Arquivo da Categoria: Afeganistão

Favorito nas presidenciais escapa a atentado

Abdullah Abdullah sobreviveu a uma dupla explosão, em Cabul. ‘Modus operandi’ do ataque aponta para os talibãs. Morreram pelo menos quatro civis

O candidato favorito às eleições presidenciais no Afeganistão sofreu, esta sexta-feira, uma tentativa de atentado, da qual saiu ileso. Abdullah Abdullah terminara uma ação de campanha, em Cabul, quando a sua caravana sofreu o impacto de duas explosões. 

Segundo o porta-voz do ministério do Interior, o cortejo foi atingido por um bombista suicida e, num segundo momento, por uma bomba colocada à margem da estrada, na área de Kote Sangi, perto do Hotal Ariana. Morreram pelo menos quatro civis.

Abdullah surgiu, de imediato, na televisão dizendo que estava bem mas que guarda-costas seus tinham ficado feridos.

O ataque não foi imediatamente reivindicado, mas o modus operandi aponta para os talibãs, que lutam para derrubar o Governo apoiado pelo ocidente e que, há menos de um mês, iniciaram a sua tradicional “ofensiva da Primavera” (operação Khyber).

A segunda volta das eleições presidenciais no Afeganistão realiza-se a 14 de junho. Abdullah Abdullah, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, enfrentará Ashraf Ghani Ahmadzai, um ex-ministro das Finanças que trabalhou para o Banco Mundial.

Na sua conta no Twitter, Ahmadzai condenou o ataque ao seu adversário. “Isto é a ação dos inimigos do Afeganistão para perturbar o processo democrático no país.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Novo Presidente só após a segunda volta

Os afegãos vão novamente às urnas a 14 de junho para decidir quem sucederá a Hamid Karzai. O próximo Presidente irá liderar a retirada das tropas internacionais do país

As eleições presidenciais no Afeganistão realizaram-se há mais de um mês (5 de abril), mas só hoje foram conhecidos os resultados. 

Abdullah Abdullah, um olftalmologista que foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2001 e 2005, foi o candidato mais votado com 45%. Ficou a 5% e mais um voto de arrumar a questão à primeira.

A Comissão Eleitoral Independente não perdeu tempo e agendou a segunda volta para 14 de junho. Abdullah Abdullah terá como adversário Ashraf Ghani Ahmadzai, um ex-ministro das Finanças que trabalhou para o Banco Mundial, e que se ficou pelos 31,6%.

Votaram um total de 7.018.849 eleitores, 36% deles mulheres. Abdullah obteve 2.973.706 sufrágios e Ahmadzai menos cerca de 900 mil.

Abdullah parte para a segunda volta como um vencedor anunciado. Para além da vantagem conquistada na primeira volta, ele recebeu, no domingo passado, um apoio importante. Zalmay Rassoul, que ficou em terceiro lugar (11,4%) anunciou que irá votar nele.

Filho de pai pashtune e de mãe tadjique, Abdullah é conotado sobretudo com a comunidade tadjique (a segunda mais numerosa entre os afegãos). Para tal contribui o facto de ter sido membro da Aliança do Norte (que combateu soviéticos e talibãs) e um braço direito de Ahmad Shah Massud, o carismático comandante tadjique.

O apoio de Rassoul, que é pashtune, garante a Abdullah votos entre a etnia maioritária no Afeganistão e da qual também é oriundo o candidato Ahmadzai. 

Quem quer que seja o vencedor, irá suceder a Hamid Karzai, impedido por lei de se candidatar a um terceiro mandato. O novo Presidente irá liderar a retirada das tropas internacionais do território — após 13 anos de guerra — prevista para o fim deste ano.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de maio de 2014. Pode ser consultado aqui

Guia de perguntas e respostas para perceber as eleições

Os afegãos escolhem este sábado um novo presidente. Saiba quem são os candidatos, porque há receios de fraude e porque estas eleições podem ser históricas para as mulheres

Para que órgãos votam  os afegãos?

Cerca de 12 milhões de eleitores escolhem um novo presidente. Hamid Karzai, o atual chefe de Estado, está impedido por lei de se recandidatar a um terceiro mandato. Esta é a primeira transferência de poder democrática da história do Afeganistão. Os afegãos votam também para 34 conselhos provinciais.  Em todo o país, há cerca de 28.500 assembleias de voto. A comissão eleitoral independente determinou que o número máximo de eleitores por assembleia é de 600. Cerca de 3000 burros foram utilizados como meio de transporte de urnas e boletins de voto para as regiões mais remotas e inacessíveis.

