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As imagens da grande festa coreana em Pyongyang

O Presidente da Coreia do Sul foi recebido, esta terça-feira, em Pyongyang, pelo homólogo norte-coreano e milhares de pessoas nas ruas. Sobressaíram sorrisos, flores, vestes coloridas e… a bandeira da Coreia Unificada. A cimeira entre Moon Jae-in e Kim Jong-un decorre durante três dias, na capital da Coreia do Norte

Muita cor nas ruas da capital norte-coreana REUTERS
A bandeira da Coreia Unificada no Aeroporto Internacional de Sunan, onde aterrou o avião que transportou o líder sul-coreano REUTERS
Milhares de norte-coreanos vestidos para um dia especial GETTY IMAGES
Momento do brinde entre os dois Presidentes, durante o banquete REUTERS
Quilómetros de estrada, filas intermináveis de gente preparada para saudar o líder sul-coreano REUTERS
Os dois casais presidenciais, na tribuna do Grande Teatro de Pyongyang REUTERS
Norte-coreanos a perder de vista, entre arranha-céus em Pyongyang GETTY IMAGES
A bandeira da Coreia Unificada projetada durante a atuação da Orquestra Samjiyon, espetáculo a que assistiram os dois Presidentes REUTERS
Passeios cheios de pessoas para receber Moon Jae-in, na sua primeira visita à Coreia do Norte REUTERS
A azul, à direita, o mapa da Coreia Unificada, um sonho partilhado pelos dois lados da Península Coreana GETTY IMAGES

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 18 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Regresso de Obama à política é um presente envenenado

Protagonismo do ex-Presidente adia renovação do Partido Democrata e ajuda Trump

Retrato oficial de Barack Obama, no seu primeiro mandato PETE SOUZA / WIKIMEDIA COMMONS

Barack Obama está de volta aos palcos da política americana. Trata-se de uma boa notícia para quem aprecia os dotes de tribuno do ex-Presidente (2009-2017) e a sua personalidade carismática, mas não é necessariamente tão boa para… o seu próprio partido. “Há uma urgência entre os democratas de prepararem uma estratégia forte e vencedora para travar a reeleição de Donald Trump em 2020. E ainda não se percebe que estratégia é essa”, comenta ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Por muitas saudades que quem gostava de Obama sinta dele, não é positivo que esse sentimento se prolongue com o próprio no grande palco. É preciso que surjam novas vozes democratas. E sempre que Obama fala está a atrasar esse processo de renovação.”

O 44º Presidente dos EUA retomou a atividade política no início de agosto, dando apoio público às candidaturas de 81 democratas, de 13 estados, às eleições para o Congresso de 6 de novembro (ver caixa). “Confio que, juntos, possam fortalecer este país que amamos, recuperando oportunidades, consertando as nossas alianças e posicionando-nos no mundo, e preservando o nosso compromisso fundamental com a justiça, a responsabilidade e o estado de direito. Mas, primeiro, precisam dos nossos votos.” Está prevista uma segunda leva de apoios para mais tarde.

A reentrada foi confirmada sábado passado, com um discurso na Universidade de Illinois, onde Obama se referiu aos “tempos extraordinários” e “perigosos” que vivemos. “Isto não começou com Trump. Ele é um sintoma, não a causa. Ele está apenas a capitalizar os ressentimentos que os políticos têm atiçado durante anos”, disse. “Mas a boa notícia é que dentro de dois meses teremos a oportunidade — não a certeza, mas a oportunidade — de restaurar alguma aparência de sanidade na nossa política.”

Após quase 20 meses de Trump na Casa Branca, “Obama está preocupado”, continua Almeida, autor de dois livros sobre o ex-Presidente (“Histórias da Casa Branca”, 2010 e “Por Dentro da Reeleição”, 2013). “Foi um Presidente singular em muitas coisas — pela sua cor e juventude, pela sua origem — e conseguiu ganhar. E foi também dos poucos presidentes com uma preocupação em relação à História norte-americana, ao legado, preocupação por estudar os seus antecessores. Tem a noção da gravidade que representa o facto de lhe ter sucedido Donald Trump”, de perfil empresarial, nada político nem intelectual, que ainda em 2015 produzia e apresentava um reality-show (“The Apprentice”).

