Ex-detidos na base norte-americana de Bagram, no Afeganistão, afirmam existir uma segunda estrutura para além da prisão principal. E acusam os militares dos EUA de abusos
Testemunhos recolhidos pela BBC junto de nove ex-prisioneiros do centro de detenção de Bagram, no Afeganistão, revelam a existência de uma segunda estrutura para albergar detidos distinta da prisão principal.
Os prisioneiros, que se referem ao local como Tor Jail (prisão negra), afirmam ter estado presos num local que não a prisão principal, onde sofreram abusos às mãos de militares norte-americanos. À BBC, afirmam ter ficado em isolamento em celas frias, com uma luz acesa dia e noite que os impedia de dormir.
Os EUA insistem que a prisão principal, agora chamada Centro de Detenção de Parwan, é a única estrutura na base para detenção de pessoas. Mas, contactada pela BBC, o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) referiu que as autoridades norte-americanas têm comunicado nomes de pessoas que estão detidas numa estrutura separada da prisão principal.
“O CICV está a ser notificado por parte das autoridades dos EUA acerca de pessoas detidas, nos 14 dias após a sua prisão”, disse um porta-voz da organização. “Esta prática tem sido uma rotina desde Agosto de 2009 e é um procedimento que o CICV acolhe positivamente.”
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de maio de 2010. Pode ser consultado aqui
Reunidos em Londres, representantes de cerca de 70 governos e organizações internacionais aprovaram uma nova estratégia para o Afeganistão. Um fundo foi criado para pagar a talibãs que aceitem depor as armas. Reportagem na Conferência de Londres sobre o Afeganistão
O conflito no Afeganistão entrou numa nova fase. “Esta Conferência marca o início do processo de transição, distrito a distrito, província a província” e do “processo de transferência de responsabilidades das forças de segurança internacionais para as forças afegãs”, afirmou hoje o primeiro-ministro Gordon Brown, durante o encontro que levou à capital britânica, Londres, cerca de 70 ministros dos Negócios Estrangeiros e representantes de 70 países e organizações internacionais.
A “afeganização” da nova estratégia internacional passa pela consolidação das instituições afegãs — prioritariamente as forças de segurança — para que assumam “a responsabilidade de combater o terrorismo e o extremismo e para que as nossas forças possam começar a regressar a casa”, disse Brown. A presença das tropas britânicas no Afeganistão é um assunto sensível no Reino Unido, sobretudo após a morte em combate de mais de 100 militares britânicos, durante 2009.
A nova abordagem deste conflito combina, fundamentalmente, três eixos: o reforço dos contingentes militares internacionais, incluindo o português; o reforço da componente civil dos esforços de estabilização; e o início de um processo de reintegração social de combatentes talibãs. “Temos de os trazer de volta à sociedade e dar-lhes uma perspectiva de futuro, emprego, educação…”, afirmou Rangin Spanta, ministro dos Negócios Estrangeiros do Afeganistão durante o primeiro mandato do Presidente Hamid Karzai.
Depor as armas em troca de dinheiro
Um fundo para este efeito foi especialmente criado, tendo a comunidade internacional disponibilizado, para o primeiro ano de funcionamento, 140 milhões de dólares (quase 100 milhões de euros). Recorrendo a este fundo, o Governo procurará que afegãos que presentemente combatem ao lado dos talibãs deponham as armas em troca de dinheiro, de um emprego ou de um pedaço de terra para cultivar. Este fundo irá “providenciar uma alternativa económica àqueles que não tem nenhuma.
Quanto aos insurgentes que recusarem aceitar estas condições de reintegração, não teremos outra escolha que não seja combatê-los militarmente”, afirmou Brown. Ao abrigo deste programa de reintegração, os insurgentes terão de renunciar à violência, cortas os laços com a Al-Qaeda e demais grupos terroristas, respeitar a Constituição afegã e encarar objectivos políticos pacificamente.
Paralelamente, serão feitos investimentos nas forças de segurança afegãs, designadamente ao nível da formação. As metas aprovadas em Londres prevêem que em Outubro de 2010, o Exército afegão (ANA) seja constituído por 134 mil homens e, um ano depois, por 171.600. Igualmente, está previsto uma reforma da Polícia Nacional Afegão (ANP) que deverá concluir num aumento dos efectivos de 109 mil, em Outubro de 2010, para 134 mil em Outubro de 2011.
Sancionar funcionários corruptos
A Conferência de Londres acordou ainda num conjunto de medidas destinadas a combater a corrupção — um fenómeno ao mais alto nível que, de resto, Hamid Karzai já reconheceu. O Presidente afegão nomeou um gabinete independente para investigar e sancionar funcionários corruptos. E afirmou a intenção de aprovar um decreto proibindo que familiares de ministros, deputados, governadores e outras entidades possam trabalhar em sectores como a alfândega ou as finanças.
