Arquivo da Categoria: Palestina

Qalandia, a ‘mãe’ dos checkpoints

Situado entre Ramallah e Jerusalém, o posto de controlo da Qalandia é atravessado diariamente por milhares de palestinianos. Mas só quem Israel autoriza. Reportagem na Palestina

A construção da barreira de separação entre Israel e o território palestiniano da Cisjordânia, iniciada em 2006, deixou  cerca 90 mil de “jerusalemites” (palestinianos com autorização de residência em Jerusalém) do lado palestiniano do muro.

Separados do resto da cidade, hoje, se necessitam de ir a Jerusalém, não lhes resta alternativa senão atravessar o checkpoint da Qalandia, a pé ou de carro. Fazem-no para ir trabalhar, para ir à escola, às compras, ao hospital ou para visitar familiares.

Aberto 24 horas por dia, o posto de controlo permite também a passagem a palestinianos da Cisjordânia com autorização dada por Israel, na maioria dos casos para efeitos de trabalho. Um sistema biométrico faz o reconhecimento das suas impressões digitais.

Para qualquer jornalista em reportagem na região, atravessar o posto da Qalandia a pé é quase que obrigatório. Na semana passada, a experiência de uma jornalista portuguesa não correu da melhor maneira.

Artigo publicado no Expresso Online, a 16 de março de 2013. Pode ser consultado aqui

A vida num campo de refugiados em Belém

Reportagem no campo de refugiados de Aida, na cidade palestiniana de Belém

Artigo publicado no Expresso Online, a 8 de março de 2013. Pode ser consultado aqui

“Se fossemos morrer, precisávamos de testemunhas…”

A ex-correspondente da Al-Jazeera em Ramallah é a nova porta-voz da Autoridade Palestiniana. Nour Odeh diz que o mundo não parece estar preparado para a nova realidade palestiniana

Nour Odeh deixou o jornalismo e tornou-se porta-voz da Autoridade Palestiniana MARGARIDA MOTA

Nour Odeh é um rosto conhecido dos apreciadores da Al-Jazeera em língua inglesa. Durante nove anos, esta palestiniana foi correspondente da estação do Qatar em Ramallah e enviada especial aos principais conflitos envolvendo palestinianos.

Em 2008, ganhou a “Ninfa de Ouro” no Festival de Televisão de Monte Carlo pela sua cobertura da luta interna entre Fatah e Hamas na Faixa de Gaza. Um sabor agridoce, confessou ao Expresso.

“Foi o momento mais doloroso da minha carreira. Estávamos a cobrir os confrontos há quatro dias e ficamos retidos no nosso escritório. Eu era a única mulher num edifício cheio de homens muito, muito assustados. Estávamos sob fogo de snipers e corríamos muito perigo. Então, tomamos a decisão de ir para o ar em direto. Se fossemos morrer, precisávamos de testemunhas…”

Há cerca de meio ano, Nour Odeh deixou o jornalismo e tornou-se porta-voz da Autoridade Palestiniana (AP). “Quando recebi este convite, senti que o meu trabalho ia continuar a ser o mesmo: contar a história do meu povo.”

Israel recolhe impostos dos palestinianos

Atualmente, a AP controla apenas 40% do território da Cisjordânia. Os restantes 60% – que incluem as terras férteis do Vale do Jordão – estão ocupadas por Israel. A AP tem instituições prontas para governar, mas depende de Telavive, financeiramente.

É Israel que recolhe os impostos pagos pelos palestinianos, estando comprometido a devolver-lhes, todos os meses, 400 milhões de shekels (82 milhões de euros). Muitas vezes, Israel não paga e os salários dos funcionários públicos sofrem atrasos.

Impõem-se, pois, a pergunta: Vão os palestinianos fazer uso das novas prerrogativas conquistadas após a aprovação do estatuto de Estado Não Membro nas Nações Unidas e denunciar Israel junto do Tribunal Penal Internacional?

“Neste momento, a liderança palestiniana está a estudar aquilo que mais nos interessa estrategicamente”, diz a porta-voz da AP. “Contudo, o que é mais irónico é que o mundo não parece estar pronto para enfrentar essa realidade. Em muitos aspetos, parece até que houve um choque: ‘Ó meu Deus, a Palestina é um Estado. Agora têm acesso a todos estes acordos e convenções. Será que vão atrever-se a usá-los?'”

