Chicotadas a Raif podem recomeçar esta sexta. “Não sei o que fazer”, diz a mulher ao Expresso

Ensaf Haidar, esposa do blogger saudita condenado a 1000 vergastadas em público, não acredita em milagres. “Estou certa de que as chicotadas vão recomeçar esta sexta-feira”

É talvez o saudita mais famoso em todo o mundo para grande irritação das autoridades do seu país. Raif Badawi foi condenado a 10 anos de prisão e 1000 chicotadas por promover discussões de caráter político e religioso no seu blogue Rede Liberal Saudita (já não está online) uma sentença confirmada no fim de semana pelo Supremo Tribunal da Arábia Saudita. Não é possível interpor mais recursos, diz ao Expresso Ensaf Haidar, de 35 anos, esposa de Raif. Estou certa de que as chicotadas vão recomeçar esta sexta-feira.

Das 1000 vergastadas a que foi condenado, em novembro do ano passado, Raif, de 31 anos, sofreu até ao momento o primeiro conjunto de 50, desferidas a 9 de janeiro, numa praça em frente a uma mesquita de Jidá, a sua cidade natal. Um vídeo feito pela calada durante a aplicação do castigo tornou-se viral nas redes sociais e desencadeou uma vaga de indignação internacional.

O caso sensibilizou a opinião pública internacional, mas poucos governos levaram-no a altas instâncias. Ainda só quatro ministros dos Negócios Estrangeiros falaram do caso de Raif em público, lamenta-se Ensaf. Os da Áustria, Noruega, Suécia e (da província canadiada) do Quebec, onde ela vive com o estatuto de refugiada, juntamente com os três filhos do casal, todos menores.

Margot Wallström, a chefe da diplomacia sueca, qualificou a punição a Raif como medieval. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Áustria telefonou-me e disse-me que falaria sobre o caso de Raif em Genebra, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Eu nunca tinha falado com ele, diz Ensaf, que gostaria de ver mais diplomacias empenhadas em resgatar o marido do sofrimento a que foi condenado por apenas expressar a sua opinião.

Na terça-feira, Roland Ries, presidente da Câmara de Estrasburgo, anunciou a atribuição da medalha da cidade a Raif Badawi. Na véspera, o porta-voz dos serviços de Ação Externa da União Europeia emitiu um comunicado afirmando que “os castigos corporais são inaceitáveis e contrários à dignidade humana e reiterando apelos para que “as autoridades sauditas suspendam mais punições corporais a Raif Badawi.

No mesmo sentido, também o Departamento de Estado norte-americano apelou ao cancelamento do castigo e à revisão do caso e da sentença. Opomo-nos firmemente a leis, incluindo as leis de apostasia, restritivas do exercício da liberdade de expressão, afirmou o porta-voz Jeff Rathke.

Entre as provas recolhidas pela justiça saudita que incriminam o blogger está um like que fez numa página do Facebook sobre árabes cristãos.

Desde que as vergastadas foram suspensas que, a cada sexta-feira, Ensaf habituou-se a expressar o seu alívio pela não punição do marido através de uma curta mensagem na sua página no Facebook: Raif não foi açoitado hoje.

Esta sexta-feira, a acontecer, as vergastadas acontecerão após a oração do meio-dia (mais duas horas que em Lisboa). Ensaf está mentalizada para colocar um post diferente, ou simplesmente remeter-se ao silêncio. Não sei o que hei-de fazer…, admite, ciente que, nesta altura, esgotados os recursos na justiça, apenas um perdão do rei Salman, no trono desde 23 de janeiro passado, pode fazer reverter a situação.

