Todos os artigos de mmota

Seis recados que o Irão enviou com o ataque aos EUA

O Irão consumou a prometida vingança à morte do general Qasem Soleimani bombardeando duas bases militares dos Estados Unidos no Iraque. O ataque tem implícitas mensagens importantes para dentro e, sobretudo, para fora do país

As ruas iranianas clamaram por vingança e ela foi servida exatamente cinco dias após os Estados Unidos terem assassinado o general iraniano Qasem Soleimani, que comoveu toda a nação persa.

Duas rajadas de mísseis atingiram esta madrugada outras tantas bases norte-americanas no Iraque. “Uma chapada na cara” dos EUA, disse o Líder Supremo do Irão, o “ayatollah” Ali Khamenei. A bola está agora do lado dos Estados Unidos. Até se perceber se haverá resposta, é importante atentar nos recados que o Irão quis enviar com este ataque, para dentro e fora de portas.

O ataque vingou o assassínio do general

A operação “Vingança Dura”, como Teerão batizou o ataque, foi desencadeada sensivelmente à mesma hora a que, na sexta-feira passada, Qasem Soleimani foi atingido mortalmente por um drone dos EUA no aeroporto internacional de Bagdade. “Entre a 1h45 e as 2h45 [mais três horas do que em Portugal Continental], o Iraque foi atacado por 22 mísseis”, anunciaram os militares iraquianos em comunicado. “Todos os mísseis atingiram bases da coligação [internacional].”

Se na sexta-feira, Donald Trump reagiu no Twitter publicando apenas uma imagem da bandeira norte-americana, desta vez foi Saeed Jalili, representante do Líder Supremo no Conselho Supremo de Segurança Nacional, a responder-lhe à letra, ‘postando’ a bandeira do Irão. Uma brincadeira na rede social favorita de Trump reveladora da predisposição das partes para seguirem com a tática de “olho por olho”.

O Irão atacou por si e não através de terceiros

Uma das (enormes) vantagens estratégicas do Irão no Médio Oriente é o chamado “arco de influência” que construiu no mundo árabe (o Irão não é árabe, mas sim persa). São atores importantes ao serviço dessa estratégia o Hezbollah no Líbano, forças paramilitares na Síria, milícias armadas no Iraque e os huthis no Iémen, que em setembro reivindicaram um espetacular ataque contra refinarias na Arábia Saudita que afetou fortemente a produção de petróleo do reino.

Qasem Soleimani era o grande arquiteto das intervenções militares iranianas e um comandante muito presente no terreno, junto desses atores. Na hora de retaliar a sua morte, Teerão quis faze-lo por mãos próprias — e não recorrendo a um ou vários dos seus próximos (“proxies”). Não há dúvidas de que o ataque foi lançado a partir do seu território.

O programa balístico iraniano funciona

Nos dois bombardeamentos, o Irão utilizou mísseis balísticos, projéteis sofisticados com capacidade para transportar ogivas nucleares que seguem trajetórias pré-determinadas.

Uma das críticas mais fortes ao acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano — co-assinado pelos EUA de Obama em 2015 e do qual Trump retirou o país em 2018 — é o facto de excluir restrições ao programa de mísseis balísticos do Irão. Na altura, este facto foi uma grande vitória negocial do Irão: apesar de condicionado na produção de armas nucleares, ficava de mãos livres para continuar a desenvolver o seu veículo de entrega, ou seja, os mísseis balísticos.

As bases atingidas são simbólicas

Os alvos da operação iraniana foram bases militares de grande importância estratégica para os EUA. Uma delas, Al-Assad, localizada na província de Anbar, a 180 km para oeste de Bagdade, é a maior base aérea do Iraque.

Foi esta base que Trump visitou aquando da sua primeira visita a tropas em missão, no Natal de 2018. No ano passado, foi ali que o vice-presidente Mike Pence passou o Dia de Ação de Graças.

Começou a ser usada pelas forças americanas após a invasão do Iraque que derrubou Saddam Hussein, em 2003; deixou de funcionar após a retirada das tropas de combate dos EUA, em finais de 2011; e foi reativada no contexto da luta contra os jiadistas do Daesh.

A outra base alvejada situa-se em Erbil, no Curdistão iraquiano. Em outubro, foi desta base que partiu a unidade de comandos que surpreendeu e eliminou Abu Bakr al-Baghdadi, líder do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), na cidade síria de Barisha.

