Arquivo da Categoria: Revolução no Egito

Rajadas de fogo em fim de festa

Governo e oposição começaram a dialogar no Egito. Mas na praça Tahrir, milhares continuam sem arredar pé. Ao fim do dia, o exército disparou… Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

O dia fora festivo na praça Tahrir até que, cerca das oito da noite, soaram rajadas de fogo, disparadas pelos militares.

Na chamada ‘linha da frente’ — a área junto ao Museu Egípcio que, esta semana, foi palco dos violentos confrontos entre manifestantes anti-Mubarak e apoiantes do Presidente Mubarak —, um tanque do exército queria movimentar-se. Os manifestantes não libertaram o espaço necessário e os militares — que continuam posicionados à entrada da praça — dispararam para mostrar quem era a autoridade ali.

Este episódio acontece num dia em que Governo e oposição começaram a dialogar com vista ao fim do impasse político em que se encontra o país. O Governo egípcio e a oposição concordaram na criação de um comité de trabalho para estudar as possíveis reformas à Constituição, designadamente o fim do estado de emergência (em vigor desde 1981), a limitação dos mandatos presidenciais a dois períodos e mudanças nos requisitos para um candidato se apresentar às eleições. 

Os manifestantes gostaram de saber que Gamal Mubarak não poderá candidatar-se para suceder ao pai
JORGE SIMÃO 

Irmandade: ilegais mas presentes

Paralelamente à reforma constitucional, a oposição exige a saída de Mubarak do poder, um Governo de transição e eleições livres. A reunião foi liderada pelo vice-Presidente Omar Suleiman e, entre os grupos da oposição representados, esteve a Irmandade Muçulmana (ilegalizada).

O arranque das conversações coincide com o início do regresso do país à normalidade. Hoje, os bancos abriram, as caixas de multibanco começaram a disponibilizar dinheiro e os negócios começaram a abrir as portas. Nas ruas do Cairo, voltaram os engarrafamentos, as buzinadelas e o caos na circulação. 

Milhares de pessoas continuam a ocupar a praça Tahrir e a pedir a partida de Hosni Mubarak. Hoje, o dia foi festivo. Os manifestantes gostaram de saber que Gamal Mubarak não poderá candidatar-se para suceder ao pai. “Estamos muito próximos da libertação”, diz Tariq, de 50 anos. “Mubarak está quase a ir embora.” Houve muita música e pequenas bancas a vender tudo e mais alguma coisa, de porta-chaves a tremoços.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”

“O Egito foi o palco que me projetou para o mundo”

Joana é uma “bellydancer” portuguesa que vive no Cairo há quatro anos. Com a agenda preenchida, espera que a turbulência passe para voltar a brilhar nos palcos egípcios. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Joana é uma apaixonada por aquilo que faz. Mas com o Cairo transformado num campo de batalha, esta “bellydancer” lisboeta de 30 anos – a viver na capital egípcia há quatro anos – viu-se confinada ao seu apartamento na ilha Zamalek, sem poder cumprir a sua agenda artística. “Tenho espetáculos marcados praticamente todas as noites. Mas está tudo fechado. É muito frustrante.”

Joana decidiu-se a ir para o Cairo movida por dois objetivos: escrever um livro sobre dança oriental, com base na sua própria vivência em solo egípcio, e procurar melhores condições para desenvolver a sua arte.

“O trabalho que estou a fazer aqui, jamais, em 1000 anos, poderia desenvolver em qualquer outro país do mundo. Tenho uma equipa de músicos dos melhores do Egito a trabalharem para mim. Com muito esforço e luta, tenho construído o meu nome” – Joana Saahirah, assim batizada pelo seu primeiro professor.

Desde que começou a trabalhar no Cairo – como bailarina, coreógrafa e professora de dança e folclore egípcios -, recebeu convites para trabalhar no mundo inteiro. “O Egito foi o palco que me projetou para o mundo. Em Buenos Aires, dei ‘workshops’ para mais de 1000 alunos.”

Joana aprendeu o dialeto egípcio com os músicos JORGE SIMÃO

A polícia das bailarinas

Diz que os egípcios são tolerantes face a outras religiões, mas, “por exemplo, muitas vezes, vou a uma loja levantar material que encomendei para os meus espetáculos e a pessoa que está encarregue disso está a rezar”. A religião primeiro, o trabalho depois.

Quando chegou ao Cairo, vigorava uma lei que proibia as bailarinas estrangeiras de fazerem, profissionalmente, dança oriental e folclore egípcio. Felizmente para ela, a lei foi revogada. “Tive de assinar documentação em que me comprometia a não usar roupas que fossem contra a religião muçulmana. Como é que é possível?”

A polícia tem um departamento especial que fiscaliza o que as bailarinas vestem — Joana chama-lhe “a Polícia das Bailarinas”. “Nunca aconteceu comigo, mas sei de muitas bailarinas que foram levadas. Não é nada agradável. São tratadas como prostitutas. E depois são levadas para a esquadra exatamente como estão, com roupa de dança.”

Criar pontes entre Lisboa e o Cairo

Por força da sua vivência no Egito e das suas deslocações pelo Médio Oriente, Joana tem uma percepção das motivações que leva os povos — como o egípcio — a questionarem os respetivos regimes: “Existe uma abertura àquilo que eles consideram que é a qualidade de vida do ocidente. Nós sabemos que nem sempre essa imagem corresponde à realidade, mas eles não”, diz.

“Assim como nós sentimos um fascínio e um interesse pelo Médio Oriente, neste região — sobretudo após o advento da Internet, que veio abrir janelas —, começou a haver uma vontade de usufruir da qualidade de vida que eles projetam no ocidente. Há um desejo de liberdade de expressão e de esperança no futuro que é básico no ser humano.”

Joana Saahirah é já um nome reconhecido no Egito. A Portugal, já só vai de vez em quando, para ver a família. “Aqui, tenho os holofotes virados para mim. Quando saio do Egito é para atuar para milhares de pessoas, com condições que não existem em Portugal. Seria fantástico que, através do meu trabalho, eu pudesse criar uma ponte entre o Egito e Portugal.”

Com o Egito num impasse, os planos de Joana estão, por agora, hipotecados. À espera de dias melhores, a “bellydancer” viajou até Portugal. Em Lisboa, não consegue desligar de tudo o que se passa no Cairo: “Sofre-se mais à distância…”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 6 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”

Filho de Mubarak não será candidato

O filho mais novo de Hosni Mubarak, Gamal, demitiu-se da direcção do partido no poder. Não poderá candidatar-se à presidência do Egito. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão 

A televisão estatal egípcia anunciou hoje que Gamal Mubarak, filho do chefe de Estado e apontado como seu sucessor na presidência do país, demitiu-se da direção do Partido Nacional Democrático.

Esta demissão inviabiliza uma eventual candidatura à presidência, nas eleições previstas para setembro. A saída de cena de Gamal era uma das exigências dos manifestantes anti-Mubarak, que continuam reunidos na praça Tahrir.

O secretário-geral Safwat al-Sharif também deixou a liderança partidária. “Os membros do comité executivo demitiram-se. Foi decidido nomear Hossam Badrawi secretário-geral do partido”, anunciou a televisão. Hossam Badrawi é considerado um reformista.

Hosni Mubarak continua líder do partido. Esta semana, num discurso à nação, anunciou que não se recandidatará à presidência. Os manifestantes exigem que ele abandone o país imediatamente e que saia do país.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”

A bonança, depois da tempestade

Após dois dias de violência entre facões anti e pró-Mubarak, a praça Tahrir recuperou a tranquilidade. Mas na “sexta-feira da partida”, Mubarak não partiu. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Simão

Hosni Mubarak não foi embora, como os manifestantes pediram na manifestação da “sexta-feira da partida”. Mas a sua continuação no poder deixou de ser uma opção. “Deve haver um processo de transição. E isso deve começar agora”, afirmou ontem Barack Obama, Presidente dos EUA. A seguir a Israel, o Egito é o país que mais ajuda recebe dos EUA — 1,5 mil milhões de dólares no total (€1,1 mil milhões), 1,3 mil milhões (€950 milhões) para fins militares — o que atesta da sua importância para os norte-americanos.

Como habitualmente, a praça Tahrir encheu-se de manifestantes e respirou um ambiente “domingueiro” — nos países muçulmanos, a sexta-feira é o último dia do fim-de-semana. Muitas famílias circulavam tranquilamente. Entre os manifestantes, havia centenas de feridos da violência vivida nos dois dias anteriores, entre fações anti e pró-Mubarak.

Palavra aos feridos 

Cabeças ligadas, braços ao peito, rostos inchados, expressões de grande cansaço. Em vários pontos da praça, pequenos hospitais improvisados continuavam a prestar assistência aos feridos, sempre que uma dor apertava ou o curativo precisava de ser mudado. Oito pessoas morreram nos confrontos entre fações: “Morreram de todo o tipo de ferimentos: balas, pedradas, gases…”, diz um homem, que está de serviço num desses “hospitais”.

Em conversa com alguns feridos, consegue-se perceber melhor o contexto em que deflagrou essa violência. “Eu apanhei um miúdo que nos estava a apedrejar. Ele estava no cimo daquele edifício. Entramos lá, apanhámo-lo e batemos-lhe. Ele disse que recebeu 10 libras egípcias (LE) (€1,2) para atirar pedras. Outros disseram que receberam 50 LE (6,2)”, conta Mohamed Fahti, com a cabeça cheia de adesivos.

“Mubarak usou esta gente contra os manifestantes. Outro que foi apanhado tinha 300 LE (€37) no bolso, em notas novinhas em folha. E a guarda presidencial também esteve envolvida. Capturamos duas das motas que eles costumam usar.”

Um ator na ‘manif’

Sexta-feira foi também o dia aproveitado por destacadas figuras da sociedade egípcia marcarem presença na praça. Amr Moussa (Presidente da Liga Árabe), Ayman Nour (líder do partido El-Ghad, que desafiou Mubarak nas eleições de 2005) — ambos possíveis presidenciáveis —, alguns “sheiks”, outras figuras políticas e da sociedade civil, como Amr Waked, o ator mais famoso do Egito, que irrompe pela praça agarrado ao seu iPad e rodeado por uma multidão de fãs que o quer fotografar.

“Vim aqui para pedir a alteração do sistema de poder no Egito, que está nas mãos de uma única pessoa. Estamos todos fartos disto”, diz ao Expresso o ator. “Quero uma distribuição de poder, quero que as autoridades possam ser responsabilizadas e que o cidadão da rua possa questionar e beneficiar disso.”

O exército abandonara a sua posição de passividade que tinha nos dias anteriores e começou a colaborar com os manifestantes nos “checkpoints” de segurança, nas entradas da praça, que desde ontem estão protegidas com arame farpado.

Catapulta artesanal

Na entrada junto à ponte Qasr al-Nil, os manifestantes construíram uma catapulta com uma barra de madeira e, nas pontas, duas grandes pedras e um cesto plástico onde colocar as pedras. A praça Tahrir parece uma fortaleza. Um soldado pede o passaporte para controlo: “Bem vinda ao Egito!”, diz.

Ao longo do dia, em apenas duas ocasiões registaram-se desacatos, em duas ruas adjacentes à praça. Numa delas, um jovem, alegadamente pró-Mubarak, foi evacuado por soldados. Ia meio despido e com a cabeça a jorrar sangue. Esteve a um passo de ser linchado.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 5 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”

Será hoje que Mubarak abandona o poder?

Os manifestantes anti-Mubarak organizam hoje mais uma demonstração de força. Esperam que o Presidente abandone o poder de vez. Reportagem no Egito, com fotos de Jorge Baião

Depois da “manifestação do milhão”, o movimento de contestação a Hosni Mubarak vai organizar, esta sexta-feira, a “marcha da partida”. Com mais esta demonstração de força e unidade, os manifestantes esperam que Hosni Mubarak dê o passo final para sair do poder.

Nas ruas de acesso à praça Tahrir, está tudo organizado para conter eventuais tentativas de infiltração por parte de manifestantes pró-Mubarak. Na rua que liga a praça à ponte Qasr el-Nil, perto da sede da Liga Árabe, foram montadas barricadas com tábuas de madeira, chapas em alumínio e todo o tipo de estruturas que possam ajudar à criação de uma barreira defensiva.

Atrás dessas barricadas, há pequenos montes de pedras, para serem usadas como “munições” na eventualidade de um ataque. À frente das barricadas, os manifestantes despejaram grandes quantidades de lixo, a toda a largura da estrada, para “saudar” — de forma provocatória — os manifestantes pró-Mubarak que se aventurem ao seu encontro.

checkpoint foi guardado durante a noite por dezenas de pessoas, com capacetes brancos na cabeça. Hoje vão voltar a dizer a Mubarak, a plenos pulmões, que está na hora de se ir embora.

Os manifestantes esperam que a manifestação de hoje faça Mubarak sair do poder JORGE SIMÃO

De acordo com a edição de ontem, quinta-feira, do “The New York Times”, os Estados Unidos discutem com responsáveis egípcios uma possível partida imediata do presidente Hosni Mubarak e a transferência do poder para um governo de transição dirigido pelo Vice-Presidente Omar Suleimane.

Embora Mubarak recuse apresentar demissão do cargo que ocupa há quase 30 anos (ver vídeo), responsáveis norte-americanos e egípcios estudam um cenário em que Suleimane, apoiado pelos militares, iniciaria imediatamente um processo de reforma constitucional, acrescenta o “The New York Times”.

O diário norte-americano cita responsáveis da administração do presidente norte-americano Barack Obama e diplomatas árabes.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de fevereiro de 2011. Pode ser consultado aqui

DOSSIÊ CRISE NO EGITO NO SITE DO “EXPRESSO”