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Nunca ninguém mandou tanto tempo como Benjamin Netanyahu

Benjamin Netanyahu torna-se este sábado o israelita que mais tempo ocupou o cargo de primeiro-ministro. Completa 4876 dias no poder, ultrapassando David Ben-Gurion, um dos pais fundadores do Estado de Israel

Benjamin Netanyahu foi o primeiro chefe de Governo de Israel a nascer no país — em Telavive, a 21 de outubro de 1949, um ano após a criação do Estado. Foi também o primeiro-ministro mais novo a assumir o cargo — tinha 47 anos. A partir deste sábado acumula um terceiro recorde: passa a ser o governante que exerceu a chefia do Governo durante mais tempo.

Ultrapassa o histórico David Ben-Gurion, um dos pais fundadores do Estado de Israel, que foi primeiro-ministro durante 4875 dias: entre 14 de maio de 1948 e 26 de janeiro de 1954 e novamente entre 3 de novembro de 1955 e 26 de junho de 1963.

Aos 69 anos, “Bibi”, como é chamado, foi primeiro-ministro durante 13, em dois períodos não consecutivos: de 18 de junho de 1996 a 6 de julho de 1999 e desde 31 de março de 2009. Este sábado, completa 4876 dias no cargo.

Uma longa caminhada — que poderá continuar após as eleições legislativas marcadas para 17 de setembro — resumida em 10 momentos.

OS PRIMEIROS TRAVOS DO PODER

Benjamin Netanyahu acaba de ser eleito líder do partido Likud, a 21 de março de 1993, em Katzrin ESAIAS BAITEL / GETTY IMAGES

A 4 de novembro de 1995, dois anos após israelitas e palestinianos assinarem os Acordos de Oslo — o último esboço de paz firmado até hoje —, a esperança cai por terra com a notícia do assassínio do primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, às mãos de um fanático judeu. Na liderança do Likud (direita), um dos partidos históricos de Israel, havia dois anos, Benjamin Netanyahu protagonizara uma mudança geracional — da era dos pais fundadores do Estado para o tempo dos cidadãos já nascidos no país. O desaparecimento de Rabin precipita o país para eleições, a 26 de maio de 1996: o Likud vence e Netanyahu toma posse como primeiro-ministro. Herda um país em choque e cético quanto ao seu futuro próximo.

OLHAR OS PALESTINIANOS… COM DESCONFIANÇA

O primeiro encontro entre Yasser Arafat e Netanyahu, a 4 de setembro de 1996, em Erez NADAV NEUHAUS / GETTY IMAGES

Netanyahu encontra-se com Yasser Arafat pela primeira vez a 4 de setembro de 1996, na passagem fronteiriça de Erez, entre Israel e a Faixa de Gaza. A convivência entre ambos pautar-se-ia sempre pela desconfiança, agravada pelas discordâncias de Netanyahu em relação às premissas dos Acordos de Oslo. Para o israelita, não faz sentido — e só encoraja o extremismo — negociar por etapas, fazendo concessões sem que haja um entendimento relativamente aos principais assuntos, como o estatuto de Jerusalém. No poder, Netanyahu não rasga Oslo, mas não faz dele uma prioridade. Os colonatos judeus em território palestiniano intensificam-se irreversivelmente.

RELAÇÃO ENVENENADA COM O HAMAS

Captura de ecrã de um vídeo onde se vê Netanyahu a amachucar e a atirar para o caixote do lixo um documento político do Hamas REUTERS

Nascido na Faixa de Gaza, sob ocupação israelita, o movimento islamita Hamas — que na sua Carta fundadora pugna pelo desaparecimento de Israel — nunca teve em Netanyahu um interlocutor. Em 1997, o primeiro-ministro israelita tenta mesmo decapitar o grupo e autoriza uma operação da Mossad para assassinar o seu líder, Khaled Mashal, na Jordânia. Disfarçados de turistas canadianos, cinco agentes conseguem injetar veneno em Mashal, numa rua de Amã, mas são descobertos. Em fúria, o rei Hussein exige a Israel a cedência do antídoto sob pena de anular o tratado de paz jordano-israelita celebrado três anos antes. Fortemente pressionado pela Casa Branca, onde estava Bill Clinton, Netanyahu cede.

