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Golpe de 2750 toneladas

O porto de Beirute desfez-se num cogumelo atómico. Negligência e descontentamento vão fazer rolar cabeças

Marta demorou quase 24 horas para procurar um hospital. “Aquele que existe mais próximo da minha casa ficou muito destruído pelo impacto da explosão. E apercebi-me de que nenhum dos meus ferimentos era grave. Por isso, não quis contribuir para agravar a situação dos hospitais”, diz ao Expresso. “Estavam a receber tantos feridos…”

Foi para casa de amigos, um deles médico, que lhe prestou os primeiros socorros, e só no dia seguinte, com mais calma, dirigiu-se a um hospital. Levou pontos, mas não sabe quantos, porque perdeu-se à conversa com o médico que a atendeu — oriundo de Gaza, nascido no Kuwait e residente no Líbano. Esta diversidade, muito frequente nos cidadãos do Médio Oriente, contribuiu para que esta portuguesa se apaixonasse pela região, onde trabalha desde 2013, grande parte do tempo para o Comité Internacional da Cruz Vermelha.

Marta Abrantes Mendes, de 41 anos, nascida na Costa da Caparica, foi um dos mais de 5000 feridos e 300 mil desalojados de duas grandes explosões, na terça-feira, com epicentro no porto de Beirute. A existência de 2750 toneladas de nitrato de amónio no local — confiscadas a um cargueiro russo abandonado em Beirute e ali armazenadas de forma negligente desde 2013 — conferiu ao rebentamento um efeito de cogumelo atómico. As explosões, que foram sentidas na ilha de Chipre, a 200 quilómetros de distância, provocaram pelo menos 157 mortos.

Era final de tarde, e Marta tinha acabado de entrar em casa, na zona de Geitawi, perto do porto. “Tem havido muitos cortes de luz, devido à situação económica, e eu tinha passado a tarde a trabalhar, sentada num café com ar condicionado. Ao chegar a casa, vi que havia eletricidade e aproveitei para ligar o ar condicionado. Tinha acabado de fechar as janelas quando ocorreu a explosão.” Foi ferida na cara e nos braços pelos estilhaços de um dos janelões da sala.

Resiliência libanesa

Num país habituado a potentes atentados de cariz político, este rebentamento em Beirute foi superior a qualquer outro. Muitos edifícios perderam a fachada e muitos mais ficaram inabitáveis. Marta mudou-se para casa de uns amigos, já a sua senhoria deu guarida a três casais. Foi assim um pouco por toda a cidade, entre famílias, amigos, vizinhos.

Com Beirute arrasada, a população arregaçou as mangas, pegou em vassouras e começou a arejar as casas e a limpar vidros e sangue das ruas. Na quinta-feira de manhã, após uma volta pela cidade, Marta dizia ao Expresso: “É outra cidade. Há muito mais movimento nas ruas, há mais lojas abertas.”

Aos poucos, a resiliência libanesa vai-se impondo. Nas últimas décadas, o povo enfrentou uma sangrenta guerra civil (1975-1990), a ocupação síria (1976-2005), conflitos entre Israel e o Hezbollah (movimento xiita libanês) e a exposição à guerra da Síria, que levou o Líbano (com uma população de 6,8 milhões) a abrir as portas a 1,5 milhões de refugiados. Sempre o país se soube reerguer.

Num país habituado a potentes atentados de cariz político, este rebentamento em beirute acabou por ser superior a qualquer outro

“O Líbano fica nesse pêndulo entre a tragédia e a magia”, diz ao Expresso Guga Chacra, analista de assuntos internacionais e colunista do jornal “O Globo”. Nascido na cidade brasileira de São Paulo e neto de libaneses, vive com o coração tudo quanto se passa no “país dos cedros”, onde tenta ir todos os anos. “O Líbano já superou outros momentos ruins, mas dessa vez será complicado. Em primeiro pelo colapso económico, igual ao que vimos acontecer na Argentina e na Grécia. Some-se a isso uma crise política e a covid-19. O Líbano não está muito afetado pela pandemia, mas como todo o planeta está, e praticamente todos os países estarão em recessão este ano, isso vai dificultar a ajuda ao país.”

