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Com as universidades fechadas, há professores que se transformaram em… Youtubers

Com as escolas de todos os níveis de ensino de portas fechadas oficialmente, os professores montam a sua sala de aula onde e como podem. Para muitos, as modernas tecnologias são um precioso aliado

A sensação de descompressão durou pouco mais de um dia. Era sábado à noite e Sara Leitão desanuviava pelas ruas do Porto com duas amigas quando um telefonema da mãe a deixou incrédula. “Ela tinha acabado de ouvir nas notícias que a minha Faculdade ia fechar por causa do coronavírus”, conta ao Expresso esta estudante do segundo ano de Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto.

“A minha primeira reação foi de felicidade, pois íamos ter a primeira avaliação dentro de poucas semanas”, confessa. Mas o relaxe não perdurou… “Logo na segunda-feira seguinte [faz hoje uma semana] tive uma aula por vídeo-chamada. O professor de Bioestatística e Métodos de Investigação contactou-nos pela manhã a perguntar se podíamos ter a aula por Skype, no horário normal. Como é uma disciplina opcional, somos poucos, cerca de 15”, o que facilitou a convocatória e a organização da vídeo-aula.

Sentada ao computador, ora via a imagem do professor ora o ecrã do seu portátil onde o docente ia projetando informação. Quando havia dúvidas, os alunos ligavam o microfone e interrompiam-no. “O balanço geral é que a sessão até foi mais produtiva do que uma aula presencial. Estávamos no nosso ambiente, mais confortáveis e mais atentos.”

Localizado junto ao Palácio de Cristal, o ICBAS partilha o espaço com a Faculdade de Farmácia onde uma aluna do segundo ano foi das primeiras pessoas infetadas com o Covid-19 em Portugal. Os colegas de turma dessa estudante ficaram de quarentena; Sara e todos os outros alunos do ICBAS e de Farmácia estão em “isolamento social” — ainda que com o horário escolar cada vez mais preenchido a cada dia que passa.

“Para os professores, isto é uma situação completamente nova, é algo que não estavam à espera e tiveram de reagir”, reconhece esta aluna de 20 anos. “Cada um deles tenta encontrar a melhor opção para concretizar as aulas à distância. O professor de Histologia tornou-se uma espécie de Youtuber. Grava-se a si próprio a dar as aulas e publica os vídeos numa aplicação que se chama Panopto e que permite ver os vídeos também no telemóvel. Os alunos estão a adorar este método porque permite assistir à aula mais do que uma vez. E podemos puxar para trás se não percebermos alguma coisa.”

Esta segunda-feira, Sara retomou as aulas de Microbiologia através da aplicação Zoom, que permite vídeoconferências

Com o ICBAS de portas fechadas oficialmente desde 7 de março, os professores montam a sua sala de aula onde e como podem. Para muitos, as modernas tecnologias são um precioso aliado. Esta segunda-feira, Sara retomou as aulas de Microbiologia através da aplicação Zoom, que permite vídeoconferências. Na semana passada, a aula de Patologia, dada para largas dezenas de alunos, aconteceu através da plataforma EPOP Conferências. “O funcionamento é muito semelhante ao do Skype, mas permitia um maior número de pessoas a assistir.”

Nas aulas de Anatomia Clínica, não há vídeo-aulas. “O professor disponibilizou power points ainda mais pormenorizados do que o habitual, e vamos estudar autonomamente.” No caso de dúvidas posteriores às aulas, os professores estão contactáveis por e-mail “e respondem bastante rápido”, testemunha. “É muito bom estarem tão disponíveis. E nota-se que estão mesmo a tentar arranjar a melhor solução. Alguns estão muito à vontade com as tecnologias, resolvem a situação rapidamente e sem ajuda, mas outros nota-se que têm dificuldade. Há uns dias, numa aula, havia alguém ao lado do professor a ajuda-lo a pôr um vídeo a funcionar.”

CORTESIA SARA LEITÃO

A disponibilidade dos docentes não é a mesma se o professor acumular com serviço nos hospitais. “Os professores que são médicos — temos muitos que trabalham no Santo António [um dos hospitais de referência para a pandemia do Covid-19] — estão numa situação mais complicada. Eles dizem que a prioridade deles não é avaliarem-nos, mas exercerem a sua profissão principal, o que é compreensível. Vivemos tempos difíceis.”

