento global em 1,5°C.

“Este trabalho precisa de começar agora”, apelou Tanguy Gahouma-Bekale, o presidente do Grupo Africano de Negociadores sobre Mudanças Climáticas. “As conversações sobre finanças demoram tempo, por isso precisamos de ter um roteiro agora com etapas claras sobre como atingir as metas após 2025 que garanta o fluxo de dinheiro todos os anos.”

Lixo na rua. Um mau prenúncio?

Com a cidade escocesa tomada pela cimeira, um assunto em particular parece ter transbordado as mesas dos debates e contaminou as ruas de Glasgow — o problema do lixo. Aproveitando a importância da cimeira e todo o mediatismo que gerou, os trabalhadores da limpeza da autarquia de Glasgow iniciaram uma greve por melhores condições.

Esta segunda-feira, contabilizando já oito dias de luta, os grevistas receberam a visita, e a solidariedade, do antigo líder do Partido Trabalhista do Reino Unido Jeremy Corbyn.

Segundo a publicação “The Glasgow Times”, os trabalhadores estão a analisar uma nova proposta do município, na sequência de “conversações construtivas” no final da semana passada, que poderá levar ao fim do protesto já esta terça-feira.

A confirmar-se, será a garantia de ruas mais verdes e asseadas na reta final da COP26, que termina na sexta-feira. Já dos corredores da cimeira não há garantias de que saiam compromissos fortes e consensuais a quase 200 países que refreiem a degradação do planeta e mantenham viva a meta máxima de 1,5ºC para o aquecimento da Terra.

Uma análise da Global Witness, tornada pública esta segunda-feira, escancarou as portas de um resultado desapontante. “Se o lóbi dos combustíveis fósseis fosse uma delegação de um país na COP, seria a maior com 503 delegados”, apurou a organização internacional que se dedica a estabelecer vínculos entre a exploração de recursos naturais e conflitos, pobreza, corrupção e abusos de direitos humanos.

“O lóbi dos combustíveis fósseis na COP é maior do que o total combinado das oito delegações dos países mais afetados pelas alterações climáticas nas últimas duas décadas: Porto Rico, Myanmar, Haiti, Filipinas, Moçambique, Bahamas, Bangladesh e Paquistão”, detalha a Global Witness. E “27 delegações oficiais de países registaram lobistas de combustíveis fósseis, incluindo Canadá, Rússia e Brasil”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2021. Pode ser consultado aqui

À espera que a barba cresça para tentar fintar os talibãs

Perseguido pelo regime, um afegão revela o seu plano de fuga do país. Um relato dramático a partir de Cabul

Said estima que o pesadelo tenha durado uns 40 minutos. Uma eternidade para quem sentia a morte à distância de poucos metros. Por volta das 11 da noite, um grupo de homens identificados com os talibãs bateu à porta da casa dos seus pais em Cabul, capital do Afeganistão. Vinham buscá-lo.

“Eram dois carros. Um estava parado à nossa porta e o outro à entrada da rua. Junto à porta havia três homens e mais dois ao fundo da rua”, recorda ao Expresso este afegão, de 36 anos, descrevendo o que observou através da câmara de vigilância instalada junto à entrada da casa dos pais.

Nervoso, Said ligou a pedir ajuda a amigos, que o aconselharam a não abrir a porta. Por aqueles dias já se sabia o que podia significar uma visita noturna dos talibãs. “Aparecem à noite e levam pessoas de suas casas. Dois ou três dias depois, os cadáveres são despejados num lugar qualquer.”

Os talibãs precisam de integrar as suas forças numa forma de organização centralizada, o que se tem revelado difícil

Perante a insistência dos talibãs, foi a mãe quem levantou a voz para lhes responder de dentro de casa. Questionada acerca do paradeiro do filho, respondeu que não se encontrava ali e que nem sequer estava no país. Os homens não acreditaram, disseram ter informações de que Said estava naquela casa, mas acabaram por abandonar o local.

Foi na casa dos pais que Said se refugiou quando os talibãs assumiram o poder no Afeganistão, após entrarem em Cabul, a 15 de agosto, sem a mínima resistência. Sabia que tinha a cabeça a prémio por ter colaborado com as tropas estrangeiras, que, na perspetiva talibã, “ocuparam” o país durante 20 anos. “A minha família está em risco. Os meus irmãos dizem que tomam conta dos meus pais mas que eu tenho de me salvar sozinho.”

Dólares para subornar

Sem sair de casa desde a assustadora visita dos talibãs, há cerca de duas semanas, Said tem procurado gizar uma forma de se pôr a salvo. A fronteira com o Paquistão está a pouco mais de 200 quilómetros de distância, o que deverá levar umas quatro horas por estrada. Said quer chegar ao ponto de passagem de Torkham, mas para lá chegar precisa de passar despercebido…

Conta, para isso, com a ajuda e cumplicidade de um amigo. “Optei por falar a uma só pessoa. Muita gente envolvida dá sempre problemas. Este meu amigo é de confiança.” Motorista de camiões, Ajmal tem experiência em movimentar-se na zona de Torkham. Pediu a Said que pusesse de parte uns 500 dólares (€433) para dar a um facilitador, na fronteira. Enquanto esse dia não chega, Said deixa que a barba cresça para disfarçar a sua aparência. “Eles conhecem-me. Vou tentar modificar a minha expressão.”

O Expresso conheceu Said em 2011, em Cabul. Na altura, este afegão estudava na Faculdade de Medicina Curativa do Instituto de Ensino Superior Ariana, uma instituição privada em Jalalabade (Leste), perto da fronteira com o Paquistão. Foi ele o guia numa visita a uma escola daquela região conservadora — frequentada por rapazes e raparigas — que beneficiou de financiamento português. “Lembras-te que te pedi que fizéssemos uma visita rápida? Aquelas montanhas em frente à escola estavam cheias de talibãs. Haveria perigo se tivéssemos demorado muito.”

Dificuldade em centralizar

Desde que regressaram ao poder — o novo Governo do Emirado Islâmico do Afeganistão foi anunciado a 7 de setembro —, os responsáveis talibãs procuraram obter reconhecimento internacional adotando um discurso de moderação, oposto ao extremismo impiedoso que caracterizou a sua primeira passagem pelo poder, entre 1996 e 2001.

Entre outras garantias, prometeram uma amnistia para quem colaborou com as forças estrangeiras. Mas o quotidiano dos cidadãos revela-se muito diferente, com muitos talibãs empenhados em vingar essa traição pelas próprias mãos.

“Os talibãs funcionam mais como uma rede espalhada do que como uma estrutura hierárquica robusta”, explica ao Expresso Haroun Rahimi, professor de Direito na Universidade Americana de Cabul. “Agora no poder, precisam de integrar as suas forças, verticalmente, numa forma de organização centralizada. Isso tem-se revelado difícil.”

Said vai partilhando vídeos e fotos macabros, publicados pelos afegãos nas redes sociais, para exemplificar as atrocidades do dia a dia. Perseguições nas ruas, casas rebentadas à bomba, homens executados a tiro ou espancados em sessões de tortura intermináveis.

Num dos últimos vídeos enviados ao Expresso, os corpos de dois homens enforcados oscilam lentamente do ramo de uma árvore. “Uns dizem que eram membros do Daesh [o autodenominado Estado Islâmico, inimigo dos talibãs], outros dizem que eram inocentes”, diz Said. “Este massacre não vai terminar. Os talibãs são muito selvagens, não têm compaixão por ninguém.”

É a um destino cruel destes que Said quer escapar, ainda que tenha de deixar para trás a mulher e três filhos menores. Se conseguir chegar a Islamabade, capital do Paquistão, irá começar outra luta: bater à porta de embaixadas ocidentais (que no Afeganistão estão encerradas), contar a sua história, apresentar documentação e esperar que lhe abram a fronteira para recomeçar a vida em outro país. A salvo. “A vida no Afeganistão já não é possível. Apenas se contam os momentos de dor, tristeza e morte.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 6 de novembro de 2021. Pode ser consultado aqui e aqui

“Nós, humanos, somos a causa. Mas estamos a recusar tornarmo-nos a solução.” A palavra aos países na linha da frente da crise ambiental

Os mesmos países que estão reunidos na 26.ª Cimeira do Clima (COP26), em Glasgow, discursaram há cerca de um mês na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Então, chefes de Estado e membros de Governo de 191 países membros — só faltaram Afeganistão e Myanmar —, União Europeia, Palestina e Santa Sé enumeraram o que mais os preocupa no mundo. À cabeça, a falta de vacinas para acabar com a pandemia de covid-19 e as alterações climáticas. O Expresso releu as intervenções e identificou o que vai mal no combate às alterações climáticas

“Chego a esta Assembleia diretamente da ilha [de La Palma, na Canárias], impressionado pela forma como a natureza nos recorda, uma vez mais, a dimensão da nossa fragilidade. Mas também da nossa força. Graças à ciência, pudemos antecipar a resposta.” Na tribuna da Assembleia-Geral das Nações Unidas, a 22 de setembro, Pedro Sánchez, primeiro-ministro de ESPANHA, somava-se ao rol de governantes que, um pouco por todo o mundo, têm sido desafiados pela fúria da natureza.