Da mesma forma que os protestos internacionais terão contribuído para a suspensão da aplicação da sentença durante cinco meses, Ensaf acredita que continuar a falar do assunto pode ajudar. Por favor, não parem de falar, falem em todo o lado, apela. E organizem vigílias em frente à embaixada da Arábia Saudita.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 11 de junho de 2015. Pode ser consultado aqui

Traineira sueca que vai desafiar bloqueio israelita a Gaza está em Lisboa

Cinco anos após o ataque israelita contra a I Flotilha rumo a Gaza, a iniciativa volta a repetir-se. Uma das embarcações que tentará quebrar o bloqueio israelita àquele território palestiniano está esta quarta-feira em Lisboa

Traineira sueca Marianne de Gotemburgo atracada na marina do Parque das Nações, em Lisboa MARGARIDA MOTA

A iniciativa internacional “Flotilha rumo a Gaza”, que tentará pela terceira vez quebrar o bloqueio israelita à Faixa de Gaza, passa esta quarta-feira por Lisboa. Saída da Suécia a 10 de maio, uma das embarcações participantes, a traineira sueca Marianne de Gotemburgo, atraca, cerca das 15h, na marina do Parque das Nações (Expo), de onde arrancará na quinta-feira na direção do Mediterrâneo. Ali se juntará a outros barcos que irão, em conjunto, entrar no porto de Gaza.

A bordo, Marianne transporta equipamento médico e painéis solares. “Tudo o que levam são coisas simbólicas”, diz ao “Expresso” a palestiniana Shahd Wadi, membro da Plataforma BDS-Portugal (um movimento internacional de solidariedade para com os palestinianos e que apela a ações de boicote, desinvestimento e à adoção de sanções contra Israel).

“O objetivo desta iniciativa é furar o bloqueio à Faixa de Gaza. É preciso que alguém faça alguma coisa, sob pena do povo que vive naquele bocado de território ficar isolado para sempre”, diz.

Cozinha da embarcação Marianne de Gotemburgo MARGARIDA MOTA

Entre os passageiros, no troço do percurso entre Bueu (Galiza) e Lisboa, está a eurodeputada espanhola Ana Maria Miranda Paz.

Recordar a tragédia a bordo do Mavi Marmara

A primeira iniciativa deste género realizou-se em 2010 e ficou marcada pela tragédia. A 31 de março, nove ativistas que seguiam no navio turco Mavi Marmara foram mortos e mais de 50 feridos no decurso de uma operação militar desencadeada pela marinha israelita. (Um dos feridos com gravidade, um turco de 51 anos, morreu em 2014, após um longo período em coma.)

“Estou preocupada”, diz a palestiniana Shahd Wadi. “Mas tenho esperança que não se repita o que aconteceu com o Mavi Marmara. Estas pessoas que vão a bordo têm uma grande coragem. Tem de haver mais iniciativas. É preciso isolar Israel em vez de isolar as pessoas em Gaza.”

Cerca das 18h30 desta quarta-feira, será organizada uma manifestação, junto ao Meo Arena, que seguirá na direção do Marianne. Às 21 horas, a bordo da traineira, terá lugar um debate envolvendo a tripulação e ativistas da causa palestiniana. O evento é aberto ao público.

Manifestação de apoio à “Flotilha rumo a Gaza”, a caminho da marina do Parque das Nações MARGARIDA MOTA

Num comunicado enviado às redações, a organização recorda o 5.º aniversário do assalto ao Mavi Marmara e denuncia “a impunidade com que Israel pratica os seus atos de pirataria e de crimes contra a humanidade” bem como “a cumplicidade das instituições internacionais e dos vários governos, entre os quais o de Portugal”.

Reação da embaixada de Israel

Num email enviado à redação do “Expresso” na sequência da publicação deste artigo, a embaixada de Israel expressa o seu lamento “por todos os inocentes que sofreram e continuam a sofrer em Gaza, mas o único responsável pela situação em Gaza é o Hamas, uma organização terrorista que inclui na sua agenda o direito e até a obrigação de destruir o Estado de Israel”.

O Hamas controla a Faixa de Gaza desde junho de 2007 quando tomou o poder pela força, até então nas mãos da Autoridade Palestiniana. Na sequência desse golpe, Israel decretou um embargo ao território palestiniano por terra, mar e ar.