CHOQUE DE FRENTE COM O “BULLDOZER”

Benjamin Netanyahu sentado ao lado de Ariel Sharon de quem foi ministro dos Negócios Estrangeiros e das Finanças GIL COHEN MAGEN / AFP / GETTY IMAGES

Entre os dois períodos que serviu como primeiro-ministro, Netanyahu tem uma fase, fora da política, em que trabalha no sector privado e outra em que participa — como ministro dos Negócios Estrangeiros e das Finanças — em governos liderados por Ariel Sharon. A carreira política leva um forte impulso quando o “bulldozer” promove um plano unilateral de retirada de tropas e colonos da Faixa de Gaza e posterior devolução do território à Autoridade Palestiniana. Netanyahu discorda em absoluto e, a 7 de agosto de 2005, demite-se. Muitos israelitas interpretam a saída de Israel de Gaza como um sinal de fraqueza e identificam-se com a posição assumida por Netanyahu. Em dezembro desse ano, ele recupera a liderança do Likud e lança-se novamente no combate pela liderança do país.

A PALESTINA, SEGUNDO NETANYAHU

Benjamin Netanyahu junto a um mapa relativo à construção de novas casas para judeus na parte oriental (árabe) de Jerusalém MENAHEM KAHANA / AFP / GETTY IMAGES

A 6 de abril de 2009, menos de três meses após entrar na Casa Branca, Barack Obama dirige-se ao mundo islâmico com um discurso na Universidade do Cairo, intitulado “Um novo começo”. “Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade de contínuos colonatos israelitas”, diz. Em Israel, Netanyahu é novamente primeiro-ministro, havia uma semana. A 14 de junho seguinte, num discurso na Universidade Bar-Ilan, nos arredores de Telavive, o israelita enumera as suas condições para apoiar uma Palestina independente: Jerusalém seria a capital unificada de Israel, os palestinianos não teriam exército e abdicariam do direito de regresso dos refugiados. Netanyahu reclama também o direito ao “crescimento natural” dos colonatos existentes na Cisjordânia. Fecha assim a porta ao Estado com que os palestinianos sonham.

O DESENHO DA AMEAÇA IRANIANA

Discursando na Assembleia Geral da ONU, a 27 de setembro de 2012, com o Irão em mente LUCAS JACKSON / REUTERS

A 27 de setembro de 2012, Netanyahu sobe ao palanque da Assembleia Geral da ONU munido de um marcador e de uma cartolina com o desenho de uma bomba prestes a detonar. “A questão relevante não é quando vai o Irão obter a bomba”, diz. “A questão relevante é em que fase deixa de ser possível impedir que o Irão obtenha a bomba.” E traça na cartolina uma linha vermelha a partir da qual o Irão não deve ser autorizado a continuar a enriquecer urânio. Nesse discurso, Netanyahu pronuncia a palavra “Irão” 110 vezes. Nos anos que se seguiriam, falar da República Islâmica e das suas ambições nucleares torna-se um clássico nos discursos de Netanyahu nas Nações Unidas, em especial após a assinatura do acordo internacional de 2015 — que ele considera “um erro histórico”.

COMPREENSIVO PARA COM… ADOLF HITLER

Benjamin Netanyahu aponta para um mapa que localiza os campos de extermínio de judeus (Holocausto), durante a II Guerra Mundial JANEK SKARZYNSKI / AFP / GETTY IMAGES

“Hitler não queria exterminar os judeus na altura, ele queria expulsar os judeus. E Haj Amin al-Husseini [o grande mufti de Jerusalém] foi ter com ele e disse: ‘Se os expulsar, eles virão todos para aqui [para a Palestina]’.” Segundo Netanyahu: Hitler terá perguntado: “O que devo fazer com eles?” O mufti respondeu: “Queime-os”. Foi nestes termos que Netanyahu descreveu o encontro entre Hitler e Husseini, em novembro de 1941, perante a plateia do 37.º Congresso Mundial Sionista, a 20 de outubro de 2015, em Jerusalém. Pouco importa se, com estas palavras, choca milhões de judeus com histórias do Holocausto na família. O objetivo é lançar a dúvida e contaminar a pretensão dos palestinianos de continuarem a viver naquela terra.

