Todos os artigos de mmota

Recordar a I Guerra para evitar a III

O centenário do armistício da I Guerra Mundial, amanhã, traz à reflexão a hipótese de um novo conflito mundial

O ano de 2012 viu partir a última pessoa que participou na I Guerra Mundial. Chamava-se Florence Green, era inglesa e trabalhou numa messe de oficiais da Royal Air Force em Marham, no leste do Reino Unido. Morreu aos 110 anos, os mesmos que tinha o inglês Claude Choules, o último combatente vivo das hostes aliadas, que falecera meses antes de Florence. Do lado das potências centrais, Franz Künstler, nascido no Império Austro-Húngaro, foi o derradeiro veterano a partir — em 2008, com 107 anos de idade. O inglês Harry Patch foi o último sobrevivente entre aqueles que lutaram nas trincheiras. Morreu em 2009, aos 111 anos.

Com estes desaparecimentos centenários, calaram-se de vez os testemunhos na primeira pessoa de quem travou “a guerra que irá acabar com a guerra”, como a ela se referiu o escritor inglês H. G. Wells. Não seria assim, já que, passados apenas 21 anos, outro conflito em grande escala mobilizaria o mundo e dizimaria a Europa. Hoje, 100 anos após o fim da I Guerra Mundial — o armistício foi assinado a 11 de novembro de 2018, na floresta de Compiègne, em França —, uma terceira guerra mundial será um cenário plausível?

Soldados britânicos ocupam uma trincheira alemã, em Ovillers-la-Boisselle, França, durante a Batalha do Somme, em julho de 1916. Um está de vigia enquanto os outros descansam JOHN WARWICK BROOKE / WIKIMEDIA COMMONS

“Uma guerra como a de 1914-18 não é provável, mas só pensando que é possível podemos preveni-la”, diz ao Expresso Álvaro Vasconcelos, ex-diretor do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e fundador do blogue Fórum Demos. “O nacionalismo é a guerra, disse François Mitterrand no seu discurso-testamento no Parlamento Europeu. É bom lembrarmo-nos disso para que a tragédia europeia não se repita. Nos anos 90, o nacionalismo na Europa levou ao ódio do outro, à guerra e ao massacre”, diz, em referência à Jugoslávia. Hoje, está em alta um pouco por todo o mundo.

Protagonistas da III Guerra

No seu manifesto, o Fórum Demos elenca uma “penosa série de acontecimentos” que alertam para ameaças à democracia: “A eleição de Donald Trump nos EUA, o crescimento da extrema-direita xenófoba na Europa, a recusa da hospitalidade europeia relativamente aos que fogem da guerra nas nossas fronteiras, os milhares de mortos sepultados no Mediterrâneo, a repressão brutal da oposição em países árabes, as vitórias eleitorais de conservadores religiosos no Brasil”.

Professor responsável pelas unidades curriculares de Geopolítica e de Cibersegurança no Instituto Universitário Militar, Armando Marques Guedes realça “o nacionalismo ‘antiglobalista’ e, muitas vezes, agressivamente antioutros — entendidos hoje como os de outras religiões, etnias ou culturas — que pulula na Europa”. Da França ao Reino Unido, da Finlândia à Polónia, Áustria, Alemanha, República Checa, Eslováquia, Hungria e Itália. Mas também na China e Índia, Rússia e Turquia, Brasil e Venezuela, além dos EUA.

“Creio que o nacionalismo que ‘voltou’ é muito mais parecido com o dos anos 30 do que com o dos anos 10 do século passado. Não acredito muito numa guerra europeia, ou num terceiro capítulo da Grande Guerra Civil Europeia”, diz. “O que creio ser possível são mais Ucrânias e Geórgias por essa Europa fora.”

“Uma III Guerra Mundial, comparável à primeira, seria uma guerra total entre Estados Unidos, China e Rússia”, diz ao Expresso o investigador Carlos Gaspar, do Instituto Português de Relações Internacionais. “A Europa, depois do seu suicídio nas duas grandes guerras do século XX, ficou reduzida a um estatuto menor e as suas principais potências — Reino Unido, França, Alemanha — são regionais, poderiam ficar à margem de uma nova guerra hegemónica.”