“Israel está a fazer tudo o que lhe é possível para fornecer comida e mantimentos às pessoas de Gaza”, acrescenta a embaixada de Israel, “mas, ao mesmo tempo, não pode permitir que o Hamas continue a contrabandear armamento e outros materiais destinados à recuperação das suas capacidades militares e continue a cavar túneis usados para atacar dentro das fronteiras de Israel, já para não mencionar os milhares de mísseis disparados de Gaza contra as nossas cidades. Nenhum Estado à face da Terra permitirá que tal aconteça junto às suas fronteiras.”

A reação da representação diplomática israelita, assinada pelo primeiro-conselheiro Raslan Abu Rukun, termina fazendo referência ao caso Mavi Marmara: “Expressamos pesar pela perda de vidas neste incidente, mas recordamos que eles atacaram brutalmente os nossos soldados com facas, barras de ferro, etc.” Dez soldados israelitas ficaram feridos durante a abordagem pelas forças israelitas a este barco turco. No caso das outras cinco embarcações, não se registaram incidentes.

Artigo publicado no Expresso Online, a 3 de junho de 2015. Pode ser consultado aqui

Quando os Nobel da Paz contribuem para a guerra

Aung San Suu Kyi está a ser criticada por não defender a minoria rohingya. Não é caso único entre aqueles que receberam o Nobel da Paz. Nem sempre o percurso dos galardoados corresponde às expectativas e, noutros casos, é o próprio Comité que nunca deu o Nobel da Paz a Mahatma Gandhi, por exemplo a distinguir personalidades implicadas em episódios de violência. Seis casos foram particularmente controversos

Aung San Suu Kyi

De Nobel para Nobel. O líder dos budistas do Tibete, Dalai Lama (Nobel da Paz 1989), apelou na semana passada à líder da oposição na Birmânia, Aung San Suu Kyi (Nobel da Paz 1991), que faça alguma coisa em defesa dos rohingya, a minoria muçulmana que enfrenta uma situação de perseguição naquele país de maioria budista.

“É muito triste. Espero que Aung San Suu Kyi, enquanto Nobel da Paz, possa fazer alguma coisa”, disse o Dalai Lama. “Eu estive com ela duas vezes, em Londres e depois na República Checa. Falei do assunto e ela disse-me que tinha algumas dificuldades, que as coisas eram muito complicadas. Mas apesar disso eu sinto que ela pode fazer alguma coisa.”

Aung San Suu Kyi, que completa 70 anos a 19 de junho, tem sido criticada por não se pronunciar sobre o drama dos rohingya discriminados internamente e rejeitados externamente, como o demonstra os barcos à deriva, cheios de gente desesperada, junto às costas da Tailândia, Indonésia e Malásia, sem que estes países lhe abram portas.

Em declarações ao “Expresso”, Akihisa Matsuno, professor na Universidade de Osaka (Japão) especializado em assuntos do Sudeste Asiático, descodifica o silêncio da Nobel da Paz. “O assunto dos rohingya é difícil não só para Aung San Suu Kyi, mas para qualquer político birmanês. Mesmo os ativistas pró-democracia não têm coragem de falar sobre o problema.”

Falar dos rohingya arruína a carreira política

Na Birmânia (país também chamado Myanmar), quer as populações budistas quer as minorias étnicas que vivem no país algumas das quais lutam por autonomia ou autodeterminação olham para os rohingya como estrangeiros (bangladeshianos) e não como cidadãos birmaneses. “Neste aspeto, todos estão de acordo”, comenta o professor Matsuno. “Se Aung San Suu Kyi falar dos rohingya, ela e a sua Liga Nacional para a Democracia (LND) perderão apoio e verão a popularidade de todo o movimento democrático afetada.”

Em 2012, quando de uma digressão da Nobel birmanesa pela Europa, ela falou publicamente do assunto e logo foi dissuadida por conselheiros a não voltar a fazê-lo. “Para qualquer político na Birmânia, falar dos rohingya significa o fim da sua carreira política”, refere o académico japonês.

A Birmânia tem eleições parlamentares previstas para o final do ano. Estará então em causa a eleição de 75% dos lugares os restantes 25% são nomeados pelo regime. A seguir ao ato eleitoral, um colégio eleitoral designará o chefe de Estado Suu Kyi está impedida de se candidatar aos cargos de presidente ou vice-presidente uma vez que os seus filhos não têm nacionalidade birmanesa (são britânicos).