TOLERÂNCIA ZERO NA FAIXA DE GAZA

Benjamin Netanyahu junto a uma bateria do escudo anti-aéreo Cúpula de Ferro, com que Israel interceta os “rockets” lançados desde a Faixa de Gaza JACK GUEZ / REUTERS

Nos últimos dez anos, a Faixa de Gaza foi alvo de três operações militares israelitas de grande envergadura — só na primeira não era Netanyahu primeiro-ministro. A mais mortífera, a “Barreira Protetora” em 2014 — justificada com a necessidade de retaliar o rapto de três jovens colonos… na Cisjordânia —, começa cerca de um mês após Hamas e Autoridade Palestiniana (AP) anunciarem a formação de um governo de unidade nacional (2 de junho). As duas fações palestinianas estavam desavindas desde 2007 quando o Hamas tomou o poder pela força em Gaza e a Cisjordânia ficou sob controlo da AP. Segundo a ONU, na “Barreira Protetora” morreram 2251 palestinianos, em sete semanas de bombardeamentos. Israel confirmou 67 militares e seis civis mortos.

A CONTAS COM A JUSTIÇA

Benjamin Netanyahu é inquirido, no Supremo Tribunal de Israel, em 2016, sobre a legalidade de um negócio aprovado pelo Governo JIM HOLLANDER / REUTERS

Na agenda de Netanyahu, os próximos dias 2 e 3 de outubro estão provavelmente marcados a vermelho. Está prevista para essas datas a sua audição no âmbito de três grandes investigações a casos de corrupção em que a polícia recomendou que Netanyahu fosse indiciado por suborno, fraude e abuso de confiança. Caberá ao procurador-geral de Israel, Avichai Mendelblit, decidir se as provas são suficientemente fortes para acusá-lo. Se for acusado e continuar a ser primeiro-ministro, não está legalmente obrigado a renunciar, apenas se for condenado e quando esgotados todos os recursos. Netanyahu diz que a atuação da polícia é “uma caça às bruxas”. Em maio passado, é notícia um pacote legislativo em preparação visando fintar as determinações dos tribunais e que pode beneficiá-lo com imunidade. Não vai avante porque Netanyahu não se aguenta no Governo.

REFÉM DOS PARTIDOS RELIGIOSOS

O casal Netanyahu, Benjamin e Sara, celebrando a vitória do Likud nas eleições legislativas de 9 de abril passado THOMAS COEX / AFP / GETTY IMAGES

Nas eleições de 9 de abril passado, os dois partidos mais votados elegem cada um 35 deputados. Mas a escassa vantagem de 0,33% dos votos a favor do Likud é suficiente para que Netanyahu seja reconduzido num quinto mandato — o quarto consecutivo — como primeiro-ministro de Israel. Porém, as negociações para formar governo revelam-se uma missão impossível. Netanyahu garante o apoio dos partidos religiosos ultraortodoxos, prometendo continuar a isentá-los do cumprimento do serviço militar. Essa exceção é polémica, já que a tropa é obrigatória e universal em Israel (com exceções), e vale a Netanyahu a oposição da extrema-direita de Avigdor Lieberman, essencial à maioria parlamentar necessária. Num país em que os executivos são sempre de coligação, Netanyahu torna-se o primeiro candidato a primeiro-ministro a não conseguir formar governo.

(Uma fotografia de Benjamin Netanyahu rodeada de boletins de voto, na sede do Likud, em Telavive AMIR COHEN / REUTERS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de julho de 2019. Pode ser consultado aqui

Depois da corrida aos votos, a caça aos parceiros de coligação

As eleições em Israel não ditaram um vencedor claro, mas os dois principais candidatos não se fizeram rogados: Benny Gantz disse aos seus apoiantes que será primeiro-ministro. Já Benjamin Netanyahu fez saber que já está em contactos para formar uma coligação governamental

As sondagens previam uma disputa renhida entre o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Likud (direita), e a recém-formada aliança Kahol Lavan (centro), do general Benny Gantz. E a batalha nas urnas confirmou-o.

As primeiras sondagens à boca das urnas ditaram resultados contraditórios: duas deram a vitória à Kahol Lavan e uma terceira colocou-os empatados. Às primeiras horas da madrugada, as projeções comçariam a ser revistas no sentido de uma vitória do Likud. Essa indefinição não impediu Netanyahu nem Gantz, o líder da aliança de cantarem vitória.

“Sim, amigos, serei o primeiro-ministro de todos e não apenas daqueles que votaram em mim”, disse Gantz, triunfante, diante de apoiantes em festa.

Pouco depois, um porta-voz do Likud, anunciava que Netanyahu está “numa fase muito avançada para formar coligação”.

A engenharia da política

Num país como Israel que sempre teve governos de coligação, para além dos deputados próprios é importante a restante composição do Parlamento (Knesset). E neste capítulo, Netanyahu parece ter vantagem.

Independentemente de vir a ter menos deputados, poderá ter melhores condições para formar coligação. As projeções dizem que, além de Likud e Kahol Lavan, há mais nove partidos bem colocados para eleger parlamentares — e cinco são de direita.

