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As imagens do regresso dos peregrinos à Cova da Iria, com máscara no rosto e a mesma fé de sempre

O Santuário de Fátima acolheu este sábado a primeira missa campal com a presença de peregrinos, após o confinamento decretado pela pandemia de covid-19. A celebração, inserida na Peregrinação Internacional Aniversária, foi presidida pelo bispo auxiliar de Lisboa. Na sua homilia, intitulada “Reaprender a gramática da hospitalidade”, Américo Aguiar defendeu uma economia “que não mate” e apelou à União Europeia para que se afirme como uma “verdadeira comunidade humana”

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PAULO CUNHA / LUSA
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Artigo publicado no “Expresso Online”, a 13 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

O outro lado negro da covid-19. As imagens da fome

Na Guatemala e em El Salvador há trapos brancos pendurados nas casas a sinalizar falta de alimentos — na Colômbia são vermelhos. A pandemia de covid-19 confinou em casa milhões de pessoas que viviam com o rendimento do dia. Da Colômbia à África do Sul, há filas de gente desesperada por um prato de comida

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ÁFRICA DO SUL. Um menino carrega embalagens com alimentos, distribuídas pela associação Hunger has no Religion (A fome não tem religião), em Joanesburgo MARCO LONGARI / AFP / GETTY IMAGES
CHILE. Pamela Fernandez está na fila para encher a panela com comida para o seu agregado familiar (“três adultos e quatro crianças”), numa cozinha comunitária de Santiago do Chile IVAN ALVARADO / REUTERS
FILIPINAS. Após ficarem sem trabalho por causa da pandemia, dezenas de pessoas esperam em Paranaque, zona metropolitana de Manila, para receber refeições antes de serem transportados, gratuitamente, para as suas regiões EZRA ACAYAN / GETTY IMAGES
PARAGUAI. Distribuição de alimentos num descampado, na cidade de Luque NORBERTO DUARTE / AFP / GETTY IMAGES
BRASIL. No Rio de Janeiro, o Cristo Redentor reflete um drama atual no país PILAR OLIVARES / REUTERS
COLÔMBIA. Uma bandeira vermelha alerta para a falta de comida nesta casa, em Ciudad Bolivar, a sul de Bogotá RAUL ARBOLEDA / AFP / GETTY IMAGES
EL SALVADOR. Entre os salvadorenhos, as bandeiras que se agitam para sinalizar situações de fome são brancas, como neste barraco, na cidade de Soyapango JOSE CABEZAS / REUTERS
BOLÍVIA. Estas mulheres aguardam a sua vez no exterior de um banco, em El Alto, para levantar um subsídio atribuído pelo Governo às famílias mais vulneráveis AIZAR RALDES / AFP / GETTY IMAGES
EUA. Em Brooklyn, uma fila de pessoas aguarda a sua vez para levar para casa comida gratuita, distribuída no âmbito da iniciativa Campanha Contra a Fome LEV RADIN / GETTY IMAGES
HONDURAS. “Temos fome, ajudem-nos”, suplica este casal, na berma da Avenida das Forças Armadas, em Tegucigalpa ORLANDO SIERRA / AFP / GETTY IMAGES
GUATEMALA. Na berma da autoestrada, em Villa Nueva, a sul da Cidade de Guatemala, acena-se com farrapos brancos para pedir comida JOHAN ORDONEZ / AFP / GETTY IMAGES
BULGÁRIA. Voluntários distribuem sacos com alimentos doados pela organização norueguesa Europe in Focus a moradores carenciados, nos arredores de Sófia JODI HILTON / GETTY IMAGES
PERU. Mulheres de Pamplona Alta, arredores de Lima, mantêm a distância social enquanto esperam pela distribuição de sopa ERNESTO BENAVIDES / AFP / GETTY IMAGES
ARGENTINA. “Quarentena sem fome”, pede-se nesta manifesação, em Buenos Aires, pedindo apoios para os mais vulneráveis AGUSTIN MARCARIAN / REUTERS
ESPANHA. Nesta fila, aguarda-se pela distribuição de comida, na paróquia San Ramon Nonato, em Madrid SUSANA VERA / REUTERS
PORTUGAL. Uma voluntária sai da Cooperativa Mula, no Barreiro, onde funciona uma cantina social, para ir entregar refeições, enquanto uma mulher chega para pedir comida PEDRO GOMES / GETTY IMAGES
ÍNDIA. Duas filas paralelas de pessoas necessitadas serpenteiam dentro das instalações de um centro de distribuição de comida, em Chandigarh RAVI KUMAR / GETTY IMAGES
EQUADOR. Uma funcionária do Ministério da Economia e da Inclusão Social entrega uma caixa com alimentos a uma família carenciada, em La Bota, norte de Quito CRISTINA VEGA RHOR / AFP / GETTY IMAGES
MÉXICO. “Morro de fome, não do coronavírus”, diz esta artesã da cidade de Oaxaca que ficou sem trabalho, num protesto em frente à sede do Governo, na Cidade do México HENRY ROMERO / REUTERS
UCRÂNIA. Pobres e sem-abrigo confortam-se com uma sopa, no centro de Kiev PAVLO GONCHAR / GETTY IMAGES
BANGLADESH. A pandemia acentuou as necessidades, como o revela esta fila de mulheres que agradam pela distribuição de bens, em Daca MAMUNUR RASHID / GETTY IMAGES
VENEZUELA. “Fome!”, lê-se neste grafíti, em Caracas FEDERICO PARRA / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 13 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