Quem são os candidatos à presidência?

Onze afegãos formalizaram a sua candidatura, mas três desistiram durante a campanha, pelo que apenas oito vão a votos. Nos boletins de voto, surgem porém os onze nomes e fotografias. Junto a cada identificação aparece também um símbolo que identifica a candidatura e que serve para orientar os analfabetos. Há símbolos para vários gostos e a apelar a várias sensibilidades: um livro, um candeeiro, uma espiga, um aparelho de rádio, um bulldozer…

PERFIS DOS CANDIDATOS 

Por que razão todos os candidatos são de etnia pashtune?

A maioria dos 30 milhões de afegãos é de etnia pashtune – estima-se que 42%. A segunda comunidade mais numerosa corresponde aos tadjiques (27%) e o terceiro lugar é disputado por hazaras e uzebeques (9%). Cada candidato tem de nomear dois nomes para os cargos de primeiro e segundo vice-presidente. Normalmente, estas escolhas são táticas, aproveitadas pelos candidatos para sugerirem personalidades oriundas de outros grupos étnicos ou de regiões eleitoralmente relevantes.

Quando serão divulgados os resultados?

Segundo a Comissão Eleitoral, os resultados preliminares das presidenciais são conhecidos a 24 de abril. Os resultados definitivos são anunciados apenas a 14 de maio. No caso de nenhum dos candidatos vencer com maioria absoluta dos votos, há uma segunda volta, que já está marcada para 28 de maio.

Porque há receios de fraude eleitoral? 

Antes de cada ato eleitoral no Afeganistão, decorre um processo de registo visando novos eleitores, cidadãos que perderam o cartão de voto, afegãos que regressaram ao país e cidadãos que mudaram de área de residência. Estima-se que presentemente circulem no país cerca de 18 milhões de cartões de voto, um número bastante superior aos 12 milhões de eleitores. Entre 7 e 27 de abril, os candidatos podem apresentar queixas relativas a eventuais irregularidades cometidas durante o escrutínio.

As afegãs têm direito a votar?

No Afeganistão, o direito ao voto é universal para os cidadãos chegados aos 18 anos. Formalmente, a candidatura de uma mulher à presidência é possível, mas esbarra nas reservas sócio-culturais que subsistem no país. A burca, como símbolo da submissão feminina, é uma das imagens de marca do Afeganistão, mas há afegãs no Parlamento e mesmo com a patente de general. Porém, nestas eleições pode fazer-se história. Um dos candidatos favoritos, Zalmai Rassul, nomeou uma mulher para segundo vice-presidente. Habiba Sarabi, de etnia hazara, foi governadora da província de Bamiyan. Foi, aliás, a primeira mulher governadora no país.

Quais os principais desafios do novo presidente?

O desafio mais urgente é a assinatura do acordo bilateral de segurança com os Estados Unidos. As tropas de combate norte-americanas estão de regresso a casa a 31 de dezembro de 2014, pelo que qualquer presença norte-americana no Afeganistão de aí em diante terá de ser regulada através de um novo acordo. Uma segunda questão prende-se com o diálogo com os talibãs (de etnia pashtune, como a maioria dos afegãos), sem os quais é impossível pensar num país estável. A possibilidade dos talibãs voltarem ao poder em Cabul é, porventura, a grande ironia deste conflito, desencadeado pelos Estados Unidos após o 11 de setembro e visando a deposição do regime talibã. Um terceiro desafio é o combate à corrupção, um problema endémico no país. Segundo o último relatório da organização Transparência Internacional, só a Coreia do Norte e a Somália têm pior registo do que o Afeganistão.

Portugal tem militares no Afeganistão?

Atualmente, há um contingente português em Cabul, composto por 128 militares (homens e mulheres) oriundos dos três ramos das Forças Armadas. Estão integrados na Força Internacional de Assistência para a Segurança (ISAF), a missão da NATO no Afeganistão. Os militares portugueses não participam em operações de combate. A sua missão passa por aconselhar, assistir e assessorar unidades das forças de segurança e ainda formar formadores. Portugal mandou tropas para o Afeganistão pela primeira vez em 2002 e, desde então, tem sido um contribuinte regular.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 5 de abril de 2014. Pode ser consultado aqui

Com armas e com coração

Dez anos após o início da guerra, os afegãos preparam-se para receber da NATO a responsabilidade pela segurança nalgumas regiões. Em Cabul, os militares portugueses empenham-se em formar tropas competentes. Reportagem no Afeganistão

