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Um protetorado que custou sete anos de guerra

Avizinha-se o fim do conflito na Síria. Mas a presença militar da Rússia e do Irão está para durar

O fim da guerra na Síria está à distância de uma batalha. Idlib, uma província no noroeste, é o último quinhão de terra em posse de grupos rebeldes, alguns de orientação secular, a maioria islamitas. Por estes dias vive-se uma trégua na área, ditada por um acordo assinado a 17 de setembro entre a Rússia (o principal apoio do regime sírio) e a Turquia (o país vizinho mais exposto ao conflito).

O pacto prevê a criação de uma zona tampão de 15 a 20 quilómetros entre Lataquia e Alepo, províncias que ladeiam Idlib. Se tudo correr como planeado, essa zona desmilitarizada, desenhada para afastar forças governamentais e rebeldes, ficará estabelecida até à próxima segunda-feira.

Se, num primeiro momento, esta pausa nos combates teve o condão de conter uma ofensiva militar sírio-russa que parecia iminente sobre o último reduto rebelde, falta perceber se o silêncio das armas é o princípio do fim do conflito ou a calmaria que antecede a tempestade.

“Em Idlib alcançou-se uma trégua precária para evitar uma crise humanitária de consequências incalculáveis, já que nessa província vivem dois milhões e meio de pessoas”, comenta ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Alicante (Espanha). “Mas nas próximas semanas poderá desencadear-se uma ofensiva militar para tentar quebrar a resistência.” Em todo o caso, “parece evidente que se está a entrar na última fase do conflito sírio”.

Bashar al-Assad controla atualmente dois terços do território da Síria e governa três quartos da população. Além de Idlib, também a área a norte do rio Eufrates — cerca de um quarto do país — escapa ao seu controlo. A zona está em paz, mas nas mãos de forças curdas, as chamadas Unidades de Proteção Popular (YPG), que contam com o apoio dos Estados Unidos. Os norte-americanos têm ali pelo menos 2000 efetivos.

A incógnita curda

Terminada a guerra, o futuro desta região será uma grande incógnita. “As milícias curdas aproveitaram a luta contra o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) para estenderem a sua influência para lá das zonas de maioria curda”, recorda o académico espanhol. “Chegaram a controlar a cidade árabe de Raqqa [os curdos não são árabes], cujos arredores acumulam uma grande riqueza em hidrocarbonetos.” Raqqa foi, durante anos, a capital do ‘califado’ decretado pelo temido e impiedoso Daesh em vastas áreas da Síria e do Iraque.

À semelhança do que aconteceu no Iraque, onde o fim da era de Saddam Hussein significou para a minoria curda mais autonomia do que aquela que tinha conquistado após a Guerra do Golfo (1990-91), os curdos sírios vão querer transformar as conquistas da guerra em ganhos políticos.

“O Partido da União Democrática curdo [PYD] vai tentar aproveitar esta posição de força sobre o terreno para arrancar concessões ao regime e conseguir que este aceite o estabelecimento de um Estado federal, como aconteceu no Iraque”, diz Álvarez-Ossorio. “Julgo que o mais provável é que Assad e os curdos não se enfrentem diretamente e alcancem uma solução negociada que obrigue o regime a conceder ampla autonomia aos curdos”, prossegue o docente.

A evolução da questão curda fará com que a Turquia — que combate, dentro de portas, um projeto separatista curdo — continue a seguir a situação na Síria com rédea curta. Neste conflito, “a Turquia apostou no campo perdedor e dificilmente manterá o enclave que controla, juntamente com o Exército Livre Sírio, a norte de Alepo. A intervenção militar turca justificou-se pela necessidade de evitar que as milícias curdas, que Ancara acusa de darem apoio ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão [PKK, turco], controlassem a fronteira. Mal o regime sírio seja capaz de dominar a fronteira, a Turquia poderá retirar os efetivos mediante garantias de segurança”.

Mas se a presença turca na Síria tem os dias contados, a Rússia e o Irão estão no país para durar. “A sua saída colocaria Assad numa situação vulnerável”, prevê Álvarez-Ossorio, autor do livro “Siria — Revolución, sectarismo y yihad” (publicado em 2016 e não traduzido em português). Acresce que o exército sírio está esgotado, “numa situação de extrema debilidade, pelo que continuará a precisar, durante muito tempo, do apoio das milícias xiitas enviadas pelo Irão [o Hezbollah libanês e grupos iraquianos, afegãos e paquistaneses] e também da polícia militar russa”.

A sombra da Líbia

Esta necessidade de uma ajuda militar externa duradoura e, sobretudo, a proliferação de grupos armados que agem em obediência à agenda de quem os financia — dos Estados Unidos aos Países do Golfo — obriga a uma comparação com a Líbia, onde, após o desaparecimento de Muammar Kadhafi (em 2011, ano em que deflagrou a guerra síria), a lei que se impôs no país foi a das milícias. Esta semana Ghassan Salame, chefe da missão da ONU na Líbia (UNSMIL), disse que ainda há 200 mil milicianos em ação no país. “Recebem salário do Estado, mas só recebem ordens de senhores da guerra”, disse.

“São casos muito diferentes”, explica Álvarez-Ossorio. “Na Líbia não existe um Estado central capaz de impor a sua autoridade sobre a totalidade do território, que está em mãos de diferentes milícias que controlam os poços de petróleo, o comércio e as rotas migratórias. No caso da Síria, o regime desarmou todas as milícias rebeldes à medida que restabelecia a sua autoridade sobre as partes de território que escapou ao seu controlo durante o conflito.”

Descida aos infernos

A guerra que se aproxima do fim espalhou a morte e condenou milhões de sobreviventes a um êxodo desesperado, internamente e através da fronteira. Arrasou o país e descaracterizou-o: perseguida pelos grupos radicais, a minoria cristã, por exemplo, passou de 10% para 3% da população. Em termos políticos, tornou subserviente uma entidade que já foi o centro do mundo árabe. Entre os anos 661 e 750, Damasco foi a capital do califado omíada, o segundo de quatro califados islâmicos estabelecidos após a morte de Maomé, que ia da Península Ibérica ao Afeganistão.

“A Síria de Assad converteu-se num protetorado russo-iraniano”, conclui Ignacio Álvarez-Ossorio. “Além das milícias xiitas comandadas pelo Irão, a Rússia aproveitou a conjuntura para ampliar a sua base naval de Tartus e construir a base aérea de Al-Hamaymin, que controlará durante os próximos 49 anos.”

REPRIMIU E RESISTIU. SERÁ JULGADO?

Bashar al-Assad recorreu a métodos brutais para reprimir o povo. Rússia e China protegem-no da perseguição da justiça

Do rol dos países mais fortemente afetados pelo movimento de contestação popular conhecido como Primavera Árabe, a Síria foi o único a manter o líder no poder. Ben Ali (Tunísia) desertou, Hosni Mubarak (Egito) foi afastado, Muammar Kadhafi (Líbia) foi morto na rua e Ali Abdullah Saleh (Iémen) saiu pelo próprio pé. Na Síria, Bashar al-Assad escapou inclusive à fúria de Donald Trump que, segundo “Medo: Trump na Casa Branca”, de Bob Woodward (sai em novembro na Dom Quixote), terá defendido o seu assassínio, porventura para marcar a diferença em relação a Barack Obama, que poupou Assad apesar de este ter pisado a “linha vermelha” (o uso de armas químicas), indiciando assim que talvez fosse “um mal menor”.

“Durante todos estes anos de guerra, praticaram-se muitos crimes de guerra e crimes contra a Humanidade por parte dos vários atores: assassínios, deportações, torturas, violações, desaparições, bombardeamentos sobre civis, destruição de hospitais, utilização de armas químicas…”, recorda Ignacio Álvarez-Ossorio, da Universidade de Alicante. “Segundo diferentes estimativas, o regime sírio e seus aliados são responsáveis por 90% das vítimas civis, repartindo-se as restantes entre o Daesh e os grupos rebeldes.”

