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Donald Trump aspira ao Nobel da Paz. Serão os Acordos de Abraão suficientes?

O dedo da Administração norte-americana no processo de normalização da relação diplomática entre Israel e dois países árabes é o grande trunfo de Donald Trump na disputa pelo Nobel da Paz, que será conhecido esta sexta-feira. Mas há um histórico que joga contra si: no passado, antecessores que mediaram negociações importantes no Médio Oriente foram ignorados pela Academia

O Prémio Nobel da Paz 2020 é anunciado esta sexta-feira e, segundo a organização, há 211 indivíduos e 107 organizações na corrida. A lista de candidatos não é pública, mas pelo menos um nome é conhecido.

Christian Tybring-Gjedde, deputado norueguês do Partido do Progresso (populista), fez saber que propôs a candidatura de Donald Trump. “Por seu mérito, acho que tem feito mais tentativas para criar a paz entre as nações do que a maioria dos outros indicados para o prémio da Paz”, justificou.

O Presidente dos Estados Unidos tem como forte trunfo os Acordos de Abraão, assinados na Casa Branca a 15 de setembro, que selaram a normalização da relação diplomática entre Israel e dois países árabes — os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain, ambos na região do Golfo Pérsico.

Não se tratando de verdadeiros acordos de paz, uma vez que os signatários não estavam nem nunca se envolveram em guerra, são entendimentos importantes numa região tão conflituosa como o Médio Oriente, onde a diplomacia norte-americana leva décadas de investimentos.

“Goste-se ou não, os Estados Unidos continuam a ser o principal intermediário em negociações no Médio Oriente”, diz ao Expresso Henry R. Nau, professor no Departamento de Ciência Política da Universidade de George Washington (Washington D.C.). “Por imperfeita que seja a política do Médio Oriente, os acordos entre Israel e os Emirados Árabes Unidos e o Bahrain representam dois grandes passos em frente na direção de uma região mais estável.”

Nos últimos 50 anos, a diplomacia dos Estados Unidos participou com êxito na mediação de três importantes tratados de paz na região. Dois foram mesmo assinados na Casa Branca e valeram aos protagonistas diretos o Nobel da Paz — mas não ao mediador.

Dialogar às escondidas

O primeiro concretizou-se a 17 de setembro de 1978, era o Presidente dos EUA Jimmy Carter. O democrata foi anfitrião da cerimónia de assinatura dos Acordos de Camp David, que levaram à paz entre Israel e o Egito.

O tratado resultou de 13 dias de negociações secretas em Camp David, casa de campo presidencial, nas montanhas Catoctin, no estado de Maryland. Naquele recato, o diálogo fez-se entre três homens: Carter, que mediou, Menachem Begin (primeiro-ministro israelita) e Anwar al-Sadat (Presidente egípcio). Apenas os dois últimos foram então agraciados com o Nobel da Paz.

Quinze anos depois, o caminho da paz no Médio Oriente voltou a passar pelos Estados Unidos. A 13 de setembro de 1993, a Casa Branca abriu portas a novo acontecimento histórico: a assinatura dos Acordos de Oslo, pelos quais Israel e a Organização de Libertação da Palestina (OLP) se reconheceram mutuamente, dando início a um processo negocial que tinha a sua etapa final na declaração do Estado palestiniano.

Ainda que o trabalho de formiga tenha sido realizado pela diplomacia da Noruega, os Acordos de Oslo valeram o Nobel da Paz apenas aos protagonistas: os israelitas Yitzhak Rabin (primeiro-ministro) e Shimon Peres (ministro dos Negócios Estrangeiros) e o palestiniano Yasser Arafat (líder da OLP). Ganhariam o Nobel em 1994 e não em 1993, ano dos sul-africanos Nelson Mandela e Frederik de Klerk.

Bill Clinton seria ainda mediador no Tratado de Paz entre Israel e a Jordânia, assinado a 26 de outubro de 1994, em Arabah (Israel), junto à fronteira entre os dois países. Mas o Nobel nunca lhe chegaria às mãos, contrariamente a Jimmy Carter que haveria de ser galardoado em 2002 “por décadas de incansável esforço para encontrar soluções pacíficas para os conflitos internacionais, fazer avançar a democracia e os direitos humanos e promover o desenvolvimento económico e social”, justificou o Comité Nobel.

E Trump?