No combate ao Daesh, EUA e Irão estiveram do mesmo lado da barricada e, no Iraque, foi crucial o desempenho das Forças de Mobilização Popular (xiitas), apoiadas pelo Irão. O seu nº 2, o iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis, foi assassinado pelos EUA no mesmo ataque que vitimou Qasem Soleimani.

Se os EUA retaliarem, há outros países em mira

Com os ecrãs das televisões tomados por rastos de luz no céu escuro do Iraque à passagem dos mísseis iranianos, correspondentes de órgãos de informação ocidentais em Teerão eram porta-vozes de mais recados do regime dos ayatollahs.

“O Irão está a avisar que se houver retaliação às duas vagas de ataques lançadas, a terceira vaga destruirá o Dubai e Haifa”, escreveu no Twitter Ali Arouzi, da televisão norte-americana NBC.

O Dubai é um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos, um aliado dos EUA na região. E Haifa é uma cidade de Israel, o país que mais tem pressionado o amigo americano no sentido de um confronto militar com o Irão.

Um ataque a estes dois países arrastaria todo o Médio Oriente para uma guerra total, com consequências em todo o mundo. Esta quarta-feira, o primeiro-ministro israelita advertiu: “Estamos firmes contra aqueles que buscam as nossas vidas. Estamos de pé com determinação e força. Quem tentar atacar-nos receberá em troca um golpe esmagador”, declarou Benjamin Netanyahu, numa conferência em Jerusalém. De forma não oficial, Israel tem armas nucleares.

Mensagens para dentro de portas

Na euforia do ataque, as autoridades iranianas disseram que tinham sido mortos “80 terroristas”, como o Irão passou a designar os soldados norte-americanos. Mas nem os EUA nem o Iraque confirmam a existência de vítimas mortais.

A informação terá, porém, confortado muitos iranianos, feridos no seu orgulho pela execução de uma figura popular como o general e que os orgulhava.

O ódio ao “Grande Satã” (como a República Islâmica se refere aos EUA) é um factor de unidade nacional no Irão e a primeira reação oficial iraniana ao ataque espelha-o: “Saiam da nossa região!”, escreveu no Twitter o ministro das Telecomunicações, Azari Jahromi.

Nos EUA, no conta-gotas noticioso relativo ao perfil deste ataque começaram a surgir insinuações de que o Irão pode não ter atingido soldados norte-americanos “intencionalmente”. Se assim foi, e atendendo às palavras do seu chefe da diplomacia — “Não queremos guerra com os EUA”, disse Mohammad Javad Zarif —, o Irão dá sinais de querer resolver esta crise pela via do diálogo possível.

(IMAGEM Pelo menos cinco estruturas da base foram atingidas pelos ataques com mísseis do Irão, como mostra esta imagem de satélite ©2020 Planet Labs, Inc. cc-by-sa 4.0 / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 8 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Quatro dúvidas sobre o regresso da tensão máxima ao Médio Oriente

Há espaço para uma negociação? O acordo nuclear tem condições para sobreviver? Os EUA vão retirar as suas tropas do Iraque? O que ganham os EUA com tudo isto? Analistas ouvidos pelo Expresso anotam as interrogações pós-morte de Qasem Soleimani. A resposta vai sempre parar ao mesmo destinatário: Donald Trump

O mundo está de respiração suspensa à espera da prometida “vingança” do Irão ao assassínio do general Qasem Soleimani pelos Estados Unidos. Esta terça-feira, Ali Shamkhani, secretário do Conselho Supremo Nacional do Irão, disse que estão a ser avaliados 13 “cenários de retaliação”.

O militar ia a enterrar esta terça-feira, em Kerman (sul), a sua cidade natal, mas o funeral foi adiado por circunstâncias trágicas: pelo menos 32 pessoas morreram e 190 ficaram feridas numa debandada durante as exéquias participadas por muitos milhares de pessoas. Os iranianos choram a morte do comandante como que se de um familiar se tratasse e cerram fileiras em torno do regime dos ayatollas. A ameaça do regresso da guerra ao Médio Oriente atirou o preço do ouro para máximos e fez disparar o preço do petróleo. Um pouco por todo o mundo, multiplicam-se sinais de nervosismo e sobram interrogações.

Há espaço para negociação entre EUA e Irão?