Artigo publicado no Expresso Online, a 7 de março de 2013. Pode ser consultado aqui

Líder do Hamas regressa a Gaza após 45 anos no exílio

Khaled Meshaal entrou hoje em Gaza, após 45 anos no exílio. O líder político do Hamas participa sábado na cerimónia de 25º aniversário do grupo islamita

Khaled Meshaal, líder político do Hamas, vive exilado no Qatar WIKIMEDIA COMMONS

Khaled Meshaal, o líder político do Hamas, entrou hoje na Faixa de Gaza, terminando com um exílio de 45 anos. Depois de pisar solo palestiniano, Meshaal ajoelhou-se e beijou o chão.

Amanhã, o líder do Hamas participará no comício comemorativo do 25º aniversário da fundação do Hamas (oficialmente assinalada a 14 de dezembro), na cidade de Gaza. O palco já está montado e tem ao centro uma réplica gigante do rocket M75, de longo alcance, fabricado pelo Hamas, e disparado contra Telavive e Jerusalém no conflito com Israel do mês passado.

Meshaal, de 56 anos, vive no Qatar desde janeiro de 2012. Até então, ele geria o Hamas a partir de Damasco, cidade que abandonou no contexto do conflito armado na Síria que opõe o Presidente Bashar al-Assad a grupos opositores de inspiração sunita, como o Hamas.

Em 1997, ele foi alvo de uma tentativa de envenenamento, em Amã. Dois agentes da Mossad foram detidos durante a operação e o rei Hussein da Jordânia obrigou Israel a fornecer o antídoto em troca da sua libertação.

A visita de Meshaal a Gaz dura 48 horas.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de dezembro de 2012. Pode ser consultado aqui

Cessar-fogo vinga e anima economia em Gaza

Os pescadores estão de regresso à faina e muitos agricultores voltaram às suas terras junto à fronteira com Israel. Mas a trégua na Faixa de Gaza ainda é frágil

Uma semana após a entrada em vigor do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, que hoje se assinala, a economia da Faixa de Gaza dá mostras de dinamismo como não se via há anos.

Dos termos da trégua consta o alívio do bloqueio económico decretado por Israel que está a permitir aos pescadores locais navegarem em águas mais afastadas da costa, mais profundas e mais abundantes em peixe.

A retoma económica não se faz sem dificuldades e hoje a marinha israelita deteve dois barcos, acusando os pescadores de terem ultrapassado os limites estabelecidos por Israel. Os pescadores foram levados para o porto mediterrânico de Ashdod para serem questionados.

Importar em vez de pescar

No âmbito dos Acordos de Oslo — os últimos acordos de paz celebrados entre israelitas e palestinianos, em 1993 —, os pescadores de Gaza tinham direito a pescarem até 20 milhas náuticas (36 km). Em 2002, com a segunda Intifada palestiniana em curso, essa distância foi reduzida para 12 milhas (22 km).

A situação dos pescadores complicou-se em 2006, após o Hamas ter raptado o soldado israelita Gilad Shalit. Em retaliação, Israel reduziu a área de pesca para seis milhas (11 km) e, em 2009, para três milhas (5 km), na sequência da operação israelita Chumbo Fundido em Gaza.

A sobre-exploração das águas junto à costa levou milhares de palestinianos a abandonarem o ofício. Para garantirem o sustento das suas famílias, a alternativa passou por comprar peixe ao Egito para vendê-lo em Gaza.

Trégua frágil

O levantamento de restrições económicas está a beneficiar igualmente muitos agricultores, anteriormente privados de fazerem a lavoura em terras de que são proprietários junto à fronteira com Israel.

O acordo de cessar-fogo prevê ainda o levantamento de restrições à circulação de pessoas e bens bem como de barreiras às exportação e importações de e para Gaza. Israel sempre justificou o bloqueio por terra, mar e ar à Faixa de Gaza com razões de segurança.

Entre os palestinianos de Gaza, várias manifestações têm-se sucedido junto à vedação que separa os dois territórios. Na sexta-feira passada, um manifestante foi morto por fogo disparado pelas forças israelitas, a sul de Khan Yunis. 

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de novembro de 2012. Pode ser consultado aqui