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As 150 mil pessoas que foram para um país em guerra à procura de uma vida melhor

Milhares de pessoas tentam todos os anos entrar no Iémen — um país em guerra em situação de pobreza persistente — em busca de oportunidades de trabalho. Em 2018, ali chegaram mais “migrantes irregulares” do que os que atravessaram o Mediterrâneo em direção à Europa

Imagine-se um país com quase 30 milhões de habitantes onde, em cada 100, 74 vive dependente de ajuda humanitária, 60 corre o risco de passar fome, 57 não tem acesso a água potável e 53 sobrevive sem serviços de saúde. Esse país está tomado por uma guerra civil e a sua população exposta ao pior surto de cólera em todo o mundo. Ainda assim, a cada ano que passa, milhares de pessoas arriscam a vida para entrarem nesse país em busca… ‘de uma vida melhor’.

É o que se passa no Iémen, um dos países mais pobres do mundo e, atualmente, palco de uma grande tragédia humana — a “maior crise de dimensão humanitária em todo o mundo”, nas palavras do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Em 2018, estima-se que tenham entrado naquele país à volta de 150 mil pessoas em situação irregular — uma média de mais de 400 pessoas por dia —, a esmagadora maioria das quais por razões económicas.

Esta realidade torna-se mais chocante quando se constata que esse número é superior à quantidade de “migrantes irregulares” que, no mesmo período, cruzaram o Mar Mediterrâneo para tentar entrar na rica Europa. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM) — liderada desde 1 de outubro passado pelo português António Vitorino —, no ano passado (até 19 de dezembro) tinham entrado no Velho Continente, por mar, 113.145 pessoas.

No Iémen, “os migrantes citam uma miríade de razões para as suas deslocações, incluindo perspetivas económicas limitadas, instabilidade política e degradação ambiental nos países de origem”, explica ao Expresso Angela Wells, do gabinete de Informação Pública da OIM. “A grande maioria quer chegar à Arábia Saudita [contígua ao Iémen], onde espera encontrar oportunidades de trabalho.”

São oriundos da Etiópia, numa percentagem superior a 90%, sendo os restantes sobretudo somalis. Para chegar ao Iémen, percorrem a chamada Rota Oriental, que os leva, inicialmente, por percursos terrestres no Djibuti, muito usados por contrabandistas, e depois a bordo de embarcações através do Golfo de Aden. Em menor número, alguns lançam-se a partir da costa da Somália.

“Desde o início de 2014, o Projeto de Migrantes Desaparecidos da OIM registou mais de 700 mortes no Golfo de Aden”, diz Angela Wells.

Enquanto, em 2018, o número de “migrantes irregulares” a entrar na Europa diminuiu comparativamente ao ano anterior, no Iémen aumentou em 50%. “Esta é uma das rotas migratórias mais jovens do mundo”, acrescenta a responsável da OIM. “Estima-se que 20% dos migrantes sejam menores — muitos deles desacompanhados —, inconscientes ou incapazes de compreender a gravidade do conflito no Iémen.”

Quem se lança rumo ao desconhecido, correndo riscos de vida, age motivado por histórias de outros que partiram e ‘conseguiram’. Esses passaram a enviar dinheiro para as famílias, nos países de origem, que aproveitaram para construir uma casa nova, melhorar a educação das crianças ou regenerar as propriedades agrícolas degradadas por anos de seca.

Mas chegados ao Iémen, os perigos espreitam a cada esquina. “Os mais graves decorrem da violência do conflito, de uma drástica insegurança alimentar e de epidemias de doenças infecciosas”, refere Angela Wells. “O estatuto irregular dos migrantes também aumenta a sua vulnerabilidade à exploração laboral e ao tráfico de pessoas e expõem-nos a abusos por parte de contrabandistas e de traficantes nas rotas do Corno de África.” Longas caminhadas, dias a fio, em rotas áridas e desertas, originam também casos de desidratação e várias doenças.

No terreno — no Iémen e nos países de trânsito —, organizações humanitárias vão disponibilizando abrigos e prestando cuidados para atenuar o sofrimento. A OIM, em particular, ajuda migrantes que, face às adversidades, queiram regressar aos países de origem.