Para alterar este preceito constitucional, é necessário o apoio de mais de 75% dos deputados, uma fasquia difícil de superar dada a lealdade de (pelo menos) 25% dos deputados ao regime liderado pelo ex-general Thein Sein. “Até ao momento, não houve pressão internacional suficiente para que o regime considere rever a Constituição”, comenta o professor da Universidade de Osaka.

Objetivo é sobreviver e ganhar as eleições

“É um erro assumir que Aung San Suu Kyi tem uma ambição pessoal de liderar o país. Mas a sua LND e um ciclo alargado de políticos e ativistas pró-democracia têm de sobreviver e têm de ganhar as próximas eleições. É o objetivo dela neste momento. A LND é totalmente dependente de Aung San Suu Kyi sem qualquer outro político à altura de a substituir. O problema dos rohingya surgiu numa má altura para ela e para o movimento pró-democracia em geral”, defende Akihisa Matsuno.

“A comunidade internacional deveria condenar o Governo da Birmânia, e não Suu Kyi. Também deveria condenar o monge budista radical que instiga a violência (Ashin Wirathu), e não a LND.”

Com a violência anti-rohingya concentrada sobretudo na província de Rakhine, junto à fronteira com o Bangladesh, Akihisa Matsuno acredita que esta comunidade corre o risco de ser totalmente expulsa da província. “Seria uma versão birmanesa de limpeza étnica. Não penso ou não quero pensar que haverá um genocídio, porque tal não poderá acontecer se não for organizado de forma sistemática por determinadas autoridades. Instigar a violência pode contribuir para a morte de dezenas de pessoas, mas sem a intervenção dos militares julgo que não haverá assassínios em massa em grande escala. O regime sabe que seria fatal para si. A comunidade internacional não iria tolerar. Mas o que o regime pode fazer é instigar pessoas comuns para que empurrem os rohingya na direção do mar.”

AUNG SAN SUU KYI NÃO ESTÁ SÓ…

BARACK OBAMA  Com apenas nove meses na Casa Branca, Barack Obama recebeu o Nobel da Paz 2009 para surpresa geral. Aos comentários de que o Nobel era precipitado e tinha motivações políticas sucederam-se críticas à atuação do próprio laureado: a coberto da guerra contra o terrorismo internacional, Obama mandou bombardear no Iraque, Afeganistão, Líbia, Paquistão e Iémen, nestes dois últimos casos com aviões não tripulados (drones)

LIU XIAOBO — Galardoado pela sua luta não violenta em prol dos direitos humanos na China, Liu Xiaobo foi criticado por ter apoiado intervenções militares dos Estados Unidos. “O mundo livre liderado pelos EUA combateu quase todos os regimes que esmagaram os direitos humanos. As grandes guerras em que os EUA se envolveram são todas eticamente defensáveis”, escreveu em 1996, num artigo intitulado “Lições da Guerra Fria”. Viu-lhe ser atribuído o Nobel da Paz de 2010, mas Pequim impediu-o de ir recebe-lo. E para protestar contra esse reconhecimento, instituiu o Prémio Confúcio da Paz, atribuído na mesma altura do Nobel

HENRY KISSINGER — Mais de 40 anos depois do fim da guerra do Vietname, muitos continuam a pedir a prisão do então secretário de Estado norte-americano, pelo seu papel no conflito. Kissinger recebeu o Nobel da Paz em 1973, juntamente com o líder vietnamita Le Duc Tho, o qual declinou o prémio dizendo que os Acordos de Paz de Paris não estavam a ser aplicados na sua plenitude. O Nobel a Kissinger é considerado o mais controverso de sempre

YASSER ARAFAT — Em 1994, o Comité Nobel reconheceu os protagonistas da paz celebrada no Médio Oriente e premiou o líder palestiniano Yasser Arafat e os israelitas Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Os críticos de Arafat recordaram então o passado violento da Organização de Libertação da Palestina, que liderava, nomeadamente o período na década de 70 que ficou conhecido como “Setembro Negro”. Kare Kristiansen, membro do Comité Nobel, demitiu-se do cargo em protesto contra a escolha. A Arafat chamou “o terrorista mais proeminente do mundo”

ANWAR SADAT & MENACHEM BEGIN — O Nobel da Paz de 1978 foi entregue ao Presidente egípcio Anwar Sadat e ao primeiro-ministro israelita Menachem Begin. Através do Acordo de Camp David, ambos celebraram a paz entre os respetivos países, que dura até hoje. Mas no passado, os dois tinham-se destacado na guerra contra o colonizador britânico. Em 2006, um livro do jornalista alemão Henning Sietz defendeu que Begin participou, em 1952, numa tentativa de assassínio contra o chanceler alemão Konrad Adenauer

HULL CORDELL — Hull Cordell recebeu o Nobel da Paz em 1945 pelo seu contributo para a criação da Organização das Nações Unidas. Cordell tinha sido secretário de Estado do Presidente Franklin D. Roosevelt e protagonista da polémica à volta do St. Louis, uma embarcação que transportava cerca de 950 judeus, em fuga aos horrores do regime nazi, e que em 1939 se acercou do Estreito da Florida para atracar nos EUA. Cordell defendeu junto de Roosevelt a recusa da entrada, posição que prevaleceu, e o St. Louis viu-se forçado a regressar à Europa: um quarto dos seus passageiros morreu nas câmaras de gás

Artigo publicado no Expresso Online, a 1 de junho de 2015. Pode ser consultado aqui e aqui

O silêncio da Nobel da Paz

Aung San Suu Kyi tem sido criticada por não falar dos rohingya, mas neste país fazê-lo pode custar uma carreira política

Selo norueguês dedicado a Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz 1991

Treze anos após ter recebido o Prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi é cada vez mais contestada por reagir ao drama dos rohingya… com silêncio. “A questão dos rohingya é difícil não só para Aung San Suu Kyi mas para todos os políticos birmaneses. Nenhum líder político, incluindo os ativistas pró-democracia, tem coragem suficiente para falar do problema”, explicou ao Expresso Akihisa Matsuno, professor na Universidade de Osaca (Japão), perito em assuntos do Sudeste Asiático. “Os birmaneses budistas mas também minorias étnicas que têm lutado pela autonomia ou pela autodeterminação não olham para os rohingya como compatriotas, mas como estrangeiros (bangladeshianos). Nisso estão todos de acordo.”

Desafiar essa retórica tão profundamente enraizada na sociedade trará inevitavelmente consequências. “Se Aung San Suu Kyi falar dos rohingya, ela e a sua Liga Nacional para a Democracia (o principal partido da oposição) perderão apoio interno, o que afetará a popularidade de todo o movimento democrático”, refere Matsuno. “Para os políticos birmaneses, falar dos rohingya significa o fim das suas carreiras políticas.”

Em novembro, a Birmânia realizará eleições parlamentares. Depois, um colégio eleitoral escolherá o próximo chefe de Estado. Suu Kyi, que fará 70 anos a 19 de junho, está impedida de se candidatar a Presidente ou vice-presidente — os seus filhos não têm nacionalidade birmanesa (são britânicos). Para alterar essa cláusula na Constituição é necessário o apoio de mais de 75% dos deputados — 25% dos parlamentares são nomeados pelos militares no poder.

“Não posso provar que o regime esteja a incitar à violência em Rakhine, mas intencionalmente não toma medidas contra a escalada. Deixa que aconteça e explora o sentimento popular de que, quem apoia os ‘estrangeiros’ não tem patriotismo para liderar o país”, explica Matsuno. “O regime pode ter a secreta esperança de que Aung San Suu Kyi mencione os rohingya num deslize. É sabido que o regime tem um histórico de tentativas de descrédito de Suu Kyi com o trunfo nacionalista. É muito provável que, neste caso, espere ter o mesmo efeito.”

Artigo publicado no Expresso, a 30 de maio de 2015

Voando sobre um ninho de serpentes

Sete semanas de bombardeamentos não trouxeram ganhos à coligação liderada pelos sauditas nem enfraqueceram o poder dos huthis

Governar o Iémen é como dançar sobre cabeças de serpentes.” A frase pertence a Ali Abdullah Saleh e foi dita em 2009, durante uma entrevista do então Presidente iemenita ao jornal “Al-Hayat”, de Londres. Saleh levava 31 anos no poder e, atendendo ao facto de dois antecessores terem sido assassinados, ninguém diria que se aguentasse tanto tempo.

Saleh seria deposto dois anos depois, no contexto da Primavera Árabe. Fugiu para a Arábia Saudita e voltou ao Iémen. Hoje, continua a lutar pelo poder (para lá colocar um filho, diz-se) e conta, para essa missão, com o apoio de um aliado improvável — os huthis, contra quem Saleh travou várias guerras durante a sua longa presidência.

Saleh-huthis é apenas um dos exemplos das ‘danças’ arriscadas a que o ex-Presidente se referia. Outras combinações possíveis envolvem outras “serpentes” à solta no território iemenita — tribos problemáticas, grupos jiadistas, os separatistas do sul e todos aqueles que Saleh considerar uma ameaça à sua influência.

Guardas abrem alas aos rebeldes

Desde 26 de março que huthis e forças leais ao ex-Presidente são o alvo prioritário dos bombardeamentos da coligação liderada pela Arábia Saudita. No domingo, a residência de Saleh, em Sana’a, foi destruída pelas bombas. “Continuem a levantar as armas, preparem-se para sacrificar as vossas vidas na defesa contra estes ataques”, disse Saleh aos huthis, num vídeo gravado em frente aos escombros.

“Esta agressão é um ato de cobardia. Se são assim tão valentes, venham e enfrentem-nos no campo de batalha, venham e cá vos esperaremos. Bombardear com foguetes e caças não chega para conseguirem os vossos objetivos.”

Saleh não o disse mas com estas palavras formalizou a aliança com a milícia xiita, que já era percetível desde o início da crise. Um relatório do Conselho de Segurança da ONU de 20 de fevereiro refere que em setembro de 2014, quando, vindos do Norte, avançaram sobre a capital, “os huthis receberam ajuda explícita de Guardas Republicanos, organizada por membros da família de Saleh”, que assim escancararam as portas de Sana’a (que estava guardada por 100 mil guardas e reservistas) aos rebeldes.

Amanhã termina uma trégua de cinco dias aceite pelas partes em confronto e declarada com o intuito de ser prestada assistência humanitárias às populações. No Twitter, David Miliband, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Gordon Brown, anunciava, na quarta-feira, que a organização humanitária que dirige (International Rescue Committe) conseguiu entregar um carregamento de medicamentos a um hospital de Aden, no sul.

“Os bombardeamentos de caças sauditas e os ataques huthis e tribais contra o território da Arábia Saudita pararam. Mas combates difusos continuam por todo o país”, escreve o advogado Haykal Bafana, que vive em Sana’a, na mesma rede social.

Bombardeamentos inconclusivos

Sete semanas de ataques aéreos não alteraram — nem clarificaram — a relação de forças no terreno. A ONU já confirmou a morte de 828 civis, mas o número peca por defeito; a Freedom House Foundation avançou ontem com quase 4000 mortos. A tragédia humana não se fica, porém, por aqui. No início da semana, a Human Rights Watch (HRW) alertou para o aumento do recrutamento, treino e destacamento de crianças por parte dos huthis. Os menores são pagos com comida e folhas de qat, uma planta que, mascada, funciona como um estimulante suave, e que é uma instituição cultural no Iémen.

No comunicado, a HRW conta o caso de Ibrahim, de 16 anos, incentivado a juntar-se aos huthis pela família, que lhe ofereceu uma Kalashnikov (as munições ficam por conta dos rebeldes). No Iémen, o uso de crianças nos combates não é exclusivo dos huthis: tribos e jiadistas também o fazem.