Na Mauritânia, o sabão amarelo é herói no combate ao coronavírus. Graças a uma artista portuguesa

A viver na Mauritânia há quase 16 anos, Isabel Fiadeiro criou desenhos para sensibilizar a população para os cuidados a ter face à pandemia. Um pedaço de sabão amarelo, uma chaleira e um vírus “simpático” ajudam a passar as mensagens

“Saboun”, o sabão amarelo de fabrico mauritano ISABEL FIADEIRO

No coração da Mauritânia, há uma pintora e desenhadora portuguesa na primeira linha do combate ao novo coronavírus. Isabel Fiadeiro, de 57 anos — 16 dos quais vividos em Nouakchott —, recorreu à sua arte para aconselhar boas práticas sanitárias em tempos de pandemia e criou “As Aventuras do Saboun no Reino do Corona”. Com estes desenhos explica, de forma lúdica, cuidados a ter no dia a dia, nomeadamente a importância da lavagem das mãos.

A saga tem três protagonistas: Saboun (o sabão amarelo mauritano) e o seu amigo Mak Grech (uma chaleira com um chuveiro de água a sair pelo bico, com nome parecido à designação do objeto no dialeto árabe mauritano, o hassania). E ainda o corona “que embora esteja sempre com cara de zangado é um vírus simpático, com botas de cowboy. E porquê? Porque os vírus fazem parte da vida na terra”, explica a autora ao Expresso.

“O sabão amarelo é feito na Mauritânia e é vendido por todo o país, em pequenas mercearias que existem a cada esquina. Custa muito pouco dinheiro e faz muita espuma. Realcei este sabão que toda a gente pode comprar, que é desprezado por muitos e visto como o sabão dos pobres, mas que é o ideal para lavar as mãos devido à quantidade de espuma que faz.”

Outra vantagem deste produto é que não prejudica o ambiente, realça a portuguesa. “Pode-se deitar a água com sabão na areia ou na terra sem causar danos ambientais.”

Sabão e água, a solução ideal para afastar problemas ISABEL FIADEIRO

“As Aventuras do Saboun” resultaram do autoconfinamento em que Isabel se colocou mal foi confirmado o primeiro caso de covid-19 no país, a 13 de março — até esta sexta-feira, havia um total de 1439, e 74 mortos. Por precaução, antecipou-se às medidas restritivas que o Governo haveria de adotar, fechou a galeria de que é proprietária em Nouakchott e ficou em casa.