Na véspera das explosões, a deterioração da situação económica e financeira do Líbano servia de justificação aos punhos erguidos e aos gritos de dezenas de pessoas que se juntaram à porta do Ministério da Energia em Beirute. Os protestos visavam os cortes de energia diários, o facto de se terem tornado “normais” e de a degradação dos serviços públicos básicos parecer não ser da responsabilidade de ninguém.

Desde junho que o racionamento apertou ainda mais, agudizado pelas restrições da pandemia, passando a haver apenas duas horas de energia elétrica por dia nalgumas zonas. As famílias recorrem a velas e querosene e os hospitais avisam que o combustível para fazer os geradores de eletricidade funcionar está a esgotar-se.

“Viemos e ficamos”, declarava o manifestante Ali Daher, citado pela agência AP, que prometia com os outros libertar o ministério “da corrupção… e da gestão que mergulhou este país na escuridão”.

Pior do que a crise só a guerra

A maior ameaça desde a guerra civil é a crise. Melhor, o conjunto de crises, que parecia ter atingido o cúmulo com a pandemia do coronavírus.

“Emmanuel Macron a visitar zonas onde nenhum líder libanês ousaria ir”, comentava Maha Yahya na sua conta de Twitter a visita que o Presidente francês fez a Beirute na quinta-feira. A economista, diretora do Carnegie Middle East Center, destacava no Twitter o facto de as pessoas abraçarem Macron repetindo em simultâneo o slogan “O povo quer a queda do regime!”.

O Líbano é um Estado altamente endividado e com uma inflação galopante. O poder de compra dos cidadãos reduz-se de dia para dia, o desemprego e a pobreza aumentam. Em 23 de julho, Yahya publicou um artigo no Carnegie em que expunha o colapso dos pilares de sustentação do país. Um dos que desaparece velozmente é a classe média, que costumava ser historicamente uma das mais abastadas, profissionais e com mais recursos da região.

Denunciando a responsabilidade dos líderes políticos pela desvalorização (80% em oito meses) da libra libanesa, pela fuga de jovens para o estrangeiro e por uma inflação que atingiu 90% no mês de junho, a economista congratulava-se, na quinta-feira, pelo apoio de Macron, que prometeu regressar com uma proposta de “um novo pacto político” ao Governo.

A zanga é transversal. Uma futura reconciliação nacional terá de passar por medidas que o povo reconheça como capazes de inverter o caminho que se tornou aceitável. E o diagnóstico parece simples: “Isto não foi um acidente, isto não foi negligência. Isto foi um ataque dos rufias em cargos públicos contra o seu próprio povo”, lia-se na terça-feira num tweet de Jad Chaaban, professor de Economia na Universidade Americana de Beirute.

Na quinta-feira, 16 funcionários do porto foram colocados em prisão domiciliária. Ao mesmo tempo, o Governo deu quatro dias a um comité de investigação para apurar responsabilidades. As autoridades apressam-se a arranjar culpados, mas nas ruas a confiança está tão arrasada quanto a própria Beirute.

Texto escrito com Cristina Peres.

(FOTO Destruição provocada pela forte explosão, no porto de Beirute, a 4 de agosto de 2020 BERNARD KHALIL / FLICKR DA PROTEÇÃO CIVIL E AJUDA HUMANITÁRIA DA UE)

Artigo publicado no “Expresso”, a 8 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui

Que acontece a quem foge da Coreia do Norte, arrepende-se e decide voltar para casa?