Esta terça-feira, o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros denunciou que lhe foi negado visto de entrada nos EUA para participar na reunião do Conselho de Segurança da ONU, agendada para quinta-feira, em Nova Iorque. “Receiam que alguém venha aos EUA e revele a realidade das coisas”, acusou Mohammad Javad Zarif.

O diálogo entre Washington e Teerão não se afigura fácil, mas a politóloga iraniana Ghoncheh Tazmini acredita que uma negociação ainda é possível, “mesmo no meio do rancor e da dor”, diz ao Expresso. “Um porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros disse que a Administração Trump continua a ser bem vinda para se juntar Irão e ao E3+2 [França, Reino Unido, Alemanha, Rússia e China] à mesa das negociações. Mas isso implica, em primeiro lugar, suspender as sanções ao Irão, que provocam escassez de alimentos e remédios junto do povo (não do regime nem do Estado)”, diz a investigadora na Escola de Estudos Orientais e Africanos, da Universidade de Londres.

O acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano foi um sucesso da Administração Obama que Donald Trump reverteu, em maio de 2018, retirando os EUA desse compromisso. Em consequência, o Irão já adotou “medidas corretivas” ao acordo por cinco vezes, a últimas das quais esta semana ao anunciar que vai deixar de respeitar os limites relativamente ao enriquecimento de urânio.

O acordo nuclear tem condições para sobreviver?

Recordemos: Qasem Soleimani era o grande arquiteto das intervenções militares iranianas no Médio Oriente assentes em grupos xiitas como o Hezbollah libanês, os Huthis no Iémen, forças paramilitares na Síria e milícias armadas no Iraque, que visitava quando foi alvejado por um drone norte-americano, em Bagdade.

Os EUA vão retirar as suas tropas do Iraque?

Dezassete anos após terem invadido o Iraque, deposto o ditador Saddam Hussein (sunita) e possibilitado — pela via do voto popular — a ascensão ao poder da maioria xiita, os EUA receberam “guia de marcha” para regressarem a casa. No domingo, o Parlamento iraquiano aprovou uma resolução exigindo a saída das tropas estrangeiras do país.

Foi Barack Obama quem anunciou o fim da guerra e o regresso a casa das tropas de combate, que se concretizou em finais de 2011. Mas cerca de 5000 americanos estão ainda no Iraque, em funções sobretudo de assessoria, num ambiente cada vez mais hostil.

Horas após o assassínio do general, a NATO suspendeu a missão de treino das forças iraquianas. Na segunda-feira, em Bruxelas, a Aliança apelou à contenção e à diminuição da escalada. “Um novo conflito não será do interesse de ninguém”, alertou o secretário-geral Jens Stoltenberg. “O Irão deve abster-se de mais violência e provocações.”

Mas a tensão é inegável e, nos países com tropas destacadas no Iraque, o nervosismo é indisfarçável. A Alemanha anunciou que vai deslocar 30 dos seus 120 militares de Bagdade para a Jordânia e Kuwait. Os restantes 90 estão mais ‘protegidos’, na região curda (norte).

O que ganham os EUA com tudo isto?

Com os órgãos de informação saturados com notícias sobre o “impeachment” a Donald Trump e, agora, a tensão com o Irão, quase não se dá conta que as eleições primárias que irão escolher os candidatos às presidenciais de 3 de novembro começam em menos de um mês, no Iowa (3 de fevereiro).

Aos olhos de muitos norte-americanos, Trump poderá surgir como um líder corajoso e destemido, o melhor de todos para os defender, mas para o interesse nacional do país, o assassínio do general Soleimani pode ter sido um tiro no pé. “Colocam os EUA numa situação extremamente complicada no Iraque, já que se tratou de uma clara violação da soberania”, diz ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor na Universidade Complutense de Madrid. A confirmar-se a saída das tropas, “a morte de Soleimani não só não enfraqueceria a posição do Irão na região, como a fortaleceria. Os EUA podem ser a principal vítima de uma decisão claramente precipitada que pode ter o efeito oposto ao desejado.”

“A única tábua de salvação que os EUA têm para mitigar esta crise perigosa fabricada por Trump seria regressar aos termos do acordo nuclear”, realça Ghoncheh Tazmini. “Os iranianos e o mundo árabe xiita estão unidos, fervendo de raiva, rancor e tristeza. Os EUA não estão mais seguros hoje do que há uma semana. A missão suicida de Trump devia ser interrompida e, para mim, a única forma de isso acontecer é retomar o acordo.”