Mas aos poucos, o calendário de aulas teóricas vai-se preenchendo, tentando reproduzir o melhor possível os horários que tinham na universidade. “Na Faculdade, quando tínhamos aulas de duas horas, às vezes fazíamos cinco minutos de intervalo. Isso já aconteceu numa vídeo-aula, apesar de estarmos em casa.”

A maior incerteza dos estudantes prende-se com a realização dos exames. “Temos exames agendados, mas não sabemos se devemos começar aquele estudo mais intensivo porque não temos a certeza de que os exames vão acontecer”

A maior incerteza dos estudantes prende-se com a realização dos exames. “Temos exames agendados, mas não sabemos se devemos começar aquele estudo mais intensivo porque não temos a certeza de que os exames vão acontecer. Até agora, foi-nos dito que o calendário mantém-se, mas não sabemos como.”

Inicialmente, o ICBAS decretou a suspensão da atividade letiva durante 14 dias, mas aos primeiros dias da suspensão foi comunicado aos alunos que a situação era para se manter indefinidamente. Nos momentos em que não está ao computador, Sara areja pelas redondezas da casa onde vive com os pais, em Vila Nova de Gaia, na companhia da cadela Benny. Dentro de portas, relaxa-a uma descoberta recente — a arte do ponto cruz — e já lhe ocorreu voltar a pegar no Violoncelo, que encostou quando entrou para a Universidade.

Certo é que o isolamento é para cumprir. “Na semana passada, ainda fui estudar com umas amigas e tive um jantar de aniversário, mas já tomei a decisão e não vou sair mais de casa até novas ordens. É mesmo uma questão de precaução.”

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 16 de março de 2020. Pode ser consultado aqui

Dez países aonde o coronavírus (ainda) não chegou

A cada dia que passa, a Covid-19 conquista novos territórios. Entre aqueles que ainda não registaram qualquer caso de infeção, seis falam português — Timor-Leste, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau

O número de países com casos confirmados de Covid-19 aumenta de dia para dia. Este domingo, o mapa-mundi da pandemia que consta do boletim diário publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) assinalava 143 países infetados.

O último balanço da OMS confirma a Europa como o atual epicentro da pandemia, com mais casos e mortes reportados do que o resto do mundo combinado, tirando dessa equação a China. No velho Continente, a Itália é o país mais fustigado, seguida de Espanha, França e Alemanha.

A nível global, depois de China e Itália, surge o Irão como o país que suscita mais preocupações. “Uma das principais razões [para o grande número de casos] tem a ver com os voos entre a China e o Irão, que continuaram a funcionar”, comentava ao Expresso uma iraniana residente em Portugal.

Em contraponto à Europa, África é o continente menos fustigado pela pandemia, embora seja aquele que, de dia para dia, contribui com mais entradas para o mapa do coronavírus — este domingo, a OMS sinalizou sete países africanos com os primeiros casos de Covid-19.

Nesse continente, os seis mortos registados até ao momento aconteceram em países do Norte de África (Marrocos, Argélia e Egito). Na chamada África Negra — onde o país mais fustigado é a África do Sul —, não há qualquer vítima mortal.

Maioria dos lusófonos resistem

Entre os territórios que ainda não registaram qualquer caso de Covid-19 estão seis países de língua oficial portuguesa: em África os cinco PALOP (Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau) e no extremo oriente Timor-Leste. Já o Brasil, no continente americano, é apenas superado por Estados Unidos e Canadá em número de casos. Colado ao Brasil, o Uruguai é o único país da América do Sul que ainda resiste ao Covid-19.

Na contabilidade da OMS, não há referências a países em guerra, como Líbia, Síria e Iémen, nem à hermética Coreia do Norte. Por outro lado, os números oficiais atribuídos a países populosos como Rússia e Índia — que na atualização de domingo da OMS surgem, respetivamente, com 34 casos (e nenhum morto) e 107 casos (dois mortos) — parecem pecar por defeito. Tudo contribui para um receio de que talvez a real dimensão deste drama esteja ainda por conhecer.