Com mais tempo disponível, deu vida às “Aventuras do Saboun”, que foi publicando na sua página no Facebook. O sucesso dos desenhos chamou a atenção e acabaram por ser publicados num jornal oficial mauritano, chegando assim a muito mais gente.

Muitos e bons conselhos em três pequenas tiras de criatividade ISABEL FIADEIRO

Numa segunda frente do combate à pandemia, a portuguesa dinamiza também um projeto de produção de máscaras de algodão, laváveis e reutilizáveis, inspirado num movimento que nasceu no vizinho Senegal. “A ideia era criar máscaras a baixo custo para todos. Contactei uma cooperativa feminina que costuma participar nos mercados organizados pela minha galeria e propus-lhes que produzissem máscaras, uma vez que estavam sem trabalho.”

Isabel garantiu que as costureiras seriam pagas e procurou que as máscaras fossem vendidas a um preço acessível, para chegarem ao maior número de pessoas possível. “Tivemos muita sorte, porque de imediato a Alliance Française e a Agrisahel, uma associação agrária, fizeram-nos encomendas que permitiram fazer face às primeira despesas.”

As encomendas chegam através do Facebook ou do WhatsApp e, depois de prontas, as máscaras são levantadas na ZeinArt, a galeria de Isabel, uma das três existentes na capital mauritana.

Isabel Fiadeiro vive na Mauritânia desde 2004. É proprietária de uma galeria de arte em Nouakchott ISABEL FIADEIRO

A ZeinArt existe desde 2012 e, em tempos normais, funciona como ponto de encontro entre locais e estrangeiros. Ali são realizadas exposições de pintura e artesanato, feitas formações, organizados ateliês com artistas estrangeiros de visita ao país, promovido o intercâmbio de conhecimento.

No jardim da galeria é realizado um mercado onde artesãos dispõem de bancas individuais para vender os seus produtos — é o caso da cooperativa feminina que agora fabrica máscaras e que costuma ali vender sacos e lenços. A cada terça-feira, os artistas deixam na galeria os seus novos trabalhos e recebem o dinheiro das suas obras que foram vendidas na semana anterior.

Na seu espaço, Isabel não se limita a dar visibilidade aos trabalhos de artistas e artesãos. Ela recebe-os, discute os trabalhos, acompanha a fase dos acabamentos e ajuda na comercialização. Leva ao limite quem tem capacidade, vontade e trabalha bem. “O objetivo é mostrar o que se pode fazer localmente de boa qualidade e puxar pelos artistas e artesãos da Mauritânia”, diz a portuguesa.

“E como na Mauritânia estamos um pouco limitados ao nível do design, convido pessoas do Senegal, Mali, Togo para exporem as suas criações. A galeria serve como uma vitrina que a população e os artesãos podem visitar e ver coisas diferentes.”

A boca, uma das portas de entrada do novo coronavírus no corpo humano ISABEL FIADEIRO

Filha de uma espanhola e de um português, Isabel Fiadeiro nasceu em Londres e cresceu entre Lisboa e Portimão. Voltou à capital britânica já depois dos 30 anos para estudar Belas Artes, na Wimbledon School of Arts, estudos que concluiu no ano 2000. A descoberta da Mauritânia — para onde se mudou em definitivo em setembro de 2004 — pôs um ponto final à sua vida nómada.

Diz ter descoberto o país “por acaso”, durante uma viagem, em finais de 2003, que tinha como destino final a Guiné-Bissau. À passagem pelo Parque Nacional do Banco de Arguim, na costa atlântica, a Renault 4L avariou-se e ela ficou com tempo para apreciar o deserto e se apaixonar pelo país.

“Quando cheguei à Mauritânia fiquei tão fascinada que tive vontade de registar tudo o que estava a ver. Era tudo tão diferente e tão novo em relação àquilo que eu conhecia. Comecei a desenhar em cadernos, algo que nunca tinha feito. Nunca tinha desenhado a partir da observação, sempre trabalhei com a imaginação, com a memória.”