Não são muitos, mas há quem decida regressar depois de ter arriscado a vida para fugir do país mais fechado do mundo. Para muitos desertores norte-coreanos, a vida no Sul rico e democrático não correspondeu às expectativas. De volta à terra natal, onde enfrentam o rótulo de “traidores”, tanto os esperam punições exemplares como papéis de destaque na propaganda do regime

Num país tantas vezes descrito como autoritário, repressivo e impiedoso com quem hesita na lealdade ao regime, não se estranha que haja cidadãos que, em contextos de grande desespero, arrisquem a vida para fugir da Coreia do Norte — de onde só se sai com autorização superior. Já é mais difícil compreender que depois de concretizarem a fuga com êxito queiram regressar ao país de onde desertaram e onde têm o rótulo de “traidores”.

Segundo o Ministério da Unificação da Coreia do Sul, nos últimos cinco anos, pelo menos 12 desertores norte-coreanos deram-se mal no próspero e democrático Sul e optaram por regressar ao último reduto do comunismo à face da Terra: três em 2015, quatro em 2016, quatro em 2017 e um a 19 de julho passado. O número pode, na realidade, ser muito superior já que Seul não sabe do paradeiro de outros 891 desertores norte-coreanos.

O caso mais recente foi especialmente badalado. Segundo as autoridades de Pyongyang, um homem de 24 anos — que desertara para a Coreia do Sul em 2017, a nado, numa odisseia ao longo da fronteira mais fortificada e vigiada do mundo que lhe valeu sete horas e meia dentro de água —, é suspeito de ter reentrado na Coreia do Norte infetado com o novo coronavírus, condição que a Coreia do Sul não confirmou. Se até então, o regime norte-coreano não tinha admitido a existência de casos positivos de covid-19 no país, este “caso importado” facilitou a narrativa de Pyongyang sobre o assunto.

“As motivações [para o regresso de desertores norte-coreanos ao seu país] variam, mas no geral isso deve-se ao facto de as suas vidas na Coreia do Sul passarem por momentos difíceis”, explica ao Expresso Go Myong-Hyun, do Instituto Asan de Estudos Políticos, de Seul. “Neste caso recente, o desertor estava a ser acusado de agressão sexual e corria o risco de ser condenado a uma pena de prisão. Isso incentivou-o a regressar clandestinamente ao Norte.”

Há também quem queira regressar à Coreia do Norte porque ficou sem dinheiro, por vezes perdido em esquemas e golpes, ou também porque tem saudades da família. Lee Kwang-baek, diretor do jornal digital “Daily NK”, exemplifica ao Expresso ambas as situações.

“Lee Hyuk-chul, que foi para a Coreia do Sul em 2013, entrou em conflito com o seu irmão mais velho [também desertor] e tornou-se um vagabundo, antes de roubar um barco de pesca e regressar à Coreia do Norte. Já Chae Sung-chan, que entrou na Coreia do Sul em 1996, ficou com saudades da mulher e da filha e voltou para a Coreia do Norte em 2005. Entregou todo o dinheiro que tinha às autoridades norte-coreanas para evitar ser punido e pensa-se que conseguiu voltar a viver com a família.”

Outros ainda optam por voltar depois de verem a família ameaçada pelas autoridades norte-coreanas ou porque não conseguiram adaptar-se à realidade do Sul. “Frequentemente, os desertores da Coreia do Norte, em especial homens mais velhos que tiveram posições de algum poder na Coreia do Norte, tiveram dificuldades de adaptação à vida na Coreia do Sul”, diz ao Expresso Jenny Town, vice-diretora do “38 North”, sítio de análise à realidade norte-coreana.

“Aqueles que chegam ainda crianças conseguem adaptar-se mais facilmente, mas quem chega em idade pós-escolar costuma ter grandes dificuldades para se estabelecer num ambiente drasticamente diferente. Além disso, na sociedade sul-coreana ainda existe um pouco de discriminação contra os desertores norte-coreanos.”

As estatísticas do Ministério da Unificação sul-coreano indicam que desde 1998 atravessaram ilegalmente a fronteira com a Coreia do Sul 33.670 norte-coreanos — 135 dos quais no primeiro semestre deste ano. Mais de metade (19.228) tinham entre 20 e 39 anos quando desertaram e 5095 eram crianças ou jovens em idade escolar. Quase metade do total de desertores (15.140) eram “desempregados” e 13.342 “trabalhadores”.

