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Judeus e árabes condenados a entender-se

Nem sempre judeus e palestinianos viveram de costas voltadas. “Dispara, Eu Já Estou Morto”, o mais recente livro da escritora espanhola Julia Navarro, versa o tema. Um “romance de personagens”, como ela o qualifica, passado entre finais do século XIX e meados do século XX, centrado no judeu Samuel Zucker e no árabe Ahmed Ziad e na luta de duas comunidades contra as armadilhas da História

CARLOS LATUFF / WIKIMEDIA COMMONS

Ruanda, Jugoslávia, Palestina… Quando as personagens começaram a ganhar vida na cabeça de Julia Navarro, a escritora espanhola hesitou sobre em que contexto histórico as situar. “Queria escrever um romance sobre a luta do homem contra as suas circunstâncias. Não elegemos onde nascemos e só essa circunstância já nos marca e determina que tipo de vida vamos ter. Não é o mesmo nascer-se em Portugal ou no Ruanda. Não é o mesmo nascer-se em Jerusalém-Leste ou Jerusalém-Oeste, onde há apenas uns metros de distância mas que significam nascer-se com uma cultura diferente, uma religião diferente e uma forma de ver a vida diferente. Queria escrever sobre como as circunstâncias marcam os homens e como os homens lutam para mudar as circunstâncias. Não sou determinista, acho que as coisas se podem mudar.”

A familiaridade da escritora com a região do Médio Oriente, que visitou várias vezes quando trabalhou como jornalista, desfez-lhe a dúvida. “Viajei pela região, conheci gente de uma e outra comunidade, ouvi muitas histórias e testemunhei outras e tudo isso me deixou marcas. Na hora de construir uma história, todas essas pegadas são importantes.”

“Dispara, Eu Já Estou Morto”, publicado em Portugal pela editora Bertrand, conta a história de duas famílias — a do judeu Samuel Zucker e a do árabe Ahmed Ziad — e de como as vidas de ambas se cruzaram numa época crucial para o desenvolvimento de um conflito que se arrasta até hoje sem fim à vista.

A narrativa começa em finais do século XIX, na Rússia cristã e czarista, onde ser judeu era uma maldição. Perseguido pela polícia política (Okhrana), suspeito de participar em reuniões clandestinas, Samuel — que em criança vira a mãe, a avó e dois irmãos serem assassinados durante perseguições aos judeus (pogroms) — foge do país onde nasceu rumo à Palestina, a Terra Prometida sonhada pelos seus antepassados e que então era uma província do Império Otomano. “Filho, no próximo ano em Jerusalém”, repetira-lhe o pai Isaac, vezes sem conta, antes de morrer, sob tortura, nas masmorras da Okhrana.

Quando o judeu Samuel desembarca no porto de Jaffa, a primeira pessoa que conhece é o palestiniano Ahmed, que ali esperava a chegada do sayyid Aban, o rendeiro da horta que cultivava e onde vivia com a família, para lhe prestar contas. Oriundo de uma família rica, poderosa e instalada em Constantinopla, Aban queixava-se do escasso rendimento que obtinha daquelas terras próximas de Jerusalém e decide vendê-las.

Samuel, que procurava um chão para recomeçar a sua vida, compra a horta que Ahmed trabalhava e que acabara de perder. “Sabes bem que na Palestina alguns judeus estão a construir pequenas quintas”, diz o judeu ao árabe. “É o que faremos aqui, mas respeitando a tua horta.” Durante décadas, os Zuckers e os Ziads desenvolvem sólidos laços e vivem como uma verdadeira família na “Horta da Esperança”, como os judeus a batizam. O natural crescimento das duas famílias e, sobretudo, a contínua chegada de judeus em fuga aos pogroms na Europa, vão enchendo a herdade de personagens, que Julia Navarro vai introduzindo na história.

