Tsunami político no Golfo

Um embargo decretado por quatro “irmãos árabes” empurra o Qatar para os braços do inimigo Irão

Arábia Saudita acusa o Qatar de apoiar grupos extremistas. A Arábia Saudita acusa o Irão de proteger o Qatar. O Irão é atacado pelo Daesh, o mais cruel dos extremistas. Bem vindos ao Médio Oriente!

Esta semana, em apenas três dias, uma crise diplomática no seio do mundo sunita — que isolou o Qatar — e um duplo atentado na capital do Irão — o gigante xiita — expuseram toda a complexidade geopolítica do Médio Oriente que transcende a rivalidade sectária sunitas-xiitas no seio do Islão. “Não vejo uma relação direta entre os ataques terroristas no Irão e a crise sobre o Qatar. Mas as políticas externas geopoliticamente analfabetas da Administração Trump são um factor importante na desestabilização da política mundial, do Golfo Pérsico à Coreia do Norte”, disse ao “Expresso” Arshin Adib-Moghaddam, professor de Pensamento Global e Filosofias Comparadas na Escola de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres.

“Este Presidente colocou-se no lado errado da história, e a escolha errada de aliados e parceiros vai continuar a inibir e a limitar a posição dos EUA em todo o mundo. Sob esta liderança, o país assemelha-se a uma superpotência decadente.”

Quarta-feira, um duplo atentado em Teerão contra o Parlamento e o mausoléu do “ayatollah” Ruhollah Khomeini, o fundador da República Islâmica, provocou 13 mortos. O Daesh reivindicou e Teerão confirmou que cinco detidos, todos iranianos, estiveram em Mossul e Raqqa, bastiões do Daesh no Iraque e Síria. Fica, porém, por perceber a lógica do violento ataque desferido pelo rei da Arábia Saudita quando da recente visita de Donald Trump ao país: “O regime iraniano tem sido o ponta de lança do terrorismo mundial”, disse. O ataque desta semana mostra que o Irão é alvo da maior das ameaças.

Fora da órbita saudita

Dois dias antes, quatro países árabes sunitas cortaram relações com o igualmente sunita Qatar e decretaram um bloqueio por terra, mar e ar. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e Egito acusam Doha de apoiar “grupos extremistas” e exigem mudanças na sua política externa. Em causa está o apoio do Qatar a grupos como a Irmandade Muçulmana e o Hamas, que, acusam, mina o regime egípcio e a Autoridade Palestiniana.

Em causa está também a proximidade do Qatar ao vizinho da frente, o Irão, justificada pela necessidade do pequeno país não ficar na dependência do gigante saudita. “Irão e Qatar têm tido um relacionamento funcional. Com o campo de exploração de gás South Pars, os dois países partilham um dos maiores campos do mundo. A liderança qatariana tem provado ser suficientemente prudente para abster-se de antagonizar a liderança iraniana”, explica Arshin Adib-Moghaddam. “Por sua vez, o Irão do Presidente Hassan Rouhani é inflexível no desenvolvimento de uma relação próxima com o Qatar que o atraia para fora da órbita da Arábia Saudita.”

Mas se o Qatar é punido pelos “irmãos árabes” pela sua abertura ao Irão (persa), o isolamento a que foi votado coloca-o numa dependência total do… Irão. Para a aviação qatariana, o espaço aéreo iraniano é a única rota de saída possível. Igualmente, em caso de rutura alimentar — Arábia Saudita e Emirados eram os principais fornecedores —, Teerão já fez saber que está disponível para facilitar o trânsito de água e alimentos através dos seus portos.

Quinta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Qatar admitiu nunca ter sentido tanta hostilidade, e foi categórico: “Não estamos preparados para entregar, nem nunca entregaremos, a independência da nossa política externa”.

Al-Jazeera e futebol

Independente desde 1971, o Qatar apostou numa agenda internacional ambiciosa como fórmula de sobrevivência. Projetos como a Al-Jazeera — “um órgão de informação hostil”, diz Riade —, a realização do Mundial de Futebol de 2022 ou o patrocínio ao mediático Barcelona (pela Qatar Foundation e depois pela Qatar Airways) são armas dessa afirmação.

O reino procura estar de bem “com deus e o diabo”. Alberga a maior base aérea dos EUA na região (Al-Udeid) e desenvolve “amizades perigosas” com inimigos dos norte-americanos. Permite a construção de igrejas no território e partilha com a Arábia Saudita a interpretação wahabita do Islão.

Quarta-feira, a Turquia (que como o Irão não é árabe) aprovou o envio de um contingente para uma base turca em construção no Qatar. O Presidente Recep Erdogan disse que “a movimentação visa contribuir para a paz regional e mundial”.