Este tipo de arte haveria de a levar a descobrir e a aderir aos Urban Sketchers, uma comunidade global de artistas que desenham locais onde vivem ou que visitam.

Diallo e Mamadou, costureiros em Nouakchott, desenhados por Isabel Fiadeiro ISABEL FIADEIRO

Os desenhos serviram para que se aguentasse no país durante os primeiros tempos. “Nunca pensei viver na Mauritânia e menos ainda abrir uma galeria de arte. Isso aconteceu porque não conseguia viver com o meu próprio trabalho de pintura, a não ser que enveredasse por um trabalho muito comercial que eu não tinha vontade de fazer.”

Olhando para uma experiência de quase 16 anos em solo mauritano, a artista enumera os três fatores que mais a atraíram. “Desde logo a paisagem, o deserto, todo aquele vazio que me fazia pensar na escala humana diante daquela imensidão e na pouca importância que temos.”

Em segundo lugar, “a lentidão”. “Praticamente saí de Londres para me instalar aqui, passei de um ritmo super acelerado para outro muitíssimo lento que, acho, no fim é a solução para tudo. Muitas pessoas perguntam-me se não exportamos e eu digo: ‘Não, o trabalho é manual, eu peço aos artesãos que trabalhem lentamente e bem’. E felizmente a maior parte das coisas vendem-se localmente.”

Por último, os mauritanos. “Ao fim destes 16 anos, tenho muitos amigos mauritanos, pertenço a algumas associações mauritanas que trabalham com a cultura popular. Sinto-me bem integrada.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

Dez vidas negras que não importaram nos últimos 15 anos nos EUA

George Floyd foi o último de vários afro-americanos que morreram violentamente às mãos da polícia, nos Estados Unidos. Nestes dez casos, ocorridos ao longo dos últimos 15 anos, quase sempre os agentes ficaram impunes

SEAN BELL
A 25 de novembro de 2006, horas antes de se casar, Sean Bell, de 23 anos, foi morto quando o seu carro foi alvejado 50 vezes por cinco agentes da polícia de Nova Iorque. O afro-americano tinha saído do Club Kalua, um clube de strip na zona de Queens, onde celebrara a sua despedida de solteiro com dois amigos. Um deles envolveu-se numa altercação à saída do clube, despertando a atenção da polícia. Os amigos ficaram gravemente feridos. Dos cinco agentes envolvidos, três foram julgados e declarados inocentes. O Club Kalua já não existe: o espaço é agora um local de oração.

OSCAR GRANT
Era 1 de janeiro de 2009 e o metro que chegava de São Francisco vinha apinhado de gente que tinha ido festejar a passagem de ano à cidade. A polícia recebeu um alerta de confrontos e acorreu à estação de Fruitvale, em Oakland. Na plataforma, vários passageiros foram detidos, entre os quais o afro-americano Oscar Grant, de 22 anos. Enquanto o algemavam, deitaram-no no chão, de bruços, com um agente de joelhos sobre o seu corpo. Pouco depois, outro polícia alvejou-o nas costas. O momento foi captado por vários telemóveis de passageiros. O agente foi condenado a dois anos de prisão, mas beneficiou de uma redução de pena. Este caso inspirou o filme “Fruitvale Station — A Última Paragem”, de 2013.

TRAYVON MARTIN
Aproveitando uma pausa nas aulas, Trayvon Martin, de 17 anos, que vivia com a mãe em Miami Gardens (Florida), foi passar uns dias com o pai, em Sanford, no mesmo estado. A 26 de fevereiro de 2012, quando ia pela rua, foi alvejado mortalmente por um vigilante do condomínio que antes tinha alertado o 911 (o 112 europeu) para a presença na área de uma “pessoa suspeita”. Em tribunal, o segurança alegou legítima defesa e foi ilibado.