China em todo o lado

Com sofisticada tecnologia no ar em vez de homens enfiados em trincheiras, “uma III Guerra Mundial seria provavelmente dominada e decidida pelas armas nucleares”, acrescenta Gaspar.

Trump rasgou recentemente o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário — assinado entre EUA e URSS em 1987 —, numa medida interpretada como visando forçar a China a comprometer-se num potencial novo tratado. A China é um dos cinco membros do exclusivo clube de países com armas nucleares e tem planos de expansão nesse domínio. A 23 de junho passado, Pequim lançou um concurso para a construção de um quebra-gelos movido a energia nuclear.

Marques Guedes recorda que a China “tem uma presença cada vez maior em África — vide a sua enorme base naval em Djibouti, criada em agosto de 2017 — e penetração em redor, com navios de guerra nos dois lados do Atlântico Sul, no Golfo da Guiné e na África Ocidental, e no Mediterrâneo. E, imagine-se, no Mar Negro e no Ártico!”. O académico afasta o cenário de um conflito à escala da guerra de 1914-18. “Mas prevejo guerras assimétricas [envolvendo atores não-estatais e recorrendo a táticas terroristas, por exemplo] e novas guerras por procuração, com ‘estrangeiros próximos’ e ‘estrangeiros distantes’, para utilizar a terminologia russa, por trás delas”.

A lição de Mark Twain

Em conflitos na complexa região do Médio Oriente, por exemplo, os “próximos” são a Arábia Saudita, o Irão, a Turquia, o Qatar, os Emirados Árabes Unidos e, em parte, o Egito e Israel; os “distantes” são a Rússia, os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a União Europeia, a NATO e, com protagonismo crescente, a Alemanha e a Polónia.

Uma dessas guerras trava-se na Síria. Outras grassam no Iémen, Líbia, Mali, República Centro-Africana e no martirizado Afeganistão. Marques Guedes cita Mark Twain: “A História não se repete, mas rima muitas vezes”.

CONTEXTO

Pretexto
A 28 de junho de 1914, é assassinado em Sarajevo o herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, arquiduque Francisco Fernando

Alianças
De um lado, os Aliados (Tríplice Entente: França, Rússia, Reino Unido). Do outro, as potências centrais (Tríplice Aliança: Alemanha, Império Austro-Húngaro, Itália). Esta última só entra na guerra em 1915, mas na fação aliada. Ao lado das potências centrais ficou o Império Otomano

Baixas
Metade dos 20 milhões de mortos eram civis. Os Aliados perderam 5,7 milhões de soldados, as potências centrais quatro milhões

Portugueses
Combateram 100 mil do lado aliado; 7500 perderam a vida

(Imagem principal: Ilustração alusiva ao momento da assinatura do armistício, a 11 de novembro de 1918, numa carruagem-restaurante de um comboio estacionado na floresta de Compiègne, norte de França MAURICE PILLARD VERNEUIL / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 10 de novembro de 2018

Caravana da pobreza segue imparável rumo aos Estados Unidos

Milhares de migrantes oriundos da América Central seguem a pé e à boleia na direção dos Estados Unidos. Donald Trump está disposto a enviar 15 mil soldados para a fronteira para conter a “invasão estrangeira”. O Presidente transformou a caravana dos migrantes um dos principais assuntos da campanha para as eleições para o Congresso desta terça-feira e, num comício, elogiou o “lindo arame farpado” colocado junto à fronteira com o México

Fizeram-se à estrada a 12 de outubro para fugir à pobreza, ao desemprego, à violência dos gangues e à instabilidade política. Partiram da cidade de San Pedro Sula, nas Honduras, e pelo caminho foram ganhando a companhia de muitos outros que, como eles, aspiram por uma vida melhor. São, sobretudo, hondurenhos, mas também cidadãos da Guatemala, de El Salvador e da Nicarágua.

Há quase um mês que milhares de pessoas, divididas agora em três grandes grupos, seguem a pé e à boleia através da América Central com pouco mais do que a roupa do corpo. Na mente, têm um só objetivo: chegar aos Estados Unidos e aí começar uma nova vida.

No último domingo, o grupo que segue na dianteira entrou na Cidade do México, que dista cerca de 800 quilómetros do ponto de fronteira mais próximo do Texas. Para trás, outro grupo seguia ao longo da chamada “estrada da morte”, na direção da cidade de Cordoba, no estado de Veracruz.