Donald Trump tem contra si este histórico, que colocou antecessores seus em plano secundário perante a Academia Nobel, mas tem também obra feita. Além dos Acordos de Abraão, contribuiu decisivamente para o desanuviamento da tensão na Península da Coreia (ainda que sem resultados políticos substanciais) e averbou um tratado de paz entre os EUA e os talibãs afegãos, assinado a 29 de fevereiro passado, em Doha (Qatar).

Além disso, ao ter eliminado o líder do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi, em outubro de 2019, sempre pode dizer que teve um papel principal no combate ao terrorismo internacional.

(FOTO RAWPIXEL)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui

Os ‘tweets’ mais populares de Donald Trump: do covid à pose Rocky Balboa

John Fitzgerald Kennedy inventou as conferências de imprensa em direto, Bill Clinton expôs-se em late-night talk shows, Franklin Delano Roosevelt elegeu a rádio como forma preferencial de comunicar com os norte-americanos e Donald Trump revelou-se um mestre no Twitter. O anúncio de que estava infetado com o novo coronavírus valeu ao Presidente dos EUA um recorde de popularidade nessa rede social

Da Casa Branca para o povo, há mais de 100 anos que sucessivos presidentes dos Estados Unidos da América vêm inovando na forma de comunicar com os norte-americanos. Franklin Delano Roosevelt (FDR), que foi chefe de Estado entre 1933 e 1945, instituiu o hábito de “conversar” com regularidade aos microfones da rádio. Através das suas fireside chats (“conversas à lareira”), transmitidas à noite, tornava-se visita de casa de milhões de pessoas.

FDR aproveitava para explicar as suas políticas, desmantelar boatos e serenar os ânimos em épocas turbulentas, como foram os anos da Grande Depressão e da II Guerra Mundial. No primeiro episódio (que pode ser escutado aqui), transmitido a 12 de março de 1933, o Presidente explica o funcionamento do sistema bancário e o porquê de esse sector estar em crise à época.

“Vejo a escolha do Twitter por parte de Donald Trump como estando em linha com uma longa lista de métodos que os presidentes têm usado para chegar diretamente ao público”, diz ao Expresso o académico David Greenberg, professor de História e de Jornalismo e Estudos de Media na Universidade Rutgers (Nova Jérsia). “Muitos outros presidentes foram inovadores ao tentar ‘contornar’ a imprensa e comunicar ‘diretamente’ com o povo.”

Chegar a quem não vê motícias

Além dos programas radiofónicos de FDR, Greenberg cita a criação de uma sala de imprensa na Casa Branca na época de Theodore Roosevelt (1901-1909) onde o Presidente se encontrava frequentemente com repórteres. Refere as conferências de imprensa de Woodrow Wilson (1913-1921), os discursos de Dwight D. Eisenhower (1953-1961), as conferências de imprensa em direto de John Fitzgerald Kennedy (1961-1963). E também a utilização que fez Bill Clinton (1993-2001) de meios de transmissão de nicho, como os canais por cabo, que se multiplicavam na altura, e a participação em late-night talk shows para chegar a pessoas que não viam notícias.

“Neste contexto, Trump não está a romper de modo radical com as práticas anteriores, mas simplesmente — na tradição de muitos antecessores — a explorar novas plataformas de comunicação que se tornaram disponíveis.”

Fazer as coisas à sua maneira

Com mais de 87 milhões de seguidores no Twitter — só 16 países têm população superior —, Trump faz-se “ouvir” com profusão várias vezes ao dia na conta @realDonaldTrump, abdicando de comunicar através da conta oficial do Presidente (@POTUS).

“Julgo que Trump usa a sua conta porque já tinha angariado muitos seguidores antes de ser Presidente”, diz Greenberg. “Mas também revela a propensão para fazer as coisas à sua maneira, e não de acordo com as regras ou os protocolos oficiais. Recorde-se como olhou diretamente para o eclipse solar [a 21 de agosto de 2017] ou não usa máscara durante esta pandemia.”

Trump abriu a conta em março de 2009, quando a sua notoriedade decorria do mundo da televisão. Apresentava o reality show “The Apprentice” e detinha os direitos sobre os concursos de beleza Miss Universo e Miss América. Era também multimilionário.

Nem sempre usou o Twitter da mesma forma desenfreada como hoje faz, mas pelo menos dois dos seus tweets mais populares foram publicados antes de ser Presidente — ambos visando… Barack Obama. Segue-se o top-10 de tweets de Trump que mais agitaram as redes.