ERIC GARNER
Estava numa rua de Staten Island, um bairro de Nova Iorque, quando começou a ser rondado por um grupo de polícias que o acusavam de vender ilegalmente cigarros avulsos. No momento da detenção, ofereceu resistência e um agente envolveu-lhe o pescoço com um braço, estrangulando-o. “I can’t breathe” (Não consigo respirar), ouviu-se onze vezes num vídeo que registou o incidente. Perdeu a consciência e foi levado para o hospital, onde foi declarado morto. O caso ocorreu a 17 de julho de 2014 e motivou protestos de rua. A família de Eric Garner recebeu uma indemnização do município de Nova Iorque no valor de 5,9 milhões de dólares (5,2 milhões de euros), mas o agente nunca foi julgado. Apenas alvo de um inquérito disciplinar que concluiu no seu despedimento, cinco anos depois.

MICHAEL BROWN
A 9 de agosto de 2014, Michael Brown, de 18 anos, morreu atingido por seis tiros no peito enquanto lutava com um polícia de 29 anos, em Ferguson, nos subúrbios de St. Louis (Missouri). O agente tinha-se lançado no encalce do jovem, após ser detetado nas câmaras de vigilância de uma loja de conveniência a roubar cigarrilhas. A polícia defenderia que o jovem comportou-se de forma “agressiva” com o agente. Segundo o relato de uma testemunha, Michael teria erguido os braços e pedido para o agente não disparar. “Hands up, don’t shoot”, foi o grito que mais se ouviu nos protestos que se seguiram, em Ferguson, e que degeneraram em violência, pilhagens e muita destruição. O agente nunca foi julgado.

TAMIR RICE
Tinha 12 anos e estava a brincar num parque público de Cleveland (Ohio) quando foi alvejado fatalmente. A polícia tinha sido chamada ao local por um transeunte que alertou para a presença de um homem que não parava de “tirar uma arma das calças e de a apontar às pessoas”. A pistola de Tamir era um brinquedo, uma réplica quase fiel de uma arma de airsoft. Dois polícias chegaram ao local e um deles disparou quase de imediato. Foi despedido, mas não julgado. Este caso aconteceu a 22 de novembro de 2014.

FREDDIE GRAY
Foi preso na rua, sem oferecer resistência, por agentes da polícia de Baltimore (Maryland), a 12 de abril de 2015, que depois justificaram a detenção alegando que ele estava em posse de uma faca. Durante a viagem dentro da carrinha da polícia, ficou inanimado e foi levado para o hospital. Morreu sete dias depois, de lesões na espinal medula. Tinha 25 anos. Seis polícias foram levados a julgamento: uns foram inocentados, outros viram cair a acusação.

PHILANDO CASTILE
Seguia de carro com a namorada e a filha desta, de quatro anos, quando foi mandado parar pela polícia, em Falcon Heights (Minnesota), a 6 de julho de 2016. Enquanto mostrava os documentos, o afro-americano de 32 anos disse ao agente que tinha uma arma no carro. O agente ficou nervoso, gritou repetidamente “não a tire para fora” e disparou sete tiros à queima-roupa, acertando cinco em Castile. O agente, de 29 anos, foi acusado de homicídio e descarga imprudente de arma de fogo. Foi absolvido.

AHMAUD ARBERY
Tinha 25 anos e foi morto a tiro a 23 de fevereiro de 2020, em Glynn County (Geórgia) quando fazia “jogging” perto de casa. Começou a ser perseguido por uma “pickup”. Dentro, dois homens (pai e filho), que moravam na zona, estavam armados. Um carro que seguia atrás filmou o encontro fatal. Uma investigação apurou que, após Arbery ser atingido, um dos homens subiu para cima do seu corpo e disse: “Maldito negro.” Os dois homens foram detidos apenas 74 dias depois, após o vídeo ter sido divulgado e se ter tornado viral nas redes sociais. Ahmaud Arbery tinha 25 anos.