O número total de migrantes que integra esta caravana é difícil de determinar, já que este longo cordão humano está constantemente a perder gente — que, vencida pelo cansaço, decide regressar a casa — e a ganhar novos participantes, convictos de que pouco ou nada têm a perder e que partir em caravana é mais seguro do que tentar imigrar com a “ajuda” de traficantes, a quem há que pagar dinheiro que não têm.

Caravana chega aos EUA… através da campanha eleitoral

Na sexta-feira passada, um grupo oriundo de El Salvador, com mais de 1000 pessoas, lançou-se às águas do Rio Suchiate, que serve de fronteira entre o México e a Guatemala. Inicialmente, tentaram fazer o percurso através de uma ponte, mas mudaram de planos quando as autoridades mexicanas exigiram passaportes e vistos e começaram a processar as entradas em grupos de 50 pessoas.

Por pressão norte-americana, o México tem tentado refrear o avanço da caravana, oferecendo documentos de identificação temporários e trabalho a quem pedir asilo nos estados de Chiapas e Oaxaca. No sábado, as autoridades mexicanas informaram que já tinham em mãos 2800 pedidos de asilo e que cerca de 1100 pessoas já tinham sido deportadas.

A maioria dos migrantes quer, porém, seguir caminho rumo a um confronto inevitável com um país sem portas abertas para os receber. “O México está a tentar. Eles estão a tentar mas nós somos diferentes, temos os nossos militares junto à fronteira”, congratulou-se Donald Trump, num comício em Montana. “E reparei em todo aquele lindo arame farpado que estava a ser colocado. O arame farpado, quando usado corretamente, pode ser uma vista bonita.”

Empenhado nas eleições desta terça-feira — nas quais os republicanos batalham por manter o controlo do Congresso —, o Presidente americano tornou o assunto um dos principais temas de campanha. Trump diz estar disposto a mobilizar para a fronteira até 15 mil soldados, para impedir a “invasão estrangeira ilegal” — numa operação que poderá custar 220 milhões de dólares (193 milhões de euros) —, ainda que uma avaliação do Pentágono tenha concluído que a caravana não constitui qualquer ameaça à segurança dos Estados Unidos.

FOTOGALERIA

Migrantes de El Salvador atravessam o Rio Suchiate, que serve de fronteira entre a Guatemala e o México CARLOS ALONZO / AFP / GETTY IMAGES
Uma família hondurenha escala uma floresta após ter atravessado o Rio Lempa, entre as Honduras e a Guatemala JORGE CABRERA / REUTERS
Caminhando pelo asfalto a superfície é menos acidentada, mas o trânsito torna-se um perigo CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Com muitos quilómetros nas pernas, boleias são sempre bem vindas, ainda que em condições desumanas PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
UESLEI MARCELINO / REUTERS
HANNAH MCKAY / REUTERS
Caminha-se dia e noite, sempre para norte, na direção dos Estados Unidos PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
Ao longo do caminho, os migrantes vão encontrando locais de descanso montados para os apoiar, como estas tendas no espaço da Feira Internacional Mesoamericana, em Tapachula, México PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
Pausa para comer e dormir, num pavilhão desportivo em Arriaga, México CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Migrantes dormem numa praça pública de Tecun Uman, Guatemala CARLOS GARCIA RAWLINS  REUTERS
Passeios da cidade mexicana de Mapastepec transformados em colchões PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
Ponte cheia de gente à espera de cruzar a fronteira entre a Guatemala e o México PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
Corpos exaustos, indiferentes ao desconforto provocado pelas pedras e pelos carris UESLEI MARCELINO / REUTERS
Um plástico protege da chuva, durante a pausa da noite PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
 