“Eu não queria escrever um romance de bons e maus”, explica a autora. “Queria contar uma história de gente comum, em que ambas as comunidades expusessem as suas razões. Queria dar um passo atrás, como narradora, e deixar que as personagens resolvessem as coisas por si. Preocupava-me o resultado final, porque toda a gente tem uma opinião sobre o conflito no Médio Oriente…”

A escritora, nascida em Madrid, em 1953, recorda o momento em que essa preocupação se dissipou. O livro estava nas bancas em Espanha havia uma semana e, num encontro num clube de leitura, coincidiram uma judia e um palestiniano. “Pensei que me ia dar um ataque cardíaco… Mas quando ambos, separadamente, me disseram que não tinham nada a apontar-me porque eu tinha mantido uma atitude equidistante e correta relativamente ao problema, nesse momento fiquei tranquila e percebi que tinha cumprido o meu objetivo, que era contar uma pequena história dentro da grande História.”

O romance não ilude os atritos entre as duas comunidades, mas valoriza aquilo que as aproxima em detrimento do que as afasta. E ao faze-lo desconstrói mitos, nomeadamente o de que árabes e judeus são inevitavelmente inimigos. “Muita gente pensa que judeus e árabes têm estado sempre em confronto, o que não é verdade”, defende a escritora. “Puderam viver e tiveram uma convivência razoável durante séculos. Quando os judeus foram expulsos de Espanha, Portugal, França, Inglaterra e de outros países encontraram um sítio novo onde viver em países muçulmanos. Estabeleceram-se comunidades judaicas em Bagdade, Constantinopla, Cairo, Damasco e eram muito importantes. Não havia qualquer problema religioso.”

O livro mostra também como, antes de serem vítimas uns dos outros — porque hoje, efetivamente, há ódio de parte a parte —, palestinianos e judeus foram vítimas da própria História e de decisões políticas tomadas por outros em seu nome e que acabaram por ter um efeito devastador nas vidas dos cidadãos comuns. “Este livro está cheio de política, porque as personagens são filhos do seu tempo. Não se pode compreender o que se passa hoje no Médio Oriente sem ter em conta o que aconteceu durante a I Guerra Mundial e as decisões tomadas pelas potências da época, França e Inglaterra, após a derrota do Império Otomano, de que a Palestina era uma província havia 500 anos”, explica Julia.

Durante o conflito, os britânicos prometeram um lar aos judeus (Declaração Balfour, 1917), cada vez em maior número na Palestina. Simultaneamente, prometeram um grande Estado aos povos árabes, algo em que estes confiaram ser possível sobretudo após o empenho do famoso Lawrence, tenente do exército britânico, ao lado dos exércitos árabes. Com esta ambiguidade, os britânicos ganharam o apoio de ambos na luta contra os turcos e um quebra-cabeças que nunca conseguiram deslindar após ficarem com o mandato da Palestina.

No livro, palestinianos e judeus inquietam-se perante a posição dúbia dos britânicos. “A Inglaterra comprometeu-se com todos os que pudessem servir os seus interesses, que, a curto prazo, passam por ganhar a guerra. Também se comprometeu com os árabes. Poderá cumprir todas as suas promessas?”, interroga-se o judeu Samuel.

“A França quer ser a potência mandatária da Síria e do Líbano. Reclama o Líbano para os cristãos maronitas. Em Paris (conferência de paz de 1919) estão a pressionar Faysal para que aceite o mapa acordado pelos senhores Sykes e Picot em nome dos respetivos governos, o britânico e o francês, mas o príncipe resiste e defende a causa pela qual lutámos: uma nação árabe. Foi por isso que combatemos os turcos”, comenta o árabe Yusuf.

O romance não ilude os atritos entre as duas comunidades, mas valoriza aquilo que as aproxima em detrimento do que as afasta. E ao faze-lo desconstrói mitos, nomeadamente o de que árabes e judeus são inevitavelmente inimigos

A traição dos europeus e as promessas não cumpridas por parte de Londres tiveram eco na “Herdade da Esperança”. Aos poucos, os Zuckers e os Ziads começam a sentir-se pressionados pelos nacionalismos que despontam de parte a parte e que ameaçam a sua sã convivência diária. E começam a sentir-se cada vez mais indefesos. “Há momentos na vida em que a única forma de nos salvarmos é matando ou morrendo”, é um pensamento que partilham à vez.