25 ANOS DE DISPUTAS

2017 — A 5 de junho, Arábia Saudita, Bahrain, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Egito cortam relações diplomáticas com o Qatar. Riade aceita abrir a fronteira a qatarianos a caminho de Meca e Medina

2014 — Arábia Saudita, EAU e Bahrain suspendem contactos com o Qatar devido ao apoio de Doha à Irmandade Muçulmana. A relação normaliza oito meses depois: os três embaixadores regressam à capital qatariana

2002 — Riade retira o embaixador de Doha após comentários de dissidentes sauditas na Al-Jazeera. A relação descongela em 2008 com a visita a Doha do príncipe herdeiro saudita

2000 — O então príncipe herdeiro saudita, Abdullah bin Abdul Aziz (rei entre 2005 e 2015), boicota uma cimeira da Organização da Conferência Islâmica, em Doha, em protesto contra as relações comerciais entre Qatar e Israel

1992 — Disputa fronteiriça entre Qatar e Arábia Saudita faz três mortos. Em 1996, os dois países iniciam um processo de delimitação de fronteiras, finalizado três anos depois

Artigo publicado no Expresso, a 10 de junho de 2017 e republicado no “Expresso Online” a 11 de junho de 2017. Pode ser consultado aqui

As conquistas envenenadas de Israel na Guerra de 1967

CISJORDÂNIA

CONQUISTADA À JORDÂNIA — “Para assegurarmos a nossa existência temos de ter o controlo militar e policial de todo o território a oeste do [rio] Jordão. A ideia de que podemos abdicar de território e fazer a paz não é correta.” Estas palavras do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, esta semana, são um murro no estômago dos palestinianos, para quem a retirada israelita da Cisjordânia tem de ser total. Além de 2,9 milhões de árabes palestinianos, ali vivem quase 600 mil colonos judeus. Pelos Acordos de Oslo (1993), o território foi dividido em áreas A (18%), controladas pela Autoridade Palestiniana, B (22%), em que os palestinianos têm o controlo civil e os israelitas o militar, e C (60%), que correspondem aos colonatos e às zonas agrícolas do Vale do Jordão, totalmente controladas por Israel. Após a Intifada de Al-Aqsa (2000/05), Telavive começou a construir o polémico muro que hoje serve de fronteira. Para a comunidade internacional, Cisjordânia e Faixa de Gaza fazem parte do futuro Estado independente da Palestina.

FAIXA DE GAZA

CONQUISTADA AO EGITO — Esteve ocupada até meados de 2005, quando Israel desmantelou os 21 colonatos (onde viviam 8000 judeus) e retirou as tropas unilateralmente. Gaza passou então para os palestinianos, a braços com um conflito entre fações políticas rivais: a Fatah (que controla a Autoridade Palestiniana) e o grupo islamita Hamas. Este nasceu sob ocupação israelita, fez-se anunciar com a primeira Intifada (1987) e chocou o mundo ao vencer as eleições legislativas palestinianas de 25 de janeiro de 2006. A vitória não foi reconhecida a nível internacional e, cerca de meio ano depois, o grupo tomou o poder em Gaza pela força. Desde então, Israel e Hamas já travaram três guerras (2008, 2012 e 2014) e o território — onde vivem dois milhões de palestinianos em 360 km — é alvo de um bloqueio por terra, mar e ar, imposto por Israel e pelo Egito. Através de túneis clandestinos entra em Gaza de tudo um pouco, de gado a armas.

MONTES GOLÃ

CONQUISTADOS À SÍRIA — Foram formalmente anexados por Israel após uma votação no Parlamento (Knesset), a 14 de dezembro de 1981. A decisão não foi reconhecida pela comunidade internacional — foi condenada na ONU (resolução 497) — que reconhece a soberania síria sobre os Golã. “Cinquenta anos depois, é tempo de a comunidade internacional perceber que os Golã permanecerão sob soberania israelita”, disse Netanyahu a 17 de abril de 2016. O território é vigiado pela ONU desde 1974, através da missão UNDOF (Força das Nações Unidas de Observação da Separação) que garante o cessar-fogo e a inviolabilidade de uma “terra de ninguém” entre os dois países. O território não tem escapado à guerra na Síria, com trocas de fogo ocasionais entre Israel e diferentes fações em combate. Telavive está especialmente atento às movimentações do grupo xiita libanês Hezbollah, inimigo declarado de Israel e aliado de Bashar al-Assad.

JERUSALÉM ORIENTAL

CONQUISTADA À JORDÂNIA — Em 1967, Israel conquistou a parte árabe da cidade que quer para sua capital “una e indivisível” — e onde se situam o Muro das Lamentações (o lugar mais sagrado para os judeus), a Mesquita de al-Aqsa (terceiro lugar mais importante para os muçulmanos, a seguir a Meca e Medina) e o Santo Sepulcro (túmulo de Cristo). Desde então, Israel tem promovido políticas discriminatórias, quer no acesso à terra quer do direito de construção, com o intuito de aumentar a população judaica e diminuir a árabe. Em Jerusalém Leste, apenas 13% da área municipal é zona de construção para palestinianos. Mais de um terço destes corre o risco de ver as suas casas demolidas com base em subterfúgios administrativos — em 2016, a quantidade de casas palestinianas demolidas foi a mais alta desde 2000. O isolamento de Jerusalém Leste em relação ao resto da Cisjordânia é outra vertente da anexação de Jerusalém Leste por Israel — através de projetos como o E1, por exemplo, que visa unir a cidade santa ao gigantesco colonato de Maale Adumim e dificultar o acesso dos palestinianos da Cisjordânia à cidade onde vão rezar.

PENÍNSULA DO SINAI

CONQUISTADA AO EGITO — Perdido o Sinai em 1967, o Egito tentou, sem sucesso, reconquistar a península na Guerra de Outubro de 1973 (os israelitas chamam-lhe Guerra do Yom Kippur). O território seria devolvido sem ser pela força das armas. Em 1982, na sequência dos Acordos de Camp David de 1978, um tratado assinado em Washington pelo Presidente egípcio Anwar al Sadat e pelo primeiro-ministro israelita Menachem Begin (e testemunhado pelo Presidente dos EUA Jimmy Carter) instituiu a paz entre os dois países e levou à retirada dos colonos israelitas do Sinai. Nos últimos anos este território que une África e Ásia transformou-se em refúgio de grupos armados (alguns formados por beduínos locais, outros jiadistas, nomeadamente o Daesh). A insegurança aumentou após a Primavera Árabe, que no Egito resultou na deposição de Hosni Mubarak e no enfraquecimento do poder central. Os ataques visam sobretudo as forças de segurança egípcias, mas também a minoria cristã copta.

Artigo publicado no Expresso, a 3 de junho de 2017

A velha senhora Juventus de Gaia

No mundo do futebol popular português, há equipas que se inspiram nos grandes da Europa para jogar à bola de forma desinteressada. A “Tribuna Expresso” visitou o Juventus de Pedroso, em Vila Nova de Gaia, um clube onde se privilegia a conduta em detrimento da ambição desportiva

Real Madrid 1 – Juventus 3. Se o futebol popular português funcionar como prenúncio, a vitória na final da Liga dos Campeões, este sábado, sorrirá à equipa italiana. Foi esse o resultado, esta época, entre o Grupo Desportivo Juventus de Pedroso e o Real Club Recarei — o primeiro de Vila Nova de Gaia, fundado por admiradores da “Vecchia Signora”, e o segundo de Paredes, por fãs do Real Madrid. As duas equipas competem na Liga de Ovar e defrontaram-se para a taça local – o Juventus eliminou o Real.

Nos meandros do futebol amador, há vários clubes batizados com nomes que aludem aos grandes europeus. Em Recarei, leva-se muito a sério a rivalidade da capital espanhola: para além do Real Club, existe também o Atlético de Recarei. “Não se podem ver…”, comenta Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso. “Em V. N. de Gaia, há o Arsenal de Serzedo, mas a equipa está parada.”

Aos 55 anos, Joaquim Costa leva já 36 ao serviço do futebol. Tinha 18 anos quando, com um grupo de amigos, fundou o Juventus de Pedroso. “Uns viviam no lugar de Santa Marinha e outros na Alheira. Éramos da mesma idade e andávamos no coro da igreja. Costumávamos fazer jogos entre o coro de Santa Marinha e o da Alheira. Um dia pensamos em jogar juntos”, como equipa. Foram a Recarei. “Portamo-nos muito bem, todos gostaram. Então pensamos: ‘Por que não criarmos um clube de futebol?’”

Em finais de 1980, em Itália, a Juventus de Dino Zoff, Marco Tardelli e Claudio Gentile — treinada por Giovanni Trapattoni — ia a caminho de mais um título no Calcio e seduzia adeptos em todo o mundo. “Era um clube mediático, o melhor clube italiano”, recorda. Em Pedroso, para os que estavam envolvidos na criação do clube, o nome Juventus era oportuno, ou não fossem todos jovens. “O símbolo da Juventus de Turim é preto e tem um touro, o nosso é verde e tem um trevo. Escolhemos o verde porque éramos jovens, éramos verdes, e o trevo porque procurávamos a sorte.” Do nome ao emblema, “tudo tinha ligação com a juventude.”

O verde e o trevo distinguem o emblema dos de Pedroso do símbolo dos de Turim MARGARIDA MOTA

Se no início jogavam de forma irregular, com o tempo e o gosto passaram a jogar todos os domingos de manhã. “Para pertencer à equipa, cada jogador pagava uma quota e não podia faltar muitas vezes senão era expulso. Até hoje, nunca deixamos de fazer um jogo por falta de gente.”

Os associados da coletividade são os dirigentes, os atletas e uns quantos voluntários. Todos pagam 10 euros por mês, treinador incluído, para fazer face às despesas, nomeadamente a renda da sede — onde Joaquim Costa recebeu o “Expresso” —, uma divisão única com paredes forradas de recordações: troféus, galhardetes e fotografias. A primeira taça conquistada data de 8 de dezembro de 1982.

Angariar mais sócios poderia ser uma solução para responder às dificuldades, mas “não temos nada para dar aos sócios”, nem um espaço de convívio onde possam tomar um café. “Lutamos por um espaçozinho um pouco maior.”

O clube não tem dívidas, mas para pagar as despesas correntes — os gastos anuais ascendem a 3500 euros e, por mês, entram à volta de 160 euros em quotas —, os dirigentes têm de arregaçar as mangas e ser criativos. A Junta de Freguesia apoia com algum, passam rifas de vez em quando, tentam arranjar patrocinadores para comprar equipamentos novos e associam-se a eventos onde possam lucrar alguma coisa. Entre 13 e 19 deste mês, lá estarão com uma tasquinha montada na Festa no Caneco, organizada pela Junta de Pedroso.

A placa foi retirada da fachada da sede para identificar a barraca do clube na Festa do Caneco MARGARIDA MOTA

No rol das despesas, pesa bastante o aluguer do campo, 125 euros por mês. Os jogos “em casa” são disputados em Pousadela, Nogueira da Regedoura, fora da freguesia e mesmo do distrito do Porto. “Em Pedroso, não temos campo disponível ao domingo de manhã. Estão todos ocupados com as camadas jovens.”

Em tempos, chegaram a usar o Estádio Jorge Sampaio, inaugurado em 2003, com campo relvado, bancadas coloridas para cerca de 8500 espectadores e pista de tartan. “Agora o FCPorto tem a preferência. Dão-lhe utilização e asseguram a manutenção da relva, o que não é mau. Eu não defendo aquele estádio, é um elefante branco. Preferia mais campos adaptados à realidade da nossa freguesia que é rica em futebol popular. Nem que fossem pelados.”

Durante a semana, não há treinos. Os adversários pensam que sim, por causa dos resultados que conseguem. “Este clube e o futebol popular em geral existem precisamente para aqueles que não podem treinar à semana. Hoje trabalha-se muito por turnos”, explica Joaquim Costa. “Ao fim de semana estão livres, a malta encontra-se e o treino faz-se nos jogos. Vai-se experimentando jogadores em determinadas posições. Não vale a pena marcar treinos para aparecerem meia dúzia. É preferível não treinar.”

A dedicação e o compromisso tem dado frutos. Atualmente, o Juventus é o campeão da Liga de Ovar — disputada, esta época, por 20 equipas — e lidera a competição. “Nos últimos cinco anos, ganhamos quatro campeonatos e uma taça.”

Joaquim Costa define-se como “uma pessoa do futebol”. Tem formação de treinador, cursos de massagista, primeiros-socorros, de árbitro e de treino específico para guarda-redes. Em várias funções, designadamente a de adjunto, já subiu duas equipas ao Nacional, o Souzense e o Grijó. “Ter criado este clube, deu-me muito sentido de responsabilidade e ensinou-me muito na vida, desde logo a lidar com pessoas. Quando me dizem que eu me dedico muito ao futebol respondo que o futebol, a mim, não me deve nada. Ensinou-me tanta coisa que eu tinha de pagar ainda.”

Para além do Juventus de Pedroso, e da sua atividade profissional — é controlador de qualidade numa fábrica de vidro —, Joaquim está também ligado ao futebol distrital. “Ao domingo de manhã dedico-me ao Juventus, ao sábado dedico-me ao Avintes, onde sou coordenador do futebol juvenil. Já tenho 25 anos de carreira, recebi o cartão vitalício da Federação.” Nunca foi expulso, orgulha-se.

Joaquim Costa, presidente do Juventus de Pedroso MARGARIDA MOTA

Fala com emoção dos jogos internacionais do Juventus, cerca de 40, em Espanha e com equipas espanholas em Portugal. Os mais especiais realizaram-se em Vigo. Todos os anos, a equipa portuguesa defrontava uma seleção de jogadores das várias equipas de futebol popular da cidade. O intercâmbio — ora lá, ora cá — deixou de se fazer em 2005, por questões financeiras. “Era uma coisa saudável. Os espanhóis gostavam muito de vir aqui. Pediam sempre que servíssemos frango assado — “Costa, queremos pito!”, uma coisa banal para nós. Lá, em termos gastronómicos, os primeiros anos foram difíceis, não nos adaptávamos à comida deles. Para nós, uma grande ida a Espanha era levar a lancheira, almoçar na praia do Samil (Vigo) e depois fazer o jogo. Independentemente do resultado do jogo, toda a gente se divertia. Era uma festa.”

O Juventus era sempre o clube português convidado. “Tínhamos uma conduta muito boa, nunca arranjávamos problemas. Quando surgia alguma confusão acabava depressa. E no futebol popular não é preciso muito…”

Em Vigo, Joaquim Costa tornou-se “uma autoridade”. Nas cerimónias de entrega de prémios da Agrupación Deportiva Primavera — um campeonato semelhante à Liga de Ovar —, era apresentado como “o presidente da liga de futebol popular em Portugal”. “Eles queriam apresentar aos alcaides alguém importante. Então, não diziam que eu era de Pedroso, mas antes que era de Portugal. Para os alcaides, se eu fazia aqueles quilómetros todos para ali estar era porque o evento era importante, e ficavam mais predispostos a ajudar. Os espanhóis diziam que ganhavam muito dinheiro com a minha ida lá. Eu nunca me importei com isso.”

Enquanto estiver no ativo, os planos para ir a Turim ver a Juventus ao vivo ficam adiados. “Gostava imenso, mas ando sempre tão envolvido no futebol que dificilmente teria um espaçozinho para sair. A minha filha vai casar agora e eu disse-lhe: ‘Cuidado com a data…’”

De Turim, nunca recebeu qualquer reconhecimento ou mensagem de incentivo. “Mandei para lá fotos, galhardetes, uma apresentação de quem somos, mas não responderam. Se calhar a altura também não foi a melhor… A Juventus teve uma fase menos boa, por causa de casos de corrupção, até chegou a ser despromovida. Mas não desmotivamos. Não vou desistir, vou voltar a mandar.”

Equipa do Juventus de Pedroso que disputou o 1º Torneio Internacional de Veteranos, no passado fim de semana, em Pedroso JUVENTUS DE PEDROSO

Quando, em fevereiro passado, a Juventus esteve no Porto para discutir com o FCPorto a passagem aos quartos de final da Champions, Joaquim ainda rondou o hotel onde a “squadra” estava hospedada. Mas de Buffon, Dybala ou Dani Alves, nem ve-los. “É muito difícil chegar a estas equipas profissionais.”

Este sábado, não sabe se vai ver a final da Champions pela televisão. Estará em Lisboa, num torneio, com o Avintes. Na pior das hipóteses, grava o jogo e vê depois. Sem surpresa, vai torcer pela Juventus, ainda que a presença de Cristiano Ronaldo na equipa adversária o faça hesitar. “Gosto que ele ganhe sempre tudo, é português e tem conseguido superar todas as expectativas. Mas sendo o adversário a Juventus, e uma vez que o Real Madrid tem ganho tanta coisa, torço pela Juventus. O Buffon está em fim de carreira, merece um prémio.”

No apoio à Juventus, os de Pedroso abrem uma exceção quando os italianos defrontam o clube português por quem torcem. “Temos a simpatia, mas não aquele clubismo… Se a Juventus jogar com o nosso clube, torcemos pelo nosso clube. Se a Juventus ganhar, já não é tão dramático.”

Na época passada, o Benfica convidou Joaquim Costa para ser o coordenador-geral da Escola Geração Benfica, em Lever (V. N. de Gaia), perto de Pedroso. Joaquim disse “não” ao clube do seu coração. “Ia ganhar dinheiro, mas tinha de deixar o Avintes. Antes quero fazer parte da história do Avintes do que ser um qualquer que foi à procura de dinheiro. Tenho pena, mas o Avintes ajudou-me muito na vida e agora, que precisa de mim, eu não vou abandona-lo. São coisas que mexem com o nosso coração.”

(Foto principal: Em cima ao centro, o galhardete do Real Club Recarei, exposto na sede do “rival” Juventus de Pedroso MARGARIDA MOTA)

Artigo publicado na “Tribuna Expresso, a 2 de junho de 2017. Pode ser consultado aqui

Um rei do xisto que tem medo dos xiitas

Périplo do Presidente Donald Trump pelo Médio Oriente e pela Europa põe a nu os dilemas geopolíticos dos Estados Unidos

Ao longo de uma semana Donald Trump passou pelo equivalente ao que os instruendos aprendem na recruta: um percurso de obstáculos através do chamado campo de infiltração com valas, saltos, arame farpado e fogo real. Sobreviveu à provação mas sabe que vai ter de a repetir não tarda.

