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Talibãs iniciam a “ofensiva da Primavera”

Passado o rigor do inverno, os talibãs prometem mais um “verão quente” no Afeganistão. A ofensiva da primavera começou esta terça-feira, às cinco da manhã

É um ritual que se tem repetido nos últimos 15 anos no Afeganistão. Num email enviado a vários órgãos de informação, os talibãs anunciaram, esta terça-feira, a intensificação dos combates após a pausa de inverno. A “ofensiva da primavera” começou às cinco da manhã locais (mais três horas e meia do que em Portugal continental) e passará por ataques em grande escala, apoiados por ataques suicidas e assassínios de comandantes inimigos em centros urbanos.

A campanha — designada “Operação Omari” em homenagem a Mullah Omar, o fundador do movimento que morreu há três anos e cuja morte os “estudantes” encobriram durante dois anos — empregará “todos os meios à nossa disposição para atolar o inimigo numa guerra de desgaste que diminuirá a moral dos invasores estrangeiros e das suas milícias armadas internas”.

A declaração de guerra talibã surge três dias após uma visita não anunciada do secretário de Estado norte-americano ao Afeganistão. John Kerry reafirmou o apoio dos EUA ao Governo de unidade nacional e apelou ao Presidente Ashraf Ghani e ao chefe do Executivo Abdullah Abdullah que coloquem de lado as rivalidades e trabalhem em conjunto.

Sem ministro da defesa há dois anos

Quase dois anos após as disputadas eleições presidenciais, de que resultou uma espécie de poder partilhado entre os dois principais candidatos — solução mediada pelos EUA —, Ashraf e Abdullah ainda não chegaram a acordo em relação ao nome para ministro da Defesa, por exemplo.

Os talibãs têm-se aproveitado das fragilidades políticas do país. Segundo a NATO, controlam 6% do território e ameaçam um terço.

Na segunda-feira, em Jalalabad (leste), um talibã suicida fez-se explodir numa moto, matando pelo menos 12 recrutas do exército que seguiam num autocarro. Horas antes, num ataque semelhante em Cabul, morreram duas pessoas.

A rebelião talibã intensificou-se após a retirada das tropas de combate internacionais, no final de 2014, que expôs a falta de preparação das forças de segurança afegãs, que passaram a evidenciar elevadas baixas e altas taxas de deserção. Até ao final deste ano, os EUA querem reduzir o seu contingente de 9800 para 5500 militares.

Daesh atua silenciosamente

Em 2015, já sob a liderança de Mullah Akhtar Mansur, os talibãs reconquistaram, durante 15 dias, a cidade de Kunduz (norte), naquela que foi o maior feito militar desde o fim do regime talibã, em 2001.

Na segunda-feira, a CNN noticiou que a estratégica província de Helmand (sul), “pela qual milhares de soldados da NATO morreram a lutar, está mais próxima do que nunca de cair para os talibãs”.

A luta talibã tem-se radicalizado graças também à crescente presença de militantes afetos ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh) no Afeganistão. “Ele existe, floresceu e está a expandir-se. Atua silenciosamente e reune força para ações decisivas”, afirmou, no início de abril, Zamir Kabulov, enviado presidencial da Rússia para o Afeganistão, em entrevista ao jornal “Izvestiya”. Para este responsável russo, o Daesh quer usar o país como “trampolim para uma expansão mais ampla”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 12 de abril de 2016. Pode ser consultado aqui

EUA admitem “erro humano” no ataque a hospital dos Médicos sem Fronteiras

Uma investigação militar concluiu que as forças norte-americanas no Afeganistão demoraram 17 minutos a reagir ao alerta dos Médicos sem Fronteiras, quando o seu hospital de Kunduz estava a ser alvejado por um AC-130 americano, a 3 de outubro passado. Um “acidente trágico e evitável”, admitiu o comandante das forças norte-americanas

Os Estados Unidos admitiram que o bombardeamento aéreo de 3 de outubro ao hospital de Kunduz, no norte do Afeganistão, resultou de “erro humano”. O ataque provocou 30 mortos, entre os quais 13 funcionários dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), organização que geria aquela unidade de saúde.

“Às 2h20 um responsável das forças de operações especiais na [base aérea] de Bagram recebeu um telefonema dos MSF avisando que as suas instalações estavam a ser atacadas. O comando central e o comando das operações especiais dos EUA demoraram até às 2h37 para perceber o erro fatal. Nessa altura o [avião de combate] AC-130 já tinha parado de disparar. O ataque demorou cerca de 29 minutos”, explicou o general John Francis Campbell, comandante das forças dos EUA no Afeganistão, numa conferência de imprensa em Cabul, esta quarta-feira.