Tudo conflui para um conflito de contornos únicos e solução complexa. “A política iemenita é complicada e exótica, com mudanças de alianças em que antigos inimigos se abraçam e velhos amigos envidam esforços para se matarem uns aos outros”, escreveu o prestigiado jornalista Patrick Cockburn no jornal “The Independent”. “O colapso de um país num estado de guerra permanente originará vagas de boat-people na direção da Europa Ocidental e de outros sítios em busca de refúgio. É absurdo que os líderes europeus finjam que estão a fazer alguma coisa em matéria de ‘terrorismo’ ou do afogamento de refugiados no Mediterrâneo quando ignoram as guerras que são as causas profundas destes fenómenos.” Para Cockburn, o ataque saudita ao Iémen aumentará o terrorismo e o número de barcos a transbordar de gente desesperada.

PAÍS EM GUERRA

828
civis mortos foram confirmados pela ONU no Iémen, 182 dos quais eram crianças. A OMS aponta para um total de quase 1500 e a Freedom House Foundation refere quase 4000

40
a 60 milhões de armas estão distribuídas por todo o território iemenita, estima a ONU. O país tem cerca de 26 milhões de habitantes

90%
dos cereais consumidos no Iémen são importados. Por estes dias, não há navios comerciais a atracar nos portos iemenitas — os sauditas impuseram um bloqueio naval

20%
da área de cultivo irrigada está plantada com qat. O abastecimento hídrico do Iémen depende quase exclusivamente dos lençóis freáticos, mas os peritos receiam que o país fique sem água dentro de uma década

QUATRO ANOS AGITADOS
NO SUL DA PENÍNSULA ARÁBICA

27 de fevereiro de 2011
Na sequência da Primavera Árabe o Presidente Ali Abdullah Saleh é posto em causa após 32 anos no poder. Ferido em junho, abandona o país.

27 de fevereiro de 2012
Mansour Hadi que fora vicepresidente de Saleh e era candidato único, é eleito Presidente do Iémen.

14 de janeiro de 2014
Al-Qaida da Península Arábica tenta explorar atentado do “Charlie Hebdo”, em Paris, dizendo que os irmãos Kouachi agiram por ordem sua.

Setembro 2014
Rebeldes huthis conquistam a capital, Sana’a, e o Presidente Mansour Hadi abandona a cidade. A Al-Qaida na Península Arábica (AQPA), inimiga dos huthis, faz uma declaração demarcando-se das “barbaridades do Daesh na Síria e Iraque” mas exortando ao combate contra os EUA que têm levado a cabo ataques com drones no país.

17 de outubro de 2014
Carro-bomba de suicidas da AQPA explode num posto de controlo numa estrada entre a cidade de Rada’a (Al Bayda) e a província de Zemar, matando dezenas de milicianos huthis e crianças de um autocarro escolar que passava na altura.

11 de fevereiro de 2015
EUA, Reino Unido e França fecham embaixadas no Iémen.

25 de março de 2015
Coligação liderada pela Arábia Saudita inicia campanha aérea em apoio do Presidente em exercício, forçado a fugir da cidade portuária de Aden, prestes a ser tomada pelas milícias dos huthis e seus aliados.

17 de abril de 2015
AQPA aproveita a luta entre rebeldes e forças governamentais para conquistar a base de Mukalla, no sudeste do país, assenhoreando-se de artilharia e carros de combate.

10 de maio de 2015
Caça F16 marroquino ao serviço da coligação internacional cai no Iémen, provavelmente abatido pelos rebeldes.

12 de maio de 2015
Negociada trégua de cinco dias entre os huthis e a coligação saudita que, em geral, é respeitada e permite o envio de alguma ajuda humanitária.

13 e 14 de maio de 2015
Realiza-se em Camp David, EUA, uma reunião do Conselho de Cooperação do Golfo, onde a Arábia Saudita opta por estar ausente, e durante a qual o Presidente Obama tentou sensibilizar os seus interlocutores para as vantagens regionais de um desanuviamento.

(Foto: Vista aérea de Sana’a, a capital do Iémen YEOWATZUP, DE KATLENBURG-LINDAU, ALEMANHA / WIKIMEDIA COMMONS)

Artigo publicado no Expresso, a 16 de maio de 2015

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.