Tensão entre EUA e Irão nas águas junto ao Iémen

A movimentação de navios iranianos no Mar Arábico disparou receios nos Estados Unidos. Washington já enviou para a região o porta-aviões USS Theodore Roosevelt

Arrancou hoje em Viena a ronda final de conversações relativas ao programa nuclear do Irão. O acordo anunciado a 2 de abril, entre o Irão e seis potências internacionais, foi um entendimento de princípio, seguindo-se agora negociações detalhadas visando a elaboração de um documento final até 30 de junho.

As conversações na capital austríaca acontecem numa altura em que a relação entre Estados Unidos e Irão atravessa um momento de tensão a propósito da situação no Iémen.

Washington apoiou a intervenção militar liderada pela Arábia Saudita (operação Tempestade Decisiva) — ontem Riade anunciou o fim dos bombardeamentos aéreos — e Teerão apoia os rebeldes houthis (xiitas), que invadiram a capital, Sanaa, em setembro e tomaram o poder em janeiro.

Na terça-feira, o Presidente dos Estados Unidos afirmou que o seu Governo enviou “mensagens muito diretas” ao Irão aconselhando-o a não fornecer armas “a fações dentro do Iémen” que possam ser usadas para perturbar o tráfego marítimo na região.

“Neste momento, eles têm navios em águas internacionais”, disse Barack Obama, numa entrevista no programa Hardball, da televisão MSNBC. “Há uma razão para mantermos alguns dos nossos navios na região do Golfo Pérsico, que é garantir a liberdade de navegação.”

Armada iraniana no Mar Arábico

Na semana passada, o sítio “The Hill”, especializado na cobertura noticiosa do Congresso norte-americano (que se situa em Capitol Hill), escreveu, citando dois responsáveis da área da Defesa: “O Irão está a enviar uma armada de sete a nove navios — alguns com armas — na direção do Iémen numa potencial tentativa de reabastecer os rebeldes xiitas houthis”.

Um porta-voz do Pentágono, Steve Warren, admitiu que a presença de “uma grande quantidade” de navios de carga iranianos no Mar Arábico contribuiu para o envio do porta-aviões USS Theodore Roosevelt e do cruzador USS Normandy para a região. Mas negou que o objetivo seja a interceção de navios iranianos suspeitos de transportarem armas.

No âmbito da operação Tempestade Decisiva, a Arábia Saudita impôs um bloqueio naval ao Iémen. Por sua vez, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou um embargo de armas aos rebeldes houthis.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 22 de abril de 2015. Pode ser consultado aqui

Bombardeamentos dificultam ajuda humanitária

UNICEF e Cruz Vermelha alertam para uma “situação muito crítica”, doze dias após o início dos bombardeamentos aéreos que visam conter o avanço dos houthis

Mais de 100 mil pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, tiveram de fugir de casa na sequência dos bombardeamentos aéreos ao Iémen, denunciou esta terça-feira a UNICEF. A agência das Nações Unidas informou ainda que já foram mortas 74 crianças e que 44 foram mutiladas.

“São números por baixo. A UNICEF acredita que o número total de crianças mortas é muito maior”, lê-se no comunicado. 

O Comité Internacional da Cruz Vermelha informou que um avião comercial que transportava pessoal da organização de assistência humanitária aterrou em Sanaa, a capital do Iémen. Porém, não conseguiu ainda encontrar um operador que faça voar um avião de carga para transportar provisões para o país. 

“A situação no Iémen continua muito crítica. O conflito intensificou-se, sobretudo em Aden”, afirmou à Al-Jazeera Sitara Jabeen, porta-voz da Cruz Vermelha Internacional. “Ainda estamos à procura de um avião de carga para transportar abastecimentos para Sanaa.” 

Estes alertas surgem quase duas semanas após o início dos bombardeamentos aéreos, liderados pela Arábia Saudita (iniciados a 26 de março), e numa altura em que rebeldes houthis e forças leais ao Presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi estão envolvidas em confrontos violentos no sul do país.  

Só na segunda-feira, esses combates terão provocado a morte de mais de 140 pessoas. 

Os combates mais intensos estão concentrados na zona de Aden, um bastião do Presidente Hadi, que refugiou-se na Arábia Saudita às primeiras horas dos bombardeamentos. Estes visam conter o avanço dos houthis (minoria xiita) — que, em setembro, tomaram a capital e, no mês passado, iniciaram um avanço para sul — e repôr a autoridade do Presidente Hadi.