(FOTO Sepultura de Qasem Soleimani, no Cemitério dos Mártires de Kerman MOHAMMAD ALI MARIZAD / WIKIMPEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 7 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

Um país unido em redor de um mártir (e com sede de vingança)

O Irão está em lágrimas, comovido pela ‘procissão de despedida’ do general Qasem Soleimani, que vai a enterrar esta terça-feira. Uma investigadora iraniana identifica uma vitória póstuma do general assassinado pelos EUA: a inevitável saída dos norte-americanos do Iraque

Qasem Soleimani vai a enterrar esta terça-feira, em Kerman, no sul do Irão. Terminarão então três dias de luto decretados para que o povo possa despedir-se do seu principal comandante militar — arquiteto das intervenções militares iranianas no Médio Oriente —, assassinado na sexta-feira por um drone dos Estados Unidos no aeroporto de Bagdade (Iraque).

Esta segunda-feira, em Teerão, multidões compactas rodearam o féretro do general, transportado em mãos pelas ruas da capital. O lento avanço da urna, entre uma massa de gente fervorosamente comovida, trouxe à memória vivências de 1989 quando Teerão estava igualmente em choque e despedia-se do ayatollah Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica.

“Este assassínio uniu o povo iraniano como nunca antes”, diz ao Expresso a politóloga iraniana Ghoncheh Tazmini. “Antes da sua morte, as sondagens atribuíam-lhe uma taxa de aprovação superior a 65%. Para todos os iranianos, isto foi uma afronta, uma violação e um ataque direto aberto ao povo iraniano, e não apenas ao general e ao regime. A manifestação de tristeza e o sentimento geral de alienação e incerteza quando ao futuro do Irão não se limitam àqueles que são pró-regime.”

Desde que chegaram ao país, no domingo, que os restos daquele que era uma das personalidades mais populares entre os iranianos atravessaram várias cidades ao estilo de uma procissão nacional. Começou em Ahvaz (sudoeste), seguiu para Mashad (nordeste), Teerão e Qom (norte). Vai terminar esta terça-feira em Kerman (sudeste), onde o general nasceu a 11 de março de 1957.

O rasto de comoção chegou à capital do Iraque onde, no sábado, milhares de pessoas acompanharam o féretro desde o santuário de Kadhimiya (nas margens do rio Tigre) até à Zona Verde (um bairro blindado onde se situam os principais órgãos do Governo e as embaixadas). “Vingança”, “Morte à América”, gritou-se em Bagdade.

Iraque e Irão são países maioritariamente xiitas ainda que, em contextos específicos, a rivalidade cultural entre ambos — os iraquianos são árabes e os iranianos persas — os coloquem em lados opostos da barricada. Não é o caso desta morte que a todos une.

Em Bagdade, as cerimónias fúnebres adiaram um dia uma votação no Parlamento que fez soar alarmes em Washington. No domingo, vexados pelo que consideram ter sido uma violação da sua soberania por parte dos EUA, os deputados iraquianos aprovaram uma resolução exigindo a retirada das tropas estrangeiras do país. O diploma reflete receios de que um futuro confronto entre EUA e Irão transforme o Iraque no principal campo de batalha.

“Instamos fortemente os líderes iraquianos a reconsiderarem a importância da relação entre os dois países a nível económico e de segurança bem como a presença contínua da Coligação Global contra o Daesh”, reagiu o Departamento de Estado dos EUA.

Entendida como uma declaração de guerra, o Irão já prometeu retaliar a morte do seu general. No domingo, deu mais uma machadada no debilitado acordo internacional de 2015 sobre o seu programa nuclear (que Donald Trump rasgou em maio de 2018) e anunciou que vai deixar de respeitar os limites ao enriquecimento de urânio impostos. Esta segunda-feira, França, Reino Unido e Alemanha apelaram a que Teerão se mantenha dentro dos “seus compromissos”.

Quanto a uma resposta militar, será uma questão de tempo. “O Irão fará o que o general teria feito. A mesma abordagem sábia, imparcial e calculada que o falecido estratega teria adotado. Ele preparou muitos como ele e, postumamente, alcançou uma grande vitória — a inexorável saída dos EUA do vizinho Iraque”, diz a investigadora iraniana. “Os iranianos seguirão os passos daquele que é hoje o maior mártir xiita iraniano contemporâneo.”