90% das vítimas civis da guerra da Síria são atribuídas às forças afetas ao regime de Bashar al-Assad e seus aliados. Aos jiadistas do Daesh e demais grupos rebeldes são imputadas as restantes

Para Assad — que castigou o seu povo sitiando povoações, cortando abastecimentos, recorrendo a uma estratégia de terra queimada nas zonas rebeldes e a armas devastadoras para reprimir o mínimo resquício de contestação, como as bombas de barril (compostas por fragmentos metálicos e explosivos TNT) —, foi crucial a entrada em cena da Rússia. Os caças russos começaram a bombardear a 30 de setembro de 2015, quando Damasco acumulava perdas significativas.

A proteção russa à Síria estende-se à ONU. “Em 2016, a Assembleia Geral aprovou a criação de um mecanismo internacional para julgar os responsáveis pelos crimes desde março de 2011”, recorda o professor. “Não avançou grande coisa por falta de colaboração das autoridades e pelas reticências colocadas por Rússia e China [com poder de veto no Conselho de Segurança], temendo que o precedente se voltasse contra elas próprias no futuro.”

Pária no Ocidente, Assad terá escancaradas as portas de Moscovo, Teerão e Pequim.

JOGO REGIONAL

IRÃO — A sobrevivência de Assad (alauita, xiita) é quase uma questão de segurança nacional. Como o Hezbollah no Líbano, Assad garante a extensão da influência iraniana na região

ARÁBIA SAUDITA — Fomentou o wahabismo (sunismo conservador) apoiando grupos rebeldes. Derrotar Assad seria ganhar terreno ao arquirrival xiita Irão

TURQUIA — Com 910 quilómetros de fronteira com a Síria, está exposta ao conflito. Quer evitar a autonomia curda

QATAR — Contribuiu para fortalecer a frente extremista ao financiar grupos salafitas, como o Exército do Islão

ISRAEL — Enfrentou diretamente a Síria pela última vez em 1973. As manobras do Hezbollah e do Irão junto à fronteira obrigam a um alerta permanente

(Imagem: NICOLAS RAYMOND / FLICKR) 

Artigo publicado no Expresso, a 13 de outubro de 2018 e republicado parcialmente no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui

Coreia do Norte terá entre 20 e 60 bombas nucleares

A estimativa foi avançada por um ministro sul-coreano, durante um debate parlamentar. Seul diz, porém, não reconhecer a Coreia do Norte como um Estado nuclear, pelo que o processo de desnuclearização da Península é para continuar

Pela primeira vez, a Coreia do Sul concretizou, em público, a possível dimensão do arsenal nuclear da Coreia do Norte. Na segunda-feira, durante um debate parlamentar, o ministro sul-coreano para a Unificação afirmou que Pyongyang possuirá entre 20 e 60 bombas.

Cho Myoung-gyon atribuiu a origem da informação aos serviços secretos da Coreia do Sul. A revelação poderá ter sido acidental, já que, esta terça-feira, Seul apressou-se a esclarecer que as palavras do ministro não significam que a Coreia do Sul reconheça e aceite a Coreia do Norte como um Estado nuclear.

A desnuclearização da Península Coreana tem sido o principal dossiê em cima da mesa de conversações entre as duas Coreias (que já realizaram três cimeiras presidenciais este ano) e entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos (que estão a preparar a segunda cimeira entre Kim Jong-un e Donald Trump).

EUA e Rússia têm mais de 1000

Se, ao longo dos anos, o arsenal nuclear norte-coreano tem sido alvo de grande secretismo, dado o isolamento do país, o mesmo se passa relativamente à quantidade de armas nucleares em posse das restantes potências nucleares, de que só existem estimativas.

Segundo a Federação dos Cientistas Americanos (FAS), numa informação atualizada em junho deste ano, os Estados Unidos terão até 1750 bombas e a Rússia até 1600. Segue-se, a grande distância, a França com um máximo de 300, a China com 280 e o Reino Unido com 280.

No capítulo das potências nucleares que não subscreveram o Tratado de Não Proliferação Nuclear (em vigor desde 1970), o Paquistão terá até 150 ogivas nucleares, a Índia 140 e Israel 80. Em relação à Coreia do Norte, a FAS atribui-lhe 15 bombas, aquém do número avançado pelo Governo sul-coreano.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de outubro de 2018. Pode ser consultado aqui

Fotogaleria. Pelas ruas de Pyongyang, a capital do país mais fechado à face da Terra

O desanuviamento na Península Coreana tem permitido visitas à Coreia do Norte por parte de repórteres estrangeiros e, consequentemente, uma “espreitadela” demorada sobre a capital do país. Tiradas durante o mês de setembro, estas 30 fotos ajudam a levantar o véu sobre uma das cidades mais desconhecidas do mundo

Num país fechado como a Coreia do Norte, onde só se entra a partir da China, percorrer as ruas da sua capital — ainda que apenas através de fotografias — não é um exercício frequentemente acessível. As imagens da cidade não abundam, muito menos aquelas que registam as rotinas dos seus habitantes.

A recente visita do Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, a Pyongyang — para a terceira cimeira intercoreana do ano com o homólogo norte-coreano — permitiu um olhar demorado sobre a cidade. Entre 18 e 20 de setembro, a cimeira entre Moon Jae-in e Kim Jong-un foi coberta por repórteres sul-coreanos de 15 órgãos de informação — jornalistas estrangeiros, mesmo os que trabalham a partir de Seul, ficaram de fora. Anteriormente, no início do mês, o Governo norte-coreano organizara uma visita para jornalistas estrangeiros, por ocasião do 70º aniversário da fundação do país.

Essas “espreitadelas” permitiram a captação de imagens “frescas” de Pyongyang, reveladoras de uma cidade tranquila, ordeira e limpa, com edifícios coloridos e sem congestionamentos de trânsito. Mostram também crianças sorridentes e adultos compenetrados na vida, como em qualquer parte do mundo. E também uma dinastia omnipresente: os Kim, que governam a Coreia do Norte há exatamente 70 anos.

Nas ruas, há retratos abundantes de Kim Il-sung (líder entre 1948 e 1994) e Kim Jong-il (1994-2011) — avô e pai do líder atual — que os norte-coreanos reverenciam com vénias. Já os turistas ocidentais — porque também os há em Pyongyang — não resistem às “selfies” naquele improvável destino de férias.

FOTOS EM FALTA

6. O Arco do Triunfo norte-coreano, comemorativo da resistência coreana ao Japão, entre 1925 e 1945 ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES – FALTA ESTA FOTO!!!

17. Aula de canto para futuras professoras, numa faculdade de Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS – FALTA ESTA FOTO!!!