Julia Navarro define a sua obra — que demorou muitos meses a pensar e três anos a escrever — como “um romance de personagens”. “Sou uma apaixonada pelos escritores russos do século XIX, como Leon Tolstoi e Fiodor Dostoievski, autores que são capazes de mergulhar na alma humana e, ao mesmo tempo, contam uma história dentro de um contexto. As suas personagens são filhos do seu tempo, mas são universais. Aspiro a contar pequenas histórias em que as minhas personagens também são filhos do seu tempo.”

A história de Samuel Zucker e de Ahmed Ziad é contada, no livro, pela boca de terceiros, num diálogo que decorre em pleno século XXI. Marian Miller é cooperante numa organização não-governamental financiada pela União Europeia e vai a Jerusalém com a missão de elaborar um relatório sobre os colonatos judeus em território palestiniano. Após recolher a história dos Ziads, vai a casa de Ezequiel, filho de Samuel, para ouvir a versão dos Zuckers.

Marian vai apresentando a versão árabe dos acontecimentos e Ezequiel — provecto avô de um acérrimo defensor dos colonatos e de uma pacifista convicta — conta-lhe a perspetiva dos judeus. Os episódios de convívio e tensão que as duas famílias experimentaram durante décadas vão-se encaixando como um puzzle e ambos, à vez, vão preenchendo as lacunas de duas histórias paralelas.

“No início, Marian e Ezequiel nem simpatizam um com o outro”, refere Julia. “Nada têm em comum, ela não o convence e viceversa. Mas acabam por sentir uma empatia porque se escutaram. Se fizermos o exercício de nos escutarmos e tentarmos colocar-nos nos pés da pessoa que temos à nossa frente, as coisas serão mais fáceis.”

Os dois narradores colheram frutos por se terem escutado, da mesma forma que Samuel e Ahmed sempre viveram em paz porque se respeitaram. Hoje, perante a total paralisação do processo de paz israelo-palestiniano, a realidade entre as partes não podia ser mais distante. “As duas comunidades vivem de costas voltadas. No dia em que voltem a olhar-se nos olhos, perceberão que têm muitas mais coisas em comum do que a separá-las”, comenta a escritora. “Sou uma acérrima defensora do diálogo. Acho que através do diálogo é possível resolver-se todos os problemas. E acredito que a paz é possível, porque palestinianos e judeus estão condenados a entender-se, não têm outra opção. Partilham um território onde ambos vivem mal. Os judeus vão ganhando as guerras, mas não se pode viver bem quando se vive num estado de guerra permanente.”

“Palestinianos e judeus estão condenados a entender-se, não têm outra opção. Partilham um território onde ambos vivem mal. Os judeus vão ganhando as guerras, mas não se pode viver bem quando se vive num estado de guerra permanente”

Para compreender o título do livro, o leitor precisa de ler as suas 830 páginas, a que se segue um glossário e uma lista de personagens históricas. Só na última página — em bom rigor na última linha —, é reproduzida a frase do título. Julia Navarro admite que é uma característica sua enquanto escritora. “Sim, só explico o título no fim. Procuro sempre surpreender o leitor no sentido de que nada seja aquilo que parece e deixo sempre os finais em aberto. Tem de ser o leitor a decidir o que acontece. Conduzo-o até a um clímax e, a partir daí, deixo a porta aberta. Há muitos leitores que me escrevem desesperados sobre o fim do livro. Respondo sempre: ‘É o que o senhor quiser. Não lhe vou dizer qual é o meu final’. Cada leitor decide o seu.”

Artigo publicado no suplemento Atual do Expresso, a 27 de dezembro de 2014

Violência em Jerusalém após rapto e morte de jovem palestiniano

Os confrontos regressaram às ruas de Jerusalém, após o assassinato de um jovem palestiniano. Teme-se que tenha sido um ato de vingança pelo rapto e morte de três estudantes israelitas

A descoberta do cadáver de um palestiniano de 16 anos, numa floresta de Jerusalém, desencadeou confrontos entre residentes e forças de segurança israelitas, em Jerusalém Leste — a parte árabe da cidade, ocupada por Israel desde 1967. No bairro Shuafat, palestinianos arremessaram pedras contra a polícia israelita que respondeu disparando balas de borracha e gás lacrimogéneo.

