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O pior atentado cometido por um judeu foi há 25 anos. E hoje ainda há crianças que vão à escola com “escudos humanos”

Há 25 anos, o judeu Baruch Goldstein matou muito mais do que 29 palestinianos. O que então aconteceu “mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”. Ou, como disse ao Expresso outro analista, o seu legado é “um míssil contra o processo de paz”

Hebron é uma cidade palestiniana onde ir à escola exige das crianças cada vez mais coragem. No centro daquela que é uma das cidades mais antigas do mundo — há várias referências a Hebron na Bíblia — vivem colonos judeus radicais que, não raras vezes, tentam intimidar os jovens insultando-os e levantando obstáculos à sua passagem a caminho da escola.

Até há cerca de um mês, nalgumas zonas mais sensíveis, nos percursos entre casa e escola os estudantes eram escoltados por observadores internacionais de duas organizações — a Presença Internacional Temporária em Hebron (TIPH) e o Programa de Acompanhamento Ecuménico na Palestina e Israel (EAPPI). Lado a lado com as crianças, os voluntários funcionavam como ‘escudos humanos’ perante o assédio dos colonos.

A 28 de janeiro último, o primeiro-ministro de Israel disse que não renovaria o mandato da TIPH, no terreno desde 1997. “Não vamos permitir a presença continuada de uma força internacional que age contra nós”, disse Benjamin Netanyahu. Invocando “questões de segurança”, também a EAPPI debandou da cidade, alegando sentir-se alvo de uma campanha de assédio por parte do grupo sionista de extrema-direita Im Tirtzu.

Para preencher esse vazio, ativistas da organização local Juventude Contra os Colonatos (YAS, na sigla inglesa) passaram a assegurar essas escoltas e a responder a situações de emergência. Recentemente, estes “Observadores dos Direitos Humanos”, como se intitulam, foram chamados a casa de uma família palestiniana que viu soldados israelitas entrarem pelo telhado para levar o filho de 13 anos, a quem acusavam de ter atirado pedras. Frequentemente confrontados na rua pelos colonos, estes “coletes azuis” têm nas câmaras de vídeo uma “arma”, com as quais registam tudo aquilo que — dizem — Israel não quer que se veja.

A necessidade de observadores internacionais em Hebron decorre de uma chacina que ocorreu faz esta segunda-feira precisamente 25 anos e que entrou para a História como o pior ataque terrorista levado a cabo por judeus.

A 25 de fevereiro de 1994 — era sexta-feira e os muçulmanos cumpriam o mês do Ramadão (jejum) —, a Mesquita de Ibrahim (Abraão), no centro histórico de Hebron, encheu-se para a oração da manhã. Envergando uniforme militar, Baruch Goldstein, um judeu ortodoxo de 37 anos, nascido em Nova Iorque (EUA) e residente no colonato de Kiryat Arba, nos arredores da cidade, entrou no templo e disparou sobre os fieis: matou 29 e feriu outros 125. Morreu no local, espancado por sobreviventes.

“O que aconteceu naquele dia mudou drasticamente o cenário de uma perspetiva de paz — ainda que ilusória — entre palestinianos e israelitas”, comenta ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (Lisboa). “Embora o início da segunda Intifada seja, formalmente, o ano 2000, este massacre marcou o início do rápido aumento da violência que fez jorrar muito sangue na Palestina.”

A matança de Goldstein aconteceu escassos cinco meses após a assinatura do Acordo de Oslo, nos jardins da Casa Branca, em Washington D.C. (EUA), selado com um histórico aperto de mão entre Itzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel) e Yasser Arafat (líder palestiniano). Era o primeiro sintoma de que o processo de paz não era consensual. A machadada final não tardaria: a 4 de novembro de 1995, Itzhak Rabin, um dos protagonistas de Oslo, era assassinado em Telavive por um judeu ortodoxo.

“Desde o início, o Acordo de Oslo suscitou uma oposição frontal por parte dos sectores radicais tanto no campo israelita como no palestiniano. Ambos tentaram fazê-lo fracassar a qualquer preço”, explica ao Expresso Ignacio Álvarez-Ossorio, professor na Universidade de Alicante (Espanha). “No caso israelita, o Likud [partido de direita, atualmente liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu] e os grupos de colonos tiveram um papel central nesta tarefa. Tanto Goldstein, o autor do massacre de Hebron, como Yigal Amir, o assassino de Rabin, eram colonos que consideravam os territórios palestinianos parte da Terra Prometida ao ‘povo eleito’.”