Artigo publicado no “Expresso Online”, a 7 de abril de 2015. Pode ser consultado aqui

Quatro anos de cruel guerra civil

A Primavera Árabe morreu na Síria quando aos protestos pacíficos pedindo liberdade e democracia a ditadura respondeu com uma repressão sangrenta. Depressa se caíu numa guerra civil cujo arrastamento levou à perda de influência dos oposicionistas moderados, ultrapassados pelos ultraradicais sunitas, uns financiados pelos petrodólares sauditas, outros apoiados pela Al-Qaeda. E ainda haveria de surgir o islamo-gangsterismo do Daesh (acrónimo árabe do Estado Islâmico). Um fotógrafo brasileiro passou meses em Alepo, ao lado dos rebeldes rebeldes. E testemunhou o sofrimento do povo sírio.

Quase impercetível entre os escombros, uma menina corre pelo que resta de uma rua da cidade síria de Alepo

Professores, dentistas, estudantes… De um dia para outro, muitos sírios abandonaram os seus afazeres e pegaram em armas pela primeira vez na vida. Numa primeira fase, revoltados contra o regime de Bashar al-Assad, que reprimia com violência protestos pacíficos que pediam mais liberdade e democracia. Posteriormente, uns contra os outros, quando já era claro que pouco ou nada unia a oposição ao regime. A guerra civil generalizou-se. As fotos acima retratam três rebeldes: um lê o Corão durante uma pausa nos combates; outro dirige-se para a frente de guerra; noutra, um jovem combatentes goza da “tranquilidade” do bairro de Salaheddin, em Alepo, onde já não parece haver vida.

Quatro anos de guerra condenaram milhões de sírios a um futuro incerto. Segundo as Nações Unidas, o conflito provocou quase quatro milhões de refugiados, acolhidos pelos países vizinhos como é o caso da família fotografada em Kilis, na Turquia.

Quase o dobro (7,5 milhões) tornaram-se deslocados internos como as duas crianças retratadas, que encontraram refúgio no campo de Bab al-Salam (Porta da Paz), junto à fronteira com a Turquia; ou como Zaira (em baixo), de 27 anos, que segura uma foto do marido, morto na cidade onde viviam e que ela teve de abandonar. Quanto aos mortos, são difíceis de contabilizar. Segundo a ONU, serão cerca de 200 mil.

A guerra na Síria mostra também como, na região, as mulheres não estão necessariamente condenadas ao papel de vítimas. Nas fileiras curdas, guerrilheiras destacam-se pela sua bravura. Muitos jihadistas olham-nas aterrorizados num misto de pudor religioso e de sentimento de humilhação.

Um rebelde do Exército Livre da Síria, formação moderada. Neste conflito, a guerra faz-se, muitas vezes, na solidão. A cada esquina, a cada canto.

Textos de Margarida Mota. Fotos de Gabriel Chaim, tiradas em 2014

Portefólio publicado no “Courrier Internacional, de abril de 2015

À procura de um acordo… para continuar a negociar

Durante seis dias, Irão, União Europeia e seis grandes potências reuniram-se na Suíça para uma maratona de conversações sobre o nuclear iraniano. As partes obrigaram-se à obtenção de um acordo até à meia-noite de hoje

PIXABAY

Termina à meia-noite desta terça-feira o prazo para a obtenção de um acordo preliminar sobre o programa nuclear do Irão. A ser alcançado passará a funcionar como moldura política para as negociações técnicas que se seguirão. As partes tentarão, então, alcançar um novo acordo — esse sim definitivo — até 1 de julho de 2015.

Das conversações que decorrem, desde quarta-feira passada, no Beau Rivage Palace Hotel, na cidade suíça de Lausana — ao nível dos chefes da diplomacia —, ora foram transpirando declarações de impaciência ora indícios de que um acordo poderia estar iminente. O mais forte desses indícios terá sido a manobra do ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, que abandonou as negociações na segunda-feira, prometendo regressar apenas se houvesse uma possibilidade “realista” de acordo.

Lavrov voltou efetivamente à Suíça durante a tarde de terça-feira. “As perspetivas nesta ronda de conversações não são más. Eu diria que até são boas”, disse Lavrov, antes de sair de Moscovo. “As hipóteses são altas. Provavelmente não são absolutas, mas são bastante realistas, se nenhum dos participantes elevar a fasquia até ao último momento na esperança de ganhar qualquer coisa extra na reta final, em vez de procurar manter o equilíbrio de interesses.”