Em finais de novembro passado, a organização reiniciou o transporte aéreo de repatriamento voluntário, levando 418 etíopes (121 dos quais menores) para casa. Os voos estavam suspensos desde 2015, devido ao conflito, que se tornou uma “guerra por procuração” entre os pesos pesados do Médio Oriente: os rebeldes huthis são apoiados pelo Irão (xiita) e as forças leais ao Presidente deposto, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, beneficiam dos bombardeamentos aéreos efetuados pela vizinha Arábia Saudita (sunita).

A 13 de dezembro passado, na sequência do “caso Khashoggi”, o Senado dos Estados Unidos aprovou o fim do apoio militar à Arábia Saudita no Iémen. Mesmo assim, a aviação saudita continua a bombardear.

(Foto: Na cidade costeira de Obock, no Djibuti, migrantes aguardam, à sombra, que traficantes organizem a sua viagem até ao Iémen OLIVIA HEADON / IOM)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 17 de janeiro de 2019, e republicado no “Expresso Online”, a 19 de janeiro seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Revolução de mulheres à solta no Twitter

Uma jovem saudita fugiu do país expondo a atual fragilidade do Reino

Imagem de um vídeo de Rahaf Mohammed al-Qunun, feito dentro do quarto onde se barricou, no aeroporto de Banguecoque TWITTER RAHAF MOHAMMED

Três meses após o macabro assassínio do jornalista Jamal Khashoggi, que implicou o regime da Arábia Saudita, fragilizando-o na cena internacional, aquele que é um dos países mais poderosos e conservadores do mundo está novamente posto à prova. Rahaf Mohammed al-Qunun, de 18 anos, filha do governador de Al-Sulaimi (norte), ousou fugir do Reino e de um futuro traçado pelos rígidos códigos sociais que subordinam a vida das mulheres à vontade dos homens da família.

Determinada a exilar-se na Austrália, após acusar a família de maus tratos, foi intercetada na Tailândia, onde o passaporte lhe foi confiscado. Para resistir ao repatriamento forçado barricou-se num quarto de hotel no aeroporto de Banguecoque e exigiu falar com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados. “Se a jovem não quer partir, não será enviada contra a sua vontade”, declarou o chefe da polícia tailandesa de Imigração. A ONU acabaria por entrevistá-la, validar a sua história e levá-la para “local seguro”. Tudo isto em 48 horas.

“Há certamente um ‘efeito Khashoggi’ neste caso”, comenta ao Expresso a ativista dos direitos humanos suíço-iemenita Elham Manea. “Em 2017, num caso semelhante, Dina Ali ia para a Austrália e foi parada no aeroporto de Manila [Filipinas]. Foi arrastada contra a vontade para um avião que a levou de volta para a Arábia Saudita. O mundo limitou-se a assistir. Ninguém sabe o que lhe aconteceu depois…”

A arma do telemóvel

“Sem o ‘efeito Khashoggi’, a fuga teria passado despercebida à comunidade internacional e a ONU não teria agido de forma rápida e decisiva”, diz ao Expresso Manuel Almeida, investigador no Centro do Médio Oriente, da Escola de Economia e Ciência Política de Londres. “A morte do jornalista fica apenas atrás do 11 de Setembro como mancha permanente na reputação saudita.”

À hora de fecho desta edição, Rahaf continuava sob tutela da ONU, à espera de notícias da Austrália. Ontem, massacrada com ameaças de morte, suspendeu a conta no Twitter, o canal com o mundo sem o qual, uma semana após ter fugido, não manteria acesa a esperança num futuro em liberdade. Diante de jornalistas tailandeses, o encarregado de negócios saudita afirmaria que, em vez do passaporte, as autoridades locais deveriam ter-lhe apreendido… o smartphone.

A odisseia de Rahaf é rápida de contar. De férias com a família no Kuwait — onde, ao contrário da Arábia Saudita, as mulheres não necessitam de autorização masculina para viajar sozinhas —, Rahaf comprou uma viagem com destino à Austrália. Travada na escala em Banguecoque faz hoje uma semana abriu uma conta no Twitter quando se sentiu apertada pelas autoridades. Foi o tiro de partida para uma revolução em sua defesa, que galgou as fronteiras digitais graças, em especial, ao empenho de várias mulheres.

