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Estado da União. Discursos já houve 232 mas a maior parte chegou por carta

Donald Trump cumpre, na madrugada desta quarta-feira, uma tradição com mais de 200 anos e faz o seu terceiro discurso sobre o Estado da União. Dos 45 Presidentes norte-americanos, só dois nunca o fizeram. O recorde do discurso mais longo pertence a um dos cinco estadistas ainda vivos

Na Câmara dos Representantes, Richard Nixon faz o discurso sobre o “Estado da União”, em 1972 US CAPITOL / WIKIMEDIA COMMONS

O discurso sobre o Estado da União que Donald Trump irá proferir esta terça-feira à noite (2h de quarta em Portugal Continental), perante o Congresso dos Estados Unidos, é uma prática quase tão antiga quanto a própria federação norte-americana. Foi George Washington (Presidente entre 1789 e 1797) quem, a 8 de janeiro de 1790 — tinha o país apenas 14 anos —, primeiro se dirigiu a uma sessão conjunta do Congresso. “Caros cidadãos do Senado e Câmara dos Representantes”, assim iniciou ele a sua alocução, dando o mote para uma tradição política que só em 1947 — quando começou a ser transmitido pela televisão — passaria a ser oficialmente designada “Estado da União”.

Três anos antes, em 1787, “o povo dos Estados Unidos” dotara-se de uma Constituição, a qual, no seu artigo II, enumerava as obrigações do Presidente. “Ele deve de tempos a tempos dar ao Congresso informação sobre o Estado da União, e pôr à sua consideração medidas que considere necessárias e convenientes”, era uma delas.

Assim apressou-se a fazer George Washington, no Federal Hall, na cidade de Nova Iorque. À época, Washington D.C. ainda não existia, a Casa Branca só começaria a ser construída em 1792 e a primeira sessão conjunta no atual Capitólio só ocorreria a 11 de novembro de 1800. Neste dia, John Adams (1797-1801) entraria para a História como o primeiro Presidente norte-americano a discursar na atual capital.

A George Washington deve-se também o caráter anual desta intervenção, ainda que nem todos os seus sucessores se tenham dignado comparecer pessoalmente no Congresso. Se os dois primeiros Presidentes fizeram-no — George Washington, de forma generosa, com uma média de 2080 palavras por discurso e John Adams, mais comedido, com apenas 1790 (a mais baixa de sempre) —, os chefes de Estado seguintes optaram por enviar mensagens escritas.

Entre 1801 e 1913 — período em que a Casa Branca teve 25 inquilinos —, a mensagem chegou ao Congresso de forma escrita. A Thomas Jefferson (1801-1809), em particular, incomodava-o a semelhança entre a aparição do Presidente diante dos representantes do povo, no início de cada sessão, e a prática monárquica dos britânicos, que discursavam a cada novo Parlamento. Por isso, optou por não discursar “in loco”.

A tradição do discurso presencial foi recuperada em 1913 por Woodrow Wilson — que faltaria em 1919 e 1920 por razões de saúde. Ao longo dos anos, essa passaria a ser a fórmula preferencial dos Presidentes, ainda que, de forma intermitente, mensagens escritas continuassem a chegar ao Congresso — a última das quais em 1981, com Jimmy Carter a submeter um discurso quatro dias antes de Ronald Reagan lhe suceder no cargo.

O formato atual estabilizou a partir de 1934, com Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). Mas no total, desde 1790, já foram feitos mais discursos por escrito do que oralmente: 130 contra 102.

Se John Adams foi o Presidente mais sucinto, já William Howard Taft (1909-1913) foi o mais palavroso, com uma média de 22.614 palavras por texto. A esta discrepância não será alheio o facto de o primeiro ter sempre discursado de viva voz e o segundo ter sempre enviado mensagens escritas.

Individualmente, o discurso mais curto foi o primeiro, de George Washington, em 1790, com um total de 1089 palavras. O mais longo foi feito em 1995, por Bill Clinton (1993-2001), com 9190. Já a comunicação escrita mais comprida foi a de 1981, assinada por Jimmy Carter, totalizando 33.667 palavras.

Entre aqueles que sempre optaram pelo discurso presencial, Bill Clinton foi quem mais falou, com uma média de 7426 palavras em oito discursos — superior à do tribuno Barack Obama (2009-2017) com uma média de 6824 palavras em igual quantidade de alocuções.

Ainda no capítulo das curiosidades, desde 1964, o discurso que mais tempo demorou a ser lido — exatamente 1h 28m 49s — foi o último proferido por Bill Clinton, a 27 de janeiro de 2000. Em muito menos tempo — 47m 49s —, George W. Bush (2001-2009) ‘despachou’ uma das intervenções mais importantes dos últimos anos. A 29 de janeiro de 2002 — três meses após o 11 de Setembro —, traçou o “eixo do mal” (Irão, Iraque e Coreia do Norte) que haveria de orientar a guerra ao terrorismo internacional que se seguiria.

Vencedor das eleições presidenciais em 1932, 1936, 1940 e 1944, Franklin D. Roosevelt foi quem mais vezes se dirigiu presencialmente ao Congresso. Fe-lo por 10 vezes em 12 possíveis: em 1944, adoentado, falou aos microfones desde a Casa Branca e em 1945 dirigiu-se por escrito, três meses antes de morrer. Em contraponto, dois Presidentes nunca fizeram qualquer discurso no Congresso: William Henry Harrison (1841) morreu de pneumonia exatamente um mês após tomar posse como 9º Presidente e James Garfield (1881) foi assassinado seis meses após iniciar funções.

Pouco dado à História e a tradições, Donald Trump já discursou por duas vezes, repetindo, em ambas, uma nuance inédita: “Sr. Presidente [do Congresso], Sr. Vice-presidente, Membros do Congresso, Primeira Dama dos Estados Unidos, meus caros americanos”. Nunca antes, naquele contexto, um Presidente tinha distinguido a mulher.

Esta madrugada, Trump cumprirá a tradição pela terceira vez. Inicialmente previsto para 29 de janeiro último, o discurso foi cancelado por Nancy Pelosi, a democrata que preside ao Congresso, dada a persistência do “shutdown” — o mais longo encerramento parcial do Governo federal de sempre —, provocado por um braço de ferro entre Presidente e Congresso a propósito do financiamento do muro junto à fronteira com o México. O convite foi reendereçado após Trump aceitar reabrir o Governo — só até 15 de fevereiro.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 5 de fevereiro de 2019. Pode ser consultado aqui

Trump: Os dois primeiros anos de um Presidente único

Donald Trump está a meio caminho do seu mandato presidencial. Sobressai um temperamento difícil e um estilo de governação turbulento com consequências no país e no mundo

Donald Trump atinge, amanhã, metade do mandato. Cumpre-o num momento de tensão no país, com mais de 800 mil funcionários públicos parados em casa, há quase um mês, sem receber. Assim continuarão enquanto durar o braço de ferro entre o Presidente e a maioria democrata no Congresso, que não dá a Trump os milhões que ele quer para o muro do México.

Esta semana, Trump reagiu ao impasse de forma bizarra. Num jantar na Casa Branca em homenagem aos Clemson Tigers, campeões universitários de futebol americano, banqueteou a equipa com uma mesa coberta de embalagens de hambúrgueres, nuggets de frango, batatas fritas e pizza. Numa cedência à fast food, havia também saladas. “Se é americano, eu gosto. São tudo coisas americanas”, disse. Trump justificou o buffet com a ausência do pessoal da cozinha, vítima do encerramento parcial do Governo (shutdown).

Do evento, uma foto destacou-se. Sozinho, de pé, no topo da mesa, Trump sorri. Num retrato atrás dele, Abraham Lincoln — para muitos o melhor Presidente de sempre — “observa” todo o espetáculo. “Essa foto vai ficar como uma espécie de postal destes primeiros dois anos. Está lá tudo o que é a Casa Branca na era Trump”, comenta ao Expresso Germano Almeida, autor do livro “Isto não é bem um Presidente dos EUA”. O título é deliberadamente provocador: “Não consigo ver, em tudo o que Trump faz, a dignidade da função presidencial”.

Em 24 meses na Casa Branca, Trump cunhou tudo o que disse e fez com traços de personalidade que fazem dele um Presidente único. Como os dez que se seguem.

MENTIROSO
Factos só atrapalham
Trump mente descaradamente. “The Washington Post” fez contas e, nos primeiros nove meses, o político mais influente do mundo mentiu uma média de cinco vezes por dia, num total de “1318 alegações falsas ou enganosas”. Nas sete semanas que antecederam as eleições para o Congresso de 6 de novembro passado, a média disparou para 30 mentiras por dia.
Catapultado por uma narrativa assente em “notícias falsas” e “factos alternativos”, Trump declarou guerra aos media tradicionais rotulando-os “inimigos do povo”. Quebrou a tradição e tem faltado ao jantar anual dos correspondentes na Casa Branca.
Trump diz coisas que gostava que fossem verdade e acredita que podem tornar-se verdade se não parar de as repetir. Numa das mentiras mais persistentes, diz que venceu o voto popular “porque milhões de ilegais votaram em Hillary”. Os factos dizem que teve 63 milhões de votos e Hillary 66.
“Para a sua narrativa, os factos só atrapalham”, diz Germano Almeida. “Usa e abusa dos exageros, da falta de rigor, das falácias e das mentiras objetivas para gerar perceções e provocar emoções — sobretudo, o medo.”

MANIPULADOR
Vale tudo para mobilizar
Entre os poucos ataques terroristas ocorridos nos EUA após o 11 de Setembro, os mais mortíferos não foram realizados por estrangeiros chegados de países muçulmanos, como Trump quis fazer crer quando proibiu a entrada no país a cidadãos de Irão, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen. “A grande ameaça à segurança dos americanos chama-se posse de armas e tem nos próprios americanos os principais autores dos maiores massacres dos últimos anos.” A medida é pois demagógica. Não impediria os atentados mais graves, “liberta demónios e explora medos primários”, diz o analista. “Trump manipula para manter mobilizada a sua base de apoio. Se perde, declara vitória. Se perde estrondosamente, anuncia um tremendo êxito”, mesmo contra factos.

SUPREMACISTA
Ku Klux Klan dá jeito
A 11 de agosto de 2017, Trump foi posto à prova. Em Charlottesville (Virgínia), uma marcha da extrema-direita saiu à rua, empunhando armas de fogo e gritando slogans racistas. Um protesto de sinal contrário foi ao seu encontro e a violência fez manchetes. Trump manteve-se equidistante, criticando “os dois lados”. Ao não condenar o racismo, foi condescendente em relação ao Ku Klux Klan (KKK).
“No essencial, Trump não é um extremista, mas usa o extremismo por motivos instrumentais. Sem admitir que é racista e que vê a maioria branca (em regressão nos EUA) como o ‘poder dominante’, sustentou toda a sua narrativa de campanha numa América branca, rural, avessa à diversidade, que vê com maus olhos a ascensão das minorias. Não tendo pedido o apoio do KKK, também não o rejeitou.”
Duas semanas após Charlottesville, Trump concedeu o primeiro indulto presidencial. O beneficiário foi um antigo xerife, Joe Arpaio, preso por discriminação racial e violação dos direitos civis dos latinos no Arizona.

EGOCÊNTRICO
Ver o mundo pelo umbigo
A 25 de setembro passado, quando discursou na Assembleia Geral da ONU, Trump pôs o plenário a rir. “Em menos de dois anos, a minha Administração realizou mais do que quase todas as Administrações na história do nosso país.” A gargalhada revelou que o mundo não o leva a sério e que o 45º Presidente chega a ser um embaraço para o país mais poderoso do mundo.
Com Trump, a política americana parece ser um universo paralelo em que mais importante do que a realidade o que conta é a perceção que o Presidente tem dela — um Presidente com tiques ditatoriais e instintos vingativos. O autor recorda outro episódio egocêntrico: “A quem agradeceu Trump no Dia de Ação de Graças? Aos militares em missão? Aos veteranos de guerra? A quem pratica ação social? Nada disso: agradeceu… a si próprio”.

INSTÁVEL
Colaboradores às aranhas
Trump não tem aliados nem inimigos fixos. Tem interlocutores com quem negoceia e, para o empresário, até a política internacional é negociável. Exemplo disso foi a cambalhota na relação com a Coreia do Norte. “Mesmo que da Cimeira de Singapura [12 de junho de 2018] tenha saído uma mão-cheia de nada, foi uma vitória simbólica de Trump”. Nove meses antes, o mundo parecia à beira de uma guerra nuclear, com ele a ameaçar “destruir totalmente” o país de Kim Jong-un.
Trump não tem problema em passar de isolacionista a intervencionista quando lhe convém. Essa instabilidade desnorteia quem o acompanha. “Já perdeu todos os elementos que conferiam alguma credibilidade à sua Administração. Disse que ia mandar retirar do Afeganistão, depois voltou atrás. Disse que ia retirar imediatamente da Síria e agora John Bolton [conselheiro para a segurança] e Mike Pompeo [diretor da CIA] andam no terreno, às aranhas, a tentar explicar que afinal não é bem assim.”

IMPREPARADO
Aversão a briefings
Nos primeiros 100 dias, Trump deu 33 entrevistas, 13 delas à conservadora Fox News, o seu briefing matinal. “Ele não tem paciência para ler papers. Atira números e sentenças que não correspondem à realidade. À custa disso, foi alvo de ira, crítica ou chacota de líderes internacionais.” No mesmo período, publicou 507 tweets — apagou 11. Perante 57 milhões de seguidores, repete até à exaustão que a “América está primeiro” e que a via é o protecionismo comercial e o reforço de fronteiras.
Trump despreza tudo o que é direito e ordem internacional. Retirou os EUA de vários tratados — o de Paris sobre as Alterações Climáticas e o acordo sobre o programa nuclear iraniano originaram mais barulho —, elogiou o ‘Brexit’, desvalorizou a ONU e a NATO e mostrou-se avesso a grandes acordos comerciais. Sobre a Parceria Transpacífico (de onde saiu) disse que revertê-la era “um exercício digno de grandes mestres do xadrez, e nos EUA não temos nenhum”. Ora, os EUA têm mais do que 90 — só a Rússia tem mais.

ILUSTRAÇÃO JOHN KACHIK

INFANTIL
Sem “adultos” por perto
Segundo um estudo da Universidade Carnegie Mellon (Pensilvânia), Trump é o Presidente com vocabulário mais básico. Ao nível da complexidade gramatical, só perde para George W. Bush. Para ele, tudo é “fantastic”, “disaster”, “great”, “bad”. Tem uma visão maniqueísta do mundo e atitudes de bullying perante rivais políticos. São exemplos “Crooked Hillary” (“Hillary desonesta”), “Little Marco” (Marco Rubio não é alto). Do herói de guerra John McCain, disse ser um “falhado” por ter sido capturado no Vietname.
“Está documentado nos livros de Bob Woodward e Michael Wolff e foi referido no artigo de opinião anónimo publicado, em setembro, em “The New York Times” (“I am part of the resistance inside the Trump Administration”): Trump não consegue manter o foco por mais de cinco minutos. Faz birras. Não revela bom senso ou grande empatia. Tem um temperamento irascível. Parece uma criança. O pior é que tendo saído o general James Mattis [ex-secretário da Defesa], já não há adultos na sala para o travar.”

RUDE
Sem sentido de Estado
O Partido Republicano, que deu cobertura política a Trump, é também o partido de Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Dwight Eisenhower e Ronald Reagan. Mas ao contrário destes, Trump não tem sentido de Estado. Revelou informação secreta, “mandou palpites” no Twitter sobre acontecimentos noutros países e desrespeitou quem fez a História do país.
Na receção a Mauricio Macri, em abril de 2017, tentou convencer o homólogo argentino a não condecorar Jimmy Carter, pela promoção dos direitos humanos durante a ditadura militar. “Uma atitude destas vai totalmente contra a tradição de respeito entre Presidentes, independentemente de ideologias”, recorda Germano Almeida. Bill Clinton amnistiou Richard Nixon. George W. Bush chamou Clinton em alturas dramáticas, como o furacão “Katrina” ou o terramoto no Haiti. Já Trump é obcecado em destruir o legado de Barack Obama.

OBAMAFÓBICO
Obsessão pessoal
É uma certeza de Trump desde o primeiro dia na Casa Branca: a presidência Obama foi “um desastre”, o futuro será “maravilhoso”. A própria cerimónia de tomada de posse, em Washington D.C., foi objeto de disputa com Trump a insistir que foi o evento com mais público de sempre e as fotos a provarem que, em frente ao Capitólio, havia mais gente a aplaudir Obama. “É muito mais do que uma divergência política, é uma obsessão pessoal”, comenta o analista. “O Sistema de Saúde é o melhor exemplo: Trump não é contra a existência de um plano federal. O que quer é deitar abaixo o ObamaCare e fazer um TrumpCare.”

ENTERTAINER
Na política como na TV
Os norte-americanos já tinham eleito um ator de westerns: Ronald Reagan. Trump chegou lá após 15 anos a apresentar um reality show. Com a mesma facilidade com que despedia concorrentes no “The Apprentice”, despediu membros do Governo e da estrutura do Estado. “Trump é uma espécie de artista de variedades que vende a banha da cobra em forma de receita populista sexy pronta a enganar eleitores vulneráveis e mal informados”, conclui Germano Almeida.

Dito tudo isto, nada fez Trump de positivo? “A economia. Os EUA estão com o desemprego mais baixo do último meio século. A tendência começou no final de 2010, no primeiro mandato de Obama, e Trump manteve-a.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 19 de janeiro de 2019

Cortar com a Rússia para amarrar a China

Donald Trump denunciou mais um tratado, este sobre armas nucleares assinado com a União Soviética. O Presidente dos EUA está aberto à renegociação, mas quer a China dentro

Donald Trump e Vladimir Putin têm encontro marcado a 11 de novembro, em Paris. À margem das comemorações do 100º aniversário do fim da I Guerra Mundial, os Presidentes dos EUA e da Rússia irão abordar a última rutura decidida pelo primeiro, que alvejou o segundo como um míssil teleguiado: o rasgar do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF, sigla inglesa), assinado por Ronald Reagan (EUA) e Mikhail Gorbatchov (URSS) na reta final da Guerra Fria.

“Não estou certa de que seja uma rutura. Trump quer negociar com a Rússia um novo acordo. Não devemos ver este rasgar de tratado como um fim em si, mas o princípio de outra coisa”, comenta ao Expresso a investigadora Diana Soller, do Instituto Português de Relações Internacionais. “O Tratado é muito menos abrangente do que possamos pensar, só contempla armas nucleares de alcance intermédio. Mas Trump conseguiu o que queria: dar um passo simbólico relativamente à Rússia numa tentativa de desfazer tratados que considera nocivos para os EUA.”

A desconfiança de Washington em relação ao incumprimento por parte de Moscovo não resulta de descobertas recentes. Em fevereiro, o documento “Nuclear Posture Review”, do Departamento de Defesa, já alertava para a “decisão da Rússia de violar o Tratado INF”, através da “produção, posse e teste de um míssil de cruzeiro lançado do solo” (ver infografia). Trump explodiu agora. Porquê?

Ameaças e incentivos

“Trump quer um novo tratado não só com a Rússia, mas que inclua a China”, que considera ser o principal rival dos EUA, descodifica Soller. Por um lado, o americano quer conter a Rússia do ponto de vista nuclear, por outro considera que não faz sentido, no sistema internacional de hoje, ter um tratado a dois quando o futuro é a três: EUA, Rússia e China são os atores do futuro.

Pequim reagiu através de Hua Chunying, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que defendeu que a retirada americana do INF “terá um efeito multilateral negativo”. Caberá a Trump “atrair a China com ameaças e incentivos”, diz a investigadora, para que Pequim saiba o que esperar se decidir ficar fora ou alinhar num novo tratado.

“As suspeitas levantadas por Trump sobre um alegado desrespeito de Moscovo não serão totalmente infundadas, mas o modo como o anúncio foi feito foi tudo menos tranquilizador”, diz ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Gorbatchov chamou-lhe ‘um erro que revela falta de sabedoria’. Mas depois do modo submisso e, para muitos, humilhante como Trump se apresentou ao lado de Putin em Helsínquia, esta demarcação terá sido estratégica.”

A 16 de julho, na capital finlandesa, a cimeira entre ambos causou desconforto nos EUA por Trump ter posto em causa a competência dos seus próprios serviços secretos na investigação à interferência russa nas eleições de 2016. Mas se dali Trump saiu diminuído, em Paris será ele a bater as cartas.

INFOGRAFIA DE JAIME FIGUEIREDO

TRUMP E A ARTE DE RASGAR TRATADOS

Para o 45º Presidente, os Estados Unidos andam a ser enganados há décadas. Acordos que não beneficiem o país são para romper

Donald Trump não vai a meio do mandato e já atirou para o lixo cinco tratados internacionais. “Ele não se revê na ordem liberal que promove grandes acordos e se funda em organizações multinacionais como a ONU e a NATO”, diz o analista Germano Almeida. “Vê as relações internacionais como um jogo de soma zero em que para os EUA saírem a ganhar outros têm de ficar a perder.”

O mote foi dado logo ao terceiro dia de presidência, 23 de janeiro de 2017, quando os EUA saíram da Parceria Transpacífica. O projeto seguiu sem os americanos, mas com 11 países a bordo. “Em vez de colocar os EUA como jogador crucial na região, abriu via verde para acelerar o crescimento da China”, comenta Almeida. “Trump teve vistas muito curtas”, complementa a investigadora Diana Soller. “Este era também um tratado de segurança que isolava a China.”

Mentalidade nova e coerente

Outro acordo rompido este ano foi o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, da era Bill Clinton. México e Canadá aceitaram uma nova versão, nascendo uma espécie de NAFTA 2.0. “Terá sido a jogada mais bem conseguida de Trump dentro do seu ‘mantra’ de que é preciso renegociar os ‘maus acordos’ feitos pelos antecessores democratas Obama e Clinton”, diz Almeida.

Obcecado por destruir o legado de Obama, Trump reverteu duas grandes conquistas do 44º Presidente. A 1 de julho de 2017, saiu do Acordo de Paris relativo às alterações climática. “Terá sido o gesto mais perturbador e potencialmente danoso para o prestígio da América no mundo”, diz o analista. A 8 de maio deste ano, retirou os EUA do acordo sobre o programa nuclear do Irão. “Foi o ato mais definidor desta Administração. A partir de agora, como acreditar naquilo em que os governos americanos assinam?”

Compreender Trump implica aceitar que na Casa Branca há hoje uma mentalidade assente em duas coerências. Soller descreve-as: “Uma: qualquer acordo que não esteja a beneficiar os EUA está sujeito a ser rasgado. Outra: a unidade mais importante da política internacional voltou a ser o Estado e não as organizações ou o multilateralismo”.

(Foto: Mikhail Gorbachov (à esquerda) e Ronald Reagan, chefes de Estado da União Soviética e dos Estados Unidos, assinam o Tratado INF, a 8 de dezembro de 1987, na East Room da Casa Branca, em Washington D.C. WHITE HOUSE PHOTO OFFICE)

Artigo publicado no Expresso, a 27 de outubro de 2018 e republicado parcialmente no “Expresso Online” no mesmo dia. Pode ser consultado aqui

Regresso de Obama à política é um presente envenenado

Protagonismo do ex-Presidente adia renovação do Partido Democrata e ajuda Trump

Retrato oficial de Barack Obama, no seu primeiro mandato PETE SOUZA / WIKIMEDIA COMMONS

Barack Obama está de volta aos palcos da política americana. Trata-se de uma boa notícia para quem aprecia os dotes de tribuno do ex-Presidente (2009-2017) e a sua personalidade carismática, mas não é necessariamente tão boa para… o seu próprio partido. “Há uma urgência entre os democratas de prepararem uma estratégia forte e vencedora para travar a reeleição de Donald Trump em 2020. E ainda não se percebe que estratégia é essa”, comenta ao Expresso o analista de política americana Germano Almeida. “Por muitas saudades que quem gostava de Obama sinta dele, não é positivo que esse sentimento se prolongue com o próprio no grande palco. É preciso que surjam novas vozes democratas. E sempre que Obama fala está a atrasar esse processo de renovação.”

O 44º Presidente dos EUA retomou a atividade política no início de agosto, dando apoio público às candidaturas de 81 democratas, de 13 estados, às eleições para o Congresso de 6 de novembro (ver caixa). “Confio que, juntos, possam fortalecer este país que amamos, recuperando oportunidades, consertando as nossas alianças e posicionando-nos no mundo, e preservando o nosso compromisso fundamental com a justiça, a responsabilidade e o estado de direito. Mas, primeiro, precisam dos nossos votos.” Está prevista uma segunda leva de apoios para mais tarde.

A reentrada foi confirmada sábado passado, com um discurso na Universidade de Illinois, onde Obama se referiu aos “tempos extraordinários” e “perigosos” que vivemos. “Isto não começou com Trump. Ele é um sintoma, não a causa. Ele está apenas a capitalizar os ressentimentos que os políticos têm atiçado durante anos”, disse. “Mas a boa notícia é que dentro de dois meses teremos a oportunidade — não a certeza, mas a oportunidade — de restaurar alguma aparência de sanidade na nossa política.”

Após quase 20 meses de Trump na Casa Branca, “Obama está preocupado”, continua Almeida, autor de dois livros sobre o ex-Presidente (“Histórias da Casa Branca”, 2010 e “Por Dentro da Reeleição”, 2013). “Foi um Presidente singular em muitas coisas — pela sua cor e juventude, pela sua origem — e conseguiu ganhar. E foi também dos poucos presidentes com uma preocupação em relação à História norte-americana, ao legado, preocupação por estudar os seus antecessores. Tem a noção da gravidade que representa o facto de lhe ter sucedido Donald Trump”, de perfil empresarial, nada político nem intelectual, que ainda em 2015 produzia e apresentava um reality-show (“The Apprentice”).

Obama falava, Trump adormeceu

“Esta intervenção de Obama não tem que ver com ambições pessoais de voltar à grande cena política”, continua Almeida. “Não há uma tradição, na política norte-americana, de um ex-Presidente voltar a um cargo. Há uma limitação que vem do tempo de Franklin D. Roosevelt [que foi eleito quatro vezes], segundo a qual ex-Presidentes que tenham feito dois mandatos não voltam sequer a tentar ser reeleitos. A ambição de Obama não é essa. Mas há uma clara leitura da parte dele de que estes estranhos tempos ‘trumpianos’ são tão excecionais que talvez o forcem a ter uma intervenção na sociedade civil e na vida política maiores do que é normal num ex-Presidente.”

Às palavras de Obama na Universidade de Illinois — onde, pela primeira vez desde que deixou a Casa Branca, se referiu explicitamente a Trump —, o atual Presidente dos Estados Unidos, cuja principal característica parece ser ‘destruir tudo o que Obama construiu’, reagiu a contento dos fãs: “Eu vi [o discurso], mas adormeci”, disse no Dakota do Sul, durante uma ação de campanha de recolha de fundos visando a sua reeleição, em 2020.

“Trump explora bem os sentimentos mais primários da sua base ao ridicularizar e atribuir a Obama uma suposta intelectualização desligada do mundo real”, comenta Germano Almeida, que está a ultimar um livro sobre Donald Trump. Na cabeça do magnata, o mundo real é o seu.

Candidato ‘fora da caixa’

Trump ainda não cumpriu meio mandato, mas já anunciou a candidatura a um segundo. No campo democrata, o rosto que lidera as preferências às presidenciais de 2020 é o de Bernie Sanders, senador do Vermont que perdeu as últimas primárias para Hillary Clinton. “Os democratas têm um problema geracional”, defende Almeida. “Nas sondagens sobre quem irá ser o candidato democrata, a média de idades é assustadora, acima dos 70 anos. Em 2020, Sanders terá 79 anos. Joe Biden, que foi vice-presidente de Obama e surge em segundo lugar, terá 77. Em alguns estudos, Hillary Clinton aparece com algumas condições para ser candidata, mas por tudo o que aconteceu não vai tentar uma terceira vez”, palpita.

“Os democratas estão a ser vítimas do êxito dos anos Obama e do facto de Hillary ter sido herdeira dos anos Obama e Clinton. Duas grandes estrelas dominaram o partido nas últimas décadas: Obama e os Clintons. No dia 8 de novembro de 2016, ambas terminaram a sua carreira política: Obama por limitação de mandatos e Hillary pela derrota. E assim os democratas atrasaram a sua renovação.”

Escolher um candidato pode implicar, para os democratas, pensar ‘fora da caixa’. “Talvez não serem tão convencionais e clássicos. Os republicanos abriram essa caixa de Pandora ao nomearem alguém como Trump, sem passado político e que dizia mal dos políticos”, recorda o analista. No universo democrata, potenciais candidatos com um perfil mais empresarial são Howard Schultz, jubilado em junho da liderança da Starbucks, e o multimilionário Michael Bloomberg, autarca de Nova Iorque entre 2002 e 2013 (fez dois mandatos como republicano e o terceiro como independente).

O jornal britânico “The Times” escreveu esta semana que o antigo mayor quer concorrer pelo Partido Democrata (a que já pertenceu no passado) em 2020, quando tiver 78 anos. Há três meses, aplicou 80 milhões de dólares (69 milhões de euros) da sua fortuna pessoal na campanha de novembro, para tentar inverter a maioria republicana no Congresso — etapa crucial da estratégia democrata para recuperar a Casa Branca.

CONGRESSO: ‘A BATALHA DAS MIDTERMS’

A 6 de novembro, os americanos vão a votos nas midterms, assim chamadas por serem eleições para o Congresso a meio do mandato do Presidente. Em causa está a eleição dos 435 assentos da Câmara dos Representantes (câmara baixa) e de um terço do Senado (33 de 100 lugares da câmara alta). Hoje os republicanos são maioritários: 236 contra 193 democratas na Câmara (há seis lugares vagos) e 51 contra 49 no Senado. Na Câmara os democratas têm muito a ganhar, por serem minoritários, mas no Senado têm muito a perder: dos 33 lugares que vão a jogo, 25 estão ocupados por democratas e só oito por republicanos, havendo ainda eleições especiais para substituir um democrata e um republicano que se demitiram. Para os democratas capitalizarem no Senado têm de defender os seus 25 e conquistar alguns aos republicanos.

Artigo publicado no Expresso, a 15 de setembro de 2018 e republicado no “Expresso Online”, no mesmo dia. Pode ser consultado aqui

Retrato de Putin na galeria dos Presidentes… norte-americanos

Uma fotografia do líder russo surgiu no Capitólio de Denver, no lugar destinado a uma fotografia de Trump. Brincadeira ou protesto?

E depois de Barack Obama, o Presidente dos Estados Unidos que se segue é… Vladimir Putin. Pelo menos a atentar na sucessão de retratos que, ainda que brevemente, adornaram a galeria presidencial do Capitólio da cidade norte-americana de Denver, estado do Colorado.

A foto do chefe de Estado da Rússia foi colocada num tripé por baixo do retrato de Barack Obama e de um espaço em branco na parede destinado ao retrato de Donald Trump, numa área que pode ser visitada pelo público.

Foi posteriormente retirada daquela galeria, situada no terceiro andar do edifício, mas não sem antes o senador estadual Steve Fenberg (democrata) ter registado o insólito para a posteridade.

A CNN diz que a foto de Putin foi ali colocada na quinta-feira passada por “um brincalhão desconhecido”, citando a organização Colorado Citizens for Culture, responsável pela recolha de donativos para os retratos presidenciais.

Segundo a publicação “Huffington Post”, até este episódio, a associação ainda não tinha recebido um único dos 10 mil dólares (8600 euros) necessários para mandar fazer o retrato de Trump, enquanto quer no caso de George W. Bush quer no de Barack Obama, a totalidade do dinheiro demorou apenas quatro semanas a aparecer.

Mas, com esta “ajuda de Putin”, a sorte de Trump começa a mudar… Até ao meio-dia de sábado, dois doadores já se tinham chegado à frente para contribuir para o retrato do 45.º Presidente dos EUA, com um total de 45 dólares (39 euros).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de julho de 2018. Pode ser consultado aqui