Para os judeus, o Túmulo dos Patriarcas — que abriga os mausoléus dos patriarcas e das matriarcas do judaísmo, incluindo Abraão, que está na origem das três religiões monoteístas — é o segundo local mais sagrado, a seguir ao Muro das Lamentações, em Jerusalém. Para muitos muçulmanos, a importância da Mesquita de Ibrahim, situada no mesmo local do Túmulo dos Patriarcas, só é superada pelas cidades santas de Meca, Medina e Jerusalém. No interior, há espaços de oração separados para as duas sensibilidades religiosas. No exterior, quem controla o acesso é Israel.

“Dado o seu significado religioso e histórico”, alerta Giulia Daniele, “Hebron sempre foi uma fortaleza do extremismo ultraortodoxo e dos colonos, com a presença de grupos como Gush Emunim, Kach e Kahane Chai.” Para os judeus mais radicais, outro local de peregrinação na cidade é a sepultura de Baruch Goldstein, em Kiryat Arba, onde vivia. Neste colonato, um dos mais violentos e racistas, vivem à volta de 8000 pessoas. Já depois do massacre de 1994, num episódio particularmente ofensivo para com os próprios judeus, colonos desta comunidade grafitaram paredes de casas palestinianas com a frase: “Árabes para as câmaras de gás.”

Situada na Cisjordânia — território palestiniano ocupado por Israel em 1967 —, a cerca de 30 km para sul de Jerusalém, Hebron é a única grande cidade palestiniana cuja soberania, pelo Acordo de Oslo, não foi totalmente transferida para a Autoridade Palestiniana (AP). O seu estatuto foi regulado pelo Protocolo de Hebron de 1997, que instituiu a partilha da cidade: 80% da área, onde viviam 200 mil pessoas, foi entregue à AP (H-1) e os restantes 20% ficaram sob controlo israelita: hoje vivem ali cerca de 40 mil palestinianos e 800 colonos judeus, estes protegidos por uma força militar em número muito superior (H-2). É também na área H-2 que fica o Túmulo dos Patriarcas.

“O Protocolo de 1997 contemplou uma divisão da cidade completamente assimétrica”, explica o professor espanhol. “Obviamente, não é um acordo equilibrado, é mais um sinal de que o processo de paz não foi entre iguais, mas entre uma parte forte (Israel) e uma parte débil (a Autoridade Palestiniana).”

Na área controlada por Israel existe hoje uma situação de “apartheid” (separação) entre árabes e judeus. A discriminação começa, desde logo, pelo ordenamento jurídico que rege a vida de uns e outros: enquanto aos palestinianos são aplicadas leis militares, os colonos obedecem ao direito civil.

Esmagadoramente maioritária, a população árabe está, porém, em queda, vergada às dificuldades quotidianas colocadas pelo ocupante: “checkpoints” que dificultam a circulação, recolheres obrigatórios, menores detidos, propriedades vandalizadas, oliveiras queimadas pelos colonos, ruas vedadas. Naquelas em que os palestinianos podem andar, há linhas pintadas no chão ou divisórias em betão a mandar uns pela esquerda e outros pela direita.

“Esta política de ‘apartheid’, mais visível na peculiaridade de Hebron evidencia de forma muito significativa o objetivo final da limpeza étnica que Israel tem vindo a conduzir desde 1948 no sentido de aumentar, cada vez mais, a população israelita nos territórios palestinianos e, por outro lado, expulsar a população indígena”, conclui Giulia Daniele. “O que está a acontecer em Hebron não é um caso isolado, há muitos outros semelhantes, mas é o caso mais emblemático da lógica de ‘apartheid’ usada por Israel para dividir e fragmentar tanto o território como a população palestinianos.”

Em Hebron, uma das ações de protesto mais persistentes pugna pela reabertura da Rua Shuhada, outrora a principal artéria comercial da cidade e hoje um espaço fantasma, símbolo maior da ocupação e da discriminação. A sua interdição aos palestinianos — que tem contribuído para a asfixia económica da cidade — é uma consequência direta do massacre de 1994.