Talvez o aspeto mais surpreendente do fenómeno das deserções norte-coreanas seja o facto de 72,1% do total de fugitivos (24.266) serem do sexo feminino. Desde 2002 que, anualmente, o número de desertoras é superior ao de desertores.

“A principal razão prende-se com o facto de, na sociedade norte-coreana, os homens terem mais possibilidades de arranjar empregos nos sectores formais — militares e Governo”, explica Jenny Town. Já às mulheres é dada liberdade para desenvolverem atividades económicas. As autoridades permitem que elas vendam nos mercados locais (jangmadang), onde os homens não estão autorizados a fazê-lo.

“As mulheres costumam trabalhar em fábricas ou nos sectores informais, em mercados e como empregadas domésticas, o que facilita a sua mobilidade”, continua Jenny Town. “Isso torna-as também mais bem preparadas para se adaptarem às economias de mercado assim que conseguem sair do país.”

Para as norte-coreanas que se predispõem a desertar para a China — o outro país, para além da Coreia do Sul, com quem a Coreia do Norte tem fronteira terrestre —, o caminho está muitas vezes armadilhado. “Muitas desertoras são vítimas de tráfico de seres humanos por parte de chineses e norte-coreanos”, afirma Go Myong-Hyun.

“Inicialmente, são recrutadas na Coreia do Norte com falsas promessas de emprego na China, mas assim que são traficadas para fora da Coreia do Norte são vendidas a homens chineses à procura de noivas. Algumas acabam por escapar das mãos dos seus maridos sequestradores para a Coreia do Sul.”

Aos desertores arrependidos o regresso à Coreia do Norte reserva destino incerto. “Vai depender das circunstâncias”, explica Jenny Town. “Os desertores capturados enfrentam punições severas, como longas sentenças em campos de prisioneiros. Porém, nos casos em que os desertores regressam voluntariamente, o castigo pode ser menos severo em virtude do potencial valor da situação para a propaganda.”

Em 2017, a desertora Lim Ji-hyun voltou à Coreia do Norte após ter vivido três anos na Coreia do Sul. Se no Sul se tornou um rosto conhecido na televisão por aquilo que representava, regressada ao Norte surgiu num vídeo em que falava na “falsa ilusão” que fora, para si, pensar que podia ganhar muito dinheiro no Sul.

(IMAGEM Mural de propaganda norte-coreana MARK FAHEY / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de agosto de 2020. Pode ser consultado aqui

Covid-19 ameaça o país, mas Kim não aceita ajuda

Para os norte-coreanos, a noção de que aceitar ajuda humanitária da Coreia do Sul cria expectativas políticas é inaceitável

A Coreia do Norte admitiu por fim que, como o resto do mundo, também enfrenta a covid-19 e noticiou o primeiro caso suspeito. O anúncio, aliado à previsível disponibilidade da comunidade internacional para ajudar o país, poderia indiciar um desanuviamento na península. Mas Pyongyang tem resistido a aceitar o ramo de oliveira que a Coreia do Sul, sobretudo, lhe tem estendido desde o início da pandemia.

“As relações intercoreanas, sobretudo agora, são altamente políticas. Se estivessem boas, como em 2018 [quando os líderes se encontraram três vezes], e houvesse otimismo no sentido da cooperação económica e das negociações de paz, a Coreia do Norte provavelmente teria aceitado a cooperação na frente covid”, diz ao Expresso Jenny Town, vice-diretora do site de análise norte-coreana “38 North”. “Mas a Coreia do Norte encara os dois últimos anos de negociações com a Coreia do Sul como algo de que regressou de mãos vazias. Os compromissos otimistas nas declarações de Panmunjom e Pyongyang [2018] não foram cumpridos, exceto cedências menores na zona desmilitarizada.”