Militar norte-coreano à saída do Museu de História Natural, em Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Vista sobre a capital norte-coreana, onde se estima que vivam cerca de 2,5 milhões de pessoas ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Trabalhadoras de uma fiação, em Pyongyang ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Carruagem do metro da capital norte-coreana Trabalhadoras de uma fiação, em Pyongyang ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Restaurante no centro de Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Polícia-sinaleiro norte-coreano. Há muitos em Pyongyang, apesar de o trânsito não ser intenso PYEONGYANG PRESS CORPS / GETTY IMAGES
Crianças patinam num parque da cidade ED JONES / AFP / GETTY IMAGES
Um baloiço com a forma de um míssil e aviões, num jardim de infância da capital da Coreia do Norte DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Pyongyang é banhada pelo rio Taedong ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Banda feminina anima o jantar a bordo de um restaurante flutuante, no rio Taedong ED JONES / AFP / GETTY IMAGES
Arranha-céus coloridos, em Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS
É na Praça Kim Il-sung que se realizam as vistosas e impressionantes paradas militares norte-coreanas PYEONGYANG PRESS CORPS / GETTY IMAGES
Uma norte-coreana produz sabonetes, numa fábrica de Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Numa fábrica de cosméticos, três mulheres produzem pincéis ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Empregadas de uma fábrica de seda gozam de um momento de descanso, numa piscina DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Alunas do ensino superior usam óculos de realidade virtual, durante uma aula DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Esta norte-corena trabalha como guarda à entrada de uma fábrica DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Hora de ponta na estação Puhung, no metro de Pyongyang ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Guarda na estação de Puhung ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Autocarro elétrico, numa rua da capital da Coreia do Norte ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
À espera do autocarro, numa paragem de Pyongyang PYEONGYANG PRESS CORPS / GETTY IMAGES
Na capital norte-coreana, a bicicleta é um meio de transporte popular ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Os retratos do avô e do pai do atual líder norte-coreano, Kim Jong-un, proliferam por toda a capital ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
Convidados de um casamento, com os noivos ao centro, curvam-se diante de duas estátuas em bronze de Kim Il-sung e Kim Jong-il DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Ao fundo, a Torre Juche, um dos monumentos icónicos de Pyongyang DANISH SIDDIQUI / REUTERS
Dois turistas tiram uma “selfie”, no miradouro da Torre Juche ALEXANDER DEMIANCHUK / TASS / GETTY IMAGES
A noite cai em Pyongyang, a Torre Juche ilumina-se e, junto ao rio, um homem navega pela internet norte-coreana DANISH SIDDIQUI / REUTERS
A 19 de setembro, muitos habitantes de Pyongyang pararam para fixar atenções em ecrãs que transmitiam notícias sobre a cimeira intercoreana que decorria na cidade. A reunificação é uma esperança permanente Kim WON JIN / AFP / GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Moon foi ao Norte, Kim irá ao Sul

Juntos pela terceira vez este ano, os líderes coreanos avançaram na desnuclearização e relançaram o diálogo com os EUA

Cerca de 80 milhões de coreanos — do Norte e do Sul, sem distinção — iniciam amanhã uma época festiva. Durante três dias, as famílias reúnem-se para celebrar o Chuseok, dia de ação de graças. Recuperam-se tradições gastronómicas e histórias antigas e, em especial, recordam-se os antepassados com saudade e respeito.

Na zona de Lisboa a comunidade coreana agendou esta comemoração para o próximo sábado, dia 29, com um piquenique, pelo meio-dia, no Parque Municipal do Cabeço de Montachique, em Loures. A viver em Portugal há mais de 30 anos, Byung Goo Kang, de 60, não faltará ao convívio. Além de celebrar a sua cultura, será um momento para partilhar com conterrâneos o que lhe vai na alma sobre as notícias que chegam da Península Coreana.

“Estou muito esperançado”, confidencia ao Expresso. “Esta cimeira presidencial entre as duas Coreias foi bastante diferente das anteriores, em 2000 e 2007. As partes esforçaram-se muito por criar e manter um ambiente de confiança e compromisso para que a paz chegue, por fim, à Península. Claro que na Coreia do Sul há partidos políticos que não estão de acordo com aquilo que o Governo diz ter alcançado. Pessoalmente, quero acreditar nos bons resultados.”

Kim Jong-un e Moon Jae-in, respetivamente líderes das Coreias do Norte e do Sul, reuniram-se esta semana, durante três dias, em Pyongyang, a capital norte-coreana. A terceira cimeira intercoreana do ano confirmou a vontade de um futuro unido e — ao serem acordadas novas medidas no sentido da desnuclearização da Península — contribuiu para aliviar a tensão que vinha minando a aproximação entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte.

DESNUCLEARIZAÇÃO: Medidas práticas, como exige Trump

Pela primeira vez, do diálogo intercoreano saíram passos concretos com vista à desnuclearização da Península. A Coreia do Norte comprometeu-se a encerrar, de forma permanente, o recinto de testes e a plataforma de lançamento de mísseis de Dongchang-ri, “sob a observação de peritos de países relevantes”, diz a Declaração de Pyongyang. Igualmente neutralizadas serão instalações nucleares em Yeongbyeon, se “os EUA tomarem medidas correspondentes de acordo com o espírito da declaração conjunta de 12 de junho”, assinada em Singapura por Kim Jong-un e Donald Trump. O documento não concretiza, mas sabe-se que, para a Coreia do Norte, é prioritário um tratado de paz que se sobreponha ao armistício assinado no fim da Guerra da Coreia (1950-53) e que garanta a segurança do país. “Concordamos em libertar a Península Coreana dos medos da guerra”, afirmou Moon Jae-in. “A Coreia sem nuclear não está longe.”

DESMILITARIZAÇÃO: Aliviar a tensão é a palavra de ordem

As Coreias partilham uma fronteira de quase 250 quilómetros, fortemente vigiada e militarizada. Num acordo complementar à Declaração de Pyongyang, assinado pelos ministros da Defesa, foram adotadas medidas para reduzir a tensão junto à fronteira e criar confiança entre os dois lados. Entre elas está a expansão da Zona Desmilitarizada dos atuais quatro para dez quilómetros de largura. Para prevenir incidentes aéreos, foi estabelecida uma zona de exclusão de 40 quilómetros de largura na zona ocidental da Península e 80 quilómetros a leste. Ficou decidido também o estabelecimento de uma zona-tampão marítima, para impedir confrontos navais, e ainda uma área de pesca conjunta. Os dois países decidiram parar com os exercícios militares perto da Linha de Demarcação Militar (fronteira efetiva) e retirar alguns postos de vigia fronteiriços. Estima-se que, desde a assinatura do Armistício de Panmunjom (1953), norte e sul-coreanos já se tenham envolvido em trocas de fogo 96 vezes. Dias antes da cimeira, Seul e Pyongyang lançaram outra ponte: acabaram com a comunicação por telefone e fax e abriram um escritório de ligação na cidade norte-coreana fronteiriça de Kaesong. Ali funcionários de Norte e Sul falam todos os dias, de olhos nos olhos.

COOPERAÇÃO: Pôr as famílias em contacto e organizar os Jogos Olímpicos

O drama das famílias separadas pela guerra não foi esquecido nesta cimeira. O Presidente sul-coreano é, ele próprio, filho de refugiados do Norte. As Coreias acordaram a abertura de uma “instalação permanente para encontros familiares” e a concretização de um sistema de comunicação através de vídeo para as famílias, impedidas de comunicar por meios próprios. Kim e Moon prometeram arregaçar as mangas para desenvolver ligações terrestres e ferroviárias até ao fim do ano, projetos industriais e turísticos e uma candidatura conjunta aos Jogos Olímpicos de 2032.

REUNIFICAÇÃO: Regresso a um passado com 5000 anos

A Declaração de Pyongyang refere uma única vez a palavra “reunificação”, mas não deixa margem para equívocos em relação ao que as duas Coreias pretendem: “Os desenvolvimentos em curso nas relações intercoreanas levarão à reunificação”, como é “aspiração e esperança de todos os coreanos”. Num discurso de sete minutos no Estádio 1º de Maio, perante 150 mil norte-coreanos, Moon abriu o coração e abordou o assunto: “Vivemos juntos durante 5000 anos e temos vivido separados durante apenas 70 anos. Peço a todos que acabem com essas hostilidades e deem um grande passo na direção da reunificação”, disse, emocionado, o sul-coreano, quarta-feira à noite, após assistir a um megaevento desportivo que envolveu mais de 100 mil participantes. “O Presidente Kim Jong-un e eu trabalharemos de mãos dadas para construir um novo país, com 80 milhões de pessoas na Coreia do Norte e do Sul. Avancemos juntos no sentido de uma nova era.” Moon foi ovacionado de pé. No mesmo dia, já Kim Jong-un anunciara que “em breve” visitará Seul, decisão tomada pelo próprio, que o homólogo sul-coreano encorajou. A confirmar-se, será a primeira visita de um líder da Coreia do Norte ao Sul.