Os EUA já anunciaram o reforço do seu contingente militar na região em cerca de 3000 operacionais. No Twitter, Donald Trump carregou na retórica belicista e ameaçou bombardear… alvos culturais: “Se o Irão atacar quaisquer americanos, ou interesses americanos, nós temos identificados 52 locais iranianos (que representam os 52 reféns americanos que os iranianos fizeram há muitos anos), alguns de alto nível e importantes para o Irão e para a cultura iraniana”, escreveu o Presidente dos EUA.

“Este tweet foi provavelmente tão significativo quanto o assassínio do general, no seu impacto e nas implicações que ele traz”, comenta Ghoncheh Tazmini. “Tem como alvo direto o povo iraniano, no Irão e na diáspora. Aqueles que duvidaram das intenções malignas e destrutivas do Governo dos EUA em relação ao povo iraniano ganharam 100% de certeza. O que é cultura? Cultura são pessoas.”

(FOTO Qasem Soleimani, em oração junto ao túmulo do Imã Khomeini, numa foto de 2015 WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 6 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

O pior pode estar para vir

Bombeiros recusam aperto de mão ao primeiro-ministro. Scott Morrison não acredita em alterações climáticas

Na Austrália, o pior pode estar para vir. As previsões climatéricas para este fim de semana apontam para um tempo ainda mais quente, seco e ventoso do que o dos últimos dias, que originou cenas verdadeiramente apocalípticas no país. Ontem, as autoridades ordenaram a evacuação de partes dos estados de Victoria e Nova Gales do Sul, na costa sudeste, como medida preventiva ao previsível descontrolo das chamas. “Se valorizam a segurança têm de partir”, alertou Michael Grainger, da polícia de Victoria. “Nestas circunstâncias, os bens pessoais têm muito, muito pouco valor. São circunstâncias terríveis, que não haja dúvidas.”

Com o país a viver níveis de seca recordes, os desgastados bombeiros dizem que apenas a chuva pode extinguir as chamas que se propagam desde setembro. Nalgumas zonas, os dias tornaram-se noites, com o céu coberto de fumo por vezes em tom avermelhado, como que preparando os locais para o apocalipse. Em Mallacoota (Victoria), mil turistas e residentes que estavam numa praia, encurralados pelo fogo, foram ontem resgatados pela marinha. “É uma versão em tempo de paz de algo que vimos durante a guerra”, afirmou Anthony Albanese, líder do Partido Trabalhista, na oposição.

Até ao momento, já morreram pelo menos 18 pessoas, 28 estão desaparecidos e arderam mais de cinco milhões de hectares de mata. Em brasa está também a credibilidade do primeiro-ministro, o conservador Scott Morrison, recebido esta semana com grande contestação nas zonas mais afetadas. “Não é bem vindo aqui, seu cretino!”, gritava um habitante de Cobargo (Nova Gales do Sul).

Sydney não abdicou da festa

“Sempre que há cheias ou incêndios nesta zona não recebemos nada”, acusava outra moradora, recordando que muitas casas tinham ardido. “Se estivéssemos em Sydney ou na costa norte, não nos faltariam donativos e ajuda de emergência.” Enxovalhado pelos locais, o primeiro-ministro enfrentou ainda o embaraço de ficar de mão estendida diante de bombeiros e habitantes que se recusaram a cumprimentá-lo.

Scott Morrison — que lidera o Governo desde agosto de 2018 — colocou-se na linha de fogo pela forma displicente e insensível com que tem reagido ao drama. Antes do Natal, tardou em regressar de umas férias no Hawai com a família. Confrontado com as críticas, colocou-se na posição de um canalizador que enfrenta um dilema… “É sexta-feira à tarde e você tem de decidir se aceita aquele serviço extra de canalização ou se vai buscar as crianças. Este é o tipo de malabarismos que temos de fazer enquanto pais”, justificou.

O mal-estar em relação às autoridades agravou-se após múltiplos apelos ao cancelamento do emblemático fogo de artifício da passagem de ano em Sydney — a capital de Nova Gales do Sul — terem sido ignorados. Nos dias que antecederam o réveillon, uma petição sugerindo que os milhões gastos no evento fossem doados a bombeiros e agricultores recolheu 270 mil assinaturas.