“Em vez de serem penalizados pelo seu comportamento, os colonos obtiveram um tratamento favorável de todos os governos israelitas”, diz Ignacio Álvarez-Ossorio. “Independentemente da sua cor política, deram-lhes todo o tipo de facilidades para que continuem a colonizar o território palestiniano, apesar de essa colonização representar um míssil contra o processo de paz.”

(Foto: Capa da edição de 26 de fevereiro de 1994 do jornal norte-americano “The New York Times”, em que noticia o massacre de Hebron ARQUIVO THE NEW YORK TIMES)

Artigo publicado no Expresso Diário, a 25 de fevereiro de 2019. Pode ser consultado aqui

Austrália reconhece (metade de) Jerusalém como capital de Israel

A embaixada australiana continuará em Telavive. A mudança fica dependente de um acordo entre israelitas e palestinianos. O Brasil poderá ser o próximo país a ir no rasto da histórica decisão de Donald Trump que reconheceu Jerusalém como capital de Israel

O Governo australiano anunciou, este sábado, o reconhecimento de Jerusalém Ocidental como capital de Israel. A embaixada australiana continuará, porém, em Telavive. A sua transferência para a Cidade Santa — bem como o reconhecimento de Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado da Palestina — fica dependente da assinatura de um tratado de paz entre israelitas e palestinianos.

“O Governo australiano decidiu que a Austrália reconhece que Jerusalém Ocidental, o local onde se situa o Knesset [Parlamento] e muitas das instituições do Governo, é a capital de Israel”, afirmou Scott Morrison, no cargo desde agosto, num discurso no Instituto de Sidney.

O primeiro-ministro defendeu que a decisão visa apoiar a “democracia liberal” no Médio Oriente e considerou as Nações Unidas um local onde Israel é “intimidado”.

A oposição denunciou uma manobra política visando a obtenção de ganhos nas eleições legislativas previstas para o próximo ano. “Preocupa-me que o Sr. Morrison coloque os seus interesses políticos à frente do nosso interesse nacional”, reagiu o líder da oposição, Bill Shorten.

Paraguai fez marcha-atrás

A Austrália torna-se assim o último país a ir no rasto da histórica decisão dos Estados Unidos — anunciada por Donald Trump a 6 de dezembro de 2017, e que reverteu uma posição política de décadas — de reconhecer Jerusalém como capital de Israel. A embaixada norte-americana em Jerusalém foi deste ano.inaugurada por Ivanka Trump a 14 de maio

Guatemala e Paraguai seguiram a posição norte-americana. Mas em Assunção, um novo Presidente levou a um recuo na decisão. Em setembro, o novo Presidente, Mario Abdo Benítez, considerou a decisão do seu antecessor, Horacio Cartes, “absolutamente unilateral, sem consulta e sem argumentos fundados no Direito Internacional”. Benítez mandou fechar a embaixada em Jerusalém, ao que Israel respondeu encerrando a sua missão diplomática em Assunção.

O Brasil foi o último país a anunciar intenções para mudar a sua embaixada de Telavive para Jerusalém. Jair Bolsonaro referiu-se ao assunto durante a campanha eleitoral e, em finais de novembro, um dos seus filhos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, reuniu-se em Washington com Jared Kushner, o genro de Trump que detém a pasta do conflito israelo-palestiniano. “Isto não é uma questão de ‘se’ o vamos fazer, mas de ‘quando’ o vamos fazer”, disse Eduardo Bolsonaro.

https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1067507960333692929

Jerusalém é a cidade desejada por israelitas e palestinianos para capital dos respetivos Estados. Na parte Oriental — ocupada por Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 —, localizam-se os principais lugares santos para as três religiões monoteístas: o Muro das Lamentações (judaísmo), o Santo Sepulcro (cristianismo) e a Mesquita de Al-Aqsa (islamismo).

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 15 de dezembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Os três tipos de apartheid impostos por Israel

Para o historiador Ilan Pappé, que vem a Lisboa esta semana, a criação de Israel assenta na limpeza étnica dos palestinianos

ILUSTRAÇÃO DE CARLOS LATUFF

Israel está em contagem decrescente para o seu 70º aniversário a 14 de maio, com a promessa de um presente desejado — a instalação da embaixada dos EUA em Jerusalém — que constitui uma grande provocação aos palestinianos. “Israel é uma história de sucesso em termos de criação de uma nova cultura, de uma economia vibrante, de uma nação altamente tecnológica e da união de imigrantes judeus de tantas partes do mundo. Mas esse sucesso foi construído sobre a ruína do povo palestiniano”, defende o historiador israelita Ilan Pappé, em entrevista ao Expresso. “Todo o projeto sionista consistiu na substituição dos palestinianos, que eram a população nativa, por imigrantes e colonos. Israel foi um projeto catastrófico para os palestinianos, e ainda o é em muitos aspetos.”

Professor na Universidade inglesa de Exeter, Ilan Pappé participará, esta semana, na conferência “Beyond Planetary Apartheid” (Além do Apartheid Planetário), no ISCTE, Lisboa. “Há três tipos de apartheid em Israel”, adianta. “Dentro das fronteiras de 1967 [o território israelita reconhecido internacionalmente], há um regime que discrimina os cidadãos palestinianos”, cerca de 20% da população total de Israel. “A maior parte da terra pertence à Agência Judaica, que não está autorizada a vender terra a ‘não judeus’; há locais onde os palestinianos não estão autorizados a viver; há subsídios, ajudas governamentais e financiamento público que dependem de ‘bom comportamento’, ou seja, se as pessoas negarem a sua identidade palestiniana”, por exemplo.

“Israel é uma história de sucesso, construída sobre a ruína do povo palestiniano”

Um segundo nível de apartheid acontece no território palestiniano da Cisjordânia, onde vivem 2,8 milhões de palestinianos e 400 mil colonos judeus. “Há uma segregação total, com ruas, reservas naturais, recursos hídricos só para judeus.” A ‘guetização’ da Faixa de Gaza, o outro território palestiniano, é um terceiro tipo de apartheid. Ali vigora um bloqueio por terra, mar e ar imposto por Israel e Egito.

Esta realidade faz de Ilan Pappé — nascido em 1954, em Haifa — defensor de um Estado único, binacional. “A solução de dois Estados poderia nunca acabar com o problema principal que é a natureza colonial do projeto sionista. É preciso descolonizar toda a Palestina histórica”, ou seja, os territórios palestinianos e Israel. “Com dois Estados, não há forma de se concretizar o direito de regresso dos palestinianos”, a reivindicação da Grande Marcha em curso em Gaza, pois a população árabe de Israel cresceria exponencialmente.

Ilan Pappé notabilizou-se em 2006, com o livro “A Limpeza Étnica da Palestina”, onde analisa o processo de independência de Israel (1948), a expulsão de milhares de palestinianos das terras onde viviam e a criação de uma realidade colonial que o novo Estado tentou alcançar “limpando etnicamente metade da população da Palestina, destruindo as suas cidades e demolindo metade das suas aldeias”. Esse processo continuou até à Guerra dos Seis Dias (1967) com “a imposição de medidas militares aos palestinianos de Israel” e depois aos da Cisjordânia e de Gaza.

Para conter Telavive, Pappé considera “muito útil” o movimento internacional que visa isolar Israel através de ações de boicote, desinvestimento e sanções (BDS). “Envia uma mensagem dolorosa de que há um preço decorrente daquilo que Israel faz aos palestinianos.” E considera imperioso um maior envolvimento dos europeus. “Até agora, a Europa nada fez. Paga pela ocupação [é o maior doador dos palestinianos] e reage à impunidade de Israel dando-lhe imunidade. Reconhecer um Estado palestiniano seria um passo na direção certa.”

Artigo publicado no Expresso Diário, a 5 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Quanto custa esbofetear um militar israelita? Depende de quem dá a estalada

Ahed Tamimi, a palestiniana de cabelos rebeldes tornada famosa após atingir à estalada um soldado israelita, vai ser presente a tribunal esta terça-feira. O seu caso revela a persistência palestiniana na luta contra a ocupação israelita e expõe a dualidade com que Israel aplica a lei nos territórios que controla consoante se trata de alguém israelita ou palestiniano

Ahed Tamimi e Yifat Alkobi D.R.

