Candidatos democratas já votaram

A dupla democrata candidata à Casa Branca, Hillary Clinton e Tim Kaine, já exerceu o direito de voto. Na Virgínia, o candidato à vice-presidência madrugou para ser o primeiro na sua secção de voto… mas foi ultrapassado por uma senhora de 99 anos

As urnas já abriram nos Estados Unidos. Dos cerca de 200 milhões de eleitores registados para votarem nas eleições presidenciais, mais de 46 milhões, entre os quais Barack Obama, exerceram previamente o direito de voto — por correspondência ou por antecipação. Para os restantes, esta terça-feira é a última oportunidade para participarem na escolha do 45.º Presidente dos EUA.

“Não existe tal coisa de que um voto não conta. Hoje, você pode fazer a diferença”, escreveu num tweet a candidata democrata Hillary Clinton, antes de votar em Chappaqua, no estado de Nova Iorque. Acompanhada pelo marido, o 42.º Presidente norte-americano, Bill Clinton, Hillary distribuiu sorrisos de confiança, seguida de perto por um batalhão de câmaras televisivas.

Mais discreto, o candidato democrata à vice-presidência, Tim Kaine, madrugou, exercendo o seu direito de voto nas instalações de uma igreja metodista em Richmond, no estado da Virginia. “Queria ser o primeiro na minha assembleia de voto, mas a Minerva Turpin, de 99 anos, ganhou-me. Parece que preciso de me habituar a ser número dois!”, escreveu o senador Kaine no Twitter, com humor.

Em matéria de afluência às urnas, a dupla democrata foi a primeira a cortar a meta, ainda que não seja esta a corrida que conta. Terminada “a campanha mais feia da história moderna” dos EUA, como a qualificou a CNN, os dois principais candidatos — separados nas sondagens por curta margem — desdobram-se em apelos ao voto.

“Somos um grande, grande país, temos um potencial enorme. Saiam e votem”, afirmou Donald Trump esta terça-feira de manhã, numa intervenção por telefone no programa “Fox & Friends” da televisão conservadora Fox News. O candidato republicano reconheceu: “Se eu não ganhar, considero um tremendo desperdício de tempo, energia e dinheiro”.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Primeira vitória vai para Hillary

Com oito habitantes apenas, a aldeia de Dixville Notch, junto à fronteira com o Canadá, foi rápida a anunciar o resultado. A candidata democrata arrecadou metade dos votos expressos

É uma tradição com mais de 50 anos nos Estados Unidos. Pouco depois da meia-noite do dia eleitoral, é anunciado o resultado da votação na pequena aldeia de Dixville Notch, no estado de New Hampshire, a 30 quilómetros da fronteira com o Canadá. O processo é rápido, já que a localidade tem apenas oito habitantes.

Com “cinco vezes mais jornalistas a assistirem” do que eleitores a depositarem o voto, como constatou a CNN, quatro pessoas votaram a favor de Hillary Clinton, duas em Donald Trump e uma no candidato libertário Gary Johnson.

O oitavo morador revelou a sua insatisfação em relação aos nomes propostos escrevendo à mão o nome do seu político favorito: Mitt Romney, o candidato do Partido Republicano nas presidenciais de 2012.

Nas eleições de há quatro anos, a localidade dividiu-se a meio no apoio a Romney e a Barack Obama. Mas nas três presidenciais anteriores, os eleitores de Dixville Notch votaram maioritariamente no candidato que haveria de vencer: George W. Bush em 2000 e 2004 e Barack Obama em 2008.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 8 de novembro de 2016. Pode ser consultado aqui

Protestos, a válvula de escape de um monarca pragmático

Manifestações de rua após a morte de um peixeiro recordam o início da Primavera Árabe

ILUSTRAÇÃO LE BLOG DE SYLVAIN RAKOTOARISON

A morte, há oito dias, de um peixeiro marroquino no interior de um camião do lixo, levou milhares de pessoas às ruas de várias cidades do reino em protesto contra as autoridades. Mouhcine Fikri, de 31 anos, foi engolido por uma trituradora quando — numa atitude desesperada, defendem os manifestantes — tentou salvar 500 kg de espadarte confiscados pela polícia. Uma investigação está em curso para apurar se, de facto, foi um ato de desespero ou um acidente. Se a trituradora estava ligada quando Fikri caiu ou foi acionada depois e quem deve ser penalizado pelo negócio do espadarte, já que a sua pesca está proibida no Mediterrâneo entre 1 de outubro e 30 de novembro.

O facto é que logo se estabeleceram paralelismos entre este caso e o do tunisino Mohamed Bouazizi, o vendedor ambulante que, a 17 de dezembro de 2010, se imolou pelo fogo após a polícia municipal lhe ter apreendido a banca de fruta, e que foi considerado o tiro de partida da Primavera Árabe. Iria agora a morte trágica de Mouhcine Fikri desencadear uma segunda ronda de protestos visando a monarquia, direta ou indiretamente?

Regime vai cedendo

Há cinco anos, Marrocos também não foi poupado aos ventos da Primavera Árabe, mas Mohammed VI foi hábil na contenção das manifestações dinamizadas pelo Movimento 20 de Fevereiro (M20). Promoveu um referendo constitucional e abdicou de prerrogativas, transferindo para o primeiro-ministro o poder de dissolver o Parlamento e para o Parlamento a concessão de amnistias, por exemplo. Com os marroquinos de volta às ruas, estará agora pressionado a fazer novas cedências?

“Este tipo de casos são balões de oxigénio que alimentam o M20, o qual continua a fazer sentido na pressão pelos direitos cívicos, sobretudo no que toca à mulher”, explica ao Expresso Raúl Braga Pires, investigador no Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação da Academia Militar (CINAMIL). “O regime tem cedido e ajustado as leis aos tempos modernos, como foi o caso da anulação da alínea do código penal que permitia a um violador safar-se caso acordasse casar com a sua vítima.”

O investigador compara este caso a outro, em agosto de 2013, que levou a população às ruas para contestar uma amnistia concedida ao espanhol Daniel Galvan Viña, o “Monstro de Kenitra”, condenado a 30 anos de prisão por crimes de pedofilia, “um assunto sujo e tabu e sempre escondido”. O caso surgira numa altura em que o confronto provocado pela Primavera Árabe tinha dividido profundamente a sociedade marroquina entre “esquerda” e “direita”, mas perante esse caso lealistas e membros do M20 surgiram lado a lado, independentemente de, na véspera, nas ruas, se terem agredido.

“Tensão com as autoridades existe sempre, mas os marroquinos têm noções muito claras sobre os limites e nunca acontecerá o mesmo que na Tunísia”, prossegue Braga Pires, professor na Universidade Mohammed V, em Rabat, entre 2011 e 2014. “Uma das formas inteligentes de conter os ânimos coletivos marroquinos mais impulsivos, durante o inverno de 2011, foi o facto de os cafés do reino estarem permanentemente sintonizados em canais de informação contínua, sobretudo a Al-Jazeera Árabe, que passavam em direto os acontecimentos no Egito, Iémen e, mais tarde, Síria. Os marroquinos viam e diziam: ‘Não queremos isto aqui!’”

O poder dos súbditos

Após a Primavera Árabe, qualquer governante — de Rabat a Muscate (Omã) — sabe que pode ter os dias contados e o mesmo destino do egípcio Hosni Mubarak (preso e condenado) ou do líbio Muammar Kadhafi (linchado na rua). O poder em Marrocos está atento a isso. “Estes casos que mobilizam a opinião pública de forma transversal reforçam ainda mais o poder e a autoridade do monarca”, diz o investigador. “Tudo isto provoca nos súbditos a certeza de que hoje são mais livres e informados do que nunca e que vivem num país/regime que lhes permite manifestarem-se à vontade e provocar justiça em casos de gritante injustiça.”

Outra questão levantada por este caso prende-se com a sua localização. Fikri morreu a 28 de outubro, em Al Hoceima, cidade costeira do Mediterrâneo, na região rebelde e esquecida do Rif (norte). “O Rif já fez as pazes com o Palácio”, diz Raúl Braga Pires. “Foi Hassan II que lhes chamou insetos e nunca se deslocou ao Rif, oficial ou oficiosamente, durante a sua vida/reinado. O filho, Mohammed VI, construiu estradas, deu um novo impulso económico a toda a região com investimento interno e estrangeiro e até já celebrou a Festa do Trono em Tetuão, o que muito bem caiu no goto dos rifenhos. O sentimento independentista característico desta região tem tido razões para se ir esboroando.”