Atenta aos tweets desesperados da jovem, Sophie McNeill, uma jornalista australiana da televisão ABC, foi ao seu encontro conseguindo que ela lhe abrisse a porta do quarto. Rahaf haveria de agradecer-lhe essa “proteção”. No Twitter, a feminista egípcia Mona Eltahawy deu visibilidade ao caso, levando um exército de seguidores a fazer pressão junto de organizações, embaixadas e deputados de todo o mundo. E após Rahaf obter proteção da ONU, três jovens sauditas foram importantes para não deixar o caso morrer. Desde a Austrália, a Suécia e o Canadá, foram-se revezando na gestão do Twitter.

Manuel Almeida não prevê que o caso de Rahaf tenha consequências diretas no sistema de tutela masculina em vigor. “Mas acredito que o país caminha a passos largos para a sua abolição. Na Arábia Saudita, há mais mulheres do que homens a estudar, e obtêm melhores resultados em ciências, engenharia e matemática. Há mais mulheres a formarem-se e um número crescente a entrar no mercado de trabalho. Com o tempo, o sistema de tutela masculina será insustentável política, económica e socialmente.”

Artigo publicado no Expresso, a 12 de janeiro de 2019. Pode ser consultado aqui

 

A odisseia de uma jovem saudita, contra a família e contra o país

Determinada em libertar-se das amarras sociais que a condenavam a uma vida submissa, uma jovem saudita meteu-se num avião a caminho da Austrália em busca de asilo. Intercetada na Tailândia, temeu pela vida. Sem sair do aeroporto, barricou-se num quarto de hotel, abriu conta no Twitter e gritou por ajuda — 48 horas depois saía em liberdade

“A minha conta oficial será entregue aos meus amigos mais próximos caso eu desapareça, para que as informações reais sobre o meu caso sejam atualizadas e documentadas, para que as restantes provas sejam publicadas e para que a voz das raparigas como eu nunca seja abafada.”

O tom desta mensagem publicada no domingo no Twitter por uma saudita de 18 anos não podia ser mais inquietante. Mais ainda quando, ao percorrer as suas mensagens, se percebia que aquela conta tinha sido criada apenas no dia anterior com o objetivo indisfarçável de pedir ajuda. A utilizadora era Rahaf Mohammed al-Qunun, uma estudante na Universidade Ha’il (nordeste da Arábia Saudita), em fuga a um futuro que lhe haviam traçado.

Aproveitando umas férias com a família no Kuwait, Rahaf ganhou coragem e, no sábado, apanhou um voo para Banguecoque, a capital da Tailândia. Ao contrário do que é possível no seu país natal, não necessitou de autorização de um homem da família para comprar bilhete e subir a bordo.

Rahaf tencionava chegar à Austrália, mas a escala tailandesa não foi pacífica. Chegada ao Aeroporto Suvarnabhumi, viu ser-lhe apreendido o passaporte — aparentemente porque não tinha bilhete de regresso, reserva de hotel ou qualquer programa turístico —, o que a impediu de seguir viagem para a Austrália, onde tencionava pedir asilo. Temendo ser deportada para junto da família, barricou-se num quarto de hotel no aeroporto e abriu conta no Twitter. A sua história começou então a circular a reboque da “hashtag” #SaveRahaf.

A jovem acusa a família de abusos, “incluindo espancamentos e ameaças de morte por parte de homens da família, que também a forçaram a ficar no seu quarto durante seis meses por ter cortado o cabelo”, informa a Human Rights Watch. “É evidente que ela procura proteção internacional”, acrescenta a organização humanitária. “Al-Qunun pode estar em sérios riscos se regressar para junto da família. Na Arábia Saudita, ela também enfrenta possíveis acusações criminais, numa violação aos seus direitos básicos, por ‘desobediência parental’, que podem originar castigos desde regressar a casa do seu guardião até à prisão, e por ‘prejudicar a reputação do reino’ nos seus pedidos de ajuda públicos.”

No Twitter, Rahaf foi divulgando provas da sua identidade, desmentindo notícias que iam saindo sobre si na imprensa saudita e publicando imagens do pequeno quarto onde resistia e onde o colchão, uma mesa e uma cadeira bloqueavam a abertura da porta, em caso de invasão forçada. E foi fazendo apelos ao mundo: “Quero a ONU! Quero a ONU! Quero a ONU!”.

