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Apelos há muitos, boicotes à Eurovisão não há nenhum

Roger Waters pediu a Conan Osíris que boicote a Eurovisão em Israel. O fundador dos Pink Floyd, um destacado ativista da causa palestiniana, tentou sensibilizar o artista português para a ocupação da Palestina e o “apartheid” ali imposto. Mas a dois meses do Festival, a disputa entre a Rússia e a Ucrânia fez mais danos ao evento do que o conflito israelo-palestiniano…

Roger Waters, fundador dos Pink Floyd, junto ao “muro da Cisjordânia”, na região de Belém, a 21 de junho de 2006. “Stop apartheid”, lê-se AHMAD MEZHIR / REUTERS

Acolher um evento como a Eurovisão pode ser uma faca de dois gumes para um Estado como Israel. Por um lado, confere-lhe uma montra única de promoção do país, já que o evento é visto por centenas de milhões de pessoas. Por outro, tem inerente uma grande dose de risco dada a possibilidade de se registarem boicotes em protesto contra a ocupação israelita da Palestina.

A dois meses da final de Telavive – agendada para 18 de maio – não há, até ao momento, qualquer boicote anunciado. Mas desde domingo que Portugal está na linha de mira do movimento internacional BDS que promove formas de “Boicote, Desinvestimento e Sanções” contra Israel. Na sua página no Facebook, Roger Waters, fundador dos Pink Floyd e um dos mais destacados ativistas da causa palestiniana, publicou uma “carta aberta a Conan Osíris e aos outros 41 finalistas da Eurovisão”.

“Amigos meus disseram-me que Conan Osíris poderia juntar-se à vasta rede de artistas que estão atentos ao apelo palestiniano de boicote à Eurovisão na cidade de ‘apartheid’ de Telavive.” O músico inglês leu a tradução da letra de “Telemóveis”, apreendeu a mensagem “bem profunda” sobre a vida, a morte e o amor e dirigiu-se ao artista português. “[Há dez dias], escrevi-lhe e sugeri que agora ele tinha uma oportunidade para falar da vida sobre a morte e também de direitos humanos sobre erros humanos.”

Na carta, “expliquei que a Eurovisão poderia ser um ponto de inflexão [na situação de ‘apartheid’ em que vivem os palestinianos], pedi a Conan que se erguesse. Infelizmente, até agora, não há resposta de Conan”. À SIC, o português confirmou que recebeu o email, que o leu, mas escudou-se a comentar a abordagem do músico britânico.

Na bolsa das apostas, o inesperado protagonismo de Conan Osíris não o fez mais favorito à vitória do que até então. Esta segunda-feira, estava em 10º lugar quer no EurovisionWorld.com quer no OddsChecker.com — ambos os rankings são liderados pela Holanda, seguida pela Rússia e pela Suécia.

A banda Hatari, que representará a Islândia, tem sido crítica da realização da Eurovisão em Israel FOTO RUV

A ausência de boicotes não significa que as autoridades de Telavive possam confiar num evento sem casos políticos. A perspetiva de algum artista aproveitar o direto para expressar apoio aos palestinianos é real e, com todos os concorrentes já apurados, Telavive tem um receio particular: a banda Hatari, que representará a Islândia com o tema “O ódio prevalecerá”.

Há duas semanas, numa entrevista no Canal 13 de Israel, a banda techno-punk não iludiu a questão: “Houve muita pressão na Islândia para que a competição fosse boicotada. Nós temos sido críticos em relação à realização da competição em Israel, e o facto de a Islândia ter votado em nós significa que concordam com a nossa agenda de manter viva uma discussão muito importante.” A banda — que está em 7º lugar no ranking dos favoritos — não desvendou o que planeia fazer durante a atuação. Porém, “julgamos que não haverá uma bandeira palestiniana no palco”.