1. APANHEI O COVID

“Esta noite, a primeira-dama e eu tivemos testes positivos de covid-19. Iremos começar a nossa quarentena e processo de recuperação imediatamente. Passaremos por isto juntos!” (918.700 partilhas e 1,8 milhões de ‘gostos’)

Na madrugada de 2 de outubro, Trump anunciou que estava infetado com o novo coronavírus. Este tweet tornou-se o mais popular de sempre do atual Presidente dos EUA, com quase um milhão de partilhas e dois milhões de ‘gostos’, reações ora solidárias com o estado de saúde de Trump, ora de grande ironia, dada a forma irresponsável como este tem abordado a pandemia.

2. TRUMP VERSUS CNN

(464.100 partilhas e 505.000 ‘gostos’)

Sem necessidade de recorrer a palavras e com a hashtag #FraudNewsCNN (Notícias fraudulentas CNN), a 2 de julho de 2017, Trump publicou um vídeo onde, junto a um ringue de wrestling, um homem com a cabeça de Trump derruba e agride violentamente outro homem, que tem no lugar da cabeça o logotipo da CNN. O vídeo desencadeou críticas e acusações de que o Presidente estava a promover a violência contra a comunicação social. Este é um tweet cujos números de partilhas e ‘gostos’ continuam a crescer, dada a permanente hostilidade do Presidente ao canal de televisão sediado em Atlanta.

3. O GORDO DO KIM

“Por que razão haveria Kim Jong-un de insultar-me, chamando-me ‘velho’, quando eu nunca lhe chamaria ‘baixo e gordo’? Ah bem, eu tentei tanto ser amigo dele — e talvez um diz isso venha a acontecer!” (417.600 partilhas e 536.100 ‘gostos’)

A 12 de novembro de 2017, durante uma viagem ao continente asiático, Trump provoca o líder da Coreia do Norte com este tweet. Ter-se-á tratado de reação a uma declaração da agência noticiosa oficial norte-coreana, que se referiu a Trump como um “velho lunático”.

A tensão entre os dois países estava ao rubro, alimentada por sucessivos testes com mísseis realizados pela Coreia do Norte, que levaram Trump a chamar little rocket man a Kim. Exatamente sete meses após a provocação de Trump no Twitter, os dois líderes fizeram história e encontraram-se pela primeira vez, em Singapura.

4. A AMÉRICA VOLTA A SER GRANDE

“Hoje fizemos a América grande outra vez!” (328.600 partilhas e 499.600 ‘gostos’)

Foi desta forma que Trump celebrou no Twitter a sua vitória eleitoral, a 8 de novembro de 2016. Make America Great Again foi o principal mote da campanha que elegeu Trump para o cargo de 45.º Presidente dos Estados Unidos.

5. OBAMA, ESSE ÓDIO DE ESTIMAÇÃO I

“Você tem permissão para impugnar um Presidente por incompetência grosseira?” (324.700 partilhas e 231.600 ‘gostos’)

Publicado a 4 de junho de 2014, quando na Casa Branca estava ainda Obama, este tweet alude a um acordo polémico entre os EUA e os talibãs afegãos, que levou à libertação de Bowe Bergdahl. Em 2009, este soldado norte-americano tinha sido feito refém da Rede Haqqani, grupo insurgente alinhado com os talibãs. O acordo que tornou possível a libertação do militar, a 31 de maio de 2014, envolveu a libertação de cinco membros dos talibãs detidos na base de Guantánamo, desencadeando grande contestação.

6. É TERRORISMO INTERNO

“Os Estados Unidos da América irão designar a ANTIFA uma organização terrorista.” (315.000 partilhas e 794.400 ‘gostos’)

A 31 de maio de 2020, seis dias após a morte do afroamericano George Floyd, asfixiado por um polícia em Minneapolis, Trump declara guerra ao movimento Antifa. Formado por grupos de esquerda, defende o recurso à violência no confronto com forças que classificam como fascistas, autoritárias, racistas, xenófobas ou homofóbicas. O Antifa sobressaiu nos protestos contra a violência policial que saíram às ruas de cidades norte-americanas, o que levou Trump a qualificar os protestos antirracistas como “terrorismo doméstico”.