“Morte para Ahed Tamimi”, “não há lugar neste mundo para Ahed Tamimi”. Pela calada da noite, no passado dia 1 de fevereiro, paredes da aldeia palestiniana de Nabi Saleh, perto de Ramallah, no território ocupado da Cisjordânia, foram grafitadas com ameaças a uma filha da terra. Os habitantes não viram quem vandalizou a aldeia, mas têm uma suspeita: “Os colonos escreveram que Ahed deve ser morta para assustar os habitantes de Nabi Saleh”, defendeu Bassem Tamimi, pai da jovem visada, em declarações ao sítio Mondoweiss. Nas redes sociais, acrescentou, um grupo de colonos já tinha declarado que iria esperar pela libertação da rapariga no exterior da prisão de HaSharon, onde está detida, para matá-la. “Temo pela minha filha. Não só por ser palestiniana, mas porque a sua cara tornou-se tão conhecida que toda a gente sabe com exatidão quem ela é e como se parece.”

Ahed Tamimi — 17 anos feitos a 31 de janeiro — foi presa a 19 de dezembro após um vídeo em que surge a esbofetear e pontapear um soldado israelita se ter tornado viral nas redes sociais. As imagens foram captadas quatro dias antes, pela mãe da jovem, Nariman, que também está detida, acusada de “incitamento”. Não era a primeira vez que Ahed surgia de punho cerrado, ameaçando bater em militares armados até aos dentes. Esta terça-feira, será presente a um juiz para responder por aquelas estaladas e pontapés e por outras afrontas ao longo dos anos.

Ahed não é a primeira mulher palestiniana a ser detida por Israel no âmbito de protestos antiocupação. Nem tão pouco a primeira menor. Este domingo, por exemplo, foi libertada Razan Abu Sal, oriunda do campo de refugiados de Arroub, entre Belém e Hebron (Cisjordânia), condenada a 16 de janeiro a quatro meses de prisão e uma multa de 2500 shekels (580 euros) pelo arremesso de pedras. Razan tem… 13 anos. Mas várias razões contribuem para que o caso de Ahed seja especial, ao ponto de ter centrado atenções em todo o mundo como nenhum outro anteriormente.

“Ahed Tamimi tem estado, desde os oito anos de idade, na fila da frente das manifestações semanais do comité popular da sua aldeia contra a ocupação militar israelita, em geral, e contra o colonato de Halamish, em particular, que usa ilegalmente as fontes de água dos palestinianos”, explica ao Expresso Giulia Daniele, investigadora no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE (Lisboa).

Em Nabi Saleh, a revolta palestiniana contra a ocupação israelita tem um alvo específico: o colonato de Halamish, uma comunidade de judeus ortodoxos estabelecida em 1977 que não para de crescer às custas de hectares de terra confiscados aos palestinianos. Em 2009, os colonos apoderaram-se da nascente de Ein el Qaws, perto da aldeia, obrigando os habitantes a procurarem fontes alternativas para irrigar oliveiras e árvores de fruto.

As manifestações contra a ocupação ganharam então um caráter mais regular e Ahed tornou-se uma presença permanente e cada vez mais indiscreta. Em 2012, a Turquia atribuiu-lhe o Prémio Handala para a Coragem na sequência de imagens onde ela surge a confrontar militares israelitas que tinham levado preso o seu irmão. Quando foi recebê-lo, Ahed teve direito a um encontro com Recep Tayyip Erdogan, então primeiro-ministro e hoje presidente da Turquia.

Um segundo aspeto que faz de Ahed especial, diz Giulia Daniele, decorre do facto de ela pertencer à família Tamimi, um clã muito ativo na luta contra a ocupação, por força do seu impacto na aldeia onde vive. Bassem, o pai de Ahed, já foi, também ele, preso e condenado a prisão pela justiça israelita.

A farta cabeleira de Ahed — tão rebelde como ela —, os seus olhos azuis e os meios que utiliza nos protestos também contribuem para a composição do ícone. “Ela não aparenta ser uma jovem ativista palestiniana, não cai nos cânones que Israel e o Ocidente em geral atribuem às mulheres palestinianas. Como é possível que uma jovem com aquele aspeto possa lutar contra os soldados israelitas utilizando uma máquina fotográfica ou um cartão vermelho?” O recurso a câmaras fotográficas ou de filmar é frequente nas manifestações semanais antiocupação em aldeias como Bilin, Nilin ou Kafr Qaddum: visam registar o uso excessivo da força com que Israel retalia os protestos.