O corpo de Muhammad Hussein Abu Khdeir foi encontrado esta quarta-feira de manhã. As autoridades israelitas têm em curso uma investigação no sentido de apurar se, na origem desta morte, estão motivações “nacionalistas ou criminais”. Entre os palestinianos não há dúvidas de que se tratou de um ato de vingança.

O corpo foi encontrado horas após o funeral de três jovens israelitas, que estavam desaparecidos desde o dia 12 e foram encontrados mortos, esta terça-feira, num descampado perto da cidade palestiniana de Hebron. Israel atribui o crime ao Hamas.

Ao diário “The Times of Israel”, o tio de Muhammad disse que várias pessoas viram o sobrinho a ser forçado a entrar num Hyundai cinzento, e que esses raptores eram judeus. Mahmud afirmou ainda que o jovem foi levado cerca das quarto da manhã (de quarta-feira) e que várias testemunhas tentaram perseguir o carro.

Husam Abed, morador na área de Shuafat, contou ao sítio “Jerusalem Online”: “No dia anterior (ao rapto de Muhammad Khdeir) tinha havido uma tentativa de rapto a um rapaz de 14 anos. Testemunhas atacaram o carro e o suspeito fugiu”.

Justiça pelas próprias mãos

Após ordenar uma investigação ao “assassinato abominável”, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, apelou a todas as partes para que “não façam justiça pelas próprias mãos”.

O Presidente palestiniano, por seu lado, instou o chefe do Governo de Telavive a “condenar o rapto e assassinato do jovem palestiniano”, disse Mahmud Abbas em comunicado. “Da mesma forma que nós condenamos o rapto dos três israelitas”, acrescentou.

Para tentar conter possíveis confrontos, as forças de segurança israelitas fecharam o acesso ao Monte do Templo — onde se situa a Esplanada das Mesquitas, o terceiro local mais sagrado para os muçulmanos, que iniciaram no domingo o mês sagrado do Ramadão.

O Monte do Templo é um local de grande sensibilidade para muçulmanos e judeus. Desse complexo faz parte também o Muro das Lamentações, o local mais importante para os judeus. Em setembro de 2000, uma visita à Esplanada das Mesquitas do então primeiro-ministro israelita, Ariel Sharon, foi interpretada como uma provocação pelos palestinianos, que logo ali iniciaram a segunda Intifada (revolta), que durou até 2005.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 2 de julho de 2014. Pode ser consultado aqui

 

Oração, fraternidade e… política

Oficialmente desavindos, os líderes de Israel e da Palestina rezaram juntos em Roma por iniciativa do Papa. O Vaticano diz, porém, que Francisco não quer ser mediador do conflito. O Expresso ouviu a reação dos dois embaixadores em Lisboa

O Papa Francisco cumpriu o prometido e reuniu, nos jardins do Vaticano, os chefes de Estado de Israel e da Palestina. O líder da Igreja Católica instou Shimon Peres e Mahmud Abbas a “darem resposta” aos apelos de paz dos dois povos e a encontrarem forças para “persistir num diálogo destemido”.

Os dois Presidentes apertaram a mão e plantaram uma oliveira – símbolo da paz e da região mediterrânica, palco do conflito.”

Os encontros simbólicos têm toda a importância, nomeadamente quando são, como foi o caso da cerimónia do Vaticano, transmitidos na íntegra e em direto pela CNN e seguidos no mundo inteiro”, comenta ao Expresso Carlos Gaspar, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais, da Universidade Nova de Lisboa.

“Em junho de 1979, o Papa João Paulo II visitou pela primeira vez a Polónia e, nessa ocasião, o cardeal Karol Wojtyla quis dizer aos polacos uma frase singela: ‘Não tenham medo’. As consequências das suas palavras são bem conhecidas.”

Francisco afirmou que “fazer a paz requer coragem, muito mais do que guerra”, qualificou de “inaceitável” a suspensão das conversações israelo-palestinianas e mostrou-se esperançado de que este encontro possa significar “uma nova jornada” no sentido da paz no Médio Oriente.

O Vaticano fez saber que a iniciativa papal consistiu numa “aproximação espiritual”, não tendo quaisquer motivações políticas associadas, pelo que não estão previstos outros eventos concretos.

“Não há nenhum sinal de que o Papa venha a tornar-se um mediador diplomático entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestiniana e, muito menos, de que queira ter uma intervenção política direta nos conflitos internacionais”, continua Carlos Gaspar. 

“A cerimónia da Santa Sé concentrou-se nas orações e quis reconhecer os participantes pela sua religião, como resulta também da importância dada à presença do patriarca de Constantinopla. Pela sua parte, tanto Shimon Peres como Mahmud Abbas corresponderam à vontade do Papa, não só pelo tom das suas orações respetivas como pela relativa moderação das suas intervenções. Os EUA foram, são e vão continuar a ser os únicos com o poder e a credibilidade indispensáveis para impor a sua vontade numa mediação diplomática entre o Estado de Israel e a Autoridade Palestiniana”, frisa

Recados de parte a parte

Em declarações ao Expresso, os embaixadores de Israel e da Palestina em Portugal congratularam-se com a realização desta iniciativa. A diplomata israelita Tzipora Rimon afirma que o encontro “não irá resolver todas as questões”. “Mas criou um precedente único e uma atmosfera muito positiva para aproximar os dois lados e um encorajamento para continuarmos a lutar pela paz, que só poderá ser alcançada através do diálogo”, adianta.

A diplomata refere que para que a paz seja alcançada a comunidade internacional tem de “fazer todos os esforços para que a liderança da Autoridade Palestiniana não se limite apenas a declarações, mas que mostre mudanças no terreno, nomeadamente, o reconhecimento do Estado de Israel por parte do Hamas, a renúncia à violência e também o respeito pelos acordos internacionais previamente assinados.”

Por seu lado, o embaixador palestiniano em Lisboa, Hikmat Ajjuri, recordou que, no passado, já o Papa João Paulo II afirmou que “a paz na Terra Santa precisade pontes, não de muros”. Acrescenta que “talvez com a bênção do Papa Francisco, este encontro no local sagrado do Vaticano ajude a derreter o gelo entre israelitas e palestinianos, a derrubar muros e a construir pontes. E que a solução de dois Estados, que é a única solução para o conflito aprovada internacionalmente, seja concretizada, tornando os dois Estados uma realidade, mais cedo do que tarde”.

O embaixador Ajjuri recorda que as Nações Unidas decretaram 2014 como o Ano da Solidariedade para com o Povo Palestiniano. “Por isso, esperamos que este ano seja o fim da única ocupação militar que resta à face da Terra, que é a ocupação israelita do Estado da Palestina”, conclui.

IMAGEM Pomba da paz com espinhos PUBLIC DOMAIN VECTORS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de junho de 2014. Pode ser consultado aqui

Os recados políticos da viagem papal

O Papa Francisco convidou palestinianos e israelitas para reunião no Vaticano

Papa Francisco, num momento de oração junto ao Muro das Lamentações, a 26 de maio de 2014 POLÍCIA DE ISRAEL / WIKIMEDIA COMMONS

Berço das três religiões monoteístas, a Terra Santa assemelha-se politicamente a um campo de minas. A visita de três dias do Papa Francisco, que terminou segunda-feira, é disso uma prova, com muitos gestos do chefe da Igreja Católica a merecerem interpretações políticas. “O Papa chegou à Palestina vindo da Jordânia e não de Israel… Isto é uma mensagem”, diz ao Expresso Hikmat Ajjuri, embaixador da Palestina em Portugal.

“Outra foi a sua paragem e oração junto ao muro de anexação, ilegal e racista. Em 2002, o Papa João Paulo II, que criticou este muro construído em terras roubadas aos palestinianos e que separa agricultores dos seus campos e impede palestinianos de chegarem ao trabalho e às escolas, disse: ‘A paz na Terra Santa precisa de pontes, não de muros’. Ao ver o Papa Francisco a rezar ali, estou certo que ele pediu a Deus a demolição daquele muro.”

Cimeira no Vaticano

Recebido pelo Presidente palestiniano Mahmud Abbas em Belém — onde o Papa se referiu ao “Estado da Palestina” — e em Jerusalém pelo primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu — a quem corrigiu as palavras dizendo que Jesus falava aramaico e não hebraico como ‘Bibi’ defendeu —, Francisco não se limitou ao papel de observador e convidou os Presidentes israelita e palestiniano para um encontro no Vaticano.

“Ele disse que não quer atuar como mediador”, continuou o embaixador. “Mas talvez com a sua bênção esse encontro possa ajudar a derreter este gelo entre israelitas e palestinianos.”

A cimeira entre Mahmud Abbas e Shimon Peres no Vaticano está previsto para 6 de junho. Antes disso, deverá ser anunciado o tão aguardado governo palestiniano de união nacional, que confirmará a reconciliação entre a moderada Fatah e o islamita Hamas, desavindos há sete anos — a Fatah controla a Cisjordânia e o Hamas a Faixa de Gaza.

“Ambos acordaram que o Governo será liderado pelo atual primeiro-ministro (Rami Hamdallah). Os restantes ministros serão tecnocratas e nenhum deles será membro da Fatah, do Hamas ou de qualquer outra fação”, diz o diplomata.

Segundo o acordo de reconciliação selado a 23 de abril, em Gaza, seguir-se-ão eleições gerais — o mandato do Presidente palestiniano, por exemplo, expirou em janeiro de 2010 e para evitar um vazio de poder, um mês antes, a Organização de Libertação da Palestina (OLP) determinou a sua extensão por tempo indeterminado até ser possível realizar eleições.

Precisamente esta semana, na quarta-feira, a OLP assinalou o seu 50º aniversário. A organização desapareceu das notícias, mas é, na realidade, a entidade política reconhecida internacionalmente como único e legítimo representante de todos os palestinianos. “A OLP foi formada para transformar aquilo que se preparava para ser apenas um problema de refugiados palestinianos (que surgiu na sequência da criação de Israel, em 1948) numa questão política relativa às aspirações dos palestinianos de estabelecerem o seu próprio Estado independente e soberano nas terras da Palestina histórica”, ou seja, nos atuais territórios da Palestina e de Israel.

Desespero palestiniano

Foi a OLP que, em 1993, assinou com Israel os Acordos de Oslo, que criaram a Autoridade Palestiniana (AP), a instituição que detém o poder executivo. “A AP é um filho da OLP. Foi criada para atender aos palestinianos que vivem no interior da Palestina (Cisjordânia e Faixa de Gaza). Mas a OLP atende a todos os palestinianos, onde quer que se encontrem (incluindo os refugiados).” Dos cerca de 11 milhões de palestinianos em todo o mundo, metade vive entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo (incluindo 20% da população de Israel, que é árabe).

Hikmat Ajjuri recorda que 2014 é o Ano Internacional da Solidariedade com o Povo Palestiniano. Porém, a solução de dois Estados está cada vez mais distante. “Israel está a empurrar os palestinianos para o desespero, e mesmo para a violência e para tudo o que sirva para a mentalidade sionista provar que os palestinianos não merecem ter um Estado.”

Artigo publicado no Expresso, a 31 de maio de 2014

Dez momentos que arrasaram o diálogo israelo-palestiniano

Terminam esta terça-feira os nove meses de negociações acordados entre israelitas e palestinianos. Por pressão dos EUA, as partes  toleraram-se durante oito meses. Nos últimos 30 dias, uma sucessão de acontecimentos levou o processo ao colapso

29 de março: Israel não liberta os prisioneiros

As conversações diretas entre israelitas e palestinianos foram retomadas a 29 de julho de 2013 no pressuposto de que Israel libertaria 104 prisioneiros palestinianos, detidos antes da assinatura dos Acordos de Oslo (1993). Essa foi a condição imposta pela liderança palestiniana para regressar à mesa das negociações. O processo deveria decorrer em quatro fases e as três primeiras realizaram-se conforme o previsto. O quarto grupo de 26 detidos deveria sair em liberdade a 29 de março, mas tal não se verificou. Israel justificou a decisão de não soltar os detidos com a falta de progressos no processo de paz.

1 de abril: Palestina pede adesão a tratados internacionais

O Presidente palestiniano, Mahmud Abbas, assinou pedidos de adesão do Estado da Palestina a quinze tratados internacionais, numa cerimónia transmitida em direto pela televisão. Este recurso diplomático foi tornado possível após a atribuição do estatuto de Estado observador à Palestina, aprovado a 29 de novembro de 2012 pela Assembleia Geral da ONU. Treze pedidos visaram convenções da ONU (entre as quais tratados relativos aos crimes de apartheid e de genocídio) e foram entregues ao diplomata holandês Robert Serry, coordenador especial da ONU para o processo de paz no Médio Oriente. Os outros dois foram submetidos aos governos suíço (Convenção de Genebra IV, relativa à proteção de civis em tempos de guerra) e holandês (Tratado de Haia II, relativo às leis da guerra).

22 de abril: Abbas ameaça dissolver a Autoridade Palestiniana

Mahmud Abbas acusou Israel de ter privado a Autoridade Palestiniana de poder real e ameaçou dissolver a instituição, nascida na sequência dos Acordos de Oslo (1993) com o objetivo de funcionar como uma espécie de Governo interino palestiniano. “Se as negociações falharem, diremos ao Governo israelita: ‘Aqui têm a autoridade, esvaziaram-na de todo o seu conteúdo, tomem-na’.” Num cenário destes, Israel, enquanto potência ocupante, ficaria responsável pela segurança, pela saúde e educação e pelo bem-estar económico dos palestinianos da Cisjordânia.

23 de abril: Fatah e Hamas reconciliam-se

As duas principais fações políticas palestinianas celebram um acordo de reconciliação, na cidade de Gaza. A moderada Fatah e o islamita Hamas, que controlam a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, respetivamente, estavam desavindos há sete anos. O acordo prevê a formação, num prazo de cinco semanas, de um Governo de unidade, composto por independentes, e a realização de eleições legislativas e presidenciais nos seis meses seguintes. “O próximo Governo irá obedecer à minha política”, garantiu o Presidente Abbas. “Eu reconheço o Estado de Israel e rejeito a violência e o terrorismo, e reconheço os compromissos internacionais.” Este acordo de reconciliação aplica dois pactos anteriores, assinados pelas fações palestinianas em Doha (fevereiro de 2012) e no Cairo (maio de 2011).

24 de abril: Israel suspende as negociações

Telavive anunciou a suspensão das negociações de paz com Ramallah, afirmando que a reconciliação Fatah-Hamas inviabiliza o diálogo. “O pacto com o Hamas mata a paz. Se avançar, a paz recua”, reagiu o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, em entrevista à norte-americana NBC. Apoiado pelo Irão, o Hamas não reconhece o Estado de Israel; por seu lado, Israel acusa a organização islamita de abrigar terroristas na Faixa de Gaza, território palestiniano que o Hamas governa desde 2007. Israel e Hamas travaram uma guerra entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009 (operação israelita “Chumbo Fundido”). “Ou o Hamas repudia a destruição de Israel e abraça a paz e condena o terror, ou o Presidente Abbas renuncia ao Hamas”, disse Netanyahu à CNN. “Se uma das duas se verificar, poderemos regressar às negociações de paz. A bola está do lado dele (Abbas).”

25 de abril: ‘Israel pode tornar-se um Estado de Apartheid’, alerta Kerry

Numa reunião à porta fechada da Comissão Trilateral, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou que se a solução de “dois Estados” não vingar, Israel corre o risco de se tornar “um Estado de apartheid”, noticiou o sítio americano “The Daily Beast”. “A solução de dois Estados é claramente a única alternativa real. Porque um Estado unitário acaba por tornar-se um Estado de Apartheid com cidadãos de segunda classe ou acaba por tornar-se um Estado que destroi a possibilidade de Israel ser um Estado judeu”, disse Kerry diante de um grupo de peritos dos EUA, Europa Ocidental e Japão. Aparentando sentir grande frustração, Kerry – que foi o grande responsável pela retoma das negociações em julho de 2013 – culpou os dois lados pela falta de progressos e disse que o colapso do processo negocial pode levar à retoma da violência palestiniana contra israelitas.

25 de abril: Casa Branca à espera para ver

Philip Gordon, conselheiro de Barack Obama para as questões do Médio Oriente, admitiu, num encontro com líderes de organizações judaicas, que para a Casa Branca o acordo de reconciliação Fatah-Hamas “não é necessariamente mau”, uma vez que pode fortalecer o Presidente Abbas, numa altura em que o Hamas está “nas cordas”. Disse ainda que é difícil alcançar a paz com “metade de uma entidade palestiniana”, deixando de fora os palestinianos que vivem sob a lei do Hamas. O conselheiro confessou que a Administração Obama foi surpreendida pelo acordo, considerou a sua data inconveniente e disse que Washington poderá fazer cortes na ajuda aos palestinianos se não se verificarem princípios anteriormente assumidos: oposição ao terrorismo, reconhecimento de Israel e dos acordos firmados anteriormente. Philip Gordon disse que a Casa Branca permanece comprometida com o processo de paz, mas que adotou uma atitude de “esperar para ver”.

27 de abril: Presidente palestiniano condena o Holocausto

Num comunicado divulgado horas antes de Israel iniciar as celebrações do Dia da Memória do Holocausto, o Presidente palestiniano afirmou que o assassinato em massa de judeus foi “o crime mais hediondo” contra a humanidade na era moderna. A presidência palestiniana informou que, recentemente, Abbas discutiu o assunto com Marc Schneier, um rabino americano que lidera um grupo inter-religioso judaico-muçulmano e que visitou Abbas em Ramallah. Na mensagem, Abbas acrescentou: “O povo palestiniano, que sofre de injustiça, opressão e que vê serem-lhe negadas a liberdade e a paz, é o primeiro a exigir o fim da injustiça e do racismo que se abatem sobre outros povos”. O Memorial do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, divulgou um comunicado afirmando que as afirmações de Abbas “podem ser um sinal de mudança na forma como o assunto é tratado no mundo árabe e entre os palestinianos”.

27 de abril: Palestinianos visam 60 agências internacionais

O Conselho Executivo da Organização de Libertação da Palestina (OLP) – organização que representa o povo palestiniano e que, em 1993, assinou os Acordos de Oslo com o Estado de Israel – aprovou um plano que prevê a adesão a 60 agências das Nações Unidas e tratados internacionais. A entrada do Estado da Palestina em organizações internacionais é vista como um passo unilateral por parte da diplomacia palestiniana no sentido do reconhecimento do Estado da Palestina como membro de pleno direito das Nações Unidas e, consequentemente, um gradual afastamento do processo de negociações promovido pelos Estados Unidos.

28 de abril: Israel aplica sanções económicas

Israel começou a aplicar um conjunto de sanções económicas na Cisjordânia. Telavive congelou 19 projetos de construção nas áreas C (territórios palestinianos que permanecem sob controlo total das autoridades israelitas). Segundo o jornal israelita “Maariv”, Yoav Mordechai, que coordena as atividades do Governo israelita nos territórios palestinianos, admitiu que a decisão é “uma resposta à proposta de Abbas visando a adesão palestiniana a agências da ONU”. Israel, que recolhe os impostos em nome da Autoridade Palestiniana, também aumentou o valor da retenção mensal que faz desses impostos, passando de 100 milhões de shekel (20,7 milhões de euros) para 132 milhões (27,3 milhões). Telavive também cancelou a autorização para a instalação de um rede 3G para telemóveis, as atividades de perfuração no campo de gás da marina de Gaza e a transferência de fundos, em bancos israelitas, pertencentes a cidadãos palestinianos.

IMAGEM MAKARISTOS / WIKIMEDIA COMMONS

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 29 de abril de 2014. Pode ser consultado aqui