Em meia dúzia de horas tinha os principais órgãos de informação internacionais de olhos postos na sua história — a videojornalista australiana Sophie McNeill, que trabalha para a australiana ABC, conseguiu entrar para dentro do quarto — e uma senadora australiana a trabalhar no seu caso: “A Austrália tem de ajudar esta jovem urgentemente! A sua vida está em perigo após ela renunciar ao Islão e fugir a um casamento forçado. Nós podemos emitir documentos de viagem de urgência para que ela apanhe um voo para a Austrália e procure segurança. Já apelei ao Governo para que haja rapidamente!”, escreveu no Twitter a senadora Sarah Hanson-Young.

A partir do seu quarto, Rahaf confirmou que procura “proteção” de um país terceiro, especialmente “Canadá, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido”. O impacto mediático do caso, que transbordou as redes sociais, levou a um decisão rápida por parte das autoridades tailandesas: “Se a jovem não quiser partir, ela não será enviada contra a sua vontade” para a Arábia Saudita, esclareceu o major general Surachate Hakparn esta segunda-feira.

A aparente facilidade com que o caso parecia resolver-se levantou dúvidas em relação à sinceridade das palavras do general. A confiança aumentou quando foi dada “luz verde” a uma delegação do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados para visitar Rahaf no quarto. Pouco depois surgia a notícia de que a jovem poderia sair — ficaria à guarda das Nações Unidas. “Ela já saiu do aeroporto com a ONU”, informou o general. “Ela não está mais detida pelos serviços de imigração.”

Até sair da Tailândia, Rahaf não pode respirar de alívio, apesar do rápido e positivo desfecho de um caso que tinha tudo para correr mal. Em abril de 2017, numa situação muito semelhante, a saudita Dina Ali Lasloom foi forçada a regressar a casa durante uma escala nas Filipinas, igualmente a caminho da Austrália.

A odisseia de Rahaf ganhou uma dimensão acrescida dado estar ainda recente na memória o brutal assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi, um crítico do regime de Riade, que colocou o reino saudita no radar do (in)cumprimento dos direitos humanos.

Após ser nomeado príncipe herdeiro da coroa saudita, em junho de 2017, Mohammed bin Salman (MbS), hoje com 33 anos, “libertou” as sauditas de algumas amarras para anunciar ao mundo o início de uma nova era social no reino, designadamente permitindo que passassem a conduzir automóveis.

A fuga de Rahaf revela que o principal problema subsiste: o sistema de tutela familiar que subordina as mulheres à vontade de um homem — seja pai, marido, irmão ou mesmo filho — para decisões como estudar ou viajar para o estrangeiro. Estas obrigações duram a vida inteira. Para o Estado, as mulheres são permanentemente menores — até jovens destemidas como Rahaf Mohammed al-Qunun o provarem que não.

(IMAGENS Rahaf Mohammed al-Qunun, no interior de um quarto de hotel, no aeroporto de Banguecoque, na Tailândia TWITTER)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de janeiro de 2019. Pode ser consultado aqui

Seis eleições em 2019 que podem mudar a cor do continente

Com Trump a norte e Bolsonaro a sul, a América está cada vez mais agitada. Este ano, seis países poderão ter novos líderes

WIKIMEDIA COMMONS

ARGENTINA — Que fazer com a dívida externa?
Mais do que saber quem será o inquilino da Casa Rosada, está em causa a estabilidade fiscal da terceira economia latino-americana (a seguir ao Brasil e ao México). “Dado o peso demográfico [44 milhões de habitantes], a eleição na Argentina é a mais relevante”, diz ao Expresso o politólogo Andrés Malamud, do Instituto de Ciências Sociais, em Lisboa. “É também a que terá mais impacto sistémico, em virtude da dívida externa grande e insustentável.” O próximo governo terá de optar: renegociar ou não pagar, o que pode “alimentar turbulências financeiras globais”. O Presidente Mauricio Macri (centro-direita) lidera as sondagens, seguido pela antecessora Cristina Kirchner (esquerda peronista). Em dezembro, a senadora viu ser confirmada uma sentença de prisão preventiva por corrupção. Chegará ao dia 27 de outubro em liberdade?

BOLÍVIA — Evo Morales tenta o quarto mandato
Previstas para outubro, as presidenciais na Bolívia terão impacto regional, como as argentinas. “Os dois governos encarnam, respetivamente, o centro moderado e a esquerda democrática na América Latina. A sua derrota significaria um fim de época”, defende Malamud. O país é governado desde 2006 pelo primeiro indígena a ocupar o cargo. “A Bolívia enfrenta o ‘dilema Evo Morales’”, diz ao Expresso Marcelo Moriconi, investigador no ISCTE. “Ele deseja continuar no poder embora os cidadãos tenham votado contra uma reeleição em referendo.” A 21 de fevereiro de 2016, os bolivianos rejeitaram o fim das restrições ao número de mandatos presidenciais introduzidas na Constituição de 2009. Há um mês, porém, o Tribunal Eleitoral deu “luz verde” à candidatura do cocalero a um quarto mandato. Se acontecer, a Bolívia poderá ver consolidada “uma continuidade marcada pela centralização dos poderes e pelo pragmatismo, legitimada pela sobrevalorização do indigenismo”, diz ao Expresso Nancy Gomes, da Universidade Autónoma de Lisboa. E continuará a ser o bastião da esquerda na América do Sul.

URUGUAI — Farol da esquerda no continente americano
Pequeno em tamanho e importância económica, o Uruguai é relevante para os países com governos de esquerda, numa altura em que os ventos da direita, com Trump e Bolsonaro ao leme, sopram sobre o continente. “Tem havido um redesenho político (com a exceção do México) que coincide com um momento de redução do crescimento económico”, diz Nancy Gomes. O Presidente é, desde 2015, Tabaré Vázquez, que ocupara o cargo de 2005 a 2010. Como o seu antecessor, o popular José Mujica, pertence à Frente Ampla (esquerda), que enfrenta “a sua eleição mais difícil”, defende Moriconi. “O Governo do Uruguai — que, com o Chile, é a democracia mais estável da região — poderá mudar de cor.” Tabaré não pode disputar as eleições de 27 de outubro. A Frente tem de se reinventar.

PANAMÁ — A importância do Canal, hoje e sempre
Vota a 5 de maio, finda uma campanha com novas regras que visam reduzir o impacto do financiamento privado no processo eleitoral. O Presidente Juan Carlos Varela (direita) é inelegível, e as sondagens dão ligeiro favoritismo a Laurentino Cortizo (esquerda). “O Panamá é geopoliticamente estratégico dada a importância do Canal, onde China e EUA apostam forte a sua influência na região”, explica Moriconi.

EL SALVADOR / GUATEMALA — O flagelo da corrupção
Na América Central, são países de origem de muitos migrantes que partem em caravana rumo aos EUA. Sem peso político, sofrem o flagelo da corrupção. Na Guatemala, o Presidente Jimmy Morales, impedido de se recandidatar a 19 de junho, declarou “guerra” à Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala (ONU), que investiga crimes graves. Em El Salvador, pela primeira vez desde o acordo de paz (1992), o favorito a 3 de fevereiro não emana da ARENA (direita) ou da Frente Farabundo Martí (esquerda), desacreditadas pela corrupção: é Nayib Bukele, 37 anos, empresário, ex-autarca de San Salvador. Foi expulso da Frente.

Artigo publicado no Expresso, a 5 de janeiro de 2019

 

De Nazaré a Belém, 2018 anos depois

O trilho percorrido por José e Maria a caminho de Belém, onde nasceria Jesus Cristo, far-se-ia hoje entre checkpoints militares, colonatos, campos de refugiados e paredes de betão

A Bíblia é omissa em pormenores mas, no terceiro Evangelho, São Lucas refere-se à viagem de José e Maria, nas vésperas do nascimento de Jesus. “Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. (…) Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz.”

Nos dias de hoje, esse seria um percurso bastante sinuoso. O casal teria de atravessar duas entidades políticas e ultrapassar obstáculos decorrentes de uma das disputas mais insolúveis do nosso tempo — o conflito israelo-palestiniano.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

NAZARÉ
A cidade que identifica a origem de Jesus situa-se hoje no norte de Israel. Até à criação do Estado judeu, em 1948, tinha uma matriz cristã. Após a eclosão da primeira guerra israelo-árabe (1948-49), a região recebeu um grande fluxo de palestinianos em fuga ou expulsos de suas casas. Hoje, Nazaré é a maior cidade árabe israelita, com cerca de 75 mil habitantes, maioritariamente muçulmanos.