Cinzas têm impacto nos glaciares

Na linha dos Presidentes norte-americano Donald Trump e do brasileiro Jair Bolsonaro, Morrison é um líder que tem desvalorizado o impacto das alterações climáticas. Segundo o “Índice de Desempenho Relativo às Mudanças Climáticas 2020” — elaborado de forma independente por think tanks —, a Austrália está em 56º lugar numa lista de 61 países (Portugal é 25º e os EUA último). “O novo Governo é cada vez mais uma força regressiva nas negociações e tem sido criticado pela sua falta de ambição por parte de várias nações insulares do Pacífico”, lê-se no relatório.

A época dos incêndios é um clássico na Austrália, mas este ano o fenómeno tem sido mais extremo. O fumo e as cinzas provocados pelos fogos percorreram milhares de quilómetros e já chegaram à Nova Zelândia, colorindo os glaciares com um castanho caramelizado amea­çador. “Como a tragédia de um país tem efeitos colaterais”, desabafou no Twitter a ex-primeira-ministra neozelandesa Helen Clark. “Os incêndios florestais australianos criaram neblina na Nova Zelândia (…). O impacto das cinzas nos glaciares vai provavelmente acelerar o degelo.”

FOTO Incêndio florestal na região de Captain Creek, no estado de Queensland, nordeste da Austrália WIKIMDIA COMMONS

Artigo publicado no “Expresso”, a 4 de janeiro de 2020. Pode ser consultado aqui

50 países, 50 imagens de um planeta (gravemente) doente e cada vez mais zangado

A Terra é um sítio cada vez menos amigável para a espécie humana e 2019 foi fértil em provas. Num ano em que muito se falou de Ambiente e em que uma menina sueca despertou consciências e motivou milhões de pessoas a protestar contra a inação dos governos face à emergência climática, multiplicaram-se sintomas de que o planeta está gravemente doente. Nestes 50 países — podiam ser muitos mais —, a degradação ambiental está à vista de todos e fenómenos climáticos extremos tiveram consequências devastadoras. Fica o alerta para 2020

PAQUISTÃO. Por detrás de uma “tela” de poluição, um barbeiro atende um cliente, numa rua de Lahore ARIF ALI / AFP / GETTY IMAGES
HOLANDA. Em julho, o termómetro superou os 40°C em várias cidades holandesas. Para refrescar os clientes, esta esplanada de Eindhoven montou um apetrecho extra NICOLAS ECONOMOU / GETTY IMAGES
AUSTRÁLIA. Onde se vê lama seca havia antes um canal de drenagem de um lago. Este canguru não escapou a tempo e morreu preso no solo, sem pingo de água que facilitasse a travessia NICK MOIR / GETTY IMAGES
PANAMÁ. Contrastes na Cidade do Panamá: uma margem que mais parece uma lixeira em frente à Costa del Este, um grande projeto de desenvolvimento imobiliário LUIS ACOSTA / AFP / GETTY IMAGES
GRÉCIA. Junto à aldeia de Stratoni, um mergulhador infla um saco de elevação para retirar das águas uma rede de pesca, durante uma operação de limpeza subaquática REUTERS
MALÁSIA. Esta família aproveitou o dia 11 de setembro para ver as vistas desde a Torre de Kuala Lumpur, uma das mais altas do mundo. Mas a visibilidade é reduzida SAMSUL SAID / GETTY IMAGES
ESTADOS UNIDOS. No estado do Iowa, em março, cheias provocadas por chuvas fortes esventraram silos de milho e destruíram grandes quantidades de colheitas DANIEL ACKER / GETTY IMAGES
ESPANHA. A ansiedade de dois moradores da aldeia de Valleseco, a 17 de agosto, perante o avanço das chamas, nas Ilhas Canárias BORJA SUAREZ / REUTERS
FILIPINAS. Não se vê pinga de água, mas por debaixo desta camada de lixo há um canal que atravessa uma zona residencial, em Manila NOEL CELIS / AFP / GETTY IMAGES
COREIA DO SUL. Máscaras cirúrgicas para ajudar a respirar em Seul nos dias em que o ar está mais contaminado CHUNG SUNG-JUN / GETTY IMAGES
MOÇAMBIQUE. A vida continua na Ilha de Ibo, devastada pelo ciclone Idai que atingiu o país no início de março ZINYANGE AUNTONY / AFP / GETTY IMAGES
GANA. Estes homens preparam-se para desmantelar uma pilha de lixo eletrónico, em Agbogbloshie. Esta zona de Acra é destino de toneladas deste tipo de resíduos produzidas no Ocidente CHRISTIAN THOMPSON / GETTY IMAGES
FRANÇA. Em julho, os Jardins do Trocadero transformaram-se numa verdadeira piscina pública quando Paris foi atingida por uma vaga de calor BERTRAND GUAY / AFP / GETTY IMAGES
DINAMARCA. Um pequeno bloco de gelo flutua solitário a sudeste da Gronelândia. O degelo dos glaciares é um dos sintomas mais visíveis do aquecimento global LUCAS JACKSON / REUTERS
ALBÂNIA. A 26 de novembro, um sismo de magnitude 6.4 abanou o país durante 30 segundos, matando 52 pessoas. A aldeia de Thumane foi das mais danificadas FLORION GOGA / REUTERS
TANZÂNIA. Com o seu ateliê inundado pelo rio Msimbazi, que transbordou, esta mulher não interrompeu o trabalho, na área de Mwenge, em Dar es Salaam ERICKY BONIPHACE / AFP / GETTY IMAGES
BRASIL. Estas toras foram cortadas ilegalmente perto de Humaita, na Amazónia. Era agosto e uma grande mancha da maior floresta tropical do mundo estava em chamas UESLEI MARCELINO / REUTERS
CHINA. O consumo excessivo é uma tendência comportamental que contribui para desequilibrar o planeta. A foto mostra um mercado grossista de carne de porco, nos arredores de Shanghai QILAI SHEN / GETTY IMAGES
INDONÉSIA. Um soldado patrulha uma praia suja por um derramamento de óleo, em Karawang, na províncoa de Java Ocidental WILLY KURNIAWAN / REUTERS
ALEMANHA. Estes alemães não precisaram de ir até ao sul da Europa para usufruírem de boas temperaturas. Bastou estender toalha junto ao lago Bad Saulgau, em julho, durante a vaga de calor THOMAS WARNACK / AFP / GETTY IMAGES
TUVALU. A subida do nível dos oceanos, provocada pelo degelo dos glaciares, ameaça muitos Estados insulares, como Tuvalu MARIO TAMA / GETTY IMAGES
CHILE. No dia de Natal, um grande incêndio florestal irrompeu pela cidade de Valparaiso. A estrada foi preciosa para travar o avanço das chamas PABLO ROJAS MARIADAGA / AFP / GETTY IMAGES
PORTUGAL. Uma casa quase imersa pelo rio Mondego, em Montemor-o-Velho. As depressões Elsa e Fabien cobriram de água vastas áreas do norte e centro de Portugal MIGUEL PEREIRA / REUTERS
IRÃO. Grandes cheias, em março e abril, provocadas por chuvas abundantes, isolaram aldeias, provocaram dezenas de mortos e milhares de desalojados, como esta mulher REUTERS
ITÁLIA. Inundações em Veneza são fenómenos recorrentes que cunham a identidade da cidade. Mas em novembro, a “acqua alta” foi mais intensa do que o habitual MANUEL SILVESTRI / REUTERS