Fé e esperança num novo dia de marcha e numa nova vida nos Estados Unidos CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Enquanto isso, junto à fronteira com o México, militares norte-americanos desfiam rolos de “lindo arame farpado”, como disse Donald Trump DELCIA LOPEZ / REUTERS
O percurso não se faz sem obstáculos. Este portão na fronteira entre a Guatemala e o México veio abaixo PEDRO PARDO / AFP / GETTY IMAGES
A polícia guatemalteca ficou para trás. Segue-se “o confronto” com as forças mexicanas JOHN MOORE / GETTY IMAGES
JOHN MOORE / REUTERS
UESLEI MARCELINO / REUTERS
Agentes da Marinha mexicana patrulham o Rio Suchiate, na fronteira com a Guatemala EDGARD GARRIDO / REUTERS
O hondurenho Luis Acosta segura com toda a força a sua filha Angel, de cinco anos, enquanto atravessam o Rio Suchiate ADREES LATIF / REUTERS
Num ribeiro de Pijijiapan (México), a hondurenha Dari aproveita para dar um banho à sua pequena Rose ADREES LATIF / REUTERS
Durante uma paragem na cidade mexicana de Metapa, alguns migrantes refrescam-se e lavam as roupas CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Em muitas povoações, como em Huixtla (foto), no México, os locais preparam comida quente para os migrantes ADREES LATIF / REUTERS
Noutros locais, como no caso deste grupo de homens em Tecun Uman (Guatemala), a refeição é a possível CARLOS GARCIA RAWLINS / REUTERS
Um homem descasca um ananás, num acampamento improvisado em Isla, México HANNAH MCKAY / REUTERS
“Obrigado México por abrirem os vossos corações”, agradece este hondurenho ORLANDO SIERRA / AFP / GETTY IMAGES
Chegado ao México, o hondurenho Norlan, de 18 anos, estará convencido de que já falta pouco para viver o sonho americano EDGARD GARRIDO / REUTERS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de novembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Jerusalém, cidade disputada também nas urnas

As eleições municipais em Israel ditaram a necessidade de uma segunda volta na Cidade Santa, que se realiza dentro de duas semanas

As eleições municipais israelitas, que se realizaram na terça-feira, ditaram a necessidade de um “tira teimas” na Cidade Santa, já que nenhum candidato obteve os 40% necessários para evitar uma segunda volta.

A corrida trava-se entre um candidato conservador — Moshe Lion, de 57 anos, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — e um candidato secular — Ofer Berkovitch, de 35 anos. Este é fundador do movimento “Hitorerut in Jerusalem” (Acorda Jerusalém), que se apresenta como “o maior partido pluralista sionista de Jerusalém. Trabalhamos na cidade e no Governo para ajudar a população sionista de Jerusalém, ao secular à religiosa sionista, a prosperar”.

Com 96% dos votos contados, Lion — que contou com o apoio expresso dos partidos ultraortodoxos Shas e Degel HaTorah — tinha garantidos 33.3% (cerca de 80 mil votos). Berkovitch tinha recebido 28.8% (à volta de 70 mil).

Ambos voltam a disputar as preferências do eleitorado de Jerusalém a 13 de novembro. Berkovitch, que parte atrás, já pediu apoio aos candidatos derrotados na primeira volta. Entre eles está Ze’ev Elkin, o atual ministro dos Assuntos de Jerusalém que, apesar do apoio do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não foi além do terceiro lugar (19,8%). Durante a campanha, Elkin apresentou um plano de construção de um novo muro visando isolar todos os bairros árabes de Jerusalém Oriental, num novo município.

Em quarto lugar, ficou o candidato ultraortodoxo Yossi Deitch, com 17% dos votos.

Uma mulher em Haifa, pela primeira vez

Segundo números do Ministério do Interior, votaram nestas eleições 3.637.247 israelitas, o que corresponde a 55,1% do eleitorado. Esta percentagem representa uma subida de 10,5% em relação à taxa de afluência nas últimas municipais, em 2013.

Para este aumento não foi alheio o facto de, pela primeira vez no país, ter sido declarado dia de folga, uma medida tomada para combater a indiferença com que a maioria dos israelitas encarava estas eleições.

Ao nível das principais cidades, a capital Telavive manteve a confiança em Ron Huldai, “mayor” desde 1998. Já Haifa optou pela mudança e, pela primeira vez, elegeu uma mulher, a trabalhista Einat Kalisch Rotem, que derrotou Yona Yahav, que liderava a Câmara desde 2003.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de outubro de 2018. Pode ser consultado aqui

Bolsonaro não é Trump. É pior?

