Sete do Sul mandam recados para o Norte

Estão a tornar-se rotina os encontros informais dos líderes de sete países do Sul da Europa. Depois de Atenas e Lisboa, Madrid acolheu a terceira cimeira — a primeira após as polémicas declarações do presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que visaram membros do Sul da UE

Pela terceira vez em oito meses, sete países do sul da União Europeia reuniram-se, ao nível de chefes de Estado ou de Governo, para tomarem o pulso à União e pronunciarem-se sobre as questões do momento.

Chipre, Espanha, França, Grécia, Itália, Malta e Portugal reuniram-se em Madrid, na segunda-feira, numa cimeira informal que tinha como aliciante o facto de se seguir às polémicas declarações do presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, que visaram alguns países do Sul da Europa.

Numa conferência de imprensa conjunta sem direito a perguntas por parte dos jornalistas, o Presidente francês, François Hollande, recordou que “graças aos sacrifícios feitos por estes países para reduzir o défice e melhorar a competitividade, a eurozona volta a ser fiável”, escreve o “El País”.

Na mesma linha, Alexis Tsipras, primeiro-ministro da Grécia, pediu a Bruxelas flexibilidade na aplicação das regras europeias e realçou que “os superávites do norte são os défices do sul”.

O drama migratório

Quase todos ribeirinhos ao Mar Mediterrâneo — a exceção é Portugal —, os países reunidos no Palácio El Pardo abordaram a “pressão migratória extrema” que atinge sobretudo o Mediterrâneo Central. “Insistimos que a migração exige um planeamento global”, que passa por “reforçar o diálogo e a cooperação com os países de origem, trânsito e destino das migrações”, mediterrânicos, africanos e asiáticos, lê-se no comunicado final da cimeira de Madrid.

Sendo a Síria, atualmente, a principal fonte desse êxodo dramático, os sete condenaram “o ataque com armas químicas de 4 de abril em Idlib” — que segundo a Organização Mundial de Saúde provocou 84 mortos e 546 feridos —, sem atribuírem autoria. “O uso reiterado de armas químicas na Síria, tanto por parte do regime de Assad desde 2013 como por parte do Daesh, constituem crimes de guerra.”

Os países do Sul da Europa mostram-se “compreensíveis” em relação aos 59 mísseis Tomahawk lançados pelos Estados Unidos contra a base governamental síria de Shayrat, ataque “que tinha a intenção compreensível de impedir e evitar a distribuição e uso de armas químicas”. E reafirmaram que “não pode haver uma solução militar para o conflito”, apenas “uma solução política credível”.

Os sete do Sul reuniram-se pela primeira vez a 9 de setembro de 2016, em Atenas, e depois a 28 de janeiro deste ano em Lisboa. A próxima cimeira terá lugar em Chipre, após as eleições legislativas alemãs de 24 de setembro.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui

Número de mortos do ataque aéreo em Idlib sobe para 58

O hospital onde estavam a ser assistidos sobreviventes do bombardeamento na Síria foi também atingido. Oposição denuncia “ataque químico”

Pelo menos 58 pessoas, incluindo 11 crianças com menos de oito anos, foram mortas, esta terça-feira, durante um ataque aéreo na cidade síria de Khan Sheikhoun, no sul da província de Idlib, controlada pelos rebeldes. Fontes da oposição garantem que foram usados agentes químicos.

Citado pela agência Reuters, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos informou que o ataque provocou situações de “sufoco ou desmaio” e que várias pessoas “espumavam da boca” — sintomas que evidenciam um possível ataque químico.

Segundo a BBC, após o ataque, aviões dispararam contra clínicas onde sobreviventes estavam a ser assistidos. Segundo a Al-Jazeera, já no domingo, “aviões suspeitos de serem russos” alvejaram por três vezes o principal hospital da cidade de Maaret al-Numan, no norte de Idlib, ferindo pelo menos dez pessoas.

A oposição diz que os aviões usados no ataque desta terça-feira eram sírios ou russos. As autoridades de Damasco negam a uso de armas químicas, o que foi desmentido, no passado, por uma investigação da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) das Nações Unidas, que responsabilizou o regime sírio por ataques em que foi provado o uso de produtos tóxicos.

O principal grupo da oposição, a Coligação Nacional, acusa o Governo do Presidente Bashar al-Assad de ser o responsável pelo ataque a Khan Sheikhoun e apelou às Nações Unidas que investigue o caso de imediato. “Se fracassar em fazê-lo, isso será entendido como uma bênção às ações do regime”, afirmou em comunicado.

O Governo francês já apelou a uma reunião do Conselho de Segurança, onde a Rússia é membro permanente. “Um novo e particularmente sério ataque químico aconteceu esta manhã na província de Idlib”, reagiu o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault. “Condeno este ato repugnante.” E em face destas “ações tão graves que ameaçam a segurança internacional, apelo a que ninguém fuja às suas responsabilidades”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui

União Europeia e Israel lançam “o maior gasoduto do mundo”

Apresentado em Telavive, o EastMed envolve a exploração de jazidas de gás natural em Israel, Chipre, Grécia e Itália. Para a União Europeia, significa uma redução na dependência energética em relação à Rússia

Os Governos de Chipre, Grécia, Itália e Israel apresentaram os planos de construção do mais longo e mais profundo gasoduto subterrâneo do mundo — 2200 quilómetros de canalizações ao longo do Mar Mediterrâneo, por vezes a 3,5 quilómetros de profundidade, entre Israel e Itália.

O projeto — designado EastMed e desenvolvido pela empresa energética grega IGI-Poseidon — foi elaborado em articulação com a União Europeia, interessada em reduzir a dependência energética do Velho Continente em relação à Rússia.

“Nas próximas décadas, os fluxos de gás da região leste do Mediterrâneo desempenharão um papel vital para a segurança energética da União Europeia”, afirmou Miguel Arias Cañete, comissário europeu para a Ação Climática e para a Energia, na segunda-feira, em Telavive, onde foi apresentada a parceria internacional e onde estiveram presentes os ministros da Energia dos quatro países envolvidos.

“Este é um projeto ambicioso, que a Comissão apoia, na medida em que terá um elevado valor em termos de segurança e de diversificação [de fontes] de abastecimento”, acrescentou.

Dependente da Rússia em termos energéticos, o território europeu viu o fornecimento de gás russo ser fortemente condicionado na sequência da tensa relação entre Rússia e Ucrânia que se arrasta desde 2009 quando os dois países falharam a obtenção de um acordo precisamente sobre o preço e o fornecimento de gás natural.

O gasoduto EastMed começa no reservatório “Leviathan” — descoberto em 2010, ao largo da costa de Israel — e “ligará jazidas ao largo das costas de Israel, Chipre, Grécia e possivelmente Itália”, escreve o diário israelita “Haaretz”.

Terá uma capacidade anual estimada entre 12 e 16 mil milhões de metros cúbicos de gás natural e um custo superior a 6000 milhões de euros.

Se o que está no papel se concretizar, começará a funcionar em 2025. “Mas tentaremos acelerar e encurtar o calendário”, garantiu Yuval Steinitz, ministro israelita da Água, Energia e Infraestruturas Nacionais. Para além do mercado europeu, Telavive planeia exportar gás natural também para a Turquia, Egito e Jordânia.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 4 de abril de 2017. Pode ser consultado aqui

Chegou ao fim o julgamento que dividiu Israel

O sargento israelita que matou com um tiro na cabeça um palestiniano ferido e desarmado, em Hebron, foi condenado a ano e meio de prisão. Para uns Elor Azaria é um herói, para outros o rosto do uso excessivo da força por parte das forças israelitas

O caso dividiu a sociedade israelita e a sentença, conhecida esta terça-feira, motivou igualmente reações contrárias. Elor Azaria, um sargento israelita que executou com um tiro na cabeça um palestiniano que jazia no chão, ferido e desarmado, na cidade de Hebron (Cisjordânia), foi condenado a 18 meses de prisão.

“Sabíamos que este não ia ser um dia fácil para o acusado e para a sua família, mas era preciso fazer justiça e foi feita justiça”, afirmou em comunicado o procurador chefe tenente coronel Nadav Weisman.

O julgamento decorreu num tribunal militar, sedeado na base de Kirya, em Telavive. O sargento, de 21 anos, recebeu ainda duas penas suspensas de 12 e seis meses e a despromoção à patente de soldado. A sentença começa a ser cumprida a 5 de março.

“Quando entrou na sala de audiência, um sorridente Azaria foi recebido com aplausos e abraços por parte da família e de apoiantes”, descreveu o jornal digital “The Times of Israel”. “Após a sentença, familiares e amigos cantaram o hino nacional de Israel [Hatikva] e qualificaram Azaria de herói.” O soldado ouviu a pena sentado entre os pais.

Apelos à clemência

Conhecida a sentença, as reações dividiram-se entre apelos ao perdão imediato, elogios à pena atribuída e críticas por parte de quem a considera curta.

“O tribunal disse de sua justiça, o processo legal está concluído. Agora é tempo de clemência, do regresso de Elor [Azaria] a sua casa”, reagiu o ministro israelita dos Transportes, Yisrael Katz (Likud, direita).

“Eles sentenciaram [Azaria] a apenas um ano e meio de prisão. Azaria merecia ser punido, e seriamente”, defendeu o deputado Tamar Zandberg (Meretz, esquerda).

Azaria foi condenado por homicídio no mês passado pela morte, a 24 de março de 2016, do palestiniano Abdel Fatah al-Sharif, envolvido num ataque à faca que feriu um militar israelita, em Hebron, no território ocupado palestiniano da Cisjordânia. Azaria, que foi filmado a alvejar Sharif, enquanto este jazia no chão, ferido e imóvel, incorria numa pena de prisão máxima de 20 anos.

A família do palestiniano acompanhou a leitura da sentença pela televisão, em casa, perto de Hebron. “Um ano e meio é uma farça. O que quer dizer?” O meu filho “era um animal para ser morto desta forma bárbara?”, disse o pai de Sharif. “Não estamos surpreendidos, desde o início que sabíamos que este este iria ser um julgamento-espetáculo que não iria fazer justiça. Apesar do soldado ter sido apanhado num vídeo e de ser claro que foi uma execução a sangue frio, ele foi condenado apenas por homicídio, e não assassínio, e a acusação apenas pediu uma pena leve de três anos.”

Num comunicado, a organização Human Rights Watch afirmou que “mandar Elor Azaria para a prisão por este crime envia uma mensagem importante sobre o controlo do uso excessivo da força.”

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 21 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Violência continua no Paquistão: depois de um templo sufi, o alvo foi agora um tribunal

Uma fação dos talibãs paquistaneses reivindicou um ataque, esta terça-feira, contra um complexo judicial no noroeste do país. Os atacantes estavam munidos com coletes suicidas, granadas de mão e espingardas de assalto AK-47

Pelo menos seis pessoas morreram esta terça-feira durante um ataque contra um complexo judicial da cidade paquistanesa de Tangi, na região de Charsadda (noroeste).

A investida, de que resultaram também 20 feridos, foi realizada por três homens munidos com coletes suicidas, granadas de mão e espingardas de assalto AK-47. Segundo a agência Reuters, um deles fez-se explodir à entrada do edifício, enquanto os outros dois foram abatidos pela polícia ainda no exterior, o que impediu um banho de sangue maior.

“Advogados e outras pessoas que estavam dentro do complexo começaram a correr para salvar as vidas. Houve pânico e ninguém sabia para onde ir”, descreveu Mohammad Shah Baz Khan, que testemunhou o ataque no interior do edifício, àquela agência noticiosa. Algumas pessoas tentaram escalar os muros em redor do complexo. “Os terroristas queriam matar o maior número possível de pessoas”, esclareceu Ijaz Khan, chefe da polícia local.

Num email enviado a órgãos de informação, o Jamaat-ur-Ahrar, uma fação dos talibãs paquistaneses (Tehreek-e-Taliban Pakistan), reivindicou o ataque. Na semana passada, este grupo tinha divulgado um vídeo anunciando uma nova campanha de violência contra instituições governamentais, judiciais, a polícia e o exército.

Ataque ao Islão moderado

O ataque em Tangi foi o último de uma vaga de atentados sangrentos que tem fustigado o Paquistão e que, só na semana passada, provocou mais de 100 mortos. O mais mortífero, no dia 16, visou o Lal Shahbaz Qalandar, um famoso templo sufi — o sufismo é a corrente mística e contemplativa do Islão —, em Sehwan Sharif, província de Sindh (sul). O número de mortos subiu esta segunda-feira para 90, após duas vítimas não resistirem aos ferimentos.

Reivindicado pelo autoproclamado “Estado Islâmico” (Daesh) — que, pressionado na Síria e no Iraque, está cada vez mais visível e atuante no Paquistão e no vizinho Afeganistão —, o atentado contra o santuário de Sehwan Sharif revela também que, para além das instituições políticas, as minorias religiosas também são um alvo no Paquistão.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 21 de fevereiro de 2017. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.