Artigo publicado no Expresso, a 5 de novembro de 2016

Noruega vai acolher tropas norte-americanas

Um total de 330 militares dos Estados Unidos serão destacados para aquele país escandinavo a fim de participarem em exercícios previstos para janeiro. A Noruega não permitia tropas estrangeiras no seu território desde 1949

O Parlamento norueguês aprovou, na segunda-feira, o destacamento temporário de 330 soldados norte-americanos no país. A decisão tem contornos históricos já que o país escandinavo não acolhe tropas estrangeiras no seu território desde 1949.

O dispositivo ficará estacionado na zona de Vaernes (centro), informou o ministério norueguês da Defesa e tem como objetivo a participação em exercícios militares previstos para janeiro. Este destacamento “terá implicações positivas na nossa já de si forte relação bilateral”, defendeu o ministro da Defesa, Ine Eriksen Søreide.

“Este não é um bom sinal que nós damos”, contrapôs o líder da oposição, Audun Lysbakken, líder do Partido da Esquerda Socialista. “Enfrentamos um clima político frio que requer previsibilidade por parte da Noruega.”

A decisão tomada pelo Governo liderado pela conservadora Erna Solberg procovou nervosismo na Rússia — com quem a Noruega partilha uma fronteira de quase 200 quilómetros — que mostrou surpresa num comunicado enviado à agência France Presse.

“Levando em consideração múltiplas declarações feitas por responsáveis noruegueses relativos à ausência de uma ameaça da Rússia em relação à Noruega, gostávamos de compreender por que razão a Noruega está tão desejosa de aumentar o seu potencial militar”, afirmou Maxime Gourov, porta-voz da embaixada russa em Oslo.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 25 de outubro de 2016. Pode ser consultado aqui

Trégua no Iémen, mas só durante 72 horas

Huthis e forças leais ao Presidente deposto aceitaram um cessar-fogo de 72 horas para permitir o fornecimento de alimentos e assistência médica a populações isoladas

Entra em vigor esta quarta-feira à noite, no Iémen, um cessar-fogo de 72 horas, anunciou o enviado especial da ONU para o Iémen, Ismail Ould Cheikh Ahmed. A trégua — que terá início às 23h59 locais (21h59 em Portugal continental) — foi aceite pelas autoridades huthis, que tomaram o poder em setembro de 2014, e pelo Presidente deposto Abd-Rabbu Mansour Hadi, visando o fornecimento de alimentos e assistência médica a áreas isoladas desde há meses.

“Temos esperança que esta cessação [das hostilidades] em todo o território crie a oportunidade para as agências e organizações humanitárias trabalharem em áreas que têm estado isoladas ou são de difícil acesso em todo o Iémen”, afirmou Jamie McGoldrick, coordenador humanitário da ONU, à agência Reuters.

O poder que controla a capital e a parte norte do país — composto pelos huthis (apoiados pelo Irão) e por aliados locais (como o ex-Presidente iemenita Abdullah Saleh, afastado do poder no contexto da Primavera Árabe) — declarou que o país necessita de uma trégua imediata e incondicional e exigiu o fim dos ataques levados a cabo pela coligação árabe liderada pela Arábia Saudita e o levantamento do bloqueio ao país, por terra, mar e ar.

Esta intervenção militar, em defesa do Presidente deposto Abd-Rabbu Mansour Hadi, está em curso desde desde março de 2015, sem resultados visíveis no terreno. As críticas à operação intensificaram-se recentemente, após um bombardeamento a um salão comunitário onde decorria um velório, na capital iemenita (Sana), no passado dia 8, que provocou 140 mortos e feriu mais de 500 pessoas. A Arábia Saudita assumiu a culpa justificando o ataque com “informação incorreta”.

No sangrento conflito no Iémen — que já levou a Cruz Vermelha Internacional a doar morgues a hospitais iemenitas —, nenhuma das partes é poupada às acusações. Num relatório divulgado pela organização humanitária Coligação Iemenita para a Monitorização das Violações dos Direitos Humanos, na segunda-feira, estão documentados 9949 casos de detenção arbitrária por parte dos huthis e de milícias aliadas, entre 21 de dezembro de 2014 e 30 de abril deste ano, incluindo 12 mulheres e… 204 crianças.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 19 de outubro de 2016. Pode ser consultado aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.