Atento à “ameaça”, o Ministério dos Assuntos Estratégicos de Israel montou uma “task force” interministerial para lidar com eventuais críticas de teor político que emirjam de delegações ao festival e que possam constituir uma violação da “Lei de Prevenção de Danos ao Estado de Israel através de Boicote”, de 2011. A organização Shurat HaDin, que representa judeus vítimas de terrorismo, apelou a que a banda seja proibida de entrar no país.

“Não vemos razão para que não sejam autorizados a entrar”, reagiu Jon Ola Sand, supervisor executivo do Festival. “Temos um diálogo estreito com os governantes de Israel, e eles sabem que isso pode rapidamente voltar-se contra eles e contra os organizadores se for recusado visto a alguém.” O “Sr. Eurovisão” acrescentou que a televisão pública islandesa (RUV) está ciente das consequências que podem advir de uma provocação política em palco. As regras da União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla inglesa) não permitem letras, discursos ou gestos de natureza política e comercial durante a Eurovisão.

Dos 42 membros da EBU com participação prevista na Eurovisão, um saltou fora por razões políticas — não relacionadas com Israel. A Ucrânia, vencedora em 2004 e 2016, e onde Salvador Sobral ganhou, cancelou a sua participação após a candidata escolhida pelo público, Anna Korsun (MARUV de seu nome artístico) ter-se recusado a cancelar os concertos que já tinha agendados… na Rússia.

Uma outra participação envolta em polémica política é a da França. Na semana anterior à Eurovisão, a televisão pública israelita (KAN) tem prevista a transmissão de uma série em três episódios intitulada “Douze Points” (Doze Pontos) alusiva a um festival da canção realizado em Israel. Na trama, o representante francês é um jovem de origem magrebina (franco-argelino), homossexual e muçulmano que se vê pressionado pelo Daesh para realizar um atentado durante o direto do espetáculo. A série decorre num registo humorístico e nem os jiadistas nem os agentes da Mossad que tentam sabotar os planos são poupados à sátira.

Numa coincidência extraordinária, o representante francês em Telavive é Bilal Hassani, um jovem de aparência andrógina, nascido em Paris no seio de uma família franco-marroquina, muçulmano e homossexual. As autoridades francesas acusaram o desconforto, pressionaram para que a série não fosse cancelada mas esclareceu que não tenciona faltar ao evento.

Em matéria de boicotes, dir-se-ia que a organização israelita da Eurovisão tem visto o seu trabalho mais dificultado por… israelitas. Ultrapassadas as meias-finais de 14 e 16 de maio, a final realiza-se no dia 18, um sábado. Entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado, os judeus observam o “sabbath”, período dedicado à oração e à introspeção, incompatível com qualquer atividade laboral. Ainda que a gala da Eurovisão possa decorrer já num horário posterior, o dia será necessário para ensaios.

Se a escolha de Telavive em detrimento de Jerusalém — a opção preferida do Governo israelita para acolher a Eurovisão — afastou o evento do epicentro de eventuais protestos por parte de judeus ultraortodoxos, não o protegeu em absoluto de danos motivados por questões religiosas. Desafiado pela organização para abrir o espetáculo da final, Omer Adam, estrela da pop israelita, declinou o convite por respeito ao “sabbath”. Já na fase de apuramento do candidato israelita, The Shalva Band, composta por músicos com deficiências e um dos favoritos à vitória, desistiu da competição por incompatibilidade entre os deveres religiosos e o calendário da Eurovisão.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 18 de março de 2019. Pode ser consultado aqui

Benjamin Netanyahu, o governante “cinco em um”

Para além da chefia do governo de Israel, Benjamin Netanyahu é atualmente o titular de quatro ministérios. Esta concentração de poder não é inédita no país e costuma ser sintoma de crise

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel WWW.KREMLIN.RU / WIKIMEDIA COMMONS

primeiro-ministro de Israel chamou a si, esta semana, a condução dos ministérios da Defesa e da Imigração e Integração. Com esta acumulação de funções, Benjamin Netanyahu fica responsável, durante a semana de trabalho (e em sentido figurado), por um ministério por cada dia útil já que, para além destes três cargos, ele é ainda ministro dos Negócios Estrangeiros e da Saúde.

“Certamente que não é bom que o primeiro-ministro detenha tantas pastas”, diz ao Expresso Natan Sachs, diretor do Centro de Políticas sobre o Médio Oriente do Brookings Institution, Washington D.C.. “Neste caso, há uma combinação de três situações. [Desde o início], Netanyahu manteve os Negócios Estrangeiros para si, o que enfraquece o ministério consideravelmente em comparação com o gabinete do primeiro-ministro.”

Em relação ao da Saúde, que ele detém desde 28 de novembro de 2017, “é dirigido por um vice-ministro, e ele é ministro só no papel. Os restantes [que herdou no passado domingo] são resultado da última crise política, ou seja, Netanyahu é ministro por defeito após a renúncia dos titulares. É bem possível que ele designe ministros para alivia-lo, incluindo um ministro dos Negócios Estrangeiros.”

Desde que o atual governo iniciou funções, a 14 de maio de 2015, Netanyahu já tinha, pontualmente, assegurado as pastas das Comunicações, da Cooperação Regional, da Economia e Indústria e do Interior. “É comum os primeiros-ministros israelitas ficarem com várias pastas após crises na coligação governativa e a saída de ministros”, explica ao Expresso Aluf Benn, editor chefe do diário israelita “Haaretz”.

“Historicamente, os primeiros-ministros também asseguraram o ministério da Defesa durante 27 dos 70 anos de vida de Israel.” Aconteceu com David Ben-Gurion, Menachem Begin, Yitzhak Rabin e Shimon Peres, por exemplo.

Trégua é “rendição ao terrorismo”

Netanyahu ficou com a pasta da Defesa após a demissão do ultranacionalista Avigdor Lieberman, apresentada no dia 14 em protesto com a forma como o primeiro-ministro geriu a última crise na Faixa de Gaza. Três dias antes, os serviços secretos israelitas tinham averbado um fracasso quando comandos infiltrados no território palestiniano — para uma missão não especificada — foram detetados pelo Hamas, o movimento islamita que controla Gaza.

Perseguidos enquanto fugiam, foram “protegidos” por fortes bombardeamentos de caças israelitas, de que resultou a morte de sete palestinianos, incluindo um comandante do Hamas. Na operação, morreu também um tenente-coronel israelita.

O Hamas não foi brando na resposta e lançou sobre território israelita a ‘chuva’ de foguetes mais intensa desde a guerra de 2014. Uns foram intercetados pelo escudo antimísseis Cúpula de Ferro, outros atingiram áreas civis, matando uma mulher, em Ashkelon.

Um vídeo tornou-se popular nas redes sociais: disparado pelo Hamas, um rocket Kornet — um míssil antitanque de fabrico russo — atinge um autocarro militar israelita, criando a sensação de que o Hamas ‘batera o pé’ ao poderoso Tsahal (Forças de Defesa de Israel).

Israel retaliou com bombardeamentos em Gaza durante alguns dias. que mataram mais cinco palestinianos. Quando se temia uma nova guerra em Gaza, foi assinada uma trégua — uma “rendição ao terrorismo”, acusou Avigdor Lieberman, no mesmo dia em que se demitiu de ministro da Defesa.

“Netanyahu é um ‘falcão’ em muitas coisas, incluindo ao nível do compromisso com os palestinianos, o que torna o conflito israelo-palestiniano muito mais difícil de resolver”, comenta Natan Sachs. “Mas ao contrário da imagem que tem, ele não é aventureiro ou alguém muito interessado em ir para a guerra. Ele é primeiro-ministro há muito tempo [entre 1996 e 1999 e desde 2009], mas teve apenas um grande conflito — em Gaza, em 2014 — o qual, na verdade, ele também não queria. Netanyahu descobriu que os eleitores gostam de um líder que soa como um ‘falcão’, mas não de um líder que os mande para a guerra.”

A opção de Netanyahu por uma trégua com o Hamas afastou, por momentos, o espectro de uma nova guerra na região, mas trouxe instabilidade política ao executivo que lidera. A decisão não foi unânime dentro da frágil coligação governamental — composta por cinco partidos (Likud, Kulanu, Lar Judaico, Shas e Judaísmo Unido da Torah) e apoiada no Parlamento (Knesset) por 61 de 120 deputados — e voltou a ser notícia, em Israel, a possibilidade de antecipação das eleições agendadas para 5 de novembro de 2019.

“Estamos numa situação particularmente complexa ao nível da segurança”, afirmou Netanyahu, no domingo, num discurso transmitido pela televisão. “Em tempos como estes, não se derruba um governo. É irresponsável… Estamos numa batalha intensa e, no meio de uma batalha, não abandonamos os nossos postos. No meio de uma batalha, não fazemos política. A segurança da nação está para além da política.

Uma sondagem divulgada na terça-feira revelou que para 58% dos inquiridos não foi a segurança do país que levou Netanyahu a afastar a hipótese de eleições antecipadas, mas antes motivações de ordem política.

“Netanyahu pode ganhar ou perder com eleições antecipadas”, conclui Natan Sachs. “Por um lado, é suspeito em vários casos de corrupção, e poderia sair beneficiado se ganhasse umas eleições antes de os enfrentar. Por outro, as suas últimas movimentações em Gaza — procurando um cessar-fogo com o Hamas — foram muito impopulares em Israel, uma vez que foram acompanhadas por foguetes mortais disparados pelo Hamas que apenas foram parcialmente retribuídos. Mais tempo [no poder] permitirá a Netanyahu distanciar-se disso.”

Artigo publicado no Expresso Online, a 23 de novembro de 2018. Pode ser consultado aqui

Jerusalém, cidade disputada também nas urnas

As eleições municipais em Israel ditaram a necessidade de uma segunda volta na Cidade Santa, que se realiza dentro de duas semanas

As eleições municipais israelitas, que se realizaram na terça-feira, ditaram a necessidade de um “tira teimas” na Cidade Santa, já que nenhum candidato obteve os 40% necessários para evitar uma segunda volta.

A corrida trava-se entre um candidato conservador — Moshe Lion, de 57 anos, ex-chefe de gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — e um candidato secular — Ofer Berkovitch, de 35 anos. Este é fundador do movimento “Hitorerut in Jerusalem” (Acorda Jerusalém), que se apresenta como “o maior partido pluralista sionista de Jerusalém. Trabalhamos na cidade e no Governo para ajudar a população sionista de Jerusalém, ao secular à religiosa sionista, a prosperar”.

Com 96% dos votos contados, Lion — que contou com o apoio expresso dos partidos ultraortodoxos Shas e Degel HaTorah — tinha garantidos 33.3% (cerca de 80 mil votos). Berkovitch tinha recebido 28.8% (à volta de 70 mil).

Ambos voltam a disputar as preferências do eleitorado de Jerusalém a 13 de novembro. Berkovitch, que parte atrás, já pediu apoio aos candidatos derrotados na primeira volta. Entre eles está Ze’ev Elkin, o atual ministro dos Assuntos de Jerusalém que, apesar do apoio do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não foi além do terceiro lugar (19,8%). Durante a campanha, Elkin apresentou um plano de construção de um novo muro visando isolar todos os bairros árabes de Jerusalém Oriental, num novo município.

Em quarto lugar, ficou o candidato ultraortodoxo Yossi Deitch, com 17% dos votos.

Uma mulher em Haifa, pela primeira vez

Segundo números do Ministério do Interior, votaram nestas eleições 3.637.247 israelitas, o que corresponde a 55,1% do eleitorado. Esta percentagem representa uma subida de 10,5% em relação à taxa de afluência nas últimas municipais, em 2013.

Para este aumento não foi alheio o facto de, pela primeira vez no país, ter sido declarado dia de folga, uma medida tomada para combater a indiferença com que a maioria dos israelitas encarava estas eleições.

Ao nível das principais cidades, a capital Telavive manteve a confiança em Ron Huldai, “mayor” desde 1998. Já Haifa optou pela mudança e, pela primeira vez, elegeu uma mulher, a trabalhista Einat Kalisch Rotem, que derrotou Yona Yahav, que liderava a Câmara desde 2003.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 31 de outubro de 2018. Pode ser consultado aqui

Ataque aéreo a Gaza. “Qualquer lugar pode ser um alvo de Israel a qualquer momento. Por isso o ataque é em todo o lado”

Perto da uma da manhã (23h00 em Portugal continental), Israel terá lançado uma série de ataques aéreos contra posições do Hamas na Faixa de Gaza. Este tipo de ataques já aconteceram outras vezes e o último foi há menos de uma semana. “O hotel abanou, as janelas abanaram. Dezenas de mísseis foram lançados por drones e F-16”, conta Jomma Sommarstrom, jornalista sueco da Swedish Radio em Gaza. Já Ahmed Salama, fotografo em Gaza, diz que os ataques devem ter atingido zonas descampadas mas como Gaza é tão pequeno, “há pessoas e edifícios perto dos locais atacados”

Na madrugada desta quinta-feira (quando passava pouco das 23h00 em Portugal), Israel voltou a bombardear a Faixa de Gaza. Sexta-feira passada tinha ficado marcada como o dia mais violento em Gaza desde 2014. Mais de 50 palestinianos foram mortos pelo exército israelita em protestos na Faixa de Gaza contra o bloqueio económico e social que sofrem há mais de dez anos — e pelo direito de regressarem a um território que consideram ocupado por Israel. No sábado, Israel fechou um dos principais postos fronteiriços com Gaza e destruíram um dos túneis construídos pela milícia palestiniana Hamas construidos numa tentativa de continuar a trazer bens essenciais para Gaza.

O jornal “Times of Israel” confirmou que Israel conduziu uma série de ataques a bases militares no norte da Faixa de Gaza e cita fontes da imprensa palestiniana avançando ainda que estes ataques terão sido uma reposta aos alegados ataques da milícia palestiniana Hamas à cidade israelita de Sderot, que fica perto da fronteira com Gaza. De acordo com o jornal, seis alvos foram atacados.

Nisreen Ashabrawi, estudante de Gaza de 21 anos, ouviu as explosões e conta uma revolta que não é só contra Israel mas também contra o armamento fornecido pelos Estados Unidos. “As forças israelitas estão a bombardear Gaza não apenas com F-16 norte-americanos como também nos estão a atingir com gás lacrimógeneo”. Em Gaza, diz, “qualquer lugar pode ser um alvo de Israel a qualquer momento. Por isso o ataque é em todo o lado”.

Ahmed Salama é fotógrafo em Gaza e descreveu ao Expresso, através de uma conversa no serviço de mensagens instantâneas do Twitter, os primeiros momentos depois do ataque: “Ouvi três fortes explosões a cerca de quinze quilómetros de onde estou. Penso que os ataques tenham atingido zonas descampadas e até agora não me chegaram notícias de que tenha havido mortos”. Ainda assim, salienta, “há pessoas e edifícios perto dos locais atacados”. Não há registo de vítimas até ao momento e, por isso, Ahmed ironiza: “Não há mortos ou feridos por isso isto é tudo normal”.

Alguns palestinianos, contudo, preferem não dramatizar, apesar de também falar de uma normalidade que não tem nada de normal. “Este ataque não foi mais forte que os outros, teve a mesma intensidade e não creio que tenha sido o início de uma ação prolongada, foi só mais um ataque”, diz por seu lado Mohamed Halabi, funcionário público em Gaza.