Giulia Daniele identifica ainda uma quarta razão para o destaque dado a Ahed: ela é a prova de que “a luta popular e não-violenta palestiniana continua, apesar da ocupação ilegal israelita se tornar, dia após dia, mais violenta e mais enraizada — parece infinita”.

Dois pesos, duas medidas

Ahed está a ser julgada num tribunal militar, tratada como uma ameaça à segurança de Israel. “Em muitos casos, os palestinianos são julgados por acusações falsas ou ficam presos sem qualquer acusação”, as chamadas “detenções administrativas”, muito frequentes. “Aos palestinianos aplica-se a lei militar, enquanto aos colonos israelitas, que ali moram ilegalmente, tal como em Jerusalém Oriental, aplica-se a lei civil”, refere Giulia Daniele. “Obviamente, tratando-se de tribunais diferentes, há também diferentes penalizações e tratamentos.”

Ahed responde por 12 acusações, algumas delas — como o arremesso de pedras e a interferência nos deveres de um soldado — relativas a episódios passados anos antes da bofetada que a pôs atrás das grades. Arrisca uma pena de prisão entre os 12 e os 14 anos. Pelo mesmo “crime” — uma bofetada a um soldado israelita —, e por cinco outras condenações (entre elas o arremesso de pedras, o ataque a um polícia israelita e conduta desordeira), Yifat Alkobi, uma colona judia de Hebron, “não foi presa uma única vez”, escreveu o diário israelita “Haaretz”, a 5 de janeiro. “A agressora [judia], que deu uma bofetada a um soldado que tentava impedi-la de atirar pedras, foi levada para interrogatório mas libertada sob fiança no mesmo dia, e autorizada a ir para casa” — impune.

A diferença de tratamento entre a palestiniana Ahed e a israelita Yifat expõe a dualidade de sistemas legais que Israel aplica nos territórios que controla, consoante o acusado é israelita ou palestiniano. No caso de Ahed, sabe-se hoje que agiu movida pela revolta, ao saber que um primo de 15 anos tinha sido alvejado na cabeça, uma hora antes, por um agente da segurança israelita. Mohammed sobreviveu, mas perdeu parte do crânio e tem a cara desfigurada.

Na perspetiva de Giulia Daniele, autora do livro “Women, Reconciliation and the Israeli-Palestinian Conflict: The Road Not Yet Taken” (Routledge, 2014), Ahed Tamimi é uma palestiniana na linha de outras mulheres carismáticas que têm contribuído para uma forma feminina de protestar no conflito israelo-palestiniano. São exemplos Hanan Ashrawi, figura central dos Acordos de Oslo e do nascimento da Autoridade Nacional Palestiniana, Amal Khreishe, líder da Sociedade das Mulheres Trabalhadoras Palestinianas para o Desenvolvimento (PWWSD) e Naila Ayesh (diretora do Centro para os Assuntos das Mulheres na Faixa de Gaza).

“Não só há uma presença feminina nestes protestos, como também uma presença histórica e crucial para a relevância do movimento nacional palestiniano na sua complexidade”, diz Giulia Daniele. “A partir da Nakba [o êxodo dos palestinianos após a criação de Israel, a que chamam “catástrofe”] em 1948, o movimento das mulheres palestinianas desempenhou um papel fundamental na luta contra os ocupantes israelitas. Na sua especificidade, elas tiveram de protestar contra uma dupla opressão: uma externa – a ocupação militar israelita – e uma interna – a própria sociedade patriarcal.”

Conclui Giulia Daniele: “Hoje, o papel das mulheres palestinianas é muito importante, sobretudo ao nível das bases, embora seja impossível falar de um único movimento, dado haver uma variedade de perspetivas e práticas políticas entre as diferentes organizações de mulheres. Há diferenças entre ativistas laicas e religiosas, entre ativistas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, entre as mais jovens e as mais velhas, entre as do mundo rural e as de áreas urbanas”. Todas, porém, partilham dois grandes objetivos: o fim da ocupação militar israelita e o direito à autodeterminação do povo palestiniano.