Para os peregrinos cristãos que rumam à Terra Santa, é paragem obrigatória, como Belém (onde Jesus nasceu) e Jerusalém (onde morreu). Junto às ruínas da carpintaria de José, ergue-se a Igreja de São José. E sobre os vestígios da casa de Maria foi construída a Igreja da Anunciação, muito procurada para casamentos de cidadãos israelitas árabes cristãos.

Seguindo para sul, o caminho faz-se entre povoações que ora falam árabe e rezam em igrejas ou mesquitas ora se expressam em hebraico e frequentam sinagogas. Uma delas é o moshav de Balfurya — um moshav é uma propriedade agrícola comunitária —, fundado em 1922 e assim batizado em homenagem ao conde de Balfour, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, que cinco anos antes defendera um “lar judeu” no território histórico da Palestina. Em 2017, viviam ali 491 pessoas.

Não muito longe, Mqeibleh é uma aldeia árabe com população cristã e muçulmana. É o último aglomerado antes da fronteira.

JALAMAH
Cerca de 20 quilómetros para sul de Nazaré, o checkpoint de Jalamah assinala a fronteira entre Israel e o território palestiniano ocupado da Cisjordânia. Junto ao este posto de controlo, ergue-se o muro — a que Israel chama “vedação de segurança” — que, ora em betão ora em arame, vai contornando o território palestiniano.

Quem ali vive diz que o muro é uma forma de Israel roubar terras que não lhe pertencem, já que nem sempre o traçado do muro coincide com a Linha Verde, a fronteira estabelecida pelo Armistício de 1949 e internacionalmente reconhecida.

Em vários pontos, o muro corta aldeias ao meio, dividindo famílias e, por vezes, separando a casa do quintal. Para quem fica com propriedades no “lado errado” do muro, as burocracias exigidas para ir de um lado ao outro impossibilitam a prática agrícola — o ganha-pão.

No checkpoint, só passam árabes com cidadania israelita ou palestinianos da Cisjordânia devidamente autorizados pelas autoridades de Telavive. É o caso de muitos trabalhadores que moram na Cisjordânia e labutam em Israel.

JENIN
Situada no coração de uma área agrícola fértil, Jenin foi outrora uma movimentada zona comercial — até que o muro a privou de liberdade de acesso aos mercados da região e a Intifada de Al-Aqsa (a segunda, entre 2000 e 2005) fez da povoação alvo da retaliação israelita.

Em Jenin fica o campo de refugiados mais a norte da Cisjordânia, estabelecido em 1953 e onde vivem 14 mil pessoas. Vistos por Israel como bastiões de militância, nem o campo nem a cidade estão a salvo de incursões do exército judeu (Tsahal). Muitas vezes pela calada da noite, invadem povoações, revistam casas, interrogam famílias, confiscam bens e detêm pessoas sem acusação.

NABLUS
A 45 quilómetros de Jenin surge Nablus, uma das cidades mais antigas do mundo, referida na Bíblia como Shechem. À semelhança de Jenin, Nablus é uma fortaleza de resistência à ocupação israelita, o que a sujeita a raides militares israelitas. Está também exposta à violência de colonos judeus que, com frequência, vandalizam sobretudo olivais.

A sul de Nablus, o colonato de Yitzhar — fundado em 1984 e onde vivem 1500 judeus — tem fama de ser dos mais violentos. Atacam não só povoações palestinianas mas também as próprias forças israelitas.

BALATA
É o maior dos 19 campos de refugiados existentes na Cisjordânia, geridos pela UNRWA, agência das Nações Unidas criada em 1949 para responder ao êxodo palestiniano que se seguiu à criação de Israel. Então, estavam em causa à volta de 750 mil pessoas; hoje, mais de cinco milhões estão habilitadas a recorrer aos serviços providenciados pela ONU, em campos na Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Líbano, Síria e Jerusalém Oriental. Se antes viviam em tendas, hoje moram em prédios. O que devia ter sido uma situação temporária tem — na falta de paz — um carácter cada vez mais definitivo.

O atual mandato da UNRWA termina em 2020. Até lá, a agência lutará com dificuldades inesperadas: em agosto, os EUA — o maior doador — cortaram o financiamento.

HUWWARAH
Segundo a ONG israelita B’Tselem, em janeiro de 2017 havia 98 checkpoints fixos na Cisjordânia, 59 dos quais internos, como o de Huwwarah, passagem obrigatória para quem vai para sul.