Cerca de cinco horas antes do ataque, as Forças de Defesa israelitas confirmaram, através da sua conta no Twitter, que tinham atingido dois postos militares do Hamas no Sul de Gaza. As informações agora parecem ser que os ataques divergiram para o ocidente e norte da pequena faixa de terra que, no total, tem 41 quilómetros de comprimento.

As mortes de sexta-feira elevaram para 112 o número de palestinianos mortos na Faixa de Gaza desde o início, a 30 de março, de um movimento de contestação em massa, a “Marcha do Retorno”. Entre os 60 civis palestinianos hoje abatidos a tiro pelo exército israelita, contavam-se “oito crianças com menos de 16 anos”, afirmou o embaixador palestiniano na ONU, Riyad Mansour, em conferência de imprensa, acrescentando que “mais de 2.000 palestinianos ficaram feridos” durante os protestos.

Jomma Sommarstrom, jornalista sueco da Swedish Radio em Gaza, também partilhou o que viu — e sentiu. Estava no quarto de hotel em Gaza quando as explosões aconteceram e ouviu quatro, duas delas muito próximas de onde está. “O hotel abanou, as janelas abanaram. Dezenas de mísseis foram lançados por drones e F-16”, conta ao Expresso. As informações que recolheu no local, e que partilhou, dão conta de seis ataques a fábricas de armamento e posições militares do Hamas.

Artigo escrito com Ana França, Helena Bento e Marta Gonçalves.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui

Nova embaixada dos EUA em Jerusalém “é por ali”

Esta segunda-feira, surgiram, nas ruas de Jerusalém, as primeiras placas de trânsito indicativas da futura localização da nova embaixada dos EUA em Israel. Transferida de Telavive após o reconhecimento da Cidade Santa como capital de Israel, será inaugurada na próxima segunda-feira, 14 de maio

Ainda não foi inaugurada, mas já há indicações de trânsito a sinalizar o local — para que não haja dúvidas de que vai mesmo avante. Esta segunda-feira, em Jerusalém, começaram a ser instaladas, nas ruas da Cidade Santa, placas informativas indicando a localização da futura embaixada dos Estados Unidos em Israel.

Escritas em inglês, hebraico e árabe, as placas apontam na direção do atual consulado dos Estados Unidos em Jerusalém, na parte sul da cidade.

Nir Barkat, o presidente da Câmara, arregaçou as mangas e associou-se aos trabalhos dos funcionários camarários. No Twitter, expressou a importância política daquele gesto: “Isto não é um sonho — é realidade! Esta manhã, instalei os sinais indicativos da nova embaixada dos EUA em Jerusalém! Jerusalém é a eterna capital do povo judeu — e o mundo começa a reconhecê-lo!”

https://twitter.com/ArchiveNir/status/993397248791924736?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E993397248791924736%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fexpresso.pt%2Finternacional%2F2018-05-07-Nova-embaixada-dos-EUA-em-Jerusalem-e-por-ali

A 6 de dezembro de 2017, numa decisão polémica, e amplamente condenada fora de portas, a Administração Trump reconheceu a Cidade Santa como capital do Estado de Israel e ordenou a transferência da sua representação diplomática de Telavive para Jerusalém.

Para os palestinianos — que sonham com Jerusalém como capital do seu futuro Estado —, essa decisão foi uma demonstração de que os Estados Unidos de Donald Trump não são mais um mediador credível para o processo de paz israelo-palestiniano.

A inauguração da nova embaixada dos EUA em Israel está marcada para a próxima segunda-feira, 14 de maio, dia em que o Estado judeu comemora 70 anos de vida.

A efeméride coincidirá com o fim da Grande Marcha do Regresso — em curso na Faixa de Gaza desde 30 de março —, com que os palestinianos pretendem lembrar que o Estado israelita, criado em 1948, se ergueu sobre terras que eram suas. A inauguração da nova embaixada dos EUA promete ter o efeito de um bidão de gasolina lançado sobre uma grande fogueira.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de maio de 2018. Pode ser consultado aqui