RÚSSIA. Na linha da frente do combate às alterações climáticas está a redução das emissões de gases tóxicos para a atmosfera. Nesse capítulo, há trabalho a fazer nesta fábrica de Moscovo WALDO SWIEGERS / GETTY IMAGES
ÍNDIA. Em cidades muito poluídas como Nova Deli, só os forasteiros estranham a existência de “bares de oxigénio”, onde se vende oxigénio para fins recreativos ANUSHREE FADNAVIS / REUTERS
NOVA ZELÂNDIA. Dois socorristas parecem formigas na imensidão da lava cuspida pelo vulcão Whakaari. A erupção, a 9 de dezembro, surpreendeu fatalmente turistas que visitavam a ilha GETTY IMAGES
SUÍÇA. A 1 de outubro, dois caminheiros seguiam por um trilho próximo do glaciar Aletsch, nos Alpes, onde havia mais vegetação do que neve FABRICE COFFRINI / AFP / GETTY IMAGES
QUÉNIA. O rio Njoro, que neste troço mais se assemelha a um “rio de lixo”, desagua no lago Nakuru, inserido num parque natural que é património da UNESCO JAMES WAKIBIA / GETTY IMAGES
ÁFRICA DO SUL. Peixes mortos, recolhidos de uma barragem que secou, em Graaff-Reinet MIKE HUTCHINGS / REUTERS
COLÔMBIA. Contentores de apoio à construção de uma barragem, na cidade de Ituango. Interferir nos cursos de água é uma opção muitas vezes desastrosa em termos ambientais NICOLO FILIPPO ROSSO / GETTY IMAGES
TURQUIA. A construção de barragens implica, por vezes, a deslocalização de populações inteiras. Foi o caso de Hasankeyf, que obrigou também à transferência de uma mesquita do século XV SERTAC KAYAR / REUTERS
BANGLADESH. Há mais poluição do que água neste troço do rio Buriganga, na capital do país, Daca MOHAMMAD PONIR HOSSAIN / REUTERS
ISRAEL. A degradação dos ecossistemas desorienta os animais. A 5 de dezembro, este grupo de javalis selvagens parecia meio perdido, numa zona residencial da cidade de Haifa MENAHEM KAHANA / AFP / GETTY IMAGES
KOSOVO. Em Pristina, a estátua de Madre Teresa de Calcutá surge de máscara posta. Um gesto simbólico para alertar para o ar irrespirável da cidade ARMEND NIMANI / AFP / GETTY IMAGES
MÈXICO. Com mais de 20 milhões de habitantes na área metropolitana, a Cidade do México é problemática em termos ambientais. A 16 de maio, por causa da poluição do ar, as escolas fecharam HENRY ROMERO / REUTERS
BOTSUANA. Hipopótamo morto no solo inóspito perto do Delta do Okavango, um dos últimos santuários de vida selvagem em África. A falta de chuva levou o governo a declarar “ano de seca” MONIRUL BHUIYAN / AFP / GETTY IMAGES
TAILÂNDIA. Em Banguecoque, este casal compra o almoço num negócio de rua, mas tarda em retirar do rosto a máscara que lhes protege as vias respiratórias ROMEO GACAD / AFP / GETTY IMAGES
HONDURAS. Ainda há água neste reservatório de Concepcion, nos arredores de Tegucigalpa, mas a encosta gretada revela que o seu nível tem-se mantido baixo JORGE CABRERA / REUTERS
REINO UNIDO. Em Londres, os dias chuvosos e cinzentos deram lugar a jornadas ensolaradas e calorentas. Muitos locais refrescaram-se nos oportunos jatos de água de Granary Square NICOLAS ECONOMOU / GETTY IMAGES
ARGENTINA. Para os amantes de trekking nos glaciares, o Perito Moreno, no sul da Patagónia, é um destino obrigatório… e urgente já que o gelo está a derreter a grande velocidade DAVID SILVERMAN / GETTY IMAGES
VENEZUELA. Habitantes de Caracas fazem fila para recolher água que brota de um cano partido. A vida sem estabilidade política é difícil, mas sem água é impossivel JUAN BARRETO / AFP / GETTY IMAGES
BOLÍVIA. Chuvas fortes seguidas de deslizamentos de terras originaram o colapso de casas ao estilo de um castelo de cartas. Foi em abril, na região de La Paz DAVID MERCADO / REUTERS
URUGUAI. Separação de lixo eletrónico num armazém de Montevideu. O seu destino final origina, muitas vezes, problemas ambientais ANDRES STAPFF / REUTERS
SUDÃO DO SUL. Rodeada por água, acumulada após chuvas intensas, esta sudanesa vai à procura de água potável, na cidade de Pibor ANDREEA CAMPEANU / REUTERS
JAPÃO. Um rasto de petróleo derramado de uma fábrica contamina parte de Omachi, após chuvas torrenciais terem inundado a cidade GETTY IMAGES
NIGÉRIA. Um bombeiro carrega uma mangueira junto a um oleoduto em chamas, vandalizado por ladrões de petróleo. É um desastre ambiental frequente no país PIUS UTOMI EKPEL / AFP / GETTY IMAGES
HAITI. Jovens passeiam-se pelo trilho de um esgoto perto das casas onde vivem, em Port-au-Prince CHANDAN KHANNA / AFP / GETTY IMAGES
BAAMAS. Originária do Haiti, Aliana Alexis viveu a tragédia nas Baamas. Em setembro, o furacão Dorian varreu o arquipélago e reduziu a sua casa a um monte de destroços AL DIAZ / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de dezembro de 2019. Pode ser consultado aqui