FOTOGALERIA

NICARÁGUA. Um habitante da ilha de Mancarrón, no arquipélado de Solentiname, desfruta tranquilamente do Lago Nicarágua, o maior da América Central CARLOS HERRERA / GETTY IMAGES
TANZÂNIA. O país ainda não registou qualquer caso de Covis-19, mas os hábitos já se adaptaram a esse cenário. O Presidente John Magufuli (à direita) e um líder da oposição cumprimentam-se com os pés, em Zanzibar GETTY IMAGES
URUGUAI. É o único país da América do Sul que resiste ao coronavírus. O recente jogo entre o Nacional do Uruguai e o Estudiantes de Merida da Venezuela para a Copa Libertadores decorreu com adeptos nas bancadas do Parque Central de Montevideu DANTE FERNANDEZ / AFP / GETTY IMAGES
ZIMBABWE. Numa loja de ‘comida para fora’, uma mulher mata o tempo, durante uma falha de luz, olhando para o telemóvel, em Chimanimani PHILIMON BULAWAYO / REUTERS
TIMOR-LESTE. Em Díli, as cerimónias religiosas decorrem com normalidade. Mas recentemente, o Vaticano adiou para 2021 a viagem do Papa Francisco ao território prevista para este ano VALENTINO DARIEL SOUSA / AFP / GETTY IMAGES
MYANMAR. Nas imediações do Pagode Shwedagon, um lugar santo budista em Rangum, não faltam monges nem turistas YE AUNG THU / AFP / GETTY IMAGES
ANGOLA. Nesta praia de Luanda, onde um DJ põe Kizomba na aparelhagem sonora, não há limites à concentração de pessoas LEE BOGATA / REUTERS
EL SALVADOR. Soldados salvadorenhos patrulham a fronteira junto à Guatemala para impedir que seja atravessada ilegalmente por pessoas em fuga à quarentena decretada no país vizinho, onde já há casos de Covid-19 JOSE CABEZAS / REUTERS
QUIRGUISTÃO. A polícia detém uma mulher durante um protesto contra a violência de género. O coronavírus ainda não fechou os quirguizes dentro de casa VYACHESLAV OSELEDKO / AFP / GETTY IMAGES
MOÇAMBIQUE. Mulheres preparam a terra para a colheita, na região de Dondo, na província de Sofala, uma das mais fustigadas pelo ciclone Idai, no ano passado  ED RAM / REUTERS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de março de 2020. Pode ser consultado aqui

O primeiro teste ao acordo de paz de Trump com “terroristas” de um país em guerra com dois Presidentes

Esta semana, em Cabul, houve um acontecimento inédito, no Afeganistão e no mundo. No palácio presidencial, em espaços diferentes e com diferença de minutos, tomaram posse dois Presidentes. Um é Ashraf Ghani, atual chefe de Estado e vencedor oficial das eleições presidenciais. O outro é Abdullah Abdullah, que não aceita os resultados. Um antigo diplomata português partilha com o Expresso as suas impressões sobre o homem que está a desafiar o poder de Cabul, com quem conviveu em Nova Iorque e em Lisboa

O Presidente do Afeganistão emitiu um decreto de amnistia que beneficia 5000 prisioneiros talibãs. Mas estes… não o aceitam, pelo menos nos termos em que Cabul o propõe. Segundo o perdão assinado por Ashraf Ghani, 1500 detidos começarão a sair em liberdade este sábado — ao ritmo de 100 por dia — da prisão de Parwan. Assim que começarem as conversações de paz entre o governo e os talibãs, previstas para breve, outros 3500 atravessarão os portões do principal centro de detenção militar do país — em grupos de 500, a cada duas semanas.

O roteiro não agrada aos talibãs, que recusam sentar-se à mesa das conversações sem que a totalidade de 5000 combatentes saiam em liberdade. Esta amnistia foi-lhes prometida pelo acordo de paz de 29 de fevereiro que assinaram com os Estados Unidos, em Doha (Qatar) e que prevê também a retirada das tropas norte-americanas do país. O documento indispôs as autoridades afegãs, que não foram tidas nem achadas e que já expressaram duas grandes objeções: a libertação de talibãs como pré-condição para o diálogo e a falta de um cessar-fogo em todo o país. Nas 24 horas que antecederam a amnistia, assinada na terça-feira, 32 ataques talibãs em 15 províncias provocaram sete mortos.

Operacionais no terreno, os talibãs beneficiam também da ausência de um poder forte em Cabul, palco na segunda-feira de algo inédito no país e no mundo. No interior do palácio presidencial, realizaram-se duas tomadas de posse, em espaços diferentes e espaçadas por minutos. Ashraf Ghani, de 70 anos, e Abdullah Abdullah, de 59, clamaram ambos vitória nas presidenciais de 28 de setembro — os resultados só foram divulgados a 18 de fevereiro, em virtude das queixas apresentadas à Comissão Eleitoral e das acusações de fraude.