O Afeganistão tem eleições legislativas marcadas para 17 de Setembro. Antes disso, uma nova conferência internacional deverá reunir em Cabul para lançar projectos de concretização das directrizes aprovadas em Londres. Como preparação a esse encontro na capital afegã, está já agendada uma “jirga” (grande assembleia de chefes tradicionais) para concertar a posição afegã. Com ou sem a participação dos líderes talibãs?
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de janeiro de 2010. Pode ser consultado aqui
Segundo o “El País”, o Governo de José Luis Rodríguez Zapatero vai anunciar o aumento do contingente espanhol no Afeganistão em mais de 50%
A Espanha vai aumentar o seu contingente militar no Afeganistão em mais 500 soldados, escreve o “El País”. A concretizar-se, significará um aumento em mais de 50% da actual missão espanhola que, presentemente, tem no terreno 1000 homens em regime permanente e 70 com carácter temporário.
Espanha responde, assim, positivamente ao pedido efectuado pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que, após anunciar o envio de 30 mil tropas adicionais, solicitou aos seus aliados o reforço da missão da NATO com sete mil tropas suplementares. O Reino Unido já anunciou um contributo de 1200 soldados, a Itália de 1140, a Turquia enviará mais 875 militares e a Geórgia 750.
A 28 de Janeiro, reunir-se-á, em Londres, uma conferência internacional sobre o Afeganistão. Nessa altura, se tudo correr como o previsto, Portugal já terá enviado para o teatro de operações afegão mais cerca de 150 militares, a acrescentar aos cerca de 100 que presentemente servem no país.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 17 de dezembro de 2009. Pode ser consultado aqui
No Afeganistão, a nova estratégia dos EUA é reforçar tropas para forçar negociações com os talibãs. Mas pode falhar devido à teimosia do líder Mullah Omar
Podem ser dez mil, 20 mil ou mesmo 40 mil militares. Barack Obama tem sobre a mesa várias opções para atacar o desafio afegão que passam, invariavelmente, pelo reforço do contingente no terreno. Mas não só. “Não há uma solução puramente militar para a situação no Afeganistão. Precisamos também de uma solução política”, afirmou ao Expresso David Auerswald. Este professor do National War College inaugurou esta semana, em Lisboa, o ciclo de conferências “Visões Globais para a Defesa” do Instituto de Defesa Nacional.
“Entre os talibãs, há elementos com quem é possível a reconciliação. Outras facções não querem participar num processo político. Com os primeiros, é possível obter um acordo; com os últimos, não me parece. Temos de olhar para os vários grupos que apoiam a insurgência. A mesma estratégia não funciona necessariamente para todos. É preciso talhá-la para cada grupo individualmente”, diz Auerswald.
Desde que, em Março, Barack Obama afirmou que “parte do sucesso no Iraque passou pelo envolvimento de pessoas (até então) consideradas fundamentalistas islâmicas”, coloca-se uma questão: o diálogo político com os talibãs é prioritário? Numa entrevista telefónica ao Expresso, Bruce Riedel, ex-agente da CIA que liderou, na Primavera, a primeira revisão à estratégia de Obama para o Afeganistão, disse: “Estou céptico em relação à possibilidade de um acordo político com a liderança talibã. Mullah Omar não está interessado nisso, mas, antes, na retirada das forças estrangeiras e na construção do Emirado Islâmico do Afeganistão. Não mostrou interesse em partilhar poder com o Governo afegão, que considera traidor”.
Quando lhe é perguntado se a Administração Obama considera Mullah Omar um parceiro de conciliação, Riedel é seco: “Não!” Para este investigador do Brookings Institute, de Washington, “a estratégia política mais frutífera passa por tentar dividir os talibãs, separando o núcleo duro da liderança dos operacionais e elementos tribais no terreno. Estes, no presente, apoiam os talibãs porque têm, em grande medida, a percepção de que eles estão a ganhar”. Se, no próximo ano, a dinâmica de vitória se inverter, “muitos operacionais mudarão de campo ou, simplesmente, ficarão em casa. Seguir o vencedor é um padrão antigo dos combates no Afeganistão. Neste momento, os talibãs estão a ganhar. Ninguém vai desertar…”
Na sua última mensagem, a 19 de Setembro, Mullah Omar afirmou que o combate contra as forças estrangeiras “está à beira da vitória”. Riedel comenta: “Ele está confiante de que a NATO será derrotada no Afeganistão como foi a União Soviética”. Poder-se-ia pensar que, a troco de poder político, Mullah Omar pudesse entregar a cabeça de Osama bin Laden. “Nos últimos 13 anos, ele teve muitas oportunidades para acabar com Bin Laden. Recusou-se sempre a fazê-lo. Pensar que o fará é acreditar num conto de fadas”.
Artigo publicado no “Expresso”, a 14 de novembro de 2009
Tem a cabeça a prémio no Afeganistão. Malalai Joya veio a Portugal dizer que a libertação do seu país é “uma grande mentira”
Malalai Joya de visita a uma escola feminina, na província de Farah, oeste do Afeganistão, em 2007 AFGHANKABUL / WIKIMEDIA COMMONS
Dizem que é a mulher mais corajosa do Afeganistão. Chama-se Malalai Joya, tem 31 anos e o facto de não se calar torna-a incómoda dentro e fora do seu país. “O meu povo está encurralado. De um lado, estão os criminosos da Aliança do Norte e os bárbaros dos talibãs que nos matam em terra; do outro, as forças dos Estados Unidos e seus aliados que nos bombardeiam do ar. Se as tropas estrangeiras retirarem, ficamos com um inimigo a menos”, afirmou em entrevista ao “Expresso” esta deputada afegã, suspensa desde 2007.
Contrariamente ao que se quer fazer crer no Ocidente, “a ocupação não libertou o povo, mas antes os senhores da guerra. Antes, eles fugiam dos talibãs que nem ratos; agora, transformaram-se em lobos”. Homens como Mohamad Fahim e Karim Khalili, destacados senhores da guerra, serão vice-presidentes se Hamid Karzai for reconduzido na presidência do país — a segunda volta das eleições será a 7 de Novembro.
Essa eventualidade não torna Malalai apoiante de Abdullah Abdullah, o rival de Karzai. “São iguais! Ambos servirão a Casa Branca. No Afeganistão, costumamos dizer: é o mesmo burro com outra sela”.
Oito anos de guerra não acabaram com os talibãs, que continuam activos em 80% do território, e transformaram o país num narco-estado. Quase erradicado durante a governação talibã, o cultivo da papoila aumentou 4500%… No léxico afegão, a expressão “poppy palaces” (palácios da papoila) passou a designar as excêntricas mansões que proliferaram em Cabul e que se estima terem sido financiadas com dinheiro do narcotráfico.
“O Afeganistão produz 93% do ópio mundial. Foi o presente dos EUA e da NATO ao meu país…”, ironiza. “Um dos principais traficantes é Ahmad Wali Karzai, irmão do Presidente!”.
Há muito que Malalai perdeu o medo de falar. Em 2006, no Parlamento, pôs o dedo na ferida ao afirmar que havia ali muitos deputados com “as mãos sujas de sangue do próprio povo”. Foi suspensa, ameaçada de morte e de violação e mergulhou na clandestinidade. Num país em que as mulheres são obrigadas a cobrirem-se da cabeça aos pés, a burqa passou a ser um aliado, protegendo-a quando sai à rua.
Muda de casa com frequência — já a tentaram matar por quatro vezes — e enceta uma aventura sempre que quer ir ao Ocidente divulgar a sua mensagem. Sem passaporte diplomático, cruza a fronteira de carro, para apanhar um avião no Paquistão.
No passado fim-de-semana, esteve em Portugal a convite do Bloco de Esquerda, para sessões de esclarecimento em Lisboa e no Porto. Falou de pobreza, de corrupção, de como se compra um bebé afegão por dez dólares (€6,7) e do pesadelo que é ser mulher no seu país. “Matar uma mulher custa-lhes tanto como matar um pássaro. As violações, os raptos, os ataques com ácido e a violência doméstica estão a aumentar muito”.
Em 2005, Malalai fez história ao tornar-se o membro do Parlamento mais jovem de sempre. Mulher e nova, servia na perfeição a ideia de que a guerra libertara as afegãs. Para provar o contrário, invoca uma lei recentemente aprovada, em tudo consentânea com a era talibã, visando as xiitas. Num artigo, proibe-se as mulheres de saírem de casa para trabalhar ou simplesmente ir ao médico sem a autorização dos maridos. “Apesar da condenação internacional, Karzai assinou o diploma”,
Malalai também não poupa Barack Obama por este querer fazer passar por ‘moderados’ o mullah Omar (líder talibã) e Gulbuddin Hekmatyar (líder mujahedin). “Está claro para o povo que os EUA não tencionam destruir os talibãs e a Al-Qaeda. Vão mantendo a situação perigosa para continuarem no Afeganistão em nome dos seus interesses estratégicos e económicos”. Por isso, Malalai sonha com o dia seguinte à saída das tropas estrangeiras. “Muitos dizem que depois virá a guerra civil. E que temos agora?”
ELEIÇÕES & SUBORNOS
A 7 de Novembro, Hamid Karzai e Abdullah Abdullah, seu antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, disputam a segunda volta das presidenciais
O Governo italiano negou ter subornado os talibãs para que não alvejassem as suas tropas. Segundo o “Times”, quando os franceses renderam os italianos em Sarobi, foram surpreendidos pela violência. Dez franceses morreram num único incidente
O Afeganistão ocupa o 181º e penúltimo lugar do Índice de Desenvolvimento Humano 2009 das Nações Unidas
Um quarto dos lugares do Parlamento afegão (68) está reservado às mulheres
“A Jóia Afegã” foi publicado em Portugal, em 2010, pela editora Quidnovi
Artigo publicado no “Expresso”, a 24 de outubro de 2009
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.