Artigo publicado no Expresso Diário, a 12 de fevereiro de 2018 e republicado no Expresso Online, no dia seguinte. Pode ser consultado aqui e aqui

Os sete recados de Guterres

O secretário-geral das Nações Unidas visitou Israel e a Palestina. Disse o que pensa e partilhou um sonho…

“Perdão”, entre um árabe e um judeu CARLOS LATUFF

António Guterres demorou mais de oito meses a dar visibilidade a um dos conflitos mais duradouros e complexos do mundo. A falta de iniciativa por parte dos principais líderes mundiais em relação à questão israelo-palestiniana e a particular sensibilidade do secretário-geral das Nações Unidas para as crises humanitárias — foi alto-comissário da ONU para os Refugiados entre 2005 e 2015 — levaram-no, prioritariamente, a paragens tão ou mais dramáticas como Somália, Iraque, Afeganistão, Uganda ou Ucrânia. Esta semana, Guterres pôs Israel e a Palestina no mapa. No término de uma visita de três dias, as partes continuam distantes. Ficam os alertas do secretário-geral.

ANTISSEMITISMO

“O horror do Holocausto deveria ser tal que o antissemitismo deveria estar morto para sempre mas, infelizmente, vemo-lo vivo e de boa saúde”

De visita ao Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, Guterres condenou o antissemitismo “em todas as suas formas de expressão”. “Fiquei chocado há pouco tempo ao ouvir um grupo neonazi num país desenvolvido a cantar ‘sangue e solo’, um slogan dos nazis”, disse na segunda-feira, aludindo aos protestos supremacistas de Charlottesville, nos Estados Unidos. No mesmo dia, ao lado de Reuven Rivlin, Presidente israelita, considerou a negação do direito à existência do Estado de Israel “uma forma moderna de antissemitismo”.

ONU E ISRAEL

“Os Estados-membros são soberanos. Definem as suas posições com base nos seus interesses, valores e convicções. Enquanto secretário-geral da ONU, é meu dever ser simultaneamente um intermediário honesto e mensageiro da paz. Ser um intermediário honesto significa ser imparcial”

Sucessivas resoluções condenatórias de Israel — na Assembleia Geral, em agências especializadas ou órgãos subsidiários da ONU, como a UNESCO ou o Conselho de Direitos Humanos — têm levado Telavive a acusar a organização de ser “tendenciosa”. As razões de queixa não se aplicam, porém, ao Conselho de Segurança onde Israel tem beneficiado do poder de veto dos EUA. Em Jerusalém, ao lado de Benjamin Netanyahu, Guterres afirmou o seu dever de equidistância — ainda que, às vezes, grandes polémicas o obriguem a tomar parte: em março, a Comissão Económica e Social para a Ásia Ocidental, da ONU, publicou um relatório em que qualificava de apartheid a forma como Israel trata os palestinianos. Guterres mandou retirar o documento do site.

AMEAÇA DO HEZBOLLAH

“Farei tudo o que estiver ao meu alcance para assegurar que a UNIFIL cumpra o seu mandato. Compreendo as preocupações em relação à segurança de Israel”

A guerra na Síria, e o papel que nela desempenha a milícia xiita libanesa Hezbollah, em apoio do Presidente Bashar al-Assad, acentuaram os alertas de perigo nas fronteiras norte e nordeste de Israel, junto ao Líbano e à Síria, respetivamente. Atentas às movimentações do Hezbollah, e temendo que armamento sofisticado dirigido ao teatro sírio caia “em mãos erradas”, as forças de defesa de Israel já visaram, por diversas vezes, posições dentro de território sírio. Há décadas que a ONU tem na área duas missões de paz: a UNIFIL, desde 1978, na fronteira com o Líbano; e a UNDOF, junto à Síria, nos Montes Golã, desde 1948. Estas missões em nada tranquilizam Israel que acusa a ONU de “fechar os olhos” ao trânsito de armamento. Na quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU renovou, por mais um ano, o mandato da UNIFIL (cerca de 11 mil capacetes azuis), solicitando a Guterres que tome medidas para tornar a presença da missão mais visível, através de patrulhas e inspeções.