A meio da tarde, a agência Associated Press noticiava que a maratona de negociações deveria culminar com uma declaração em que as partes se comprometem a prosseguir as conversações numa nova fase.

À mesa das negociações, o Irão — que garante que as suas atividades nucleares visam apenas fins civis, como a produção de eletricidade — exige o levantamento das sanções internacionais, que têm afetado fortemente a sua economia, em troca de limitações temporárias às suas atividades nucleares.

Por seu lado, as potências internacionais que negoceiam com o Irão — os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França) e a Alemanha (P5+1) — querem atrasar em 15 anos a capacidade de Teerão produzir a bomba nuclear. Na comunidade internacional, há muita desconfiança em relação às reais intenções iranianas. Acresce que algumas fases do processo de produção de energia nuclear podem ter duplo uso, civil e militar.

A duração de um eventual acordo e o ritmo do levantamento das sanções parecem ser os principais pontos de atrito entre os dois lados da mesa negocial. “Toda a gente sabe que o Congresso (dos EUA, de maioria republicana, crítica das negociações com o Irão) está à espera para agir se não for alcançado um acordo”, alertou Marie Harf, porta-voz do departamento de Estado norte-americano. Neste contexto, agir significa aprovar novas sanções contra o Irão.

O que está em cima da mesa?

O início do programa nuclear iraniano remonta à década de 50, mas apenas a partir de 2003 se tornou problemático, após a Agência Internacional de Energia Atómica ter revelado que Teerão não declarou atividades sensíveis de enriquecimento e reprocessamento de urânio.

Presentemente, o Irão possui cerca de 18 mil centrifugadoras — cerca de 10 mil das quais estão a funcionar —, equipamento usado para produzir urânio enriquecido, ingrediente necessário à produção de energia nuclear. Em cima da mesa está uma proposta de redução do número de centrifugadoras, para cerca de 6000.

Segundo a Agência Internacional de Energia Atómica, o Irão tem oito toneladas de urânio enriquecido entre os 3,5 e os 5%. Se essa quantidade for enriquecida a um nível de 90%, será suficiente para produzir cinco ou seis bombas atómicas, garante o diário israelita “Haaretz”.

Precisamente em Israel, o desfecho das negociações de Lausana é visto com redobrada atenção. “Se não for garantida a exportação das 7-8 toneladas de urânio pouco enriquecido, os americanos não conseguirão o seu objetivo” de afastar o Irão da obtenção da bomba, alertou Amos Yadlin, antigo chefe do serviço de informações das Forças de Defesa de Israel, que era a escolha para ministro da Defesa da União Sionista (centro-esquerda), nas recentes legislativas.

O destino a dar a esse “stock” é outra das grandes questões em aberto. Há uma proposta no sentido do urânio ser transportado para o estrangeiro, nomeadamente para a Rússia, possibilidade que o negociador chefe iraniano, o vice ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, disse “não estar na agenda” de Teerão.

Artigo publicado no “Expresso Diário”, a 31 de março de 2015. Pode ser consultado aqui

À beira da desagregação


Norte-sul, sunitas-xiitas, Estado-tribos. O Iémen é uma manta de retalhos étnico-religiosos prestes a explodir

O início dos bombardeamentos ao Iémen, na madrugada de quinta-feira, apanhou a ativista iemenita Elham Manea de cama — duplamente febril, por questões de saúde e pela situação do seu país (Elham vive na Suíça). O “Expresso” perguntou-lhe se teme a divisão do país. “Sim, tenho esse receio. Há muitas causas a contribuir, desde logo a perceção de que o sul é controlado pelo norte. Temo que uma separação conduza a outra guerra civil.”

Até 1990, o Iémen correspondia, na verdade, a dois países: o Iémen do Norte, com capital em Sanaa, herdeiro da colonização otomana; e o Iémen do Sul, com capital em Aden, uma antiga colónia britânica a que se sucedeu um regime marxista, que depauperou o território (sobretudo após o fim da URSS).