7. EM SOCORRO DO RAPPER

“A$AP Rocky foi libertado da prisão e está a caminho de casa para os Estados Unidos desde a Suécia. Foi uma semana dura, vem para casa assim que possível A$AP!” (309.700 partilhas e 818.200 ‘gostos’)

A$AP Rocky, rapper norte-americano, fora detido na Suécia após uma altercação numa rua de Estocolmo que envolveu três outros membros da sua comitiva, a 30 de junho de 2019. Foi preso e levado a julgamento, onde foi declarado inocente. A 2 de agosto, num tweet entusiasmado em que utiliza o nome do artista para fazer trocadilhos, Trump congratulou-se com a sua libertação. Esta foi a publicação de Trump mais partilhada e com mais ‘gostos’ em 2019.

8. OBAMA, ESSE ÓDIO DE ESTIMAÇÃO II

“Preparem-se, há uma pequena hipótese de a nossa horrível liderança estar, sem saber, a levar-nos à III Guerra Mundial.” (291.200 partilhas e 176.700 ‘gostos’)

Publicado a 31 de agosto de 2013, visa diretamente a Administração Obama e a sua estratégia de intervenção na Síria. Este tweet voltou a circular com força quatro anos depois, quando, com Trump na Casa Branca, os Estados Unidos bombardearam uma base de forças governamentais sírias com 59 mísseis Tomahawk, a 6 de abril de 2017.

9. COMO UM RAMBO

(283.300 partilhas e 650.500 ‘gostos’)

Sem qualquer mensagem de texto associada, Trump assume-me como peso-pesado e partilha esta imagem a 27 de novembro de 2019. O rosto é seu, o corpo é da personagem Rocky Balboa, o pugilista a que deu vida Sylvester Stallone, na saga cinematográfica “Rocky”. No Congresso norte-americano decorriam as audições relativas ao seu processo de impugnação (impeachment). Trump sairia ileso desse combate.

10. NÃO TENHAM MEDO DO COVID

“Vou deixar o grande Centro Médico Walter Reed hoje às 18h30. Sinto-me mesmo bem! Não tenham medo do covid. Não deixem que isso domine as vossas vidas. Nós desenvolvemos, sob a Administração Trump, alguns medicamentos e conhecimentos mesmo excelentes. Sinto-me melhor do que há 20 anos!” (282.700 partilhas e 593.000 ‘gostos’)

Foi a mensagem partilhada na passada segunda-feira, horas antes de o Presidente dos EUA deixar o hospital militar no estado de Maryland, onde esteve internado desde a sexta-feira anterior, infetado com covid-19.

(ILUSTRAÇÃO GDJ / PIXABAY)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de outubro de 2020. Pode ser consultado aqui

Portland continua a ferro e fogo, 100 dias após o início dos protestos

Começaram após o assassínio de George Floyd, o negro asfixiado pelo joelho de um polícia branco, e foram sendo alimentados por outros casos de violência policial e as desigualdades raciais. Os protestos na cidade norte-americana de Portland, levam já 100 dias nas ruas. A efeméride foi assinalada no sábado à noite com uma nova jornada de contestação

Investida policial numa rua de Portland CARLOS BARRIA / REUTERS
Detenção de uma manifestante no exterior do edifício da polícia CARLOS BARRIA / REUTERS
Batalha campal entre polícias e manifestantes CARLOS BARRIA / REUTERS
Um frente a frente que dura há 100 dias CAITLIN OCHS / REUTERS
Um manifestante ferido é levado pela polícia CARLOS BARRIA / REUTERS
Apreensão dentro de uma casa em relação ao que se passa nas ruas CARLOS BARRIA / REUTERS
Os protestos intensificam-se durante a noite CARLOS BARRIA / REUTERS
Um manifestante com dificuldade em respirar, após inalar gás lacrimogéneo CAITLIN OCHS / REUTERS
Socorro a um manifestante atingido por um cocktail molotov CAITLIN OCHS / REUTERS
Desespero e impotência no rosto desta manifestante solitária CARLOS BARRIA / REUTERS
Manifestantes disparam artefactos pirotécnicos para assinalar o 100º dia de protestos CAITLIN OCHS / REUTERS
A aparente serenidade de quem acha que está do lado certo do problema CARLOS BARRIA / REUTERS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de setembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Washington, Louisville, Portland, Rochester… Não se vê o fim dos protestos

Várias cidades norte-americanas continuam tomadas por protestos contra a violência policial que visa os negros de uma forma particular. Começaram com o caso de George Floyd e, pelo caminho, foram adicionando os nomes de outras vítimas

A menos de dois meses de umas eleições presidenciais que se adivinham polémicas e tensas, as ruas dos Estados Unidos não dão sinais de acalmia. Nos últimos dias, vários protestos dinamizados pelo movimento “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) saíram às ruas de várias cidades norte-americanas para repetir até à exaustão slogans de protesto contra a violência policial que visa os negros de forma particular e os nomes de vítimas.