Ajuda humanitária sem a perspetiva de cooperação substancialtorna a oferta pouco atrativa para os norte-coreanos

O real impacto da pandemia num território tão fechado como a Coreia do Norte é impossível de avaliar, mesmo para pessoas atentas ao que se passa no país, como Rachel Minyoung Lee, ex-analista do Governo dos EUA. “No início do ano, a Coreia do Norte não aceitou a oferta de cooperação da Coreia do Sul em matéria de covid e agora não há provas de que a situação epidemiológica esteja pior do que nessa altura”, diz ao Expresso. “Julgo que a Coreia do Norte [ao fazer o anúncio] sentiu a necessidade de alertar para uma potencial ameaça à saúde pública o mais depressa possível. Isto está em linha com as medidas de quarentena que tem tomado.”

Uma frustração maior

Vizinha da China, de onde partiu a pandemia, a Coreia do Norte começou a impor restrições logo em janeiro. A 22 limitou a circulação de pessoas, mercadorias e embarcações e a 31 suspendeu os voos de e para o país. A 25 de julho, após reunião de urgência da cúpula do partido único, convocada pelo líder Kim Jong-un, a cidade costeira de Kaesong foi colocada em confinamento, após ser identificado um caso suspeito “importado do Sul”: um homem de 24 anos que tinha desertado para a Coreia do Sul em 2017 e reentrara ilegalmente na Coreia do Norte a 19 de julho.

Seul confirmou a fuga do homem, acusado de violação no país, mas não a infeção pelo novo coronavírus. “Penso que a Coreia do Norte pode ter-se referido à Coreia do Sul para desviar a culpa por um surto de covid-19 que possa já ter ocorrido no país ou por quaisquer futuros surtos”, explica Rachel Lee.

Apesar dos apelos a Sul para que as duas Coreias assumam o seu desígnio comum e cooperem em matéria de covid, da perspetiva da Coreia do Norte há uma frustração maior que o inviabiliza. “Embora benéfico para a Coreia do Norte, o simbolismo de aceitar este tipo de cooperação humanitária sem qualquer perspetiva de obtenção da cooperação substancial que o regime quer torna esta oferta pouco atrativa”, analisa Jenny Town.

Os norte-coreanos sabem que, por si só, a Coreia do Sul não tem autoridade para levantar as sanções internacionais. Mas têm expectativas em relação ao desenvolvimento de linhas férreas entre os dois países, à reabertura do complexo industrial de Kaesong, à cooperação militar e a uma declaração de fim da guerra que evolua para um tratado de paz entre as Coreias (oficialmente em guerra desde 1950).

“Seul tem sido incapaz de forçar a cooperação dos Estados Unidos para avançar nalgum ponto desta agenda e não tem mostrado vontade de seguir por conta própria”, diz Town. “Além disso, o Governo [sul-coreano] de Moon Jae-in politiza constantemente este tipo de gestos humanitários, fazendo declarações públicas que os vinculam à esperança do regresso às negociações. Essa noção de que aceitar ajuda da Coreia do Sul obriga ou cria expectativas em relação a certas ações políticas recíprocas é inaceitável para os norte-coreanos.”

(ILUSTRAÇÃO SECURITY MANAGEMENT)

Artigo publicado no “Expresso”, a 1 de agosto de 2020 e no “Expresso Online”, a 31 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui

Dar voz à causa da pobreza com Bono Vox por inspiração

A pandemia de covid-19 pode condenar 100 milhões de pessoas a uma vida de pobreza extrema. “É fundamental que qualquer futura vacina seja disponibilizada para todos os países ao mesmo tempo”, alerta ao Expresso um voluntário português na ONE, a organização cofundada por Bono Vox, o carismático vocalista dos U2 envolvido há décadas no combate às desigualdades sociais

Para a esmagadora maioria dos portugueses, €1,70 no bolso não é dinheiro com que se conte para fazer grandes compras — são trocos. Para mais de 700 milhões de pessoas em todo o mundo, contudo, é todo o dinheiro que possuem para (sobre)viverem durante um dia.