À cerimónia de Ghani, transmitida pela televisão estatal, assistiram o enviado especial dos EUA Zalmay Khalilzad e hierarquias militares norte-americanas. Já a posse de Abdullah foi mostrada na televisão privada Tolo News e testemunhada por vários senhores da guerra, antigos aliados dos EUA na luta contra os talibãs. Na quarta-feira, Abdullah tirou quaisquer dúvidas que restassem: “Mohammad Ashraf Ghani, antigo presidente do Governo de unidade nacional, já não é Presidente, e os seus decretos e ordens são inválidos.” No dia seguinte, Ghani foi ao encontro da proposta do adversário: “O capítulo da solidariedade e unidade chegou. O próximo governo irá refletir a vontade de todo o povo do país.”

Este insólito assemelha-se a uma sequela de um filme de má qualidade que os afegãos andam a ver há anos. Nas presidenciais de 2014, a segunda volta foi disputada exatamente pelos mesmos candidatos, com a mesma conclusão: Ghani foi o mais votado e Abdullah não reconheceu. O impasse só se desbloqueou após intervenção dos EUA: através de um acordo de partilha do poder, Ghani ficou Presidente e Abdullah chefe do Executivo. Muitos afegãos simplificam esta liderança bicéfala dizendo: “Um governa de manhã, o outro à tarde.”

Nas últimas eleições, Ghani obteve 50,64% dos votos, concentrados nas regiões sul e leste, habitadas sobretudo por pashtunes, a etnia minoritária que é também a de Ghani e a dos talibãs.

Abdullah, que foi creditado com 39,52% dos votos, considerou os resultados uma “traição nacional”, disse que seria ele o vencedor se apenas tivessem sido contabilizados os “votos limpos e biométricos” e predispõs-se a liderar “um governo inclusivo”. Filho de um pashtune e uma tadjique (as duas etnias maioritárias), foi o mais votado nas regiões norte e centro, dominadas por tadjiques, hazaras e uzebeques.

Na memória de muitos perduram ainda os anos em que Abdullah sobressaiu nas fileiras da Aliança do Norte — criada em 1996 para combater o regime dos talibãs —, onde foi braço direito do comandante Ahmad Shah Massud, o lendário “leão de Panjshir”.

Na época, este oftalmologista de formação respondia apenas por um nome, “Abdullah”. No livro “Guerra Sem Fim”, o premiado jornalista Dexter Filkins (“The New York Times”) explica como, a dada altura, o seu nome duplicou: “Abdullah ficara famoso junto dos repórteres como sendo o dirigente afegão que só tinha um nome, e isso enlouquecia os editores. Precisamos de um apelido, pediam eles. Então, em muitos jornais, ele torna-se Abdullah Abdullah”.

A sós com um português, no estúdio da Fox News

Após os talibãs serem expulsos de Cabul — a seguir ao 11 de Setembro e à retaliação militar dos EUA sobre o Afeganistão (que abrigava a Al-Qaeda) —, Abdullah assumiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros. “Corria o ano de 2002 e a televisão americana Fox News quis juntar em estúdio os ministros dos Negócios Estrangeiros do Afeganistão e de um país da NATO, e convidou-me a mim”, recorda ao Expresso António Martins da Cruz, chefe da diplomacia portuguesa entre abril de 2002 e outubro de 2003.

António Martins da Cruz e Abdullah Abdullah, em setembro de 2002, nos estúdios da televisão Fox News, em Nova Iorque CORTESIA ANTÓNIO MARTINS DA CRUZ

“Estivemos juntos três quartos de hora, numa entrevista que passou em horário nobre. Ficámos muito impressionados com o estúdio, uma sala mínima, onde não havia ninguém para além de nós. À nossa volta três ou quatro câmaras mexiam-se sozinhas. O estúdio estava cheio de ecrãs, onde víamos o jornalista que nos entrevistou e que estava na Jordânia. Achámos a situação curiosa e, no final, ficámos a rir-nos e a conversar. Nenhum de nós tinha tido a experiência de ser entrevistado por máquinas, nem por alguém que estava a milhares de quilómetros.”