Para a maioria dos recrutas, analfabetos, a vida militar é a única forma de receberem salário MARGARIDA MOTA

No Aeroporto Internacional de Cabul, o dia de trabalho dos militares portugueses começa com uma espécie de ritual. No open space que funciona como escritório para os dez efetivos da Força Aérea, há também secretárias e computadores para três afegãos, com carreira militar feita durante a ocupação soviética. Chegam todos por volta das sete da manhã e perdem-se nos bons-dias. Um dos afegãos aproxima-se do tenente-coronel José Martins, que comanda a equipa portuguesa, e abraça-o demoradamente. O português fecha os olhos, num misto de satisfação e de… sufoco. À volta, todos sorriem. “É assim todos os dias”, explica o português. “Abraça-me com tanta força que quase me quebra os ossos.”

O abraço do veterano afegão ao comandante Martins é um espetáculo diário de que os militares portugueses não se privam. Prova o calor humano existente e é um fator de motivação para melhor cumprirem as tarefas, a 6800 quilómetros de casa.

Na parede por trás da secretária do tenente-coronel Martins, uma bandeira portuguesa e outra afegã, lado a lado, revelam a ausência de protagonismos dentro da sala. Todos ouvem e fazem-se ouvir com o mesmo objetivo. “Akimi, queres um cigarrinho?”, diz um militar em português. O jovem tradutor afegão sorri. Não fala português, mas percebeu o que lhe disseram. À semelhança do abraço ao comandante Martins, aquele cigarrinho já é uma rotina. “Nunca tinha visto um português”, diz Akimi. “Nunca esquecerei este trabalho, o melhor da minha vida. Muito obrigada pelo que fazem pelo meu povo!”

Nesta “ilha portuguesa” elaboram-se projetos de literacia visando a formação de sargentos afegãos. Mal comparado, explica o comandante Martins, “tem um bocadinho a ver com as nossas Novas Oportunidades”. Quase dez anos após o início da guerra no Afeganistão — a retaliação dos EUA ao 11 de setembro —, a prioridade da NATO passa por dotar o país de forças de segurança autossuficientes (240 mil soldados e 160 mil polícias, até 2014) que permitam aos afegãos serem donos do seu futuro e aos 130 mil soldados estrangeiros saírem do atoleiro afegão.

Respondendo ao apelo feito na Cimeira da NATO de Lisboa, em novembro de 2010, Portugal contribui com equipas de instrutores, oriundas dos três ramos das Forças Armadas e da GNR e circunscritas às províncias de Wardak (GNR) e Cabul. A capital integra a primeira fase do processo de transição — a transferência gradual da responsabilidade pela segurança da NATO para as autoridades afegãs —, com início previsto para julho.

“Preparamos estes homens para serem pequenos comandantes”, explica o capitão Fausto Campos, instrutor no Centro de Treino Militar de Cabul. Dentro de uma sala, uma turma com cerca de 200 recrutas — a maioria analfabetos — assiste a uma aula de primeiros socorros. O formador afegão pergunta quem sabe fazer ligaduras. Erguem-se dezenas de braços. Aleatoriamente, é escolhido um aluno para exemplificar.

O português observa o que se passa e escuta Maiwand, que traduz para inglês o que é dito na sala. Terminada a demonstração em língua pashtune, tudo se repete no idioma dari — uma pequena amostra das consequências do xadrez étnico que é o país. “Temos de ir ao ritmo deles”, comenta. “Não é possível mudar tudo de um momento para o outro.”

Pashtunes, tadjiques, hazaras, turcomenos… as novas forças afegãs refletem o xadrez étnico do país MARGARIDA MOTA

Yahya Momeni é um tenente-coronel afegão cujo mentor é o capitão português. Comanda duas companhias de 200 homens e tem de ser capaz de, em quatro semanas, garantir a formação de mais duas fornadas de homens. Na sombra, a intervenção do capitão Campos passa por coisas aparentemente tão insignificantes como sugerir a colocação de um estrado na sala para que os recrutas das últimas filas vejam melhor os formadores. O Afeganistão tem um passado guerreiro, mas nove anos de ocupação soviética e mais seis de governação talibã destruíram a instituição militar.

A escassos dias de terminar a sua missão, o capitão Campos circula pelo centro de treino acompanhado pelo tenente Vale e pelo primeiro-tenente Roldão, que fazem parte da equipa que o vai render. “Veja estas fotos”, diz Roldão, entusiasmado. “Estivemos a tomar o pequeno-almoço com os afegãos.” Nas fotos, os militares portugueses surgem sorridentes junto dos afegãos, tomando chá e mordiscando guloseimas. Sentem-se aceites por aqueles com quem vão trabalhar nos próximos seis meses. “Eles gostam de nós. Sentem que estamos aqui para os ajudar.”

Os portugueses sabem que, no Afeganistão, a comunicação é a chave. E comunicar pode passar, por exemplo… por deixar crescer a barba. Vale e Roldão têm a barba “de três dias” e assim tencionam continuar. Perceberam que há hábitos que ajudam a criar pontes. A maioria dos afegãos usa barba e não fica indiferente a um estrangeiro barbudo. Em circunstâncias normais, o capitão Artur Mesquita não é favorável a que os militares usem barba. “É mau para a disciplina, para a higiene…” Mas reconhece que num teatro de operações como este a barba pode ser uma arma. “É um tópico de conversa com os afegãos. É um bom pretexto para voltar e perguntar: ‘Então, está bem assim?’”

Aprender dari na Internet

Artur Mesquita trabalha nas operações psicológicas. Circula à civil entre a população — identificando-se como jornalista da rádio Bayan (Conversa) ou da revista “Sada-e-Azadi” (Voz da Liberdade), dois órgãos de informação da ISAF (a força da NATO no Afeganistão) —, tentando captar sensibilidades para melhor ajustar a mensagem das tropas internacionais sem ferir suscetibilidades.

Em três meses, compilou uma rede de 100 contactos, aos quais recorre para testar qualquer outdoor, anúncio de televisão ou de rádio — publicitando uma nova obra ou aconselhando a população a lavar as mãos com sabão —, antes de o produto ir para o ar. “No início, a população aceitava melhor a presença da ISAF. Queria ver-se livre dos talibãs. Com as baixas civis e a descredibilização do governo, essa aceitação está a diminuir.”

De forma autodidata, Mesquita procurou um curso de dari na Internet e aprendeu os níveis de conversação mínimos que facilitam a abordagem nas ruas. “É importante as pessoas confiarem em mim. A cultura afegã é muito voltada para o relacionamento”, diz. E essa confiança cria-se nos mais pequenos detalhes. Quando se cruza com um pedinte, o capitão Mesquita distribui afeganis generosamente. “Os afegãos dão sempre esmola”, justifica. Um bom muçulmano não faria melhor.

Homem de fé e participante no coro que anima a missa aos domingos à tarde na capela de Camp Warehouse — onde estão aquartelados os 230 efetivos do contingente português —, o sargento-chefe José Botelho aproxima-se. “Quer ouvir-me a rezar em dari?” Concentra-se e começa a debitar uma ladainha. Para ter a certeza de que não se enganou, repete-a. “Os afegãos ensinaram-me esta oração e apreciam quando a digo. Mas não gostam que ‘dê espetáculo’ para um grupo grande. Então, vou junto deles individualmente e mostro-lhes que já sei rezar em dari. Todos os dias querem ensinar-me palavras novas. Já lhes disse: ‘Tem de ser uma de cada vez!’”

Botelho deve ser bom aluno. Para além da oração, conta até dez sem gaguejar e não hesita nas saudações quotidianas. A maioria dos afegãos não fala inglês, pelo que o trabalho diário não se faz sem a intermediação de tradutores, por norma jovens com estudos universitários. Mas, sempre que podem, os portugueses expressam-se nas línguas locais: “salam” (olá), “tashakor” (obrigado), “khoda hafiz” (até logo) saem com naturalidade.

Antes de ir para o Afeganistão, o tenente-coronel João Godinho não era grande apreciador de chá. “Há tempos, esteve cá a SIC e apareci na televisão de copo na mão. A minha mãe telefonou-me: ‘Então tu agora bebes chá?’” Godinho recorda-se do episódio durante uma visita a um posto de vigia da guarnição de Pol-e-Charki, na área de Cabul, após Shukur oferecer-lhe uma caneca de chá. Os afegãos gostam de receber bem, e um chá predispõe para a conversa.

Três queques debaixo da cama

Neste posto — na realidade, um pequeno casebre isolado em cima de um monte — vivem três militares: Shukur, com 45 anos mas aparentando ter 60, é um antigo mujahedine de etnia tadjique que privou com o lendário comandante Massud; há ainda um pashtune da região de Kunar e um turcomeno de Mazar-e-Sharif. Não vão a casa há seis meses.