Ao contrário de antecessores como Obama, Carter, Nixon ou Truman, cujas primeiras viagens foram ao México, Canadá ou a países europeus (o que era relevante no tempo da Guerra Fria), Trump optou pelos sauditas, aliados estratégicos mas rivais económicos, capazes de fazer implodir as cotações do petróleo em defesa dos seus interesses como em 2014/15. Prosseguiu com um exercício de equilíbrio no arame entre judeus e palestinianos. Continuou com uma passagem-relâmpago pelo Vaticano, onde o Papa diz e faz o oposto do Presidente dos EUA em quase tudo. Passou pelos aliados da NATO, para os quais olhou menos como um aliado e mais como um cobrador de impostos, exigindo aos parceiros europeus os retroativos de anos abaixo do investimento de 2% do PIB na defesa. E concluirá hoje com uma passagem pela cimeira do G7 na Sicília.

110 mil milhões de armas

Com os sauditas a relação é ambivalente. Os EUA precisam do gigante saudita para contrabalançar o poder crescente do Irão que, beneficiando da implosão do Iraque e da Síria, estende influência de Teerão a Mossul, Damasco e Tripoli. Daí a substancial venda de armas anunciada por ocasião da visita à Arábia Saudita no valor de 110 mil milhões de dólares (98 mil milhões de euros).

Mas se o reino saudita só sobrevive com a ajuda militar norte-americana já lá vai o tempo em que os EUA dependiam do petróleo de Riade. Com o advento do gás e do petróleo de xisto, há uma quase autossuficiência americana que reduz para uns meros 18% o peso das importações da península arábica (e de 5% no caso específico da Arábia Saudita).

A diferença relativamente à política de Obama é que este aproveitava este momento favorável para tentar reconverter o modelo energético para uma menor dependência dos combustíveis fósseis. Trump faz o oposto, reativando projetos de oleodutos e campos petrolíferos congelados por razões ambientais e pondo em lugares-chave climatocéticos e gente ligada às multinacionais do petróleo. Ainda assim para chegar à autossuficiência energética ainda precisa de aumentar a produção de combustíveis fósseis em 50%, o que não será já amanhã.

Mantendo-se ou agravando-se o modelo de hiperconsumo de combustíveis fósseis lá virá o dia em que os EUA podem voltar a precisar do petróleo saudita…

No discurso pronunciado no domingo, 21, em Riade, Trump definiu um novo “eixo do mal”: já não o postulado por George W. Bush (Irão/Iraque/Coreia do Norte) mas o Irão xiita e o Daesh, afirmando que Teerão “financia, arma e treina terroristas que semeiam o caos na região”. Não se tratando do Daesh que é sunita e que o Irão combate ao lado dos americanos no norte do Iraque (nomeadamente no cerco da cidade de Mossul) só pode estar a pensar na milícia xiita libanesa Hezbollah. Na Síria esta é decisiva, não tanto no combate ao Daesh (fundamentalmente a cargo dos curdos apoiados pelos americanos, como sucede no cerco a Raqqa, “capital do califado”) mas na manutenção do regime do ditador Assad, igualmente apoiado pelos russos. O Hezbollah é, ainda, o inimigo nº 1 de Israel que se revelou um osso duro de roer na invasão israelita do sul do Líbano em 2006.

Ora, para cortar este nó górdio, isto é para afastar Moscovo de Teerão e diminuir a influência iraniana no Médio Oriente, Trump precisaria de uma manobra de génio diplomático ao nível da que Kissinger preparou para Nixon em 1973, em plena Guerra do Vietname, visitando Pequim e desanuviando relações com a China maoísta em detrimento da União Soviética. Isso implicaria uma negociação mais ampla de esferas de influência que incluísse outras latitudes como a Crimeia e o leste da Ucrânia. Ora a única coisa que Trump tem em comum com Nixon é a prática de manobras internas no limiar do processo de destituição. Quanto a um Kissinger, manifestamente não o tem na sua equipa.

Pompa e fracos resultados

Se da visita às Arábias resultou uma megavenda de armas, o saldo da visita às terras bíblicas é pobre. Trump escudou-se atrás de um discurso genérico, falando mais de paz do que de outra coisa e nada dizendo sobre o que realmente é relevante: Que estatuto para Jerusalém? A favor ou contra a solução de dois estados para Israel ou Palestina? Falou com o primeiro-ministro, Netanyahu, e com o presidente da Autoridade Palestiniana, Abbas, mas não houve, nem enumeração de pontos a discutir nem calendarização dos mesmos.

Como saldo, apenas a agregação do Estado judaico ao eixo Washington-monarquias do Golfo para combater a expansão xiita no Médio Oriente. Como a História é irónica e às vezes cruel, vai fazer 50 anos que os sauditas ao lado de egípcios, jordanos e sírios travaram a Guerra dos Seis dias contra Israel, da qual resultou a conquista de territórios como Jerusalém e os Montes Golã, ainda hoje no centro dos conflitos do Médio Oriente.

Sendo que as monarquias do Golfo e os sauditas em particular são os campeões do atraso cívico e político na região, com a instauração de um regime ditatorial e teocrático, com polícia religiosa e onde, por exemplo, as mulheres têm direitos residuais. Sem esquecer que a Al-Qaeda e mesmo o Daesh sempre encontraram generosos patronos e financiadores ao mais alto nível no Golfo e que a doutrina político-religiosa vigente no reino saudita, o wahhabismo, é afim da visão do mundo dos extremistas do Daesh. E que 15 dos 19 terroristas do 11 de Setembro eram sauditas (como o próprio Bin Laden) tal como um quinto dos 779 presos de Guantánamo.

Artigo escrito com Rui Cardoso.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 28 de maio de 2017. Pode ser consultado aqui

O calcanhar de Aquiles do Presidente

Economia e Trump complicam ‘o passeio’ de Hassan Rohani nas eleições presidenciais da próxima semana

SOFIA MIGUEL ROSA

De quatro em quatro anos, a luta pelo poder no Irão entre fações conservadoras e reformistas ganha visibilidade internacional. Foi o que aconteceu em 2009 quando a reeleição do conservador Mahmoud Ahmadinejad foi contestada nas ruas pelo Movimento Verde, criando a ilusão de uma “primavera” iraniana. Foi assim também em 2013 quando a eleição do clérigo moderado Hassan Rohani criou expectativas quanto a uma real abertura da República Islâmica ao Ocidente.

Na próxima sexta-feira, 55 milhões de iranianos estão convocados para escolher o Presidente, pela 12ª vez desde a Revolução Islâmica de 1979. “O padrão aponta para que [o Presidente em funções] Hassan Rohani seja o provável vencedor. Mas, nos últimos meses, analistas têm previsto a sua derrota”, alerta ao Expresso Ghoncheh Tazmini, investigadora da Faculdade de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres.

“A presidência de Rohani foi diretamente relacionada com o sentimento de crise no Irão em 2013. A economia estava mal, esmagada por pesadas sanções e, com o dossiê nuclear por resolver, o risco de um ataque dos EUA estava sempre presente. Rohani foi escolhido para resolver o problema. O Líder Supremo apoiou os seus esforços de forma relutante, advertindo para a desconfiança da América. Rohani desempenhou a tarefa com sucesso, mas as expectativas quanto a benefícios económicos decorrentes do acordo nuclear ainda não se concretizaram.”

Ao aceitar colocar o programa nuclear iraniano sob vigilância internacional — através do acordo assinado a 14 de julho de 2015 com o P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha), o Irão recebeu garantias de que as sanções seriam aliviadas.

Polémicas e milhões

Meio ano depois de assinar o acordo, Hassan Rohani confirmava essa expectativa ao pisar solo europeu naquela que foi a primeira visita de um chefe de Estado iraniano em 16 anos. As deslocações a Itália e França foram ensombradas pela polémica — em Roma porque foram tapadas estátuas de nus num museu que visitou e em Paris por não se ter realizado o jantar de gala onde seria servido vinho —, mas de lá Rohani saiu com centenas de contratos assinados que prometiam dinamizar a economia nacional.

“Após tomar posse, Rohani nomeou o Governo mais tecnocrata que a República Islâmica alguma vez teve. Atacou o problema da inflação com sucesso reduzindo-a para um dígito. No tempo do seu antecessor, tinha chegado aos 40%”, diz a analista iraniana. Já a taxa de desemprego, que mais diretamente afeta a população (80 milhões), foi de 12,5% em 2016.

“As sanções dos EUA ainda em vigor e a incerteza à volta da política da Administração Trump em relação ao Irão levaram muitas empresas europeias a não arriscar fazer negócio com Teerão”, comenta a investigadora. “Igualmente, grandes instituições financeiras continuam a recusar fazer pagamentos no âmbito de contratos que envolvam iranianos.”

Desconfiar do estrangeiro

A 21 de março, na tradicional mensagem de Ano Novo (Nowruz) — que no Irão coincide com a entrada da primavera —, o Líder Supremo recordou que as promessas económicas do Governo estavam por cumprir. Por essa altura, já Donald Trump tinha conotado os iranianos com suspeitos de terrorismo ao incluir o Irão na lista de sete países visados pelo decreto de 27 de janeiro que proibia os nacionais desses países de entrarem nos EUA (depois suspenso pela justiça). Teerão sentiu-o como uma afronta e a retórica radical que olha para o estrangeiro com desconfiança ganhou força.

Nestas eleições, registaram-se como pré-candidatos… 1636 iranianos. Além de Rohani, só mais cinco passaram no Conselho dos Guardiães, que verifica o perfil dos candidatos e a sua conformidade com os preceitos da República Islâmica. Ebrahim Raisi, da confiança do aparelho revolucionário e próximo do Líder Supremo, ayatollah Ali Khamenei, 77 anos, é o adversário mais forte do Presidente.

Um dos nomes chumbados foi o do ex-Presidente conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005/13). “Essa exclusão demonstra que o Líder Supremo não quer problemas e deseja que os iranianos vão às urnas” e escolham. “O Líder Supremo quer evitar uma campanha que
exacerbe as divisões políticas”, diz a investigadora da SOAS.

Pilares consensuais

Com 38 anos, a República Islâmica continua num sistema híbrido, combinando elementos democráticos e teocráticos. Em épocas eleitorais, fações políticas rivais confrontam-se mas sem pôr em causa os pilares da revolução. “Enquanto a presidência pode cair para o campo tradicionalista/conservador, ou para o campo moderado/pragmático, ou ainda para o campo reformista, as prioridades estratégicas da República Islâmica permanecem as mesmas”.

Ou seja, presidências moderadas e reformistas concentram-se na sociedade civil e defendem o degelo em relação ao estrangeiro; já as conservadoras centram-se na economia doméstica, nos benefícios sociais e são mais cautelosas em relação a uma aproximação ao
Ocidente. Mas nenhuma põe em causa a soberania do líder.

OS SEIS CANDIDATOS PRESIDENCIAIS E O ACORDO NUCLEAR

“Na história do Islão, há um tratado de paz entre [o xiita] imã Hassan e [o califa omíada] Muawiyah. Apesar do imã Hassan saber que Muawiyah não iria ser leal ao tratado, assinou-o para deixar claro quem iria falhar o compromisso.” A afirmação é do candidato Mostafa Hashemitaba, fazendo um paralelismo entre este episódio histórico e o acordo sobre o nuclear iraniano assinado com seis potências internacionais.

“Porque cumprimos o que acordámos e o outro lado não?”, juntou-se-lhe Mohamed Bagher Qalibaf. “É tempo de o outro lado ser responsabilizado”, acrescentou Mostafa Mir-Salim. Num debate na televisão, o Presidente Rohani defendeu o acordo dizendo que, sem este, em vez de dois milhões de barris de petróleo por dia, o Irão produziria apenas 200 mil.

Os seus cinco adversários realçaram que o acordo não trouxe prosperidade ao país, mas nenhum prometeu rasgá-lo. Várias vezes, Donald Trump falou de “um acordo muito mau”, deixando no ar a hipótese de o renegociar. A “ameaça” de Trump e a falta de benefícios diretos para “o cidadão da rua” levam muitos iranianos a olhar para estas eleições como um referendo ao acordo nuclear.

CANDIDATOS

HASSAN ROHANI
Eleito Presidente em 2013, com 51%, tenta a reeleição aos 68 anos. Foi um dos artífices do acordo sobre o nuclear iraniano. Defensor do diálogo com o Ocidente, é apoiado por moderados e reformistas

EBRAHIM RAISI
Aos 56 anos, é o principal candidato conservador e, diz-se, o favorito do Líder Supremo. Natural de Mashhad, a segunda cidade, lidera a Astan Quds Razavi, instituição de beneficiência tida como um império financeiro

MOHAMMED B. QALIBAF
Preside à Câmara Municipal de Teerão desde 2005. Conservador, liderou a Força Aérea dos Guardas da Revolução entre 1997 e 2000. Adversário de Rohani nas presidenciais de 2013, nasceu em Mashhad há 55 anos

MOSTAFA MIR-SALIM
Ex-ministro da Cultura e da Orientação Islâmica, é um crítico do acordo nuclear e defensor da repressão de dissidentes. Tem 69 anos

ESHAQ JAHANGIRI
É primeiro vice-presidente de Hassan Rohani. Foi ministro das Indústrias e das Minas sob a presidência do reformista Mohammad Khatami e, antes, governador da província de Isfahan. Tem 59 anos

MOSTAFA HASHEMITABA
Aos 70 anos, apresenta-se como um reformista moderado. Nas presidenciais de 2001, foi o menos votado dos dez candidatos

PROCESSO ELEITORAL

1636
cidadãos pré-candidataram-se às eleições presidenciais, 137 dos quais eram mulheres. Nunca a candidatura de uma mulher foi aprovada pelo Conselho dos Guardiães

26
de maio é a data prevista para a segunda volta, na eventualidade de nenhum dos seis candidatos alcançar 50% dos votos mais um. No dia seguinte, está previsto o início do mês sagrado do Ramadão

Artigo publicado no “Expresso”, a 13 de maio de 2017. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.