BREONNA TAYLOR
A 13 de março, por volta da meia-noite, três agentes à paisana invadiram a casa de Breonna Taylor, em Louisville (Kentucky) por suspeitas de tráfico de droga. A técnica de emergência de 26 anos morreu durante o tiroteio que se seguiu entre o seu namorado e os agentes, atingida por oito balas. No local, não foi encontrada qualquer estupefaciente.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui

O país mais envelhecido da América do Sul é o que se sai melhor no combate à covid-19

A localização e a demografia do Uruguai podiam condená-lo a tornar-se espaço propício à propagação do novo coronavírus, mas não é o que acontece. Sem ter decretado o confinamento obrigatório, o país que tem quase 1000 quilómetros de fronteira com o Brasil e a população mais envelhecida da América do Sul é aquele que melhor faz frente à pandemia na região. Ao Expresso, um académico uruguaio enumera as razões para esse sucesso

Bandeira do Uruguai sobre o mapa do país VECTORSTOCK

O país que mais êxito tem tido no combate à covid-19 na América do Sul — o Uruguai — é simultaneamente aquele que tem a maior percentagem de população envelhecida, um dos grupos de risco da doença. Dos quase 3,5 milhões de habitantes, 14% têm 65 ou mais anos. Entre os restantes territórios latino-americanos, apenas Porto Rico (pertencente aos EUA) tem uma taxa superior (21%) — Cuba iguala, com 14%.

Ao contrário do que acontece em Espanha e Itália — e Portugal em menor escala —, onde a alta taxa de infeção entre idosos contribuiu para números dramáticos, a quantidade de idosos uruguaios não o parece ter penalizado o país.

Esta quarta-feira, o Uruguai tinha 826 casos de infeção declarados, de que resultaram 23 mortes e 689 pessoas recuperadas. Numa altura em que a América do Sul herdou da Europa o título de epicentro global da pandemia e o Brasil — com quem o Uruguai partilha uma fronteira de 985 quilómetros — é dos casos mais descontrolados a nível mundial, o Uruguai é o país da região que melhor está a lidar com a doença.

“Existem razões estruturais de longa data e razões conjunturais relacionadas com a gestão feita pelo Governo que explicam, conjuntamente, os resultados observados até ao momento no Uruguai”, explica ao Expresso Ignacio Munyo, professor catedrático da Universidade de Montevideu.

“O país tem um sistema de saúde que chega a toda a população, com uma rede de cuidados primários importante e com extensa cobertura domiciliária — algo pioneiro na América Latina — e um sistema de vacinação profundo e antigo que permite aliviar a pressão sobre as unidades de cuidados intensivos.”

Paralelamente à universalidade do sistema de saúde, é crucial neste contexto o facto de 100% da população uruguaia ter acesso a água potável e saneamento básico, condições fundamentais para cumprir com uma das principais regras de proteção individual: a lavagem das mãos. A isto se soma, continua Munyo, “uma infraestrutura em telecomunicações (telefonia celular universal e excelentes ligações à Internet) e capacidade de processamento de dados que viabilizam rapidamente soluções tecnológicas” e possibilitam o acesso à informação e aos conselhos das autoridades.

Presidente sem tempo para estado de graça

Desde que foi detetada a presença do novo coronavírus no país — quatro casos confirmados a 13 de março —, o Uruguai conseguiu conter o surto sem decretar o confinamento obrigatório da população. O Governo fechou fronteiras, suspendeu voos, aulas, cerimónias religiosas, jogos de futebol e concertos, como o Montevideo Rock, mas permitiu que o comércio continuasse de portas abertas.

A 23 de março, o Presidente Luis Alberto Lacalle Pou explicava o porquê de não adotar medidas mais restritivas. “Qualquer pessoa que, de forma séria, proponha o isolamento social deve estar na disposição de aplicar medidas relativas ao crime de desacato, a que corresponde uma pena de prisão. Assim sendo, alguém está disposto a deter e levar diante de um juiz quem sai à rua para ganhar dinheiro, não para a semana, mas para o dia?”