Elegem a mentira como arma política e valorizam mais a perceção que têm do mundo do que os factos. Donald Trump e Jair Bolsonaro parecem alunos da mesma escola. O Expresso ouviu três estudiosos da governação do norte-americano e confrontou-os com o fenómeno Bolsonaro. Há mais diferenças do que semelhanças, concordam. Mas as frases de ambos são parecidas

Jair Bolsonaro, o lambe-botas de Donald Trump CARLOS LATUFF

Exploração do ódio e de notícias falsas (“fake news”) para fins eleitorais, narrativa anti-media e anti-sistema, discurso intolerante, populista e demagógico. As semelhanças entre Donald Trump e Jair Bolsonaro são óbvias, mas há mais diferenças do que, à primeira vista, se pode pensar.

“Trump é um extremista sonso: insulta, depois diz que não insultou e culpa os media por terem deturpado o que disse de forma inequívoca”, explica Germano Almeida, autor do livro “Isto não é bem um Presidente dos EUA” (Prime Books), que chegará às bancas na segunda semana de novembro. “Bolsonaro é pior: mais gráfico na violência, mais assumido na rejeição do sistema e das regras democráticas, mais demagógico no populismo, ainda mais primário no discurso.”

Recentemente, numa entrevista à BBC Brasil, Steve Bannon, que liderou a campanha de Donald Trump e foi o grande mentor do discurso nacionalista do magnata, não poupou nos adjetivos a Bolsonaro: “líder”, “brilhante”, “sofisticado”. “Muito parecido” com Trump.

Durante meses, no Brasil, especulou-se sobre se Bannon iria integrar a equipa de Bolsonaro. Para esse ruído muito contribuiu um tweet de um dos filhos do ex-militar, após um encontro em Nova Iorque. “Foi um prazer conhecer Steve Bannon, estratega na campanha presidencial de Donald Trump. Tivemos uma ótima conversa e partilhamos a mesma visão do mundo. Ele afirmou-se um entusiasta da campanha de Bolsonaro e ficamos em contacto para unir esforços, especialmente contra o marxismo cultural.”

É o próprio Bolsonaro quem diz ser “uma espécie de discípulo de Donald Trump”, recorda Diana Soller, autora do livro “O método no caos” (Dom Quixote), juntamente com Tiago Moreira de Sá. “Ele é o primeiro a dizer que está a seguir as pisadas de Trump para conquistar a presidência do Brasil. Diz, inclusive, que está disposto a mudar profundamente a política externa brasileira no sentido de uma aliança com os Estados Unidos.”

Aproveitando momentos de fragilidade social nos respetivos países, Trump e Bolsonaro, dois estranhos à política — o segundo um deputado federal desde 1991 sem trabalho digno de nota —, lançaram-se numa escalada do poder, “dizendo aos respetivos povos que vão fazer as mudanças por que eles verdadeiramente anseiam”, diz Diana Soller. “No fundo, dizem às pessoas aquilo que elas querem ouvir”, independentemente da honestidade com que o fazem.

“Trump pintou os EUA muito piores do que, na realidade, eles são. A América não precisa de ser ‘grande outra vez’ porque nunca deixou de o ser. Bolsonaro só precisou de surfar a onda do medo e da raiva, porque, na verdade, a coisa no Brasil ‘está mesmo preta’”, acrescenta Germano Almeida. “Trump assusta porque é Presidente da maior potência do mundo. Mas o sucesso de Bolsonaro é ainda mais assustador e difícil de compreender.”

Eduardo Paz Ferreira, autor do livro “Os anos Trump — O mundo em transe” (Gradiva), recentemente editado, não se alarga nas parecenças entre o chefe de Estado norte-americano e o candidato da extrema-direita brasileira. “Muitas táticas eleitorais, das ‘fake news’ à manipulação das redes sociais, foram comuns, mas eu não levaria muito mais longe as semelhanças.”

E explica porquê: “O Brasil [uma democracia desde 1985] é um país castigado pela mais profunda miséria, onde os coronéis foram sempre o rosto da democracia ou então os generais nos tempos da ditadura. Nos Estados Unidos [uma democracia desde a Declaração da Independência, em 1776] há uma tradição democrática, que passa por um período especialmente mau, mas que é difícil admitir que possa ser totalmente extinta.”

A consolidação dos valores democráticos num e noutro país pesam no perfil dos dois líderes. “Trump, apesar de ser um conservador de uma espécie populista muito diferente que responde a um eleitorado que costumava ter pouca expressão, não deixa de ser um democrata”, constata Diana Soller. “Bolsonaro, por várias vezes, disse sentir uma grande nostalgia da ditadura militar. Tendo em conta a tradição da América Latina, não será surpreendente se Bolsonaro tentar transformar as instituições brasileiras de forma a ter cada vez mais poder. E isto Trump não tem tentado fazer.”

“A vida dos ditadores está muito facilitada”, conclui Eduardo Paz Ferreira. “Veja-se o exemplo de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e outros amigos do Presidente norte-americano”. O mais recente deles é o norte-coreano Kim Jong-un. Poderá Jair Bolsonaro ser o próximo?

Este domingo, Diogo Freitas do Amaral – fundador do CDS – classificou Jair Bolsonaro com “fascista”, numa entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, depois de questionado sobre o que está a passar no Brasil. “Acho que é altura sem excessivo alarmismo, sem excessiva precipitação, de começar a chamar os bois pelos nomes: isto é fascismo. Não lhe chamem populismo, que até pode parecer uma coisa simpática. É extremismo, sim. Extremismo de direita, sim. Logo, é fascismo. São autoritários, elogiam a violência, condenam os direitos das mulheres…” E alertou para os três fatores que podem contribuir para o regresso das ditaduras: debilidade dos governos democráticos, crise económica e medo do comunismo.

“Tive uma conversa muito boa com o novo Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, que ganhou a sua corrida com uma margem substancial. Concordamos que o Brasil e os Estados Unidos trabalharão proximamente juntos nas áreas do Comércio, Militar e todo o mais! Telefonema excelente, desejei-lhe parabéns!”

O QUE ELES DISSERAM DE…

Apesar das diferenças apontadas pelos especialistas, há frases dos dois candidatos que os aproximam nas opiniões e nas atitudes.

MULHERES

Trump — “Agarra-las pela vagina”, disse quando lhe perguntaram como gosta de lidar com mulheres bonitas.

Bolsonaro — “Não vou estuprar você porque você não merece”, afirmou na Câmara dos Deputados à ex-ministra Maria do Rosário.

IMIGRANTES

Trump — “Por que todas essas pessoas desses países merdosos vêm parar aqui?”

Bolsonaro — “A escória do mundo tá chegando aqui no nosso Brasil como se nós já não tivéssemos problemas demais para resolver.”

ARMAS

Trump — “Não quero armar todos os professores. Quem nunca pegou numa arma não o vai fazer. Podem ser 10 ou 20%.”

Bolsonaro — “Todo o vagabundo tá armado! Só falta o cidadão de bem!”

IMPRENSA

Trump  “Vocês são fake news!”, dirigindo-se a um repórter da CNN.

Bolsonaro  “A Folha de S. Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do Governo.”

Artigo publicado no Expresso Online, a 28 de outubro de 2018. Pode ser consultado aqui

Cortar com a Rússia para amarrar a China

Donald Trump denunciou mais um tratado, este sobre armas nucleares assinado com a União Soviética. O Presidente dos EUA está aberto à renegociação, mas quer a China dentro

Donald Trump e Vladimir Putin têm encontro marcado a 11 de novembro, em Paris. À margem das comemorações do 100º aniversário do fim da I Guerra Mundial, os Presidentes dos EUA e da Rússia irão abordar a última rutura decidida pelo primeiro, que alvejou o segundo como um míssil teleguiado: o rasgar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF, sigla inglesa), assinado por Ronald Reagan (EUA) e Mikhail Gorbatchov (URSS) na reta final da Guerra Fria.

“Não estou certa de que seja uma rutura. Trump quer negociar com a Rússia um novo acordo. Não devemos ver este rasgar de tratado como um fim em si, mas o princípio de outra coisa”, comenta ao Expresso a investigadora Diana Soller, do Instituto Português de Relações Internacionais. “O Tratado é muito menos abrangente do que possamos pensar, só contempla armas nucleares de alcance intermédio. Mas Trump conseguiu o que queria: dar um passo simbólico relativamente à Rússia numa tentativa de desfazer tratados que considera nocivos para os EUA.”

A desconfiança de Washington em relação ao incumprimento por parte de Moscovo não resulta de descobertas recentes. Em fevereiro, o documento “Nuclear Posture Review”, do Departamento de Defesa, já alertava para a “decisão da Rússia de violar o Tratado INF”, através da “produção, posse e teste de um míssil de cruzeiro lançado do solo” (ver infografia). Trump explodiu agora. Porquê?

Ameaças e incentivos

“Trump quer um novo tratado não só com a Rússia, mas que inclua a China”, que considera ser o principal rival dos EUA, descodifica Soller. Por um lado, o americano quer conter a Rússia do ponto de vista nuclear, por outro considera que não faz sentido, no sistema internacional de hoje, ter um tratado a dois quando o futuro é a três: EUA, Rússia e China são os atores do futuro.

Pequim reagiu através de Hua Chunying, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que defendeu que a retirada americana do INF “terá um efeito multilateral negativo”. Caberá a Trump “atrair a China com ameaças e incentivos”, diz a investigadora, para que Pequim saiba o que esperar se decidir ficar fora ou alinhar num novo tratado.

“As suspeitas levantadas por Trump sobre um alegado desrespeito de Moscovo não serão totalmente infundadas, mas o modo como o anúncio foi feito foi tudo menos tranquilizador”, diz ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Gorbatchov chamou-lhe ‘um erro que revela falta de sabedoria’. Mas depois do modo submisso e, para muitos, humilhante como Trump se apresentou ao lado de Putin em Helsínquia, esta demarcação terá sido estratégica.”

A 16 de julho, na capital finlandesa, a cimeira entre ambos causou desconforto nos EUA por Trump ter posto em causa a competência dos seus próprios serviços secretos na investigação à interferência russa nas eleições de 2016. Mas se dali Trump saiu diminuído, em Paris será ele a bater as cartas.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

TRUMP E A ARTE DE RASGAR TRATADOS

Para o 45º Presidente, os Estados Unidos andam a ser enganados há décadas. Acordos que não beneficiem o país são para romper

Donald Trump não vai a meio do mandato e já atirou para o lixo cinco tratados internacionais. “Ele não se revê na ordem liberal que promove grandes acordos e se funda em organizações multinacionais como a ONU e a NATO”, diz o analista Germano Almeida. “Vê as relações internacionais como um jogo de soma zero em que para os EUA saírem a ganhar outros têm de ficar a perder.”

O mote foi dado logo ao terceiro dia de presidência, 23 de janeiro de 2017, quando os EUA saíram da Parceria Transpacífica. O projeto seguiu sem os americanos, mas com 11 países a bordo. “Em vez de colocar os EUA como jogador crucial na região, abriu via verde para acelerar o crescimento da China”, comenta Almeida. “Trump teve vistas muito curtas”, complementa a investigadora Diana Soller. “Este era também um tratado de segurança que isolava a China.”

Mentalidade nova e coerente

Outro acordo rompido este ano foi o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, da era Bill Clinton. México e Canadá aceitaram uma nova versão, nascendo uma espécie de NAFTA 2.0. “Terá sido a jogada mais bem conseguida de Trump dentro do seu ‘mantra’ de que é preciso renegociar os ‘maus acordos’ feitos pelos antecessores democratas Obama e Clinton”, diz Almeida.

Obcecado por destruir o legado de Obama, Trump reverteu duas grandes conquistas do 44º Presidente. A 1 de julho de 2017, saiu do Acordo de Paris relativo às alterações climática. “Terá sido o gesto mais perturbador e potencialmente danoso para o prestígio da América no mundo”, diz o analista. A 8 de maio deste ano, retirou os EUA do acordo sobre o programa nuclear do Irão. “Foi o ato mais definidor desta Administração. A partir de agora, como acreditar naquilo em que os governos americanos assinam?”

Compreender Trump implica aceitar que na Casa Branca há hoje uma mentalidade assente em duas coerências. Soller descreve-as: “Uma: qualquer acordo que não esteja a beneficiar os EUA está sujeito a ser rasgado. Outra: a unidade mais importante da política internacional voltou a ser o Estado e não as organizações ou o multilateralismo”.

(Foto: Mikhail Gorbachov (à esquerda) e Ronald Reagan, chefes de Estado da União Soviética e dos Estados Unidos, assinam o Tratado INF, a 8 de dezembro de 1987, na East Room da Casa Branca, em Washington D.C. WHITE HOUSE PHOTO OFFICE)

Artigo publicado no Expresso, a 27 de outubro de 2018 e republicado parcialmente no “Expresso Online” no mesmo dia. Pode ser consultado aqui