Kunduz, a capital da província com o mesmo nome, no norte do país, tinha sido tomada pelos talibãs dias antes. Segundo o general Campbell, a equipa a bordo do AC-130 julgou estar a disparar sobre um outro edifício identificado como uma estrutura usada pelos talibãs.

Os sistemas de identificação de alvos do aparelho falharam na disponibilização de informação precisa, bem como o sistema eletrónico e de comunicações a bordo, incluindo uma emissão de vídeo que, em circunstâncias normais, envia imagens, em tempo real, para altos comandantes.

Os MSF reagiram pela voz do diretor geral da delegação da organização em Bruxelas, Christopher Stokes. “A versão dos acontecimentos dos EUA deixa os MSF com mais perguntas do que respostas. É chocante que um ataque possa ser levado a cabo sem que as forças norte-americanas tenham olhos sobre o alvo nem acesso a uma lista de alvos a não atacar, e tenham sistemas de comunicações deficientes”, acusou.

“O assustador catálogo de erros revela a negligência grosseira por parte das forças norte-americanas bem como violações às regras da guerra”, acrescentou Stokes.

Os MSF apelaram a uma “investigação independente e imparcial” ao ataque. Segundo o diário “The New York Times”, vários militares foram suspensos de funções finalizada a investigação.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de novembro de 2015. Pode ser consultado aqui

Mullah Omar “aprova” conversações de paz

O líder dos talibãs apoiou, numa mensagem divulgada esta quarta-feira, as conversações de paz entre os talibãs e o Governo de Cabul. Mas a crescente presença de extremistas do autodenominado Estado Islâmico no país está a originar divisões no seio do “movimento dos estudantes”

O líder dos talibãs afegãos considerou, esta quarta-feira, “legítimas” as conversações de paz em curso no Afeganistão que visam pôr um ponto final à guerra que grassa no país há mais de 13 anos.

Mullah Omar aludiu ao processo de paz durante a tradicional mensagem anual que antecede o Eid al-Fitr, a festa que assinala o fim do Ramadão. “Se olharmos para as nossas leis religiosas, descobrimos que reuniões e até interações pacíficas com os nossos inimigos não são proibidas”, escreveu o líder dos talibãs numa declaração publicada no sítio oficial dos talibãs.

Vários encontros informais têm-se sucedido nos últimos meses entre quadros talibãs e representantes do Estado afegão. Na semana passada, uma reunião na cidade paquistanesa de Murree, a norte de Islamabade, foi considerada pelo jornal paquistanês “Dawn” um “significativo passo em frente”.

Pela primeira vez, talibãs e representantes do Governo de Cabul estiveram oficialmente frente a frente. Estados Unidos e China foram observadores no encontro. As partes concordaram voltar a encontrar-se nas próximas semanas.

“O objetivo por detrás dos nossos esforços políticos é acabar com a ocupação”, escreveu Mullah Omar.

Emergência do Estado Islâmico

Porém, a predisposição da liderança talibã para o diálogo não é consensual no seio do “movimento dos estudantes”.

Muitos militantes continuam a defender que não deve haver conversações até que todas as forças estrangeiras sejam expulsas do território afegão. As tropas da NATO terminaram as suas ações de combate em dezembro passado, mas até finais de 2016 um pequeno contingente internacional continuará no país em ações de formação às tropas afegãs.

A divisão no seio dos talibãs, entre defensores e opositores às conversações de paz, agravou-se com a emergência no Afeganistão de um ramo do autodenominado Estado Islâmico (Daesh), que tem originado deserções no seio dos talibãs. ainda segundo o “Dawn”, posições do grupo extremista já começaram a ser bombardeadas por drones (aviões não tripulados) norte-americanos.

Sem aparecer em público há vários anos, Mullah Omar vê cada vez mais a sua liderança contestada. Com frequência, surgem rumores acerca da sua morte, em virtude de problemas de saúde.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de julho de 2015. Pode ser consultado aqui

Tropas americanas não retiram para já

O Presidente afegão pediu e Barack Obama acedeu. Cerca de 10 mil militares norte-americanos continuarão no Afeganistão até ao fim de 2016

De visita aos Estados Unidos, o Presidente afegão, Ashraf Ghani, ouviu o Presidente Barack Obama voltar atrás na promessa de que retiraria o contingente norte-americano do Afeganistão até ao fim do seu mandato.