Nas Canárias, a contínua erupção do Cumbre Vieja, que começou a 19 de setembro, tornou a ilha refém do vulcão e condenou os cerca de 85 mil habitantes a um futuro incerto. “Sem dúvida, a emergência climática é a grande crise da nossa era”, acrescentou o governante espanhol. “Já não há espaço para o negacionismo.

Nos últimos doze meses, fenómenos climáticos extremos ocorreram em latitudes tão distantes quanto Alemanha e Sudão do Sul (inundados após chuvas torrenciais), Austrália e Grécia (devastadas por grandes incêndios), Itália e Islândia (surpreendidas por explosões vulcânicas), Honduras e Japão (varridos por tufões destruidores), Haiti e Paquistão (sacudidos por sismos mortíferos).

Nenhum país ou região do mundo está a salvo neste “novo normal”, nem pode argumentar que não sabe que o problema existe. “A nossa tarefa comum é salvar o nosso planeta”, recordou a Presidente da ESLOVÁQUIA, Zuzana Čaputová. “Anteriormente, a Terra sussurrava, mas agora grita que não pode mais aguentar connosco, que a Humanidade é um fardo muito pesado para carregar.”

Já não há água nesta antiga marina perto de Syracuse, no estado norte-americano do Utah JUSTIN SULLIVAN / GETTY IMAGES

Há décadas que a comunidade científica alerta para a contínua degradação do planeta. Em agosto, o relatório do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) fez um aviso inequívoco: o tempo está a esgotar-se e a manter-se a intensidade de exploração dos ecossistemas, a temperatura do planeta poderá aumentar 4,4ºC até ao fim do século.

“Trata-se de um alerta vermelho para a Humanidade”

António Guterres, secretário-geral da ONU, sobre o relatório do IPCC

“Nenhuma pessoa séria que examine objetivamente os dados científicos pode deixar de concluir que as alterações climáticas são uma ameaça existencial para a Humanidade, e sobretudo para os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e para países, como na África Ocidental e na região do Sahel, que estão a ser empurrados para desastres naturais aparentemente intermináveis, como consequência da desertificação e da degradação extrema da terra”, resumiu Ralph Gonsalves, primeiro-ministro do arquipélago de SÃO VICENTE E GRANADINAS, um país nas Caraíbas.

“A ciência, o mundo real e o Acordo de Paris apontaram caminhos alternativos para a Humanidade, mas a vontade política e os recursos necessários dos principais emissores para enfrentar o grave desafio das mudanças climáticas não foram muito além de palavras piedosas e remendos marginais.”

A região da Ásia Central é talvez das que melhor confirmam o alerta do IPCC. “Como resultado das alterações climáticas e do aquecimento sem precedentes, mais de 1000 dos 13 mil glaciares das montanhas do TAJIQUISTÃO já derreteram por completo”, testemunhou o Presidente Emomali Rahmon. Nas calotas tajiques têm origem mais de 60% dos recursos hídricos que abastecem a Ásia Central.

Há 25 anos, o gelo cobria este lago, perto de Olden, na Noruega. Desde então, o glaciar Briksdal derreteu de forma acelerada SEAN GALLUP / GETTY IMAGES

Desde o passado domingo e até 12 de novembro, está reunida pela 26.ª vez a Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (adotada na Cimeira da Terra de 1992). A COP26 é considerada a última esperança na obtenção de um compromisso sério que limite o aquecimento global e reverta danos infligidos ao planeta — que já põem em risco a sobrevivência de alguns países.

“As mudanças climáticas não estão de quarentena”, alertou o Presidente do CHILE, Sebastian Piñera. “O seu avanço continua implacável, mais rápido e com efeitos mais graves do que o esperado. E, o mais sério, algumas das suas consequências já são irreversíveis.”

Na primeira linha da crise climática, estão os pequenos Estados insulares. Longe de serem dos maiores contribuintes para a degradação do planeta, são dos que mais sofrem. Em junho de 2019, António Guterres deu visibilidade a este drama com uma visita que chegou à capa da revista “Time”.

“Para uma pequena ilha e um Estado costeiro de baixa altitude como o BELIZE, o mundo hoje é hostil e precário”, confessou John Briceño, primeiro-ministro deste pequeno país da América Central, virado para o mar das Caraíbas. No mesmo (frágil) barco, segue o Tuvalu, na Oceania, onde o ponto mais alto não chega aos cinco metros.

Sentença de morte para as Maldivas

No coração do Oceano Índico, o arquipélago das MALDIVAS é dos países mais ameaçados pela subida do nível do mar. “‘Ameaça existencial’, ‘deixar de existir’, ‘vulnerável ao clima’, ‘risco de desaparecimento’, ‘perda de identidade’, ‘refugiados ecológicos’ são expressões vulgarmente usadas para descrever as dificuldades que os maldivianos e outros Estados insulares enfrentarão se as tendências atuais continuarem inabaláveis. A diferença entre 1,5 graus e 2 graus é uma sentença de morte para as Maldivas”, afirmou o seu Presidente, Ibrahim Mohamed Solih.

AQUECIMENTO

1,5ºC

Segundo artigo 2 do Acordo de Paris sobre as Alterações Climáticas (2015), os Estados devem “fazer esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais”

O drama das Maldivas é partilhado por muitos outros Estados insulares, como as ILHAS MARSHALL, um arquipélago do Oceano Pacífico. “Os direitos humanos aplicam-se no oceano — sem exceção — tanto quanto se aplicam em terra”, defendeu o Presidente David Kabua.

“Saudamos o recente progresso no sentido da realização da Cimeira dos Oceanos da ONU, planeada para o próximo ano e coorganizada pelo Quénia e por Portugal.” O encontro está agendado para Lisboa.

As dramáticas consequências de chuvas torrenciais que fizeram inundar o lago Poyang, na cidade chinesa de Shangrao AFP / GETTY IMAGES

O compromisso assumido no Acordo de Paris — assinado por 196 Estados e a União Europeia — lançou os países numa corrida pela redução das emissões de dióxido de carbono até à desejada meta da neutralidade carbónica.

“Está estabelecido que a atividade humana é a principal causa das mudanças climáticas. Durante um ano, consumimos mais do que aquilo que a natureza nos pode oferecer, em função dos nossos interesses cada vez mais divergentes”, alertou Faustin Archange Touadera, o Presidente da REPÚBLICA CENTRO-AFRICANA. “Temos a responsabilidade histórica de proteger as gerações futuras mudando de comportamentos.”

Ponto de não-retorno

Os registos revelam que a temperatura média do planeta tem aumentado ao longo de décadas, numa perigosa aproximação ao ponto de não-retorno, atingido o qual a Terra aquecerá para além do limite crítico. A mensagem parece estar interiorizada, mas a comunidade internacional tarda em passar à ação.

“As alterações climáticas não são mais uma questão de alertas por parte da comunidade científica. É uma situação de crise que já nos atinge. Encontrar respostas para as mudanças climáticas é um processo caro. E custará ainda mais se não levarmos a sério a necessidade de acelerar as atividades de mitigação das alterações climáticas”, alertou o Presidente da BÓSNIA-HERZEGOVINA, Željko Komšić.

RESILIÊNCIA

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Na sequência do Acordo de Paris, os países desenvolvidos foram instados a aumentar o seu envolvimento no combate climático ajudando a mobilizar 100 mil milhões de dólares por ano (86 mil milhões de euros), até 2020, para gastar em ações climáticas nos países em desenvolvimento e tornar essas economias mais resilientes às mudanças climáticas

“Relativamente à crise climática, o ponto de partida são três palavras: Cumpram a vossa promessa”, desafiou o Presidente do MALAWI, Lazarus McCarthy Chakwera. “Já se passaram mais de dez anos desde que as nações desenvolvidas que mais poluíram o nosso planeta prometeram 100 mil milhões de dólares para [ações de] mitigação e adaptação ao clima. Estas são nações que nos dizem para seguirmos o seu exemplo, nações que nos dizem para considerá-las amigas, nações que nos chamam corruptos e indignos de confiança quando dizemos uma coisa e fazemos outra, nações que nos dizem que são os líderes nesta aldeia global.”

As críticas do Malawi fazem eco na América Latina. “É francamente penoso que em 10 anos não se tenha podido concretizar o compromisso de proporcionar 100 mil milhões de dólares aos países em desenvolvimento para implantar ações contra as alterações climáticas”, lamentou o Presidente da ARGENTINA, Alberto Fernández. “A justiça climática será uma quimera sem justiça financeira e tributária global que contribuam para a justiça social real.

A aflição de uma residente da ilha grega de Evia, devastada por grandes incêndios, em agosto passado KONSTANTINOS TSAKALIDIS / GETTY IMAGES

Para quem todos os tostões contam, ter de desembolsar milhões para fazer frente às adversidades provocadas pelas alterações climáticas, num contexto de pandemia, é um desafio impossível de suportar. “Contrair dívidas para pagar a recuperação dos efeitos das mudanças climáticas e construir resiliência não é a resposta para os problemas dos pequenos Estados que já estão sobrecarregados com dívida e que são os mais afetados”, recordou Gaston A. Browne, primeiro-ministro da ANTÍGUA E BARBUDA.

“Os pacotes de financiamento para os pequenos Estados insulares em desenvolvimento devem incluir uma quantia significativa de ajuda oficial ao desenvolvimento — noutras palavras, doações e não empréstimos.”

No uso da palavra, Ivan Duque, Presidente da COLÔMBIA, contribuiu com uma solução dentro do sistema: “Proponho à comunidade mundial que, durante um período de tempo e com o apoio do Fundo Monetário Internacional, se estabeleça uma regra a partir da qual todos os gastos e investimentos em ação climática estrutural fiquem de fora da linha tradicional que mede o défice fiscal.”

Já Luis Alberto Arce Catacora, Presidente da BOLÍVIA, propôs um regresso a práticas tradicionais. “Desde a cosmovisão dos povos indígenas que existe uma interdependência entre os seres humanos e a natureza”, recordou. “É fundamental recuperar os conhecimentos, práticas e experiências das nações e povos indígenas na construção de sociedades e ecossistemas resilientes às mudanças climáticas.”

Parece o cenário de um atentado, mas é na realidade a destruição provocada pela passagem de um furacão, no estado norte-americano da Louisiana JOE RAEDLE / GETTY IMAGES

O desejado financiamento visa apoiar a transição energética em países como o CAZAQUISTÃO, por exemplo, onde a produção de eletricidade depende em 70% do carvão. “O acesso a financiamento verde e a tecnologias verdes será crucial para esta transição”, defendeu o Presidente Kassym-Jomart Tokayev. “Esperamos um compromisso claro relativamente a essas questões na COP26, em Glasgow.”

Outro país a braços com uma revolução energética é a ESLOVÁQUIA. “Em termos per capita, a Eslováquia é o maior produtor de automóveis do mundo. Mobilidade limpa, baterias mais ecológicas desenvolvidas e produzidas localmente irão descarbonizar o transporte na Eslováquia e noutros lugares. Estamos prontos para partilhar as nossas soluções — e aprender com os melhores”, defendeu a Presidente Zuzana Čaputová. “Temos que desvincular o crescimento económico da degradação que temos causado ao planeta.

“Temos as ferramentas para uma revolução industrial verde, mas o tempo é desesperadamente curto”, garantiu o primeiro-ministro do REINO UNIDO, Boris Johnson, um dos anfitriões da COP26. “Não estamos a falar em deter o aumento das temperaturas — infelizmente, é tarde de mais para isso —, mas em conter esse crescimento nos 1,5 graus.”

Erupção do vulcão Etna, em fevereiro passado, na ilha italiana da Sicília FABRIZIO VILLA / GETTY IMAGES

Em todo o mundo, há apenas três países com carbono negativo, isto é, que absorvem mais gases com efeito estufa do que os que emitem. São eles o Suriname, o Panamá e o Butão. Ironicamente, são também dos que pagam a fatura mais cara das alterações climáticas.

A maior injustiça é que aqueles que mais sofrem são os menos responsáveis por esta crise existencial”, afirmou o Presidente das FILIPINAS, Rodrigo Duterte. “Emiti uma moratória sobre a construção de novas centrais a carvão e uma diretiva para explorar a opção de energia nuclear. Mas este contributo será inútil se os maiores poluidores — do passado e do presente — decidirem fazer business as usual. Apelamos a uma ação climática urgente, especialmente por parte daqueles que podem realmente fazer pender a balança.”

Responsabilidades comuns, mas diferenciadas

As razões de queixa em relação à falta de compromisso por parte do mundo desenvolvido são transversais a vários continentes. “Ironicamente, são os países que menos carbono geram, como os Estados insulares ou a minha própria região, a América Central, que se veem mais afetados pela emergência climática”, denunciou Carlos Alvarado Quesada, o Presidente da COSTA RICA, país a quem se atribui mais de 5% de toda a biodiversidade mundial.

Não muito longe, as HONDURAS orgulham-se de ser “uma das nações que mais contribuem para a conservação do ambiente”, com 50% do território coberto por floresta e 30% com o estatuto de reserva natural protegida. Na ONU, o Presidente Juan Orlando Hernández afirmou que o país é dos “mais afetados em todo o mundo por secas e chuvas destrutivas”.

Para a vizinha NICARÁGUA, situada na rota de tufões cada vez mais potentes e destruidores, impõe-se que da COP26 saiam resultados concretos baseados no princípio “Responsabilidades comuns mas diferenciadas”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Denis Moncada Colindres. “Se deixamos passar o tempo sem que os países desenvolvidos cumpram os seus compromissos, o dano à madre Terra provocado pelo aquecimento global será irreversível, sendo eles os responsáveis históricos da dita catástrofe.”

Poluição junto à costa de Ortakoy, na cidade turca de Istambul. Segundo a ONU, se os níveis de poluição marítima se mantiverem, em 2050 haverá mais plástico do que peixe nos oceanos SEBNEM COSKUN / ANADOLU AGENCY / GETTY IMAGES

Líder de um país pressionado pelo acolhimento de milhões de refugiados oriundos de vários conflitos do Médio Oriente, o Presidente da TURQUIA alertou para “novas e massivas vagas de migrantes” em fuga, por exemplo, à subida da água do mar ou ao avanço da desertificação sobre comunidades agrícolas e pastoris, com consequências devastadoras ao nível da segurança alimentar e da conflitualidade em torno da disputa pelos recursos.

“Pode ser possível prevenir a pandemia de coronavírus com as vacinas que desenvolvemos. No entanto, está fora de questão encontrar uma solução laboratorial dessas para as mudanças climáticas”, lamentou Recep Tayyip Erdoğan. “Por isso, também para as alterações climáticas, repetimos o nosso apelo de que ‘o Mundo é Maior do que Cinco’”, referindo-se aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido), que têm direito de veto.

“Quem quer que tenha causado mais danos à natureza, à nossa atmosfera, à nossa água, ao nosso solo e à terra, e quem tenha explorado os recursos naturais de forma selvagem, deve também dar o maior contributo para a luta contra as alterações climáticas.”

AGENDA

2022

Terá lugar, em Lisboa, a II Conferência dos Oceanos, coorganizada por Portugal e pelo Quénia, entre 27 de junho e 1 de julho

Na SOMÁLIA, por exemplo, um país fustigado por um conflito secessionista e permeável às atividades de grupos terroristas como a Al-Qaeda e o Al-Shabaab, há também um êxodo forçado de populações castigadas por períodos alternados de seca e inundações.

“Há um provérbio somali que diz: ‘A cidade vive das provisões do campo’. Mas, infelizmente hoje, parece que o campo foi deslocado para as grandes cidades. Isto não é sustentável”, alertou o Presidente Mohamed Abdullahi Mohamed Farmajo.

Famílias em fuga às chamas, durante os grandes incêndios que devastaram o estado da Vitória, na Austrália JUSTIN MCMANUS / GETTY IMAGES

Não muito distante da Somália, um grande país insular está em vias de se tornar o primeiro a passar por uma situação de fome provocada pelas alterações climáticas, avisou as Nações Unidas em agosto. “As vagas de seca no sul são recorrentes, as fontes de água estão a secar e todas as atividades de subsistência tornaram-se quase impossíveis”, testemunhou o Presidente de MADAGÁSCAR, Sem Andry Rajoelina. “Os meus compatriotas do Sul estão a arcar com o pesado fardo da crise climática para o qual não participam.”

À partida para Glasgow, foram muitos os apelos para que os países não poupem na ambição. Mas há também quem não tenha ilusões, em virtude das falsas promessas do passado. Como sintetizou Mohamed Irfaan Ali, Presidente da GUIANA: “Os maiores poluentes simplesmente não mantiveram a sua palavra e a desconfiança agora paira no ar.

Resumiu Josaia Voreqe Bainimarama, primeiro-ministro das ILHAS FIJI: “Nós, humanos, somos a causa. Mas estamos a recusar tornarmo-nos a solução.

(FOTO PRINCIPAL Os veículos de duas e quatro rodas foram substituídos por embarcações, nas ruas da cidade chinesa de Xinxiang, completamente alagada AFP / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de novembro de 2021. Pode ser consultado aqui

Os talibãs tomaram o poder no Afeganistão pela segunda vez em 25 anos. Como foi possível?

A geografia, os interesses geopolíticos e as características socioculturais fazem do Afeganistão um país único no mundo. O regresso dos talibãs ao poder deve ser interpretado à luz de todas essas especificidades. 2:59 JORNALISMO DE DADOS PARA EXPLICAR O PAÍS

O regresso dos talibãs ao poder no Afeganistão apanhou o mundo de surpresa. Perceber o que está na origem deste grupo e como chegou ao governo pela segunda vez em 25 anos, implica refletir sobre particularidades que fazem deste um país único.

Como a GEOGRAFIA.

Situado no coração da Ásia Central, o Afeganistão é um país sem litoral, com extensas zonas escassamente povoadas e montanhas de mais de 7000 metros.

Ao longo da fronteira com o Paquistão, a cordilheira do Hindu Kush simboliza a importância dos terrenos acidentados para os afegãos. Hindu Kush significa “assassina de hindus”. Este nome terá nascido depois de muitos escravos indianos terem morrido ao frio durante as invasões árabes.

A topografia agreste, onde muitas vezes o transporte de pessoas e bens só é possível no dorso de burros, produziu combatentes de excelência. Os afegãos ganharam fama de serem indomáveis e o país um cemitério de impérios.

A GEOPOLÍTICA explica.

Vários poderes tentaram dominar o Afeganistão com objetivos maiores em mente: chegar às planícies férteis da Índia, ao mar Arábico ou às jazidas energéticas da Ásia Central.

Pelos desfiladeiros deste país passaram comandantes como o grego Alexandre O Grande ou o mongol Gengis Khan. E ainda exércitos árabes, persas e turcos.

Os sucessivos conquistadores foram deixando genes pelo caminho, o que explica o mosaico étnico que é hoje a população afegã. Não raras vezes, os vários grupos guerreiam-se entre si. Mas em presença de um invasor estrangeiro, unem-se.

Nos últimos 200 anos, os afegãos derrotaram o Império Britânico três vezes. E durante a Guerra Fria, a União Soviética terminou a sua ocupação do Afeganistão vergada a pesadas derrotas. Já os Estados Unidos viram 20 anos de intervenção militar pós-11 de Setembro culminar no regresso pujante dos talibãs que proclamaram um Emirado Islâmico.

Isto leva-nos à RELIGIÃO.

Um dos legados dos invasores árabes foi a fé islâmica, que teve o condão de criar unidade num território dividido em tribos.

Quando se fez anunciar no Afeganistão, o movimento talibã tinha nas suas fileiras não só combatentes da guerra aos soviéticos mas também estudantes do Alcorão. Muitos eram órfãos desse conflito, criados em campos de refugiados e radicalizados em escolas religiosas do Paquistão.

Uma vez no poder, além de acolherem a Al-Qaeda de Osama bin Laden, os talibãs exerceram a autoridade com base numa interpretação extremista do Islão, misturada com preceitos culturais.

Hoje, um afegão de 40 anos viveu mais tempo em guerra do que em paz. E esse estado de conflito permanente condena o país à pobreza e a um subdesenvolvimento crónico, tornando-o um dos grandes emissores de refugiados do mundo.

Com pouca terra arável, o Afeganistão é o maior produtor mundial de ópio. Para muito afegãos, isso significa ter trabalho. Para os senhores da guerra, as papoilas são fonte de financiamento das suas milícias. Com ou sem talibãs, o certo é que o potencial do Afeganistão para o conflito é grande.

Episódio gravado por Pedro Cordeiro.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 14 de outubro de 2021. Pode ser consultado aqui