Aos seus apoiantes, Gantz afirmou que conseguirá “formar uma ampla coligação que represente todo o Israel”. Até lá há que esperar pelos resultados finais e depois fazer contas.

Netanyahu dirigiu-se aos seus apoiantes já madrugada dentro. Referiu-se a “uma enorme conquista”. “Quando é que conseguimos tantos lugares? Nem me consigo lembrar.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Religiosos ultraortodoxos, ultranacionalistas e a extrema-direita: as opções de Netanyahu para formar Governo

Maioria de direita no novo Parlamento de Israel vai permitir ao primeiro-ministro continuar no cargo. Netanyahu não precisa de convite do Presidente: já está a negociar a próxima coligação de governo

Benjamin Netanyahu predispôs-se a um feito histórico e alcançou-o: o atual primeiro-ministro de Israel vai ser reconduzido num quinto mandato, o quarto consecutivo. Após tomar posse, basta aguentar-se no cargo até meados de julho e ultrapassa David Ben-Gurion, fundador do Estado, como o israelita que chefiou o Governo durante mais tempo.

Em nome desse desígnio, Netanyahu correu em duas pistas nas eleições legislativas de terça-feira: enquanto líder do Likud, pugnando pela eleição do maior número possível de deputados, e enquanto membro da fação da direita no Parlamento (Knesset), na esperança que, conferidos os votos, esse bloco fosse maioritário.

Netanyahu ganhou em toda a linha. Com 97% dos votos escrutinados, o Likud segue na frente com 26,27%, seguido de muito perto pela aliança Kahol Lavan (Azul e Branco, de centro), com 25,94%. Entre as duas formações há cerca de 14 mil votos de diferença, num universo de 6,3 milhões de eleitores. No Knesset, ambas vão ter 35 deputados.

Mas o que verdadeiramente contribui para estender a passadeira vermelha a Netanyahu é a maioria alcançada pelo conjunto dos partidos de direita, que elegeram 65 deputados num total de 120.

Ao longo dos seus 70 anos de história, Israel nunca teve um governo de um partido só. A seguir a umas legislativas, negociar uma coligação é pois um procedimento político tão habitual como votar.

Os resultados de terça-feira ditaram que os parceiros naturais de Netanyahu na próxima coligação são cinco. À cabeça, os dois partidos religiosos ultraortodoxos (Shas e Judaísmo da Torah Unida), que conseguiram oito lugares cada — no conjunto, passam de 13 para 16 deputados. Por ironia, estes partidos estiveram envolvidos na crise política que levou à antecipação destas eleições em meio ano, quando bateram o pé a uma nova lei que pretendia estender o serviço militar aos homens ultraortodoxos, o que não acontece agora.

Com cinco deputados cada, Yisrael Beitenu e a União dos Partidos de Direita são outros apoios essenciais a Netanyahu. O primeiro — “Israel é o nosso lar” — é liderado pelo ultranacionalista Avigdor Lieberman, que foi ministro da Defesa de Netanyahu entre 2016 e 2018 e bateu com a porta em novembro passado após o primeiro-ministro ter optado por um cessar-fogo com o Hamas em vez de bombardeamentos à Faixa de Gaza, como Lieberman defendia.

Quanto à União dos Partidos de Direita, foi fundada em fevereiro passado e agrupa três partidos da direita e da extrema-direita. Entre eles está o polémico Poder Judeu, que se diz herdeiro ideológico do rabino radical Meir Kahane. O seu líder, Michael Ben-Ari, foi impedido pelo Supremo Tribunal de Israel de se candidatar nestas eleições.

A fechar o leque das hipóteses de coligação de Netanyahu surge o Kulanu, liderado pelo atual ministro das Finanças, Moshe Kahlon. Quando fundou o partido, em 2014, Kahlon definiu-o como “a direita sã”. Nestas eleições perdeu seis deputados, ficando-se pelos quatro.

Na bancada de centro-esquerda — a real oposição a Netanyahu —, além do Kahol Lavan (35 deputados), vão sentar-se duas coligações árabes: Hadash-Ta’al e Balad-Ra’am, a primeira com seis e a segunda com quatro parlamentares. Em 2015, os quatro partidos concorreram unidos e conseguiram 13 lugares — agora, separados, ficaram-se pelos 10. Na sociedade israelita, os árabes correspondem a 20% da população, mas no Parlamento a sua representatividade não vai agora além dos 8%.

Entre os derrotados destas eleições, o campeão foi o Partido Trabalhista. Outrora a fação dominante na política israelita, durante as primeiras décadas de vida do Estado, perdeu dois terços dos lugares que tinha, passando de 18 para seis. O outro partido de esquerda, o Meretz — membro da Internacional Socialista — também perdeu representatividade, passando de cinco para quatro deputados.

Apurados os votos, cabe ao Presidente de Israel, Reuven Rivlin, convidar a personalidade que considera ter melhores condições para formar governo. Benjamin Netanyahu adiantou-se ao convite e já anda em conversações.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 10 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Projeções dão menos deputados a Netanyahu, mas melhores condições para formar coligação

Duas sondagens à boca das urnas dão a vitória à aliança Kahol Lavan (centro) sobre o Likud (direita) do primeiro-ministro israelita. Uma terceira coloca-os empatados. Por blocos políticos, a direita leva vantagem, o que confere a Benjamin Netanyahu melhores condições para formar coligação

Duas horas após o encerramento das urnas em Israel (eram 20h em Lisboa), começaram a ser divulgados os primeiros resultados oficiais das eleições legislativas desta terça-feira.

Com 29 mil boletins contabilizados, a aliança Kahol Lavan (Azul e Branco) assumiu a liderança com 30,3% dos votos, seguida pelo Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, com 24,2%.

Os israelitas anseiam pela contagem final dos votos, após as projeções à boca das urnas anunciadas pelas televisões, após o fecho das urnas, terem semeado a confusão entre eleitores e analistas ao não preverem um vencedor claro.

Netanyahu perde em duas, empata noutra

O Channel 11 atribui 37 deputados à aliança Azul e Branco, liderada por Benjamin (“Benny”) Gantz e Yair Lapid, e 36 ao Likud.

No Channel 12, a vantagem de Gantz é maior: 37 contra 33. E o Channel 13 dá um empate, com 36 parlamentares cada.

O diário israelita “Haaretz” fez uma média dos resultados das três televisões que dá a liderança à formação de Gantz com 37 deputados, seguido pela de Netanyahu com 35.

O diário israelita “Haaretz” fala de “resultados chocantes que destruíram as esperanças do primeiro-ministro de Israel numa vitória fácil”.

A seguir à Kahol Lavan e ao Likud surgem três partidos com sete parlamentares cada: os dois religiosos ultraortodoxos (Shas e União da Torah Unida) e o histórico Partido Trabalista. Só depois surge o primeiro partido árabe, o Hadash-Ta’al, com seis deputados.

Em causa estão 120 lugares no Parlamento de Israel (Knesset). Para eleger um deputado, um partido tem de obter pelo menos 3,25% dos votos.

‘Vitória’, cantaram os dois lados

Num país que sempre teve governos de coligação, são importantes também os resultados por blocos políticos. O Channel 12 atribui exatamente 60 deputados aos partidos de direita, 48 aos partidos que se enquadram no centro-esquerda e 12 aos partidos árabes. O Channel 13, porém, dá uma maioria à direita de 66 contra 54 dos restantes.

Com tudo ainda por decidir, os dois líderes já se vitoriaram de forma enfática. Netanyahu reagiu no Twitter, mas parece só ter valorizado os resultados por blocos. “O bloco de direita que o Likud lidera obteve uma vitória clara. Agradeço aos cidadãos de Israel pela confiança. Começarei a organizar um governo de direita com os nossos parceiros naturais esta noite.”

Num comunicado, a aliança Kahol Lavan também clamou vitória: “Ganhamos! O povo israelita expressou-se! Estas eleições têm um vencedor claro e um derrotado claro.”

Mais tarde, dirigindo-se aos seus apoiantes, Gantz esbanjou confiança: “Sim, amigos, serei o primeiro-ministro de todos e não apenas daqueles que votaram em mim. Ninguém de um partido que não é o nosso deve ficar preocupado.”

(FOTO Cartazes partidários para as eleições legislativas de 9 de abril de 2019, em Israel WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui

Indícios de desespero em dia de eleições

Cerca de 6,3 milhões de israelitas escolhem, esta terça-feira, o próximo Parlamento e, por arrasto, o novo governo. Para Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro cessante, ganhar ou perder pode ser a diferença entre fazer História ou ficar vulnerável à Justiça. Para a minoria árabe de Israel poderá ser o pior resultado de décadas

“Deixem a água e vão votar. Amanhã, vão acordar com Yair Lapid como primeiro-ministro de um governo de esquerda. Deixem a praia, saiam de vossas casas, vão votar Likud.” Este apelo, que mais soa a desespero, saiu da boca do atual primeiro-ministro de Israel, esta terça-feira, durante uma caminhada junto à praia Poleg, na cidade costeira de Netanya.