Em vez de reduzir o número de militares dos atuais 9800 para 5500 até ao final deste ano, como previsto, e finalizar a retirada em 2016, a Casa Branca concordou em atrasar o processo. 

Entre as razões para esse compromisso estão deficiências na atuação das forças de segurança afegãs, pesadas baixas entre militares e polícias, a fragilidade do Governo de Ashraf Ghani e também receios de que combatentes do autodenominado Estado Islâmico possam ganhar posições no interior do Afeganistão.

Para além dos 9800 militares norte-americanos, há ainda cerca de 3000 soldados da NATO no Afeganistão. As forças internacionais não estão envolvidas em operações de combate, mas são cruciais para as operações com drones (aviões não tripulados), nas áreas onde se concentram forças talibãs.  

Talibãs dos dois lados

Na terça-feira, um ataque com um drone norte-americano matou nove combatentes islamitas paquistaneses na província afegã de Nangarhar (leste), junto à fronteira com o Paquistão.

Cinco pertenciam ao grupo Lashkar-e-Islam, sedeado na área tribal de Khyber, e quatro eram comandantes do Tehrik-i-Taliban Pakistan, ou seja, os talibãs paquistaneses. No início de março, as duas fações anunciaram uma aliança.

Nascidos em 2007 com o objetivo de fazerem a jihad contra o Governo central do Paquistão, os talibãs paquistaneses, aos poucos, têm estendido a sua ação ao vizinho Afeganistão. Paralelamente aos talibãs, também a Rede Haqqani, sedeada no Paquistão, tem visado o Governo de Cabul e as tropas estrangeiras no Afeganistão.

Afeganistão e Paquistão acusam-se mutuamente de darem guarida a forças islamitas com o objetivo de desestabilizar o vizinho.

Porém, esta tradicional relação hostil entre Cabul e Islamabade vive uma fase de desanuviamento desde a eleição de Ashraf Ghani para a presidência do Afeganistão, em setembro de 2014.

Em finais do ano passado, o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, declarou o seu apoio aos esforços do Presidente Ghani para sentar à mesa das negociações os talibãs afegãos.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de março de 2015. Pode ser consultado aqui

Talibãs dizem (e mostram) que não querem os americanos no país

Talibãs atacaram em Cabul, um dia depois de Afeganistão e EUA terem assinado o pacto que regula a presença militar americana após a saída das tropas da NATO

Dois bombistas suicidas fizeram-se explodir em Cabul, esta quarta-feira, atingindo dois autocarros que transportavam tropas afegãs. Morreram sete pessoas e 21 ficaram feridas. Os ataques tiveram o cunho — e a expressa reivindicação — dos talibãs.

Seriam mais dois atentados a somar a tantos outros que atingem o Afeganistão a um ritmo quase diário não fosse terem acontecido no dia seguinte à assinatura do acordo de segurança entre o Afeganistão e os Estados Unidos, que regula a presença militar americana no território após 1 de janeiro de 2015.

“Não só rejeitamos este documento americano como o consideramos inválido e não-vinculativo para todos os afegãos”, reagiu o Emirado Islâmico, ou seja, os talibãs afegãos, num comunicado colocado no seu site.

“Também dizemos à América e aos seus lacaios que continuaremos a nossa guerra santa e a nossa luta pela liberdade até que o nosso país seja libertado das garras dos selvagens americanos e que seja restaurado um governo islamita forte.”

Novo Presidente marca pontos
O acordo assinado terça-feira permite às forças norte-americanas continuarem em território afegão além da data prevista para a retirada. As tropas da ISAF (missão da NATO no Afeganistão) têm previsto o regresso a casa no final de 2014.

Cerca de 9800 militares norte-americanos continuarão no país após 1 de janeiro de 2015. O número será cortado para metade no fim de 2015 e reduzido gradualmente até ao fim de 2016.

O acordo foi assinado pelo embaixador dos EUA no Afeganistão, James Cunningham, e pelo conselheiro afegão para a Segurança Nacional, Mohammad Hanif Atmar, numa cerimónia que decorreu no palácio presidencial. 

Presente esteve também o novo Presidente afegão, Ashraf Ghani Ahmadzai, que tomou posse na segunda-feira. O seu antecessor, Hamid Karzai, recusou assinar este pacto de segurança com os Estados Unidos. Ao aceitá-lo, o novo Presidente recupera a degradada relação entre Washington e Cabul.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 1 de outubro de 2014. Pode ser consultado aqui