A questão da unidade do Iémen foi agora relançada após a tomada do palácio presidencial de Sanaa pelos huthis (minoria xiita), em janeiro passado, e a fuga do Presidente, Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, para Aden (sul). “Penso que a desintegração não é inevitável, mas é uma possibilidade não necessariamente ao longo das linhas pré-1990”, diz ao “Expresso” Manuel Castro e Almeida, ex-editor do importante jornal árabe “Asharq Al-Awsat”.

“Várias províncias importantes, como Marib, recusam-se a fazer parte de um norte controlado pelos huthis. Hadramaut não quer ser parte de um sul independente. Isto acrescenta muita complexidade a uma possível fragmentação. O que é inevitável no futuro — e isto num cenário de uma solução negociada — é uma descentralização e federalização.”

Geografia do caos

Paralelamente ao poder central, coexistem no Iémen atores não estatais, nomeadamente tribos, que dificultam a emergência de um sentimento nacional. Por exemplo, as tribos de Marib — região rica em recursos (nomeadamente petróleo) — são um desafio constante ao Estado, e agora também aos huthis. Em Hadramaut, a Confederação Tribal Hadrami, que agupa várias tribos, partilha um sentimento secessionista, mas prefere a independência a unir-se ao sul, como acontecia antes de 1990. Outro exemplo é o Movimento Separatista do Sul.

A complexidade do Iémen não acaba aqui. A Al-Qaida na Península Arábica (que reivindicou o ataque ao “Charlie Hebdo” e é o ramo mais ativo da organização terrorista) está ali sediada e tem alianças estratégicas com várias tribos — umas para combater o poder central, outras os huthis.

Suspeita-se que tenha sido a Al-Qaida a responsável pelos quatro atentados suicidas de 20 de março, em Sanaa, contra duas mesquitas frequentadas pelos huthis (mais de 140 mortos), ainda que o ataque tenha sido reivindicado pelo autodenominado Estado Islâmico.

“A presença da Al-Qaida e do Estado Islâmico (por muito limitada que seja de momento) juntamente com o caos provocado pela guerra civil representam uma mistura explosiva com potenciais repercussões globais”, diz Manuel Castro e Almeida, atual colunista do sítio “Al-Arabiya News”.

“O descontentamento gerado pela deterioração da situação económica e social bem como o ressentimento da população maioritariamente sunita em relação ao avanço dos huthis (xiitas), que são vistos como um braço do Irão, torna-se uma ferramenta de recrutamento poderosa para os dois grupos.”

À conquista do sul

Os bombardeamentos ao Iémen, realizados por dez países muçulmanos, são o culminar de uma situação efervescente que se arrasta desde setembro, quando os huthis invadiram a capital. “Faremos tudo o que for possível para proteger o Governo legítimo do Iémen, impedir que se desmorone e fique sujeito aos perigos das milícias”, afirmou Adel al-Jubeir, embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, após anunciar em Washington o início da ofensiva. “A situação no Iémen é perigosa. Uma milícia com poder aéreo, armamento pesado e mísseis balísticos é algo sem precedentes.”

Conflito por procuração

A avançada huthi para sul, na direção de Aden, para onde o Governo se tinha mudado, seguiu-se aos atentados de dia 20, contra as mesquitas e ao assassínio, dois dias antes, do jornalista e ativista dos direitos humanos Abdulkarim al-Khaiwani, apoiante do movimento huthi.

Pelo caminho, tomaram Taiz, a terceira cidade, e reprimiram quem se lhes opôs: precisamente em Taiz, oito civis foram mortos quando participavam numa manifestação anti-huthi.

Ameaçado pela aproximação dos huthis, o Presidente Hadi fugiu de Aden. Com os bombardeamentos já em curso, surgiam imagens da sua chegada a Riade. A Arábia Saudita — o grande poder sunita da região, guardiã das mesquitas sagradas de Meca e Medina — não tolera protagonismos xiitas junto às suas fronteiras. Em 2011, no contexto da Primavera Árabe, enviou tanques para o Bahrain em defesa da família reinante dos Al-Khalifa (sunitas), contestados nas ruas pela população de maioria xiita.

Segundo a empresa norte-americana de análises IHS, desde a Primavera Árabe — e a queda dos ditadores na Tunísia, Egito, Líbia e Iémen —, a Arábia Saudita tornou-se o maior importador mundial de armamento. Em 2015, Riade prevê gastar 9800 milhões de dólares (8900 milhões de euros), mais 52% do que no ano passado.

Quatro anos após a intervenção saudita no Bahrain, o conflito no Iémen assemelha-se a uma nova guerra por procuração entre os dois rivais do Médio Oriente: Arábia Saudita (país árabe, muçulmano e sunita) e Irão (país persa, muçulmano e xiita). “Este conflito tem assumido, cada vez mais, essa forma, principalmente após a criação do movimento huthi, em meados dos anos 90, por influência ideológica do Irão”, diz Manuel Castro e Almeida.

“Os sauditas e outros países árabes já estão bastante preocupados com os avanços iranianos no Líbano (através do Hizbullah) e no Iraque (a maioria xiita subiu ao poder após o fim de Saddam Hussein), e ainda com o decisivo apoio que Teerão tem dado ao brutal regime de Bashar al-Assad (Síria). Não estão dispostos a aceitar outro cenário em que forças leais ao Irão controlem militarmente um país árabe.” Sem surpresa, Teerão condenou o ataque: “É um passo perigoso”.

P&R

Quem são os huthis?
Originalmente, são os zaydis do norte, grupo religioso xiita, mas doutrinariamente próximo dos sunitas. Desde os anos 70, protestavam contra a discriminação do Governo e contra o avanço do salafismo (doutrina sunita ultraconvervadora e, por vezes, radical) que ameaçava a identidade zaydi. “Eram um movimento local, com reivindicações razoáveis e legítimas”, diz Manuel Castro e Almeida. O ponto de viragem deu-se após o líder, Hussein Badreddin al-Houthi, passar um longo período no Irão. Regressou em meados dos anos 90 e criou um grupo armado — os huthis — com uma agenda ativista e radical, baseada no revivalismo zaydi. (O atual líder é Abdul-Malik al-Huthi, irmão de Hussein, morto em 2004.) Sucederam-se grandes protestos antigoverno marcados pelo slogan “Morte à América, Morte a Israel, Que os judeus sejam amaldiçoados, Vitória para o Islão”, inspirado na revolução iraniana (1979). “Hoje, são um grupo fortemente influenciado pelo Irão”, diz Almeida. “Sem esta ligação, a crise nunca teria esta dimensão.” O Irão dá armas e dinheiro aos huthis. Estes, após entrarem na capital, estabeleceram uma ligação aérea Sanaa-Teerão.

Haverá invasão terrestre?
Paralelamente ao ataque aéreo, Riade impôs um bloqueio no estreito do Mar Vermelho. A coligação controla todo o espaço aéreo do Iémen e vários membros estão dispostos a entrar por terra, para proteger Aden. “Comparativamente aos países do Golfo, o Iémen tem pouquíssimo petróleo. Mas tem uma posição geoestratégica crucial, junto ao estreito Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden e por onde transitam 3800 milhões de barris de petróleo por dia”, explica Almeida. Iniciado o ataque, o petróleo subia 6%.

Onde anda Saleh?
Deposto em 2012, durante a Primavera Árabe, o ditador Ali Abdullah Saleh é um dos protagonistas desta crise. Influente junto de muitos sectores iemenitas, Saleh está ao lado… dos huthis, que reprimiu e contra quem, desde 2004, travou seis guerras no norte. O investigador Brian Whitaker (autor do blogue “Al-Bab”) diz ao “Expresso”: “Parece que Saleh quer colocar o filho na presidência”. O milionário iemenita Hamid al-Ahmar anunciou uma recompensa de 50 milhões de riais iemenitas (212 mil euros) pela sua captura. Convém lembrar que antes de sair do poder, Saleh garantiu imunidade judicial…

O que resta da ‘Primavera’?
O Iémen foi um dos países tocados pela Primavera Árabe e aquele que, juntamente com Tunísia, Egito e Líbia, viu a vontade popular sobrepor-se e determinar a saída do poder de um ditador. Mas quatro anos depois, não há consequências positivas desse movimento. “Não há sequer a satisfação de ver um ditador ilegítimo como Saleh afastado do poder”, conclui o analista Manuel Castro e Almeida.

COLIGAÇÃO

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países participam na operação “Tempestade Decisiva”: Arábia Saudita (líder), Egito, Jordânia, Qatar, Kuwait, Bahrain, Emirados, Marrocos, Sudão e Paquistão

Artigo publicado no Expresso, a 28 de março de 2015

Jornalista de Internacional no "Expresso". A cada artigo que escrevo, passo a olhar para o mundo de forma diferente. Acho que é isso que me apaixona no jornalismo.