Eram cerca de quatro da tarde (mais duas horas do que em Portugal Continental) e Benjamin Netanyahu não resistiu a acabar com a tranquilidade de alguns banhistas que — convocados para participar nas eleições legislativas desta terça-feira — se tinham deixado levar pelo espírito do feriado (decretado por ser dia de eleições) e desligaram da política.

Yair Lapid, a “ameaça” a que se referiu Netanyahu, é um dos rostos da recém formada aliança centrista Kahol Lavan (Azul e Branco, como a bandeira de Israel), liderada também por um ex-chefe de Estado-Maior, Benjamin (“Benny”) Gantz, que está taco a taco com o Likud na liderança das sondagens.

Ali junto ao Mediterrâneo, com todas as letras, Netanyahu tentava angariar apoios de última hora que o levem a um quarto mandato consecutivo. Se isso acontecer, ele poderá entrar para a História. A 17 de julho próximo, cumprirá 13 anos e 128 dias (não consecutivos) no cargo de primeiro-ministro, ultrapassando por um dia o histórico David Ben-Gurion, fundador do Estado.

Inversamente, uma eventual derrota será muito amarga de digerir. Para além de abandonar o cargo, Netanyahu ficará mais vulnerável face aos vários processos que correm na justiça contra si. A polícia israelita já concluiu haver provas suficientes para o acusar, e à mulher, de corrupção, encaminhando o caso para o Ministério Público.

Netanyahu é um homem nervoso e esta terça-feira deu vários sinais disso, nomeadamente quando não discordou de uma ação ilegal do Likud realizada em assembleias de voto de localidades de maioria árabe. Cerca de 1200 observadores afetos ao seu partido foram apanhados com câmaras ocultas no corpo. Uma das coligações árabes que estão a votos, o Hadash-Ta’al, apresentou queixa e a Comissão Eleitoral ordenou o confisco dos equipamentos.

Koby Matza, advogado do partido, tentou justificar o injustificável, dizendo que as câmaras “estavam escondidas, mas eram visíveis” e que “foram colocadas nas comunidades onde há um significativo receio de fraude”, disse. “As câmaras visavam assegurar uma votação justa.”

“Não nos vamos render à intimidação e às tentativas de nos tirar legitimidade”, reagiu a outra coligação árabe, Balad-Ra’am. “Vamos sentar-nos no próximo Knesset e representar os nossos eleitores mesmo que o Likud e a direita não nos queiram lá. A nossa legitimidade vem do nosso eleitorado e não de Netanyahu.”

Cerca de 20% da população israelita é de cultura árabe, mas a perda sucessiva de direitos — acentuada durante a governação de Netanyahu — tem tornado a convivência com a maioria de judeus cada vez mais tensa. Horas antes do incidente com as câmaras, perto de Nazaré (norte de Israel), cidade de maioria árabe, vários cartazes do Hadash-Ta’al foram grafitados com palavras em hebraico: “Morte aos árabes.”

Cerca das duas e meia da tarde, soaram alarmes entre a maior das minorias israelitas: a afluência às urnas dos árabes não ia além dos 15%. Apesar de não ser permitida a divulgação de sondagens à boca das urnas, alguns analistas começavam a deixar escapar algumas leituras com a fraca taxa de participação árabe à cabeça. “A afluência na comunidade árabe é algo nunca visto antes”, dizia um deles citado pelo “The Times of Israel”.

Nas eleições de 2015, os quatro partidos árabes foram capazes de esboçar uma unidade e apresentaram-se coligados na Lista Unida — conseguindo eleger 13 deputados. Quatro anos depois, deixaram que as diferenças falassem mais alto e apresentaram-se divididos em dois blocos: o Hadash-Ta’al e o Balad-Ra’am.

A meio da tarde, os alarmes continuavam a soar: “A baixa afluência nas cidades árabes é uma ameaça real às duas listas”, escrevia no Twitter Ahmad Tibi, o líder do Ta’al. “Um golpe muito sério na representação árabe no Knesset.”

(FOTO Boletins de voto dos partidos israelitas que participaram nas eleições de 9 de abril de 2019 LALIV G/WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 9 de abril de 2019. Pode ser consultado aqui