Obama falava, Trump adormeceu

“Esta intervenção de Obama não tem que ver com ambições pessoais de voltar à grande cena política”, continua Almeida. “Não há uma tradição, na política norte-americana, de um ex-Presidente voltar a um cargo. Há uma limitação que vem do tempo de Franklin D. Roosevelt [que foi eleito quatro vezes], segundo a qual ex-Presidentes que tenham feito dois mandatos não voltam sequer a tentar ser reeleitos. A ambição de Obama não é essa. Mas há uma clara leitura da parte dele de que estes estranhos tempos ‘trumpianos’ são tão excecionais que talvez o forcem a ter uma intervenção na sociedade civil e na vida política maiores do que é normal num ex-Presidente.”

Às palavras de Obama na Universidade de Illinois — onde, pela primeira vez desde que deixou a Casa Branca, se referiu explicitamente a Trump —, o atual Presidente dos Estados Unidos, cuja principal característica parece ser ‘destruir tudo o que Obama construiu’, reagiu a contento dos fãs: “Eu vi [o discurso], mas adormeci”, disse no Dakota do Sul, durante uma ação de campanha de recolha de fundos visando a sua reeleição, em 2020.

“Trump explora bem os sentimentos mais primários da sua base ao ridicularizar e atribuir a Obama uma suposta intelectualização desligada do mundo real”, comenta Germano Almeida, que está a ultimar um livro sobre Donald Trump. Na cabeça do magnata, o mundo real é o seu.

Candidato ‘fora da caixa’

Trump ainda não cumpriu meio mandato, mas já anunciou a candidatura a um segundo. No campo democrata, o rosto que lidera as preferências às presidenciais de 2020 é o de Bernie Sanders, senador do Vermont que perdeu as últimas primárias para Hillary Clinton. “Os democratas têm um problema geracional”, defende Almeida. “Nas sondagens sobre quem irá ser o candidato democrata, a média de idades é assustadora, acima dos 70 anos. Em 2020, Sanders terá 79 anos. Joe Biden, que foi vice-presidente de Obama e surge em segundo lugar, terá 77. Em alguns estudos, Hillary Clinton aparece com algumas condições para ser candidata, mas por tudo o que aconteceu não vai tentar uma terceira vez”, palpita.

“Os democratas estão a ser vítimas do êxito dos anos Obama e do facto de Hillary ter sido herdeira dos anos Obama e Clinton. Duas grandes estrelas dominaram o partido nas últimas décadas: Obama e os Clintons. No dia 8 de novembro de 2016, ambas terminaram a sua carreira política: Obama por limitação de mandatos e Hillary pela derrota. E assim os democratas atrasaram a sua renovação.”

Escolher um candidato pode implicar, para os democratas, pensar ‘fora da caixa’. “Talvez não serem tão convencionais e clássicos. Os republicanos abriram essa caixa de Pandora ao nomearem alguém como Trump, sem passado político e que dizia mal dos políticos”, recorda o analista. No universo democrata, potenciais candidatos com um perfil mais empresarial são Howard Schultz, jubilado em junho da liderança da Starbucks, e o multimilionário Michael Bloomberg, autarca de Nova Iorque entre 2002 e 2013 (fez dois mandatos como republicano e o terceiro como independente).

O jornal britânico “The Times” escreveu esta semana que o antigo mayor quer concorrer pelo Partido Democrata (a que já pertenceu no passado) em 2020, quando tiver 78 anos. Há três meses, aplicou 80 milhões de dólares (69 milhões de euros) da sua fortuna pessoal na campanha de novembro, para tentar inverter a maioria republicana no Congresso — etapa crucial da estratégia democrata para recuperar a Casa Branca.

CONGRESSO: ‘A BATALHA DAS MIDTERMS’

A 6 de novembro, os americanos vão a votos nas midterms, assim chamadas por serem eleições para o Congresso a meio do mandato do Presidente. Em causa está a eleição dos 435 assentos da Câmara dos Representantes (câmara baixa) e de um terço do Senado (33 de 100 lugares da câmara alta). Hoje os republicanos são maioritários: 236 contra 193 democratas na Câmara (há seis lugares vagos) e 51 contra 49 no Senado. Na Câmara os democratas têm muito a ganhar, por serem minoritários, mas no Senado têm muito a perder: dos 33 lugares que vão a jogo, 25 estão ocupados por democratas e só oito por republicanos, havendo ainda eleições especiais para substituir um democrata e um republicano que se demitiram. Para os democratas capitalizarem no Senado têm de defender os seus 25 e conquistar alguns aos republicanos.

Artigo publicado no Expresso, a 15 de setembro de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no mesmo dia. Pode ser consultado aqui

Tiro de partida para mais um aperto de mão entre Trump e Kim

Enquanto o processo de desnuclearização da Península Coreana marca passo, Kim Jong-un quer voltar a encontrar-se com Donald Trump. Os Estados Unidos estão recetivos

A Casa Branca confirmou a receção de uma carta “muito calorosa” e “muito positiva” de Kim Jong-un solicitando um segundo encontro com Donald Trump. Em conferência de imprensa, a porta-voz Sarah Sanders afirmou, esta segunda-feira, que os EUA estão “abertos” a um novo encontro entre os líderes norte-coreano e norte-americano, que já começou a ser preparado.

Kim e Trump encontraram-se, pela primeira vez, a 12 de junho, em Singapura — foi o primeiro encontro de sempre entre líderes dos dois países. Dessa cimeira, saiu um compromisso no sentido da “completa desnuclearização” da Península Coreana, cuja concretização caiu num impasse. A 24 de agosto, Donald Trump cancelou uma deslocação do seu secretário de Estado norte-americano a Pyongyang alegando falta de progressos.

“Pedi ao secretário de Estado Mike Pompeo para não ir à Coreia do Norte, nesta altura, porque sinto que não estamos a fazer progressos suficientes em relação à desnuclearização da Península Coreana”, justificou Trump no Twitter.

A porta-voz Sarah Sanders deitou água na fervura recordando recentes sinais de boa fé dados pela Coreia do Norte: o fim dos testes com armas nucleares e mísseis balísticos, a libertação de três prisioneiros norte-americanos, a devolução dos restos mortais de soldados dos EUA que tombaram durante a Guerra da Coreia e o facto de, na parada militar de domingo passado — alusiva ao 70.º aniversário da Coreia do Norte —, Pyongyang não ter feito desfilar mísseis balísticos com capacidade para atingir os EUA.

Segundo a publicação sul-coreana “The Korea Times”, o que está a emperrar a relação é o facto de Washington exigir “um inventário total do arsenal nuclear de Pyongyang”, enquanto a Coreia do Norte insiste prioritariamente “na declaração formal do fim da Guerra da Coreia de 1950-53, que terminou com um armistício”.

Mas enquanto a relação EUA-Coreia do Norte marca passo, na frente intercoreana o diálogo intensifica-se. Entre 18 e 20 de setembro, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, estará em Pyongyang para mais uma cimeira com o homólogo norte-coreano. Será a terceira em cinco meses: a primeira realizou-se a 27 de abril e a segunda a 26 de maio, ambas na aldeia fronteiriça de Panmunjom, na zona desnuclearizada entre as duas Coreias.

(Kim Jong-un e Donald Trump cumprimentam-se aquando da cimeira entre Coreia do Norte e EUA, em Singapura, a 12 de junho de 2018 Shealah Craighead / Wikimedia Commons)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Eurovisão 2019: um festival desafinado

O anúncio da cidade que vai acolher o próximo Festival da Canção está enguiçado. A Eurovisão quer garantias por parte do Governo de Israel de que as opiniões políticas dos visitantes não serão obstáculo à obtenção de visto e que será possível trabalhar durante o “shabat”, o dia de descanso dos judeus

A vitória de Netta Barzilai no Festival Eurovisão realizado em Lisboa pode vir a revelar-se um presente envenenado para Israel.

A União Europeia de Radiodifusão (UER) — a entidade responsável pelo evento — previu, para este mês de setembro, o anúncio da cidade que vai acolher o evento, mas por enquanto o que soa desde os bastidores desse concurso musical é uma grande desafinação.