WASHINGTON VOLTA A ABRIR PORTAS A PYONGYANG

Há apenas um ano, quando debutou na Assembleia Geral (AG) das Nações Unidas, Donald Trump ameaçou “destruir completamente a Coreia do Norte”. Uma guerra entre duas potências nucleares parecia iminente e a forma como o Presidente dos Estados Unidos desprezava Kim Jong-un — chamando-lhe “little rocket man” — não tornava previsível o encontro histórico entre ambos, meses depois, em Singapura. Na maratona de discursos que vai marcar o arranque da 73ª AG da ONU, que começa na próxima terça-feira, a intervenção de Trump será necessariamente diferente. “Recebemos notícias muito boas” das Coreias, reagiu o Presidente dos EUA, conhecida a Declaração de Pyongyang. “Reuniram-se e tivemos grandes respostas. Estamos a fazer avanços tremendos em relação à Coreia do Norte.” Em Nova Iorque, à margem da AG, a questão coreana merecerá importantes diligências diplomáticas: terça-feira, têm encontro marcado Trump e o sul-coreano Moon Jae-in; no dia seguinte o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, reúne-se com o seu homólogo norte-coreano, Ri Yong-ho. Se na frente intercoreana o processo de paz flui lento mas contínuo — com abraços cada vez mais fortes e sorrisos cada vez mais abertos entre Moon e Kim —, a presença dos EUA nesta negociação, motivada por razões históricas, pode pôr tudo em causa. Basta um tweet de Trump para deitar tudo por terra.

Artigo publicado no Expresso, a 22 de setembro de 2018

Cimeira de Pyongyang. Conversas coreanas para Trump ouvir

Os líderes das duas Coreias estão reunidos em Pyongyang para uma cimeira de três dias. Mais uma oportunidade para Kim Jong-un e Moon Jae-in tentarem desbravar caminho no sentido da desnuclearização da Península e recordarem ao mundo que a Coreia é uma só nação, dividida por dois sistemas políticos

Kim Jong-un e Moon Jae-in reuniram-se, esta terça-feira, pela terceira vez em quase cinco meses. Mas se nos dois breves encontros anteriores — a 27 de abril e a 26 de maio, na zona desmilitarizada entre as duas Coreias — bastou que os líderes norte e sul-coreanos apertassem a mão para que as cimeiras fossem um sucesso, desta vez os três dias reservados ao diálogo, em Pyongyang, indiciam que Kim e Moon têm sobre a mesa algo mais desafiador… e que precisam de mais tempo para tentar tirar do caminho obstáculos que estão a bloquear o processo de paz na Península da Coreia.

“Anteriormente, apenas o facto de termos um encontro entre os dois líderes coreanos significava um avanço político notável. Havia um valor simbólico que era fundamental para iniciar o aprofundamento das relações entre as duas Coreias”, diz ao Expresso Rui Faro Saraiva, professor de Ciência Política na Universidade de Hosei, em Tóquio (Japão). “Assegurada alguma confiança mútua, e depois do encontro entre Kim e o Presidente dos EUA [na Cimeira de Singapura, a 12 de junho], agora há espaço para uma reunião mais alargada.”

Espaço e urgência, já que apesar do diálogo fluir na frente intercoreana, o processo de aproximação entre Coreia do Norte e Estados Unidos marca passo. Esse é um dos dossiês que estão em discussão na Cimeira de Pyongyang, juntamente com a desnuclearização da Península e a cooperação Norte-Sul.

Quebrado o gelo após sete décadas de costas voltadas, EUA e Coreia do Norte têm, porém, expectativas diferentes em relação ao passo seguinte. Washington quer que Pyongyang aplique medidas concretas no sentido do desmantelamento do seu programa nuclear. Já a Coreia do Norte — para quem a implosão do sítio de testes nucleares de Punggye-ri, em maio, foi uma demonstração de boa fé — quer ver assinado um tratado de paz que substitua o armistício de 1953, que ponha um ponto final à Guerra da Coreia e afaste de vez da Península o fantasma do conflito.

A falta de entendimento, levou Trump a cancelar a viagem a Pyongyang do seu secretário de Estado, Mike Pompeo, prevista para finais de agosto. “A prioridade desta cimeira é perceber quais os passos específicos que devem ser dados para que se chegue a um terreno comum entre o Norte e os EUA”, disse Moon Jae-in, antes de partir para Pyongyang. “Temos de conciliar a exigência do Norte sobre o fim da relação hostil com os EUA e aquilo que os EUA podem oferecer em termos de garantias de segurança como condição para a desnuclearização.”

Moon, o mediador

Independentemente do que conseguir negociar com o homólogo norte-coreano, o Presidente da Coreia do Sul tem já um encontro apalavrado com Donald Trump, ainda este mês, à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, onde irá pô-lo ao corrente da margem para cedências de Kim Jong-un. “Nesta cimeira, Moon Jae-in funciona como uma espécie de mediador entre EUA e Coreia do Norte, particularmente no que toca ao tema da desnuclearização”, diz Rui Faro Saraiva. “Mas não podemos reduzir o seu papel a um mero interlocutor ou mediador. Os problemas que se discutam nesta cimeira afetam diretamente os coreanos do Norte e do Sul, que partilham a mesma língua, a mesma cultura e a mesma história até 1945. É bom não esquecer que a Coreia é uma nação dividida em dois sistemas políticos.”

Esta terça-feira, à chegada a Pyongyang, cerca das 9h50 da manhã (mais oito horas do que em Portugal Continental), Moon Jae-in tinha o seu homólogo à espera, na pista do Aeroporto Internacional de Sunan. Ultrapassados os cerimoniais militares, entraram num Mercedes preto e, com os corpos de fora do tejadilho, desfilaram por Pyongyang, saudados nas bermas por milhares de pessoas sorridentes, vestidas com trajes coloridos, acenando com bandeiras da Coreia do Norte e da Coreia Unificada. Pelas 3h45 da tarde, começaram as conversações formais, que continuarão na quarta-feira.

Olhos nos olhos, todos os dias

“As Coreias pretendem continuar a atenuar tensões militares e chegar a um acordo que estabeleça a confiança entre os dois Estados e previna confrontos a nível militar”, acrescenta o académico português. Nesse sentido, na sexta-feira passada, os dois países acabaram com a comunicação bilateral por telefone e fax e abriram um gabinete junto à fronteira, na cidade norte-coreana de Kaesong — em cujo complexo industrial os sul-coreanos já colaboram —, onde cerca de 20 funcionários de cada lado passarão a estar diariamente, olhos nos olhos, em constante comunicação.

“Para além da centralidade de questões militares, a dimensão económica é muito importante para Pyongyang”, recorda Rui Faro Saraiva, “por isso Moon Jae-in levou, na sua comitiva, executivos de conglomerados empresariais” — os chamados “chaebol”, um conjunto de negócios em torno de uma empresa-mãe, normalmente controlada por famílias. A presença, na Coreia do Norte, de gestores da Samsung, LG, Hyundai e do grupo SK, será do agrado de Kim Jong-un que suspira pelo fim das sanções ao seu país.

“A presença destes executivos é um gesto simbólico, uma vez que o alívio de sanções económicas internacionais, que é vital para o aprofundamento da cooperação económica entre as Coreias, depende da resolução ou do progresso da questão da desnuclearização da Península — e da ‘boa-vontade’ dos Estados Unidos. É um conjunto de promessas importantes para serem servidas à mesa das negociações onde o ‘prato principal’ é a desnuclearização e outras questões militares.”

Enquanto os dois líderes se empenhavam nas negociações políticas, as primeiras-damas — a norte-coreana Ri Sol-ju e a sul-coreana Kim Jung-sook — cumpriram um programa paralelo que as levou ao Hospital Infantil Okryu e ao Conservatório Kim Won Gyun, um lugar especial para ambas. No passado, Ri cantou, como solista, na Orquestra Unhasu e Kim estudou Canto e fez parte do Coro Metropolitano de Seul — experiências que lhes permitem perceber que, política à parte, norte e sul-coreanos podem cantar a mesma canção.

Artigo publicado no Expresso Online, a 18 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui