Uma coligação de dez países do Médio Oriente e Norte de África, liderada pela Arábia Saudita, desencadeou a operação “Tempestade Decisiva” contra o Iémen. Bombardeamentos aéreos têm visado posições houthis em várias partes do país
Os houthis são uma minoria iemenita de credo xiita que controlava a capital, Sanaa, desde setembro. Os Estados Unidos apoiam a operação militar. Já o Irão, que é um aliado dos houthis, condenou o ataque, dizendo tratar-se de um “passo errado” que pode agravar a crise em que o país vive desde o verão.
O Iémen é um dos países mais pobres do mundo e alberga a Al-Qaeda na Península Arábica, o ramo mais ativo da organização terrorista. Reivindicou o ataque contra o “Charlie Hebdo”, por exemplo.
Geograficamente, o país situa-se junto ao Estreito de Aden, por onde passa uma das mais importantes rotas comerciais por mar.
Razões mais do que suficientes para colocar todo o mundo em alerta.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 26 de março de 2015. Pode ser consultado aqui
Refugiado em Aden, Abed Rabbo Mansour Hadi fugiu para parte incerta, ameaçado pelo avanço dos rebeldes houthis. Horas antes, apelou à ONU que autorize uma intervenção militar no país
O Presidente do Iémen fugiu esta quarta-feira do palácio onde vivia refugiado, na cidade de Aden (sul). Abed Rabbo Mansour Hadi seguiu para parte incerta, após os rebeldes houthis (minoria xiita que controla a capital desde setembro) terem avançado para sul e tomado a base aérea Al-Annad, a cerca de 60 quilómetros da cidade portuária de Aden, temporariamente transformada na capital do país.
Esta instalação militar era usada por tropas norte-americanas e europeias e era crucial para o desenvolvimento de operações com drones (aviões não tripulados) contra a Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA), instalada no leste do Iémen.
Recentemente, os Estados Unidos retiraram cerca de 100 militares ali estacionados após a AQPA ter conquistado uma cidade nos arredores. Também o Reino Unido retirou o seu pessoal.
Segundo a AFP, citando um membro da guarda presidencial, o Presidente fugiu para o estrangeiro, a bordo de um helicóptero. Controlada pelos houthis, a televisão estatal anunciou uma recompensa de 20 milhões de riais iemenitas (85 mil euros) pela captura do Presidente.
Quem não conseguiu escapar foi o ministro da Defesa, Mahmoud al-Subaihi, detido pelos houthis na cidade de Lahj (sul), onde decorrem combates entre grupos rivais.
As forças leais ao Presidente estavam em estado de alerta após a conquista, pelos houthis da cidade de Taiz, no domingo passado, considerada a “porta de entrada” no sul do Iémen. Segundo a Associated Press, milícias e unidades militares afetas ao Presidente “fragmentaram-se”, facilitando assim o avanço dos houthis.
Sauditas reforçam dispositivo militar junto à fronteira
Na terça-feira, numa carta enviada ao Conselho de Segurança da ONU, o Presidente iemenita instou o órgão a autorizar uma intervenção militar no Iémen para travar “a agressão dos houthis”. Hadi também pediu ajuda ao Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita e as cinco petromonarquias) e à Liga Árabe.
A ofensiva houthi para sul foi declarada após os atentados suicidas, na semana passada, contra duas mesquitas frequentadas pelos houthis em Sana’a. O líder do grupo, Abdel-Malik al-Houthi, ordenou a mobilização geral das suas forças com o objetivo de combater a AQPA e outros grupos armados.
O Iémen é um dos países mais pobres do mundo e corre sérios riscos de mergulhar numa guerra civil generalizada, que pode arrastar toda a vizinhança: os houthis são xiitas como o poder no Irão (de quem recebem apoio), mas todas as lideranças da Península Arábica são sunitas.
Duas fontes do Governo dos EUA avançaram à agência Reuters que a Arábia Saudita está a deslocar equipamento militar pesado para junto da sua fronteira com o Iémen. “Se o golpe houthi não terminar pacificamente, nós tomaremos as medidas necessárias para proteger a região”, disse o ministro saudita dos Negócios Estrangeiros, Saud al-Faisal.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de março de 2015. Pode ser consultado aqui
Uma arquiteta portuguesa que viveu três meses no país conta ao Expresso a sua experiência
O Iémen está sem governo, sem Presidente, tem a capital nas mãos de rebeldes xiitas, o sul controlado por independentistas e o leste por tribos e pela Al-Qaida. Um cenário de caos que levanta a questão da integridade do país, mas não demove a arquiteta Milena Raposo da vontade de regressar ao Iémen — que visitou pela primeira vez em 2013 para estudar árabe e observar a arquitetura tradicional, nomeadamente as construções em terra, por vezes de 11 pisos, da cidade de Shibam, “a Manhattan do deserto”.
“Não tinha consciência se podia, ou não, ir a Shibam”, conta ao “Expresso”. Milena acabaria por ver os seus planos frustrados. Shibam fica na região de Hadramaut, no leste, onde está implantada a Al-Qaida. “Para um estrangeiro, é muito difícil viajar no Iémen, por razões de segurança. O mais provável é que não aconteça nada, mas as autoridades não permitem. Quando se está em Sana’a, é preciso uma autorização especial para sair da cidade. Há que ir à polícia, dizer com quem se vai, que vamos fazer, por quanto tempo, e eles podem dar autorização, ou não. A mim não deram.”
Em 2013, Milena esteve no Iémen quase dois meses. No ano passado, voltou para uma estada de três semanas, quando manifestações dos huthis já enchiam as ruas de Sana’a e a tomada da capital por esses rebeldes xiitas, que dura até hoje, estava iminente. “Era tudo muito estranho. Da primeira vez, cheguei a Sana’a às quatro da manhã. O motorista da escola de línguas foi buscar-me ao aeroporto, num carro que parecia ter sido abalroado por um tanque. Levava um filho pequeno, porque não era próprio andar de carro sozinho com uma mulher que não fosse da sua família. É um princípio.”
Milena optou por usar sempre a “abaya” (túnica longa que cobre todo o corpo) e, na cabeça, o “hijab” (lenço). Não tinha de o fazer, ainda para mais sendo estrangeira. “Eu podia andar vestida à ocidental, como vi algumas estrangeiras fazerem, mas para eles pareceria estranho. Ficam muito contentes quando a pessoa tenta integrar-se e aprecia os seus valores. Significa que se identifica com eles de alguma forma. E sobretudo, apreciam que se cubra o cabelo, porque para eles não é normal verem as mulheres na rua sem o “hijab”. Todas essas regras culturais e religiosas acontecem de maneira natural. Não senti que fossem imposições, em contexto nenhum. É isso que faz deles um povo tão bonito.”
No Iémen, em termos profissionais, nada está vedado às mulheres, excetuando tudo o que tenha a ver com um papel mais ativo na religião, incluindo a profissão de “muezim” — aquele que sobe ao minarete para chamar os fiéis à oração (nas mesquitas ocidentais e em muitos países muçulmanos, o chamamento é feito por gravações). “No governo que se demitiu na semana passada, havia seis ministras. Uma delas era a porta-voz. Na política, não há restrições ao papel da mulher.”
Por ser estrangeira — “à mulher estrangeira, é permitido frequentar os mundos masculino e feminino” —, Milena pode assistir a “reuniões de qat” de homens (também as há de mulheres), encontros informais que muito a cativaram. “A maior parte dos iemenitas não trabalha a partir do meio da tarde. Então, até ao anoitecer, grupos de amigos reúnem-se para discutir, pacientemente, política, cultura e religião.
Estes encontros acontecem no “mafraj”, normalmente uma sala comprida no último piso da casa, com janelas enormes para a cidade e almofadas no chão a toda a volta, onde as pessoas se sentam, com uma pequena mesa à frente de cada um, com água e um ramo de “qat” — uma planta que vão mascando e que é um estimulante da memória e ajuda à conversação. E passam horas assim.”
Os drones e a Palestina
Milena percebeu que os iemenitas se sentem incompreendidos pelo Ocidente e vivem o problema da Palestina como “uma grande ferida”. “Eles dizem: ‘Os nossos irmãos árabes estão a ser expulsos da sua própria terra’”.
Constatou também que a cooperação entre o Iémen e os Estados Unidos em matéria de combate ao terrorismo está a ter efeitos contraproducentes. “Aos poucos, se a Al-Qaida tem vindo a ganhar alguns adeptos iemenitas, isso decorre da revolta das pessoas perante os ataques dos EUA com drones. Os civis sofrem com isso. Quem perde familiares, ou mesmo famílias inteiras no bombardeamento de um casamento, como já aconteceu, sente uma grande revolta.”
Quando Milena pensa no Iémen e ouve notícias de que o país corre o risco de voltar a partir-se em dois, como acontecia até 1990, esta arquiteta de 35 anos acredita que isso não será positivo. “Apesar de haver muitas identidades culturais distintas, penso que o país sobreviveria melhor como território único e com uma gestão única. As regiões conseguiriam compensar-se. De outra forma, haverá sempre regiões muito pobres e vulneráveis. Não sei o que vai acontecer, mas acho que unificado, o Iémen teria mais força.”
Conhecida como “a Manhattan do deserto”, Shibam fica na região de Hadramaut, no leste, onde está implantada a Al-Qaida JIALIANG GAO WWW.PEACE-ON-EARTH.ORG / WIKIMEDIA COMMONS
UM PALCO DA PRIMAVERA ÁRABE
QUE ACABOU EM MÃOS JIADISTAS
1. PORQUE É O IÉMEN TERRITÓRIO FÉRTIL PARA A AL-QAIDA?
Marie-Christine Heinze Presidente do Centro de Investigação Aplicada em Parceria com o Oriente (CARPO), Berlim
Há muitas razões, a mais importante das quais é a alta taxa de desemprego entre os jovens e os baixos níveis de educação. Há também a geografia acidentada e a falta de controlo estatal fora das principais cidades. Tudo isto, combinado com a deterioração da situação de segurança, permitiu à Al-Qaida, através das suas redes locais, tirar partido dos conflitos na região. Os locais também usam a Al-Qaida para fomentar interesses próprios, ainda que não concordem com a sua ideologia. Fazem-no para terem mais homens do seu lado a lutar contra um inimigo comum. Nos últimos meses, o avanço dos huthis sobre áreas sunitas levou locais a juntarem-se à Al-Qaida para combater os huthis. Muitos consideram os huthis a única força com vontade e capacidade para lutar contra a Al-Qaida; outros pensam que a Al-Qaida é a única força capaz de combater os huthis. A Al-Qaida tem usado o medo provocado pelo avanço huthi para espalhar uma retórica sectária.
2. QUE RESTA DA PRIMAVERA ÁRABE NO PAÍS?
Ana Santos Pinto Investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), Lisboa
Os acontecimentos de 2011 (substituição do Presidente Saleh pelo vice-presidente Hadi) consubstanciaram-se numa alteração de líder, mas não de regime. Os sucessores de Saleh são figuras ligadas ao regime anterior, mantendo o antigo líder a mesma influência junto da elite dominante. Isto significa que Saleh não precisa de regressar, porque “esteve sempre lá”. A regressar será com base numa narrativa de unidade nacional e em resposta aos receios de desintegração do país. Pouco mudou para a população com a Primavera Árabe, existindo agora um acréscimo da conflitualidade face à posição assumida pelos rebeldes huthis. Se estivermos perante um regime sectário — baseado no afastamento e subordinação de comunidades minoritárias — cria-se no país um contexto favorável a um palco de conflitualidade violenta como no Iraque e na Síria, e possivelmente com ligações aos mesmos atores, nomeadamente ao Estado Islâmico.
QUEM QUER O QUÊ
E QUEM OS APOIA
PODER Presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi Sucedeu ao ditador Ali Abdullah Saleh, em 2011, após grandes manifestações populares em Sana’a, no contexto da Primavera Árabe. Enfraquecido internamente após o avanço dos rebeldes huthis sobre a capital, em setembro, viu-se forçado à demissão, que apresentou a 22 de janeiro, na sequência da investida dos huthis sobre o palácio presidencial. Aliado dos Estados Unidos na guerra contra o terrorismo, autorizou, à semelhança do seu antecessor, que os norte-americanos bombardeassem com drones (aviões não tripulados) no interior do país.
REBELDES Huthis
Etnia minoritária, professa a interpretação xiita do Islão num país maioritariamente sunita. Historicamente concentrados no Norte do Iémen, avançaram em setembro sobre a capital, Sana’a — que controlam —, após o governo cortar subsídios aos combustíveis, no âmbito de uma negociação com o FMI, originando a subida do preço da gasolina em 60% e do gasóleo em 95%. Huthis e Al-Qaida são inimigos: os primeiros são aliados do Irão, que os financia, e os segundos seguem a interpretação fundamentalista sunita adotada pela Arábia Saudita, grande rival do Irão no Médio Oriente. A separá-los está ainda o facto de os huthis atuarem como guerrilha e terem uma agenda local, ao passo que a Al-Qaida é um grupo terrorista com objetivos globais.