“As Nações Unidas definem como pobreza extrema uma situação em que alguém vive com menos de 1,90 dólares por dia (cerca de €1,70)”, explica ao Expresso Rúben Castro, madeirense de 29 anos que dedica parte do seu tempo ao combate à pobreza. Para uma família de quatro, o orçamento diário não vai além de €6,80. “Em março de 2020 havia 737 milhões de pessoas a viver nestas condições”, continua. “Isto corresponde a cerca de 10% da população do planeta.”

Rúben Castro trabalha como voluntário na ONE, organização cofundada pelo músico Bono Vox, carismático vocalista dos U2, que pugna pela erradicação da pobreza extrema no mundo. A batalha ia no bom caminho, com mais de 1000 milhões de pessoas resgatadas de vidas miseráveis desde 2000.

A esse ritmo, a ONE acredita que seja possível sonhar com o fim da pobreza extrema em 2030. “Era, era possível”, corrige Rúben, “antes da pandemia”. O Banco Mundial fez contas e, após considerar diferentes cenários de evolução da pandemia, estima que a doença possa empurrar mais 71 a 100 milhões de pessoas para um quotidiano de pobreza extrema.

Do total de 737 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema antes da pandemia, cerca de 420 milhões estavam na África Subsariana. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento, a pandemia pode fazer o número aumentar entre 28 e 49 milhões.

Trinta e cinco anos depois do “Live Aid” — o megaconcerto televisionado por mais de 1000 milhões de espectadores, a 13 de julho de 1985, com o qual o mundo do rock tentou sensibilizar para a fome em África —, o continente permanece vulnerável ao problema.

Então um dos artistas a subir ao palco do Estádio de Wembley, em Londres (Reino Unido), repleto com 72 mil pessoas, hoje, aos 60 anos, Bono continua a travar a luta através da ONE, batizada com o título de um dos mais emblemáticos temas da banda irlandesa, lançado em 1991 no álbum “Achtung Baby”.

One”, a canção, fala de amor, perdão e de uma vida que tem de ser aproveitada. O enorme êxito do tema resgatou os U2 de uma fase decadente e relançou a banda para uma nova vida de êxitos. Com o mesmo espírito, a ONE luta por providenciar dignidade aos mais pobres entre os pobres.

Rúben Castro, um madeirense de 29 anos, desempenha o cargo de “jovem embaixador da ONE”, desde novembro de 2019 ONE

“Desde miúdo que acho que o lugar onde nascemos não devia definir a forma como vivemos. As desigualdades sociais, o facto de morarmos num país em guerra ou num sítio onde o elevador social muitas vezes não funciona ou não existe, tudo isto continua a chatear-me imenso”, confessa Rúben Castro. “Integrar a ONE é uma maneira de lutar e de dar o meu contributo para que esse impacto nas pessoas seja minimizado.”

Além da pobreza extrema, a outra grande frente de combate da ONE é a erradicação de doenças tratáveis. O português diz que é importante “não repetir os erros do passado”, nomeadamente não desguarnecendo o processo de vacinação.

Em 2019, recorda, durante o surto de ébola na República Democrática do Congo, o número de pessoas que morreram de sarampo foi o dobro das mortes de Ébola. “Isso aconteceu devido à interrupção dos cuidados de saúde e dos programas de vacinação de rotina.”

Numa campanha recente em que Rúben deu a cara, a ONE alertou para um aspeto crucial do combate à pandemia: “É fundamental que qualquer futura vacina para a covid-19 seja disponibilizada a todos os países ao mesmo tempo”, defende. “A igualdade deve estar no âmago da resposta global a esta crise. Nenhum de nós estará em segurança até que todos estejamos seguros.”