Uma delegação da UER esteve recentemente em Israel, onde visitou três cidades potencialmente anfitriãs (Telavive, Jerusalém e Eilat, tendo esta última ficado fora da corrida). Para além da avaliação dos locais, os responsáveis da Eurovisão entregaram ao Governo de Benjamin Netanyahu uma lista com exigências para a realização do evento em solo israelita.

Uma delas passa pela concessão de vistos independentemente das opiniões políticas dos visitantes, o que colide com legislação aprovada em 2017 que possibilita que pessoas que apoiem boicotes ou sanções a Israel sejam impedidas de entrar no país. Este ano, ao abrigo dessa lei, pelo menos 250 pessoas não passaram do Aeroporto Internacional Ben Gurion (Telavive), do posto fronteiriço de Taba (entre o Egito e a cidade de Eilat) ou da ponte Allenby, entre a Jordânia e o território palestiniano da Cisjordânia.

Outras condições requeridas pela UER passam pela liberdade de circulação no país sem limitações em virtude de opiniões políticas, religião ou orientação sexual; liberdade de imprensa e de expressão para todos os participantes e delegações; e — porventura a exigência mais sensível — o levantamento da restrição religiosa que impede o trabalho aos sábados (“shabat”), o dia de descanso dos judeus.

“Isto é uma desgraça completa”, reagiu, na terça-feira, o ministro da Segurança Pública, Gilad Erdan. “Não entendo como eles tiveram a ousadia de fazer este tipo de exigências. Espero que o primeiro-ministro não aceite estas condições ultrajantes.”

Qualquer uma das exigências feitas pela Eurovisão desafia limites do Estado judeu. Mas para a UER, “para se fazer o Festival Eurovisão da Canção tem de ser possível trabalhar-se as 24 horas do dia, os sete dias da semana, todas as semanas – não apenas na do evento e dos ensaios, mas nas semanas anteriores, quando se constrói o cenário, quando se prepara o local do espetáculo”, explicou, em entrevista à televisão pública israelita KAN, o norueguês Jon Ola Sand, supervisor executivo da organização. “Lamento ter de o dizer, mas não há forma de realizar a Eurovisão sem se poder trabalhar também aos sábados. É absolutamente impossível, isso é fundamental para nós!”

Para os judeus, o período que decorre entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado é dedicado a Deus, pelo que as obrigações profissionais devem ser evitadas. Os ultraortodoxos levam o preceito ao limite, recusando-se a conduzir um carro ou a enviar sms. Em novembro, o rabino Yaakov Litzman demitiu-se do cargo de ministro da Saúde, em protesto contra umas obras de reparação da linha ferroviária realizadas a um sábado. (A coligação governamental integra três partidos religiosos: Shas, Judaísmo da Tora Unida e Casa Judaica.)

Ativistas de mangas arregaçadas

Das três vezes que Israel venceu a Eurovisão — em 1978, 1979 e 1998 —, Jerusalém acolheu o espetáculo por duas vezes.

A exceção aconteceu após o triunfo em 1979: Israel fez saber que não conseguia financiar o festival dois anos seguidos e o evento realizou-se em Haia (Holanda).

A possibilidade de a Cidade Santa voltar a receber o Eurofestival, em maio do próximo ano, deixa antever uma grande politização do evento, em virtude do polémico reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel por parte dos Estados Unidos. Se Jerusalém for a escolha da Eurovisão, será pois de prever uma maior contestação ao evento do que se for Telavive — ou não…

“Independentemente de onde se realizar, se a Eurovisão de 2019 for organizada pelo regime de apartheid de Israel, tem de ser boicotada para impedir cumplicidade e negócios com este regime e para evitar manchar a marca Eurovisão, de forma irreversível, com o registo chocante de Israel ao nível dos direitos humanos”, diz ao Expresso o palestiniano Omar Barghouti, cofundador do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS). “O ponto-chave é que o Governo de extrema-direita de Israel está a tentar usar a Eurovisão descaradamente como parte da sua estratégia oficial [de promoção] da marca Israel. Netanyahu considerou Barzilai ‘a melhor embaixadora de Israel’. Está desesperadamente a tentar projetar a ‘cara linda de Israel’ para branquear e desviar as atenções de décadas de ocupação e de crimes de guerra contra os palestinianos.”

“Só no dia 14 de maio”, recorda Barghouti, vencedor do Prémio Gandhi da Paz de 2017 (concedido anualmente pelo Governo da Índia), “apenas dois dias após a vitória na Eurovisão, Israel massacrou 62 palestinianos em Gaza, incluindo seis crianças. Nessa mesma tarde, Netta Barzilai atuou num concerto comemorativo [da vitória] em Telavive, organizado pelo presidente da Câmara Municipal que afirmou: ‘Temos uma razão para estarmos felizes’.”

Nascido no Qatar em 1964, Barghouti diz que o movimento BDS já está a preparar uma campanha de boicote à Eurovisão em Israel. Vários apelos nesse sentido já soaram, entretanto. “Acho que a Irlanda não devia enviar um representante”, defendeu Micheal Mac Donncha, presidente da Câmara Municipal de Dublin. “A terrível provação do povo palestiniano tem de ganhar destaque.” Na Islândia, mais de 26.700 pessoas — 8% da população total (330.000 habitantes) — já assinaram uma petição no mesmo sentido.

Em maio passado, a participação de Israel no evento de Lisboa já tinha sido objeto de uma batalha fora de palco. O movimento BDS saiu a público com a campanha “Zero pontos para a canção do apartheid israelita”, que teve o resultado inverso ao pretendido, já que “Toy” foi a mais votada.

Barghouti desvenda a razão do fracasso: “O Governo israelita e organizações lobistas investiram muitos recursos humanos e fundos recordes em publicidade numa campanha de propaganda em toda a Europa para ganhar votos para a sua canção”, diz. “A bem oleada propaganda israelita recorreu ao ‘pinkwashing’ — o uso cínico dos direitos dos LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transexuais] para encobrir a ocupação e o apartheid de Israel — e apelou aos movimentos feministas ao mesmo tempo que deixou de enfatizar Israel na mensagem.”

Uma das plataformas ao serviço dessa estratégia foi a aplicação Grindr, “a maior app mundial para pessoas gay, bi, trans e queer”, criada pelo israelita Joel Simkhai.

Após o apuramento de “Toy” para a final, mal abriam a aplicação, os utilizadores começaram a ser surpreendidos com uma fotografia de Netta e o apelo ao voto na canção nº 22.

(Foto: De troféu na mão, Netta Barzilai atua no Altice Arena, em Lisboa, a 12 de maio de 2018, como a grande vencedora da 63ª edição do Festival Eurovisão da Canção ANDRES PUTTING / EUROVISION)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 7 de setembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Cinco casos em que a moral levou a melhor sobre a ambição

Assumiram cargos políticos convictos de que podiam contribuir para um mundo à imagem dos seus valores. Mas, de forma mais ou menos sonora, acabaram por dar um murro na mesa alegando razões de consciência. Cinco casos em que a moral levou a melhor sobre a ambição

Zeid Ra’ad al Hussein termina, esta sexta-feira, o seu mandato como alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Será substituído no cargo pela ex-Presidente chilena Michelle Bachelet. O fim da missão foi anunciado em dezembro passado, num email enviado aos seus colaboradores: “Após refletir, decidi não tentar um segundo mandato de quatro anos. Fazê-lo, no atual contexto geopolítico, poderia envolver ter de dobrar um joelho em súplica; silenciar uma declaração de defesa de direitos; diminuir a independência e integridade da minha voz.”

A continuidade no cargo estaria apenas dependente da confiança do secretário-geral da ONU, António Guterres. Mas Hussein, dono de um estilo assertivo em matéria de defesa de direitos humanos — foi capacete azul nos Balcãs, na década de 1990, e ajudou a pôr de pé o Tribunal Penal Internacional —, sentiu que tinha em mãos uma tarefa cada vez mais impossível. Sobretudo, numa era de “políticos demagogos e fantasistas”, como qualificou o líder da extrema-direita holandesa, Geert Wilders, e… Donald Trump.

Na semana anterior ao envio do email aos seus colaboradores, a voz de Hussein ecoou, oficialmente, por três vezes em tom condenatório: após as Forças de Defesa de Israel abaterem um palestiniano numa cadeira de rodas na Faixa de Gaza; após o anúncio de um projeto de construção de uma estrada no Peru que obrigaria à deslocalização de povoações indígenas; e após o regime de Myanmar (antiga Birmânia) impedir a entrada no país de investigadores na área dos direitos humanos, com a perseguição à minoria rohingya em curso.