Os dois voltariam a encontrar-se no ano seguinte, em Lisboa, onde o afegão se deslocou a convite do português para intervir numa reunião sobre prevenção e combate ao terrorismo. “Abdullah é uma pessoa culta. Conhecia perfeitamente as questões da União Europeia. E achava que Portugal, sendo um país europeu e membro da NATO, era um interlocutor importante para o Afeganistão, já que conhecia aquela parte do mundo. Falou-me muito do facto de os portugueses terem sido os primeiros europeus a chegar à Ásia e à Índia.”

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 13 de março de 2020. Pode ser consultado aqui e aqui

O reino das 1001 noites

Na casa real saudita, o poder tem passado de irmão para irmão. O paradigma mudará se o atual príncipe herdeiro, o todo poderoso Mohamed bin Salman, subir ao trono. Nos últimos dias, foram detidos e depois libertados alguns príncipes que lhe faziam sombra

Há apenas cem anos, a Arábia Saudita era ainda um projeto de país. A Casa de Saud — uma das famílias mais antigas, numerosas e influentes da região — tinha em curso uma operação política e militar marcada pelo desejo de unificar a Península Arábica e submetê-la à sua interpretação conservadora do Islão — o salafismo. A campanha começou em 1902 e levou à conquista de tribos e reinos, emirados e cidades-estado, pedaços de terra que eram propriedades de xeques. Terminou em 1932 com a proclamação do moderno Reino da Arábia Saudita.

Na liderança ficou Abdulaziz ibn Saud, pai de dezenas de filhos que procriou com 16 mulheres, e para quem aquele país era um assunto de família. Quando morreu, em 1953, sucedeu-lhe no trono o seu filho Saud. Desde então, cumprindo uma determinação do pai fundador, a transmissão do poder tem-se processado de irmão para irmão. Tem sido assim até aos dias de hoje: o atual monarca saudita, Salman, é irmão de Saud. Mas este padrão pode ter os dias contados.

PIRÂMIDE DE SUCESSÃO
AO TRONO SAUDITA

Em 2017, Salman designou como príncipe herdeiro o seu filho Mohamed bin Salman (MbS). No chamado Conselho de Fidelidade — o órgão responsável por determinar o futuro sucessor ao trono, composto por membros mais velhos da família real —, a nomeação de MbS teve apenas três votos contra. Um deles foi particularmente simbólico: o do seu tio Ahmed bin Abdulaziz al-Saud, o irmão mais novo (da mesma mãe) do rei Salman.

Na sexta-feira, Ahmed bin Abdulaziz al-Saud, de 78 anos, foi uma das dezenas de personalidades, entre funcionários governamentais, militares e membros da família real, detidas pela guarda real, “acusadas de montar um golpe conspirativo para derrubar o rei Salman e o príncipe herdeiro”, noticiou o jornal norte-americano “The Wall Street Journal”.

Entre os visados, esteve também Mohammed bin Nayef, sobrinho do rei (filho de um irmão já falecido). Era ele o príncipe herdeiro quando, em junho de 2017, viu-se destituído de todos os cargos que ocupava, incluindo o de ministro do Interior, atribuídos para que um predestinado a mais altos voos possa demonstrar competência. Sem responsabilidades em mãos, Bin Nayef, 58 anos, saiu da linha de sucessão e foi substituído pelo primo MbS, então com 32 anos.

Num reino fértil em intrigas palacianas, as detenções efetuadas na passada sexta-feira fizeram disparar rumores de que estaria em curso uma tentativa de golpe, porventura decorrente da deterioração da saúde do rei Salman, de 84 anos. No domingo, para acabar com a especulação, a agência noticiosa saudita divulgou imagens do monarca sentado no seu gabinete a despachar serviço. Aparentando boa saúde, Salman surgiu também a presidir à cerimónia de entrega de credenciais dos novos embaixadores da Ucrânia e do Uruguai.

Comprovada a saúde do monarca, aos rumores seguiu-se uma intuição: a purga terá sido, acima de tudo, um exercício de imposição de disciplina no interior da família real, “uma tentativa do príncipe herdeiro consolidar o poder dentro da família real”, lê-se, esta segunda-feira, no jornal norte-americano “The Wall Street Journal”, a publicação que primeiro noticiou as detenções na sexta-feira. Segundo o mesmo órgão, as autoridades já começaram a libertar os detidos após serem interrogados por dezenas de responsáveis e membros da família real.

Não é a primeira vez que, com MbS na antecâmara do poder, há purgas a varrer a família real. Em novembro de 2017, cinco meses após ser nomeado príncipe herdeiro, dezenas de príncipes, ministros e homens de negócios ficaram meses fechados dentro do luxuoso Ritz-Carlton de Riade, no âmbito de uma operação anticorrupção, supervisionada pessoalmente por MbS. O hotel deixou de receber hóspedes durante todo esse tempo e os detidos só reconquistaram a liberdade após assinarem acordos confidenciais no valor de muitos milhões de dólares.

Meca sem peregrinos

A mais recente trama nos corredores reais de Riade coincide com o surto do Covid-19 que está a pressionar a Arábia Saudita a vários níveis: o preço do petróleo está em queda nos mercados internacionais e as peregrinações a Meca estão suspensas, para nacionais e estrangeiros.

Desde que foi nomeado príncipe herdeiro, MbS tem-se afirmado como o homem forte da Arábia Saudita e o seu líder de facto. Ministro da Defesa desde janeiro de 2015, foi ele quem desencadeou a operação militar saudita no Iémen, em março seguinte, que se transformou na pior crise humanitária no mundo. Nas notícias, ele ora surge associado a conquistas sociais, como a permissão das mulheres sauditas conduzirem, ora a episódios macabros, como a morte do jornalista crítico do regime saudita Jamal Kashoggi, em 2018, no consulado saudita em Istambul. Então como agora, MbS mostra que não gosta de pedras no seu caminho.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 9 de março de 2020. Pode ser consultado aqui

À terceira ainda não foi de vez, mas pode não haver quarta

No último ano houve três eleições legislativas. Nenhuma teve vencedor folgado

O surto de coronavírus deu um toque de ficção científica às recentes eleições legislativas em Israel, as terceiras num período de 11 meses. Mais de 4 mil eleitores colocados de quarentena votaram, segunda-feira, de máscara posta e em assembleias de voto especiais: tendas montadas ao ar livre, com escrutinadores protegidos da cabeça aos pés por fatos de isolamento biológico.

Estima-se que estejam de quarentena entre 50 mil e 80 mil israelitas — assumindo que essas pessoas estão “a comportar-se como cidadãos modelo”, alertou esta semana o médico Boaz Lev, que chefia a unidade de tratamento de epidemias do Ministério da Saúde de Israel. As autoridades têm em vigor uma quarentena obrigatória de duas semanas para pessoas regressadas de seis países europeus — Itália, França, Alemanha, Espanha, Áustria e Suíça — e de um grupo de países asiáticos. Violar as diretivas do Ministério da Saúde, de forma intencional ou negligente, pode implicar uma pena de mais de sete anos de prisão.

Em Israel os casos de Covid-19 confirmados não iam, ontem, além dos 17. Porém, a forma como as autoridades estão a atacar o problema está ao nível dos países mais afetados do mundo. “Há demasiada preocupação”, desabafa ao Expresso, de Jerusalém, a israelita Nina, que trabalha por conta própria como guia turística. “Esta histeria vai parar o turismo em Israel.”

Vitória agridoce

Quinta-feira o Governo de Benjamin Netanyahu anunciou a criação de “um fundo de emergência para ajudar empresas que são vitais para a economia”, nas palavras do primeiro-ministro. Com o possível agravamento da crise, outros fundos poderão vir a ser necessários — seja ou não o chefe de Governo Netanyahu, para quem este problema de saúde pública é apenas um entre vários que tem em mãos.

Segunda-feira à noite, coberto de confetes, Netanyahu regozijou-se com as eleições. “É a maior vitória da minha vida”, declarou diante dos apoiantes, na sede do seu partido em Telavive. O Likud (direita) foi o mais votado (36 deputados eleitos), mas não garantiu apoio parlamentar suficiente para formar o próximo Executivo.

Mais árabes do que nunca

Num país como Israel, que, desde a fundação (1948), sempre teve governos de coligação, os resultados dos parceiros políticos naturais são quase tão importantes como os das maiores forças políticas. Nas eleições do dia 2, o bloco de direita que apoia Netanyahu para primeiro-ministro somou 58 deputados, aquém dos 61 necessários para garantir a maioria dos 120 lugares no Parlamento (Knesset). Acompanham o Likud dois partidos religiosos ultraortodoxos — o Shas (nove deputados) e o Judaísmo da Torá Unida (sete) — e ainda o Yamina, aliança de formações de direita e extrema-direita que elegeu seis parlamentares.

“O surgimento dos israelitas árabes nestas eleições é definitivamente um voto contra o plano Trump”, diz uma analista palestiniana

O outro grande bloco político, de centro-esquerda, ficou mais longe da fasquia dos 61, elegendo 55 parlamentares. A formação mais votada foi a coligação centrista Azul e Branco (cores da bandeira de Israel), que elegeu 33 deputados. A união entre Partido Trabalhista, Gesher e Meretz não foi além dos sete, menos dois do que nas eleições anteriores, quando foram a votos separadamente. A formação que mais cresceu foi a Lista Conjunta, formada por quatro partidos árabes, que, com 15 deputados eleitos, garantirá a maior representação parlamentar de sempre à minoria árabe de Israel — 20% da população do Estado hebraico (não incluindo os palestinianos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza).

“O surgimento dos israelitas árabes nestas eleições é definitivamente um voto contra o plano de Trump [para o Médio Oriente]. Também reflete o receio genuíno e justificado em relação à ala direita de Israel, o discurso de ódio, o incitamento e a conversa sobre a transferência [forçada de 260 mil cidadãos israelitas palestinianos]”, comenta ao Expresso a analista política palestiniana Nour Odeh, de Ramallah.

“É importante realçar que a Lista Conjunta não é puramente árabe palestiniana. O mais interessante nesse bloco é tratar-se de uma coligação progressista que está a convencer um número crescente de eleitores israelitas judeus”, continua Nour Odeh. “Os seus números ainda são pequenos, mas é notável dada a atmosfera geral de ódio e de racismo aberto.”

Julgamento a 17 de março

Fora deste binómio está um partido de direita que não conta para as contas de Netanyahu. O Yisrael Beiteinu (Israel Nossa Casa) elegeu sete deputados mas o seu líder, o ultranacionalista laico Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa de Netanyahu, rejeita apoiar um “bloco messiânico ultraortodoxo”, como designou a potencial coligação de Netanyahu. Durante a campanha, Lieberman — que já lhe recusara apoio a seguir às eleições de 9 de abril de 2019 e de 17 de setembro seguinte por causa da inclusão dos partidos religiosos — garantiu que não haveria umas quartas eleições.

Quinta-feira, Lieberman levantou o véu sobre a solução para o impasse e disse estar disposto a juntar-se à esquerda, no Knesset, para aprovar legislação que “impeça um deputado que enfrente uma acusação de formar governo”. A 17 de março, Netanyahu começa a ser julgado por corrupção, tornando-se o primeiro chefe de governo em funções a responder à justiça em Israel. A lei proposta por Lieberman “impediria Netanyahu de formar governo, mas não o Likud”, explica Nour Odeh. A confirmar-se, seria para Netanyahu o fim de mais de 5 mil dias à frente dos destinos de Israel.

TRÊS ELEIÇÕES NUM ANO

9 DE ABRIL DE 2019
► Empate Os dois partidos mais votados elegem 35 deputados cada. O Likud (direita), de Benjamin Netanyahu, é o mais votado, com 26,46%. Fundado dois meses antes das eleições, o Kahol Lavan (centro-esquerda) — a coligação Azul e Branco, liderada pelo antigo general Benjamin Gantz — tem pouco menos (26,13%). Para ter maioria no Knesset, Netanyahu precisa do ter o apoio do Yisrael Beiteinu, do ultranacionalista e laico Avigdor Lieberman. Este entra em rutura com Netanyahu a propósito de uma proposta de lei que isentaria do serviço militar os estudantes das escolas religiosas.

17 DE SETEMBRO DE 2019
► Gantz A coligação Azul e Branco perde dois deputados em relação ao último escrutínio (33) mas o Likud perde três (32). Os partidos árabes aprendem com os erros, unem-se numa Lista Conjunta e elegem 13 parlamentares. Mas os apoios à esquerda não chegam e Gantz não consegue formar governo. Netanyahu também tenta, mas esbarra na irredutibilidade de Avigdor Lieberman, que mantém a rejeição de privilégios para os partidos religiosos. Estes são preciosos para Netanyahu.

2 DE MARÇO DE 2020
► Netanyahu Com início do seu julgamento marcado para 17 de março, o primeiro-ministro recebe mais confiança do que o rival Gantz. Estas são as eleições com menor número de formações políticas nos boletins e as que registam uma taxa de afluência às urnas maior (71%).

Artigo publicado no “Expresso”, a 7 de março de 2020. Pode ser consultado aqui