Aliviar a pressão sobre os países mais vulneráveis passaria também por um perdão de dívida. “Mesmo os melhores sistemas de saúde do mundo tiveram e continuam a ter dificuldade em fazer face a esta pandemia. Imagine-se nos países menos desenvolvidos… o perdão da dívida ajudaria a fazer face à pandemia e à recuperação económica. Se não tiverem de gastar dinheiro a pagar dívidas ou empréstimos, podem focar-se nessas áreas.”

Rúben colabora com a ONE desde novembro passado, a partir do escritório da organização em Bruxelas, cidade onde — arrumada a licenciado em Ciências da Cultura na Universidade da Madeira — o português está a estagiar no âmbito de um mestrado em jornalismo.

O polo da ONE na capital belga está encarregue dos contactos com a União Europeia, que é o maior doador a nível mundial. Por essa razão, a organização acompanhou atentamente as recentes negociações sobre o quadro orçamental para o período 2021-2027 sem, no fim, deixar de sentir um certo desapontamento.

“É verdade que se trata de um acordo histórico para a Europa, mas não é um bom acordo para os parceiros da UE”, comenta Rúben. “O orçamento para ações externas diminuiu em quase €20 mil milhões, uma redução de 17% face à proposta da Comissão de maio passado.” Para a ONE, investir nos parceiros da UE é não só a coisa certa a fazer como também a mais inteligente.

“Estamos desapontados. A pandemia demonstrou que só através da união e de um trabalho conjunto é possível resolvermos os desafios que enfrentamos a nível mundial. O acordo mostra falta de ambição por parte da UE e um sinal preocupante de falta de solidariedade global face ao momento atual. A longo prazo, estes cortes irão custar mais à Europa.”

Fundada em 2004, a ONE tem escritórios em Abuja, Berlim, Bruxelas, Dacar, Joanesburgo, Londres, Nova Iorque, Otava, Paris e Washington. Não aceita doações de governos nem de particulares: financia-se recorrendo à filantropia (como as Fundações Bill e Melinda Gates e a Bloomberg Philanthropies), de empresas como a Google e a Coca-Cola e de personalidades com influência política. A sua presidente é Gayle E. Smith, antiga assessora dos presidentes norte-americanos Bill Clinton e Barack Obama.

“A ONE não pede contribuições. No máximo, pede que as pessoas assinem as suas petições para que, quando levarmos propostas à Comissão Europeia ou a outros atores, possamos mostrar que tempos pessoas connosco e dizer que determinado assunto é importante para estas pessoas, ‘por isso oiçam-nas’.”

Rúben considera que, para ser escolhido como “jovem embaixador” da ONE, foi importante o seu conhecimento dos meandros do Parlamento Europeu — onde trabalhou como assistente de uma eurodeputada portuguesa —, a experiência enquanto dirigente na associação académica na Madeira, voluntariados em diferentes áreas e a capacidade de trabalhar e de saber estar em equipa, que desenvolveu com a prática do andebol.

Em Portugal deixou uma carreira como semiprofissional no Madeira SAD, mas o bichinho do andebol acompanhou-o na sua aventura belga. Ingressou no United Brussels Handball Club e já celebrou uma subida de divisão. “Desde miúdo tive sempre uma agenda muito preenchida, fazia imensas coisas ao mesmo tempo, estudava e trabalhava aos fins de semana. Esta maneira de gerir o tempo e de gerir prioridades foi importante”, diz o ponta-esquerda.

De Rúben, a ONE espera que seja um rosto e uma voz no movimento global de sensibilização para o problema da pobreza. “Nos seus concertos, o Bono faz questão de falar do tema. Numa escala um bocadinho não comparável”, conclui com humor, “olhando para ele e para mim, ambos damos voz à causa.”

(FOTO PRINCIPAL O músico irlandês Bono Vox é o principal mentor e inspirador da campanha ONE que busca o nome a um grande êxito dos U2 KAY NIETFELD / GETTY IMAGES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 27 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui

John R. Lewis High School, uma inspiração para as próximas gerações

Uma escola secundária do estado da Virginia substituiu o nome de um antigo general da Confederação pelo de um ícone da luta contra a discriminação racial. “A vida extraordinária de John Lewis e a sua defesa da justiça racial serão uma inspiração para os nossos estudantes”, diz a promotora da alteração

No próximo ano letivo, haverá uma “nova” escola nos Estados Unidos. Fisicamente já existe — situa-se em Springfield, no estado da Virginia —, mas acaba de mudar de nome numa reação direta a um momento sensível do país.

A até agora Escola Secundária Robert E. Lee passará a chamar-se Escola Secundária John R. Lewis. Abandona o nome de um antigo general da Confederação (a união política pró-esclavagista do século XIX) e adota o de um ícone da luta pelos direitos dos negros na América.

À direita na foto, John R. Lewis é, juntamente com Martin Luther King Jr., um dos líderes de uma marcha entre Selma e Montgomery, no estado do Alabama, em 1965 STEVE SCHAPIRO / ACADEMY OF ACHIEVEMENT

A decisão foi tomada na quinta-feira, pelo Conselho Escolar do Condado de Fairfax, que reuniu à distância e acolheu a proposta por unanimidade. Aconteceu seis dias após a morte do ativista e numa altura em que várias cidades norte-americanas estão tomadas por protestos anti-racismo que têm visado símbolos (maioritariamente estátuas) associados à escravatura.

“O nome Robert E. Lee está para sempre ligado à Confederação, e os valores confederados não estão alinhados com a nossa comunidade”, reagiu Tamara Derenak Kaufax, que fez a proposta, em fevereiro. “Creio que a vida extraordinária de John Lewis e a sua defesa da justiça racial serão uma inspiração para os nossos estudantes e para a nossa comunidade nas próximas gerações.”

Numa audição pública sobre a proposta de mudança de nome da escola, na quarta-feira à noite, um membro da comunidade, citado pelo jornal “USA Today”, afirmou: “A mudança começa nos níveis mais baixos de nós próprios, depois da nossa comunidade e depois do país. Devemos aos pioneiros da história continuar a lutar pela igualdade de todas as formas que pudermos.”

Um dos 13 “Cavaleiros da liberdade”

Nascido em 1940, em Troy (estado do Alabama), John Lewis foi um pioneiro no combate ao racismo nos EUA. Aos 17 anos conheceu Rosa Parks e aos 18 o carismático Martin Luther King.

Em 1961, tinha 21 anos, foi um dos 13 “Cavaleiros da liberdade” — sete brancos e seis negros — que ousaram percorrer de autocarro o Sul dos Estados Unidos, onde as leis antissegregação encontravam resistência para ser aplicadas.

Em 1965, participou nas três marchas ao longo de uma autoestrada que ligava as cidades de Selma e Montgomery, no Alabama (87 km), iniciativa que levaria à aprovação da Lei dos Direitos de Voto, uma conquista histórica do movimento negro.

A primeira marcha ficaria conhecida como “Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”), em virtude da violência policial que se fez sentir sobre os manifestantes desarmados. Em março passado, já com a saúde debilitada, Lewis marcou presença em Selma para assinalar o 55º aniversário dos acontecimentos e deixou um conselho: “Votem como nunca votaram antes”.

John Lewis foi congressista durante mais de três décadas, eleito pela primeira vez em 1987, pelo estado da Georgia, abraçando causas que desafiassem a segregação, a discriminação e a injustiça — o combustível do movimento “Black Lives Matter” que está nas ruas norte-americanas.

Em 2011, Barack Obama — o primeiro Presidente negro na história dos EUA — atribuiu a John Lewis a mais alta honraria civil nos Estados Unidos, a Medalha Presidencial da Liberdade. Morreu a 17 de julho, aos 80 anos, de cancro no pâncreas.

(FOTO PRINCIPAL John R. Lewis ACADEMY OF ACHIEVEMENT)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 24 de julho de 2020. Pode ser consultado aqui