O jordano levou o seu cargo até ao fim, mas terminou-o emocionalmente desgastado, farto de ser ator num filme negro no qual a nação mais poderosa à face da Terra não era mais um aliado e abdicara de promover valores na sua relação com os outros. Em junho passado, os EUA saíram do Conselho de Direitos Humanos da ONU solidários com Israel.

Três dias antes de Hussein deixar funções, um sentimento de frustração semelhante esteve na origem da demissão de Nicolas Hulot do cargo de ministro do Ambiente de França. Em direto, num programa de rádio, o respeitado ecologista — que foi conselheiro de três Presidentes (Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande) antes de Emmanuel Macron o convencer a assumir um cargo de governação — afirmou-se frustrado com a ineficácia do poder e os “pequenos passos” do seu Goveno em matéria ambiental. “Não quero continuar a mentir a mim próprio. Não quero dar a ilusão de que a minha presença no Governo significa que estamos a avançar”, disse. Esteve no cargo quinze meses.

“As razões morais que levam a uma demissão decorrem de três dimensões morais da integridade”, defende Patrick Dobel, professor na Evans School of Public Policy and Governance, da Universidade de Washington, no estudo “A ética da demissão”. “Os detentores de cargos prometem cumprir a sua obrigação. Isso pressupõe que têm aptidão para fazer e cumprir promessas, competência para realizar as tarefas a que se propõem e capacidade para serem eficazes”, concretiza. “O fracasso em cada uma dessas áreas gera fortes razões morais que leva o indivíduo à renúncia.”

Se Zeid Ra’ad al Hussein perdeu o entusiasmo — e com isso a energia necessária ao desempenho de um cargo pesado — e se Nicolas Hulot se sentiu um homem cada vez mais só dentro do executivo francês, outros casos há em que o choque entre convicções pessoais e opções políticas levam inevitavelmente à rutura.

A 17 de março de 2003, quando o início da guerra no Iraque estava iminente — e o Reino Unido de Tony Blair se perfilava como o braço direito dos EUA de George W. Bush nessa ofensiva —, Robin Cook demitiu-se do Governo em protesto contra essa intervenção militar. “Não posso aceitar a responsabilidade coletiva pela decisão de comprometer a Grã-Bretanha agora numa ação militar no Iraque sem acordo internacional ou apoio interno.” À época, Cook era ministro dos Assuntos Parlamentares e líder da Câmara dos Comuns. Entre 1997 e 2001, fora ministro dos Negócios Estrangeiros.

Mais recentemente, outra baixa em Downing Street tinha por base razões de consciência. Perante o processo negocial com a União Europeia relativo à saída do Reino Unido (‘Brexit’), o então chefe da diplomacia Boris Johnson assumiu a sua discordância em relação ao plano traçado pela chefe de governo, Theresa May: “O governo tem agora uma música para cantar. O problema é que eu ensaiei a letra durante todo o fim de semana e percebi que me engasgo. Temos de ter responsabilidade coletiva. Uma vez que eu, em consciência, não posso defender estas propostas, infelizmente concluí que tenho de ir.”

Mais longínquo na História, o exemplo de George Schultz também fez doutrina. O secretário de Estado norte-americano de Ronald Reagan não hesitou em apresentar a sua demissão ao Presidente quando, na década de 1980, os EUA começaram a facilitar o tráfico de armas para o Irão — sujeito a um embargo internacional — para assegurar a libertação de reféns e financiar os Contras da Nicarágua (caso Irão-Contras). Para Schultz, essa política incentivava à continuidade de raptos e fazia perigar o fim da Guerra Fria com a União Soviética, que se aproximava.

Crítico do seu próprio governo, foi acusado de deslealdade e apresentou a sua demissão, mas Reagan não a aceitou. “A minha credibilidade junto do Presidente apenas sairia reforçada se ele tivesse soubesse que eu era o tipo de Washington mais fácil de ele se livrar.” A carta de renúncia continuou numa gaveta da Casa Branca e Schultz ficou liberto para trabalhar no sentido de uma mudança de política — e com a sua integridade intacta.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 30 de agosto de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui