As expressões populares com Braga são “mais velhas que a Sé de Braga” e põem o país a “ver Braga por um canudo”

Braga inspira um conjunto de expressões de uso corrente de norte a sul do país. Qual a sua origem e em que circunstância galgaram as fronteiras do Minho? As respostas a estas dúvidas implicam uma viagem ao passado da “cidade dos arcebispos”

Arco da Porta Nova, em Braga WIKIMEDIA COMMONS

No quotidiano português, em ocasiões de aperto, é frequente o recurso a expressões com o topónimo Braga para reagir à situação. Se a alguém for dirigido um “és de Braga!”, o visado sabe que se esqueceu de fazer algo. Se não alcançou algo a que se propôs, diz que ficou a “ver Braga por um canudo”. E ninguém fica impávido se for mandado “abaixo de Braga”.

Seja-se oriundo do norte, centro, sul ou ilhas, dificilmente haverá alguém que não conheça o significado destas expressões e até as use no seu dia a dia.

Em entrevista ao Expresso, o linguista João Carlos Brito, autor do “Dicionário de Calão do Minho” (2019), aventa uma explicação para o facto de estas expressões, mais do que serem típicas de Braga, terem galgado as fronteiras minhotas e conquistado o resto do país.

“Há que perceber a importância de Braga num passado não muito distante. Braga era a cidade mais importante em termos litúrgicos e era para onde se deslocavam praticamente todos os filhos mais velhos das famílias mais humildes que tinham algumas possibilidades”, diz este professor-bibliotecário no agrupamento de escolas de Gondomar Nº 1. “A hipótese de ascender socialmente era pôr o filho mais velho a estudar para padre. Então iam para Braga.”

Bracara Augusta, a “Roma portuguesa”

Em termos administrativos, Braga é a cidade mais antiga de Portugal. Fundada durante o reinado do imperador Augusto (27 a.C. – 14 d.C.), Bracara Augusta tinha o estatuto de capital de província no Império Romano.

Igualmente, com mais de oito séculos de existência, a arquidiocese de Braga é a mais antiga do país. Algumas instituições religiosas do município são mesmo anteriores à nacionalidade, como a Sé de Braga, solenemente consagrada à Virgem Maria a 28 de agosto de 1089.

No léxico português, todo esse legado de prestígio sobrevive através dos epítetos “Roma portuguesa” e “cidade dos arcebispos”. E sustenta outra expressão muito popular no país: “mais velho que a Sé de Braga”, que qualifica, normalmente num tom hiperbólico, algo de extremamente velho.

Mas sendo a Sé de Braga a mais antiga do país não é, curiosamente, a estrutura religiosa mais velha de Braga já que datam de 1071 e 1077 as primeiras referências documentais ao Mosteiro de Tibães.

“A língua é algo que tem a ver também com a sociologia. Aquilo que algumas pessoas dizem tem mais força do que outras. Neste caso, eram pessoas bem formadas e que tinham influência, numa sociedade extremamente rural. As suas palavras, as suas expressões propagam-se muito mais rapidamente entre quem as ouvia”, diz João Carlos Brito. “Durante todo o Estado Novo, e mesmo antes, as figuras de referência eram o regedor, o padre e o professor. Os padres eram muito respeitados e muitos deles eram oriundos de Braga.”

Paralelamente às raízes históricas e ao contexto sociológico, “às vezes as palavras e expressões são de tal forma criativas que acabam, pelas trocas que se fazem entre os falantes, por ser usadas em todo o país”. Na sua origem, há sempre histórias locais, contadas sem rigor científico e, por vezes, com múltiplas versões.

“ÉS DE BRAGA!” — Diz-se para alguém que deixou a porta aberta. A explicação decorre, com forte probabilidade, do Arco da Porta Nova, uma das entradas na antiga muralha da cidade que nunca teve porta. Mandada rasgar em 1512, numa altura em que já não havia guerras com a frequência de séculos anteriores e a própria cidade já se estendia para fora dos seus muros, não se considerou necessário ali colocar uma porta, como nas restantes sete. Quem ali vive ficou conhecido como aqueles que não fecham a porta.

“VER BRAGA POR UM CANUDO” — Significa não alcançar o que se deseja. A expressão remete para o monóculo localizado junto ao Santuário do Bom Jesus do Monte que permite observar a cidade de Braga, criando a falsa sensação de proximidade. Foi imortalizada por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), num álbum ilustrado de 1872, intitulado “Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador do Rasilb [anagrama de Brasil] pela Europa”, realizada entre maio de 1871 e março de 1872, e registada em “quadradinhos”. Num deles, D. Pedro II visita o Mosteiro da Batalha de bicicleta, noutro recebe cartões de sócio de todas as filarmónicas de Portugal e, num terceiro, espreita Braga por um canudo.

“MANDAR ABAIXO DE BRAGA” — Em bom português, significa mandar alguém à merda. A expressão estará diretamente ligada a um campo localizado fora da antiga muralha para onde corriam águas residuais e se varriam os lixos. Por se encontrar num nível mais baixo relativamente à cidade, esta zona imunda e mal-cheirosa ficava “abaixo de Braga”.

Um bracarense “muito à frente”

Talvez menos conhecida e de uso mais regional comparativamente às restantes, “ser como o sapateiro de Braga” engorda o capítulo das expressões curiosas. Trata-se de uma observação que decorre “provavelmente” da história do sapateiro José da Cunha Alves de Sousa (1837-1902).

“Era um indivíduo muito à frente”, diz João Carlos Brito. “Além de fabricar os seus próprios sapatos, destinados à população, às vezes até sem custos, numa altura em que todos andavam de tamancos, já fabricava uns sapatos de muita qualidade. Foi reconhecido internacionalmente.”

Pelo seu trabalho inovador, de qualidade, bem como pela comodidade que procurou propiciar aos bracarenses, obteve medalhas de mérito na Europa e nos Estados Unidos.

Diz-me como falas, dir-te-ei se és bracarense

Licenciado em Línguas e Culturas Modernas, pela Universidade de Aveiro, João Carlos Brito estuda regionalismos há 35 anos. “É uma paixão”, diz.

No “Dicionário de Calão do Minho”, tem compiladas 1700 entradas — entre regionalismos, idiomatismos, provincialismos, localismos, gírias e outras linguagens marginais e informais, para além de calão — que revelam a riqueza dos falares minhotos.

Estes cinco vocábulos, em particular, identificam um bracarense, em qualquer parte do mundo.

Estes cinco vocábulos, em particular, identificam um bracarense, em qualquer parte do mundo.

  • Forrinhos: corresponde ao sótão, onde normalmente se guardam muitas coisas.
  • Borronas: são os marcadores, também chamados canetas de feltro, que borram o papel.
  • Basculho: especialmente usada para identificar uma mulher de má fama ou pessoa desagradável.
  • Begueiro: tanto pode identificar um jumento (animal) como uma pessoa má ou, em ambos os casos, uma besta.
  • Marrafas: também designadas repas ou franjas, noutras partes do país, são uma mecha de cabelo dividida ao meio sobre a testa. Na sua origem, estará o dançarino italiano Marrafi, que se apresentou em Lisboa em 1791 e que usava assim o cabelo. “Alguém de Braga terá ido a Lisboa ver o espetáculo dele e depois de voltar terá comentado: ‘Tens o cabelo como o Marrafi’”, arrisca João Carlos Brito. “E, tal como um vírus, a palavra nunca mais parou.”

Artigo publicado no “Expresso”, a 22 de junho de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Feira de Voluntariado em Matosinhos é montra do que de “mais bondoso e bonito” se faz em Portugal

Pelo menos 117 organizações não governamentais com provas dadas na área social e humanitária participam, este fim de semana, numa Feira de Voluntariado, em Matosinhos. O evento, aberto e destinado ao público, incluirá uma ação de recolha de lixo pelas ruas da cidade até à praia e um programa de conferências. André Villas-Boas, por exemplo, irá falar sobre como a paixão pelos carros deu origem a um projeto “do bem”

Partilhar, inspirar, envolver. À semelhança do lema olímpico “Mais rápido, mais alto, mais forte”, que motiva atletas dos quatro cantos do mundo, estes três verbos são o norte de uma Feira de Voluntariado que decorre, este fim de semana, em Matosinhos.

A iniciativa, que decorrerá na Quinta de Monserrate – Clube, visa promover o contacto entre organizações de ação social e humanitária, com trabalho desenvolvido em Portugal e no estrangeiro, e um público curioso e motivado para ajudar.

Num espaço verde circundante a oito campos de padel, pelo menos 117 organizações não governamentais terão um espaço físico para divulgar o seu trabalho, passar mensagem aos visitantes e captar apoios.

Ao estilo de vitamina de motivação, um conjunto de personalidades ligadas a ONG ou simplesmente dedicadas a causas vai partilhar experiências, em duas tardes de conferências, a partir das 15h.

15 testemunhos, 15 exemplos

Da lista de 15 palestrantes fazem parte o treinador André Villas-Boas (que canalizou a sua paixão por carros e ralis para fundar a Race for Good), Pedro Geraldes (organizador da TEDxPorto), Jorge Rosado (da Palhaços d’Opital, que realiza ações de diversão para idosos em ambiente hospitalar) ou Constança Vasconcelos Dias (da Just a Change, que reconstrói casas para pessoas necessitadas).

No domingo de manhã, a partir das 11h, o ativista alemão Andreas Noe (mediaticamente conhecido como Trash Traveler) orientará uma ação de recolha de plásticos, beatas e outros resíduos, que seguirá pelas ruas de Matosinhos, na direção da praia.

No programa das conferências, haverá também testemunhos na primeira pessoa de personalidades que são, em si mesmas, demonstrações de superação.

São disso exemplos Catarina Oliveira, uma nutricionista paraplégica que se tornou ativista pela igualdade de acesso a pessoas com cadeiras de rodas; ou o cigano romeno Cristian Georgescu, que assume o seu passado de toxicodependência e é hoje presidente da organização Saber Compreender, que apoia pessoas em situação sem-abrigo.

Esta Feira do Voluntariado é uma iniciativa da organização Prémios Coração e o Mundo. Fundada pelo médico Gustavo Carona, experiente em missões humanitárias internacionais, tem por objetivo, nas palavras do próprio, “fundir a credibilidade da melhor ajuda social e humanitária, com a criatividade que fará a bondade chegar ao grande público e contagiar todo e cada cidadão a fazer um bocadinho mais por um Mundo com mais Coração”.

(ILUSTRAÇÃO PUBLIC DOMAIN PICTURES)

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 16 de junho de 2023. Pode ser consultado aqui

De crise em crise na direção do abismo

Em 76 anos, nunca um primeiro-ministro concluiu um mandato. Mas o problema do país não é só político

Imran Khan (ao centro) é o politico mais popular do Paquistão GLOBELY NEWS

Há um ditado entre os estudiosos das relações internacionais segundo o qual o Paquistão não é bem um país, mas antes “um exército com um país dentro”. A hipérbole reflete o peso das Forças Armadas naquele Estado de 76 anos que já viveu longos períodos em ditadura militar. Mesmo quando não estão formalmente no poder, os generais são omnipresentes. “São atores de veto”, diz ao Expresso Daniel Pinéu, que viveu três anos e meio no Paquistão e lecionou na Universidade Quaid-i-Azam, em Islamabade.

“Os militares têm um império económico brutal. A quantidade de generais que são gestores de empresas públicas e municipais, reitores de universidades, donos de grandes negócios ou estão presentes nos órgãos diretivos de bancos é muito grande”, continua. “Os militares controlam e retiram daí grandes vantagens económicas. Os únicos sistemas de pensões ou de saúde que funcionam razoavelmente bem no país são os militares. Eles têm uma série de privilégios de que não vão abrir mão.”

Esta preponderância justifica muita da ingovernabilidade que já se tornou uma sina paquistanesa. Desde a independência (1947), o Paquistão já teve 31 primeiros-ministros e nenhum conseguiu levar um mandato de cinco anos até ao fim. “Torna-se praticamente impossível haver uma estratégia de médio ou longo prazo no país, seja do que for”, realça o analista.

A crise política atual opõe os militares a Imran Khan, um herói nacional (ver Perfil) que subiu ao poder em 2018 com a ajuda dos generais, que viram nele a esperança de um líder civil permeável às suas vontades. Não foi assim. “Khan quis autonomizar-se dos militares, ter uma agenda própria e opõe-se-lhes em questões específicas”, diz Pinéu. “Talvez achasse que tinha apoio popular suficiente e não precisasse deles.”

Khan foi afastado a 10 de abril de 2022, após perder uma moção de confiança no Parlamento. Há cerca de um mês, foi detido à chegada a um tribunal de Islamabade onde ia responder num caso de corrupção. Foi levado por dezenas de homens em traje antimotim, membros de um grupo paramilitar, os Punjab Rangers, que invadiram o tribunal para o deter.

Dias depois, o Supremo Tribunal declarou a sua detenção ilegal e libertou-o. Enfrenta ainda mais de 120 processos na justiça. “Todos os partidos políticos e o establishment querem que eu seja afastado em ano eleitoral”, disse recentemente. O Paquistão tem eleições gerais a 14 de outubro próximo. Até lá, este país de 230 milhões, com um arsenal nuclear, tem várias outras crises para esgrimir.

Crise económica: novo mercado para a Rússia

Esta semana, atracou no porto de Karachi um barco com o primeiro carregamento de petróleo de sempre comprado pelo Paquistão à Rússia, tradicional aliada da sua arquirrival Índia. Para Moscovo, é um novo mercado que se abre ao arrepio das sanções internacionais decretadas após a invasão da Ucrânia; já para Islamabade é a oportunidade de comprar petróleo com desconto, em época de grave crise económica.

Esta semana, atracou no porto de Karachi um barco com o primeiro carregamento de petróleo comprado à Rússia

Com uma inflação de 37,97% em maio e um crescimento anémico de 0,29% projetado para 2023, o Paquistão negoceia há meses com o Fundo Monetário Internacional (FMI) o descongelamento de $1100 milhões (€1000 milhões) de um total de $6500 milhões (€6000 milhões) acordado em 2019.

Desde a década de 1950 que o Paquistão já celebrou 23 acordos de resgate com o FMI. “Nunca cumpriu nenhum”, diz Daniel Pinéu. “O país tem uma carga fiscal extraordinariamente baixa. Há poucas pessoas a pagar impostos e as que pagam, pagam poucos. O encaixe fiscal do Estado é extraordinariamente baixo.”

Crise ambiental: um terço do país submerso

Vulnerável a fortes sismos, o Paquistão tornou-se, no ano passado, uma tragédia a céu aberto após chuvas diluvianas originarem grandes inundações que submergiram cerca de um terço do país.

Esta catástrofe ambiental foi ruinosa para o sector agrícola, nomeadamente para a produção de trigo, um cereal que o Paquistão exportava e passou a importar. Esta escassez fez disparar alertas sobre a iminência de uma crise alimentar no país.

Esta semana, os alarmes soaram a propósito da passagem do ciclone “Biparjoy”, que obrigou à deslocação de milhares de pessoas nos territórios do Paquistão e da Índia.

Crise securitária: talibã bom e talibã mau

Após perder três guerras com a Índia (1947, 1965 e 1999), “os militares paquistaneses têm uma noção muito clara de que não conseguem ter uma vitória convencional contra a Índia”, diz o docente no Colégio Universitário de Amesterdão (Países Baixos). “Há duas coisas ao seu alcance: a política nuclear e a utilização de grupos terroristas que o serviço de informações militares do Estado (ISI) apoia, treina ou financia.”

O Estado paquistanês convenceu-se de que se apoiasse os talibãs teria um aliado extraordinariamente importante

Esta estratégia beneficia da prevalência da etnia pashtun (a dos talibãs) no Paquistão e no vizinho Afeganistão. “É talvez o maior grupo tribal do mundo, separado por uma fronteira muito ténue”, diz Pinéu. “O Estado paquistanês convenceu-se de que se apoiasse os talibãs teria um aliado extraordinariamente importante atrás de si. Se a Índia tomasse o Paquistão ou ganhasse uma guerra, conseguiria deslocar para dentro do Afeganistão uma parte importante das suas forças e atacar a partir daí.”

Mas a ambiguidade de Islamabade — entre potenciar ‘talibãs bons’, que colaboram com os objetivos do Estado, e reprimir ‘talibãs maus’, que agem por conta própria em função dos seus objetivos — acarreta riscos. O ex-primeiro-ministro Pervez Musharraf, um militar, sofreu dois atentados às mãos de grupos islamitas. “É uma política muito esquizofrénica, até para a política interna.”

Crise geopolítica: EUA cada vez mais distantes

A seguir ao 11 de Setembro, o Paquistão foi dos países que mais ajuda receberam dos Estados Unidos, no âmbito da luta contra o terror, na sua esmagadora maioria canalizada para o sector militar.

Neste momento, consumada a retirada norte-americana do Afeganistão, “o Paquistão é para os EUA essencialmente um país-problema”, conclui Daniel Pinéu. “Não tem nenhum interesse estratégico, exceto conter o poderio da China.”

PERFIL

IMRAN KHAN

Já era popular antes de ser político. Famoso jogador de críquete, capitaneou a equipa que deu ao Paquistão o seu primeiro título mundial, em 1992. Nascido em 1952, em Lahore, fundou o Movimento Paquistanês pela Justiça, em 1996. Foi primeiro-ministro entre 2018 e 2022. Conquistou eleitores fartos dos políticos tradicionais. Mas, como outros populistas, ofereceu poucas soluções para os problemas dos cidadãos.