SEPARATISTAS Movimento do Sul
Quer que o Sul do Iémen volte a ser independente como acontecia antes da unificação do país, em 1990, com a sua capital na cidade portuária de Aden. Na passada segunda-feira, fações afetas ao Movimento Sulista criaram, em Aden, o Órgão Sulista Nacional para a Libertação e Independência, que congrega partidos políticos, organizações estudantis e sindicatos. Ao mesmo tempo que constitui uma tentativa para unificar diferentes sensibilidades dentro do Movimento do Sul, revela que entre as hostes pró-secessionistas a unidade é um processo em construção. “Não há Governo nem Presidente. É hora de o povo do Sul perceber o que quer, isto é, a independência”, disse ao “Yemen Times” Abdullah Rashid, um dos fundadores do Movimento Sulista. “A unidade com o Iémen do Norte acabou após a guerra de 1994.”
TERRORISTAS Al-Qaida na Península Arábica
Também conhecida por Al-Qaida no Iémen, reivindicou o recente atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris. Fortemente implantada nas regiões tribais de Hadramaut, no Leste do país, atua internamente como grupo terrorista, tendo já operado na capital. A 21 de maio de 2012, um ataque suicida contra uma parada militar, em Sana’a, provocou mais de 100 mortos. Foi reivindicado pelo grupo Ansar al-Sharia, da constelação Al-Qaida.
(Foto principal: Sana’a, a capital iemenita, em tempo de paz (janeiro de 2009) FERDINAND REUS, DE ARNHEM, HOLANDA / WIKIMEDIA COMMONS)
Artigo publicado no “Expresso”, a 31 de janeiro de 2015
É dos países mais pobres do mundo, acolhe o braço mais ativo da Al-Qaida e a capital foi tomada por rebeldes
Quarenta e nove mortos, na quinta-feira, após um ataque suicida em Ibb. Trinta e cinco mortos na véspera num atentado à bomba junto a uma academia de polícia em Sana’a. A violência dilacera o quotidiano do Iémen, que dista quase 6000 km de Portugal, mas cuja instabilidade deve ser encarada como uma ameaça próxima.
“Pode afetar o Ocidente de várias formas”, explica ao “Expresso” Marie-Christine Heinze, presidente do Centro de Investigação Aplicada em Parceria com o Oriente (CARPO), de Bona. “Por um lado, abre espaço ao crescimento e à prosperidade da Al-Qaida.” Sediada no Iémen, a Al-Qaida na Península Arábica é o braço mais ativo da organização terrorista.
“Por outro lado, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio mundial passa pelo Estreito Bab al-Mandab, que liga a Europa e a Ásia. Pode ainda afetar outros países do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, da qual o Ocidente depende em termos petrolíferos”, diz a especialista alemã.
Sobram também razões do foro interno que Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, enumera ao “Expresso”. “A ausência de um Estado estruturado, com capacidade de controlo soberano sobre todo o território, permite que este se torne ‘terreno fértil’ para a formação e treino de grupos extremistas e para o recrutamento de operacionais para serem utilizados no Médio Oriente ou noutras regiões.”
Atualmente, os iemenitas são o contingente nacional mais representado em Guantánamo — em termos globais, os nacionais do Iémen foram o terceiro maior grupo naquele centro de detenção de suspeitos de terrorismo dos EUA, a seguir a afegãos e sauditas.
“A esta falta de controlo do território”, continua a investigadora portuguesa, “acrescem os baixos níveis de desenvolvimento socioeconómico que tornam as populações vulneráveis à colaboração, por razões de sobrevivência, com grupos radicais e/ou de criminalidade organizada.”
Federalismo no papel
Desde 1990, quando Iémen do Norte (que fez parte do Império Otomano) e Iémen do Sul (antigo protetorado britânico) se reunificaram, que o país luta para se manter unido. A 10 de fevereiro passado, no âmbito da transição política que se seguiu à deposição de Ali Abdullah Saleh — o ditador deposto no contexto da Primavera Árabe —, um painel presidido pelo Presidente Abd Rabbuh Mansur al-Hadi e integrado por representantes dos principais partidos aprovou a transformação do Iémen numa federação de seis regiões, quatro no norte e duas no sul.