A pé ou de carro, pode ser-se interrogado sobre os motivos da deslocação. A espera na fila pode ser demorada e mesmo ambulâncias podem ter de aguardar por vez. Várias mulheres já deram à luz em checkpoints. Em Huwwarah, um bebé morreu a 12 de setembro de 2008, após nascer prematuro no local.

O funcionamento dos postos de controlo obedece a horários rígidos. Em épocas de tensão — após atentados, ataques isolados ou bombardeamentos à Faixa de Gaza, por exemplo —, os checkpoints podem encerrar.

SHILO
Para Israel, os checkpoints são fundamentais para abortar planos de ataque contra judeus, nomeadamente os mais de 500 mil colonos que vivem na Judeia e Samaria (como o Estado hebraico chama à Cisjordânia). Cerca de 4 mil vivem em Shilo, colonato religioso fundado em 1978 de forma engenhosa — e em terras privadas, denunciam os palestinianos. Aproveitando a existência na zona de vestígios arqueológicos com significado para os judeus, uma comunidade liderada pelo extremista Ira Rappaport obteve autorização do Governo para aí fazer uma escavação arqueológica. O aglomerado foi crescendo, em dimensão e habitantes.

Em nome do bem-estar nos colonatos — ilegais, ao abrigo do direito internacional —, há estradas só para judeus, que beneficiam também de acesso privilegiado às melhores terras e aos recursos hídricos, com prejuízo sobretudo das populações nómadas beduínas.

Este apartheid é fonte de tensão permanente. A 9 de dezembro, sete judeus foram feridos a tiro num entroncamento perto do colonato de Ofra, na região de Ramallah, durante uma vigília noturna.

RAMALLAH
É a capital administrativa da Autoridade Nacional Palestiniana, que, pelos Acordos de Oslo (1993), é o Governo provisório até à proclamação da independência e subsequente eleição de órgãos de soberania. Em Ramallah (e na cidade adjacente de Al-Bireh) estão sediadas as principais instituições palestinianas, bem como representações diplomáticas.

A cidade é, por isso, naturalmente cosmopolita, economicamente dinâmica e socialmente mais aberta, com restaurantes modernos e bares com todo o tipo de álcool e plasmas sintonizados em partidas de futebol das principais ligas europeias.

QALANDIA
Para se ir de Ramallah a Belém, há duas opções. Uma implica atravessar o checkpoint da Qalandia, passagem obrigatória para quem quer ir para Jerusalém. No exterior, o muro que passa rente é uma autêntica galeria, transformado em tela por artistas e ativistas de todo o mundo que expressam a sua oposição à ocupação da Palestina através de grafitos.

O caminho alternativo permite contornar o posto, mas é mais longo. Esta opção dá razão aos palestinianos quando dizem que os checkpoints surgem no caminho para lhes infernizar o dia a dia, fazendo-os gastar mais tempo e dinheiro. Vencidos pelo cansaço, talvez um dia partam dali.

BEIT SAHOUR
Discreta aldeia nas imediações de Belém, estima-se que corresponda ao campo de pastores que, segundo São Lucas, recebeu a visita do anjo: “Não temais, porque aqui vos trago novas de grande alegria (…). Pois, na cidade de David, nasceu hoje o Salvador.”

BELÉM
Passados cerca de 100 quilómetros, por fim Belém. Para entrar na cidade há que atravessar mais um checkpoint junto ao muro que, como o da Qalandia, é uma montra de street art. Em 2017, à distância de uma rua para o muro, foi ali inaugurado o Walled Off Hotel, que promete “as piores vistas do mundo”. Inacessível a qualquer bolsa, é propriedade de Banksy, o misterioso artista britânico que assina muitos grafitos no muro.

Como acontece por todo o Médio Oriente, a população cristã de Belém está em queda. Outrora esmagadora, em 2016 não ia além dos 16%. Resiliente, a cidade — cujo presidente da Câmara é sempre um cristão (atualmente uma mulher, Vera Baboun) — não esquece a herança que a notabiliza. Todos os anos é montada uma grande árvore de Natal na Praça da Manjedoura. Contígua, a Igreja da Natividade abriga a gruta onde se crê que Jesus nasceu.

Artigo publicado no Expresso, a 22 de dezembro de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui