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Sinais de esperança em conflitos sem fim

Quatro testemunhos recolhidos pelo Expresso descrevem confiança e resiliência em territórios onde parece só haver problemas

O empreendedorismo das mulheres é uma arma para o futuro do Sudão FOTO PEDRO MATOS / PAM

A cidade iraquiana de Mosul é possivelmente um dos locais em todo o mundo onde hoje o sentimento de esperança está mais em alta. Vai para sete anos ali foi autoproclamado o infame Estado Islâmico. Libertada do jugo jiadista, a cidade reergue-se agora das cinzas através de uma parceria entre o Governo de Bagdade e a UNESCO, que tem em curso a reconstrução de monumentos e infraestruturas.

Em inícios de março, Mosul estará nas bocas do mundo quando receber o Papa Francisco, naquela que será a primeira viagem apostólica ao estrangeiro em 15 meses. Com esta visita ao Iraque, o Papa levará alento à minoria cristã do Médio Oriente, a região onde nasceu o cristianismo e que tem sido martirizada por sucessivas disputas.

Quatro testemunhos recolhidos pelo Expresso revelam como noutras latitudes turbulentas a confiança num futuro melhor germina, apesar de um presente de grandes dificuldades. Desde o campo de refugiados de Kutupalong, no Bangladesh, o rohingya Faruque conta como um projeto de realização de vídeos sobre o património cultural rohingya, partilhado nos telemóveis, se tornou um promotor de esperança entre o seu povo.

No Sudão, Pedro Matos, funcionário do Programa Alimentar Mundial da ONU, descreve o que o faz sentir-se confiante em relação ao futuro do país. Marta Abrantes Mendes recorda os anseios de paz de iemenitas com quem trabalha, num projeto de reconciliação nacional. E, com a experiência de quem já serviu no Afeganistão, o major-general Carlos Branco acredita que a paz é possível no país dos talibãs.

ROHINGYA — Gravar memórias e acreditar

Vídeos sobre saúde, cultura e educação feitos por refugiados são formas de resiliência

Faruque tem 32 anos e vive há 28 no maior campo de refugiados do mundo. Tinha quatro quando os pais se fizeram à estrada para salvar a família de uma morte certa. Em Myanmar, fugir para o vizinho Bangladesh é, há décadas, a única escapatória para a minoria rohingya (muçulmana), perseguida naquele país de maioria budista.

Hoje, os horizontes de Faruque estão confinados aos limites do campo de Kutupalong, onde vivem mais de 600 mil rohingyas. “Como em Myanmar, não somos autorizados a circular livremente, não temos direito à educação formal nem podemos trabalhar. Numa prisão pode sair-se em liberdade cumprida a sentença, aqui vivemos assim indefinidamente. Mas tenho esperança de que as coisas mudem…”

Com a mesma lucidez com que descreve as limitações de um povo que não é plenamente reconhecido nem mesmo pelo país que o acolhe, Faruque fala de um projeto que o move diariamente: a Rohingya Film School. Criada no início do ano pelo irmão mais novo, Omar, que colaborava com órgãos de informação como a BBC e que morreu em maio, aos 21 anos, de ataque cardíaco, esta escola nasceu com um duplo objetivo: dar formação a jovens na área da fotografia e do vídeo e registar em som e imagem a herança cultural dos rohingyas.

Com a covid-19, o projeto (rebatizado de Omar’s Film School) tornou-se também um agente de saúde pública. “Com a pandemia, o acesso ao campo dos trabalhadores humanitários ficou limitado. Os refugiados ficaram numa situação ainda mais trágica. Começaram a circular rumores de que quem apanhasse covid-19 seria morto ou levado para uma ilha remota. Muitas pessoas não queriam ser testadas.”

Os voluntários começaram então a fazer vídeos sobre práticas higiénicas e cuidados a ter face ao vírus e a partilhá-los através do telefone. Hoje, fazem filmes sobre saúde, património, cultura, educação, para além de promoverem atividades da ONU e de ONG.

Para Faruque, trabalhar no projeto é uma forma de homenagear o irmão e de lutar pelo futuro da filha, de três anos. “Tenho esperança de que chegue o tempo em que eu viva num lugar a que possa chamar lar, a minha filha seja matriculada numa escola e as nossas capacidades sejam reconhecidas.”

SUDÃO — Resiliência a muitas guerras

Pais poupam para os filhos irem à escola. Os sudaneses acreditam no futuro

Os 12 anos que Pedro Matos leva de experiência humanitária apuraram-lhe a perceção na hora de identificar sinais de esperança em países devastados pela guerra. É o caso do Sudão, onde trabalha como coordenador para a digitalização do Programa Alimentar Mundial (PAM), a agência da ONU que recebeu o Nobel da Paz 2020. “O povo sudanês é incrivelmente resiliente. Vemos sinais disso por todo o lado, desde pais que poupam o que têm para manter os filhos na escola, onde eles nunca puderam ir, até à esperança dessas crianças, que vão para escolas remotas do Darfur com t-shirts esfarrapadas e sonham ser médicos ou advogados.”

O português realça também “a quantidade de mulheres em cargos de gestão por todo o país em associações locais e nos Ministérios da Educação ou da Saúde”. E simboliza esse ativismo no feminino na figura de Hawa Salih, que lidera uma rede de organizações de base comunitária em El Fasher, na região do Darfur. “É uma força da natureza, trabalha incansavelmente para montar projetos de emprego para milhares de mulheres em coisas tão diversas como o fabrico de tijolos até plantações de árvores para combater o avanço do deserto.”

Arrasado por várias guerras desde a independência, inundações históricas este ano e um aumento dos preços dos alimentos de 700% nos últimos cinco anos, o Sudão tem no PAM um parceiro crucial: presta assistência alimentar a 6,5 milhões de pessoas, promove projetos de ‘comida por trabalho’, apoia agricultores, fornece refeições escolares e investe na prevenção e tratamento da desnutrição.

IÉMEN — Vozes que anseiam por paz

Os estereótipos reduzem-no a um país sem solução. Mas é importante ouvir os iemenitas

Marta Abrantes Mendes trabalha a partir do Líbano num projeto sobre reconciliação nacional e justiça transicional no Iémen, país do qual se diz ser a pior crise humanitária do mundo. Desenvolve, pois, grande parte do seu trabalho ao telefone, a falar com iemenitas.

“Ouvi representantes da sociedade civil sobre memória, necessidade de reconciliação e justiça social e vias de responsabilização pelas violações registadas durante o conflito. Algumas conversas duravam mais de duas horas e o quadro que se desenhou foi de um país com um grande ensejo de encontrar paz e encerrar os ciclos contínuos de violência de grande parte da sua história contemporânea.”

Marta incomoda-se com as representações externas em relação ao Iémen. “São sempre muito contundentes, como se não houvesse volta a dar. Tudo seria mais fácil se o palco fosse ocupado por iemenitas.”

AFEGANISTÃO — Talibãs fazem parte da solução

Em 2021, passam 20 anos sobre o início da guerra. Governo e talibãs estão em diálogo

A 5 de janeiro, o reinício das conversações de paz entre o Governo afegão e os talibãs devolve esperança ao futuro do país. “Se por futuro entendermos instauração de uma democracia liberal, então seguramente não teremos futuro”, alerta o major-general Carlos Branco, que foi porta-voz da força internacional no Afeganistão em 2007 e 2008. “Mas há outros futuros possíveis, sem violência e com paz. Tudo dependerá da solução política e da fórmula governativa que forem negociadas, que terão inevitavelmente de contar com a participação dos talibãs.”

“Quanto menor for a ingerência internacional neste processo, melhor, em particular das potências regionais.” Porém, “quaisquer que sejam as soluções adotadas, terão de ter em conta os interesses das grandes potências, em particular dos EUA. O que significa para os talibãs respeitar o compromisso de não manterem relações com a Al-Qaeda e não permitirem que o território seja utilizado por organizações terroristas”.

Artigo publicado no “Expresso”, a 31 de dezembro de 2020

Sinais de esperança em conflitos sem fim

Quatro testemunhos recolhidos pelo Expresso descrevem confiança e resiliência em territórios onde parece só haver problemas

A cidade iraquiana de Mosul é possivelmente um dos locais em todo o mundo onde hoje o sentimento de esperança está mais em alta. Vai para sete anos ali foi autoproclamado o infame Estado Islâmico. Libertada do jugo jiadista, a cidade reergue-se agora das cinzas através de uma parceria entre o Governo de Bagdade e a UNESCO, que tem em curso a reconstrução de monumentos e infraestruturas.

Em inícios de março, Mosul estará nas bocas do mundo quando receber o Papa Francisco, naquela que será a primeira viagem apostólica ao estrangeiro em 15 meses. Com esta visita ao Iraque, o Papa levará alento à minoria cristã do Médio Oriente, a região onde nasceu o cristianismo e que tem sido martirizada por sucessivas disputas.

Quatro testemunhos recolhidos pelo Expresso revelam como noutras latitudes turbulentas a confiança num futuro melhor germina, apesar de um presente de grandes dificuldades. Desde o campo de refugiados de Kutupalong, no Bangladesh, o rohingya Faruque conta como um projeto de realização de vídeos sobre o património cultural rohingya, partilhado nos telemóveis, se tornou um promotor de esperança entre o seu povo.

No Sudão, Pedro Matos, funcionário do Programa Alimentar Mundial da ONU, descreve o que o faz sentir-se confiante em relação ao futuro do país. Marta Abrantes Mendes recorda os anseios de paz de iemenitas com quem trabalha, num projeto de reconciliação nacional. E, com a experiência de quem já serviu no Afeganistão, o major-general Carlos Branco acredita que a paz é possível no país dos talibãs.

ROHINGYA
Gravar memórias e acreditar

Vídeos sobre saúde, cultura e educação feitos por refugiados são formas de resiliência

Faruque tem 32 anos e vive há 28 no maior campo de refugiados do mundo. Tinha quatro quando os pais se fizeram à estrada para salvar a família de uma morte certa. Em Myanmar, fugir para o vizinho Bangladesh é, há décadas, a única escapatória para a minoria rohingya (muçulmana), perseguida naquele país de maioria budista.

Hoje, os horizontes de Faruque estão confinados aos limites do campo de Kutupalong, onde vivem mais de 600 mil rohingyas. “Como em Myanmar, não somos autorizados a circular livremente, não temos direito à educação formal nem podemos trabalhar. Numa prisão pode sair-se em liberdade cumprida a sentença, aqui vivemos assim indefinidamente. Mas tenho esperança de que as coisas mudem…”

Com a mesma lucidez com que descreve as limitações de um povo que não é plenamente reconhecido nem mesmo pelo país que o acolhe, Faruque fala de um projeto que o move diariamente: a Rohingya Film School. Criada no início do ano pelo irmão mais novo, Omar, que colaborava com órgãos de informação como a BBC e que morreu em maio, aos 21 anos, de ataque cardíaco, esta escola nasceu com um duplo objetivo: dar formação a jovens na área da fotografia e do vídeo e registar em som e imagem a herança cultural dos rohingyas.