“A questão da separação ou, como proposto, do federalismo não está totalmente resolvida. O Governo, particularmente o Presidente Hadi, teve muitas oportunidades para criar mais confiança no Estado e nos atores políticos em Sana’a, mas infelizmente nem sempre as aproveitou”, comenta Marie-Christine Heinze. “Igualmente, o Movimento do Sul (pró-independência) não tem uma liderança unificada nem planos concretos para o estabelecimento de um Estado após a secessão.”
“Na ausência de um Estado estruturado, o potencial de desintegração é muito significativo”, diz Ana Santos Pinto. “Se não existir um sentimento de lealdade e reconhecimento nacional, a tendência é para a transferência de lealdades grupais, designadamente de natureza étnica.”
Combustíveis sobem 160%
A busca de reconhecimento político está na base da ofensiva de rebeldes huthis, pertencentes à minoria xiita, que, em setembro, avançaram sobre a capital, após uma subida de 160% dos preços dos combustíveis, que levou o povo às ruas.
Usando a cartada do custo de vida e apoiados materialmente pelo Irão, os huthis tomaram edifícios governamentais, a televisão pública, instalações militares e o aeroporto, mas deixaram o Presidente Hadi no poder. “Eles não querem a presidência”, explica Marie-Christine Heinze. “Preferem governar através de Hadi e deixá-lo assumir responsabilidades.”
O protagonismo dos huthis (xiitas) num país de maioria sunita “assume particular relevância num cenário de um potencial realinhamento regional no Médio Oriente”, conclui Ana Santos Pinto. “Esse ajustamento seria baseado na competição entre sunitas e xiitas, em que atores como o chamado Estado Islâmico, a Arábia Saudita e o Qatar (sunitas) e o Irão (xiita) disputam poder”.
Artigo publicado no “Expresso”, a 10 de janeiro de 2015
Presidente e rebeldes assinaram um acordo apelando ao fim das hostilidades, que provocaram mais de 100 mortos em três dias, e à formação de um novo Governo. Mas huthis a norte e separatistas a sul fazem temer pela unidade nacional do Iémen
O Governo do Iémen e os rebeldes huthis assinaram, este domingo, um acordo de paz visando o fim da crise política e dos confrontos nas ruas que provocaram mais de 100 mortos em três dias.
O documento prevê a formação de um novo Governo de unidade nacional e compromete o Presidente Abd-Rabbu Manasour Hadi, o presidente do Parlamento Yahya al-Rae’I, o enviado especial das Nações Unidas Jamal Binomar e representantes de movimentos e partidos políticos, incluindo o “Ansar Allah”, ou seja os huthis (minoria xiita).
Os huthis têm estado no centro da crise e, apesar do acordo, continuam a ocupar edifícios governamentais, incluindo o Ministério da Defesa, o quartel-general do exército, o Parlamento, o Banco Central e a rádio e televisão nacionais, todos tomados no domingo.
Milhares de huthis iniciaram protestos a 18 de agosto, sitiando ministérios e bloqueando a rua de acesso ao principal aeroporto da capital. Para além da deposição do Governo, exigem a reposição dos subsídios aos combustíveis (que o Governo cortou) e mais representatividade política, no âmbito da Conferência de Diálogo Nacional — o processo político que se iniciou após a deposição do ditador Ali Abdullah Saleh, no contexto da Primavera Árabe.
Xiitas a norte, separatistas a sul
A rebelião huthi transformou-se numa ação militar após protestos em frente à sede do Governo terem sido violentamente reprimidos, a 9 de setembro. Sábado e domingo, o ministério da Educação suspendeu as aulas nas escolas da capital devido a confrontos entre rebeldes e forças governamentais que desde quinta-feira à noite já provocaram mais de 100 mortos.
Os huthis (“Ansar Allah”) são uma minoria xiita, a quem se atribui ligações ao gigante xiita Irão. Controlam a província de Sa’dah, no norte do Iémen.
O outro grande desafio ao poder central de Sana e à unidade do país é colocado pelo “Ansar al-Shari’a”, um grupo separatista com ligações à Al-Qaeda na Península Arábica — um dos braços mais ativos da organização terrorista —, localizado na região de Abyan (no sul).
Em fevereiro passado, um grupo de trabalho presidido pelo Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi e constituído por representantes dos principais partidos políticos aprovou a transformação do Iémen numa federação de seis regiões.
Artigo publicado no “Expresso Online”, a 22 de setembro de 2014. Pode ser consultado aqui
Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.