Na capital do país, Washington DC, realizaram-se no sábado marchas e vigílias para exigir justiça para Deon Kay, um afroamericano de 18 anos mortalmente baleado no peito, na quarta-feira, quando fugia da polícia armado. A polícia disse ter disparado antes de o jovem largar a arma, que seria encontrada a 30 metros do local onde Kay tombou.

Em Louisville, estado do Kentucky, o nome mais invocado pelos manifestantes foi o de Breonna Taylor, uma negra de 26 anos morta pela polícia no seu apartamento na própria cidade, em março. Centenas de pessoas tentaram chamar a atenção para o problema concentrando-se antes da realização do Kentucky Derby, uma tradicional competição hípica, vestidos com fardas e armados. A tensão subiu quando o grupo ficou frente a frente com uma milícia armada de direita.

A indignação está igualmente ao rubro em Rochester, no estado de Nova Iorque. Sete polícias foram suspensos na quinta-feira passada pela participação na detenção violenta do afroamericano Daniel Prude, que levaria à sua morte, dias depois.

O caso aconteceu em março, mas os agentes apenas foram detidos um dia após os advogados da família terem divulgado as imagens da detenção captadas pela própria polícia, onde se vê os agentes a taparem a cabeça do homem com um capuz quando já estava no chão.

Nem sempre os protestos são pacíficos, como muitas vezes anunciados. Em Portland, no estado do Oregon, a marcha prevista para este sábado transformou-se numa batalha campal. Manifestantes arremessaram coquetéis molotov contra a polícia. Esta considerou que a manifestação “não autorizada” transformou-se num “motim” e respondeu com gás lacrimogéneo e outras munições “não letais”.

Esta revolta generalizada leva já 100 dias nas ruas. Começou na sequência do assassínio de George Floyd, sufocado pelo joelho de um polícia, a 25 de maio, em Minneapolis, e vai sendo alimentada por outros casos tornados públicos.

O último destes casos aconteceu a 23 de agosto e envolveu o afroamericano Jacob Blake, baleado sete vezes nas costas, pela polícia, em Kenosha, estado do Wisconsin. Na terça-feira passada, o Presidente Donald Trump visitou a cidade e atribuiu os protestos à esquerda radical e ao “terrorismo doméstico”.

Na quinta-feira, um estudo elaborado pelo US Crisis Project revelou que 93% dos protestos realizados desde a morte de George Floyd foram pacíficos e não causaram destruição. Uma conclusão que contraria diretamente a visão dos acontecimentos expressa pelo Presidente do país.

(FOTO Detenção de uma manifestante no exterior do edifício da polícia CARLOS BARRIA / REUTERS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de setembro de 2020. Pode ser consultado aqui

Joe Biden lidera a corrida às eleições de 2020. Mas porque é que o “irmão” Barack Obama ainda não o apoiou?

Quando falta um ano para as presidenciais nos Estados Unidos, Joe Biden surge como o candidato democrata mais bem colocado para derrotar Donald Trump. Ao Expresso, o autor de um livro sobre a “parceria extraordinária” entre Obama e Biden quando estiveram na Casa Branca ajuda a perceber por que razão Biden pode não ser o favorito do anterior Presidente

Durante oito anos, Barack Obama e Joe Biden conviveram na presidência dos Estados Unidos como verdadeiros irmãos. Na presença um do outro, o Presidente e o seu vice não pouparam nos sorrisos, nas mostras de carinho e nos gestos de cumplicidade.

A amizade transbordou os corredores do poder e, muitas vezes, surgiram juntos em eventos desportivos, como o fazem os melhores amigos. Na imprensa, esta relação de grande proximidade ganhou as cores de um “bromance” — um romance entre irmãos (brothers, em inglês).

Três dias antes de deixar funções, Obama prestou tributo a essa caminhada conjunta e condecorou Biden com a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honra concedida a um civil. “Foi o melhor vice-presidente que a América alguma vez teve”, disse o 44º Presidente, eleito pela primeira vez faz esta segunda-feira onze anos.

Se Obama é hoje alguém distante dos palcos da política, já Biden sonha ainda com a cadeira do poder. A 25 de abril passado, o antigo senador pelo Delaware lançou a sua candidatura às eleições presidenciais de 3 de novembro de 2020. Envolto em ações de campanha desde então, ainda não ouviu do “irmão” Obama o esperado apoio.

“Obama não pôde endossar Biden logo após ter anunciado a sua candidatura porque não se sabe se ele será o candidato democrata”, explica ao Expresso Steven Levingston, autor do livro “Barack and Joe: The Making of an Extraordinary Partnership” [Barack e Joe: A Realização de uma Parceria Extraordinária], recentemente publicado.

“Obama é a pessoa mais popular — e mais poderosa — no Partido Democrata. O seu apoio terá muito peso pelo que terá de o fazer com cuidado e somente após o partido ter a certeza de quem será o seu candidato. Se Obama apoiar Biden, ou qualquer outro, antes da nomeação final, corre o risco de escolher a pessoa errada e, quando o candidato for nomeado, o seu apoio ter menos peso.”

Obama parece, pois, determinado em repetir o guião de 2016, adotando uma postura de neutralidade na fase das primárias e expressando apoio – no caso a Hillary Clinton – dissipadas as dúvidas quanto ao candidato escolhido.

“O relacionamento entre Obama e Biden foi único na história americana. Presidentes e vice-presidentes não se comportam daquela maneira. Admiravam-se e respeitavam-se verdadeiramente, tinham uma amizade profunda e formaram uma equipa dinâmica na Casa Branca”, continua Levingston. “Mas, na sua essência, o relacionamento era um casamento político. A política intercetou a amizade. Esta relação pessoal tão profunda não podia superar as necessidades da política.”

Com Obama em silêncio, Biden procura tirar dividendos desse percurso ímpar ao lado de um dos Presidentes mais emblemáticos da história do país, sobretudo nos debates com os adversários democratas. “O meu problema com o vice-presidente Biden é que sempre que se refere algo de bom sobre Barack Obama, ele diz: ‘Oh, eu estava lá, eu estava lá, isso sou eu também’”, criticou Julián Castro, no debate de 12 de setembro. “Mas sempre que se questiona um aspeto da Administração da qual ambos fizemos parte, ele diz: ‘Bem, isso foi o Presidente’.” Castro foi secretário da Habitação e do Desenvolvimento Urbanístico entre 2014 e 2017.

O apoio de Obama a Biden levaria o antigo vice-presidente a disparar nas sondagens, mas dizem os números que desde que iniciou a corrida democrata Biden esteve sempre na liderança. E mesmo num eventual confronto com Donald Trump, a última projeção divulgada, da insuspeita Fox News (com inquéritos realizados entre 27 e 30 de outubro), dá 51% a Biden e 39% a Trump.

“Se Biden for o candidato democrata, acredito que Obama o apoiará com força e com um desejo genuíno de o ver eleito. Na sua perspetiva, é mais importante que os democratas reconquistem a Casa Branca em parte para redefinir a nação e restaurar parte do legado de Obama”, defende Levingston, editor de Não-Ficção do jornal “The Washington Post”.

“De certa forma, Biden pode ser o melhor candidato para preservar a herança de Obama, tendo trabalhado em estreita colaboração com ele e sendo mais moderado do que outros candidatos democratas que querem empurrar a nação para além do lugar onde Obama a colocou.”

Mas se Biden é realmente o favorito de Obama, talvez só mesmo o 44º Presidente saiba a resposta. “Do ponto de vista do seu legado, pode muito bem ser que Obama prefira um candidato que seja mais indicativo de mudança política do que Biden é”, concluiu o autor. “Obama alterou a paisagem política ao tornar-se o primeiro Presidente negro. Se os EUA elegessem agora uma mulher [Elizabeth Warren] ou um Presidente homossexual [Pete Buttigieg], isso promoveria mais o legado de Obama como pioneiro na cena política norte-americana — um homem que remodelou a natureza da política americana.”

(FOTO Joe Biden e Barack Obama partilham uma risada, antes de uma ação de campanha para as presidenciais desse ano, em Portsmouth, em Nova Hampshire, a 7 de setembro de 2012. Obama seria reeleito Presidente dos EUA e Biden continuaria a ser o seu vice-presidente PETE SOUZA / US GOVERNMENT / RAWPIXEL)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 4 de novembro de 2019. Pode ser consultado aqui