VULNERABILIDADES

3
golpes militares já levaram o Paquistão a viver períodos em regime militar: 1958–1971, 1977–1988, 1999–2008

13
partidos formam a Aliança Democrática do Paquistão (criada em 2020), que sucedeu a Imran Khan no poder

37,97
por cento é a taxa de inflação registada no mês de maio, um novo máximo no país

23
programas de resgate foram celebrados, desde 1958, entre o Paquistão e o Fundo Monetário Internacional

121
casos na justiça visam Imran Khan, incluem corrupção, traição, blasfémia, sedição, terrorismo e incitamento

Artigo publicado no “Expresso”, a 16 de junho de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Panda, o simpático embaixador da China

Os pandas são um barómetro das relações de Pequim. Empresta-os por amizade e reclama-os quando se zanga

Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, apresenta dois pandas nascidos em Toronto (2016) D.R.

“Ya Ya” regressou à China ao estilo de uma celebridade. Durante meses, milhões de chineses acompanharam, com angústia, a odisseia desta panda fêmea de 23 anos (equivalente a 80 num ser humano), que viveu 20 no jardim zoológico de Memphis, nos Estados Unidos. Desde notícias que lhe atribuíam saúde débil até à morte por ataque cardíaco do seu companheiro “Le Le”, em fevereiro passado, “Ya Ya” gerou grande comoção na China, onde se pediu que retornasse a casa. Quando o avião que a transportou tocou solo chinês, no fim de abril, a hashtag “‘Ya Ya’ aterrou em Xangai” explodiu na rede social Weibo (o Twitter chinês): foi partilhada 430 milhões de vezes.

“Ya Ya” foi para a América em 2003, quando o mundo vivia na sombra do 11 de Setembro, mas a relação entre Washington e Pequim atravessava um bom momento, confirmada pelo apoio dos Estados Unidos à adesão da China à Organização Mundial do Comércio, concretizada em dezembro de 2001. “Ya Ya” era a chancela dessa amizade.

“O panda sinaliza que o Estado chinês está de boas relações com outro Estado e valoriza-o. É uma espécie de marcador de livro”, diz ao Expresso Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais na Universidade Portucalense. “A diplomacia do panda é uma forma de soft power (projeção de poder por meios pacíficos) um pouco diferente, porque é um presente e uma obrigação. E é reversível, já que alguns pandas voltam para trás.”

Como um diplomata real

Foi o que sucedeu a “Ya Ya”, que deixou os Estados Unidos num contexto oposto ao da sua chegada, com uma guerra comercial, a questão de Taiwan, a disputa em torno do 5G e até o conflito na Ucrânia a encher de obstáculos a via do diálogo entre chineses e americanos. Ainda que de forma simbólica, a panda tornou-se rosto dessa degradação.

Ao lado do líder chinês Xi Jinping, o russo Vladimir Putin visita pandas, num zoo em Moscovo(2019) GETTY IMAGES

“A retirada de um panda é uma espécie de cartão amarelo aos regimes dos países que os recebem. Antes de fazer o que normalmente os Estados fazem — chamar o seu embaixador de volta e baixar o grau de importância da sua missão diplomática —, a China usa os pandas como primeira linha de aviso”, continua Tiago Lopes. “Quando era chanceler, Angela Merkel comparou os pandas a diplomatas. Se um país corta relações com outro, os diplomatas vão-se embora. Com os pandas é o mesmo”, acrescenta Paulo Duarte, especialista em Relações Internacionais das Universidades do Minho e Lusófona.

Os pandas gigantes são nativos da China. O seu habitat natural é nas montanhas de Sichuan, no sudoeste do país. São, por isso, um tesouro nacional que a China só partilha com quem lhe é especial.

A alemã Angela Merkel visita pandas no zoo de Berlim (2017) AXEL SCHMIDT / REUTERS

Na era moderna, a utilização do panda como instrumento de política externa começou a ser posta em prática em 1941 quando, a braços com a invasão japonesa, a República da China agradeceu o apoio dos Estados Unidos e ofereceu dois pandas ao zoo do Bronx (Nova Iorque). A estratégia ganhou visibilidade em 1972 quando da histórica visita à China de Richard Nixon, que desbravou caminho até ao restabelecimento da relação diplomática bilateral, em 1979. O Presidente americano presenteou Mao Tsé-Tung com dois bois-almiscarados e, em troca, o Zoo Nacional do Smithsonian, em Washington, recebeu dois pandas.

Mais longe da extinção

“O panda marca distintivamente a China. Trocar cavalos ou cães é muito comum. No mundo clássico, mesmo a troca de prisioneiros de alto nível ou de príncipes e princesas entre famílias nobres para garantir a paz era normal, mas não distintiva”, realça Tiago Lopes.

Se, antes, a China oferecia pandas, desde 1984 empresta-os, criticada por agir contra a Convenção de 1975 sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. O empréstimo é enquadrado por contratos de longo prazo, que obrigam quem os acolhe ao pagamento de uma verba anual — o contrato padrão é de um milhão de dólares por par (€935 mil), ao ano. “A China pode, em qualquer momento, retirar os pandas e tem até missões para vigiar o seu estado”, diz Paulo Duarte.

Em 2010, a China fez regressar um panda que estava em Washington, depois de Barack Obama ter aberto as portas da Casa Branca ao Dalai Lama, o líder tibetano. No ano seguinte, não cumpriu a promessa de enviar pandas para um zoo norueguês, descontente com a atribuição do Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo.

Grande parte das receitas dos alugueres são investidas na conservação da espécie. A política tem dado frutos: em 2016, a União Internacional para a Conservação da Natureza, a autoridade global em matéria de espécies ameaçadas, passou os pandas de espécie “ameaçada” para “vulnerável”. Hoje, estima-se que haja quase 1900 exemplares na natureza e 600 em zoos e centros de reprodução.

Estes peluches de carne e osso são campeões de popularidade e muito contribuem para suavizar a imagem autoritária da China. Para Xi Jinping, são intermediários perfeitos para consolidar amizades.

DIÁLOGOS INFORMAIS

DIPLOMACIA DAS MEIAS Nasceu da irreverência do atual primeiro-ministro do Canadá, que não se inibe em usar meias coloridas em eventos públicos. Numa parada gay em Toronto, Justin Trudeau vestiu meias arco-íris, com a inscrição “Eid Mubarak” (alusiva a uma festa islâmica) e feitas numa empresa da cidade. Nesses preparos, homenageou duas comunidades e promoveu a indústria local. A moda fez escola. Em maio, o primeiro-ministro britânico compareceu num encontro com o homólogo japonês de meias vermelhas com o nome de um clube de basebol japonês. Disse Rishi Sunak a Fumio Kishida: “Espero que a sua equipa de basebol tenha tido uma época melhor do que a minha equipa de futebol.” Conversa para criar pontes.

DIPLOMACIA DO BASQUETEBOL Antes de Donald Trump ser Presidente e promover cimeiras até então impensáveis com Kim Jong-un, o excêntrico basquetebolista americano Dennis Rodman lançou-se numa cruzada para aproximar Estados Unidos e Coreia do Norte. Sem cobertura oficial, liderou delegações de antigas glórias da NBA àquele país totalitário, que realizaram “jogos de boa-vontade” com atletas norte-coreanos. A iniciativa não deu frutos políticos, mas Rodman provou que algum diálogo é possível.

DIPLOMACIA DO CRÍQUETE Índia e Paquistão já se enfrentaram em três guerras desde a partição da Índia britânica e, graças à ferida aberta chamada Caxemira, as duas potências nucleares estão permanentemente envoltos em tensão. Em várias ocasiões, o críquete — desporto mais popular nos dois países — tem sido usado para desanuviar, com jogos entre as duas seleções e dirigentes políticos dos dois lados na tribuna. Enquanto a paz não chega, o críquete cria essa ilusão.

DIPLOMACIA DO BASEBOL Barack Obama foi dos Presidentes americanos que mais tentaram aproximar-se de Cuba. Se há imagens que o provam, são as que o mostram no Estádio Latino-Americano de Havana, ao lado do homólogo Raúl Castro, a ver uma partida de basebol entre a seleção cubana e uma equipa da Florida. A conversa relaxada entre ambos foi puro ato político. Já o basebol, modalidade mais apreciada nos dois países, afirmou semelhanças entre ambos.

DIPLOMACIA DO PINGUE-PONGUE Em 1971, antes da histórica visita de Richard Nixon à China, Pequim convidou jogadores americanos de ténis de mesa para realizarem uma digressão no país. O grupo foi fotografado junto à Grande Muralha e foi capa da revista “Time”, com o título “China: um jogo totalmente novo”. Pouco tempo depois, EUA e China fizeram as pazes.

A AGENDA ESCONDIDA DA DIPLOMACIA DO IOGA

O dia 14 de dezembro de 2014 entrou para a História como a data em que a Índia levou a sua paixão pelo ioga ao palco da política internacional. Na Assembleia-Geral da ONU, apresentou uma resolução aprovada por 175 Estados-membros, a instituir o Dia Internacional do Ioga a cada 21 de junho. Ao fazê-lo, a Índia oficializou o ioga como instrumento de afirmação internacional. “Quando o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, subiu ao poder (em maio de 2014), tentou usar o ioga globalmente para afirmar o poder crescente da Índia, tal como a China faz com os pandas”, diz ao Expresso o indiano Amit Singh, que antes de ser investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra foi professor de ioga durante anos. “Na ONU, quase nenhum país se opôs, porque o ioga existe em todo o lado e faz bem a toda a gente. O problema é a agenda escondida do Governo de Modi, a promoção do hindutva”, nacionalismo hindu, que tenta elevar o hinduísmo ao estatuto de religião superior da Índia. “E, infelizmente, o ioga faz parte disso.” Singh tem formação na área dos direitos humanos e do multiculturalismo. “Direitos humanos e ioga são basicamente o mesmo.” Com essa sensibilidade, o indiano desconstrói a centralidade do ioga no projeto de Modi. “Ao promover o ioga no estrangeiro, tenta esconder o que se passa na Índia ao nível da violação dos direitos humanos de muçulmanos, da minoria cristã e de laicos”, acusa. “Acho que o ioga deve ser para toda a gente, mas não deve ser imposto. Modi tenta impô-lo nas mesquitas e escolas muçulmanas.” Depois, “vai ao estrangeiro e fala do exemplo de Gandhi”.

Artigo publicado no “Expresso”, a 9 de junho de 2023. Pode ser consultado aqui ou aqui

O rastilho voltou a acender-se no barril de pólvora chamado Kosovo

No norte do território, confrontos entre populações sérvias e polícias albaneses feriram 30 membros da força militar internacional. A NATO vai enviar mais 700 efetivos

Mapa do Kosovo pintado com a bandeira da Sérvia WIKIMEDIA COMMONS

Aos quinze anos de vida, o Kosovo faz jus à problemática região dos Balcãs, onde se insere, e acumula tensão atrás de tensão. Subsistem feridas abertas desde que esta antiga província sérvia de maioria albanesa (muçulmana) cortou amarras com a Sérvia (cristã), de forma unilateral, a 17 de fevereiro de 2008. Os problemas sentem-se com particular intensidade no norte do Kosovo, onde populações de origem sérvia resistem a obedecer às autoridades de Pristina. Esta semana, a violência voltou-se contra a missão da NATO, no território há 24 anos.

1. O que está na origem da mais recente tensão?

Um imbróglio político saído das eleições locais de 23 de abril, em quatro municípios do norte do Kosovo, onde a maioria da população é de origem sérvia: Leposavic, Mitrovica Norte, Zubin Potok e Zvecan. Estes sérvios, que não reconhecem o Governo de Pristina (capital do Kosovo) e são informalmente apoiados pelo de Belgrado (Sérvia), boicotaram o escrutínio, reduzindo a taxa de afluência às urnas para míseros 3,47%. Dos 45.095 eleitores, votaram 1566 albaneses e 13 sérvios. Todos os autarcas eleitos são albaneses e têm a legitimidade ferida. “Foram eleitos por apenas 3,5% dos eleitores. Não têm credibilidade alguma”, diz ao Expresso o major-general Raul Cunha, que foi conselheiro militar do representante especial no Kosovo do secretário-geral das Nações Unidas, entre 2005 e 2009.

2. O que levou à erupção de violência esta semana?

Na segunda-feira, os autarcas eleitos tentaram assumir funções. “O primeiro-ministro do Kosovo, de forma abusiva, resolveu levar avante a tomada de posse desses autarcas, com a proteção da polícia do Kosovo”, continua o militar. No exterior dos edifícios concentraram-se populações sérvias em protesto. A violência entre a polícia albanesa e populações sérvias eclodiu com maior intensidade em Zvecan, cerca de 45 quilómetros a norte de Pristina, onde o autarca eleito obteve 114 votos num universo de 6998 eleitores. “No meio da manifestação, houve disparos feitos pela polícia do Kosovo, foram feridos sérvios e a partir daí a situação ficou descontrolada”, diz Cunha. Além de 52 manifestantes, ficaram feridos 30 militares da Força do Kosovo (KFOR) — 19 húngaros e 11 italianos —, uma missão militar internacional de manutenção da paz liderada pela NATO e presente no território desde 1999.

3. Entre as eleições e os confrontos, nada foi feito?

No mês passado, a União Europeia chamou a si a tarefa de mediar o estabelecimento da Associação de Municípios de Maioria Sérvia, um órgão aceite por Belgrado e Pristina no Acordo de Normalização assinado a 19 de abril de 2019 (que não contempla o reconhecimento do Kosovo independente pela Sérvia), mas que nunca foi avante. “Discordo fundamentalmente da proposta”, atirou o primeiro-ministro kosovar, Albin Kurti, nas negociações em Bruxelas, em que participaram o Presidente sérvio, Aleksandar Vucic, e o alto-representante da UE para Relações Exteriores, Josep Borrell. “A proposta representa o desejo de uma República Srpska no Kosovo.” A República Srpska é a entidade política sérvia na Bósnia-Herzegovina, que desafia repetidamente a legitimidade do Estado.

4. Por que razão a violência se voltou contra a NATO?

“A força internacional protegeu a ocupação dos edifícios pelos autarcas albaneses e os sérvios entenderam que essa atuação da KFOR foi contra eles”, explica Raul Cunha. No papel, a KFOR tem por missão “manter um ambiente seguro e protegido”. Porém, neste episódio, “a sua atuação perturbou até a segurança. A KFOR, em vez de dizer ao primeiro-ministro do Kosovo para retirar de lá os autarcas, protegeu os edifícios, onde também já estava a polícia do Kosovo”. O militar português recorda que, na época em que o Kosovo estava ainda sob a tutela das Nações Unidas (1999-2008), “havia o cuidado de colocar polícias sérvios nos municípios onde os sérvios eram maioria, mas agora não. Se mandam para lá as forças de intervenção da polícia kosovar, está visto que vai haver problemas. Se a seguir vai a KFOR proteger as forças de intervenção da polícia do Kosovo, pior ainda”.

5. A NATO vai enviar mais 700 soldados. O que muda?

Esse contingente significa um reforço substancial dos cerca de 4000 efetivos (de 28 países) atualmente em missão. Mas, alerta Raul Cunha, “não resolve nada”. Além da polícia, no território há as Forças de Segurança do Kosovo, uma espécie de exército. “Estou convencido de que as forças da NATO não terão capacidade para as enfrentar. Se colocarmos na equação o exército da Sérvia, então os 700 homens da NATO vão resolver zero. É um sinal de força, mas para quê? O que tem de acontecer é a desmobilização de toda a tensão, o que só será possível se houver pressão por parte de quem tem essa capacidade, que são os Estados Unidos, sobre o Governo do Kosovo, levando-o a cumprir aquilo que está acordado.”

6. Como reagiram os EUA, sólido aliado do Kosovo?

Entre o coro de condenações à violência e apelos à inversão na escalada, foi surpreendente a posição dos Estados Unidos, que foram dos primeiros países a reconhecerem a independência do Kosovo e que têm estado ao seu lado desde então. “A decisão do Governo do Kosovo de forçar o acesso aos prédios municipais aumentou as tensões de forma drástica e desnecessária”, reagiu o secretário de Estado, Antony Blinken. O Kosovo “deve garantir que os autarcas eleitos cumpram as suas funções de transição em locais alternativos fora dos prédios municipais e deve retirar as forças policiais das imediações”. Em paralelo, Washington cancelou a participação do Kosovo em exercícios militares da NATO. Pristina acusou a “reação exagerada” do amigo americano.

7. Porque é o Kosovo tão importante para a Sérvia?

A pergunta poderia ser endereçada ao tenista sérvio Novak Djokovic, que esta semana, após vencer a primeira partida no torneio de Roland-Garros, escreveu na lente da câmara que transmitia em direto: “O Kosovo é o coração da Sérvia. Parem com a violência.” Ao mesmo tempo que apelou à trégua, o nº 1 do mundo deitou combustível na fogueira ‘anexando’ o Kosovo. Para qualquer sérvio, o Kosovo é a terra de origem da sua nacionalidade. “Há território no Kosovo que devia continuar na Sérvia. É como se nós ficássemos sem Guimarães para ficar integrado na Galiza”, compara Cunha, que aponta o dedo ao Ocidente. “Aquando do cessar-fogo após os 78 dias de bombardeamentos da NATO à ex-Jugoslávia, em 1999, em defesa dos albaneses do Kosovo, celebrou-se o Acordo de Kumanovo, que previa que militares da Sérvia garantissem a segurança de populações sérvias no Kosovo e, sobretudo, de lugares de culto: mosteiros ortodoxos, igrejas, o patriarcado. A KFOR nunca deixou que regressassem.”

8. Que solução para o Kosovo?

“O Kosovo não faz sentido como país, faz sentido se a maioria do território do Kosovo se juntar à Albânia”, defende Cunha, autor do livro “Kosovo, a Incoerência de uma Independência Inédita”. Enquanto esta ou outra fórmula não convencerem as partes, a questão continuará a minar a afirmação internacional dos dois países: sem pleno reconhecimento internacional, o Kosovo não consegue aderir à ONU; sem reconhecer o Kosovo, a Sérvia não entra na UE.

Artigo publicado no “Expresso”, a 2 de junho de 2023. Pode ser consultado aqui e aqui

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.