“A cultura cívica e a integração social, juntamente com um Governo que foi muito claro e consistente do ponto de vista da comunicação, contribuiu para que a população do Uruguai obedeça voluntariamente ao pedido de quarentena inicial e distanciamento social posterior e que os cumpra de forma responsável”, comenta Munyo, que dirige o Centro de Estudos da Realidade Económica e Social (CERES).

Uma sondagem realizada a 22 e 23 de março, pela consultora uruguaia Cifra, concluía que 91% dos inquiridos aceitaram voluntariamente a recomendação de não sair de casa salvo em casos de necessidade, 88% diziam respeitar o distanciamento social e 84% tinham deixado de participar em encontros com familiares e amigos — algo antinatura num povo que se distingue por uma forma muito particular de convívio.

Uma das principais tradições culturais uruguaias são as ‘rondas de mate’. Familiares e amigos reúnem-se à volta de uma cuia de mate que vai passando de mão em mão (e a bombilla de boca em boca) para conviver até que a água se esgote. Este legado dos antigos nativos aymaras, quechuas e guaranis é característico de vários países da América do Sul.

No Uruguai, as ‘rondas de mate’ não foram proibidas, apenas desaconselhadas, mas até isso os uruguaios acataram. A taxa de incidência da doença tem-se mantido baixa — 23,78 por 100 mil habitantes (em Portugal é de 326,19) — e o sistema de saúde nunca esteve sob pressão. Esta segunda-feira foram retomadas as aulas presenciais de forma voluntária.

O novo coronavírus não permitiu que o Presidente uruguaio usufruísse dos tradicionais 100 dias de estado de graça. Lacalle Pou tomou posse a 1 de março e, em menos de 15 dias, tinha uma pandemia em mãos para gerir. “O Governo aplicou uma gestão exemplar da crise, ao nível dos melhores do mundo: rapidez na declaração da emergência sanitária, encerramento de fronteiras e suspensão de aulas e eventos público”, diz ao Expresso o especialista.

Resolver o assunto ‘à maneira uruguaia’

À frente de uma aliança de centro-direita de cinco partidos, Lacalle Pou, de 46 anos, não caiu na tentação de fazer tábua rasa das políticas de esquerda adotadas nos últimos 15 anos, anos em que o Uruguai foi liderado por Tabaré Vázquez (2005-2010 e 2015-2020) e José Mujica (2010-2015).

Apostou numa estratégia de equilíbrio entre duas necessidades imprescindíveis — combater a pandemia e proteger a economia —, desafiando apelos para que impusesse o confinamento obrigatório, inclusive por parte do seu antecessor, Tabaré Vázquez, médico de formação.

“Pedimos às pessoas que não saiam de casa se não for necessário”, reforçou a 2 de abril. “Não façam viagens ao interior do país, há muitos lugares onde o vírus não chegou. Vamos fazer isto à maneira uruguaia, com solidariedade, e pensando no bem comum.”

Nesse mesmo dia 2 de abril, no Parlamento, deputados afetos ao Governo e à oposição uniram-se para aprovar o ‘Fundo Solidário Covid-19’, financiado por contribuições obrigatórias de todos os funcionários públicos com salários acima dos 120 mil pesos uruguaios (2500 euros). Presidente, ministros e deputados sofrem um corte de 20%.

“O Uruguai possui a única democracia plena da região, com um sistema político responsável que dialoga permanentemente, o que se traduz em estabilidade social, que é o essencial para que tudo funcione. Somos uma exceção a nível regional”, concluiu o professor uruguaio.

“No último ano, antes do surgimento do novo coronavírus, o mundo encarava a América Latina como uma região extremamente instável do ponto de vista social. Imagens de multidões violentas nas ruas da Cidade do México, Caracas, São Paulo, Buenos Aires, Bogotá, Santiago, Lima e Quito correram o mundo. Não foi o caso de Montevideu.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 3 de junho de 2020. Pode ser consultado aqui