Com a covid-19, o projeto (rebatizado de Omar’s Film School) tornou-se também um agente de saúde pública. “Com a pandemia, o acesso ao campo dos trabalhadores humanitários ficou limitado. Os refugiados ficaram numa situação ainda mais trágica. Começaram a circular rumores de que quem apanhasse covid-19 seria morto ou levado para uma ilha remota. Muitas pessoas não queriam ser testadas.”

Os voluntários começaram então a fazer vídeos sobre práticas higiénicas e cuidados a ter face ao vírus e a partilhá-los através do telefone. Hoje, fazem filmes sobre saúde, património, cultura, educação, para além de promoverem atividades da ONU e de ONG.

Para Faruque, trabalhar no projeto é uma forma de homenagear o irmão e de lutar pelo futuro da filha, de três anos. “Tenho esperança de que chegue o tempo em que eu viva num lugar a que possa chamar lar, a minha filha seja matriculada numa escola e as nossas capacidades sejam reconhecidas.”

SUDÃO
Resiliência a muitas guerras

Pais poupam para os filhos irem à escola. Os sudaneses acreditam no futuro

Os 12 anos que Pedro Matos leva de experiência humanitária apuraram-lhe a perceção na hora de identificar sinais de esperança em países devastados pela guerra. É o caso do Sudão, onde trabalha como coordenador para a digitalização do Programa Alimentar Mun­dial (PAM), a agência da ONU que recebeu o Nobel da Paz 2020. “O povo sudanês é incrivelmente resiliente. Vemos sinais disso por todo o lado, desde pais que poupam o que têm para manter os filhos na escola, onde eles nunca puderam ir, até à esperança dessas crianças, que vão para escolas remotas do Darfur com t-shirts esfarrapadas e sonham ser médicos ou advogados.”

O português realça também “a quantidade de mulheres em cargos de gestão por todo o país em associações locais e nos Ministérios da Educação ou da Saúde”. E simboliza esse ativismo no feminino na figura de Hawa Salih, que lidera uma rede de organizações de base comunitária em El Fasher, na região do Darfur. “É uma força da natureza, trabalha incansavelmente para montar projetos de emprego para milhares de mulheres em coisas tão diversas como o fabrico de tijolos até plantações de árvores para combater o avanço do deserto.”

Arrasado por várias guerras desde a independência, inundações históricas este ano e um aumento dos preços dos alimentos de 700% nos últimos cinco anos, o Sudão tem no PAM um parceiro crucial: presta assistência alimentar a 6,5 milhões de pessoas, promove projetos de ‘comida por trabalho’, apoia agricultores, fornece refeições escolares e investe na prevenção e tratamento da desnutrição.

AFEGANISTÃO
Talibãs fazem parte da solução

Em 2021, passam 20 anos sobre o início da guerra. Governo e talibãs estão em diálogo

A5 de janeiro, o reinício das conversações de paz entre o Governo afegão e os talibãs devolve esperança ao futuro do país. “Se por futuro entendermos instauração de uma democracia liberal, então seguramente não teremos futuro”, alerta o major-general Carlos Branco, que foi porta-voz da força internacional no Afeganistão em 2007 e 2008. “Mas há outros futuros possíveis, sem vio­lência e com paz. Tudo dependerá da solução política e da fórmula governativa que forem negociadas, que terão inevitavelmente de contar com a participação dos talibãs.”

“Quanto menor for a ingerência internacional neste processo, melhor, em particular das potências regionais.” Porém, “quaisquer que sejam as soluções adotadas, terão de ter em conta os interesses das grandes potências, em particular dos EUA. O que significa para os talibãs respeitar o compromisso de não manterem relações com a Al-Qaeda e não permitirem que o território seja utilizado por organizações terroristas”.

IÉMEN
Vozes que anseiam por paz

Os estereótipos reduzem-no a um país sem solução. Mas é importante ouvir os iemenitas

Marta Abrantes Mendes trabalha a partir do Líbano num projeto sobre reconciliação nacional e justiça transicional no Iémen, país do qual se diz ser a pior crise humanitária do mundo. Desenvolve, pois, grande parte do seu trabalho ao telefone, a falar com iemenitas.

“Ouvi representantes da sociedade civil sobre memória, necessidade de reconciliação e justiça social e vias de responsabilização pelas violações registadas durante o conflito. Algumas conversas duravam mais de duas horas e o quadro que se desenhou foi de um país com um grande ensejo de encontrar paz e encerrar os ciclos contínuos de violência de grande parte da sua história contemporânea.”

Marta incomoda-se com as representações externas em relação ao Iémen. “São sempre muito contundentes, como se não houvesse volta a dar. Tudo seria mais fácil se o palco fosse ocupado por iemenitas.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 31 de dezembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Quem substitui Merkel? A Escócia pede independência? Trump, o que faz? (20 perguntas sobre o mundo em 2021)

Seleção de perguntas e respostas elaboradas pela secção Internacional do Expresso

A crise económica vai dar azo a demagogos e extremistas?

Em abril o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou ao Conselho de Segurança da ONU que a pandemia “poderia ameaçar a paz e a segurança no mundo”. Entrámos nesta década com uma crise económica que atingiu grande parte do mundo, saímos no meio de uma crise económica, social e sanitária como não se tinha vivido desde a II Guerra Mundial. As perspetivas não são animadoras, apesar de sinais de potencial crescimento das economias do sudoeste asiático. O extremismo de direita é real. Em outubro, dados do weforum.org alertam para um aumento de “320% no terrorismo de extrema-direita a nível global”. Este tipo de ações é considerada uma das maiores ameaças à segurança mundial, a par das alterações climáticas e dos ciberataques.

A vacina para a covid-19 vai chegar a todo o mundo?

Há organizações não-governamentais que muito têm batalhado para que a resposta a esta pergunta seja um claro “sim”, sem “mas”, e até foi criado um organismo internacional para garantir o acesso universal à vacina — o Covax. Mas o calendário de entrega dessas vacinas será muito diferente de país para país. O epidemiologista do Instituto Champalimaud Henrique Veiga-Fernandes já avisou que 53% das vacinas disponíveis estão nas mãos de 14% da população mundial, com alguns países a comprarem mais de cinco doses para cada cidadão.

Vão acabar as restrições à circulação entre países e continentes?

Enquanto a vacinação não for estendida a boa parte da população e surgirem novas mutações do coronavírus, vamos continuar a viver com restrições à circulação, como prova a suspensão de voos provenientes do Reino Unido decretada por muitos países europeus no último fim de semana. A Organização Mundial da Saúde tem feito alertas para uma provável terceira vaga nos primeiros meses de 2021. Governos de todo o mundo procuram equilíbrios entre retomar a circulação para garantir a sobrevivência de companhias aéreas, atividades turísticas e respetivos postos de trabalho, e evitar novas escaladas de contágio. O desafio é difícil e o verão pode ser um problema. Previsões a mais do que alguns meses são impossíveis. Há um ano nunca imaginaríamos estar a viver neste cenário.

Quem vai substituir Angela Merkel na liderança da Alemanha?

Dos 71 anos de existência da República Federal da Alemanha, o partido democrata-cristão da chanceler governou 50. Quando Merkel chegar ao fim do presente mandato soma 16 anos na liderança do Governo alemão, tantos quantos Helmut Kohl, cognominado “chanceler eterno”. Pressupõe-se que o próximo chefe de Governo saia da CDU/CSU, que continua a ser o mais votado, mas está longe de ter emergido uma figura capaz de galvanizar as hostes democratas-cristãs, que se reúnem em janeiro com o objetivo principal de eleger novo líder. Ninguém encabeça a corrida a três: Armin Laschet, ministro-presidente da Renânia do Norte-Vestefália, Friedrich Merz, afastado por Merkel há 20 anos, e Norbert Rottgen, líder do Comité de Negócios Estrangeiros do Parlamento federal. Um duro caminho até ao fumo branco.

Polónia e Hungria vão ser castigadas pelos desvios ao Estado de direito?

Poderão vir a ser, mas não já. Após ameaçarem vetar o orçamento europeu (2021-2027) e, com isso, comprometerem a chamada ‘bazuca’ financeira, os dois países do leste europeu aceitaram uma proposta da presidência alemã da UE que lhes garante um adiamento da possibilidade de virem a ser castigados. Caso vejam o acesso aos fundos comunitários em perigo por desvios aos princípios do Estado de direito, Polónia e Hungria poderão solicitar ao Tribunal de Justiça da UE que delibere sobre a legalidade das sanções. Até haver decisão judicial — o que poderá demorar mais de um ano —, continuarão a receber as verbas normalmente.

O fim da transição do ‘Brexit’ lançará o Reino Unido no caos?

O receio é legítimo. A dias do final o período de transição (as regras comunitárias mantiveram-se 11 meses após a saída da UE, a 31 de janeiro último) não há acordo sobre a relação futura entre o Reino Unido e os 27. Após sucessivos prazos e linhas vermelhas cruzadas, os últimos óbices são as pescas, já que as partes discordam do prazo e proporção em que os pescadores europeus perderão ter acesso às águas britânicas; e a concorrência, pois Bruxelas quer que Londres a acompanhe em todas as normas ambientais, laborais e sociais, para não obter vantagem indevida, e Boris Johnson vê nisso um atentado à soberania. A isto acresce nova estirpe do coronavírus, a ditar restrições às viagens entre os dois lados do Canal da Mancha.

A Escócia convoca novo referendo?

Os mais de 50% que as sondagens atribuem ao Partido Nacional Escocês (independentista) para as eleições regionais de 6 de maio obrigam a admitir essa hipótese. A primeira-ministra, Nicola Sturgeon, defende nova consulta popular de autodeterminação, mais de seis anos depois de os escoceses terem decidido (55%-45%) ficar no Reino Unido. O Governo britânico (cuja autorização é legalmente necessária) argumenta que em 2014 os independentistas prometeram que a resposta das urnas valia “por uma geração”, mas Sturgeon responde que o ‘Brexit’ justifica reabrir a questão, já que 62% dos escoceses votaram a favor de ficar na UE. As condições excecionais aprovadas para a Irlanda do Norte agravam o descontentamento escocês.

Os separatistas vão vencer as eleições na Catalunha?

Vão. Todos os estudos de opinião indicam que a 14 de fevereiro haverá maioria de deputados separatistas, que podem mesmo somar uma inédita maioria de votos. Tal dará asas aos que continuam a exigir um referendo de autodeterminação, impossível à luz da Constituição. O Governo central, de esquerda, tem-se mostrado dialogante com os independentistas, de cujos votos precisou para ser investido e viabilizar orçamentos. Mas há claras divisões entre as forças separatistas catalãs, quer políticas (vão da extrema-esquerda ao liberalismo conservador) quer táticas (o fugitivo Puigdemont defende uma colisão frontal com Madrid, ao passo que a Esquerda Republicana se mostra hoje mais pragmática e realista).

Biden vai fazer regressar os EUA aos acordos denunciados por Trump?

Se não a todos, pelo menos a alguns dos mais importantes, como o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, como Joe Biden já anunciou. Fazer regressar os EUA aos acordos internacionais denunciados por Donald Trump será a forma mais visível de o novo Presidente se distanciar do legado isolacionista do antecessor e reintegrar os EUA na dinâmica internacional do multilateralismo.

O que fará Donald Trump fora da Casa Branca?

Quieto não ficará. Não sabemos se o ainda Presidente assistirá à posse do seu sucessor, Joe Biden, ou se marcará o dia 20 de janeiro com um comício ou até lançando uma candidatura às presidenciais de 2024. Trump, que repete sem fundamento que as eleições foram manipuladas, quer fazer dessa suspeita e do poder que tem sobre o Partido Republicano (o seu resultado foi expressivo, apesar da derrota) a alavanca de um regresso. Manter-se-á no palco mediático por vontade própria, possivelmente na TV, decerto no Twitter; e também pode ter protagonismo como alvo de investigações e processos judiciais.

Jair Bolsonaro será alvo de destituição?

A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos e os números da pandemia são um mau sinal para o Presidente brasileiro, prestes a completar dois anos de mandato. O país é o terceiro no mundo com mais casos de covid-19: 7,2 milhões de contágios e mais de 185 mil mortos. Apesar disso, como disse ao Expresso o politólogo Octávio Amorim Neto, o “fator-chave para o enfraquecimento do bolsonarismo será o mau encaminhamento da questão fiscal subjacente aos apoios estatais. Se o mercado consolidar a expectativa de que a economia está numa rota insustentável, 2021 poderá testemunhar um círculo vicioso, em que o mau desempenho económico e o enfraquecimento político do Governo de Bolsonaro se retroalimentam aceleradamente”. A hipótese de o descalabro económico originar descontentamento que dê origem à destituição é possível, mas pouco provável.

O regime de Nicolás Maduro aguenta-se na Venezuela?

O controlo do coronavírus parece ser o único fator que corre bem ao que resta do regime chavista, segundo números oficiais: a Venezuela declarou menos de mil óbitos, apesar de ter quase 30 milhões de habitantes e de constantes alertas sobre carências no sistema de saúde. Maduro venceu as legislativas de dia 6 num sufrágio boicotado pela oposição, em que a abstenção ultrapassou os 65%. Treze dias depois, questionado pela CNN sobre a permanência dos valores do socialismo, respondeu: “Às vezes avançamos, outras recuamos. Talvez hoje tenhamos recuado no que diz respeito aos nossos valores socialistas. Reconheço isso.” A sua permanência no poder num país onde vivem muitos portugueses e lusodescendentes depende da capacidade de resposta da oposição e dos apoios internacionais que esta conseguir.

As tensões em Caxemira vão continuar?

Tudo indica que sim, se olharmos para as últimas notícias das duas potências nucleares que lutam pela posse da região — Índia e Paquistão. No dia 1 de novembro, tropas indianas mataram um dos principais comandantes das milícias paquistanesas em Caxemira. No dia 2, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, disse que ia dar estatuto de província a esta região disputada e, no fim desse mês, o Governo indiano entregou ao Conselho de Segurança da ONU uma pasta com o que considera serem provas de que milícias paquistanesas estavam a planear um grande ataque terrorista na região.

O sistema vigente em Hong Kong cai de vez?

Mesmo que não seja para já, será muito mais cedo do que os defensores do modelo democrático poderiam prever. Ao abrigo do acordo de devolução de 1997, assinado entre a China e o Reino Unido, faltam mais de 20 anos para o fim do regime “um país, dois sistemas”, mas os garrotes a várias das liberdades especiais de que a ex-colónia britânica gozava estão em contínua e acelerada erosão. A imposição da lei da segurança nacional por Pequim silenciou os protestos que se faziam ouvir desde março de 2019. Mais recentemente, o abandono em massa de todos os deputados da oposição no Parlamento de Hong Kong foi mais uma prova de que a luta está, se não perdida, gravemente ferida.

O equilíbrio no Mar da China vai mudar com o crescente domínio de Pequim?

Vai pelo menos contribuir para aumentar a tensão naquelas águas. O Mar do Sul da China é apetecível não só pelo controlo que permite do intenso fluxo comercial como pelas suas reservas naturais, em especial petróleo e gás. Vários países disputam a soberania sobre ilhas, recifes e outros pontos estratégicos, como Vietname, Malásia, Filipinas, Brunei, Indonésia e Taiwan, além da China. O que causa mais preocupação é a crescente presença de embarcações militares chinesas e norte-americanas (e forças aliadas), envolvidas em exercícios ao estilo de marcação cerrada em que a mais pequena distração pode originar uma verdadeira batalha naval.

O Irão vai voltar ao acordo nuclear com o ocidente?

Há esperança, agora que já não é Donald Trump a gerir a política externa da Casa Branca, mas as probabilidades são poucas. O Presidente eleito, Joe Biden, disse em campanha que quer reativar o acordo nuclear de 2015, que previa o fim das sanções económicas ao Irão em troca do fim do seu programa de enriquecimento de urânio. A República Islâmica já tem 12 vezes mais urânio do que o estipulado neste acordo (diz a Agência Internacional de Energia Atómica) e garante que vai exigir indemnizações pelos três anos de pesadas sanções que Trump repôs. Justificar politicamente uma compensação monetária de milhões ao maior rival dos Estados Unidos no Médio Oriente pode revelar-se impossível até para o Partido Democrata.

Benjamin Netanyahu perderá por fim o poder?

É possível, mas não garantido. Em 2021 Israel realizará novas eleições legislativas, as quartas em dois anos, e Netanyahu volta a ser opção. Os resultados obtidos pelo seu partido (Likud, de direita) nos últimos escrutínios têm-no obrigado a uma engenharia negocial, mas sempre tem conseguido manter o cargo de primeiro-ministro. A mais recente crise política penaliza-o mas, dizem as sondagens, prejudica muito mais as forças à esquerda que se lhe opõem. Netanyahu terá a vida dificultada pelo início do julgamento por corrupção, em fevereiro, mas já deu mostras de ser um mestre da política.

A guerra civil na Etiópia vai transbordar para a região?

Mês e meio após o início das hostilidades, diz-se da região do Tigray, no norte, que é a última fronteira para a definição do carácter do Governo etíope. Um conflito político e ideológico que crescia em lume brando transformou-se numa guerra civil sangrenta e ameaça desestabilizar a região já instável e vulnerável em que se insere. O primeiro-ministro Abiy Ahmed fez-se eleger em 2018 como paladino da paz, ganhou o Nobel em 2019 e, passado um ano, não hesitou em resolver a disputa avançando com as tropas federais sobre a capital do Tigray, cujo governo regional é chefiado pelo partido que mandou no país 30 anos e que Ahmed desalojou. Para trás ficaram três décadas de guerra com a Eritreia, que pode agora estalar de novo, e ficam, para já, centenas de milhares de deslocados internos e refugiados no vizinho Sudão.

Moçambique vai receber ajuda internacional para combater o terrorismo?

Depois de três anos de secretismo sobre a resposta (ou ausência dela) aos ataques terroristas que assolam a província de Cabo Delgado e já obrigaram meio milhão de pessoas a abandonar as suas casas, o Governo moçambicano apelou à ajuda internacional. O Presidente Filipe Nyusi foi inicialmente vago, mas desde 15 de dezembro o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, foi mandatado pela União Europeia para preparar a ajuda europeia a Moçambique. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, pediu ao ministro português que se desloque a Moçambique como seu enviado para abordar a a situação com as autoridades locais. A juntar aos mercenários esparsos que se sabe estarem a operar no terreno, não se percebe sequer se em articulação com o exército moçambicano, parece ser o primeiro passo para futuras ações concretas.

A Líbia vai finalmente ter governo?

É uma tarefa difícil, já que um governo nacional terá de conciliar interesses conflituantes por parte de atores nacionais, mas também internacionais, que participam na guerra em curso em apoio dos dois lados: Turquia e Qatar estão ao lado do Governo de Trípoli, reconhecido pelas Nações Unidas; Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos apoiam a ofensiva do general Khalifa Haftar, a partir do leste do país. Para complicar, há posições dúbias, como a da França, que oficialmente está ao lado de Trípoli e na prática apoia a rebelião.

Textos escritos por Ana França, Cristina Peres, Manuela Goucha Soares, Margarida Mota, Pedro Cordeiro.

(IMAGEM PXHERE)

Artigo publicado no “Expresso”, a 24 de dezembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Marrocos normaliza relação com Israel e recebe presente de Donald Trump

Ao mesmo tempo que saudava a oficialização da relação diplomática entre marroquinos e israelitas, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que vai reconhecer a soberania de Marrocos sobre o território do Sara Ocidental

E vão quatro. Depois de Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Sudão, o reino de Marrocos tornou-se, esta quinta-feira, o quarto país árabe a aceitar a normalização da sua relação diplomática com Israel. Tudo isto em apenas quatro meses.

O anúncio foi feito na rede social Twitter pelo Presidente dos Estados Unidos, que mediou o processo. Na sua reta final em funções, a Administração Trump tem investido na aproximação entre Israel e o mundo árabe sunita, num quadro designado por Acordos de Abraão.

Donald Trump saudou “outro avanço histórico”. “Os nossos dois GRANDES amigos, Israel e o reino de Marrocos, concordaram em estabelecer relações diplomáticas plenas — um imenso avanço pela paz no Médio Oriente!”

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1337067073051238400

Este passo entre Rabat e Telavive é a consagração oficial de uma relação que já existia clandestinamente e que agora vai desenvolver-se sem constrangimentos. Segundo a imprensa israelita, a companhia aérea El Al está a equacionar pelo menos um voo diário entre os dois países e operadores turísticos estimam que 150 mil israelitas possam, em 2021, escolher Marrocos como destino de férias.

Para Israel, trata-se da confirmação de que é um país cada vez menos só entre os vizinhos árabes. Em comunicado, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, agradeceu ao rei de Marrocos a sua “decisão histórica” e prometeu uma “paz muito calorosa” entre os dois países.

Uma palavra aos palestinianos

Já o monarca de Marrocos, Mohammed VI, falou ao telefone com o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas — que vê mais um “irmão” árabe afastar-se da solidariedade árabe em torno da causa palestiniana —, a quem reafirmou o compromisso de Marrocos em relação à solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano.

Porém, para Marrocos, este acordo traz um bónus precioso oferecido por Washington: os Estados Unidos comprometem-se a reconhecer a soberania marroquina sobre o Sara Ocidental. O território está ocupado desde 1975 por Marrocos (que o encara como as suas províncias do sul), mas as Nações Unidas prometeram ao povo sarauí um referendo de autodeterminação.

No Twitter, Trump defendeu que “a proposta de autonomia séria, credível e realista de Marrocos é a ÚNICA base para uma solução justa e duradoura” para o conflito do Sara Ocidental. E acrescentou: “Marrocos reconheceu os Estados Unidos em 1777. É portanto adequado que reconheçamos a soberania deles sobre o Sara Ocidental”.

https://twitter.com/realDonaldTrump/status/1337067127455539201

Esta alteração da posição dos Estados Unidos já mereceu reação das autoridades da República Árabe Sarauí Democrática (RASD) — que é reconhecida por dezenas de países e membro de pleno direito da União Africa, em igualdade de condições com Marrocos.

Em comunicado, a RASD e a Frente Polisário (reconhecida pela comunidade internacional como legítima representante do povo sarauí) condenam a decisão de Trump “em fim de mandato” de reconhecer a Marrocos “aquilo que nunca foi seu, ou seja, a soberania sobre o Sara Ocidental”.

“A decisão do senhor Trump constitui uma flagrante violação da Carta das Nações Unidas e dos princípios que regem a legalidade internacional, governos e tribunais internacionais, ao mesmo tempo que constitui uma séria obstrução dos esforços da comunidade internacional na busca de uma solução justa e pacífica para o conflito entre a República Sarauí e o reino de Marrocos. Além disso, esta decisão acontece a poucos dias de Marrocos ter feito explodir o cessar-fogo com a agressão perpetrada a 13 de novembro.”

A aproximação entre Israel e o mundo árabe sunita tem sido prioridade da diplomacia norte-americana, e em especial, do conselheiro e genro de Trump, Jared Kushner. Visa não só criar erosão na parede árabe que isolava Israel na região, como sobretudo unir e fortalecer uma frente de oposição ao grande inimigo de todos na região — o Irão.

Egito foi pioneiro

Abdel Fattah al-Sisi, Presidente do Egito — outro dos pesos-pesados da geopolítica do Médio Oriente —, foi o primeiro dirigente árabe a reagir ao novo acordo. “Se esta etapa der frutos, criará mais estabilidade e cooperação na nossa região”, afirmou em comunicado.

O Egito foi o primeiro país árabe a estabelecer um tratado de paz com Israel, assinado em 1978, seguido pela Jordânia, em 1994. No total, são agora seis os membros da Liga Árabe (de um total de 22) com relações diplomáticas com o Estado judeu. Porém, uma coisa são acordos celebrados entre governos, outra a sua aceitação pelos povos árabes, no seio dos quais continua a prevalecer um forte sentimento anti-Israel.

Esta semana, a imprensa israelita deu conta de preparativos para uma visita oficial de Netanyahu ao Egito. A confirmar-se, será a primeira de um líder israelita desde 2010, ano em que Netanyahu se encontrou com o então Presidente egípcio, Hosni Mubarak, no Cairo. Poucas visitas para dois países que têm entre si um território problemático chamado Faixa de Gaza.

(IMAGEM Bandeiras de Israel e de Marrocos MOROCCO JEWISH TIMES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de dezembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Covax, a boia de salvação dos países pobres

Mecanismo global de aquisição e distribuição de vacinas é esperança dos que não conseguem aceder ao mercado

Uma crise global exige respostas globais. Porém, no caso específico da pandemia do novo coronavírus, que contagia sem olhar a etnias, credos ou estatuto social, a solução ameaça não chegar a todos ao mesmo tempo. A corrida à vacina — na qual 7800 milhões de pessoas em todo o mundo depositam a esperança do regresso à normalidade — trava-se a duas velocidades.

Num grupo, países ricos fazem-se valer do seu poder negocial e açambarcam doses em quantidade suficiente para imunizar muito mais do que as respetivas populações. Noutro, sem capacidade para competir nesse mercado, os mais pobres ficam dependentes de quem os ajude. “Este problema foi identificado logo no início da pandemia, quando se iniciou a corrida às vacinas. Por essa razão, foi criado o Covax”, diz ao Expresso o cirurgião Nelson Olim, consultor da Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Covax é uma plataforma inovadora, financiada por países, por filantropos e pelo sector privado, lançada a 4 de junho, na Cimeira Global das Vacinas, com um duplo fim: investir no desenvolvimento de um portefólio diversificado de vacinas e garantir o acesso equitativo aos países participantes nesse consórcio.

“Além de promover a investigação, o desenvolvimento e a produção de vacinas para a covid-19, o Covax também negoceia os seus preços”, salienta o médico. “Todos os países participantes, independentemente do seu nível económico, terão acesso às vacinas assim que estas forem desenvolvidas e aprovadas. Pretende-se exatamente prevenir o açambarcamento da produção pelos países mais ricos.”

Nove doses por pessoa

Até ao final de 2021, o Covax espera distribuir dois mil milhões de doses de vacinas para a covid-19, assegurando dessa forma a vacinação dos 20% mais vulneráveis da população de cada país, incluindo daqueles sem capacidade para financiar o mecanismo. “O Covax é, provavelmente, a única garantia de que os países mais pobres terão acesso à vacinação em massa”, diz Nelson Olim.

Segundo um projeto da Universidade Duke, da Carolina do Norte (EUA), que supervisiona as compras de vacinas para a covid-19 em todo o mundo, até ao momento já foram adquiridas mais de 7300 milhões de doses, tendo mais de metade (3850 milhões) sido assegurada pelos países mais ricos — que, segundo o Banco Mundial, correspondem a 16% da população do planeta. O Canadá surge como caso extremo, com uma média de mais de nove doses per capita.

Este volume de encomendas não só esgota a capacidade de produção dos laboratórios que estão mais perto de garantir uma distribuição em massa, como mina a perspetiva de vacinação dos países mais pobres, que correm o risco de só a iniciarem após muitos outros a terem terminado.

Coordenado pela OMS, pela Coligação para a Inovação na Preparação para Epidemias (CEPI), de Oslo, e pela Aliança Global para as Vacinas (Gavi) — iniciativa da Fundação Bill & Melinda Gates e que, a partir de janeiro, será dirigida por Durão Barroso —, o Covax surgiu para encurtar distâncias.

“Esta plataforma pode vir a ser um embrião de um sistema universal” de distribuição de vacinas, defende Nelson Olim. “Nunca será possível garantir igual acesso, uma vez que os países mais desenvolvidos poderão sempre comprar em paralelo. Mas aquilo que se garante é acesso àqueles que não têm capacidade de comprar.”

Um bem público global

Neste esforço conjunto, a União Europeia é atualmente o maior doador. “A Equipa Europa — que inclui a Comissão Europeia, o Banco Europeu de Investimento e os Estados-membros [os 27 da UE, a Noruega e a Islândia] — já anunciou contribuições de mais de €870 milhões para o Covax”, disse ao Expresso Stefan De Keersmaecker, porta-voz da Comissão Europeia para as questões da saúde. Ao mesmo tempo, “os Estados-membros têm a possibilidade de doar a outros países parte das vacinas compradas” por Bruxelas e que serão distribuídas pelos 27 Estados-membros.

A UE já contratualizou 1965 milhões de doses junto de seis laboratórios, muito mais do que o necessário para vacinar (em duas doses) os seus 450 milhões de habitantes. “A UE está a demonstrar que leva a sério os seus compromissos de não deixar ninguém para trás e de fazer da vacina para a covid-19 um bem público global”, acrescenta o porta-voz da Comissão. “A UE continuará a ser um aliado na busca de melhores sistemas de saúde e cobertura universal da saúde.”

Estados Unidos e Rússia de fora

“Para os países em vias de desenvolvimento, o Covax é uma boia de salvação, sem a qual tão cedo não teriam acesso a estas novas vacinas”, realça o médico português. “Infelizmente, vivemos num mundo onde as economias mais frágeis já dependem em muito da ajuda internacional para quase tudo. Não é por acaso que o Programa Alimentar Mundial recebeu o prémio Nobel da Paz em 2020. E, neste caso, falamos de um programa que promove a ajuda para a mais primária das necessidades, a alimentação. Imagine-se tudo o resto: educação, saúde, saneamento…”

Contactada pelo Expresso, a Gavi informou que 189 países já aderiram ao Covax — Estados Unidos e Rússia estão de fora. E também que 92 países, sem meios para pagar as vacinas de que necessitam, são elegíveis para beneficiarem do mecanismo.

Um deles é Madagáscar, que anunciou há duas semanas não estar interessado em receber vacinas para a covid-19. As autoridades da ilha continuarão a confiar no CovidOrganics, uma bebida milagrosa produzida localmente, à base de artemísia, planta com propriedades antimaláricas, que muitos no país, a começar pelo Presidente, acreditam ser eficaz na prevenção e cura da doença. Apesar de não ter sido aprovado pela OMS, o preparado tem sido exportado para vários países africanos.

“Duvido que haja muitos países a negar o acesso à vacina”, afirma Nelson Olim, que tem experiência de emergência médica em contexto humanitário em territórios como Honduras, Nigéria, Congo, Somália, Sudão do Sul, Faixa de Gaza, Iémen, Irão e Afeganistão. “No entanto, a resistência psicológica à vacinação pelos mais variados motivos tornou-se um problema global. A principal razão pela qual ainda não se conseguiram erradicar doenças para as quais existe vacina, como, por exemplo, a poliomielite, é exatamente a propagação de crenças, sejam elas religiosas, culturais ou sociais.”

Recentemente, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, considerou o Covax “a maneira mais rápida para acabar com a pandemia. Trabalhar em conjunto através do Covax não é caridade. É do interesse de cada país controlar a pandemia e acelerar a recuperação económica global. Não é só a coisa certa a fazer, é também a coisa inteligente a fazer.”

OS NÚMEROS DA CORRIDA

9800
milhões de doses foram já compradas ou reservadas em todo o mundo. Os Estados Unidos garantiram 2600 milhões, a União Europeia quase 2000 milhões e a Índia 1600 milhões

700
milhões de doses foram asseguradas pelo mecanismo Covax, o quarto maior contratante. O objetivo é distribuir 2000 milhões até ao final de 2021

4800
milhões de doses é a capacidade de produção estimada das três farmacêuticas que estão mais perto de garantir uma distribuição em massa em 2021. A AstraZeneca/Oxford garante 3000 milhões, a Pfizer/BioNTech 1300 milhões e a Moderna 500 milhões

274
vacinas estão em desenvolvimento em todo o mundo, informou o Infarmed na última reunião de peritos e políticos: 59 estão em testes clínicos, 11 estão na última fase de desenvolvimento e 6 estão em avaliação na União Europeia

(IMAGEM PIXABAY)

Artigo publicado no “Expresso”, a 11 de dezembro de 2020