Sem que ninguém o solicite, o capitão Breda, que acompanha Godinho na ronda, acerca-se do turcomeno, às voltas com o colete antibala, e salva-o de dificuldades. À distância, dir-se-ia tratar-se de soldados de um exército só. As fardas são parecidas — há portugueses que optam por andar de camuflado intencionalmente para criar proximidade — e as cores das bandeiras quase coincidem.

Na guarnição de Pol-e-Charki, o capitão Breda ajuda um militar atrapalhado com o colete antibala. Os afegãos gostam dos portugueses: “Estão aqui para nos ajudar”, dizem MARGARIDA MOTA

Debaixo de uma cama há uma caixa de madeira com armas e munições. Em cima da caixa, três pequenos queques matarão a fome mal haja uma pausa na vigia. A seguir ao chá, Shukur oferece os bolos aos visitantes portugueses. “Os afegãos são generosos”, continua Godinho. “Foi uma grande surpresa para mim.” Não raras vezes, com um copo de chá na mão, portugueses e afegãos perdem-se à conversa sobre as famílias. “Falamos de trabalho, de questões pessoais, abrimos o coração”, comenta o tenente-coronel Paradelo. “Os americanos não percebem…”

A servir no Afeganistão pela segunda vez, Octávio Vieira tem experiência acumulada no relacionamento com os locais. “O afegão adora que o olhemos nos olhos, que o cumprimentemos, que confiemos nele, sem receio de tirarmos o colete ou a pistola. Adora que sejamos um amigo — e não um invasor.” Destacado no quartel-general da ISAF, em Cabul, este tenente-coronel trabalha rodeado por americanos. No dia em que Bin Laden foi morto, testemunhou, na primeira fila, a euforia dos colegas. “Parecia que tinham ganho um campeonato do Mundo. Não reagi, fiquei calado. Preocupa-me as reações hoje, amanhã, enfim, quando menos esperarmos…”

Artigo publicado na Revista Única do Expresso, a 18 de junho de 2011

Aprender a escrever numa aula sem teto

Quem disse que só se aprende em escolas de pedra e cal? Reportagem no Afeganistão

Em Pol-e-Charki, há aulas que decorrem no recreio MARGARIDA MOTA

Não são mais do que 25. Mas no Afeganistão, 25 famílias é o suficiente para se formar uma aldeia. Vivem protegidas por uma muralha quadrangular de adobe, perdidas num planalto de Kalakan, a norte de Cabul. A aldeia de Gagarachina é da etnia pashtune, logo permeável à influência talibã. Por determinação do comando da base militar afegã de Pol-e-Charki, este lugar foi escolhido para beneficiar da ajuda humanitária angariada em Portugal. No dia combinado, representantes de cada família — homens — reúnem-se a cerca de 500 metros da entrada da aldeia. As mulheres ficam em casa. De cócoras, os aldeãos escutam o tenente-coronel Rahmatullah referir-se à pobreza da aldeia. “É por isso que vos trouxemos esta ajuda!”, conclui.

De lista na mão, outro militar começa a chamar, um a um, os representantes das famílias. À vez, aproximam-se do camião de carga e recebem um caixote com roupa, calçado, material escolar, brinquedos e um cobertor. Há militares portugueses presentes, mas o protagonismo é dado aos soldados afegãos. Para a NATO, atividades como esta conquistam “os corações e as mentes” dos locais, tornando a presença das tropas internacionais mais aceitável; para o exército afegão é uma “operação de charme” para criar confiança e ganhar simpatizantes na aldeia.

Uma dúzia de crianças aproxima-se timidamente. Fixam os forasteiros como quem olha para extraterrestres. Algumas assustam-se quando alguém que não conhecem as aborda. Terminada a distribuição de bens, os homens da aldeia abraçam os militares em sinal de agradecimento. E fazem um pedido: “Precisamos de uma mesquita, de um poço e… de uma escola”.

No Afeganistão, os militares da NATO respiram de alívio sempre que há crianças a brincar nas bermas das estradas que têm de percorrer. (A experiência diz-lhes que os insurgentes não costumam atacar onde há crianças ou mulheres.) As ruas em terra, sujas e esburacadas, são o parque de diversão das crianças afegãs. Mesmo nas escolas, raramente, há espaços lúdicos.

Situada a leste de Cabul, a escola secundária de Pol-e-Charki é o exemplo perfeito de como, no Afeganistão, ter aulas numa sala com paredes pintadas, portas e janelas é um verdadeiro luxo. A escola tem cerca de 6300 alunos e alunas — a esmagadora maioria dos quais tem aulas… no recreio.

Dois edifícios recuperados com verbas disponibilizadas pelo contingente português (num custo total de 50 mil euros) dotaram a escola de 32 salas de aula. Na cerimónia de inauguração do segundo edifício, a 16 de abril, o diretor da escola desfez-se em elogios à generosidade portuguesa e fez um pedido: “Precisamos de mais 40 salas de aula. Se vos for possível, ajudem-nos! Os nossos alunos aprenderiam mais!”

Na sala, estão presentes militares portugueses e afegãos, alunos, professores, anciãos, um líder religioso e representantes do ministério da Educação e da empresa afegã que fez as obras na escola. Um aluno do 12º ano começa a discursar em língua dari e continua em inglês: “As escolas foram fechadas e os afegãos ficaram mais pobres. Os portugueses provaram que estão aqui para nos ajudar. Que Alá esteja com Portugal e o abençoe”.

Lá fora, no recreio, as aulas não param. Há um burburinho permanente em fundo que os professores procuram ignorar. Duas filas de mesas e cadeiras estão dispostas no meio do recreio. Um aluno sai do seu lugar e dirige-se para a frente dos colegas, como que se tivesse sido ‘chamado ao quadro’. Abre um livro e começa a ler a lição, sob o olhar atento do professor.

A escola de Pol-e-Charki serve uma região carente com uma grande densidade populacional. Atualmente, o contingente português estuda a possibilidade de efetuar outras intervenções, tais como a construção de um campo de voleibol e a realização de um rastreio sanitário. Na inauguração, o diretor pediu “um computador e uma impressora”.

Na região de Jalalabad, junto à fronteira com o Paquistão, outra escola beneficia de apoio português. A escola é privada, mas gerida como que se fosse uma escola pública, sem cobrar um afegani aos cerca de 500 alunos.

Já leva três anos de funcionamento e regista algumas conquistas: nos seis níveis de escolaridade, há mais raparigas do que rapazes e há professores do sexo masculino a dar aulas a turmas femininas, o que não é a regra no país. De seis em seis meses, a escola dá tecido aos alunos para que as mães lhes façam um uniforme novo. Assim, não rompem a roupa que usam em casa.

Aproveitando a visita do Expresso, Ajmal, o diretor da escola, fala da principal carência da escola, na esperança que a mensagem chegue à AMI — entidade que financia o projeto desde o início: “Precisamos de erguer ainda mais o muro à volta da escola. As meninas estão a crescer e a comunidade não gosta que sejam vistas da rua…”

Rodeada de planícies verdes e de montanhas inóspitas, a escola situa-se próximo de Tora Bora, a famosa cadeia de montanhas de cujas grutas Osama bin Laden fugiu, acossado pela tropa americana após o 11 de setembro de 2001.

Na região, há muita atividade insurgente pelo que, dos quadros da escola, fazem parte também dois seguranças armados. Para Mina Wali, a dona da escola, o futuro das crianças da zona não passa pelo jihadismo. “Nesta região, vão desabrochar lindas flores. Queremos formar enfermeiros, professores, donas de casa bonitas e bons maridos”. Na turma feminina do 4º ano, as alunas começam a dar corpo ao sonho de Mina. Said, o manager da escola, pergunta para a sala: “Que querem ser quando forem crescidas?” “Médica!” “Professora!” “Engenheira!”…

‘PROTEGER ESCOLAS’ NAS NAÇÕES UNIDAS

“As crianças são as primeiras vítimas dos conflitos armados. Necessitam e merecem ter a maior proteção possível, assim como os lugares que cuidam delas e lhes prestam assistência — as escolas e os hospitais.” Com estas palavras, a 11 de maio, Peter Wittig, representante permanente da Alemanha no Conselho de Segurança da ONU, lançou a campanha “Protect my school” (Proteja a minha escola). No segundo semestre de 2011, a Alemanha vai presidir ao Conselho de Segurança e, em julho, quer submeter uma proposta de resolução visando a proteção de escolas e hospitais durante os conflitos armados. A campanha apela ao envio de fotos, desenhos ou ficheiros áudios, que sublinhem motivos pelos quais as escolas merecem mais proteção. Mais informações em: www.protectmyschool.diplo.de

Artigo publicado no Expresso, a 28 de maio de 2011