ESTADO DA PALESTINA

“Não há plano B à solução de dois Estados’’

Na internet, o site do secretário-geral da ONU não deixa margem para equívocos: esta semana, António Guterres visitou o Kuwait, Israel e “o Estado da Palestina”. Aos olhos da organização universal, a Palestina é um “Estado Observador Não-Membro” desde 29 de novembro de 2012, dia em que a Assembleia Geral aprovou aquele estatuto de forma esmagadora. Em todo o mundo, são mais os países que reconhecem a independência da Palestina do que aqueles que ainda não o fizeram, mas estes são politicamente mais relevantes. Na terça-feira, em Ramallah, após visitar o túmulo de Yasser Arafat e inspirado em Martin Luther King, Guterres fez uma confissão: “Eu tenho um sonho, um sonho de ver na Terra Santa dois Estados.” Oficialmente, a fórmula de “dois Estados para dois povos” continua a ser defendida em Telavive e em Ramallah, ainda que a contínua construção de colonatos judaicos na Cisjordânia ocupada a inviabilize por completo.

COLONATOS

“A construção de colonatos, que é ilegal face ao direito internacional, é um obstáculo que necessita de ser removido”

No dia seguinte a terem-se reunido em Jerusalém, António Guterres e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rumaram à Cisjordânia, separadamente. Em Ramallah, o secretário-geral da ONU condenou a política israelita de construção de colonatos. “Claro que há mais dificuldades e obstáculos. É importante criar as condições para que os líderes de ambos os lados apelem à calma, evitem o incitamento, para que a violência acabe”, disse, na terça-feira, ao lado de Rami Hamdallah, primeiro-ministro palestiniano. “Mas a construção de colonatos representa um grande obstáculo à solução de dois Estados.” Horas depois, Netanyahu discursava diante dos colonos de Barkan, no âmbito de uma cerimónia comemorativa do 50º aniversário da colonização da Judeia e Samaria (como em Israel se chama à Cisjordânia): “Estamos aqui para sempre. Não haverá mais evacuação de colonatos na terra de Israel.”

BLOQUEIO A GAZA

“Estou profundamente emocionado por estar em Gaza, infelizmente para testemunhar uma das crises humanitárias mais dramáticas que já vi em muitos anos de trabalho na área humanitária na ONU”

Guterres escolheu uma escola de Gaza, administrada pela UNRWA (a agência da ONU criada em 1949 para lidar com o problema dos refugiados palestinianos), para apelar à “abertura de fronteiras”. O território vive, desde 2007, um bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito, que condena a maioria da população a viver da ajuda da ONU. Em Gaza, Guterres ordenou o desbloqueio imediato de quatro milhões de dólares (€3,4 milhões) para as atividades da ONU e pediu à comunidade internacional para que participe na assistência humanitária ao território.

UNIDADE PALESTINIANA

“A divisão apenas mina a causa do povo palestiniano”

Ainda em Gaza, Guterres abordou o grande problema político que fragiliza os palestinianos: a divisão entre a Fatah e o Hamas. A primeira controla a Autoridade Palestiniana, que governa as áreas A e B da Cisjordânia (a área C está ocupada por Israel); o segundo, um movimento islamita, controla a Faixa de Gaza desde 2007, quando tomou o poder pela força, após ter ganho as legislativas e a vitória não ter sido reconhecida nem pela Fatah, nem por Israel, nem pela comunidade internacional. “Ontem estive em Ramallah [na Cisjordânia], hoje estou em Gaza. Ambas fazem parte da mesma Palestina”, disse Guterres.

“NO MEU PRÓPRIO PAÍS…”

Durante a visita, Guterres recordou momentos em que, em Portugal, se cruzou com o conflito israelo-palestiniano. Enquanto primeiro-ministro (1995-2002) e presidente da Internacional Socialista (1999-2005), “segui o processo de paz de muito perto, nas suas esperanças e frustrações”, disse no Museu Yasser Arafat. “Lembro-me de um encontro secreto, durante o Governo de Ariel Sharon, entre o vice-primeiro-ministro Shimon Peres e Yasser Arafat no meu gabinete de primeiroministro”, confidenciou junto a Netanyahu. Durante quatro horas, “testemunhei o compromisso deles com a paz e, ao mesmo tempo, as dificuldades desse compromisso”. Após condenar o antissemitismo, no Memorial do Holocausto, disse: “O meu próprio país também o viveu. Recordo o momento mais trágico de todos: a expulsão dos judeus no início do século XVI”.

Artigo publicado no Expresso, a 2 de setembro de 2017